DE MAL A PIOR
Transcrito do NOVO JORNAL

Carvalho deplora subsídio do Brasil a "irrelevâncias"
Por Franklin Jorge
Em conciso e pertinente ensaio sobre o paulatino e avassalador processo de pauperismo da cultura e da educação no Brasil, agravado agora pelo apetite bolivariano que começa a devorar alguns países sul-americanos, disse o filósofo Olavo de Carvalho que isto decorre não da falta de dinheiro, mas da instrumentalização da cultura e da educação, que se expressa através da diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.
Olavo questiona o mau uso dos recursos, inclusive do ponto de vista ideológico, ao ressaltar que ao governo interessa sobretudo financiar, neste momento, a escola da dissensão e o ensurdecimento do conflito de classes em todos os seus níveis e aspectos, para criar entre nós as condições favoráveis à implementação de doutrinas restritivas e discricionárias tão ao gosto da “ditadura do proletariado”.
Como todo bom professor, faz uso do método comparativo para aprofundar e esclarecer os fatos, e, confrontando o passado e o presente, nos dá uma síntese do nível da produção cultural, no Brasil, nos últimos 50 anos. Olavo consulta a própria memória – a memória da nossa geração – e indaga:
(…) a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem?
E, acrescenta, desfazendo qualquer dúvida que tenhamos porventura:
Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior (…), Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld. (…) O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo.
E agora, temos o quê, pergunta-se e pergunta-nos o arguto filósofo.
Agora – não contenho o impulso de responder-lhe - é tudo uma miséria só: Moacir Scliar, Zuenir Ventura, José Castelo, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Milton Hatoum, Jô Soares, Eduardo Bueno e, como exemplo cabal desse empobrecimento da cultura de ideias, entre nós, o Paulo Coelho. São as “bolas da vez”, enquanto as competências se retiram do cenário confuso.
Resumindo, hoje, para Olavo,
“cultura” é rap, funk e camisinhas; “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou — caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays — para a invasão de fazendas; “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial; e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?
Impossível não assinar embaixo dessas palavras, se nos detemos no âmbito local e provinciano.
Em um tempo relativamente recente, escreviam e publicavam entre nós, nomes tutelares do humanismo, como Edgar Barbosa, o maior estilista que o Ceará-Mirim já teve; Berilo Wanderley, Nilo Pereira, Manoel Rodrigues de Melo, Myriam Coeli, Eulicio Farias de Lacerda, Jayme Hipólito Dantas, Newton Navarro, Francisco Amorim, José Bezerra Gomes, Zila Mamede, Augusto Severo Neto, José Melquíades, Nilson Patriota, João Lins Caldas, Maria Eugenia Maceira Montenegro, Luis da Câmara Cascudo… Enobrecidos pela obra, cada página que escreviam pressupunha paciência, observação, reflexão, rascunhos; enfim, milhares de horas devotadas à solidão e ao silêncio.
Agora, todos nos faltam…
Stella: leveza condimentada
A nova crônica de Natal
Stella Galvão escreve a comédia natalense. Em suas crônicas exemplares, dissemina-se o riso irreverente e iconoclasta, a ironia, o sarcasmo e todos aqueles temperos que faltam à nossa literatura – uma literatura que só ri das facécias.
Há pouco ela lançou um pequeno volume, “Calos e Afetos”, em edição particular em parte patrocinada por um seu leitor que a tem acompanhado em jornal e na internet. Ninguém se engane: apesar da publicação modesta e graficamente pouco atraente, apesar do formato funcional do artefato gráfico, aí está um dos mais vívidos retratos de Natal, ou melhor, uma sucessão de retratos e flagrantes concisos e de uma fluidez admirável.
Leitora de Dostoievski, Stella Galvão cultiva, no entanto, uma notável leveza de estilo que leva o leitor ao prazer. Juntamente com Rodrigo Levino, escreve Stella, atualmente, o melhor da nossa crônica. Uma crônica sagaz e ferina que, como salientou Adriano de Sousa em sua apresentação, não se enquadra no espírito da literatura praticada por nossas escritoras.
16 de fevereiro de 2010 às 21:50
Acabei de ler. Bem que v. podia escrever artigo semelhante sobre a literatura local, ampliando o que foi dito aqui em relação ao empbrecimento da cultura potiguar.
17 de fevereiro de 2010 às 1:56
Muito bom.
19 de fevereiro de 2010 às 20:00
Nossa cultura está de fazer dó. Se a gente faz comparativos sobre os gestores culturais, tem vontade de chorar. Quanta gente mediocre. Despreparada. Sem compromisso com a cultura.
19 de fevereiro de 2010 às 20:04
Franklin, parabéns pelos mais de 150 acessos que alcançou aqui. Vc é foda: sempre fez cultura de qualidade sem precisar das nossas míseras afundações e congêneres. Quem merece o Oscar é vc!
Quando vamos tomar outro café???