Arquivo de janeiro de 2010

QUADRILHA DO PT VOLTA À ATIVA

sábado, 30 de janeiro de 2010

Por Augusto Nunes, do
blog Direto ao Ponto

Eleito presidente do PT, o companheiro sergipano José Eduardo Dutra prometeu recrutar os melhores e mais brilhantes do partido para a composição do diretório nacional. O Brasil soube há dias que essa tropa de elite, se depender de Dutra, será liderada pelos craques José Dirceu, José Genoíno e João Paulo Cunha. Os três veteranos armadores também são titulares absolutos do Bando dos 40, denunciado pelo procurador-geral da República e instalado pelo Supremo Tribunal Federal no banco dos réus reservado aos protagonistas do escândalo do mensalão.

Por que Dutra estendeu acintosamente a mão amiga a três delinquentes juramentados?, quiseram saber os jornalistas. “Primeiro, para mim, não existe esse termo, mensaleiros”, começou o legítimo herdeiro de Ricardo Berzoini. “Depois, é um orgulho fazer parte da chapa ao lado de Dirceu, Genoino e João Paulo”, tentou terminar. Os jornalistas insistiram no assunto, o entrevistado perdeu a paciência: “Não tem sentido prescindir da experiência desses companheiros num momento tão importante como este, em que temos a pré-campanha da ministra Dilma Rousseff à Presidência”.

Na abertura do trecho encimado pelo subtítulo Quadrilha, a denúncia do procurador-geral Antonio Fernando Sousa fez um didático resumo da ópera:

“O conjunto probatório produzido no âmbito do presente inquérito demonstra a existência de uma sofisticada organização criminosa, dividida em setores de atuação, que se estruturou profissionalmente para a prática de crimes como peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta, além das mais diversas formas de fraude. A organização criminosa ora denunciada era estruturada em núcleos específicos, cada um colaborando com o todo criminoso em busca de uma forma individualizada de contraprestação. Pelo que já foi apurado até o momento, o núcleo principal da quadrilha era composto pelo ex Ministro José Dirceu, o ex tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares, o ex Secretário-Geral do Partido dos Trabalhadores, Sílvio Pereira, e o ex Presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno. Como dirigentes máximos, tanto do ponto de vista formal quanto material, do Partido dos Trabalhadores, os denunciados, em conluio com outros integrantes do Partido (um deles é João Paulo Cunha, copiosamente mencionado nas páginas seguintes), estabeleceram um engenhoso esquema de desvio de recursos de órgãos públicos e de empresas estatais e também de concessões de benefícios diretos ou indiretos a particulares em troca de ajuda financeira. O objetivo desse núcleo principal era negociar apoio político, pagar dívidas pretéritas do Partido e também custear gastos de campanha e outras despesas do PT e dos seus aliados”.

A releitura do texto permite enxergar as coisas com penosa nitidez. Enquanto o Brasil que presta faz escolhas baseado em biografias, a companheirada elege chefes pelo tamanho do prontuário. Basta retocar graficamente a última frase de José Eduardo Dutra para entender por que sente vontade de cantar o Hino Nacional quando vê a trinca por perto: “Não tem $entido pre$cindir da experiência de$$e$ companheiro$ num momento tão importante como e$te, em que temo$ a pré-campanha da mini$tra Dilma Rou$$eff à Pre$idência”.

É isso. Os bandidos já ensaiam a continuação da série ultrajante sem que o primeiro dos faroestes sequer tenha chegado ao fim.

LIBERALISMO À MODA BRASILEIRA

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Roberto Campos, um dos mais célebres liberais do Brasil

Roberto Campos, um dos mais célebres liberais do Brasil


Do Economist

No Brasil, falar de corte de impostos e medidas “liberais” é praticamente um crime eleitoral. O modelo de dirigismo econômico adotado pelos governos no país é ainda mais estranho quando se nota que o governo militar escolheu um modelo igual para o país de 1964 a 1985. A última mostra de liberalismo clássico em um governo brasileiro foi no século XIX.

Apesar disto, os dois governos bem sucedidos após a ditadura, o de Lula e o de Fernando Henrique Cardoso, foram pragmáticos o bastante para adotar uma mistura de liberalismo com social democracia. No entanto, ser chamado de “liberal” é incrivelmente impopular. O partido que representaria o grupo, o Democratas, enfrenta acusações de corrupção e tem perdido força nas urnas eleição após eleição.

Os poucos liberais no país podem se consolar com a ideia de que o Brasil é um dos países mais socialmente liberais do mundo. Praticamente todas as religiões são praticadas sem medo de opressão, e passeatas gays atraem números recordes de participantes. Ser liberal, no entanto, ainda é algo que é melhor ser feito privadamente.

PROBLEMAS COM O SEU PROVEDOR DE INTERNET?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Por Olhar Digital

Ao lado dos bancos e das empresas de telefonia, as provedoras de internet lideram o ranking das companhias mais odiadas pelos consumidores. As principais reclamações são por cobranças indevidas, quedas de sinal e, principalmente, a entrega da velocidade muito abaixo da contratada.

Os abusos não param por aí. Essa outra situação já pode ter acontecido na sua casa, olha só. Você tem uma conexão super rápida, mas não consegue, de maneira alguma, completar uma simples conexão de voz sobre IP com o seu Skype. Sabia que isso pode ser uma limitação imposta, ilegalmente, pelo seu provedor de acesso?

Calma que tem mais. Você pode nem saber, mas a sua privacidade está comprometida na rede. Já reparou, por exemplo, que os anúncios patrocinados que vêm ao lado da mensagem em sua caixa de emails, quase sempre, têm alguma ligação com o conteúdo do seu correio eletrônico? Ou seja, a empresa provedora do serviço tem livre acesso àquele texto e, inclusive, aproveita dele para ganhar algum dinheiro.

Hoje, a fiscalização sobre as práticas dos provedores de acesso à internet é falha. Por isso tanta bagunça e falta de respeito ao consumidor. Mas o Governo Federal pretende criar um marco regulatório civil para a internet.

Na verdade, no entendimento do IDEC, a discussão deve extrapolar a regulação. Internet é, também, um meio para que a população seja instruída, educada, adquira cultura.

Da atual falta de respeito com o consumidor à disponibilidade de internet gratuita para todos. Existe, aí, uma grande distância a ser percorrida. Mas é inevitável associar o desenvolvimento do país à sua conectividade.

Se você enfrenta problemas com a sua internet, não fique calado! Logo abaixo desse texto, a gente disponibilizou links para os sites de várias instituições que podem te ajudar. Você também pode dar sua contribuição para mudar este quadro.

Links
Procon
Anatel

AINDA O RÉVEILLON DO FRANGO ASSADO

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Por Franklin Jorge

Segundo se comenta na cidade, a Fundação José Augusto estaria entrando com uma ação contra mim, por causa dos artigos que publiquei aqui sobre o escandalosa festa de réveillon promovida no Forte dos Reis Magos por Pedro Abech, gerente do mais famoso monumento histórico do Rio Grande do Norte.

Por causa disso, cheguei a ser ameaçado pela assessora de comunicação da FJA, jornalista Mary Land Brito, que extrapolou completamente da sua função de servidora pública, mostrando-se desprovida de compostura e de ética, da ética exigida, sobretudo, de um servidor público. Bastiara isto paraque, num governo sério, ela fosse suspensa ou demitida a bem do serviço público.

Ora, estou me pelando de medo. Sobretudo porque ainda há muita coisa para ser contada sobre o Forte, o que inclui a venda de ingressos que deveriam ser contabilizados na Conta Única do Governo do Estado e… não são! Um assunto que ainda vai dar muito o que falar e que envolve, naturalmente, um famoso agiota, doublé de funcionário da famigerada FJA.

O vice-governador Iberê Ferreira de Souza, que em breve assumirá o governo do estado, está bem arranjado com tais auxiliares. Que prepare as aspirinas, pois terá muitas dores de cabeça…

VARGAS RECEBE ROOSEVELT EM NATAL

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reprodução do Jornal do Brasil

Reprodução do Jornal do Brasil


Por Alice Melo, do CPDocJB

Há 67 anos, no dia 28 de janeiro de 1943, o presidente Getúlio Vargas chegou a Natal, no Rio grande do Norte, para uma conferência com o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, com o propósito de firmar uma aliança militar e política entre o Brasil e os Países Aliados, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Nasceu desta reunião a idéia da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma divisão de 25.334 militares brasileiros que lutaram ao lado dos Aliados na Itália no final da guerra.

“Os países aliados preparam-se para uma guerra longa. O poderio militar da Alemanha está em declínio e pode haver um colapso de um momento para o outro. Estamos absolutamente certos da vitória”, declarou Getúlio Vargas em uma coletiva de imprensa dois dias após chegar a Natal.

Getúlio Vargas chegou a Natal no dia 28, e pernoitou em um navio de guerra para se preparar para a conferência com Roosevelt, que chegaria da África na manhã do dia seguinte. Os presidentes se encontraram durante o almoço, passaram em revista as forças armadas brasileiras e norte-americanas – do Exército, Marinha e Aeronáutica – e no decorrer da tarde trocaram idéias sobre os problemas da guerra mundial e o esforço bélico conjunto do Brasil e dos Estados Unidos.

“[No encontro] tratamos de assuntos referentes à guerra e, também, de outros que possivelmente se apresentarão no após-guerra. Preponderou, entretanto, a necessidade de vencer a luta, e sob este aspecto muito conversamos sobre a cooperação do Brasil com os Estados Unidos, cooperação integral e sem restrições. Uma vez que estamos em guerra, a nossa cooperação com os Estados Unidos deve ser completa. Tudo quanto eles julgarem necessário e útil, nós continuaremos a fornecer”, disse Getúlio Vargas no dia 31, não explicando porque os detalhes da Conferência tinham sido mantidos em sigilo até o momento da coletiva.

A idéia da FEB, no entanto, não foi consolidada nessa conferência, que oficializou a cooperação do Brasil com os Estados Unidos no esforço de guerra, já que o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira somente partiu para a Itália em julho de 1944. O final da guerra contra o fascismo e o retorno da FEB ao Brasil deram origem a manifestações populares que precipitaram a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo no país.

NARCISOS E ZUMBIS GANHAM NOVA ARMA

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


Do Dossiê Alex Primo

A cada semana uma nova febre acomete o Twitter. O estado febril da vez é o Formspring.me. À primeira vista este sisteminha de perguntas e respostas parece trivial e sem graça. É bem verdade que também pensamos o mesmo do Twitter quando ele surgiu. Mas será que o Formspring.me acabará sendo avaliado em bilhões de dólares daqui a alguns meses? Ou como toda febre passará em breve?

