NOVO HOMEM

Transcrito do Blog Pretextos

Por Eduardo Lara Resende


Lá pelo início do século passado publicou-se em Belo Horizonte, com resumo e conclusões da educadora Helena Antipoff, os resultados de uma pesquisa para a qual foram ouvidas 1.398 crianças de 11 a 13 anos de idade, cursando o então 4º ano primário nos grupos escolares da cidade. O objetivo era o de conhecer “ideais e interesses” dos pesquisados, começando pelos livros de história de preferência dos jovens.Solicitada a informar com quem gostaria de se parecer, a maioria indicou os pais como modelo. Houve quem citasse padrinhos, amigos, Deus, Jesus Cristo e até Nossa Senhora. Ninguém citou a Princesa Isabel, Santos Dumont, Pedro Álvares Cabral, o Imperador D. Pedro I ou o Marechal Deodoro da Fonseca como paradigmas. Um menino sonhava em ser como o presidente da República à época, Getúlio Vargas, e três gostariam de ser como Tarzan, o poderoso. Uma quantidade significativa citou a si mesmo como referência.

O que gostariam de ganhar de presente no dia do aniversário? Livros em primeiro lugar, seguidos por bicicleta, automóvel, cavalo, roupa, calçados e bola. Trinta crianças disseram ficar satisfeitas com “a benção dos pais, a graça de Deus, abraços e parabéns”. A maioria demonstrou possuir “tendências altruísticas” no uso da riqueza, caso tivesse muito dinheiro. Os demais simplesmente o depositariam em um banco.

Passados quase oitenta anos, os modelos bateram em retirada de casa para os clubes de futebol e a tela da TV. Dinheiro e fama brilham e rebrilham, fascinam, desconcertam. Que dizer então das passarelas da moda, que conseguem fazer adolescentes anoréxicas e mães afetadíssimas? A custo tenta-se recriar o hábito da leitura para instigar a imaginação criadora e responsável, hoje em longo descanso enquanto ganha fôlego insuperável a bisbilhotice sobre a vida dos famosos e não famosos.

Para o escritor russo Joseph Brodsky, um dos benefícios que a literatura dá ao homem é o de educar a sutileza humana. “A literatura introduz a dúvida na maioria dos indivíduos de qualquer grau de firmeza e decisão. E, uma vez dentro da dúvida, esta lhes ensina a agir com generosidade. Nada mais simples.” Outro renomado autor - o físico Carl Sagan - pouco antes de morrer atribuiu à televisão a responsabilidade de nivelar “tudo por baixo, em vez de se alçar à função, que poderia ter, de ensinar as pessoas e inspirar-lhes o desejo de progredir”. E isto em nome da busca por lucros cada vez maiores.

Já há nostálgicos que, pela internet, querem saber de antigos apresentadores de telejornais, atrizes desaparecidas do video, gente que participou dos primeiros reality shows. É bem verdade que também existem os que pedem notícias dos caras-pintadas, dos Goonies, das boas maneiras, dos Mendonça e das festas. E também os que perguntam pela Marinoca, pelos tucanos, Marruá, Jalapão, Palomas e Morganas.

Outra pesquisa - esta atual, do Datafolha - indicou que o jovem brasileiro quer emprego. Sonha com a realização profissional, a compra de imóvel, veículo, e em ficar rico. Nenhuma menção aos pais como modelo - figuras que, aliás, vão perdendo terreno em relação aos valores que a vida moderna consagra.

 

 

Há alguns anos um jornal paulista publicou apelo de um casal de idosos - ele com 76 anos e ela com 73. Os dois enviaram à redação uma carta na qual pediam a presença de um médico que os matasse sem dor, fazendo uso de uma injeção. E tudo porque, em quatro anos, a segunda pessoa a entrar no apartamento em que moravam era o repórter. A outra era a faxineira. Mesmo tendo dois filhos - um deles médico em São Paulo, onde moravam os pais - nenhum os procurava. Naquela época, o primeiro não se manifestava há cinco anos, e o segundo estava desaparecido há catorze.Nenhum remorso, nenhuma voz interna a provocar na alma a dor que incomoda e tira o sono. Nada. Os exemplos que incentivam o aparecimento do “novo Homem” estão aí, e marcam com o brilho de um sucesso que parece inesgotável, passos bem ensaiados e coreograficamente perfeitos. Haja pedestais para tantos ídolos, para modelos como o cantor Michael Jackson, cuja morte prematura trouxe a público uma fortuna de milhões de dólares. Mais que isto: revelou filhos de paternidade duvidosa e o nada constrangido e oficial anúncio de que o pai do astro ficou de fora do testamento do filho.

Impossível não sentir dor na alma por tantos que, hoje, não sentem nada.

 

 

Um comentário para “NOVO HOMEM”

  1. Jandira Melo disse:

    O autor captou bem a realidade que vivemos atualmente. Os pais não são mais exemplos, até porque os mais jovens não tiveram exemplos em casa…Hoje é um salve-se-quem-puder!

Deixe um comentário