A Paisagem Humana de Touros
RABO FINO, O OUTRO NOME DA ELEGANCIA
Por Franklin Jorge
Touros — Rabo Fino, performático de Rio do Fogo é bailarino, travesti e transformista. Em Carnaubinha vive na casa de um e de outro, sofrendo maus tratos dos machos, porém defendido por uma falange de boas mulheres. Bem acolhido em todas as casas ninguém tem a audácia de maltrata-lo diante de suas protetoras.
Uma vez um neto de Dona Tereza quis se enfezar com Rabo Fino. Ela o mandou calar e respeitar a sua autoridade, no território de sua casa onde recebe e acolhe de coração aberto qualquer pessoa do bem, tentando compreender os motivos de cada um. Disse-lhe, ao neto, que não se atrevesse em sua presença a maltratar Rabo Fino, que ele também era “gente como a gente”.
Fui conhecê-lo na casa de Dona Tereza, num fim de tarde, em impecável toalete que ressaltava os contornos de seu corpo esguio e escultural tostado de sol, sob a peruca negra de fios longos e escorridos coroados no alto por um turbante estilizado em recorte cubista. Usava top de malha preta com listas púrpura e verde esmeralda. Calça verde limão brilhante de corte reto. Sandálias do tipo plataforma. Pesadonas. Maquiagem cuidada. Estilo.
O bailarino conhece a arte de impressionar, de se impor à curiosidade por sua terrível elegância. Tem um populoso guarda-roupa. Não passa semana sem receber roupas de presente, sapatos, adereços. Ele anda pra cima e pra baixo, carregado de sacolas apipadas de peças escolhidas com intuição, ousadia e arte. As que não se adequam ao seu estilo, passa adiante. “Vestir-se é uma arte”, declara, rindo-se e cobrindo a boca com a mão.
Reencontrei-o na praça, na noite de São João, durante o pastoril de mulheres maduras e da terceira idade. Numa lanchonete, esperando que alguém o convidasse para comer. Ofereci, para começar, um refrigerante, que ele recusou, declarando que seus dentes eram sensíveis aos gelados. Ele queria comer logo. Estava com fome. Disse-lhe que pedisse o que quisesse. Ele pediu apenas uma coxinha e mais nada, para não perder a forma.
Como bailarino, dançou inclusive em Touros. Narcisista por natureza e índole, sempre se desentende quando o assunto é espetáculo. Há quem diga que ele quer encarnar invariavelmente o papel de estrela, de virtuose, de prima dona. De principal atração.
Nessa noite, surpreendentemente, veste Rabo Fino um modelito ultra despojado. Talvez em sintonia com a natureza da festa de origem rural. A estamparia celebra a singeleza do campo, a rusticidade alegre da manhã, num impressionismo alegre e cativante qued delata a sua preocupação em criar conceitos. É, acima de tudo, um estilista muito intuitivo que sabe usar as cores e as padronagens com inteligenciah. Noto que conserva a peruca e substituiu e o turbante de estamparia cubista por um lenço de seda de motivações juninas.
Rabo Fino chegou a Carnaubinha com o circo de transformistas mambembes, oriundos de Rio do Fogo. Aqui ficou quando eles partiram. Tem voltado sempre a sua terra de eleição, essa Carnaubinha que o tem cruelmente maltratado. Muitos lhe atiram pedregulhos. Muitos o anatematizam e jogam bosta em seu nome.
Ele me conta ainda que tem uma cárie. Este o motivo porque não bebe gelados. Como pessoa tem o prazer em servir, ajuda na cozinha, limpa, arruma, dá sempre uma mãozinha às amigas, em toda a parte, principalmente às velhas damas protetoras de Carnaubinha, que alguns dizem pertencer ao exército de Rabo Fino, abençoado e protegido dessas boas mulheres que fazem o bem sem olhar a quem.
10 de outubro de 2009 às 20:40
V. sempre descobrindo pessoas curiosas e interessantes que despertam o interesse do leitor.
11 de outubro de 2009 às 14:43
Delicia de cronica. Rabofino é o máximo!
11 de outubro de 2009 às 16:51
Concordo!
11 de outubro de 2009 às 21:09
Que figura!
12 de outubro de 2009 às 11:57
Fiquei sem entender: Carnaubinha fica em Touros? É bairro? Distrito? Praia? Rabofino é uma figura. Maravilha, Franklin!