BOA VISTA, O BAIRRO

Por Franklin Jorge

 

 

MOSSORÓ — Li, numa parede qualquer, ao voltar para casa na Boa Vista, uma sentença preocupante. “Você está entrando num bairro perigoso”. Num lugar sem lei onde a vida humana não é respeitada nem tem valor, deduzi de pronto dessa leitura que me faz refletir sobre a absurdidade da existência e a impotência desesperada de quem se ocupou de escrever esse aviso que excede o sentido da normalidade familiar e doméstica de que desfrutamos, nós, os pacatos moradores da Boa Vista.

 

Desde que aqui estive pela primeira vez o bairro me pareceu tranqüilo e calmo. À  minha volta há uma gente pacífica, muitos velhos amáveis, pequenos comerciantes ganhando a vida honestamente, uma moçada viva, usuária das lan houses, lugar de muitos hábitos antigos apesar da tecnologia high-tech, de jogos e namoros virtuais. As ruas, como numa cidade sertaneja, são largas embora o calçamento deixe muito a desejar. O ar é bom, apesar da poeira finíssima que invisivelmente se infiltra nos mais recônditos interstícios.

 

Há trechos de ruas bastante arborizados, denunciando-se num simples esforço de embelezamento do ambiente público o sentido de civilidade dessa gente que não blasfema, porque acredita em Deus. E participa da vida da comunidade através de um gesto natural e espontâneo, como cuidar duma árvore e colocar vasilhas com água e alimento para os bichos abandonados, pobres e indefesos moradores de rua. Felizmente, vêem-se poucos animais abandonados pelas ruas e raros pedintes. Mas sei que eles existem e sofrem privações e doenças, como qualquer um de nós.

 

Sente-se que essa gente aprecia o bate-papo e o hábito da calçada. Tem amor e se orgulha do seu bairro, que é dos mais limpos, embora flanqueado pela rua Rio Branco, em Doze Anos, onde há um lixão sórdido a poucos metros da Socel. Joga-se ali até peixe podre e animais em decomposição. Aqui, na rua Professor Manuel João, os vizinhos se esforçam para servir. Há muitos bares, mas nunca presenciei uma desavença, nem mesmo em festas populares. Há uma grande, na paróquia, a do glorioso senhor São João, da família de Jesus, a quem nas águas do Jordão, batizou.

 

Como noutros bairros o transporte típico são as motos particulares e de aluguel, que levam todo mundo dum hemisfério a outro por dois ou três reais. Táxis são raros e raríssimos, sobretudo à noite. Eis um serviço que deixa a desejar, o de táxi. Somente os tenho encontrado em pontos no centro da cidade e no shopping. Como diria Gilberto de Souza, esse serviço em Mossoró é dose…

 

Quis fazer uma biblioteca comunitária na Boa Vista, aproveitando o espaço ocioso que há na Casa da Nossa Gente, aqui perto, um bom local praticamente sem serventia para o povo do bairro, que parece já ter se acostumado à inércia dos gestores municipais. Entusiasmado com a idéia, separei de minha biblioteca particular uma centena de volumes que continuam aqui, à espera dos leitores, que creio serem potencialmente numerosos. Pretendia chegar aos trezentos volumes que constituem uma biblioteca-padrão, segundo os especialistas. Quisera deixar aqui, nessa comunidade, uma marca de minha presença neste bairro, onde vivo há mais dum ano, sob a forma duma biblioteca comunitária. Fui tratar desse assunto com a gerente de Desenvolvimento Social do município, Dona Fátima Moreira, mas tomei um tremendo chá de cadeira, lá, no Centro Administrativo. Oh mulherzinha sem noção! Que pensa essa gestora sobre o que é desenvolvimento social? Onde foi que ela tirou o diploma de assistente social? E, sobretudo, quem foi a pessoa que inadvertidamente a indicou para esse cargo de tanta responsabilidade?

 

A propósito, sugiro ao prefeito Gustavo Rosado que transforme uma daquelas lojas da Praça da Convivência em biblioteca comunitária. Ofereço-me voluntariamente ao seu serviço, para estimulo da leitura em Mossoró, sem custo para a prefeitura que, no entanto, só quer saber de quadrilhas e folia. Doarei os livros do acervo inaugural. Esses mesmos, que me olham aqui do lado, enquanto escrevo estas linhas.

5 comentários para “BOA VISTA, O BAIRRO”

  1. José Maria disse:

    Anote o que eu estou dizendo: ela vai tirar votos de Niná.

  2. Dasdores Souza Silva disse:

    Botaram essa dona Fátima Moreira nesse cargo para criar desavenças e afastar o povo de Fafá, que caiu como um patinho nessa esparrela.

  3. romero alcantararon disse:

    Essa falta de credibilidade dos “FESTORES” da administração, já virou piada…e como tem gente diplomada lá! só dôtor!!! Acorda Mossoró!!!

  4. Ivo Silva disse:

    Mossoró merecia coisa melhor!

  5. ZENETO disse:

    Sandra e Carlos Augusto Rosado já fizeram a cama de Fafá. E não adianta ela ir se esconder no bunker que construiu nos fundos de sua casa de Tibau para não ouvir o clamor do povo insatisfeito com a arrogância de Gustavo.

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