A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [4-5]
RETRATO FALADO DE ANTONIO SILVESTRE [1ª. Parte]
Por Franklin Jorge
Pau dos Ferros – Conversamos, primeiro, numa sala despida de móveis – apenas alguns tamboretes forrados de couro, uma tábua de passar, uma mesinha com um rádio e a rede onde estivera deitado o nosso entrevistado – e, depois, na calçada de uma casa da Rua Severino Rego, onde tomamos a fresca da tarde. No interior da casa mulheres passavam e engomavam trouxas e mais trouxas de roupa lavada que rescendia a sabão e coradouro.
Antonio Silvestre acabara de comemorar numa grande festa seus primeiros 100 anos de vida. Ex-vaqueiro e agricultor, de pequena estatura, magro e ágil, não parece ter a idade que consta de sua certidão de nascimento. Quando conheci Pau dos Ferros, o centro da idade tinha apenas seis casas. O mato tomava conta das ruas de barro. Não tinha jeito de cidade não.
Ele se lembra da lagoa chamada de Pau dos Ferros, por causa de uma grande árvore que havia ali e que os vaqueiros e tangerinos, ao parar para dar de beber e lavar os animais depois da cavalgada exaustiva, inscreviam em seu tronco os ferros usados pelos proprietários para marcar o gado. Era o sinal de que passaram por aquele lugar.
Nesse tempo o comercio era muito acanhado. A cidade mesma era uma vila empoeirada. Havia umas poucas lojas e bodegas, sendo que as de Reinaldo e de José Holanda eram as mais sortidas e freqüentadas. O velho, sentado num tamborete, interrompe o relato e fica puxando pela memória à procura dos nomes desses antigos comerciantes de Pau dos Ferros e de outras pessoas gradas dessa época já remota.
O senhor queira me desculpar esse branco. Por muito tempo costumava ter uma boa lembrança de tudo, mas agora, nos últimos tempos, dei para esquecer e perder a memória, como acontece a outros velhos da minha idade. Mas não reclamo da velhice. Faz parte da vida.
O chefe político local era o coronel Joaquim Correia, que não tinha patente mas recursos e conceito. Aqui ele mandou na política por trinta anos. Se quer saber, naquele tempo os chefes políticos se satisfaziam com o prestigio e o poder de mando, nãos e preocupavam em botar a mão no alheio. Já era grande honra para eles liderar o povo. Agora, com todas essas modernidades, tudo é diferente. Cada qual que queira botar a mão no que não lhe pertence.
Quando passei a visitar Pau dos Ferros, mais amiúde, eu morava na Varginha, distante daqui duas léguas. Toda semana vinha fazer a feira e comprar os mantimentos para o sustento da família numerosa que crescia a cada ano. Há cinqüenta anos na rua e já possui aqui seis casas de aluguel. Criei 21 filhos com o suor do meu rosto e a grande ajuda de minhas mulheres, graças a Deus. Não é o que o senhor pode pensar não… Casei-me quatro vezes, nas eras de 1909, 1915, 1919 e 1933. Entre netos bisnetos tenho 110. É uma população. Tenho gente minha em toda parte do Brasil. Em natal. Em Brasilia. Em São Paulo. No Amazonas… E cada um ganha a vida sem cometer sabedorias e sem pegar no alheio.
Em meus primeiros anos eu fazia essa viagem da Varginha para Pau dos Ferros, primeiro montado na garupa do cavalo do meu pai, agricultor e vaqueiro de oficio, de nome João Batista do Nascimento, nascido no Figueiredo, nas extremas do Ceará com o Rio Grande do Norte. Meu pai morreu aos 59 anos, em 1904. Ele casou duas vezes e teve oito filhos. Mas eu fui mais longe e tive todos esses que acabei de dizer. Meu filho mais velho tem setenta anos…
Eu era muito novinho quando meu pai morreu e fiquei trabalhando alugado aos outros. Era pobrezinho de fazer dó. Não possuía uma muda de roupa para trocar. Costumava ficar nu enquanto minha roupa era lavada e passada, a ceroula, a calça de mescla e a camisa de algodão. Com essas peças de roupa eu labutava no campo e ia à rua, mas não reclamava nem amaldiçoava a vida.
Minha mãe chamava-se Maria Francisca de Jesus, paraibana de quatro costados, natural do Brejo de Areia. Era muito boa. Tão boa que podia servir de exemplo a uma santa…
[Continua amanhã]