A CASA DE WALMIR AYALA
Por Franklin Jorge
Freqüentei seus dois últimos apartamentos. O primeiro em Ipanema, a algumas quadras da Praça Nossa Senhora da Paz, na Rua Barão da Torre, onde o conheci numa tarde de dezembro, alguns anos antes de sua mudança definitiva para o espaçoso endereço da avenida Praia do Flamengo, no mesmo edifício do PEN Club do Brasil, diante do belo parque projetado por Lotta de Macedo Soares, por muitos anos, amante de Elizabeth Bishop, cujos versos seriam traduzidos em primeira mão, em nosso idioma, por minha amiga Juju Campbell Penna, num tempo em que a poetisa norte-americana ainda não se transformara ainda numa espécie de ícone e padroeira das intelectuais lésbicas do Brasil.
Walmir recebeu-me sentado, tendo aos pés uma jovem negra que lhe massageava os pés enquanto Gustavo, então com dois ou três anos, sentado sobre os seus joelhos, puxava-lhe os fios da barba negra e espessa como a de um guerreiro assírio. Ao fundo, ocupando quase toda a parede, meio envolta em sombras, o magnífico retrato pintado em 1969 por Vicente do Rego Monteiro iluminado por um refletor. Retrato meu já conhecido, pois fora reproduzido na volumosa edição de sua “Poesia Reunida” pelo Instituto Nacional do Livro em coedição com a Livraria José Olympio Editora.
Esse quadro do qual Walmir jamais se separou enquanto viveu, acompanhou-o sempre. O artista pernambucano, por mais de trinta anos residiu em Paris, voltou para morrer em sua Recife natal, em um lastimável estado de pobreza, embora cercado da glória de ter criado uma linguagem estética que o coloca ao lado dos grandes mestres da pintura moderna. Vicente o pintou, de corpo inteiro e quase em tamanho natural, na postura de lótus e cercado de gatos, encarnando a figura de um escriba egípcio, Kai. Usou uma gama de amarelos para construir essa figura que impressiona e cativa o olhar, como um dos grandes momentos da arte do retrato em todos os tempos. A sala, presidida por essa obra, parecia nua, talvez intencionalmente, para que o retrato se destacasse e nos transmitisse a idéia de uma oferenda votiva. Quase nenhum móvel, apenas, além de cadeiras e sofás, um longo console em madeira polida com alguns objetos e um ou outro livro como que deixado ali por acaso.
Príncipe das letras, construiu Walmir Ayala no curso dos quarenta anos em que viveu no Rio de Janeiro, uma lenda que aureola sua vida e sua obra original e multifacetada, brilhante e profunda, distribuída em dezenas de títulos e gêneros literários que dominou com indiscutível tirocínio. Nascido em Porto Alegre, estreou em livro em 1955 aos 18 anos com “Face Dispersa”, seguido de “Este sorrir, a morte”, que lhe valeram uma rápida consagração nos círculos intelectuais mais exclusivos da antiga capital do país. Ali chegando, mal saído da adolescência, surpreendeu a todos com a novidade do seu talento a serviço da criação literária e dramática. Por fim se tornou o critico de artes plásticas de maior prestigio de sua época. Uma conceituada referência inclusive no exterior.
Era Ipanema, nessa época, o endereço mais chique do Rio de Janeiro, habitado por uma gente endinheirada ou apenas brilhante e talentosa que glamurizava o bairro que era também o das butiques mais caras e exclusivas, então preferido por uma boemia que incluía nomes como Tarso de Castro, Vinicius de Morais, Tom Jobim etc. O apartamento, não muito grande como o do Flamengo, onde tive a honra de ser seu hóspede, dava provas do status que ele gozava naquela época, como o mais prestigioso colaborador do Jornal do Brasil, que constituía então a bíblia da intelligentsia antenada com o mundo da cultura e das idéias. Curioso é que fui introduzido ali por Adolfo, que me abriu a porta todo molhado e inteiramente nu.
Bibliografia resumida de Walmir Ayala
Face Dispersa
Este Sorrir, a Morte
Natureza Viva
A Pedra Iluminada
As Vestes e o Reino
Águas como Espadas
Estado de Choque
Poesia Reunida [poesia]
Sarça Ardente
Quatro Peças em um Ato
Teatro Infantil
Nosso Filho vai ser Mãe
Chico Rei
A Salamanca do Jarau [teatro]
À beira do Corpo
Um Animal de Deus
A Nova Terra [romances]
Diários Íntimos [em três volumes]
A Criação Plástica em Questão
Vicente, Inventor [ensaios]
16 de setembro de 2009 às 15:55
Lendo este artigo lembrei-me do tempo em que conheci o Walmir. Foi no final dos anos 50, fazendo parte do grupo liderado por Lucio Cardoso por quem Clarice andou por uns tempos apaixonadissima. Lembrei-me dos Pentagna, da bondosa Silvia Chálreo (grande figura humana), de Octávio, de tanta gente que já não está mais entre nós…V. me fez voltar no tempo e sentir de novo emoções que pensava estivessem mortas, mas apenas dormiam no mundo de minha memoria que se renovou de subito, fazendo-me refletir sobre o mistério da arte que para M. Proust seria uma forma de imortalidade. Há um ano acompanho este Blog que tenho entre os meus Favoritos. Com uma ressalva: não tem concorrentes; seria necessário que existissem outras pessoas, no Brasil, escrevendo com a mesma desenvoltura e toda essa cultura literária singular.