A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS

SEU NOME É SEVERINO (1-2)

Por Franklin Jorge

Martins — Severino Vicente, nascidoem 1924 na Serrinha dos Pintos, então um distrito de Martins, é bodegueiro e tem um “local” onde vende “mangaios” (ervas medicinais, chapéus de toda qualidade, chocalhos, gamelas, mesas e cadeiras rústicas, cangalhas, malas de madeira, tudo feito artesanalmente).

Como está, pergunto-lhe e ele, elvantando-se da cadeira forrada com pele de raposa, responde incontinenti, Me trocendo todo, numa idade em que a gente não tem mais esperança de nada…E, depois de um sorriso, Ah nessa idade não tenho mais história não…Minha viagem para o outro lado penso que está próxima… Gabo-lhe a boa aparencia e disposição ele retroca que a pior doença é a velhice, pois não admite tratamento. Nessa idade temos apenas a conformação…

É um velho timido e afável, viúvo e membro da Assembléia de Deus, que frequenta duas vezes por semana, por causa da distancia. Batalhei muito desde muito moço e agora spo tenho a velhice como arrimo, o que não me parece grande consolo, mas estou conformado. Nessa idade, como disse, estou só pastorando…Olhando…Ouvindo e matutando sobre o que ouço e vejo.

Minha mulher Antonia Hermínia, com quem me casei aos 21 anos, era mais velha do que eu seis anos, mas isto nunca foi dificulidade para nós. Vivemos 57 anos juntos. Houve dessa união nove filhos, todos bem encaminhados na vida e vivendo às próprias custas. Graças a Deus, minha mulher nunca pariu em maternidade, mas em casa, tirando resguardo de quarenta dias, comendo pirão de galinha caipira. Meu filho, Raimundo, mais novo formou-se em Direito em Natal, onde vive e ganha a vida… Não posso me queixar pois recebi as bençãos de Deus.

Fui criado pelas casas alheias. Morei uns tres anos na casa de Zuca Teixeira, avô de Haroldo, ex-prefeito de Martins. Depois morei 22 anos com o Dr. Giovanni e fui gerente de uma prorpiedade dele na Varginha… Trabalhei muito alugado aos outros, como todo mundo naquele tempo, ganhando o dia a destões, depois a dois mirréis com direito a almoço, servido às nove horas da manhã; almoço às catorze horas e ceia às sete da noite, geralmente coalhada com pão de milho de zarolho moido em casa, e rapadura para adoçar.

Durante toda minha vida tive a coragem de enfrentar as dificulidades, comendo pau e pedra sem tugir nem mugir. nesse tempo de minha mocidade, comia-se feijão de corda, toicinho, farinha dágua e rapadura. Arroz era requinte. tudo cozido em panelas de barro sobre fogão de lenha que cobria as telhas de picumã…

Na Varginha, no tempo em que trabalhav para o Dr. Giovanni , eu acordava às quatro horas da madrugada para desleitar as vacas. Tomava depois meu café e ia para os roçados, capinar, cavoucando e alimpando a terra para o plantio, roçando o mato, vaquejando o gado… Rapaz, eu peguei uns tempos de dificulidade, mas como disse recebi muitas bençãos de Deus que é santo velho.

Eu gavo a agricultura. Não sou como muitos que falam mal dela. Eu, não… Eu achava bom ser agricultor porque da terra eu tirava o meu sustento e o sustento dos meus…Enchia assim a minha casa de milho, feijão, mandioca, batata, algodão…Cheguei a colher 400 arrobas de algodão…

Deixe um comentário