A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS (1-3)

O VELHO DO SITIO FRADE

Por Franklin Jorge

Martins - Não tenho queixas da vida, diz o velho numa voz pausada, mas firme, acendendo mais um cigarro. É o terceiro ou quarto que fuma enquanto conversamos no terraço de sua casa, no Sítio Frade. Tenho a impressão que Deus me deu tudo em dobro. Porém perdi a minha Francisca, Francisca Bezerra da Conceição, que se estivesse viva completaria agora em setembro 92 anos…

Emocionado, ele a descreve com unção amorosa. Era baixinha, esperta e trabalhadeira e encheu meus dias de satisfação e tranqulidade. Quando ela morreu, emSão Paulo, onde vivemos por 40 anos, conclui que era chegada a hora de voltar à minha terra, Martins.

Luis de Lima Morais, Seu Lucas, fala a intervalos, sopesando cada palavra, pensando antes de emiti-las, pois não é de jogar conversa fora. Aos 93 anos, ainda procura o que fazer, informa o seu filho mais velho, Assis, como debulhar o feijão plantado por um Luis, meu irmão mais novo. Moram os tres na mesma casa, numa rua com jeito de chácara, a pouco mais ou menos um quilometro do centro da cidade que já foi colonial mas com o tempo foi se desfigurando e atualmente não apresenta mais nenhum interesse arquitetonico.

Cheguei aqui, salvo engano, em 1928, acompanhado de meus pais e de todo o meu pessoal. Dessa época, sou o único sobrevivente, o único ainda vivo e capaz de  contar a história. O que não é pouca coisa para um velho da minha idade…

Aqui viveu sempre no Estaleiro, ao pé da serra, sitio grande e bom, formado de terras agricultáveis e por uma mata ainda virgem habitada por viados, tatus, preás, mocós e até onças vermelhas.

Muito ereto, sentado num tamborete, o velho mantém os olhos fixos num ponto remoto, só acessivel aos seus pensamentos. Quase cego, recusa-se a fazer a cirurgia de catarata, por causa de um mau pressentimento e também porque, nessa idade, já viu bastante coisas muitas das quais preferia não ter visto, justifica-se.

Havia no Estaleiro um homem afamado por suas histórias. Respondia pelo nome de Sebastião Gato, grande e admirado contador de contos de Trancoso. Para ouvi-lo juntava-se um magote de gente vinda das redondezas. Era muito prestigiado por seu talento, sendo recebido festivamente em toda casa que honrasse com a sua visita… Sebastião Gato era um sujeito velho, mas trabalhador como um moço. Não falo dos moços de hoje, que vivem às custas do Funrural dos pais e sempre arranjam um jeito para não darem um prego numa barra de sabão…

Toda a minha vida foi de trabalho. Desde a infancia, minha vida foi mourejar atrás do cabo de uma enxada ou tangendo jumentos. Nunca gostei de cachaça nem de forrós. O trabalho para mim foi sustento e prazer ao mesmo tempo. Trabalhava para sustentar-me mas tambem por amor ao trabalho que produz o sustento e mantém a mente ocupada. Meu pai, Thomaz Manuel de Lima, sempre foi agricultor, sempre honrou a terra e dela tirou o sustento seu e o da familia. Trabalhou sem exaurir a terra, respeitando as antigas sabenças que aprendeu dos seus avós. Labutando sem descanso, chegou a possuir um sítio em Apodi, o São Lourenço…

Impressiona-me a sua memória de tudo, comento. Papai tem essa idade mas se lembra de tudo, diz Luis, seu filho mais novo, já maior de sessenta anos. Tem a memória de um menino; lembra-se de cada coisa que só vendo, acrescenta com uma pontinha de orgulho.

Quando moço, fui muitas vezes daqui de Martins a Apodi, a pé, levando a rede nas costas. Tambem fui muitas vezes de Apodi a Mossoró, do mesmo jeito, a pé, detendo-me apenas para beber um copo dágua. Saía deApodi às seis horas da manhã e chegava à noitinha em Mossoró… Fiz essas 14 léguas inumeras vezes, vencendo as intempéries. Tinha então treze ou catorze anos, mas já era um homem feito, trabalhando na agricultura e na construção, de sol a sol, sem choro nem queixumes. Todos os meses, trabalhando alugado, mandava os meus aganhos para o meu pai. Em Mossoró, onde morei por uns tempos na casa de minhas irmãs casadas, que me diziam, Luis, dos seus ganhos não queremos nada; mande tudo para papai…Era o que eu fazia com a maior satisfação, pois naquele tempo filho respeitava os pais, mesmo depois de casado. Não era como agora, quando qualquer frangote descompõe os pais e até lhes mete o sarrabulho…

Andei muito por essas estradas conduzindo quatro jumentos carregados de surrões cheios de sal que trocava por arroz, milho, feijão e toda qualidade de legumes, que vendiamos depois de casa em casa, pois naquele tempo não havia supermercados nem mercadinhos, como agora… O sal valia ouro; todo mundo queria um punhado de sal para temperar a panela. Fizemos bons negócios…

Porém a agricultura, para mim, rendia mais que dinheiro; rendia uma grande satisfação intima que rsultava dessa labuta de amanhar a terra, de semea-la, de alimpa-la e de acompanhar a semente brotando, engalhando, crescendo, bajeando, amadurecendo e dando frutos. Era oficio sagrado para os sertanejos de antigamente… Aí, de repente, meu pai morreu em Mossoró, deixando-nos a nós, seus filhos e sua mulher, Maria de Lima da Conceição, minha mãe… Meu pai morreu muito moço ainda, antes de completar 50 anos. Casou-se duas vezes…

Foi quando senti a necessidade de ter a minha própria familia. Casei-me, como disse no começo dessa conversa, com uma moça muito boa, Francisca, que sofreu muito nas unhas da madrasta, que judiava muito dela por ser filha única e a herdeira do seu pai. Sua madrasta a trazia debaixo dos pés, numa especie de escravidão; coisa medonha e de muito sofrimento para uma filha de Deus…

 Sou sadio, apesar da idade, porque sempr trabalhei e nunca me neguei ao esforço de fazer. Sempre apreciei o salário que ganhamos com o suor do próprio rosto. E sempre disse aos meus filhos, 26 ao todo, que o que se ganha sem especulação e seu fraude é bom e justo.

4 comentários para “A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS (1-3)”

  1. Racine Lopes disse:

    Franklin, estou acompanhando seu blog que está cada vez mais melhor: temos o que ler. Uma beleza tudo o que publica aqui; suas conversas com essas pessoas maravilhosas, sua critica literária e artigos politicos que fogem do convencionalismo dos jornais impressos. Uma coisa que merece consideração é a generosidade em relação aos seus colegas de profissão, você sempre encontra uma forma de chamar nossa atenção para os que tem talento ou sofrem perseguições por nadarem “contra a corrente”. Vibrei com aqueles tipos que localizou em Macau e que abrilhantaram a sua “paisagem humana”. Queria que escrevesse sobre Jucurutu, aí tão perto de você! Vá, escreva! Um abraço e muito sucesso.

  2. Emanuel Fontoura - Rio disse:

    Que grande lição de vida nos dá esse velho martinense! somente alguém com a sensibilidade deste escritor e jornalista para ouvi-lo e anotar.

  3. Nadeje Cardoso disse:

    Bom demais!!!

  4. Janna Coutinho disse:

    Parabéns!

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