AUDIÊNCIA DE QUALIDADE EXIGE RECEITA
Por Alon Feuerwerker, do Blog do Alon
A evolução explosiva e a disseminação das tecnologias digitais criaram a infraestrutura para o salto democrático definitivo na comunicação. O fenômeno espalha-se como pandemia, e finalmente é possível quebrar a unidirecionalidade. O receptor de informação tem agora condições muito melhores para fazer também o papel de emissor. E as consequências da revolução atingem a todos, dos veículos profissionais às empresas não jornalísticas, das pessoas às instituições — estatais ou não.
Uso aqui a palavra “revolução” com uma elasticidade excessiva, porque a tecnologia é só uma das variáveis. Na abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que acontece em Brasília, o presidente da República pintou um quadro talvez algo fantasioso sobre o novo grau de liberdade dos indivíduos e da sociedade diante de quem possa pretender controlar o fluxo das notícias e das ideias.
O que mudou? E o que não mudou? Caiu radicalmente o custo de distribuir informação, também chamada de “conteúdo”. Antes, os empreendimentos eram intensivos em capital. Um jornal, por exemplo, precisa de forte investimento em papel, gráfica e transporte. Já os custos de produção não mudaram muito. Ao contrário, a produtividade do trabalho deu um salto: com as ferramentas disponíveis, cada hora trabalhada cria bem mais valor do que no passado.
Algo que continua indispensável é capital para atrair audiência. Hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que acesse a rede. Mas para atingir massa crítica de receptores é necessário dinheiro. Muito dinheiro. O desafio persiste, apenas mudou de departamento. Antes, o capital era fundamental também na produção e distribuição; hoje, é insubstituível na divulgação. Ainda mais diante da abundante oferta de conteúdos, uma concorrência feroz.
Todas as empresas de sucesso na rede, em algum momento, conseguiram capitalizar-se, criaram caixas robustos para pesados investimentos em marketing. Com a promessa de retorno lá na frente, pois audiência é sinônimo de receita.
Como o cidadão comum, cheio de boas ideias e de visões alternativas da realidade, vai competir nessa esfera?
Outro detalhe. Verdade que sempre haverá alguém capaz de escrever melhor do que o jornalista sobre determinado assunto. Mas é impossível para o médico, o dentista, o comerciário ou o professor largarem suas atividades no meio da tarde para cobrir uma sessão da Câmara dos Deputados, ou uma passeata na Esplanada dos Ministérios. Eis por que o jornalismo profissional vai bem, obrigado. Só que ele não vive de brisa.
A internet mudou a vida de quem trabalha com informação. A mudança fundamental: quando o consumidor não gosta, a pancada vem na hora, o sujeito não precisa ficar pendurado no telefone ou esperando na fila da seção de cartas. O que é ótimo. Está mais difícil a vida de quem não suporta a crítica e se vê acima do bem e do mal. Mas daí a achar que os papéis se inverteram tem uma distância grande.
Basta ver o que vai pelos blogs, pelo Twitter e por outras redes: quando o objeto é a notícia, ou a análise, a maioria se limita a comentar, atacar, elogiar, distorcer, criticar, endossar o que é criado profissionalmente por alguém. Conteúdo original e produzido ininterruptamente não é a regra. Uma expressão muito usada nos debates sobre o novo mundo é a capacidade da internet “empoderar” o indivíduo, ou a organização social não hegemônica. A tecnologia sozinha não tem esse dom.
A democratização da comunicação depende de os múltiplos novos atores encontrarem meios de financiamento. Talvez seja um tema para esta Confecom. Ou para uma próxima.
20 de dezembro de 2009 às 16:52
A internet é a invenção do século. Está mudando as relaçoes sociais e dando espaço a todos, sem atravessadores.