A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [5-5]

RETRATO FALADO DE ANTONIO SILVESTRE [2a. e Última Parte]

Por Franklin Jorge

Pau dos Ferros - A mas o senhor anota tudo. é ligeirinho que só vendo… ah se os nossos politicos tivessem essa mesma diligencia para trabalhar e resolver problemas que o senhor tem para escrever a história, o Brasil era outro. Um paraiso.

Meu amigo, não carece de anotar tudo não, para não enfadar e aborrecer os leitores. Hoje ninguém mais quer ter trabalho com coisa alguma. Vai tudo na maciota, na maior moleza. No meu tempo era outra coisa… Agora, se eu disser alguma coisa errada, corrrija. Estou perdendo a memória. Não posso mais ignorar que já começo a caducar e as idéias, por conta disso, vão ficando cada vez mais embaralhadas na minha cabeça. Velho é como pau verde, só produz fumaçã que o vento leva. Nessa idade já não queimo mais nada…

Do fundo da rede, no interior do quarto, protesta prontamente sua quarta mulher. Você nunca caducou nem há de caducar. Deixe disso. É muita velha já e explica que só não se levantou para conhecer-me e ver minha cara porque a festa do centenário de Silvestre a deixara exausta. tive que apertar tantas mãos e falar com tanta gente que só vendo… Foi um trabalhão danado, receber e dar atenção a tanta gente. Sem falar na missa celebrada por Mons. Caminha, acrescenta o marido e ela, retomando o assunto principal, a falta de memoria do marido, arremata com veemencia. Deixe disso, homem. Você nunca caducou nem havera de caducar, agora, depois dessa baita festa que teve até missa solene. O senhor não repare não, mas esse velho é muito caviloso e gosta de brincar com a inteligencia alheia…

Silvestre ri discretamente. Animado, veste camisa social engomadissima. Monsenhor Caminha, que o senhor acaba de visitar, chegou aqui em Pau dos Ferros nas eras de 1940. Eu já trabalhava aqui. Tenho ainda muita lembrança de sua chegada. Ele chegou a noite. É muito nosso amigo e celebour a missa do meu primeiro centenário, reitera as palavras da mulher, rindo maliciosamente. Seus primeiros anos aqui - o senhor há de ter sabido por algum desses faladores - foram de grande reboliço e desinquietação.

Muito novo e cheio de esperança, padre Caminha quis impor o novo numa terra parada. Acabou trombando com essa gente enferrujada do outro tempo, mas com persistencia acabou cosneguindo o que queria, mudar Pau dos Ferros. Ele mudou o azimute do lugar e deu a volta por cima. Hoje é paparicado por todos.

Não vou dizer que ele era namorador porque nunca vi namoro dele, mas a fama de mulherengo ficou e o que o povo diz é o que conta para a história. Não adiantar ir contra a lingua do povo. Diziam que ele desassossegou muitos pais de familia e muitos maridos perderam o sono e as estribeiras de tanto ouvirem história sobre os banhos noturnos do padre na beira do açude velho, sempre cercado de devotas. Para mim, que não faço nem acolho mexericos, eram devotas e não mulheres profanas que alegravam o seu banho e vestiam a sua nudez. O senhor sabe que o povo tem a lingua comprida e cor de brasa. Quem cai na lingua do povo tem muito o que explicar. Agora, sei por experiencia propria, que ele tinha um revolver e por uns tempos, por causa das ameaças ue sofreu desses pais e desses maridos, andava armado…

Nosso encontro ocorre dois ou tres dias após o último de seus filhos que vieram para a festa regressara a Brasilia. O velho, ainda muito empolgado com tudo, conta que foi um festão, coisa para cinema e gente graúda. Confessa que não esperava tnata gente. Seu primeiro centenário, como gosta de dizer com ar galhofeiro, foi um acontecimento. O senhor precisava ver quantos presentes ganhou esse velho, informa a mulher invisivel, de dentro da camarinha. Televisão, tres pares de chinelos, duzias de sabonetes, água de cheiro, roupas, ventilador e, debicando, acrescenta que até o fim do ano pretende completar também cem anos, para ganhar tantos presentes. Desse jeito estou certa que é vantajoso completar 100 anos…

Silvestre, após ouvi-la com um ar de bemaventurança, comenta, dirigindo-se a mim. Essa mulher é velhinha, mas é minha. o senhor não faz idéia nem pode imaginar o interesse que essa mulher despeortava quando a gente vinha da Varginha para a rua. Quando moça era vistosa que só vendo. Até parecia uma sereia. Não podia vir a Pau dos Ferros com ela sem provocar o maior reboliço. bonita como o pecado, essa mulher dava sezão em amcaco. Hoje está velhinha e não pára de querer mandar em mim, mas não troco ela por uma carrada de melancia…

FIM

2 comentários para “A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [5-5]”

  1. Arthur Mesqiita disse:

    Essas “Séries” do jornalista Franklin J. são tudo de bom!!! Através delas a gente fica conhecendo o “ouro” da nossa terra e nos orgulhamos de um jornalismo “cultural” de verdade, um jornalismo que não é publicidade da indústria cultural que emburrece o público brasileiro com os paulo coelho da vida e as daças do tipo “na boquinha da garra”… Franklin garimpa nossos valores e dá divulgação aos mesmos, contribuindo para melhorar o nosso nivel cultural que anda em baixa com gestores do tipo Cesinha Revoredo e Crispiniano Neto.

  2. Juno Bezerra disse:

    Fico imaginando um grande espetaculo teatral que colocassem em cena essas personagens saidas da imaginacao do escritor Franklin Jorge, contracenando em praca publica para o prazer de seus inumeros admiradores. quando surgir esse diretor visionario e talentoso, teremos ao alcance de todos o verdadeiro Auto do Escriba que Deu Voz ao Povo.

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