[Esta coluna se publica duas vezes por semana] 

 

Publicado em 11 de Agosto de 2008

[Fotografado por Ricardo Lopes]

 

Jornalista profissional, escritor e artista plástico. 55 anos. Introdutor do conceito de jornalismo cultural no Rio Grande do Norte. Prêmio de Literatura Luis da Câmara Cascudo por seu livro “Ficções Fricções Africções” [Editora Mares do Sul-CEJEN, Florianópolis],1998. Escreve no semanário Folha Potiguar. Vive atualmente em Mossoró.

 

 

Quando nasceu?

Na segunda metade do século passado, a 8 de setembro, sob o signo do Dragão.

 

Onde?

No Ceará-Mirim, num casarão centenário ao lado da estação de trens, onde, por algum tempo, viveu o ex-presidente João Café Filho. Hoje a rua tem o seu nome. Mas prefiro o nome antigo e tradicional, dado pelo povo – Rua Grande--, que inspirou um dos meus poemas apócrifos, dedicado a minha avó materna:

 

                                                    

 

                                                 Fumo e apitos

                                                 Escalavam a noite;

                                                 Fragor de trens teciam

                                                 Labirintos de ferro

                                                 Sob a caterva de céus.

 

 

Como se chamam seus pais?

José e Josélia.

 

De onde são?

Ele, de Goiana, Pernambuco. Ela, do Ceará-Mirim.

 

O que você herdou do seu pai?

A inquietação, o mal-estar moral e a propensão para adaptar-me às circunstâncias.

 

E de sua mãe?

Tudo o que me desagrada em mim, como a inclinação para condescender com certas coisas que deviam, desde o primeiro momento, ser evitadas.

 

Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.

Fui uma criança solitária e imaginativa que sonhava em tornar-se um grande escritor. Quando adolescente, sonhava com o Prêmio Nobel de Literatura; logo eu, que não tenho espírito competitivo e só disputei prêmios uma única vez...

 

Quem é você?

Alguém que se empenha em se tornar melhor do que é.

 

Mais fatos.

Sempre as dificuldades me animam e regeneram. Sem dúvida, sem elas, eu seria igual ao mais vulgar dos homens. E, quando menino, no Estevão, uma cigana leu minha mão e vaticinou-me um destino de muitas letras.

 

E sua infância?

Passei minha infância numa fazenda de algodão, acarinhado por minha avó materna, que tinha uma bela voz de contralto e sabia muitas fábulas e canções. Gostava de ler e ouvir as histórias inventadas por Fabilisca, um deficiente físico que foi o primeiro grande artista que conheci.

 

Como brincava?

Divertia-me cantando, desenhando, inventando árvores de natal, participando das dramatizações organizadas por minha avó em nossa casa do Estevão, pelo São João, Natal e Ano Bom; plantando jardins; pescando, durante os invernos, num córrego próximo; observando os hábitos dos animais; prestando atenção à sabedoria dos velhos; subindo nas árvores; caçando ninhos e vagalumes, que guardava numa redoma de cristal, em meu quarto; tomando banho de chuva e no rio Açu, geralmente sob a vigilância do negro Antonio Conceição, que tinha a incumbência de me proteger.

 

Gostava de andar a cavalo e até pensei que podia tornar-me um jockey. Por muitos anos começava a leitura dos grandes jornais pela página de turfe. Também me divertia participando das debulhas de milho e feijão. Às vezes, para distrair os debulhadores, era convidado para ler e cantar, sob os alpendres, à luz das lamparinas e piracas...

 

 

Quando deixou sua terra?

Nunca a deixei.

 

Que coisas tem feito?

Ler, escrever e contar as histórias do povo brasileiro.


 


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