SALVEM O RIO MOSSORÓ

 

Por Franklin Jorge

 

MOSSORÓ — Escrevendo sobre questões ligadas à cultura e à educação no Brasil contemporâneo, a escritora Ana Maria Machado refere-se ao “interminável presente” que domina as ações nesse âmbito e desafia-nos a substituir o estereótipo pelo protótipo. Realmente, as ações são sempre pontuais e nunca atacam o cerne dos problemas. Noutras palavras, os problemas são maquiados e empurrados pela barriga, ficando a solução para um depois que nunca chega. É o que vimos em todas as instâncias dos governos, seja federal, estadual ou municipal: o procedimento é o mesmo.

 

Não há, portanto, uma visão de futuro. Tudo é feito de maneira instantânea, muitas vezes para conquistar votos e impressionar aquela parcela de cidadãos desinformados que se contentam com o que vêem transmitido pela publicidade.

 

Falta planejamento a médio e longo prazo, e o que os governos fazem, fazem-no apenas para satisfazer interesses circunstanciais, como se os problemas futuros não se originassem em omissões cometidas no presente.

 

Tomemos como exemplo o Rio Mossoró, desvalidamente apodrecendo a céu aberto, desde que se transformou, no curso dos anos, em mero depósito de todo o refugo da cidade, sem que nenhum prefeito tenha jamais tomado as providências necessárias para controlar os efeitos de sua progressiva enfermidade. Em Natal, o Rio Potengi, à beira da morte, é vitima do mesmo descaso.

 

Por “estereótipo” Ana Maria Machado entende as ações superficiais e o maqueamento da realidade por gestores que, em prejuízo da sociedade, jamais serão capazes de passar do estado de veleidade ao de criação de uma obra capaz de corresponder às exigências da cidadania, o que inclui o bem-estar das gerações vindouras, que nos julgarão como hoje julgamos aqueles que nos antecederam e não foram capazes de criar solução para os problemas que agora nos afligem de maneira contundente e indesculpável.

 

Ora, algum puxa-saco há de lembrar-nos, antes mesmo de terminar de ler estas linhas, que a ex-prefeita Rosalba Ciarlini ou Fafá Rosado, não sei ao certo, urbanizou as margens do Rio Mossoró, plantando uma bonita grama, pintando, iluminando e construindo um amontoado de cubículos disfuncionais e um arremedo de praça da alimentação em homenagem a um ex-senador que, além de não ter nenhum vinculo afetivo ou de trabalho com a cidade, exerceu seu mandato sempre em causa própria. Uma obra inútil e desnecessária, enquanto o rio se tornava cada vez mais poluído e próximo da morte. Eis aí uma espécie de obra que Ana Maria Machado chamaria de “estereótipo”…

 

Seria de se esperar uma reação dos mossoroenses à superficialidade dessa obra realizada em detrimento da despoluição do rio a que serve de moldura. Uma moldura bonita, admito, feita com o propósito de esconder a agonia de um rio que está para Mossoró como o Potengi está para Natal. Mais que um cartão postal, por muitas gerações, desde o povoamento, um manancial de vida integrado à origem dessas que são as duas cidades mais importantes do Rio Grande do Norte. Somente a reação dos mossoroenses cônscios de sua responsabilidade para com o presente e o futuro da cidade, poderia criar, no âmbito da administração pública, o “protótipo” – ou a matriz — necessário a uma política urbana conseqüente e séria. Uma política capaz de corrigir erros e realizar as ações de que todos dependemos para o usufruto de uma vida plena de dignidade.

16 comentários para “SALVEM O RIO MOSSORÓ”

  1. Joham Muricica disse:

    O rio Mossoró está podre como a política dos coronéis que dominam a cidade e sangram os cofres púbicos.

  2. Vanusia Alves de Fontes disse:

    Este pobre rio é o cagadouro da familia Rosado. Uma vergonha para Mossoró.

  3. João Ricardo - Inocoop disse:

    Vc é a primeira pessoa que escreve defende o direito do Rio Mossoró à vida. A cidade tem não-sei-quantos jornais e nenhum dele teve essa lembrança, numa prova do comprometimento da imprensa local com os politicos locais. Eu concordo com Vanúsia: nosso rio e mesmo o cagadouro dessa familia que só pensa em se dar bem.

  4. JOSAFÁ - ILHA DE SANTA LUZIA disse:

    A PURA VERDADE.

  5. JOSAFÁ - ILHA DE SANTA LUZIA disse:

    PENSO QUE É O QUE ESTÁ NA CABEÇA DE MUITA GENTE QUE NO ENTANTO NÃO TEM CORAGEM DE DIZER COM TODAS AS LETRAS, COMO DISSE O JORNALISTA FRANKLIN JORGE NESTE ARTIGO. A PURA VERDADE. NOSSO RIO ESTÁ MORRENDO E AS AUTORIDADES NÃO ESTÃO NEM AÍ PARA ESTE FATO.

  6. Rufino Pinto disse:

    Mossoró tava precisando de um jornalista para chamar a atenção das pessoas de bem para as nossas mazelas. A cidade está de parabéns por este artigo.