O grande trunfo deste novo serviço é conseguir juntar duas figuras muito comuns da Web 2.0: o egocêntrico e o anônimo. O primeiro sofre da Síndrome Narcísica, muito comum em nossos tempos. Ele busca incansavelmente uma audiência que o aplauda e que confirme sua existência. Nada como ter um grupo de desconhecidos querendo saber trivialidades sobre a sua pessoa. Para um narcisista, a oportunidade de falar de si é sempre prazerosa.

Do outro lado desta breve conversação, um anônimo (ainda que interagentes registrados possam se identificar) dispara perguntas protegido pelo escudo da total invisibilidade. Neste encontro inusitado, onde o ego admira-se diante de um espelho sem imagem, o narcisista exerce sua criatividade em responder simplórias provocações com trocadilhos e filosofias baratas.

Claro, as perguntas são previamente selecionadas. Nesse sentido, não apenas as respostas nos falam muito sobre quem responde, mas as próprias perguntas escolhidas revelam um pouco do universo que lhe interessa. A prática envolve tanto o lúdico quanto o risco. De qualquer forma, para o narcisista o que menos importa é a pergunta. O que vale é o espaço para se expor.

Mas não sejamos tão críticos. O Formspring.me pode ser uma brincadeira gostosa, um exercício de autoconhecimento e até mesmo uma ferramenta para professores e empresas receberem o livre feedback de seus públicos.

Resta saber se este serviço vai conseguir ultrapassar o limite da curiosidade ou se impor como um novo espaço conversacional. Já podemos observar o envio automático de perguntas e respostas para o Twitter. Um fenômeno parecido aconteceu com o Blip.fm , mas hoje ele parece bastante esquecido. Será esse o destino do Formspring.me?

ISSO É QUE É REALITY SHOW…

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Do site-laboratório Webmanário

O consultor em relações públicas Adam Vicenzini está conduzindo um autoexperimento interessantíssimo. O desafio é passar um ano (este 2010) sem ver, ler ou comprar jornais impressos.

Ele, que se apresenta como consumidor voraz de notícias, quer testar o quanto isso terá impacto sobre sua personalidade e seu trabalho, ao mesmo tempo em que pretende explorar novos meios (online e móveis) de se informar.

Já há histórias engraçadíssimas nesse começo de empreitada, como a tarefa hercúlea de evitar olhar um jornal (são os gratuitos, claro) no metrô de Londres.

Uma aventura a se acompanhar, e cujo desfecho já é conhecido: muito provavelmente ele não vai perder nada.

Os jornais fornecem boa parte da matéria-prima que dá o start de cada dia na internet “noticiosa”. Se ele for um leitor atento dos onlines, não perderá o melhor dos impressos.

Mas vamos acompanhar.

PS – Quem achou essa história foi o Jounalism.co.uk, outro que merece ser acompanhado.

O BEABÁ DA PROBABILIDADE E DA ESTATÍSTICA

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por José Roberto de Toledo,
do Toledol, o blog sobre RAC

Para os jornalistas, o melhor jeito de aprender sobre um assunto é escrever sobre ele. Assim, o que se segue é uma aula do ponto de vista do aluno, não do professor. São anotações de quem pretende fixar conceitos, não ensiná-los. Foram inspiradas, na maioria, pela leitura de O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow. Leia-as como quem espia o caderno do colega de escola.

Os jornalistas precisamos estar cientes de que não estamos propensos a relatar fatos objetivos com imparcialidade. Somos naturalmente parciais, nossa percepção é incompleta, e o fato, quando captado pela nossa mente, torna-se uma interpretação. Mesmo uma cena da qual somos testemunhas oculares é subjetiva. É o resultado de uma série de interpolações feitas pelo nosso cérebro para aprimorar a imagem falha e borrada enviada pelos olhos. Desenvolvemos mecanismos cerebrais que agem como Photoshop sobre uma foto desfocada e mal-enquadrada. Somem-se nossos preconceitos e expectativas, e o resultado é pra lá de subjetivo.

Só estando conscientes desses nossos defeitos de origem é que podemos fazer bem o ofício de reportar. Ser cético e duvidar não é mérito, mas necessidade. Como uma colagem, cada versão se completa na outra, superpostas e contraditórias. Daí que quanto mais versões e observações, melhor. Não me refiro apenas a entrevistas, mas a grandes quantidades de informação. A uma amostra que represente com fidelidade o universo que espelha. Isso implica dominar conceitos lógicos e matemáticos simples, mas essenciais.

Para diminuir a margem de erro do nosso trabalho, convém conhecermos o beabá da estatística e da probabilidade. A diferença entre eles? Nas palavras de Mlodinow: a estatística busca inferir as probabilidades com base em medições dos dados, enquanto a probabilidade faz previsões com base em probabilidades fixas.
Começo aqui uma série sobre esses dois assuntos.
. . .
1) A probabilidade de um evento “X” ocorrer é igual à proporção entre o número de eventos “X” e o número total de eventos, desde que todos eles sejam aleatórios.

Exemplo banal: a probabilidade de dar “cara” em um cara-ou-coroa é de 50%, porque há um evento “cara” entre os dois eventos possíveis: “cara” e “coroa”. Logo, a proporção é de 1 para 2, ou 1/2, ou 50%.

Exemplo nem tão banal: desconsideradas as paixões, a arbitragem e a habilidade, a chance de um time de futebol vencer as duas partidas que faltam para o fim do campeonato é de aproximadamente 11%, porque “vencer e vencer” é apenas uma de nove possibilidades: “vencer e vencer”, “vencer e empatar”, “vencer e perder”, “perder e vencer”, “perder e perder”, “perder e empatar”, “empatar e vencer”, “empatar e empatar” e “empatar e perder”. Logo, a proporção é de 1 para 9, ou 1/9 ou 11,11%.

O exemplo acima é hipotético, e não se aplica na vida real, pois jogos de futebol não são eventos totalmente aleatórios (embora sejam mais casuais do que os comentaristas esportivos fazem parecer). Para ilustrar como a ordem dos fatores influencia o cálculo da probabilidade, tomemos o jogo de gamão.

A chance de somarmos 12 ao lançarmos dois dados simultaneamente é igual à de somarmos 2, certo? Sim, porque só há uma combinação possível para 12 (6 e 6) e outra para 2 (1 e 1). E qual a probabilidade de somarmos 7? É bem maior, porque há seis combinações possíveis dos dados que somariam esse resultado: 1 e 6, 2 e 5, 3 e 4, 4 e 3, 5 e 2, 6 e 1. E quantas combinações diferentes são possíveis em um lance dos dois dados? A resposta é 36. Chega-se a ela elevando-se à potência os resultados possíveis de cada dado. No caso, 6², porque são seis lados de dois dados (se fossem 3 dados, os resultados possíveis seriam 6³ = 216).

Logo, as chances de somarmos 7 no lance de dois dados é de 6 em 36, ou 6/36 = 16,7%. Contra apenas 1 em 36 (2,8%) de somarmos 12 ou 2. Portanto, você terá seis vezes mais chances de ganhar se precisar de um resultado 7 do que um 12 ou um 2.

No caso do campeonato de futebol que está a dois jogos do fim, o total de combinações possíveis de resultados para o time A era 9 porque eram 3 resultados possíveis (vencer, empatar ou perder) em duas rodadas. Se fossem 3 rodadas restantes, as possibilidades se multiplicariam para 27 (3³). Nessa hipótese, se o time A precisasse somar pelo menos seis pontos para não ser rebaixado, quais suas chances de permanecer na 1ª divisão?

Nesse caso, interessariam apenas os cenários com duas (2 x 3 pontos = 6 pontos) ou três (3 x 3 pontos = 9 pontos) vitórias para o time A. Quantas combinações de resultados das três partidas restantes contemplam essas possibilidades? A resposta é sete (“vencer, vencer e vencer”; “vencer, vencer, empatar”, “vencer, vencer, perder”; ”vencer, empatar, vencer”; ”vencer, perder, vencer”; “empatar, vencer, vencer”; “perder, vencer, vencer”). Logo, as chances de não ser rebaixado seriam de 7 em 27, ou cerca de 26%.

Dominar esse conceito é fundamental para se ir adiante na compreensão da probabilidade. Nele se baseiam todas as outras leis probabilísticas. Como veremos nos próximos posts.

AS TRÊS SOLUÇÕES

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por Martim Vasques da Cunha,
da revista Dicta&Contradicta

- Mas qual é a solução, Martim, qual é a solução?

Esta é a pergunta que me fazem nas últimas semanas, depois que eu publiquei um texto chamado Eles só usam black-tie. Se você se lembra do que escrevi, falo de que estamos a viver em uma época entrópica, em um mundo e em um país que escolhe a apatia como instituição e a pusilanimidade como uma forma de existência. Confesso que o final do meu raciocínio não era lá muito esperançoso – inclusive muitos me acusaram de “comodismo” e “quietismo político”.

Nada mais errado. Quem me conhece sabe que sou completamente contra o “quietismo político” – a nemesis da política do ceticismo que se disfarça sob os nomes de “tolerância”, “pluralismo” e “conciliação”. Trata-se nada mais nada menos de uma paralisia do espírito que estimula a tal da entropia da qual já falei. The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity, dizia o bom e velho Yeats.

Para quem ainda não está familiarizado com alguns termos, a política do ceticismo é uma atitude que se contrapõe à chamada política da fé. Os conceitos não são meus e sim de Michael Oakeshott. A , no caso, não é a crença religiosa, mas uma fé em acreditar piamente que só a razão humana, em sua autossuficiência, pode resolver os problemas humanos e, consequentemente, também os problemas políticos. O ceticismo é a atitude de oposição, que se resguarda das supostas vitórias da razão e prefere deixar as circunstâncias e a falibilidade humana ditarem os fatos. Segundo Oakeshott, os maiores exemplos de política da fé seriam os progressistas, os liberais e os socialistas; e os do ceticismo seriam ninguém menos que os malfadados conservadores.

Oakeshott falava a partir de uma perspectiva européia e frisava um detalhe em seu raciocínio: ambas as atitudes podem, em um determinado momento, parecer semelhantes. Além disso, elas não são atitudes ideológicas – ou seja, não são sistemas acabados de dogmas ou argumentações encadeadas. São somente atitudes de governo, nunca de Estado. A área que Oakeshott desejava abarcar era um espectro de ação pré-política, antes de qualquer classificação partidária e, claro, de ideologia.

