RELATO DE UMA VIAGEM AO CEARÁ (1-2)

Por Franklin Jorge 

Em viagem recente através de três estados, na companhia de amigos constatei, surpreendido, quanto o nosso Rio Grande do Norte está atrasado em relação ao Ceará. A começar pela geografia, embora próximas, tão distintas.

Ao longo do sertão do Seridó, detentor de uma cultura própria que se expressa na luta permanente do homem contra a inospitalidade da natureza, o deserto que avança, sem que o governo lhe interponha obstáculos através de ações reparadoras  capazes de corrigir o descaso e fomentar o desenvolvimento.

Caicó, sobretudo, parece existir como o resultado da vontade do seu próprio povo. Um povo que desafia os obstáculos, vencendo as adversidades do clima e a indiferença do atual governo, que vive de fazer política 24 horas por dia, sem nenhuma consideração pelo sofrimento de milhares de norte-rio-grandenses que sabem, por sentir na própria pele, que vivem ambos – o povo e o governo — em realidades diversas e antagônicas.

Quem conhece o Rio Grande do Norte apenas através da publicidade do governo, pode se considerar ignorante da nossa realidade mais comezinha. O governo é virtual, mas a realidade, ao contrário, concreta, incivil e mal-educada a ponto de  extrapolar qualquer propaganda, por mais bonita e sedutora que ela seja. Em qualquer contexto, a realidade desmantela o conto-de-fadas forjado por marqueteiros de aluguel.

Em minha caminhada pelos vales do Cariri cearense e do Jaguaribe observei, em cidades como Icó, Orós, Iguatu, Jucás, Crato e Juazeiro, a inexistência de mendigos nas ruas. Iguatu, de oitenta mil habitantes, é uma cidade próspera, de ruas amplas, com fábricas e oferta de empregos. Não se parece, nem de longe, com nenhuma outra cidade do Rio Grande do Norte, como o Açu, por exemplo, também situada num vale riquíssimo onde a pobreza e a falta de infra-estrutura saltam aos olhos, mesmo daqueles que não têm interesse de enxergar realidade tão onerosa.

Vale salientar que, apesar de tudo, o governador Tasso Jereissatti não está com essa bola toda não. Nas últimas eleições ele perdeu nos principais colégios eleitorais do Ceará. Comenta-se, por exemplo, que sua reeleição foi um erro – corrigido, por eleitores diligentes, com a vitória de seus principais adversários, que nas eleições para prefeito retomaram o comando dos municípios de maior densidade eleitoral e representatividade política.

[2002] 

Um comentário para “RELATO DE UMA VIAGEM AO CEARÁ (1-2)”

  1. Ivete Saboya Markhan Maia - Aldeota disse:

    Esse artigo é velho - vejo pela data -, mas continua bom. O autor acertou em muitas coisas. Parabéns!

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