OMISSÃO E IMPUNIDADE
Transcrito do Novo Jornal
Por Franklin Jorge, editor de Opinião, Cultura e Midway
Li, aqui no NOVO JORNAL, que o Ministério Público Eleitoral não viu, na propaganda do Governo do Estado, nenhum indicio de campanha eleitoral extemporânea em favor do vice governador Iberê Ferreira de Souza e da própria governadora, Wilma de Faria, que disputará o Senado.
A maratona de shows, sob a denominação de Verão de Todos e de regabofes com lideranças, não lhe parece nada de mais, mesmo considerando-se o uso de parte do slogan do governo que se de diz “de todos”, fato sobejamente divulgado pelos meios de comunicação.
A propósito, não me lembro de Wilma ter, em sete anos de governo, promovido outros festivais de verão, apesar de seu espírito festeiro e insensível aos parâmetros ditados pela lei em vigor. Um investimento desses, no último ano do seu governo, parece-nos sumamente suspeito e, portanto, merecedor de uma investigação rigorosa.
Todo o Rio Grande do Norte tem acompanhado a maratona da governadora, do litoral ao sertão, esbaldando-se em uma interminável festança, acompanhada do vice e governadorável que, apesar de seus esforços, ainda não decolou na preferência popular, como uma espécie de “Dilma sem peruca”, ou seja, como um candidato que não caiu no gosto do povo.
Ontem mesmo, quando vinha para o trabalho, o assunto dentro do ônibus era justamente a farra da governadora e a omissão da Justiça Eleitoral num caso que salta aos olhos de todos, exceto da própria Justiça, naturalmente, que é cega de nascença e disso se jacta.
Ora, nada mais explicito do que essa farra sem fim, capitaneada pela governadora, que não se acanha dessa gastança enquanto falta tudo nos hospitais públicos, como enfatizava, em estado de indignação, um senhor idoso que subiu no ônibus numa parada próxima do Hospital Walfredo Gurgel.
Porém, para o Ministério Público Eleitoral, tais indícios – como o festival Verão de Todos, por exemplo – não são suficientes. Um cenário armado, como se viu em toda a parte, para dar visibilidade aos apressados candidatos que usam o dinheiro público para a autopromoção mais deslavada e cínica.
E, como bem colocou uma senhora que se sentava ao meu lado, talvez a Justiça espere da governadora uma confissão de próprio punho e firma reconhecida em cartório, declarando-se culpada de promover semelhante barulheira em causa própria.
E, o que é pior – acrescento eu -, mandando a conta para os contribuintes, que sempre pagam os erros e os equívocos dos maus governantes…
A impunidade encoraja. Portanto, não admira que, recentemente, numa reunião com cabos eleitorais, a própria governadora tenha tripudiado da discrição que deve caracterizar um chefe de governo, ao desafiar os seus adversários a provar que estava fora da lei, ao agir daquela forma, ou seja, ao promover reuniões intencionalmente de cunho eleitoreiro…
Às voltas com tais enredos, veio-me à memória uma página antológica, escrita pelo maior estilista que o Ceará-Mirim já teve, que transcrevo a seguir como uma contribuição à cultura política.
Uma página que devia constar, obrigatoriamente, de uma antologia que valorizasse o civismo, a moral e a ética de um povo.
Leiamo-lo:
Degradação
Por Edgar Barbosa
A causa mais funesta da degradação de uma magistratura é a submissão passiva ou procurada aos galanteios da política e às instâncias palacianas.
Não se pede ao juiz que seja um anacoreta, uma vestal trancada em seu templo, um fetiche envolvido no véu fatal de Tanit.
Mas se exige que guarde nas relações pessoais com representantes dos outros poderes, na convivência com os políticos, no intercambio protocolar com o governo, a discrição e a sobriedade que são complementos da toga e sem as quais esta passará a ser uma túnica de Nessus, um labéu de irrisão e fraqueza.
A justiça sofre por toda a parte com a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia. Porque, como o apuízeiro amazônico, o regime enleia, parasita e constrange o cerne de todas as suas instituições e tenta, em sua agonia prolongada, não morrer sozinho.
Esta é, pois, a hora do sacrifício e da coragem, aquela vigésima quinta hora a que se referia, em livro recente, um escritor romeno.
Quem aceitou a missão da Justiça e não assinou com algum dos Mefistofeles que nos rodeiam, o pacto mortal, deve viver preparado para todas as decepções.
Não transigir, não renunciar.
E sim permanecer Juiz sem temer o espírito daquele grande déspota asiático que mandava arrancar a pele dos juízes fracos que, como tributários de um deus bárbaro, acendem velas nas escadarias dos palácios, entre genuflexões e louvores equívocos.
Fragmento do livro Imagens do Tempo