Como estamos a tratar do Brasil, ficamos afoitos em encaixar a teoria de Oakeshott no nosso mundo político. Qualquer um com dois dedos na testa sabe que isso é impossível. E o motivo é simples: não há como encontrar nenhuma espécie de atitude de oposição entre uma política da fé e uma política do ceticismo. Durante anos e anos, a tradição política brasileira se baseou nos pilares da “conciliação”, como descreve bem Paulo Mercadante em seu livro A Consciência Conservadora no Brasil. O conservador citado aqui não é o mesmo que se inspira em Burke, Nabuco, Tocqueville ou Churchill; um outro sinônimo para isso é “acomodado”. O político prefere se “acomodar” no rame-rame estatal e faz suas “conciliações” conforme as circunstâncias permitem ou exigem, esquecendo-se, é claro, de um possível projeto de nação ou até mesmo de se preocupar com o que a sociedade concretamente necessita. Esta linha de pensamento formou a nossa tradição da “social-democracia obscurantista” (a expressão é também de Paulo Mercadante) que, nos dias atuais, é representado pelos partidos do PSDB e do PT.

Estes dois partidos, apesar de aparentarem uma “oposição”, na verdade falam a mesma língua e trocam farpas no mesmo ambiente cultural. São duplos miméticos, para usarmos um termo girardiano, em que um imita o outro conforme a rivalidade se intensifica, tornando-os indistingüiveis quando a propaganda os faz parecer diferentes. Formam a “social-democracia obscurantista” porque criaram o totalitarismo cultural e espiritual que vivemos nos nossos dias. Você pode até pensar que não está em um regime totalitário porque ainda (repito: ainda) não foi preso por uma Securitate ou uma KGB tupiniquim, mas pergunto-lhe: Já tentou falar de algo que escape do relativismo moral que abunda nas universidades e redações de jornais? Experimente falar de qualquer tema metafísico ou religioso; é batata que você será catalogado como “carola”. Defenda a hieraquia da realidade, em que a ordem das coisas se sobrepõe ao fanaticismo da igualdade – e veja como as pessoas não o convidarão mais para o cocktail bacana onde você poderia descolar um empreguinho trendy. Isso sim é totalitarismo – e o pior de todos pois é o totalitarismo consentido, fortalecido na pusilanimidade humana, na apatia da ação débil, que confunde caridade com coniviência criminosa. Se não matam o seu corpo, matam a sua alma.

O PSDB e o PT – e José Sarney, Collor de Mello, Democratas, you name it – simplesmente acabaram com qualquer espécie de oposição no debate político do país. Eles são adeptos totais da política da fé; são jacobinos elevados a terceira potência, tomando decisões dentro de seus gabinetes, completamente descolados do real, possuídos por uma ideologia que, somada à libido dominandi, resulta no país onde vivemos: uma vitrine feita apenas para inglês ver que, seduzida pelas estatísticas e pelos números, acha que está em pujança econômica quando isto é, na verdade, o primeiro passo para a queda definitiva.

Para piorar, não temos sequer uma resistância digna de nome. Exceto o trabalho pioneiro de Olavo de Carvalho, que avisou todo mundo, mas ninguém ouviu, não se pode contar com uma vivalma; nem com os liberais, que se preocupam somente com a economia e com uma tal de “liberdade” que nem eles próprios desconfiam o que seja; nem com os conservadores, que não existem no Brasil e, se isso ocorrer, tenham certeza de que será um milagre; nem com uma suposta resistência cristã, que, dividida entre a Igreja Católica e uma parcela dos evangélicos, não sabem se tomam o lado da caridade dos tolos ou assumem de vez o vírus da Teologia da Libertação. E se alguém espera alguma coisa do setor empresarial, que, sem dúvida, é o que sai mais prejudicado com toda essa situação (afinal, um livre mercado só pode existir se a liberdade existir dentro de uma determinada ordem e hierarquia), podem esquecer: como já sabemos, o PT fez questão de comprar a consciência de cada um, tornando-os socialistas de carteirinha.

No aspecto cultural, que é o que me interessa, as conseqüências são seríssimas: a sociedade passa a viver em uma espécie de realidade alternativa, onde as coisas se apresentam como uma espécie de alucinação, impossibilitando os pequenos detalhes que fazem a vida prática funcionar. Mas como todos querem uma existência sossegada, então aceitam a situação e se abaixam até um dia o focinho alcançar o chão. É um passo para a estratégia da avestruz: enfiar a cabeça na terra e mentir para si mesmo parece ser a resposta certa, pelo menos segundo esses senhores.

Quando uma sociedade se descola propositadamente da realidade, toda a sua cultura se torna um instrumento de poder. E quando as pessoas pensam somente dentro de uma lógica de poder, é apenas um passo para uma guerra civil. Contudo, essa guerra civil não acontecerá de modo apocalíptico; é a destruição das instituições por dentro, como o cupim que come a madeira, para depois atingir a população numa letargia sem precedentes, da qual ninguém sabe mais de onde vem o mal que a aflige. A guerra civil se dará entre as famílias, entre os amigos, entre as pessoas mais queridas. E o fato de que, para destruir a sua vida, você não precisa mais de ter um inimigo e sim somente um bom amigo – eis a grande novidade do totalitarismo do século XXI.

Por isso, nesta situação sufocante, as pessoas me perguntam:

- Mas qual é a solução, Martim, qual é a solução?

Confesso que não sei. Minha função não é dar solução para ninguém – nem mesmo eu tenho isso para a minha própria pessoa. Mas, recentemente, li um livro que foi lançado em Dezembro, O Diário da Felicidade (É Realizações, trad. Elpídio Mario Dantas Fonseca), do filósofo romeno Nicolae Steinhardt. Logo na sua abertura, Steinhardt, que foi preso pela Securitate (a KGB romena), fala sobre as três soluções que dão certo para o homem que tenta se manter íntegro em qualquer ambiente de espírito totalitário (e, por qualquer ambiente, entenda-se cultural, espiritual, político, social, etc.):

- A primeira é inspirada em Alexander Solzhenitsyn, o autor de Arquipélago Gulag: a partir do momento em que você for preso, depois de ter atravessado o interrogatório de uma Gestapo, de uma KGB ou de uma Securitate, decida-se pela seguinte resolução – você é um homem morto. Se decidir isso, nada mais tem importância; podem torturá-lo, xingá-lo, incitar seus amigos e parentes à traição, nada disso lhe atingirá. Porque, afinal de contas, você morreu para o mundo.

- A segunda é inspirada em um romance chamado As alturas ocas, de Alexander Zinoviev, a partir de um personagem apelidado de O Rebelde. Consiste na decisão pela total inaptidão em relação ao sistema. Você se finge de louco – aliás, torna-se o próprio bobo da corte; assim, pode gritar aos quatro cantos sobre as mazelas da sociedade que ninguém o escutará porque, afinal de contas, sempre será considerado pelos outros como um pinel de marca maior.

- A terceira é inspirada em episódios das vidas de Winston Churchill e de Vladimir Bukowski. Churchill afirmava que, mesmo com o pressentimento de uma guerra terrível, sentia-se rejuvenescido como se tivesse vinte anos; Bukowski não podia esperar pelo momento de ser chamado pela KGB e enfim ser interrogado porque queria entrar na sala “como um tanque de guerra” e gritar a todos a verdade sobre a Rússia. Esta é a decisão do “retroceder nunca, render-se jamais”; a de que é melhor quebrar do que vergar; a do sujeito que encontra suas forças mesmo quando o combate parece estar completamente perdido.

Steinhardt afirma que essas três soluções dão certo em termos práticos e ninguém lhe disse o contrário. São atitudes essencialmente a-políticas, mas, se realizadas com uma certa retidão, podem provocar terremotos consideráveis na política de nosso país. Afinal de contas, o totalitarismo que reina no Brasil é o da estupidez humana. Logo, por que ter medo?

E aí, leitor? Agora sou eu que lhe faço a pergunta: Qual é a solução que você prefere?

EMPREITEIRAS MANDAM NO ORÇAMENTO

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por Hugo Souza, do site Opinião e Notícia

A certeza de que no Brasil os poderosos têm grandes, enormes chances de escaparem impunes quando pegos com a boca na botija – privilégio realmente para poucos em um país que fechou o ano de 2009 com quase meio milhão de clientes do sistema prisional – é tão forte que chega a ser uma daquelas verdades à mão, sempre úteis para explicar, sem o devido aprofundamento em nuances complexas, desde a miséria do povo até a miséria da política nacional (a primeira literal, e a segunda no sentido figurado). Mas uma outra percepção que parece ir se consolidando, filha dessa primeira, é a de que os poderosos que atuam em um ramo em particular da economia gozam de especial condescendência para com suas, digamos, “rotinas” pouco ortodoxas.

Trata-se dos manda-chuvas do setor da construção civil. Sucedem-se, e não é de hoje, o envolvimento das grandes empreiteiras brasileiras em casos de corrupção – alta corrupção – fazendo dobradinha com parlamentares e agentes públicos. Entra ano, sai ano, e continuam abundando as notícias sobre favorecimentos, tráfico de influências, propinas, mesadas, obras superfaturadas, formação de cartéis e toda sorte de esquemas lesivos ao povo brasileiro, porque no fim das contas resultam ou em mau uso do dinheiro público, ou no seu direto desvio para cofres particulares. Pesam suspeitas de irregularidades em quase todas as grandes obras realizadas na história recente do país, da ponte Rio-Niterói à estrada Transamazônica, passando pela Rodovia do Aço, usina de Itaipu e hidrelétrica do Jirau.

Por falar em empreendimentos sob suspeita, em meados de dezembro o Ministério Público Federal pediu a abertura de investigações sobre 14 obras da Camargo Corrêa realizadas em várias regiões do país, entre as quais o aeroporto de Vitória, o metrô de São Paulo e a BR-101. A solicitação do MPF é consequência da operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, deflagrada no dia 25 de março de 2009 e que apontou indícios de corrupção envolvendo a construtora e todos os grandes partidos políticos do Brasil (ainda que o PT tenha sido deixado de fora do relatório final), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e até o ex-presidente Jânio Quadros.

Os anões do orçamento e as gigantes da construção civil
Segundo investigação da Polícia Federal feita a partir do material apreendido na casa de um dos executivos da Camargo Corrêa que foram presos em março, um dos políticos que teriam recebido financiamento “por fora” para campanhas eleitorais é José Roberto Arruda, governador do Distrito Federal. Outro é Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados e do PMDB. Mas, apesar de ser íntima do poder, nada pode garantir que a Camargo Corrêa seja a campeã entre os notórios corruptores no ramo da construção civil.

Breve pesquisa nos arquivos online dos principais jornais do país mostra que um clipping sobre o oligopólio das empreiteiras brasileiras pode parecer mais uma folha corrida criminal, da Mendes Júnior, velha amiga do velho Estado corrupto (e de Tancredo Neves, José Sarney, Renan Calheiros…) à Odebrecht, que foi expulsa do Equador pelo governo demagogo de Rafael Correa em um caso no qual de fato houve mais corrupção do que demagogia. “Quem faz o Orçamento da República são as empreiteiras”, já dizia o ex-ministro da Saúde Adib Jatene muito provavelmente com grande conhecimento de causa.

