Homenagem a Maria Eugênia [2-7]
RUA FLORIANO PEIXOTO 354
Por Franklin Jorge
Dona Gena atravessa o crepúsculo com dignidade e estoicismo, dedicada a observar o espetáculo da vida cotidiana.
Espírito lúcido e atilado, Maria Eugênia Maceira Montenegro, Dona Gena, para os queridos, vibra com a literatura, que considera a melhor terapia para a alma; uma forma de lenimento das horas ruins e dos anos tortuosos; um ofício, enfim, que deixa a sensibilidade alerta e serve de consolo nos desenganos.
Nascida em um dia 7 de outubro, há oitenta e oitos anos, ela acredita que a imaginação fertiliza o deserto e aconselha que o escritor escreva, bem ou mal, vulgar ou genialmente, como disse Ramón Nieto. Mas escreva. Sem descanso, e sempre. Escrever é entregar-se a uma longa paciência. Esta, a lição que nos oferece, haurida da sua experiência.
Conversamos no terraço da casa do seu cunhado, em Petrópolis, onde se encontra, descansando, em sua passagem por Natal. Dona Gena exprime a serenidade de quem viveu em plenitude cada momento da sua vida. Uma vida em claro, generosa, aberta às percepções.
Conhecia-a, ainda menino, em seu bonito solar da Praça Getúlio Vargas 19, no Açu, cidade que a acolheu em dezembro de 1938. adolescente, freqüentei assiduamente sua biblioteca, formada pelo que havia de melhor em autores e obras. Cecília Meireles (sua predileta), Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Machado de Assis, Cornélio Penna, Drummond, José Geraldo Vieira, Gilberto Freyre, Thomas Mann, André Gide, Henry James, Huxley, Oscar Wilde, Verlaine, Montale, Gogol, Dostoievski… Um verdadeiro festim para o espírito.
Dela ganhei todo o Shakespeare, magnificamente ilustrado por John Gilbert, uma raridade que ela me destinou em testamento. Quando soube que me colocara entre os seus herdeiros, disse-lhe francamente que preferia não ter sabido disto, porque certamente, por mais que a quisesse, não poderia responder pelo meu desejo de ter minhas mãos, o mais rapidamente, aquela preciosa coleção. E acrescentei que ela me colocara um problema moral, algo que certamente me pesaria na consciencia, pois a partir daquele instante eu ficaria ansiosamente á espera do afortunado dia em que teria entre as mãos, como uma posse definitiva, toda obra de Shakespeare que ela me prodigava… Dona Gena achou graça e antecipou a entrega dos 24 volumes…
Mineira, nasceu na antiga cidade de Lavras do Funil, filha de português e de brasileira. Aqui, tem vivido com a graça de Deus, criando e fazendo o bem. Notável como prefeita de Ipanguaçu, onde criou biblioteca e teatro, pertence à Academia Norte-rio-grandense de Letras. Recentemente [por iniciativa do deputado Valério Mesquita], foi distinguida com o título honorífico de “Cidadã Norte-rio-grandense”, recebido em sessão solene na Assembléia Legislativa.
Dona de uma conversa agradável e instrutiva, retorna sempre à sua lembrança o sagrado nome do poeta João Lins Caldas, a quem reconhece como o seu mestre, após terem se conhecido, há mais de sessenta anos, na Fazenda Picada. Caldas era um prodigioso ser nietzscheano. Alguém que escreveu versos viscerais e aprendeu que sangue é espírito.
O poeta tinha parentesco com o seu marido. E costumava passar dias na Fazenda Picada, ruminando poemas, quando não lendo-os para a bela e jovem amiga. Caldas também gostava de caçar nas matas ralas da Picada. E, munido de embornal e espingarda, concedia-se o aposto de “Capitão Caldas”, lembra a amiga nessa conversa enobrecida pelo ouro do crepusculo.
Para Maria Eugênia, cujo nome significa “a bem nascida”, a vida adquire sentido através do prazer das relações humanas e da satisfação da beleza que a arte proporciona. Sem arte, a vida torna-se opaca e sem nenhum sentido. Eis a lição que deixa para os que lêem estas fracas linhas.
[2001]
2 de outubro de 2009 às 7:19
119.850 acessos: o RN tá ligado neste Blog! valew, véi!
2 de outubro de 2009 às 12:27
Faço minhas as palavras desse “boy” que se identifica como Sanguebom. Este Blog tem estilo e qualidade: quem o acessa uma vez fica freguês, pois não há como deixar de ler o que escreve Franklin Jorge. Chama a atenção o modo como ele atinge toda cateogria de leitores. suas palavras hipnotizam o leitor: se começamos a ler uma página sua não há mais como parar…Suas palavras tem um visgo parecido com o mistério de Clarice. Seus artigos sobre politica são imperdiveis. Eu me lembro aqui do que ele tem escrito sobre a governadora dos potiguares, sobre Agaciel Maia e a orgia do poder, que entremostram sua grande cultura e uma visão propria dos problemas que aborda de modo conciso e profundo. Sou seu fã de carteirinha e recomendo sua leitura aos meus amigos e pessoas do meu circulo de relações.
2 de outubro de 2009 às 13:06
E qual é a contrapartida do Açu nisso tudo? Ô terra ingrata o Açu, que d. Gena divulgou e amou tanto!
2 de outubro de 2009 às 13:07
Com a palavra, o prefeito!