Arquivo de 4 de fevereiro de 2010

REENCAMINHANDO

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Da Redação

 

Recebemos do poeta e nosso ilustre colaborador, Laélio Ferreira de Melo, cópia da correspondencia que ele enviou ao escultor Ery Medeiros, abaixo reproduzida:

De: Laélio Ferreira de Melo

Data: 01/02/2010 20:59:22

Para: Ery Medeiros

Assunto: Busto de Othoniel Menezes

 

Senhor Ery Medeiros.

 

Há alguns meses atrás, vários meses, encomendei a Vossa Senhoria um busto de Othoniel Menezes, meu Pai.

Estive na sua residência/estúdio várias vezes, tanto só, quanto na companhia de filhos, dando sugestões acerca da fisionomia do poeta, por final aprovando o modelo (em cerâmica) que nos foi apresentado na última visita.

De lá para cá - apesar de ter o senhor solicitado e RECEBIDO, mediante cheques do Banco do Brasil S/A (Agência do Natal Shopping)  bem mais do que CINCOENTA POR CENTO do valor acordado de Cr$. 9.000,00 pela totalidade dos serviços prestados -, até a presente data (01 de fevereiro de 2010), sem me oferecer nenhuma satisfação ou justificativa, NÃO ENTREGOU a obra contratada.

A última e breve notícia que tive do tal busto me foi dada hoje pela Professora Isaura Rosado, a quem solicitei informações, levando em conta que foi ela a pessoa que indicou Vossa Senhoria para a realização do trabalho artístico. Disse-me a professora que o Senhor não lhe dera sequer data para a entrega da peça acabada em bronze, afirmando tão-somente que “estava queimando (a peça)”.

Manifesto, agora, o meu protesto contra a sua limitada - e para mim inútil - ”informação”.

Tenho compromissos com a família e com terceiros, a esta altura inadiáveis, para a aposição do busto em local por mim escolhido, no DIA 10 DE MARÇO do presente ano, nesta Capital.

À vista do exposto, vou aguardar, no menor espaço de tempo que lhe for possível, a sua inteira, necessária e imprescidível manifestação a respeito. Tudo, sob pena de, no foro apropriado, tomar as providências que o caso requer.

 

Laélio Ferreira de Melo

oileal@oi.com.br

Telefones:

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     Convencional 3201 2076

BRASIL: CULTURA E EDUCAÇÃO DE MAL A PIOR

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Por Olavo de Carvalho, filósofo e escritor

Em editorial do dia 25 último, a Folha de S.Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76° para o 88° lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa na verdade um progresso formidável. Não vou nem entrar na discussão. Entre a Unesco, o Ministério da Educação e o jornal do sr. Frias, não sei em quem confio menos. Mas confio nos testes internacionais em que os nossos alunos do curso médio tiram invariavelmente os últimos lugares entre concorrentes de três dezenas de países. Numa dessas ocasiões o então ministro da Educação buscou até consolar-se mediante a alegação sublime de que “poderia ter sido pior”. Claro: se ele próprio fizesse o teste, a banca teria de criar ad hoc um lugar abaixo do último. Seríamos hors concours no sentido descendente do termo.

Confio também na proporção matemática entre o número de profissionais da ciência em cada país e o de seus trabalhos científicos citados em outros trabalhos, tal como aparece no banco de dados da Scimago (v. o site do prof. Marcelo Hermes). Aí vê-se que, em número de citações — medida da sua importância para a ciência mundial –, os cientistas brasileiros vêm caindo de posto com a mesma velocidade com que, forçada pelo CNPq e pela Capes, aumenta de ano para ano a sua produção de trabalhos escritos. Ou seja: quanto mais escrevem, menos utilidade o que escrevem tem para o progresso da ciência. Em medicina, passamos do 24° lugar, em 1997, para o 36° em 2008. Em bioquímica e genética, no mesmo período, do 19° para o 36°. Em biologia e agricultura, do 18° para o 32°. Em química, do 15° para o 28°. Em física e astronomia, do 18° para o 29°. Em matemática, do 13° para o 28°. Não houve um só setor em que os nossos cientistas não escrevessem cada vez mais coisas com cada vez menos conteúdo aproveitável para os outros cientistas. Em doses crescentes, o que se entende por ciência no Brasil vai-se tornando puro fingimento burocrático, pago com dinheiro público em doses também crescentes. Segundo o prof. Hermes, a coisa começou em 2003, mas piorou muito (ele grafa “muito” com letras maiúsculas) entre 2005 e 2008.

No entanto, de 1999 a 2009 “houve um aumento de 133 por cento no número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. O investimento do ministério da Ciência e Tecnologia neste setor duplicou de 2000 a 2007. O investimento privado também aumentou nesse período”.