Nunca é demais lembrar que a CPI do Orçamento, aquela dos “sete anões”, começou com um alto funcionário do Congresso Nacional, José Carlos Alves dos Santos, dizendo que os mais de US$ 3,5 milhões encontrados na sua casa eram propinas pagas por empreiteiras para incluir no orçamento emendas que lhes interessavam, e terminou com pano rápido quando a coisa estava indo longe demais, para muito além dos anões, ameaçando as gigantes da construção civil, sobre as quais surgiram indícios de que haviam formado um cartel para fraudar licitações de obras públicas.

Hoje, anos depois, Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Mendes Junior e OAS continuam abocanhando os maiores e melhores contratos licitados pela administração pública. Em tempos de PAC e de Comperj, e considerando o histórico da relação entre as partes, pode-se dizer que as perspectivas não são exatamente boas. Enquanto isso, algumas destas construtoras seguem entre as maiores transnacionais brasileiras, apresentadas pelo governo e pela mídia como orgulhos nacionais, com direito a três delas aparecendo nos créditos da cinebiografia do presidente da República como patrocinadoras da obra, sem trocadilho.

Em nossa opinião…
O fato de o governo federal ter parado de investir em ferrovias há décadas, passando a privilegiar rodovias, tem a ver com o fato de que construir rodovias é muito mais lucrativo para as empreiteiras. O país paga uma conta cara por isso, já que o transporte ferroviário é muito mais eficiente.

O FUTURO ESMURRA A PORTA

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por Alon Feuerwerker,
Do Blog do Alon

A transmissão pelo YouTube do Teleton “Hope for Haiti Now”, sexta à noite, foi uma antevisão do futuro, em meio à tragédia do presente. Talvez o terremoto tenha convertido o destroçado Haiti num ícone das dificuldades para universalizar o progresso e o bem-estar. No outro polo, a tecnologia permite a transmissão de um show daqueles pela internet, em alta definição, com qualidade excepcional.

Assim como é apenas questão de tempo as novidades de um Fórmula 1 chegarem ao carro zero que você vai comprar na concessionária, também tem data para chegar o mundo dominado pela convergência digital, que, batida, virou chavão. O que embute um risco: de tanto ouvir falar e nunca ver, você começa a achar que ela não virá mais. Pois ela chegou aos nossos computadores e celulares na sexta. Se você não viu, perdeu.

Toda inovação tende a universalizar-se, ainda que o processo não seja linear e sem buracos na estrada. Quais os principais obstáculos à convergência: a oferta de “banda”, o canal que conduz a informação distribuída em pequenos pacotes na rede, e a disponibilidade de conexões simultâneas ao servidor. No Teleton do Haiti, a conta de ambos foi para os veículos digitais e as empresas de tecnologia, que arcaram com os custos de oferecer uma infraestrutura “ilimitada” para que tudo corresse bem.

Foi um pool gigantesco, que virou conceitualmente a rede pelo avesso. Internet é pulverização, mas na sexta o “pool” inverteu a equação. Precisou apenas de massa crítica, atingida com a mobilização em torno do Haiti.

O que isso tem a ver conosco, com a política? Tudo. Se já éramos um país com milhões de técnicos de futebol, agora, além de milhões de cientistas políticos (Lula vai transferir os votos para Dilma ou não?), nos últimos tempos universalizamos também o debate sobre a democracia na comunicação.

Aqui há um problema: nossas discussões parecem focadas no passadismo, enquanto o futuro esmurra a porta pedindo desesperadamente para entrar. O que é o passadismo? Alguém imaginar que vai restringir o fluxo de informação na rede a partir de formas orgânicas de “controle social”, de restrições. O cenário do futuro é outro. É a disponibilidade “universal” de canais, banda e conexões. É a universalização da capacidade de dizer as coisas e ser ouvido.

A polícia e a Justiça irão adaptar-se para combater o crime na nova esfera, mas fora isso — e a não ser que se esteja a falar em censura — o controle será necessariamente distribuído, pulverizado. Não vai ser refém da esfera estatal, ou paraestatal, como acontecia na época em que predominava o broadcast, a radiodifusão. Ou em que era necessário um capital volumoso para bancar os custos fixos do impresso.

Talvez uma parte, a maior parte, da energia nacional investida no tema devesse então ser canalizada para encontrar meios de prover abundância tecnológica, para baixar radicalmente os custos de distribuição digital. Quem sabe não é um bom tema para a campanha eleitoral?

LULA DOBRA DÍVIDA PÚBLICA

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Deco Bancillon e Vicente Nunes/Correio Braziliense

Dívida pública dispara nos dois governos petistas

Assim que tomou posse em janeiro de 2003, o presidente Lula celebrizou a expressão “herança maldita” numa clara referência ao tamanho da dívida pública (R$ 892,94 bilhões) que recebeu do governo Fernando Henrique Cardoso.

Pois, a se confirmarem as previsões do Tesouro Nacional de que a dívida interna federal pode fechar 2010 em até R$ 1,73 trilhão, Lula repetirá a maldição do antecessor. Entregará, muito provavelmente a José Serra (PSDB) ou a Dilma Rousseff (PT), os dois candidatos à sucessão presidencial mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de votos, um débito quase duas vezes maior do que o que recebeu. (Uma ressalva: se Lula vai entregar o país com um débito duas vezes maior, então, não vai entregar do mesmo jeito que recebeu - e, sim, muito piorado).

“A dívida pública será, sim, uma herança muito ruim a ser herdada pelo próximo presidente da República. Ainda que, a curto prazo, não se dê tanta importância ao assunto, esse endividamento comprometerá a capacidade futura de crescimento do país”, disse o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.

O que está chamando a atenção do mercado é a velocidade com que os débitos vêm crescendo. Em 2009, para um Produto Interno Bruto (PIB) com variação zero, a dívida federal aumentou 7,16%, atingindo o recorde de R$ 1,49 trilhão. Neste ano, conforme o Programa Anual de Financiamento (PAF), a expansão variará entre 6,9% (R$ 1,6 trilhão) e 16% (R$ 1,73 trilhão).

Na avaliação da economista Vitória Saddi, professora do Véris Instituto, é inaceitável que a dívida pública continue aumentando acima do PIB. “Essa velocidade é preocupante, pois pode tornar o endividamento insustentável”, afirmou. A seu ver, o mercado só não está questionando o “movimento perigoso” porque, nos países mais ricos, especialmente os Estados Unidos, a dívida pública explodiu devido aos programas de socorro à economia e a bancos atingidos pela mais grave crise mundial em 80 anos. “Por incrível que pareça, o Brasil está em uma situação melhor. Mas que não é aceitável”, acrescentou.

Para Vitória, também é incompreensível que a dívida federal tenha dado um salto de R$ 100 bilhões no ano passado por causa do processo de capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Em outros países, o socorro aos bancos foi uma exceção, por causa da crise. Mas, no Brasil, parece que está virando regra”, ressaltou. Além do BNDES, o Tesouro Nacional injetou dinheiro na Caixa Econômica Federal e botará recursos no Banco do Brasil. Também estão prometidos pelo menos mais R$ 80 bilhões ao BNDES, que serão liberados ao longo de 2010.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, rebateu as críticas dos economistas e garantiu que o governo não deixará qualquer herança maldita ao sucessor do presidente Lula. “Com certeza, vamos entregar um passivo mobiliário (divida em títulos) melhor do que encontramos no primeiro mandato, em 2003. “As condições que projetamos para o final de 2010 serão infinitamente melhores do que as do fim de 2002”, frisou. Ele ressaltou ainda que 2009 foi um ano “muito bom”, com resultados superiores às expectativas mais otimistas do governo.

Quanto ao reforço de capital do BNDES, Augustin assinalou que a operação teve como objetivo estimular setores-chave da economia, como o de máquinas e equipamentos (bens de capital), vitais para o aumento da produção. “A retomada da atividade econômica está umbilicalmente ligada ao endividamento do governo”, destacou.

No entender do secretário, para que a previsão de crescimento do PIB de 6% em 2010 se confirme será preciso que o banco federal dê sustentação aos planos de investimentos da indústria. “É preciso continuar a capitalizar o BNDES, para que ele continue a fomentar o desenvolvimento da indústria”, emendou.

E eu com isso?

O endividamento crônico do setor público é um grande entrave para o crescimento. Para conseguir quitar os juros da dívida, o governo será obrigado a manter a carga tributária elevada. Ou seja, ao continuarem pagando pesados impostos, as empresas ficarão com menos recursos em caixa para tocar importantes investimentos, que sempre resultam em mais empregos.

O problema fica maior porque o Estado também não terá condições de ampliar os desembolsos para a melhoria da educação, saúde, segurança pública e transportes. Mesmo que continue sugando o caixa das empresas e o salário dos trabalhadores com tributos exagerados, terá que destinar mais e mais recursos para os seus credores — estima-se que a conta de juros passará dos R$ 160 bilhões em 2010, quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa Família, que atende mais de 11 milhões de famílias.

Mas não é só: com a dívida crescente e a dependência do mercado, o governo terá que aceitar pagar juros cada vez maiores aos compradores de seus títulos. Isso significa dizer que haverá limites para que o Banco Central reduza a taxa básica (Selic). E, com a Selic emperrada, o crédito continuará caro. (VN e DB)

Combinação perversa

Quem acompanha com lupa o endividamento do governo alerta: em 2010 haverá uma combinação perversa: débitos crescentes e juros em alta, já que o Banco Central terá que apertar a política monetária para conter pressões inflacionárias advindas do crescimento econômico. “Aumenta a preocupação. O desconforto é grande, apesar de não haver risco de insolvência (calote)”, afirmou o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.

Para ele, o foco não deve ficar restrito à dívida pública federal. É preciso olhar para a dívida bruta (total), que fechou 2009 acima de R$ 2 trilhões, o correspondente a 68% do Produto Interno Bruto (PIB). “Um endividamento desse tamanho sacrifica o crescimento futuro da economia, pois exige mais impostos para o pagamento de juros”, ressaltou.

O incômodo com o perfil gastador e devedor do governo provocou uma queda de braço com os investidores no fim de 2009. Eles passaram a exigir juros maiores (prêmios) para comprar títulos públicos. Com o intuito de evitar tal confronto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, só falta assinar um compromisso em cartório com a garantia de que cumprirá a meta de superávit primário (economia para o pagamento de juros) de 3,3% do PIB este ano.

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, garantiu que, diante das boas condições da economia brasileira, não há motivo para o mercado peitar o governo. “Por isso, não vamos sancionar taxas de juros acima do razoável”, avisou.

O PROBLEMA DA POBREZA [3-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Casimiro De Pina

“…uma sociedade é a combinação, em graus diversos, de uma multidão de elementos heterogêneos: políticos uns, econômicos outros, e religiosos, artísticos, filosóficos, morais, que sei eu? Um todo um conjunto, uma articulação prodigiosamente complicada…”. No entanto, algumas criaturas insistem no erro elementar.

