QUEBRAR REGRAS EXIGE CONHECIMENTO
[Entrevista – parte 1] FERREIRA GULLAR

Por Liege M. Gonzalez,
do site Dasartes.com
Ferreira Gullar é maranhense de nascença, mas adotou o Rio de Janeiro como sua cidade. Foi mão ativa no movimento concreto e autor do Manifesto Neoconcreto, publicado no Jornal do Brasil em 1959, no qual um grupo de artistas como Lygia Clark, Amilcar de Castro e Franz Weissman oficializava sua liberação dos dogmas do concretismo.
Polivalente, Gullar já escreveu crônicas, contos, memórias, peças de teatro, auxiliou em roteiros para TV e é autor de uma biografia de Nise da Silveira, pioneira da arte-terapia. Sua obra extensa e valiosa levou-o a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002. O poeta segue ativo como crítico de arte e literatura e nunca perde a oportunidade de lançar nova polêmica, como mostra a entrevista feita em sua casa em Copacabana.
*******
A exposição na Realidade Galeria é sua primeira exposição como pintor?
Não é uma exposição, é o lançamento de um álbum de serigrafias, feitas a partir de telas minhas. Nunca farei uma exposição de pintura porque eu não sou pintor profissional.
Existe influência de Morandi nas pinturas originais?
Nada [risos]… Vamos esclarecer as coisas: Morandi é um pintor que mostra sombra, volume, o ambiente. Eu comecei desenhando estes trabalhos com caneta Bic a partir de Morandi, mas isto foi há vinte, trinta anos atrás. Depois, fui modificando. Por exemplo, eliminei o pé da taça, ficou só um triângulo, só elementos geometrizados, sem profundidade. Sobre os triângulos, já disseram até que eram inspirados em Volpi, mas não tem nada de Volpi, eles são mestres da pintura, coisa que não sou nem aspiro ser. Pinto só por hobby, para me distrair.
Sobre a porta de entrada, tem também um Mondrian.
Certa época, eu tive vontade de copiar alguns quadros pelos quais eu tinha uma predileção especial. Copiei este Mondrian, tem também um Léger (mostra reprodução de Mulher com Vaso (1927), de Fernand Léger), e já tive de vários outros, embora não sejam do tamanho original. Uma moça certa vez disse: “Você é louco, botar um Mondrian do lado de fora da porta” [risos]. Louco é quem pensa que eu vou colocar um Mondrian na porta. Faço apenas como hobby.
Por que um poeta se torna pintor?
Quando eu era garoto, a primeira coisa que me interessou não foi a poesia, foi a pintura. Eu tinha 10 anos e já queria pintar, peguei um saco de pano, botei num chassi e fui pintar em cima. Como o pano não estava preparado, ficou um borrão só [risos]. Depois, comprei uma tela e pintei um quadrinho, que minha mãe guardou.
Sua biografia diz que, quando descobriu a vocação para escritor, o Sr. passou dois anos lendo só gramáticas. Obstinação ou perfeccionismo?
Não, nada disso, eu era garoto e fiz uma redação para a escola e a professora achou muito bem feita, mas não deu nota máxima porque tinha dois erros de português. Eu tinha 13 anos, achei que poderia ser escritor, mas para isto eu não podia errar gramática, então comecei a ler gramática. Não era mania, talvez eu fosse um pouco exagerado, mas se você vai desenvolver uma atividade em qualquer terreno, seja um metalúrgico ou eletricista, você tem que conhecer o instrumento de trabalho, as regras. Você pode até quebrá-las ou mudá-las depois, mas tem que conhecer. Quem dera que os artistas de hoje resolvessem aprender direito seu ofício em vez de ficar fazendo besteira.
Certa vez, o senhor foi demitido por ter se recusado a abrir mão de convicções políticas. Nos dias de hoje, é mais difícil manter a crença na política?
Na verdade, fui demitido por me recusar a mentir. Eu tinha 20 anos de idade, em São Luís, e não me metia em política, mas houve um comício da campanha para eleição para Presidente e a polícia interveio e matou uma manifestante. Eu vi por acaso, estava passando a caminho do trabalho, vi a confusão e quis saber o que estava acontecendo. No dia seguinte, quando cheguei à rádio onde trabalhava como locutor, tinha uma nota do governador dizendo que os comunistas tinham matado um operário. Eu me recusei a ler a nota no ar. Meu chefe disse que, se eu não lesse, seria demitido, e assim foi. Sobre manter a crença, continuo envolvido com a política, claro, sou um cidadão. Não faço mais poesia política porque a época passou, acabou a ditadura, tudo aquilo que me motivava a fazer a poesia política esmaeceu. Mas continuo opinando nos jornais onde escrevo.
O Sr. foi um dos precursores do movimento concreto, mas, mais tarde, assinou, junto com Lygia Clark, Amilcar de Castro e outros, o Manifesto Neoconcreto. Como se deu esta ruptura?
Eu cheguei ao Rio em 1951 e me tornei amigo do Mário Pedrosa, que era quem difundia as ideias do concretismo. Depois, em São Paulo, surgiu um outro grupo neoconcreto liderado pelo Valdemar Cordeiro. O movimento de poesia concreta começou em 1955, 56, adotando o pessoal de São Paulo, e eu participei deste início. Mas as ideias começaram a divergir; eles propunham que se fizesse poesia de acordo com regras e equações matemáticas, muitas bobagens. E, quando eles decidiram publicar o documento que oficializava isto, eu não pude assinar embaixo, e deu-se o rompimento. Na verdade, as diferenças eram mais profundas do que esse simples incidente. O grupo dos artistas e poetas do Rio desenvolveu um caminho que é o oposto deste do pessoal de São Paulo, e daí nasceu o movimento neoconcreto; não como uma teoria nova, mas do trabalho que vinha sendo feito. O movimento neoconcreto tornou-se um movimento autônomo, um movimento brasileiro, enquanto a arte concreta foi importada da Europa, uma repetição de coisas do passado.
[Continua no próximo post]