NA SERRA DA FORMIGA

Por Franklin Jorge 

Caicó — Se sítio fosse bom pardal não morava na cidade. O axioma, corrente no Salgadinho, resume todo desencanto do povo da  Serra da Formiga, onde a falta d’água está endoidando até as raposas que vagueiam sobre o planalto esturricado à procura de uma gota d’água. Algumas, enlouquecidas pela sede, só esbarram na soleira das portas. Numa terra assim, desassistida de tudo, até as cascavéis sofrem, suspira o nosso generoso anfitrião.

Os mais velhos se lembram que março sempre foi um mês de muita água. Porém desde 1987 a seca devasta a Formiga, uma serra de onde se descortina  uma magnífica paisagem sertaneja. Em tempos melhores havia umas cem famílias vivendo nos diversos sítios da redondeza. Hoje, segundo Vicente da Serra, nascido e criado no  Salgadinho, restam apenas umas quatro ou cinco dessas famílias resistindo aos desmantelos do tempo. A maioria debandou para a rua, em busca da difícil sobrevivência.

Vicente conta que até 1970 os invernos na serra eram regulares. Havia morador aqui que produzia tanta coisa que a gente tinha dificuldade de colher, relembra numa voz pausada de quem fala medindo e pesando as palavras. Ele considera que estragou sua vida cavoucando a terra.

Agora, desiludido inclusive com a falta de mão de obra, inexistente por causa da evasão de centenas de trabalhadores que foram procurar a subsistência nas cidades, Vicente está vendendo quinhentos hectares para recomeçar a vida na rua, pois ninguém mais de bom senso quer trabalhar na roça.

Para homens como Vicente resta a certeza de que o governo esqueceu que não há progresso sem agricultura. O dinheiro do povo está sendo gasto no pagamento de mordomias ou de dívidas contraídas por administradores que só pensam em se arrumar.

Vicente acha que a pior praga é a dos políticos que sugam o povo, à margem da lei, aumentando a cada legislatura o rombo das contas públicas. Desencantado com a realidade, ele conclui que a honestidade desertou da política. E que, nessa marcha, vai ser difícil algum dia consertar os costumes.

O acesso à serra é íngreme e difícil. Somente em 1968 é que o ex-prefeito Francisco de Assis Medeiros construiu uma estrada, que vem sendo remendada mais recentemente por iniciativa de um sobrinho de Vicente, Joacir, nosso guia que sonha viver definitivamente no chão dos seus antepassados, no alto da serra. Seu avô, o velho Cândido Pereira, faleceu em 1960 aos 82 anos, em suas terras do sítio Salgadinho.

Além de uma mata nativa cheia de aroeiras, angicos, marmeleiros, catingueiras, joões-mole, paus-pedra, mororós, pau d’arcos do roxo e do amarelo, guaxumbo, havia por aqui uma fauna rica da qual restam agora as raposas e as cascavéis. No tempo do seu avô ainda havia onças, caçadas sem sossego pelo célebre Miguelão, especialista sempre requisitado para esse serviço.

Hoje ainda é possível encontrar algumas poucas onças vermelhas pelas redondezas e que, como os homens, fazem um esforço tremendo para escapar das dificuldades. Elas vivem entocadas nos grotões, famintas, matando pequenos animais para comer.

Vicente conta que as fruteiras todas morreram com a seca. Noutros tempos havia muita fartura  na serra. A gente tinha aqui bananeiras, pinheiras, condessas, mangueiras e umbuzeiros.

Em quase trinta anos de seca ou de inverno irregular,  o povo do sítio Formiga  tem sofrido um bocado. Agora parece um outro mundo carecido de esperança, desde que o bicudo acabou com a sua principal cultura, a do algodão, que fez a riqueza do Seridó.

Quando no começo da noite chegamos ao Salgadinho, após vencermos de jeep o caminho aberto na beira do precipício, Vicente prensava o queijo que toda semana Joacir entrega a uma freguesia certa de Caicó. Doutor Albérico  e Laurence ainda estão encantados com a visão descortinada durante a subida, na companhia de Joacir e de Cristina, sua mulher, professora em Caicó.

Do alto da serra, antes de chegarmos ao Salgadinho, sítio  que fica no fundo de uma espécie de prato cujas beiradas são formadas por cumes recobertos por uma vegetação ressequida, contemplamos durante a subida.

Logo mais chegaria Agostinho Pereira de Araújo, também chamado de Brinco, que tem a fama de matador de cascáveis. Velho com jeito de menino, Brinco é uma enciclopédia viva de histórias e fatos ocorridos na Formiga, onde nasceu e vive. A conversa se estende noite adentro, numa sucessão de revelações que revivem o antigo costume do dedo de prosa à sombra dos alpendres.

Fragmento de “Viagens na Minha Terra” [Inédito]

 

 

13 comentários para “NA SERRA DA FORMIGA”

  1. João Felicio Araújo disse:

    Dizer que v. escreve bem é já uma rotina entre os leitores desta página. Mesmo assim volto a repetir tantas vozes: v. escreve bem pra caralho! Uma beleza ler v.! Caicó agradece.

