A PAISAGEM HUMANA DE MOSSORÓ

 

UMA TARDE COM DONA ZÉLIA FERNANDES

 

 

Por Franklin Jorge

 

Mossoró - Dona Zélia me pede que corte do texto final toda e qualquer besteira que, por acaso, tenha deixado escapar durante a nossa conversa. Falo demais, reitera, sentada numa cadeira de rodas, de onde vê tudo o que se passa na rua, diante de sua porta. Nascida em Marcelino Vieira, no mais recôndito sertão potiguar, chegou a Mossoró para morar na casa de um parente que gozava de boa situação financeira e se mostrava disposto a ajudar a família a melhorar de vida. Mais de setenta anos se passaram desde então.

 

Tinha então catorze anos quando desembarcou em Mossoró. Não sabia então coar um café. Aqui, trabalhou como balconista de loja e manicure, possuiu um café e uma loja de confecções, casou-se com um primo com o dobro de sua idade, teve três filhos e enviuvou, sempre pensando que Deus ajuda a quem se ajuda. E, a qualquer pretexto, ao exercitar a arte do bate-papo, adoça a boca com o nome do neto Afonso Adolfo, que tive o prazer de conhecer, ao tempo em que ele, ainda muito jovem e creio que recém-formado, fez parte do staff do governador Garibaldi Filho e se destacava por sua modéstia e diligência em ajudar ao próximo, para isso quebrando arestas e vencendo obstáculos.

 

A leitura é o que a diverte. Sempre, desde moça, leu compulsivamente, pois descobriu cedo que o livro é uma companhia e a melhor provisão para a velhice. Leu de tudo, confessa, até Cassandra Rios e Adelaide Carraro, autoras malditas, várias vezes processadas por pornografia, há muito esquecidas, pois o que escreveram não escandaliza mais sequer a uma debutante. Hoje lê sobretudo os autores norte-rio-grandenses e tudo o que diz respeito à história da cidade e das famílias de Mossoró. E acrescenta, gentilmente, que acompanha o que tenho publicado em jornais e livros desde quando aqui vivi e trabalhei. “Gostei muito do seu Spleen de Natal e do artigo sobre Soutinho”, concordando com tudo o que eu disse a seu respeito, isto é, a respeito do banqueiro Francisco Souto Filho. “Não é porque seja meu genro, não; mas Soutinho é um santo…”

 

Dona Zélia revela que em Mossoró ninguém acreditava no casamento de Edite, sua filha, com Soutinho, por ser ela uma moça pobre, embora inteligentíssima. Muita gente ia ao salão apenas para lembrá-las que Soutinho, um homem rico, jamais casaria com uma pobretona, filha de motorista de praça e manicure e, para completar, ajudante de manicure. Outras sentiam prazer em fazer as unhas com Edite com a clara intenção de a humilhar, revela-me, exibindo um lindo sorriso de velha. Porém, apesar de tudo, pobretona ou não, manicure ou não, tornou-se Edite a Sra. Francisco Souto Filho.

 

Mulher vivida e experiente, Dona Zélia aceita a vida com simplicidade, sem queixar-se, pois sabe que tudo é contingente e não dura para sempre.Vai completar noventa anos no próximo dia trinta e me convida para um café da manhã comemorativo. Terá de faze-lo obrigatoriamente, por exigência de filhos e netos que se reúnem em sua casa nesse dia, chova ou faça sol. Não é festa, frisa, pois nessa idade não há mais o que festejar. Mais café sempre se faz enquanto há vida, senão para ela – que come pouco, muito pouco –, mas para os outros, parentes e amigos de uma vida inteira, que com ou sem convite, todos os anos, a cumprimentam nessa data que a seu ver está se tornando muito repetitiva. Noventa anos. Não tem apego à vida, quer morrer na paz de Deus e dos homens, embora viver traga muita contrariedade. Para ela, uma vida comprida oferece mais oportunidades de desgostos do que de alegrias. E, sem querer incorrer em ingratidão para com Aquele que lhe deu o dom da vida, confessa-se já um pouquinho enjoada de viver, mas obediente à vontade de Deus, que é santo velho. De qualquer forma se diz pronta para cumprir os desígnios.

 

 

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