O HOSPITAL E O OLHAR DA CRIANÇA

Por Anna Valeska Procópio*

O hospital configura-se como uma entidade que, culturalmente, representa sofrimento, dor, medo, angústia. O indivíduo ao necessitar dos cuidados hospitalares, se vê diante desse cenário socialmente construído desencadeando, muitas vezes, um pré-sofrimento de incertezas e inseguranças.

É comum que isto aconteça. As doenças a nível hospitalares traz, com ela, no mínimo, inquietações e cuidados diferenciados. Com maior razão explicam-se estes desconfortos psicológicos nas crianças submetidas a tratamentos hospitalares.

Nestas condições, é preciso identificar os fatores que direta ou indiretamente concorrem para desestabilizar as defesas psicológicas das crianças. Um deles resulta das vivências familiares. Na prática, percebe-se que a criança, na maioria dos casos, já vem ao hospital com uma percepção construída na família como frases do tipo: “Se não comer vai ficar doente”, “Se desobedecer vai para o hospital levar injeção”, entre outras ameaças.

Essas insinuações provavelmente não contribuem para uma compreensão razoável acerca das instituições hospitalares, atribuindo a eles uma postura de punição ou de castigo.

Independente dessas influências domésticas sobre o processo de hospitalização da criança deve-se considerar outros momentos de internações anteriores que podem trazer a lembrança de vivências antigas, de outras internações que marcaram o imaginário infantil.

É aconselhável, em ambas as hipóteses, que os pais realizem, sendo possível, visitas antecipadas ao hospital no intuito de obter informações necessárias a capacitá-los nas relações com seus filhos. Estas informações são uma ponte entre as instituições hospitalares e a família da criança gerando confiança e desinibições.

Não se pode negar que a estrutura institucional, bem como as relações existentes no que concerne a assistência à criança e à família, se revelam também como fatores prejudiciais ou não.

Dessa maneira, acredita-se que seja de fundamental importância que a criança possa estar “preparada” para a hospitalização e possa conhecer as causas de sua internação, que entendam os sintomas que vivencia; enfim, que participe ativamente do processo. Portanto, esse “preparo” precisa ser realizado pelos pais ou outros responsáveis, pessoas que representem segurança e seja significativas para o paciente infantil.

É essencial que a criança participe dessa preparação, isto é, que possa questionar e tirar dúvidas, que indique caminhos, que seja ouvida e compreendida em seus medos, fantasias e que possa, em seu nível de entendimento, reavaliar a situação.

Como destaca Crepaldi, entre outros autores, nesse momento a explicação não deve ser prolongada ou excessiva, rica em detalhes que talvez a criança nem vivencie. O excesso de informações pode aumentar a ansiedade e fantasias da criança.

É importante que eles saibam se existem espaços lúdicos como fatores de amenidades infantis. Esse conhecimento é indispensável para que possam, também, levar o brinquedo que tenha significado relevante para a criança.

Este trabalho tem amplitude bem maior que os limites familiares.

Os educadores são outros segmentos que podem ter participação ativa nessa preparação de suavizar a dor e os receios das crianças. Como? Inserindo em suas propostas curriculares informações e reflexões acerca do processo saúde/doença como meio de construção biopsicossocial do indivíduo.

Diante das informações não se pode deixar de citar os profissionais de saúde, como outros agentes indispensáveis na experiência hospitalar infantil. A formação acadêmica necessita rever seus postulados no que faz referência aos cuidados subjetivos à criança hospitalizada.

Assim, não se pode desprezar que as crianças são seres pensantes, inteligentes e vivenciam emocionalmente os episódios da vida. É necessário institucionalizar esses cuidados para efetivar o apoio pretendido. Desta forma, é preciso que a criança possa aceitar o hospital já que ela não pode, muitas vezes, compreender a sua dor.

(*) Psicóloga do Hospital Infantil Varela Santiago

3 comentários para “O HOSPITAL E O OLHAR DA CRIANÇA”

  1. Maria Valéria Barth disse:

    Parabéns, dra. Anna Valeska. A senhora colocou a questão de maneira sensivel e clara. “Assim, não se pode desprezar que as crianças são seres pensantes, inteligentes e vivenciam emocionalmente os episódios da vida…” Exato. Somente alguém, ao mesmo tempo como pessoa e profissional, podia exprimir tão bem essa verdade que às vezes fica invisivel. Espero voltar a ler aqui, nesta excelente publicação, seus artigos.

  2. Teresa Simões disse:

    Artigo bem escrito e rico de conteúdo. Parabéns.

  3. Fábio Mendes disse:

    Parabéns, dra. Anna e ao Franklin Jorge, por publicá-la aqui.

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