  2. Sebastião Marcelino disse:

    Sou do Seridó mas nunca fui a Serra da Formiga. Lendo o que Franklin escreveu aqui senti uma vontade enorme de vencer meu comodismo e subir a serra para conhecer essa realidade que embora tão próxima, desconheço. Há muitos anos fui a Diogo Lopes, em Macau, por causa de um artigo de Franklin Jorge. Como é rico nosso RN! Somente Franklin para nos fazer enxergar tantas belezas. É pena que ele não escreva mais frequentemente artigos como este aqui publicado. Estou mando-o para várias pessoas do meu relacionamento ou que tenham alguma ligação com esta região do estado. Recentemente um amigo meu me disse que encontrou Franklin em Sítio Novo e conversou com ele. Esperemos o que ele vaie screver sobre SN…

  3. Eli Nogueira disse:

    Franklin, por que v. não escreve um artigo sobre esse “Brinco”? Nunca ouvi falar em pessoa especializada em matar cascáveis. O tema foge ao comum ew v. que aprecia a singularidade seria a pessoa certa para enfocá-lo. V´[a em frente, ômi!!!

  4. Maria Eleusa de Medeiros disse:

    Penso que não há internet na Serra da Formiga, mas esta crônica deixa o povo do lugar cheio de satisfação. Não me lembro de ter lido antes alguma coisa sobre a Serra da Formiga que apesar de seco é um lugar belissimo de onde se pode avistar muitos municipio da região. Obrigada, Franklin, por lembrar-se da existencia da Formiga!!!

  5. João Francisco Cunha - Tenente Ananias disse:

    Um sobrinho meu ligou para dizer que eu não podia deixar de acessar seu blog para ler este belo artigo sobre nossa querida Serra da Formiga. É sempre uma grande satisfação ler sobre nossa terra, mormente quando estamos longe dela, como é meu caso. Gostei muito do que escreveu e já estou repassando para meus contatos, pedindo que se manifestem e passem adiante. Vamos divulgar nossa Formiga e mostrar as belezas da Terra Potiguar!

  6. Maria Medeiros disse:

    Franklin, não sei se vc. sabe mas a atriz e jornalista Kinha Costa (há muito morando entre a África do Sul e a Holanda) nasceu na Serra da Formiga. Vc. bem que podia entrevistá-la.

  7. Fortunado Rezende de Lucena, Anápolis disse:

    De madrugada li esse artigo e voltei a reler agora depois de uma boa noite de sono. Muito bom, como tudo o que o Franklin escreve sobre gente, lugares e coisas. Tenho uma inveja danada do seu talento (no bom sentido): o homem escreve cada vez melhor e encanta os leitores que tem em todos os quadrantes. Uma vez eu estava de férias na Amazônia e ao comprar um jornal de Belém li por acaso um artigo sobre a contribuição de Franklin ao jornalismo do Norte. Há uns quatro meses em Goiânia li artigos seus reproduzidos em jornais locais emoldurados de elogios à sua obra jornalistica e literária e à sua teimosia em exaltar o talento dos outros. É muito raro um intelectual (dizia um dos comentários) reconhecer o talento dos seus pares. Franklin seria uma dessas exceções… Sua projeção não me admira. O gênio é popular.

  8. Eleutéria de Jesus disse:

    É a primeira vez que leio alguma coisa sobre a serra da Formiga. Queria ler mais, mais, mais. Adorei o que acabei de ler e peço bis!!!

  9. Nilda Medeiros da Costa disse:

    Senti-me feliz lendo o que escreveu sobre a serra da Formiga. É um lugar lindo e desprezado pelos governantes. Foi bom v. ter chamado a atenção dos leitores para a Formiga. Nós lhe agradecemos de coração.

  10. Margarida Cavalcanti disse:

    Há muitos anos acompanho e leio o que escreve sobre nossas cidades e distritos. Nos anos 70 e 80, você escreveu muito sobre o Açu, Portalegre, São Miguel, Martins,Encanto, Carnaubais, Macau, Areia Branca, Mossoró, Apodi, Luis Gomes, Touros, Ceará-Mirim, Baixa Verde, Lajes, Nisia Floresta, Santo Antonio, Carnaubais, Baraúnas, Currais Novos… Sou professora e acho importante as informações que veicula quase sempre enriquecidas com as suas observações pessoais que ngeralmente fogem do convencional e apontam para realidades difusas. Agora você escreve sobre a Serra da Formiga e nos revela um mundo! Queria escrever mais, porém fico intimidada diante de um grande escritor. Você recebeu um dom de Deus e soube multiplicá-lo, escrevendo o que escreve para o deleite dos leitores. É uma maneira sde honrar a Deus. Seja fiel ao seu dom.

  11. Wandilândja Rola disse:

    Lendo Franklin Jorge me deu vontade de conhecer a Serra da Formiga.

  12. Maria Segunda disse:

    Delicia de texto!!!

  13. Sampaio disse:

    BELEZA BELA!

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