LEMBRANDO JOSEPH BOULIER SIDOU
Por Franklin Jorge
Mossoró — Joseph Boulier foi-me apresentado, uma tarde, por seu grande amigo e vizinho Vicente Vitoriano, que eu acabara de conhecer ao visitá-lo em sua casa da Rua Juvenal Lamartine, em Doze Anos. Salvo engano, corria o ano de 1969, quando eu mal completara dezessete anos.
Ele estava pintando, em seu atelier instalado nos fundos de sua casa, onde, noutra ocasião, me hospedei e pude privar da companhia do seu pai — que sabia inteiramente de memória “Iracema”, o célebre romance de José de Alencar. Numa manhã inesquecível, a meu pedido, ele disse a última página que conclui com uma verdade bíblica – Tudo passa sobre a terra.
De Boulier, o mínimo que se pode dizer dele é que era excessivo em tudo. Dotado de extraordinário talento para as artes plásticas, especialmente para o desenho de modas, em certa época foi morar em Natal onde trabalhou por algum tempo numa loja especializada em tecidos finos, a Casas Cardoso, à avenida Rio Branco, com o seu departamento exclusivo de criação de figurinos.
Boulier criou milhares de modelos para as elegantes natalenses. E, por algum tempo, já morando numa das casas da Vila Palatnik, participou ao lado de Getúlio Soares dos ensaios de uma pela que escrevi e que nunca estreou, “O Covil do Cão Que Uiva”, escrita – creio – sob o influxo de minhas leituras de Ibsen, Beckett, Ionesco e Antonin Artaud. O ano, 1969 ou 1970… Não sei que fim levou esse manuscrito que encerrou e pôs fim ao meu namoro com o teatro. Se não me engano a personagem interpretada por Boulier chamava-se Guigui…
Ao chegar de Mossoró, de cabelo enorme e eriçado, fazendo o gênero hippie de boutique, conquistou inteiramente a minha avó, que se tornou sua amiga e deu-lhe casa e comida, desinteressadamente, ela que era em tudo o seu oposto e contraste. Menos, claro, na sensibilidade artística e no fato de não usar blush.
Não sei o que eles tanto conversavam, especialmente na hora do almoço, que Boulier fazia em separado, pois costumava chegar sempre depois. Nessas ocasiões, era a minha avó quem o servia a mesa, reservando-lhe sempre algum petisco em especial – uma omelete de ervilhas que ela mesma preparava, um doce, um cafezinho recém-coado.
Ao deixar-nos, pintou um retrato de Jimi Hendrix, com o qual a presenteou e que ficou em seu poder por muito tempo, até que acabou desaparecendo numa das nossas costumeiras mudanças, pois minha avó tinha verdadeira ojeriza à idéia de permanecer por muito tempo em um mesmo endereço e, em caso extremo, numa mesma cidade. Ao todo, somando-se às iniciativas de minha avó, cheguei a mudar-me, até o presente momento, oitenta vezes em 56 anos! Sem dúvida, um recorde digno do Guiness.
Sempre pensei que Boulier construiria uma obra e que seria reconhecido como um artista talentoso e cheio de verve. Porém, dispersivo como era, não se fixou nem persistiu em coisa alguma. Hoje, o que resta dele? Um ou outro quadro de qualidade duvidosa, pois o seu verdadeiro talento ele o empregou vivendo as mais surpreendentes aventuras que hoje constituem a sua lenda. A lenda que o integra à mitologia de Mossoró. Como entrar em um táxi, em Teresina, e dar ao motorista o seu endereço da rua Juvenal Lamartine, em Doze Anos, por exemplo.
Possuía Joseph Boulier, do artista performático, o sentido do espetáculo. Foi, em vida, um espetáculo.
18 de junho de 2009 às 15:11
Boulier foi uma grande figura. Com este artigo você o trouxe de volta ao nosso convivio. Muito obrigado por sua delicadeza.
18 de junho de 2009 às 22:25
Nossa, como isso me tocou.
Como nosso primeiro (e talvez último) encontro
na casa de Eduardo Shelmann (?)
Voce também ficou em minha memória
como um espetáculo.
Abração
22 de junho de 2009 às 15:49
Quem conheceu Boulier pode tirar uma grande satisfação dessa leitura. Era o depoimento que faltava para honrar sua memória. Foi um grande amigo de seus amigos. Não admira que sua avó, Franklin, tenha se deixado encantar por Boulier.