  7. Glauber Pontes disse:

    Parabéns pelo Troféu grande Ponto. O bom dos seus artigos é que podem ser relidos com o frescor e o impacto da novidade.

  8. Thomas disse:

    Recomendo a todos a leitura do artigo “A Orgia do Poder” (procurem nos arquivos de postagens mais antigas ou recorrem ao mecanismo de Busca), pois vale bem o esforço. Nunca tinha lido em nossa imprensa nada igual a esse artigo de Franklin Jorge. Nota dez com louvor.

  9. LEITORA FIEL disse:

    Estou escrevendo neste espaço porque nao consegui entrar na seção de Comentários abaixo do artigo sobre a “festa da corrupção”, conhecida como Carnatal. É uma abominação que devia ser castigada biblicamente com uma chuva de enxofre. é o cenário ideal para os politicos corruptos se mostrarem durante quatro dias, em camarotes vips, patrocinados com o dinheiro dos nossos impostos, enquanto a saúde não funciona, a educação não funciona e os programas sociais não passam de conceitos vazios, meros artificios para justificar o gasto milionário e inconsequente com a publicidade do governo. Franklin Jorge: eu já o admirava e agora, com a publicação deste artigo, você subiu ainda mais na minha consideração. Continue servindo aos leitores do seu site artigos como este que acabo de ler espumando de indignação contra aqueles que lesam os cofres públicos com patrocinios equivocados.

  10. João Carneiro disse:

    O CARNATAL É UM BORDEL A CÉU ABERTO, ONDE AS DROGAS T~EM O SEU REINADO.

  11. João Carneiro disse:

    O CARNATAL É UM BORDEL A CÉU ABERTO,ONDE AS DROGAS TÊM O SEU REINADO!

  12. LUIS MELO disse:

    O CARNATAL É UMA GRANDE SACANAGEM DOS NOSSOS GOVERNANTES CONTRA OS CIDADãOS E A CIDADE DO NATAL. ESTE ARTIGO VAI CIRCULAR MUITO POR AÍ. DA MINHA PARTE, VOU REPASSÁ-LO COM MEUS CONTATOS.

  13. Jucélia Marques (Lagoa Nova) disse:

    Tentei muito abrir os comentários do artigo sobre o Carnatal, mas infelizmente não consegui de jeito nenhum. Queria dar o meu apoio àqueles que se posicionam contra essa festa particular financiada com o dinheiro público, nas barbas do Ministério Público, que faz “ouvidos de mercador” ao clamor da sociedade. Concordo com Luis Melo, quando diz que o “carnatal é uma grande sacanagem dos nossos governantes contra os cidadãos e a cidade do Natal”. Concordo também com João Carneiro: “o carnatal é um bordel a céu aberto”. Como mãe de familia, dou nota zero aos políticos que apóiam essa bandalheira sem limites.

  14. Marcos - Lagoa Nova disse:

    Não conseguindo escrever estas linhas abaixo do texto sobre o carnatal, faço-o aqui com a mesma indignação de um natalense bestificado com a omissão do Ministério Público diante de tão acintoso fato: a existência e manutenção de uma festa privada bancada com dinheiro público. O carnatal é uma vergonha e já devia ter sido banido da crônica natalense. Só dá lucro aos seus promotores - muito lucro -, a ponto de bancar e eleger dois deputados e mais recentemente o vice-prefeito de Natal. tudo o que se disser de negativo contra o carnatal ainda será pouco.

  15. João Cláudio Pessoa - Olinda disse:

    Mesmo não conhecendo a cidade de Mossoró, a não ser por seu folclore megalomaníaco, já transformado em objeto de um site divertidíssimo - escrito pelo Doda Vilhena -, sou impelido a assinar embaixo, pois a verdade contida neste artigo se aplica a muitas outras cidades e a goverrnos que menosprezam os cidadãos e o mérito.Cada vez mais fico fã de Franklin Jorge e só lastimo que ele nao seja um cidadão - jornalista é pouco - pernambucano.

  16. Amália Souto Maior - Recife disse:

    Franklin, por que vc está postando sem continuidade? As
    “Séries”, que são ótimas, estão desatualizadas faz muito tempo. É de se lamentar, é muito, porque atualmente era o que tinhamos para ler com a certeza de uma boa satisfação. Seus escritos oferecem ao leitor um mundo de novidades e através deles, das “Séries”, no caso, a gente vai descobrindo tanta coisa interessante sobre essas pessoas com quem vc tem conversado em suas andanças pelo Brasil. Estou conhecendo a Amazonia e o Centro Oeste pelo que escreve e publica nos seu site e blog, que mesmo sem novas postagens oferece um mundo de leitura, pois os Arquivos representam uma verdadeira biblioteca.É uma publicação que prima pela qualidade e não tem aquelas fofocas e disse-me-disse dos outros. Jornalismo cultural é o que vc faz nesse estilo de escrever que é só seu e de mais ninguém. Volte a atualizar seu site/blog, pois estamos ansiosos por novos textos de sua competente lavra.

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