
À direita,Vitoriano. FotoArquivo de Franklin Jorge.

Vitoriano é de Mossoró. Valha, 54 anos. Vicente Vitoriano Marques Carvalho, arquiteto, professor universitário, artista plástico, poeta, contista, músico, um dos criadores de Gato Lúdico uma banda performática cult de Natal nos anos 70-90 do século passado, dramaturgo, ator, diretor etc. Assina coluna semanal especializada no Diário de Natal. Um dos fundadores do Grupo Cobra que reuniu os jovens valores mais talentosos sob a inspiração de Franklin Jorge, os pintores Fernando Gurgel, Flávio Américo, Gilson Nascimento,o próprio Vitoriano, uma plêiade.
Quando nasceu?
01.06.54
Onde?
Mossoró, RN
Como se chamam seus pais?
José Victor de Carvalho e Maria de Lourdes Marques
De onde são?
Ele Mossoró-RN, Ela Castanhal-PA
O que você herdou do seu pai?
A origem indígena.
E de sua mãe?
Uma perspectiva humanitária sobre a sociedade, sobre a vida.
Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.
Minha cara de lua e o corpo sem pelos denunciam minha origem indígena, além da pele avermelhada. A devoção católica de minha mãe e a própria educação religiosa que ela transmitiu tiveram a capacidade de me formar pacato e de me fazer compreender o pecado como o prejudicar o próximo. Acho que é por aí.
Quem é você?
Um homem preocupado em aprender coisas.
Mais fatos.
[Não respondeu]
E sua infância?
Que me venham as imagens
todas assim desbotadas
velhas fotos roídas por traças
rasgões que sinto por dentro
por dentro de cada nervo
por dentro de cada osso
Onde estou o eu que fui moço?
Que me venham as roladeiras de ferro
e os tambores de papel e de lata
ou um corrupio de tampa de garrafa
As bolas de meia encharcadas de lama
O gado de ossos, bonecos de milho
E os globos de espuma que vêem e que vão
soprados do talo da folha do mamão
Que me venham as paredes
Salitradas e decadentes
Os muros, os matos, os monturos
Os montes de coisas, tesouros
Ferro, cordas, gesso e sal
O cheiro da cera de carnaúba
E o pelo tênue das bagas da rosa-cera
Que me venham as chuvas
Com trovões avassaladores
E relâmpagos estroboscópicos
valendo sóis no meio da tarde
os riachos das ruas sem calçamento
Os diques, os charcos e as poças
os sapos, os pregos e as mariposas
Que me venham serpentinas as curvas do rio
o perigo dos banhos sempre proibidos
As batatas cavadas embriagantes
camas verde-violeta do aguapé
cortinas verde-laranja do melão-caetano
mangas, cajus, cajaranas e siriguelas
e falsas caças ao passarinho de papo amarelo
Que me venham os trilhos em brasa
Os dormentes passivos como suas casas
As pedrinhas roladas boas de baladeira
ariscos calangos e as lagartixas
O trem, vagões, os tanques, engates
Poeira, fumaça, madeira que range, ferros tinindo
E os pulos certeiros de clandestino
Que me venham as horas de vozes e música
saídas do rádio na mesinha do canto
Violeiros, cantadores, Chopin e os boleros
As aulas de inglês, Chapeuzinho Vermelho
Novelas e gingles, a música de filmes
Ave-marias, de tarde, dolentes
calmando a febre e a dor de dente
Como brincava?
Veja poema acima
Quando deixou sua terra?
Em 1974, vindo para Natal, cursar Arquitetura e Urbanismo, na UFRN.
Que coisas tem feito?
Participado de exposições coletivas com trabalhos que especulam a história da arte, em particular os procedimentos da pop arte. Em paralelo, há uma produção experimental (amadora mesmo) com fotografia e as aquarelas que são minha paixão. Estas últimas têm sido produzidas junto ao Grupo Universitário de Aquarela e Pastel, que coordeno na UFRN.
Continuo trabalhando como professor na UFRN, estudando e orientando estudos sobre a história da arte antiga ou contemporânea, embora meu interesse incida sobre o modernismo artístico. Lá também participo de uma base de pesquisa em que desenvolvo estudo sobre história da metodologia do ensino de arte.
Atualmente faço uma pesquisa comparativa entre o modelo acadêmico e modos autodidáticos de aprendizagem artística.
À parte, tenho escrito uma coluna sobre artes visuais no Diário de Natal e venho atuando como curador em projetos de exposições para o SESC-RN, tendo realizado uma exposição com obras de Newton Navarro, do acervo daquela instituição. No momento, faço a curadoria de uma amostragem dos desenhistas do Rio Grande do Norte. A exposição será montada em Natal, Mossoró e Caicó.