A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS (2-3)

O VIGIA DO TEMPO

Por Franklin Jorge

Martins - Espírito vivo e curioso, amando em seu visionarismo a serra de Martins e defendendo-a da incúria dos homens, Raimundo Damascena é um prático homem de idéias, rejeitado e maltratado por Martins que não reconhece a sua voz nem o aproveita como agente  catalizador e fomentador da cultura local.

Autor do mural da Casa da Cultura, obra repleta de alegorias e motivações históricas que sobrevivem misteriosamente no imaginário coletivo do burgo aprazivel e sonolento, foi talvez a única voz a levantar-se contra a descaracterização da Igreja Matriz, recentemente, quando uma lage de mármore cobriu as antigas sepulturas dos avoengos e dos heróis de 1817. Fez, como particular, criticando e opondo-se à ânsia reformista do pároco local, o que a Delegacia do Patrimônio Histórico no Rio Grande do Norte, por inercia e incompetencia, deixou de fazer — a defesa do patrimônio histórico e cultural do nosso povo.

Desenhista, pintor, escultor, em certa época às voltas com o mundo do teatro, empolga-se na defesa do patrimonio cultural que diminui a cada governo. Vive na companhia de duas irmãs já idosas à rua Desembargador Hemetério, numa casa que é ao mesmo tempo abrigo, museu, galeria de arte e jardim secreto.

Martins, onde bem se respira o hálito da natureza, domina o sono e a vigilia de Damascena, rapaz velho mimado pelas irmãs, uma representação do Quijote em solitária e vã batalha em prol da cultura, antecipadamente marcada pelo fracasso. Apesar disto, sem esmorecimentos, continua o nosso artista a luta daqueles antigos heróis da nossa Independencia, que em 1817 teceram com o sonho e o opróbrio a aura que distingue a cronica dessa brava gente que o resto do Rio Grande do Norte desconhece.

Sua utopia é ver Martins reconhecida por sua história e peculiaridades, a exemplo de outras cidades pernambucanas e goianas, como Igarassu, Olinda, Goiana, Pirenópolis, Natividade e Goiás Velho, patrimonio cultural do povo norte-rio-grandense. Embora, no caso de Martins, já não reste senão muito pouco para ser salvo, como ocorreu com a cidade do Assu, reduzida a uma esquálida lembrança do que foi.

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