Não se pode equacionar problemas econômicos, como a “competitividade” ou a “eficiência”, sem ter em atenção a concreta sociedade dos homens.

O “homo oeconomicus” é um clichê, uma caricatura, e uma caricatura marxista. A história, ao contrário da doce ilusão socialista, não é a história da “luta de classes” ditada unicamente, ou sobretudo, pelo fator econômico.

Na Idade Média, organizaram-se “cruzadas” que lutavam pela Fé, tentando impor, pela espada, certas concepções aos povos “infiéis”. A religião guiava a sociedade. A “respublica christiana” não era governada pelo dinheiro, mas pela força do Evangelho. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que é possível criar algo como os Beatles ou Dire Straits sem ser por uma paixão louca pela Arte e pela Música? Claro que não.

Os integrantes desses grupos fabulosos ganharam muito dinheiro e receberam royalties, mas havia, sem dúvida, uma força espiritual por detrás do êxito estrondoso. Eles buscavam o Belo! Tentaram interpretar a grandeza da alma humana.

Caso contrário, não teriam feito, como fizeram, grandes canções, melodias de rara beleza capazes de encantar várias gerações de ouvintes. Até hoje.

Marx estava equivocado. O “economismo” é uma teoria inservível e um erro metodológico grave. Peca pelo cinismo. A realidade é muito mais complicada. Ou complexa, se se quiser.

Um grande historiador francês contemporâneo, Lucien Febvre, co-fundador dos Annales d’Histoire Économique et Sociale, escreveu um parágrafo notável a esse respeito.

Disse ele: “…uma sociedade é a combinação, em graus diversos, de uma multidão de elementos heterogêneos: políticos uns, econômicos outros, e religiosos, artísticos, filosóficos, morais, que sei eu? Um todo um conjunto, uma articulação prodigiosamente complicada…”.
No entanto, algumas criaturas insistem no erro elementar.

Há uns anos atrás, eu próprio pude verificar a tremenda força da mentalidade marxista em Cabo Verde, quando uns “cientistas” sociais de carteirinha, com um rendilhado mais ou menos oco, tentaram “explicar” o aumento da criminalidade em função do aumento da pobreza.

A ideia é simples: o dinheiro, a economia, é o fator dominante, a chave mágica da história e dos problemas sociais. Ora, trata-se, como mostrei na altura, de uma “explicação” aberrante e manifestamente absurda. Uma falácia, em suma.

Épocas houve em que Cabo Verde era um país muito mais pobre, mas a criminalidade era, todavia, baixíssima. Por quê? Porque as pessoas tinham uma outra educação e, sobretudo, outros valores.

Havia uma doçura, uma simpatia tão agradável, que, ainda hoje, podemos apreciar nos nossos pais e avós. A cultura cívica degradou-se a olhos vistos, apesar do aumento do PIB e do crescimento econômico.

Nos Estados Unidos da América, a criminalidade atingiu o seu pico mais alto precisamente nos anos 60 do séc. XX, em plena época de prosperidade. Evitemos o simplismo e os cacoetes economicistas. O dinheiro é meramente instrumental.

Eu e você precisamos de dinheiro para realizarmos, unicamente, os nossos planos de vida. É certo que existem pessoas obcecadas com o vil metal. Todos nós conhecemos, aliás, alguns infelizes dessa estirpe. Mas até o avarento (aparentemente) mais estúpido, esse tio Patinhas cujos olhos brilham, rendidos, perante a maravilhosa moedinha de prata!, procura, no fundo, algo mais que o dinheiro: o prestígio, a consideração social.

Quando a vox populi confirmar que ele é, realmente, “o mais rico”, o detentor da maior conta bancária do lugarejo, a sua felicidade será completa! Terá orgasmos intensos e incontroláveis, porque é isso que ele procura, e sempre procurou.

A construção da prosperidade em Cabo Verde não pode abstrair-se dos aspectos morais, religiosos e políticos, os verdadeiros pilares do crescimento econômico.

Temos, à partida, um problema gravíssimo. A confiança é muito baixa em Cabo Verde. O sr. José Maria Neves, visivelmente emocionado, garantiu a Hillary Clinton que o nosso país possui um forte “capital social”. É falso. Redondamente falso.

Os estudos mostram que a população cabo-verdiana é, pelo contrário, altamente desconfiada. Tudo isso condiciona, como se sabe, a atividade econômica, aumentando, em grande medida, a burocracia e os chamados custos de transação. (Consulte-se Robert Putnam sobre esta matéria). O Estado e as instituições não ajudam.

Quem confiará, por exemplo, numa Justiça incapaz de responsabilizar um Primeiro-Ministro que cometeu, num só dia, cerca de meia dúzia de crimes?

José Maria Pereira Neves, cultor da impunidade, é a mais eloquente contra-prova daquilo que ele afirma. Não tem credibilidade para falar de “valores” e do primado da lei. Sidónio Monteiro e Marisa Morais, idem aspas. A moral imagination não existe na Neveslândia.
Além disso, a nossa herança cultural é latina e católica (e o catolicismo, após a Contra-Reforma, combateu a iniciativa privada e a liberdade econômica só a partir da Centesimus Annus, de João Paulo II, é que houve uma compreensão equilibrada do papel do mercado e da criação de riqueza).

Portugal e Espanha possuíam colônias ricas em ouro e outros metais preciosos. Territórios vastíssimos. Mesmo assim, ficaram para trás. Foram ultrapassados por países como a Holanda e a Inglaterra.

Não possuíam, na verdade, o mais importante, a ética econômica, tão bem estudada por Max Weber. As virtudes do trabalho (e, logo, da produtividade), da poupança e da honestidade constituem o segredo do desenvolvimento. A chave da prosperidade. Sem isso, não há progresso, nem “crescimento sustentável”.

Ora, ainda não possuímos estes pré-requisitos. Vivemos na ilusão da “ajuda” e do dinheiro que vem de fora. Cada empréstimo conseguido é festejado ruidosamente nos telejornais, como se fosse um “feito nacional” de primeira grandeza! O efeito disto é o aumento exponencial da dívida pública e o desequilíbrio da balança de pagamentos.

Paulo Monteiro Jr., analisando o “impasse governativo”, com base nas estimativas do Banco de Cabo Verde, põe o dedo na ferida: quanto às contas correntes e de capital, registra-se, para o biênio 2007/2008, “um déficit muito elevado, equivalente a 13% do PIB - uma situação obviamente insustentável, seja qual for o padrão”.

Para o primeiro semestre de 2009, o déficit é de 791.683 milhões de CVE. A nossa cultura é desleixada e brincalhona. No limite, assistencialista. Não dispomos, por enquanto, das conditions of liberty (”condições da liberdade”), que tão intensamente preocuparam Gellner.

Um filósofo português, José Gil, trabalhou um conceito bastante instrutivo: a “não-inscrição”.

É a marca dominante da nossa psicologia coletiva. Sabemos que as regras existem, mas
ninguém as cumpre nem possui, tampouco, vontade de as cumprir. Um breve mas significativo exemplo: todos, ou quase todos, possuem, hoje, um relógio. Mas esse instrumento tão decisivo, tão economicamente relevante, só tem, entre nós, um valor lúdico e facial. É um símbolo inútil. Supérfluo.

Não serve, ao que parece, e como se comprova todos os dias, para garantir a pontualidade e o cumprimento do horário! “Não-inscrição”, pois. O valor prático de um objeto extraordinário e único (uma das maiores invenções da Humanidade) resulta, assim, completamente desvirtuado…

DEU NO BLOG DE LEONARDO SODRÉ

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

“A última novidade do verão é a idéia de alguns donos de embarcações, que trafegam nos mares de Pirangi, de realizar uma prévia de carnaval nos parrachos que ficam a cerca de 800 metros da praia, berçário de várias espécies já ameaçadas pelo constante vai e vem de lanchas, diariamente.O apelido da festa será “Carnaparrachos”.Mas, como vivemos um período de extenso estresse ambiental, muita gente já está criticando a idéia. A farofada momesca dos ricos e novos ricos, se ocorrer, deverá ser hilária. Imagine centenas de pessoas – ou quem sabe milhares -, se equilibrando nas lanchas ou nas pedras afiadas dos parrachos, dançando e fazendo suas necessidades dentro do mar, porque onde danado colocariam banheiros químicos?” (http://www.leonardosodre.blogspot.com/)

M O T E

A rafameia se arrancha
faz carnaval nos parrachos

G L O S A

I)

Nouveau riche vai de lancha,
piranha vai, convidada…
Muito brilho. Enfumaçada,
a rafameia se arrancha!
No cenário de cangancha,
proliferam os rapa-tachos,
as bibas arrumam machos,
farto corre o doze-anos
e a súcia de carcamanos
faz carnaval nos parrachos…!

II)

Político vai, e se escancha
no ouvido dos marqueteiros:
nos sussuros inzoneiros
a rafameia se arrancha…
- “Fulano, será, deslancha?”
- um pergunta, entre os borrachos.
- “Depende dos cambalachos!”
- responde um assessor de imprensa…
A cambada não dispensa:
Faz carnaval nos parrachos!

Laélio Ferreira
janeiro/2010

O PROBLEMA DA POBREZA [2-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Casimiro De Pina

A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser.

Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo.

Em virtude do incrível aumento da produção e da prosperidade geral crescente, as previsões apocalípticas de Malthus não se confirmaram. A prédica era interessante: “Enquanto os recursos crescem numa progressão aritmética, a população cresce numa progressão geométrica”.

Mas nada disso aconteceu. Hayek chama a atenção para um fato decisivo: a relação entre o aumento da população e a melhoria das condições de vida. A Inglaterra tinha, em 1801, nove milhões de habitantes em 1851, tinha já dezoito milhões.

A introdução de máquinas na agricultura aumentou o estoque de alimentos disponíveis. Registaram-se, também, grandes progressos na medicina: bactericidas, antibióticos, etc.

Tudo isso é, contudo, uma pequena parte da história.

Escutemos David Landes: “O aumento considerável da esperança de vida nos dias de hoje deve-se mais às conquistas na área preventiva e à disseminação dos hábitos de higiene… Água limpa e rápida remoção de lixo, aliadas a mais asseio pessoal, marcaram a diferença”.

A infeccão gastrintestinal era uma das doenças mais perigosas, uma calamidade pública. A falta de papel higiênico e de roupas interiores laváveis favorecia, em épocas recuadas, a contaminação (via contacto com dejetos, etc.).

