[Esta coluna se publica duas vezes por semana] 

 

Publicado em 26 de Setembro de 2008

Poeta, contista, tradutor, publicitário e editor. 52 anos. Formado pela Universidade de São Paulo, complementou seus estudos na França e na Alemanha. Trabalhando sempre ligado ao mercado publicitário, foi redator, diretor de criação e diretor de filmes comerciais para as principais agências promocionais de São Paulo e Rio de Janeiro.Tendo vivido na cidade de São Paulo a maior parte de sua vida, vive hoje no Rio de Janeiro, onde trabalha como editor da Ibis Libris Editora, em parceria com a poeta Thereza Christina Rocque da Motta.

  

 

Quando nasceu?

 

Nasci no dia 10 de agosto de 1956 – dia de São Lourenço – segundo a liturgia católica, que não sigo.

 

Onde?

 

Em Barretos, SP, muito conhecida pela Festa do Peão de Boiadeiro, a qual não recomendo a ninguém.

 

Como se chamam seus pais?

 

Álvaro e Vera.

 

De onde são?

 

Álvaro era de Patos de Minas, MG, e Vera, de Jaborandi, SP, ambos de lugar nenhum, como era comum no Brasil de então.

 

O que você herdou do seu pai?

 

O gosto pelo trabalho e a generosidade.

 

E de sua mãe?

 

A capacidade de inventar.

 

Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.

 

Meu pai, fizesse frio ou calor, nunca levantou-se depois das seis. Quando já não tinha mais o que fazer, arranjava. Em tempos bons ou ruins sempre pensava em terceiros e dava o que tinha para dar. Achava mais simples dar, e nunca olhava para trás. Minha mãe, tivesse ou não comida para por na mesa, inventava e a comida aparecia, e nunca menos que maravilhosa. Aos mais novos, que sempre esperam algum doce, com dois ovos, uma colher de açúcar e uma frigideira com óleo quente, inventava a sobremesa dos deuses.

 

Quem é você?

 

Sou o que posso lembrar. E lembro muito as coisas que li e leio, e muito as coisas que vi e vejo, as pessoas que conheci e conheço, as coisas que escrevi e escrevo. Mas, essencialmente, sou o que escrevo.

 

Mais fatos.

 

Entre o boteco e a boate, fico com o boteco, tem mais variedade de gente. Entre um filme e um livro, evito o confronto, e arranjo tempo para os dois. Entre o romance e a poesia, fico com a poesia, que é mais o meu fazer. Entre você e eu, primeiro você, é uma questão de educação.

 

E sua infância?

 

A mais remota não tenho lembrança. Reconheci o mundo pela primeira vez por volta dos 7 anos e já me senti velho. Jamais ganhei presente de Natal e nunca senti falta. Estive sempre atento à conversa dos adultos. Me achava mais sensato que os adultos e muito, mas muito mesmo, mais afetivo.

 

Como brincava?

 

Qualquer paixão me divertia. E tudo era paixão. Tinha um certo pendor para a liderança, mas nunca o exerci entre os amigos.

 

Quando deixou sua terra?

 

Nunca tive muito apego a lugares. É bom saber onde nasci, mas isso não muda nada, em essência. Tive mais relação com as casas que habitei. E foram muitas. A última casa (terra) que deixei era em São Paulo. Agora vivo em outra terra, a mesma terra, outra casa, no Rio de Janeiro. Uma casa que você sinta ser a sua casa é a terra, e essa eu nunca deixei.

 

Que coisas tem feito?

Hoje, trabalhando como editor, sinto mais utilidade em trabalhar. Já que todos os outros trabalhos eram mais pelo dinheiro, e não sinto por eles nem orgulho nem desprezo. Hoje, trabalho muito, mas isso eu sempre fiz, e gosto de trabalhar. Tenho escrito meus poemas e isso nunca esqueço que é o principal trabalho, e também o mais prazeroso. Ultimamente, dei de escrever ensaios. Na verdade, não sei se podem ser chamados assim. É mais como uma simples exposição de idéias. Talvez esteja querendo provar que ter passado pelas universidades teve alguma valia. E continuo lendo, todos os dias, e de tudo um pouco. Beijo minha mulher todos os dias.


 


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