Arquivo de 11 de março de 2010

SERRA E A MÍDIA

quinta-feira, 11 de março de 2010

Nivaldo Cordeiro | Mídia sem Máscara

Pragmaticamente, os barões da mídia preferiram “apoiar” o poder a contestá-lo.
O recente evento realizado em São Paulo pelo Instituto Millenium (Fórum Democracia e Liberdade de Expressão), que reuniu os grandes barões da mídia brasileira (Rede Globo, Grupo Abril, Grupo Folha e Estadão) mostrou uma forte mudança de seu posicionamento junto ao governo do PT.

O evento deveria ser uma afirmação da liberdade de expressão, repelindo a ameaça explícita do governo Lula contra os meios de comunicação, conforme pudemos observar desde o acompanhamento da Confecom, mesmo de antes. A subserviência ao poder constituído pelos barões da mídia nacional ficou caracterizada pelo franqueamento do palanque para que Antonio Palocci, a pretexto de que encerrasse o evento, passasse sua mensagem aos formadores de opinião.

Essa modificação estratégica ficou explícita no editorial de ontem (5) da Folha de São Paulo (Serra ou não Serra). A raiz dessa mudança é o descortino de que a candidatura de José Serra está fazendo água, em face dos titubeios, indecisões e divisões no arco político liderado pelo PSDB.

Pragmaticamente, os barões da mídia preferiram “apoiar” o poder a contestá-lo. Esse gesto é uma repetição do gesto muitas vezes praticado por aqueles que deveriam resistir ao assalto dos revolucionários e não o fazem, seja por interesses mesquinhos, seja por cálculo errado, seja por pura covardia e seja, ainda, por alinhamento ideológico com a causa revolucionária.

O que vimos no evento citado foi a mais abjeta rendição de quem ainda teria os meios para resistir. Até as pedras sabem que o eventual governo da Dilma será a radicalização do programa do PT, em busca do totalitarismo.

A convenção do PT, que homologou a candidatura, e o programa de governo da candidata não esconderam as más intenções. O PT usará os últimos meses da administração de Lula para acumular forças sem espantar a lebre, embora muitas de suas medidas radicais já estejam em processo de implantação.

O pano de fundo desse processo é a agonia do PSDB, do projeto da social-democracia. Se Serra for candidato, hipótese mais provável, será traído em Minas, pois Aécio deverá ter dois palanques, como da outra vez, e no final somará com o candidato vencedor. Se for Aécio o candidato, hipótese improvável, em São Paulo, mesmo se os caciques apoiarem, terá votos insuficientes para vencer o pleito.

Com a grande mídia sob o cabresto do PT a coisa toda ficará ainda mais periclitante. A derrota do PSDB está traçada com muita antecipação. O pleito figurará assim como uma mera homologação da candidata oficial.

O desdobramento histórico desses acontecimentos será da maior gravidade. Tanto maior se o PT conseguir derrotar o PSDB na corrida pelo governo do Estado de São Paulo. A lição da história é que sempre a social-democracia serve de abre-alas para os socialistas radicais.

Estamos a ver no Brasil o mesmo filme. A menos que tenhamos alguma reviravolta sensacional - e improvável - Dilma Rousseff receberá a faixa de primeira presidenta da República. O desastre para o Brasil está traçado como um encontro com o destino.

Quem viver verá.

ENCERRANDO O ASSUNTO ZAPATA

quinta-feira, 11 de março de 2010

Por Graça Salgueiro,
de Midia Sem Máscara

Se Lula não tivesse tido o azar de chegar à Cuba no mesmo dia em que Zapata morreu, ele continuaria agonizando e este bando de hipócritas continuaria com seu silêncio cúmplice sobre o que ocorre na ilha.

Esta é a última edição em que toco no assunto do assassinato - repercussão e conseqüências - de Orlando Zapata Tamayo. E o faço, não porque tenha cansado de denunciar os crimes que ocorrem há 51 anos naquela ilha amaldiçoada do Caribe.

Paro de falar no assunto porque minha paciência já transbordou de ver como, da noite para o dia, uma montanha de oportunistas passaram a sentir o drama dos cubanos a pé, sem sequer saber escrever corretamente o nome do falecido ou mesmo sua profissão, comparando-o com Lula como se ele tivesse alguma vez sido operário.