A resposta foi encontrada, explica Landes, “…na inovação industrial. O principal produto da nova tecnologia que conhecemos como a revolução industrial foi o algodão barato e lavável e, paralelamente, a produção em massa de sabão feito de óleos vegetais. Pela primeira vez, o homem comum podia dar-se ao luxo de adquirir roupa interior, outrora conhecida como ‘roupa branca’, porque era feita de linho, o tecido lavável que as pessoas abastadas usavam junto à pele. O indivíduo podia lavar-se com sabão…A higiene pessoal mudou tão drasticamente que as pessoas comuns, dos finais do século XIX e início do século XX, viviam em geral com maior asseio do que os reis e rainhas do século anterior”.

O bem-estar e a riqueza das nações cresceram de uma forma admirável. As fomes cíclicas e coletivas desapareceram, pelo menos nos espaços geográficos atingidos pelo fulgor do novo e criativo sistema econômico.

Houve um crescimento surpreendente da oferta de alimentos e uma melhoria substancial dos transportes. A riqueza produzida podia circular com facilidade e servir, assim, um maior número de pessoas.

Resultado: uma dieta alimentar mais rica, uma vida mais feliz e saudável mil necessidades satisfeitas. O rendimento per capita aumentou consideravelmente.

A mudança social foi de tal ordem que, décadas mais tarde, a retórica anticapitalista foi obrigada a dar uma volta de 360 graus.

Assim, abandonando, por instantes, a falácia marxista de que “os pobres estão a ficar mais pobres”, os intelectuais ressentidos, mestres supremos da arte dialética, passaram a criticar a “alienação” que o sistema provoca, ao produzir cidadãos obcecados com o “consumo e o supérfluo”. Já não se pode alegar o “empobrecimento das massas”? Critique-se, então, o seu estúpido enriquecimento! É esta a linha dos Marcuses e companhia; da crítica econômica passou-se, pois, ao apelo moralizante.

O sistema da “liberdade natural” funciona, hoje, em vários continentes, sempre com resultados apreciáveis. Não se ignora o passivo. Mas as suas vantagens compensam largamente os inconvenientes.

O capitalismo - parafraseando Churchill - é o pior sistema econômico, excetuando todos os outros.

K. Marx, no Manifesto Comunista, imaginou um mundo medieval idílico que nunca existiu.
Partindo de um diagnóstico errado, só podia produzir uma terapêutica desastrosa. O socialismo totalitário, nos sítios infelizes onde se implantou, apenas produziu miséria, opressão e atraso tecnológico.

Cuba e a Venezuela de Chávez são exemplos cintilantes de uma filosofia irrealista (o “ópio dos intelectuais”), contrária à dignidade humana.

A economia de mercado possui, na verdade, como mostrou também João César das Neves (http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1138527), prof. na Universidade Católica de Lisboa, um valor ético, que escapou, lamentavelmente, ao catecismo frouxo do “materialismo dialético”:

A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser.

Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo.

Acima de tudo, são incríveis os ganhos na redução da pobreza. A população mundial na situação de carência (menos de 1,25 dólares por dia) caiu de 35% do total para menos de 26% nos últimos dez anos. Isso significou arrancar à miséria 50 milhões de pessoas por ano.

Quem fez isto não foi a ajuda ao Terceiro Mundo, a caridade cristã ou a sociedade socialista, mas a entrada na economia de mercado pela globalização.

Em Cabo Verde, o regime totalitário do Partido Único, imposto pelo PAIGC/CV a partir da independência nacional, estabeleceu, com base nos dogmas marxistas, uma mentalidade francamente antieconômica.

A iniciativa privada era fortemente combatida, como sinônimo de “egoísmo” e “exploração do homem pelo homem”.

Em virtude de um atavismo incompreensível, Cabo Verde desligou-se do sistema econômico internacional, perdendo oportunidades e atrasando-se notoriamente, em termos, sobretudo, de capacidade tecnológica e ideias inovadoras. Era o “não-alinhamento”, com o subdesenvolvimento e a ineficácia.

O investimento estrangeiro era insignificante. Preferiu-se a “substituição das importações”.
Havia que resguardar a nação da influência maligna do “capital” e dos vilões do Ocidente liberal, segundo as sábias orientações da teologia marxista-leninista!

Os manuais escolares estavam recheados dessas tolices ideológicas.

O Estado dominava as indústrias e controlava a economia.

Quando a odisséia da I República terminou, em 1991, Cabo Verde tinha uma factura caríssima à sua frente: desemprego elevado e uma taxa de crescimento econômico quase nula (cerca de 1%).

O MpD recebeu um país tecnicamente estagnado.

Após um ambicioso programa de reformas (a começar pelo sistema político, com a aprovação da Constituição de 1992, que instituiu o Estado de Direito e a prioridade ontológica da dignidade humana), Cabo Verde começou a mudar, entrando nos eixos do desenvolvimento e da modernidade. Negando o transpersonalismo constitucional de matriz hegeliana, afirmou-se, antes, o pluralismo e a singularidade da condição humana: cada pessoa é um ser livre e responsável, senhor dos seus projectos e do seu destino, “[...] sob o único governo de Deus e das leis”, na síntese primorosa de Tocqueville.

Nos finais da década de 90, os resultados sociais eram claros: um crescimento econômico apreciável (cerca de 8%) e um bom Índice de Desenvolvimento Humano (vide os relatórios do PNUD). O desemprego conheceu uma redução bastante acentuada.

Olavo Correia, num recente artigo publicado no Expresso das Ilhas (5/8/2009, p. 8), tem plena razão.

O PAICV do Sr. José Maria Pereira Neves, ao privilegiar o Estado em vez das empresas, desenhou uma política econômica errada, que não consegue resolver a questão do desemprego, a prioridade máxima de qualquer Governo responsável e de “rosto humano”.
O falhanço é clamoroso. As metas do Programa da atual Legislatura não foram cumpridas.
Alguém falou do “crescimento a dois dígitos”?!

O Governo é mercantilista e o Fisco goza do incrível “privilégio de execução prévia”, herança do absolutismo monárquico.

Quem dá emprego (e inova: criando novos produtos e serviços) são as empresas. Se não houver um enquadramento institucional que estimule a atividade empresarial, e o crescimento econômico, o problema manter-se-á praticamente insolúvel.

Os atuais governantes, apesar da arenga à volta dos “ganhos na economia”, parecem não perceber a raiz do problema.

Olavo aponta, a meu ver, ideias interessantes para sairmos do marasmo. Concordo com quase todas, desde a baixa fiscalidade (um poderoso incentivo da poupança e do investimento, como se verificou na Irlanda) à aposta num Estado mínimo, promotor das empresas e da criação de mais riqueza. É bom ler e discutir as suas propostas. Sensatas.

O Estado liberal não é um Estado ausente. Quem defende, em termos de Filosofia Política, a “extinção do Estado” são dois grupos ideológicos bem identificados: os Marxistas e os Anarquistas. Mais ninguém.

O problema é que muitos continuam a confundir a força do Estado com a sua dimensão.
O Zimbabwe é um Estado grande, altamente interventor, mas simultaneamente fraco. Falta tudo no país, desde a eletricidade aos gêneros alimentícios. O quotidiano popular é surrealista, no meio de uma inflação astronômica e da arbitrariedade policial.

O atraso endêmico é a consequência de uma deliciosa confusão!

Para o pensamento liberal, o Estado é sempre necessário. Garante a Justiça e a ordem pública, assegura a diplomacia, protege os mais fracos, disciplina a concorrência e a atividade econômica. O Estado é o sustentáculo da res publica e da convivência civilizada.
Adam Smith, em pleno séc. XVIII, defendia a intervenção do Estado com vista à educação das classes mais pobres.

Vale a pena lembrar isto, num país, como o nosso, em que o pensamento totalitário, apostado na dezinformatsya, contaminou todo o debate político.

Mas há um ponto que fica em aberto: massificar a Internet, abrir uma Escola de Negócios (”virada para a capacitação do sector privado”), legislar sobre a “flexisegurança” ou certificar as profissões, providências indiscutivelmente acertadas, fazem parte da “engenharia econômica”.

Com um simples Decreto, um burocrata dedicado, um Colbert high tech, pode criar tudo isso.
E a Etica Econômica, tão essencial à formação do capitalismo e à “vocação para o desenvolvimento”? Como se cria? Como se mantém? Pelos votos da maioria?

Abordaremos isso num próximo artigo, tentando explorar algumas facetas da nossa Psicologia Coletiva (o nosso temperamento e a nossa índole) e das relações entre a Economia, a Moral, a Cultura e a Religião.

O tema é difícil e, por isso, não se promete qualquer panacéia. Mas é preciso abrir o debate, tocando, aliás, no ponto-chave do desenvolvimento.

O PROBLEMA DE POBREZA [1-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Por Casimiro De Pina


Em “O problema da pobreza: entre o reducionismo atávico e a compreensão integral”, Casimiro de Pina articula os aspectos morais, religiosos, econômicos e políticos de uma questão que há tempos é discutida de forma parcial e desviada de seus aspectos essenciais, sobretudo por uma casta acadêmica viciada em devaneios ideológicos e por militantes vazios e interesseiros.

A pobreza é uma questão moderna. Melhor: um subproduto da modernidade, enquanto “questão social”.

Uma encíclica papal (Rerum Novarum), de 1891, debruçou-se justamente sobre essa temática, à luz da Fé e dos ensinamentos do Evangelho. O nascimento da própria ciência econômica está intimamente vinculado ao nosso inquietante problema. Numa carta dirigida a Ricardo, datada de 26 de Janeiro de 1817, Thomas Malthus clarifica este ponto de vista: “[...] as causas da riqueza e da pobreza das nações - o grande objetivo de todas as investigações em economia política”.

A economia é, nessa linha, uma disciplina humanística, centrada na promoção da riqueza e da prosperidade geral. É com esta declaração impressiva que David Landes, professor em Harvard, abre o seu monumental A Riqueza e a Pobreza das Nações (Gradiva, 2002), um livro de leitura obrigatória, sem o qual, como escreveu o scholar Bradford DeLong, no Washington Post, “Não é possível começar sequer a pensar sobre os problemas do desenvolvimento”.

Objeto de discussão apaixonada nos areópagos internacionais, a pobreza ganhou, sem dúvida, um estatuto de primeira grandeza, dividindo a opinião pública e alimentando clivagens ideológicas.

Bono (o vocalista dos U2) e outras figuras do show business, encavalitados no humanitarismo fácil, atribuíram-na um cunho de espectáculo e protesto emocionado. A pobreza é celebrada e causticada, mas raras vezes merece um exame sereno e informado. Os fatos, esses, são muitas vezes desprezados, numa atitude intelectual que impressiona pela ligeireza e vacuidade da análise.

Durante milênios, a humanidade viveu sob o peso cruel da indigência e da carestia. A pobreza foi assim, desde tempos imemoriais, a condição normal dos povos e das civilizações.
A pobreza, e não a riqueza, foi, no passado, a fiel companheira da espécie humana.

