O MURO E O FIM DAS IDEOLOGIAS
Por Sílvio Anaz, do How Stuff Works
Em 1987, o então presidente norte-americano Ronald Reagan fez um discurso no Portão de Brandemburgo, em Berlim Ocidental, em que conclamou o então líder da União Soviética, Mikhail Gorbatchev, a derrubar o Muro de Berlim. Reagan pode ser considerado um dos principais responsáveis pela queda do Muro, ou melhor, pelo fim da Guerra Fria. Mas não exatamente pelo jogo duro que teria feito contra os comunistas, como muito de seus admiradores mais extremistas gostam de enfatizar.
Apesar de se referir à União Soviética como “império do mal”, Reagan foi um dos presidentes americanos que mais negociou com o bloco comunista. Graças a sua habilidade e estratégia diplomática foi possível chegar a acordos de redução de armas nucleares e a uma flexibilização política com o bloco soviético.
Mas para isso dar certo, Reagan deu a sorte de encontrar do outro lado a liderança de Mikhail Gorbatchev, que assumiu o poder na União Soviética em 1985. As medidas de abertura e reestruturação econômica e política implantadas por Gorbatchev iriam ser fundamentais para o fim da Guerra Fria. Além dos acordos com os Estados Unidos para pôr fim à corrida armamentista, ele permitiu que os países da Europa Oriental adotassem regimes democráticos liberais, se assim o quisessem.
Em outubro de 1989, uma verdadeira onda de democratização atingiu vários países do leste europeu e mesmo o regime comunista linha-dura da Alemanha Oriental foi atingido. Entre as medidas a serem adotadas estaria a abertura das fronteiras com o Ocidente. Mas o inadvertido anúncio feito pelo porta-voz do governo alemão oriental em 9 de novembro de 1989 desencadeou uma reação popular surpreendente que levou à completa destruição em algumas horas do até então quase intransponível Muro de Berlim.
O que para muitos alemães orientais significou a possibilidade de circularem livremente pelo seu país, e de tentarem uma nova vida do outro lado do Muro, representou para boa parte dos seguidores das ideologias socialistas o desmoronar de um dos principais símbolos da resistência ao capitalismo. Desde então, muitos intelectuais, principalmente os ligados às correntes do pós-modernismo, têm discutido se a metáfora da queda do Muro de Berlim significa realmente o fim das ideologias.
O fim da história
O colapso dos regimes comunistas da Europa Ocidental, simbolizado na queda do Muro de Berlim, levou o teórico político Francis Fukuyama a afirmar que a vitória da democracia liberal do Ocidente significava que havíamos alcançado o último estágio ideológico na marcha da história. Fukuyama parte dos princípios de Hegel, que, segundo ele, defendia “os princípios de coliberdade e igualdade, bases do Estado liberal moderno, haviam sido descobertos e postos em prática na maioria dos países adiantados, e que não haviam princípios ou formas de organização social e política alternativas superiores ao liberalismo”. Fukuyama desenvolveu sua tese sobre a hegemonia da democracia liberal ocidental no livro “O fim da história e o último homem”, publicado em 1992.