

Poeta e biógrafo de Casimiro de Abreu, passou a infância e a adolescência em vilas e cidades fluminenses e mineiras, como Passa Três, Rio Preto, Valença, Barra do Piraí, Barbacena e Resende. Em 1958, com 20 anos, voltou para o Rio, donde não mais saiu. Foi da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, do Campo dos Afonsos, da Academia Militar das Agulhas Negras. Abandonando a vida militar, entrou para o Banco do Brasil, que só deixou aposentado, em 1986. Acaba de completar 70 anos.
Quando nasceu?
Nasci em 10 de julho de 1938.
Onde?
No Rio de Janeiro.
Como se chamam seus pais?
Mário Ventura de Oliveira e Emília Alves de Oliveira, ambos falecidos.
De onde são?
Ele, mineiro, de Rio Preto; ela, portuguesa, de Mondim de Basto.
O que você herdou do seu pai?
Uma desgastante tendência ao excesso de compreensão em relação às pessoas.
E de sua mãe?
Quando ela morreu, em 30 de junho de 1945, eu tinha menos de sete anos. Ela não chegou a me influenciar. Só tive a minha atenção voltada para ela quando já estava casado e com filhas. Fiz então em sua memória um poema que agrada muito a quem o lê, e que tem por título “Uma de nome Emília” –
uma mulher nasceu em Trás-os-Montes
e veio dar-me à luz cá no Brasil.
dela só soube o nome[e era Emília].
antes que eu mais soubesse, ela partiu.
deixou porém vagando no meu sangue
caravelas herdadas a Cabral
que inflando suas velas invisíveis
me pedem mar...distâncias... Portugal.
trazem-me estranhas, vagas nostalgias
daquilo que eu não vi nem foi sonhado,
de gentes que eu amei sem tê-las visto,
de campos que eu cruzei sem ter cruzado.
leva-me às vezes com tal força o vento
na direção do mar, daquelas terras,
que em pensamento parto na procura
do que ficou de mim além das serras.
caminho então por vilas abstratas
em que há ruas e casas de neblina
e espero ver um vulto que me chame
detrás de alguma porta, de uma esquina.
mas nada vejo dessa sombra antiga
que o deslizar do tempo consumiu,
nada que lembre certa transmontana
que teve certo filho no Brasil.
De “O Sal do Saldo” [Editora Leitura, Rio, 1969]
Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.
Creio que já respondi.
Quem é você?
Um poeta que sempre relutou em se assumir como tal.
Mais fatos.
[Não respondeu]
E sua infância?
Embora órfão de mãe, tive ótima infância, pois fui criado por tios carinhosos.
Como brincava?
Era moleque de rua, jogava bola de gude até tarde, voltava pra casa sujo, e muitas vezes ia dormir assim mesmo, pois éramos pobres e chuveiro não havia.
Quando deixou sua terra?
Creio que já respondi.
Que coisas tem feito?
Há 17 anos estudo a vida e a obra de Casimiro de Abreu, para publicar uma série de livros sobre ele, vale dizer, uma biografia, que está pronta pela metade e se intitula Casimiro de Abreu e seu pai: uma tragédia luso-afro-brasileira, a Obra Completa, a Correspondência Completa, que foi publicada em 2007 pela Academia Brasileira de Letras, e outros livros em andamento. Serão ao todo cinco ou seis volumes, incluindo uma fotobiografia. Além disso, consciente de que não escreverei mais poesia, pretendo reunir os poemas que escrevi na vida, e que beiram uma centena. Terá por título Aqui bem perto.