Jean-François Revel recorda-nos, a propósito, numa fórmula precisa, esta verdade incontestável: “Sociedades sem crescimento”, resumo da história econômica num arco temporal que vai do Neolítico às vésperas da Revolução Industrial.

Havia, é certo, pequenos “oásis de prosperidade”, mas a condição rotineira das massas (leia-se: da imensa maioria da população, os “condenados da terra”, no dizer de Fanon) era paupérrima e degradante. As cidades eram insalubres. Não tinham qualquer sistema de saneamento básico, nem dispunham de iluminação pública. Recolha periódica do lixo? Não havia.

Os campos, círculos de rotina e hábitos ancestrais, na melancolia do pitoresco, vegetavam na mais completa penúria, entregues às vicissitudes da sorte e ao capricho das estações. Reinava o arbítrio da Natureza! As jacqueries (revolta de camponeses) eram frequentes na Europa.

Até as famílias mais ricas e aristocráticas viviam num certo desconforto, o qual, nos dias de hoje, seria motivo de incompreensão e riso generalizado.

O magnífico Luis XIV (esse mesmo que, do alto do seu poderio, proclamava: “L’État, c’est moi!”) não tinha uma simples casa de banho. Os dejectos do palácio real eram despejados nas redondezas, numa operação roll on-roll off pouco civilizada! Não havia papel higiênico em Versailles. As damas de Paris, senhoras de uma elegância quase mítica, não tinham nada parecido com o actual “penso higiênico”. Não me perguntem, por favor, como elas faziam, nos momentos de aperto biológico!…

Os salões da “alta sociedade” podiam ser espaços requintados, animados por poetas e músicos talentosos, mas imperava, ainda assim, a escassez de bens e produtos indispensáveis. Não havia, nessa altura, aspirinas para aliviar uma repentina dor de cabeça.

A atmosfera circundante era pobre, mesmo nas maiores metrópoles europeias. Em 1709, a França viveu uma grande fome. Dois milhões de pessoas pereceram. A desordem social acompanhava, normalmente, o movimento do flagelo. E o “bas-fond” da sociedade refletia, até certo ponto, esse estado de coisas. Victor Hugo captou esse quadro, de forma magistral, num dos seus romances mais famosos: Les Misérables. As casas das classes baixas não possuíam nenhum sinal de conforto.

O recheio circunscrevia-se a uma ou outra peça de mobiliário tosco. Faltavam talheres não havia estantes, nem sofás. Mesmo na França, o mais rico país europeu até finais do séc. XVIII, as famílias raramente comiam carne. Só as classes abastadas podiam beber cerveja. A esperança média de vida não ia além dos 35 anos.

Os membros da família amontoavam-se, não raras vezes, e num caldo de promiscuidade, num mesmíssimo e reduzido aposento. A residência era infestada por insectos e parasitas, foco de várias doenças e incomodidade. As crianças e as mulheres andavam descalças. Vestia-se blusões e calções de sarja. A indumentária era mínima. Uma florescente “indústria” caseira de remendos, profissão predominantemente feminina, foi, durante muito tempo, a solução encontrada para resolver a escassez.

O Inverno, sobretudo nos anos mais frios, era um suplício. A “superfície da existência humana” (Norbert Elias) era, portanto, frágil e miserável, numa sociedade marcada pela estagnação econômica - o jogo de soma zero. Quando surgia uma epidemia, a falta geral de condições sanitárias fazia com que a situação ganhasse, numa espécie de efeito multiplicador, a dimensão de uma tragédia. Populações inteiras eram dizimadas.

A Irlanda (hoje uma nação rica e desenvolvida) atravessou períodos de fome catastróficos, o que levou Jonathan Swift, em 1729, a propor receitas jocosas (Modest Proposal) com vista à resolução do magno problema nacional.

Tratava-se, evidentemente, de um país atrasado, preso a um sistema econômico feudal, ineficiente, tecnologicamente deficitário e pré-capitalista. Hegel, o notável filósofo do Estado e do “fim da história” (tese engenhosa que os ignaros e a intelectuária esquerdista atribuem ao pobre Fukuyama), morreu de cólera, uma doença engendrada pela imundície, quando a cidade de Berlim, onde se encontrava ao tempo, foi fustigada pela horrível moléstia.

Foi a Revolução Industrial que criou o conceito de abundância e resolveu o problema milenar da escassez. Nasce aqui, como resultado da poderosa revolução epistemológica trazida pelo capitalismo liberal, a tal “questão social”.

Os espíritos mais subtis perceberam que algo inédito estava a acontecer. Era possível vencer a pobreza! Abriu-se um novo campo de estudo e investigação científica. A literatura socialista destaca a longa jornada de trabalho e a exploração infantil nas fábricas do séc. XIX, mas omite, tendenciosamente, a condição social anterior daqueles que procuravam trabalho nas cidades industriais da Inglaterra.

A industrialização, criando uma gama vastíssima de bens e serviços, aliviou grandemente a pobreza, a fome e a carestia generalizada das épocas anteriores. Foi, pois, um progresso extraordinário.

Hoje, uma pessoa comum vive com um grau de conforto superior aos monarcas e nobres do séc. XVII. Muitos possuem TV, telefones celulares, casa de banho, automóvel, rádio, água canalizada, frigorífico e um conjunto de outras vantagens propiciadas pela tecnologia moderna.

O capitalismo (ou “economia de mercado”) é, como bem notou Schumpeter, um sistema de “destruição criativa”. A electricidade substituiu a lamparina o telefone tomou o lugar do pombo-correio e do telégrafo, o computador sucedeu à velha máquina de escrever, e assim por diante.

Lênin, impressionado pela opulência capitalista, chegou a definir o socialismo deste modo curioso: “eletricidade mais sovietes”.

Vejam, nos nossos dias, a história do telefone celular. No início, só uma pequena elite (executivos, políticos, etc.) podia adquirir esse bem raro. Era, então, uma questão de status e símbolo de poder econômico. Atender uma chamada no meio da multidão dos have not era o cúmulo da sofisticação - um suspiro mágico e de sedução! Pouco tempo depois, porém, toda a gente já podia adquiri-lo.

O seu uso democratizou-se. Há dias, este vosso criado presenciou, em Ribeira do Ilhéu, uma cena tocante: em pleno trabalho agrícola (a sementeira), jovens usavam o telefone celular, conversando, alegremente, com pessoas amigas. Por meio desse aparelho revolucionário, podem trocar “mensagens” e falar com os seus familiares na terra longe.

As vantagens, em termos de liberdade e facilidade de contactos, são incalculáveis. Adam Smith estava certo: o sistema capitalista cria um estado de “opulência geral”. A concorrência entre empresas, sob regras claras e imparciais (fair-play), gera a inovação e oferece, decerto, benefícios crescentes à população e aos consumidores.

NOVA INVESTIDA CONTRA A DEMOCRACIA

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


O Estado de S. Paulo
- SP, Editorial, em 19/01/2010

Vem aí mais um ataque à liberdade de informação e de opinião, preparado não por skinheads ou outros grupos de arruaceiros, mas por bandos igualmente antidemocráticos, patrocinados e coordenados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A 2ª Conferência Nacional de Cultura, programada para março, foi concebida como parte de um amplo esforço de liquidação do Estado de Direito e de instalação, no Brasil, de um regime autoritário.

O controle dos meios de comunicação, da produção artística e da investigação científica e tecnológica é parte essencial desse projeto e também consta do Programa Nacional de Direitos Humanos, outra desastrosa proposta do governo petista.

O texto-base da conferência poderia figurar num museu de teratologia política, como exemplo do alcance da estupidez humana. Antes de enviá-lo para lá, no entanto, será preciso evitar a sua conversão em roteiro oficial de uma política de comunicação, ciência e Cultura.

A palavra Cultura, naquele texto, é usada com tanta propriedade quanto o verbo “libertar” na frase famosa “o trabalho liberta”, instalada sobre o portão de Auschwitz. “O monopólio dos meios de comunicação”, segundo o documento, “representa uma ameaça à democracia e aos direitos humanos.” É verdade, mas não existe esse monopólio no Brasil nem nas verdadeiras democracias.

Um regime desse tipo existe em Cuba, como existiu noutras sociedades submetidas a regimes totalitários, sem espaço para a informação, a opinião e o confronto livre de ideias.

Muitos dos companheiros do presidente Lula, entre eles alguns de seus ministros, nunca desistiram da implantação de algo semelhante no País. Segundo Lula, sua carreira política teria sido impossível sem a liberdade de imprensa, mas hoje essa liberdade é um empecilho a seus projetos de poder.

O documento defende “maior controle social” sobre a gestão de rádios e TVs públicas. Mas “controle social”, em regimes sem liberdade de informação e de opinião, significa na prática o controle total exercido pelo pequeno grupo instalado no poder. Nenhum regime autoritário funcionou de outra forma. Também a palavra “social”, nesse caso, tem um significado muito diferente de seu valor de face.

É preciso igualmente controlar a tecnologia: este princípio foi adotado desde o começo do governo Lula. Sua aplicação só não liquidou a Embrapa, um centro de tecnologia respeitado em todo o mundo, porque a maioria da comunidade científica reagiu. A imprensa teve papel essencial nessa defesa da melhor tradição de pesquisa. Isso a companheirada não perdoa. No caso do presidente Lula, o desagrado em relação à imprensa é reforçado por uma espécie de alergia: ele tem azia quando lê jornais.

Mas o objetivo não é apenas controlar a pesquisa. É também submetê-la a certos “modelos”. “No Brasil, aprendemos pouco com as culturas indígenas; ao contrário, o País ainda está preso ao modelo colonial, extrativista, perdulário e sem compromisso com a preservação dos recursos naturais”, segundo o documento.

Cultura extrativista, ao contrário do imaginado pelo companheiro-redator desse amontoado de bobagens, era, sim, a Cultura indígena. O agronegócio brasileiro, modernizado, eficiente e competitivo, não tem nada de colonial, nem na sua organização predominante nem na sua tecnologia, em grande parte fornecida pela pesquisa nacional de mais alta qualidade. Ou talvez o autor daquela catadupa de besteiras considere colonial a produção de automóveis, tratores, equipamentos industriais e aviões. Não deixa de ter razão. Os índios não fabricavam nenhum desses produtos, mas indígenas das novas gerações não parecem desprezar essas tecnologias.

Segundo a secretária de Articulação Institucional do Ministério da Cultura, Silvana Lumachi Meireles, nenhuma proposta contida no documento pode gerar polêmica.

Todos os itens, argumentou, foram referendados em conferências regionais.

Mas conferências desse tipo não têm o poder de transformar tolices em ideias inteligentes nem propostas autoritárias em projetos democráticos. O governo insistirá, a imprensa continuará resistindo.

A oposição poderia ajudar a conter esse projeto insano, se deixasse o comodismo e mostrasse mais disposição para defender a democracia do que mostrou diante do ameaçador decreto dos direitos humanos.