Obviamente, portanto, o que está faltando não é dinheiro. É o CNPq, a Capes e o governo em geral admitirem que há uma diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Se essa diferença parece obscura ou inexistente para os atuais senhores das verbas científicas no Brasil (bem como para a mídia que os bajula), fenômeno similar ocorre na educação primária e média, onde o governo dá cada vez menos educação a um número cada vez maior de alunos, democratizando a ignorância como jamais se viu neste mundo.

Mas, esperem aí, coisa parecida também não acontece no ramo editorial, onde a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem? Confio, quanto a esse ponto, na minha própria memória de leitor. Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos, vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nélson Rodrigues, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior, além dos importados Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld e tutti quanti. Que me perdoem as omissões, muitas e volumosas. O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo. Agora temos o quê? Fora os sobreviventes nonagenários e centenários, dos quais não se pode exigir que repitam as glórias do passado, é tudo uma miséria só, uma fraqueza, a obscuridade turva do pensamento, a paralisia covarde da imaginação e a impotência da linguagem. “Cultura”, hoje, é rap, funk e camisinhas, “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou — caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays — para a invasão de fazendas, “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial, e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Será possível que todas essas quedas, paralelas no tempo e iguais em velocidade, tenham sido fenômenos autônomos, separados, casuais, sem conexão uns com os outros? Ou, ao contrário, compõem solidariamente, como efeitos de um mesmo processo causal geral, o quadro unitário da autodestruição da inteligência nacional?

E será mera coincidência que toda essa corrupção mental sem paralelo no mundo tenha sobrevindo ao Brasil justamente nas décadas em que a intromissão do governo na educação e na cultura veio crescendo até ao ponto de poder, hoje, assumir abertamente suas intenções dirigistas e controladoras sem que isto cause escândalo e revolta proporcionais ao tamanho do mal?

A resposta a essas duas perguntas é: Não, obviamente não. A História não se compõe de curiosas coincidências. A debacle da vida intelectual no Brasil é um processo geral, unitário, coerente e contínuo há várias décadas, e o fator que unifica as suas manifestações nos diversos campos chama-se: intromissão estatal, governo invasivo, controle oficial e transformação da cultura e da educação em instrumentos de propaganda, manipulação e corrupção.

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do seu presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for totalmente destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

A Segunda Conferência Nacional de Cultura e o Plano Nacional de Direitos Humanos não passam de conspirações criminosas destinadas a agravar consideravelmente esses males que já deveriam ter sido extirpados há muito tempo.

CARTAS DE COTOVELO [8]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

  

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado/veranista

 

A nossa casa de praia teve a alegria de receber uma visita querida, que nos levou a um passado marcante dos anos 50, quando éramos, ainda adolescente. Refiro-me a Edílson Avelino dos Santos (Didi Avelino), irmão de Edmilson, que foi comigo e Odúlio Botelho – os meninos prodígio da Rádio Poti de Natal. Em verdade, no tempo em que freqüentamos a casa de Seu Chico Avelino, ali pertinho da Maternidade Januário Cicco, Didi era uma criança.

A sua descoberta aconteceu no ano passado, quando navegava pela internet em busca de alguma informação sobre Edmilson, já falecido, para complementação de parte do livro que estou escrevendo sobre meu tempo de radialista e, fui surpreendido com uma entrevista dada por Didi a um blog, quanto descobri ser ele um artista consagrado no Rio de Janeiro, onde dizia que o seu irmão mais velho Edmilson, fora um artista mirim em Natal e até gravara um disco.

Entrei em contato com ele e daí por diante estreitamos nossa amizade, solidificada com sua vinda a Natal, passando por São José de Mipibú, cidades onde possue familiares e proporcionando a gravação de um programa na TVU conduzido pelo seu primo Tarcísio Gurgel - “Memória Viva” exibido no dia 24 de dezembro passado, contando, além de mim, com a participação de Domílson Damásio e dos músicos Gustavo Medeiros (cavaquinho), Francie (violão de 7 cordas) e Deo do pandeiro. A cada intervalo a equipe técnica vibrava, pois nunca o programa havia sido gravado nesse formatação, com apresentação de músicas.

Didi Avelino integra hoje o ‘Grupo Retrô’ do Rio de Janeiro, onde reside, especializado na difusão da música popular brasileira de raiz, possuidor de invulgar simpatia e de uma voz que lhe rendeu ser conhecido como  o “voz de veludo”.

Eu e minha família o recebemos em Natal, como também ao meu colega de turma Antônio Edvaldo de Araújo, residente, também, no Rio, a escritora Leide Câmara, Domilson e Iara, que trouxeram Gustavo Medeiros e Deo do pandeiro. Rolou muita música da legítima MPB, tangos e canções interpretadas por Didi, por mim, Iara, dando um show especial e os meus irmãos Moacyr e Zezinho, também amantes da música. Diga aí uma coisa não programada que deu certo!

