A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS

NA BODEGA DE ZÉ DA GARAPEIRA

Por Franklin Jorge

Martins — Nascido há 52 anos, Zé da Garapeira é testemunha ocular das transformações pelas quais tem passado a cidade. Algumas, inacreditaveis, como a que se refere oao fato de em certa época ter possuido seis agencias bancárias, entre as quais, da Caixa Econômica, Bradesco, Banco Econômico, Unibanco e Banco do Brasil, a única que sobreviveu à Era Collor, quando a economia local sofreu um baque profundo.

O presidente Collor derrubou a cidade, suspira. Depois dele, nunca mais Martins foi a mesma, pondera amavelmente atrás do balcão da bodega de que é propriedade no Mercado Público de Martins, uma curiosda construção composta de locais em torno de um pátio interno onde acontece a feira semanal. Das outras vezes em que aqui estive, para o Festival de Gastronomia, me chamou a atenção no mercado de um retrato da governadora Wilma de Faria, colocado ali talvez por um puxa-saco. Era o único mercado, no Rio Grande do Norte, a exibir o retrato oficial.

Homem prático e um tanto pessimista (um dos outros nomes do realismo), Garapeira não põe muita fé no futuro da cidade que a seu ver já deu o que tinha o que dar em termos de progresso e desenvolvimento. Reconhece, porém, que esse festival que devia começar hoje pela manhã com a realização de oficinas de gastronomia para crianças, deu um novo impulso à economia local, apesar de seu caráter sazonal. Mesmo assim, deixa muito pouco para a cidade.

Observa o famoso bodegeuiro que o entusiasmo inicial arrefece. Os primeiros anos teriam sido melhores, inclusive pela expctativa criada pela própria governadora que chegou a afirmar em praça pública que faria de Martins a Gramado do Rio Grande do Norte. Porém, como outras declarações da governadora, esta tambem parece ter sido um risco nágua… Na verdade, nada aconteceu e Martins continua encarapitada na chã da nossa serra mais famosa e aprazível.

Houve de fato um deságio no entusiasmo geral. Hoje, pondera Zé da Garapeira, já há muita casa de aluguel fechada, o que contrasta com a especulação das primeiras edições deste festival que tinha tudo para se tornar um grande sucesso com repercussão regional e, talvez, nacional. Este ano, com a mudança de prefeito (o anterior era correligionário da governadora), o festival mais famoso do estado enfrenta dificuldades a começar pela montagem dos estandes e o adiamento de atividades programadas para esta manhã, como a realização de oficjnas de gastronomia para crianças. Perdida a manhã desta quinta-feira, vamos ver o que acontrece logo mais, no coemço da noite…

A onda passou, reitera Garapeira, e hoje sobram casas para alugar. Contudo, apesar dessa mentalidade atrasada que vigora no governo e que não respeita o povo de Martins, a festa há de deixar algum lucro para os empresários de fora e ainda um pouquinho para o povo daqui, acrescenta, enquanto espanta um bêbado de bodega afora. Arre bêbado chato, diz, voltando para trás do balcão.

3 comentários para “A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS”

  1. Rosilda Lisboa disse:

    Que coisa boa, Franklin Jorge, esse espaço que você tá abrindo para divulgar o povo de Martins. Ninguem tinha pensado nisso antes. Tem muita gente interessante aqui que você pode entrevistar e que enriquecerá seu blog com depoimentos originais. Parabéns pelos acessos.

  2. Jeferson disse:

    Sua entrevista a Rádio FM Vida foii um espetáculo. Aprendi muito, ouvindo-o. Seria bom se v. pudesse participar mais da programação, falando sobre jornalismo e cultura, dois assuntos de interesse que não são abordados na programação. Sucesso com o seu site que é o melhor que já acessei!

  3. José Lindomar Cabral da Costa disse:

    Ninguém escreve como você e você escreve apenas como você mesmo, porque ao contrário das sombras que vejetam eternamente em estado de hipnose, você sempre me transmitiu a impressão de haver aprendido a pensar segundo si próprio desde a época em que encontrava-se no útero materno…
    Até parece que estou a vê-lo, ainda em precoce estado de feto, escrevendo nas paredes uterinas coisas capazes de fazer o arco da velha vir abaixo e mutíssimo mais proveitosas e bem escritas do que aqueles versos medíocres que o santo do pau oco, o tal José de Anchieta escrevia pra Cibele, na areia, sim, pra Cibele, a deusa rota vaginalmente, que eles, os mentores do católico satanismo sicrético, entrementes, ainda hoje continuam chamando sincreticamente de “Virgem Maria”, quando todo cristão legítimo e obviamente anti-católico, como eu, por exemplo, sabe que a verdadeira mulher do carpinteiro José foi desvirginada por Jesus cristo na hora do parto, parto normal, depois do qual, ela - a Maria legítima - engravidou inúmeras vezes, por meio, é óbvio, de penetração natural, dando a José inúmeros filhos e filhas que, inclusive, eram incrédulos acerca da divindade do irmão primogênito, incredulidade esta que só foi dissipada após a ressurreição, quando O viram várias vezes, já ressuscitado, durante os quarenta dias em que o Mesmo permaneceu na terra encorajando e fortalecendo os que haveriam dar continuidade à Sua Obra…
    Meu Deus, Frnaklin, como a linguagem é traiçoeira! e torna-se portadora de vontade própria, principalmente depois que a gente consegue remove-la da periferia do corpo para o centro do nosso ser, que é uma espécie de cais íntimo ou de capitania do nosso porto interior, que é aonde se situa o Templo do Assopro que herdamos de Adão, vulgo espírito, Fôlego de Vida ou Nirvana… Digo isso porque depois que li esse texto ensolarado e elegante de sua autoria, esse competente, colorido e humanizador retrato verbal da paisagem humana de Martins, (aliás, você é uma espécie de árbitro maior da elegância da escrita do Erreene e, consequentemente, universal), e, tendo-o lido e resolvido comentá-lo, pretendera dizer somente o quanto este se tornara precioso ao escorrerem desses seus dedos mágicos de Midas das letras, porém, o barco chamado linguagem, do que eu nem sempre sou o timoneiro, impelido pelo vento metafórico de seu texto, afastou-se rapidamente do cais e me fez empreender esta viagem, por águas verbais ainda não inteiramente desprovidas de hímen…
    Acho que já disse-lhe isto uma vez e vou tronar a repetir agora: Tudo que você escreve adquire imediatamente vida e o poder de vivificar, de inspirar, de modo que é-me impossível ler seja o que for sendo você o autor para não viajar verbalmente pra longe… E como vê, ou seja, como este comentário mesmo testifica, desta vez não foi diferente das demais, entenda-se, o li e eis aqui o resultado: não deu para ficar plantado, para não navegar, para não me sentir inspirado a sair navegando por aí, pelas águas etéreas, águas aéreas desses ocenaos Desatlânticos e Impacíficos, oceanos estes que os incautos nem os sabem como tais, mas nós, que somos náufracos, que vivemos neles submersos, sabemos e os chamamos de Tempo e Espaço… Parabéns, obrigado poo leitura tão fecunda, aprazível e alimentícia, e Grande Abraço. Sucesso…

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