O VÍRUS TOTALITÁRIO

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Por Nivaldo Cordeiro, de Mídia Sem Máscara

A epidemia viral de novos “direito humanos” tornou-se o mantra do movimento revolucionário, a ponto de proclamarem como direito humano até mesmo a ação terrorista de quando estavam na clandestinidade.

O movimento revolucionário tem agido em escala mundial e mesmo quando o Ocidente derrotava as experiências totalitárias mais malignas do século XX, como ao fim da Segunda Guerra mundial, ele agia na calada da noite, aproveitando-se que as pessoas estavam desarmadas de espírito e não enxergavam a amplitude da maldade em gestação.

Ao término da Segunda Guerra mundial tivemos, coincidentemente, a promulgação solene da Declaração dos Direitos Humanos pela ONU, baluarte que se tornou do movimento revolucionário e o centro de construção da moderna Cosmópolis, o governo mundial. Os democratas não perceberam o veneno contido no documento.

É com base nessa Declaração maldita, ela própria herdeira do jacobinismo da Revolução Francesa, que o PT e as esquerdas estão propondo as sucessivas “conferências nacionais”, instrumento pelo qual tentam fazer um arremedo de democracia direta e um ensaio geral da tomada final do poder total, a coincidir com o término do governo Lula e o possível início do governo Dilma.

Os direitos constitucionais, sempre negativos, sempre na direção de impedir que o monstro estatal interfira na existência cotidiana dos cidadãos, ganharam a roupagem do “direito positivo”, melhor dito impositivo. Não mais o direito como garantia individual, mas como uma obrigação de grupos para com aqueles contemplados como sujeitos dos novos falsos direitos proclamados.

A epidemia viral de novos “direito humanos” tornou-se o mantra do movimento revolucionário, a ponto de proclamarem como direito humano até mesmo a ação terrorista de quando estavam na clandestinidade.

A falsificação não se restringe à expressão semântica, mas se estende à construção da ordem jurídica. Se o projeto dos celerados que administram as tais conferência nacionais for à frente em breve o regime de livre empresa desaparecerá do Brasil, assim como as liberdades como a conhecemos.

Eles querem que o único sujeito político seja o Partido, utilizando o instrumento dos tais “movimentos sociais”, que nada mais são do que a vanguarda do movimento revolucionário. Caminhamos a passos largos para a fusão do Partido com o Estado.

Nos últimos trinta anos essa gente teve campo livre para fazer seu proselitismo e sua ação política, a ponto de praticamente todos os meios de comunicação e as pessoas de bem também passarem a defender a falsificação dos direitos humanos como se contivessem algo de bom.

Com o vírus revolucionário agindo ativamente por meio das conferências até mesmo antigos combatentes pela liberdade, que haviam aderido à ordem institucional do PT, falsificada pela Carta ao Povo Brasileiro, acordaram. É com muita alegria que tenho lido os últimos editorais do jornal Estadão abordando o assunto, corajosos, lúcidos, enfáticos. O editorial de hoje, por exemplo, “Investida contra a democracia”, é daquelas peças que devem ser guardadas e relembradas.

É de se esperar que os demais órgãos de comunicação sigam o exemplo e aqui penso especificamente no Grupo Globo, que não pode ignorar que é ele mesmo o alvo principal dos revolucionários.

Especialmente o jornal O Globo precisa seguir os passos do jornal paulista, até por uma questão de sobrevivência.

Os revolucionários petistas não querem menos que a sua destruição, não há mais o que negociar ou o que ceder. É o tempo do enfrentamento, na verdade o tempo era aquele da época da posse do Lula.

A elite brasileira quis deixar-se enganar com a ilusão de que o PT abjurara tudo aquilo que escreveu nos seus documentos internos e tudo que constituía as crenças de suas principais lideranças. Um engano fatal.

Eu me sinto pessoalmente gratificado com modificação da linha editorial do Estadão, eu que, nos últimos meses, tenho escrito como media watch para o jornal eletrônico Mídia Sem Máscara.

Quantas vezes apontei e lastimei a linha esquerdista do Estadão! Em boa hora vejo aquela casa editorial retomar as suas antigas bandeiras de luta, de corte liberal.

Quando eu decidi oferecer o curso AS ARMADILHAS DA LEI, no Instituto Internacional de Ciências Sociais - IICS, é porque toda a coisa da conspiração petista estava clara para mim e me propus a ir buscar as respostas teóricas para o fenômeno, que antes de ser político é filosófico. O curso demandou um grande trabalho de pesquisa, mas eu finalmente pude apresentar aos alunos o resultado das minhas investigações, com êxito.

Parte desse trabalho eu tenho apresentado nos artigos que tenho publicado. No presente momento o mesmo curso está sendo apresentado a uma turma privada, na cidade do Rio de Janeiro. Isso mostra que as pessoas sérias estão debruçadas e preocupadas com o problema. O vírus do totalitarismo tinha a seu favor o desconhecimento. Agora não mais. Ao menos no âmbito da filosofia política eu posso dizer que logrei recuperar os elos históricos e colocar em evidência os pensadores que destrincharam o enigma.

Não posso aqui deixar de exaltar o trabalho majestoso de Olavo de Carvalho, que, como um arauto, há mais de vinte anos vem dizendo os detalhes da realidade revolucionária que nos cerca. Aqueles que quiserem ter a história completa do que se passou e o prognóstico do que nos espera devem ler a sua obra. Está tudo lá. Olavo é o único pensador que tem o crédito de dizer que jamais se enganou e que não se acovardou diante da tarefa hercúlea de comunicar aos brasileiros, diante do ceticismo geral, a tragédia que estava nos aguardando.

O tempo da tragédia é chegado.

Caro leitor, vivemos no Brasil de hoje como os alemães viveram no começo dos anos trinta: à espera do pior. Não cabem mais meias palavras nem a tolerância para com os portadores do vírus revolucionário. É o tempo do bom combate.

VENEZUELA: ARBÍTRIO EXPLÍCITO

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Do Editorial do Zero Hora

Hugo Chávez, na busca do que eufemisticamente está sendo chamado de “hegemonia comunicacional”, atropelou mais uma vez a liberdade de imprensa em seu país. Seu governo determinou a suspensão do sinal da RCTV (Rádio Caracas Televisão), que se recusou a integrar uma rede nacional para transmitir um discurso do presidente a seus apoiadores, no sábado.

Essa emissora, quando era a mais importante voz a criticar Chávez, em 2007, não conseguiu renovar sua concessão e, apesar de ser a mais importante emissora venezuelana em canal aberto, foi forçada a migrar para a transmissão a cabo. Mesmo assim, manteve boa parte de sua audiência e continuou criticando o governo. Agora, o presidente usa o pretexto da rede nacional para calar essa voz incômoda e as de outros cinco canais.

A marcha batida do presidente Chávez contra a liberdade de expressão fez outras vítimas além dessas. Em julho do ano passado, a Comissão Nacional de Telecomunicações revogou a concessão de 240 emissoras de rádio AM e FM, sob a alegação de que haviam perdido um prazo de recadastramento.

E a Globovisión, que atualmente canaliza as reações contra o arbítrio governamental, tem sido ameaçada por autoridades e por manifestantes chavistas, acusada de fazer “terrorismo midiático” apenas porque não se conforma em dançar na toada do coronel-presidente.

Num processo que expõe a vocação totalitária de alguns governantes do continente, esse avanço agressivo sobre um princípio tão caro e tão essencial às democracias como é o da liberdade de imprensa representa um retrocesso.

Infelizmente, tal viés liberticida encontra defensores e seguidores, como está acontecendo no Equador e na Bolívia, como chegou a conquistar a maioria parlamentar argentina e como, vez por outra, renasce em projetos do governo brasileiro.

A VIOLÊNCIA CONTRA A MÍDIA

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Do Editorial do Correio Braziliense

Tornou-se lugar-comum afirmar que uma imagem vale mais que mil palavras. Mas, apesar de exaustivamente repetido, há vezes em que o chavão traduz melhor a mensagem que se quer transmitir. É o caso das manobras de Hugo Chávez. O presidente venezuelano mandou imprimir a Constituição em edição de bolso. O livrinho o acompanha 24 horas por dia. Nos comícios, nas entrevistas ou nos despachos, brande a Carta à vista de todos.

A cena é emblemática. Chávez usa os mecanismos da democracia para pisar a democracia. Ao longo de 10 anos de mandato, emendou a Constituição e aprovou leis com um objetivo claro — colocar o arcabouço legal a serviço do próprio projeto.

Ainda que consultas populares sejam prática frequente, com a manutenção das eleições e a convocação constante de referendos e plebiscitos, há dúvidas quanto à prevalência no país de predicados caros ao Estado Democrático de Direito. Primeiro, é tênue a independência dos poderes.

Depois, não há regras claras, estáveis.

A lei muda ao sabor das conveniências, em ambiente de insegurança jurídica. A mídia é silenciada quando ousa criticar o governo. A oposição é tratada a ferro e fogo. O tal socialismo bolivariano, que nem ele sabe conceituar, justifica as medidas totalitárias que se vêm tornando constantes no país. Ante os protestos de uma oposição quase inexistente, diz estar cumprindo os mandamentos da lei.

Não foi outro o argumento utilizado para justificar mais um ataque à imprensa. Por determinação governamental, o canal de televisão a cabo independente Radio Caracas Televisión Internacional (RCTV) teve o sinal suspenso às 24h de 23 de janeiro.

A justificativa para o ato de violência, que atingiu mais cinco canais, foi o desrespeito à nova legislação do setor que entrou em vigor na semana passada. A norma obriga os canais com ao menos 70% do conteúdo produzido na Venezuela a transmitir programas oficiais sempre que solicitado. A TV punida não pôs no ar a íntegra do discurso do presidente.

Trata-se do segundo ataque à RCTV. Em 2007, o canal, um dos mais populares da Venezuela, teve de migrar para a TV a cabo. Chávez alegou que a emissora teria apoiado o golpe de Estado que tentou apeá-lo do poder em 2002. Com a mudança, a RCTV perdeu audiência, mas estima-se que um terço dos lares ainda lhe acompanhe a programação. Dezenas de veículos, entre os quais 34 emissoras de rádio e duas de tevê, foram alvo de sanções do Estado. Agora, a estatística engorda.

Analistas avaliam a ofensiva contra a mídia como medida desesperada para desviar a atenção de problemas internos sérios cuja responsabilidade não pode ser atribuída à oposição.

A situação interna tira o sono de Hugo Chávez. Inflação alta, desabastecimento e violência são ingredientes capazes de implodir qualquer governo. O dinheiro do petróleo ajuda-o a manter-se no poder. Mas a paciência popular tem limites. Daqui a oito meses haverá eleições legislativas no país. A resposta dos cidadãos talvez não seja a que Chávez gostaria de ouvir.