Naquela ensolarada tarde de Cotovelo, a par das despedidas, renovamos a nossa amizade e aos seus familiares, em especial aos sobrinhos Nílton Avelino, artista plástico, filho de Edmilsa, Hudson e D. Núbia, mas já acertamos novo encontro no final do ano, desta feita tudo programado, quando teremos tempo de ampliar o elenco de amigos-artistas, como Guaracy Picado, Odúlio Botelho, Liz Nôga, Airton Ramalho, Roberto Ney e outros que certamente nos lembraremos, resgatando o passado e comemorando o presente.

(25/01/2010)

HOJE QUEM INTERDITA O DEBATE É O PT

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Por Alon Feuerwerker,
do Blog do Alon

Ciro Gomes e o PSB experimentam as vicissitudes de um projeto político que não se encaixa no do presidente da República. O script é velho e repetido. Vazam do palácio as manifestações de “carinho”, “apreço” e “consideração” de Luiz Inácio Lula da Silva pelo sonhador da vez. Pode haver até “gratidão” e, no limite, um “apoio”, que nunca se materializa. Enquanto isso, é colocada para rodar a máquina de moer outros sonhos que não os de sua excelência.

Resistirão Ciro e o PSB à blitzkrieg do Planalto? Um vetor da operação política palaciana nos últimos meses tem trabalhado para desidratar quaisquer possíveis alianças do eventual candidato socialista. A razão é sabida. O PT temia que Ciro, podendo apresentar-se como alguém do “campo lulista”, acabasse tomando o lugar de Dilma Rousseff na polarização.

Como me disse um deputado do PT-SP no fim do ano passado. “O problema do Ciro é encarnar melhor que Dilma o espírito do confronto com os tucanos. Num ambiente de disputa feroz, ele estaria mais à vontade do que ela.”

Mas esses são assuntos de Ciro, do PSB, do PT e das relações mútuas. Que resolvam como acharem melhor.

E o distinto público, teria algo a ganhar com a entrada do deputado e ex-ministro na corrida? Teria sim. E muito. A começar pela desinterdição de certa agenda, a do não financismo. O PT ameaça agitar na campanha a ameaça de que o PSDB vai “mexer na economia”. Dado que os tucanos passarão os próximos meses lutando para escapar da excomunhão do mercado, por que não abrir espaço para alguém disposto a assumir o risco político de dizer que vai alterar o que precisa ser alterado?

O PT protestava nos anos 90 contra o que chamava de interdição do debate econômico. Criticou especialmente a cortina de fumaça erguida em 1998, com a colaboração da imprensa, para mascarar as fragilidades da economia na véspera da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Hoje quem interdita o debate é o PT, em aliança com os mesmos vendedores de ilusões do primeiro mandato de FHC. Uns lutam para manter as posições de poder. Outros, os lucros. Uma bela e rentável sociedade.

Com um agravante: FHC pelo menos tinha o argumento de que precisava da âncora cambial para quebrar a espinha da inflação inercial. Agora, nem isso.

Um sintoma do ambiente é a presença de Henrique Meirelles na lista de possíveis vices de Dilma. O presidente do BC, aliás, está em plena campanha, cuidando de produzir factóides para distrair, enquanto protege os juros altos. O alvo agora são os bônus dos executivos de bancos. Mas não deixa de fazer algum sentido. Em ambos os casos, ao propor conter os bônus e ao colocar lenha na fogueira dos juros, zela em primeiro lugar pelos dividendos dos acionistas das instituições financeiras.

A projeção realista do déficit nas transações com o exterior este ano corresponde a um quarto das nossas reservas internacionais. A conta vai fechar por causa dos investimentos diretos, que o governo espertamente chama de “produtivos”. Como se o dinheiro nas bolsas carregasse automaticamente esse rótulo. Como se não fosse um maravilhoso negócio captar dinheiro lá fora para gerar aqui dentro receitas não operacionais.

Esta semana, a produção industrial de 2009 confirmou-se desastrosa. Talvez no fim de 2010 a indústria volte ao nível de 2008. Mas há por acaso alguém estrategicamente preocupado com a indústria, com as exportações, com a geração acelerada de empregos? No establishment econômico e político, pelo jeito ninguém. Para que se ocupar disso se o dólar barato funciona como anestesia? Se coloca mais comida na mesa do pobre, garante as viagens e os gastos da classe média no exterior e alivia a vida de todo mundo que precisa importar?

Nesse ambiente, ideal para o petismo será enfrentar adversários manietados pela necessidade de defender a administração FHC. O PT poderá desfilar na campanha como o partido da “ruptura com a herança maldita”, enquanto cultiva a continuidade do que ela tem de pior.

Ciro Gomes, assim como Roberto Requião (PMDB), representaria pelo menos a possibilidade de discutir esses temas. Suas dificuldades políticas são um retrato da miséria do debate político e intelectual hoje em dia no Brasil.