A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS

SEU NOME É SEVERINO [2-2]

 

Por Franklin Jorge

 

Martins – Aos 85 anos, Severino Vicente do Nascimento vê um senhor elegante e discreto, articuladissimo e benquisto na comunidade. Comerciante de “mangaios” (ou seja, de ervas medicinais, temperos e artefatos artesanais de consumo cada vez mais restrito a uma clientela oriunda da zona rural), passa suas manhãs, em sua bodega, recebendo os amigos e vendendo uma ou outra peça.

 

Passeio em sua companhia pelas ruas de Martins n uma manhã ensolarada e fresca. Vamos à procura do Dr. Lacir, ex-prefeito e seu amigo de mais de sessenta anos que, infelizmente, não se encontra em casa. Dono de uma boa prosa, aconselha-me a ouvi-lo. Ouça Dr. Lacir, que sabe muito e fala de tudo sem temer represálias e inconvenientes.

 

Mas fale alto, o mais alto que puder, pois as oiças dele estão avariadas. Bote uma cadeira perto dele, puxe conversa, mas fale alto. Porque ele escuta pouco e fala muito. Quando ele se bota pra falar, saia de baixo! O homem é um portento…

 

Conversador emérito, Severino discorre fluentemente, embora num tom comedido, sobre sua experiência de vida e as transformações pelas quais tem passado Martins, terra que ele conhece como a palma de sua mão. Ninguém mais sabedor da crônica secreta da terrinha, porém não é de jogar conversa fora.

 

Homem, ontem, quando conversamos, não me lembrei de contar a história de um lobisomem que apavorou a comunidade. Foi há muito tempo, eu só tinha o meu primeiro filho e ainda morava na Serrinha dos Pintos, na época um distrito de Martins, onde nasci… A história do lobisomem é bem curtinha, quatro palavras somente…

 

Sei que gosta de histórias e de prestigiar os velhos, por isso achei que ia gostar de saber  dessa ocorrência que deu o que falar. O lobisomem era um  tal de José, filho de Vicente Rosa, que em noites de lua cheia virava bicho. Era um solteirão… Uma noite estava eu deitado quando ouvi aquele alarido que ia aumentando, aumentando… Ainda deitado me lembrei do lobisomem e disse pra mi há mulher, é o lobisomem acuado pela cachorrada…Me levantei e abri a janela justamente no momento em que o bicho se aproximava, perseguido pelos cachorros.

 

Era um bicho paidégua de grande, enorme, a frente parecendo de cachorro e a traseira de jumento novo com aquele rabo preto balançando… Esta arfando, cansando, pois havia de ter corrido léguas, perseguido pelos cachorros. Gritei pra minha mulher trazer a roçadeira que estava debaixo da cama, mas ela demorou e quando me joguei para ataca-lo ele se desviou e fazendo da fraqueza força e aumentou o choto, sempre perseguido pelos cachorros…

 

Dali a algum tempo esbarrou no terreiro um amigo nosso, o André de Galú, que se apeou e me pediu pousada, pois estava cansado para prosseguir depois de ter enfrentado o lobisomem. Ele deu uma cutilada no bicho, que levou grunhiu de dor e embrenhou-se mato adentro…André então me disse que havia furado o bicho e que a gente aguardasse que a verdade ia aparecer e todos ficariam sabendo que o Zé de Vicente Rosa era o lobisomem que amedrontava as pessoas…

No outro dia procuramos saber do pai de Zé noticias dele e o Vicente Rosa disse que ele havia viajado e repente… Algumas semanas depois ele reapareceu, dizendo que havia sofrido um acidente, e em seguida desapareceu de novo. As últimas noticias que tivemos dele era a de que se havia casado com uma viúva e estava morando no Ceará…

 

Ah, estou vendo que gostou dessa história… Também haveria de gostar da história do bilhete que dois analfabéticos daqui escreveram sem saber ler nem escrever… Vou contar, se não estiver aborrecendo o amigo…Pois foi assim… Um amigo nosso, Chico de  Olina, ia pra rua num dia de feira e a mulher lhe encomendou a compra de um tecido que ela queria para fazer um vestido.

 

Ela explicou o que queria e disse ainda ele escolhesse um bico bem bonito para enfeitar o vestido. Ele disse que não ia se lembrar, que era melhor escrever um bilhete. Ela disse que nenhum deles sabia escrever e lembrou que eles conheciam as letras do alfabeto e que ele ia ditar o bilhete… O bilhete ficou famoso e era assim:

 

Quero dois metros de bico te-o-tó para enfeitar um vestido de-o-dó pra Adelaide de Chico c-o-só…Homem, o lojista não entendeu nada e a história caiu na boca do povo de Martins…

8 comentários para “A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS”

  1. Fernanda disse:

    Uma gostosura esse texto. Parabens.

  2. Raimundo Segundo disse:

    Daqui de Natal, estou emocionado e feliz, primeiro, por ser filho do entrevistado e, por este motivo me orgulho muito, por ser ele um homem simples, analfabeto porem profundamente conhecedor dos problemas sociais, da cultura popular e até mesmo dos problemas ambientais e economicos, o que prova que ser Doutor não é condição sine qua non para adquirir conhecimentos. ELE criou e educou os seus filhos, inclusive fazendo com que um deles tivesse acesso aos mais alto nivel de conhecimento, levando-o a concluir um dos mais concorridos cursos superior. Este homem é meu pai SEVERINO. Parabens pela entrevista. Raimundo Segundo.

  3. Lenilda Benevides disse:

    Eis aqui, pela entrevista e pelos agradecimentos do Sr. Raimundo Segundo, uma familia autentica, uma familia feliz e digna de imitação. Não é uma “familia sarney” não, mas uma familia construida sobre valores morais e éticos. Parabéns a todos.

  4. Carmo Feitosa disse:

    Ô Severino danado de bom! Franklin se superou, narrando suas peripécias. Parabéns aos dois, pela vivencia humana e pelo talento literário de um e de outro! Mais ainda para este blog que se tornou de leitura obrigatório por todos que gostam do que é bom.

  5. Luciano - Luiz Gomes disse:

    V. sempre descobrindo pessoas interessantes, comoesse sr. Severino Vicente, e nos brindando com textos literários impecáveis…Ah, ouvi sua entrevista na Rádio Vida, de Martins, e fiquei orgulhoso da sua inteligencia e cultura.

  6. Anselmo Guttierrez disse:

    Que figura! Como você descobre gente tão cheia de vida e história para entrevistar dando-nos o prazer de conhece_las através desta página sem concorrentes na blogosfera?

  7. João Afranio de Paiva disse:

    Estou relendo este artigo e o anterior que v. escreveu sobre essa grande figura de Martins. Como v. sabe ouvir as pessoas humildes!Que exemplo de vida! Os artigos sobre Martins muito me agradaram e repassei para meus amigos, recomendando esta publicação que nada fica a dever às melhores do genero. Vá em frente, Franklin Jorge, e conquista mais outros 100 mil leitores.

  8. Marcônio Olinda disse:

    Os acessos continuam subindo sem parar. Parabéns, meu caro!

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