Estou literalmente de saco cheio de ver os políticos e os jornais brasileiros explorando uma situação gravíssima, que não é de hoje, para tirar dividendos próprios - eleitoreiros ou de vendagem - mas sem abdicar da imundície de chamar os ditadores cubanos de “presidente” ou “líder”.

Estou farta de gente que sequer sabe onde se localiza aquela ilha, fazer comparações - com intenção de crítica - ao comportamento de Lula porque colocou uma coroa de flores no túmulo do bispo salvadorenho comunista, Óscar Romero, mas não deu uma palavra sobre a morte de Zapata.

Este comportamento é absolutamente coerente com a ideologia do presidente de vocês, pois Óscar Romero - que muita gente nem sabe quem é - era o porta-voz da herética teologia da libertação em El Salvador, que incentivava os atos terroristas do FMLN, que dava guarida aos terroristas e assassinos daquele então, do mesmo modo que fizeram os “freis” Tito, Boff e Betto, enquanto que Zapata Tamayo nunca pegou numa arma nem defendia ditaduras espúrias como o faz Lula.

Chega de tantos aproveitadores da desgraça alheia! Ninguém está de fato preocupado com o destino daquela gente escravizada porque, se assim fosse, também falariam dos outros presos políticos que estão tão gravemente enfermos e quase à beira da morte quanto Zapata - mas ninguém sabe disso! Bando de urubus! Soa indecente em certas bocas citar o nome deste mártir da ditadura cubana que, para “fazer de conta” que denunciam, criticam o comportamento de Lula sabendo que ele é parceiro de Fidel no Foro de São Paulo, mas não criticam o motivo principal que é a vigência da ditadura castro-comunista.

Se Lula não tivesse tido o azar de chegar à Cuba no mesmo dia em que Zapata morreu, ele continuaria agonizando e este bando de hipócritas continuaria com seu silêncio cúmplice sobre o que ocorre na ilha, porque isto sempre foi assim e vai continuar sendo!

No dia do funeral de Zapata houve muitas manifestações no mundo contra a ditadura cubana, e um grupo de opositores residentes em Miami esteve na embaixada do Brasil fazendo seu protesto. Recebi a notícia com fotos e o vídeo no mesmo dia do evento mas, como não pude publicar logo, não repito aqui o que já tomou conta da rede. Chamo a atenção para o artigo “Bem-vinda a morte dos demais”, do exilado cubano Esteban Casañas Lostal publicado no site do meu amigo Heitor De Paola, porque ele reflete exatamente o meu sentimento enquanto escrevo este post.

E para concluir a edição de hoje e encerrar este assunto, traduzo abaixo um artigo publicado no “El Nuevo Herald” de Miami, onde se concentra a maior comunidade de exilados cubanos, relatando um enterro simbólico de Zapata ocorrido ontem (28.02) com a participação de mais de 5.000 pessoas. Nas edições futuras volto a falar das FARC, outro assunto que só vira notícia dos jornais quando é para enaltecer a “ternura” dos terroristas. Fiquem com Deus e até a próxima!

Milhares protestam no funeral simbólico de Orlando Zapata Juan Carlos Chávez

Grupos de exilados cubanos e de outros países latino-americanos em Miami criticaram abertamente no domingo o regime castrista, pela violação dos direitos humanos e o tratamento cruel de que são vitimas os opositores dentro da ilha.

A multitudinária atividade realizou-se na Rua Oito, em memória do preso político Orlando Zapata Tamayo que faleceu na semana passada devido a complicações de uma prolongada greve de fome de 85 dias. “É lamentável a continuidade da perda de homens que morrem por sua dignidade e por representar o povo cubano em seus reclamos de liberdade”, disse o empresário Francisco “Pepe” Hernández, presidente da Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA).

Entre gritos de “viva Cuba livre” e “já basta!”, os assistentes deixaram claro que a lembrança de Zapata se manterá viva na luta pela democratização da ilha e pela integridade de todos os presos de consciência. Os exilados levaram laços negros em sinal de luto, e expressaram sua repulsa frente ao que qualificaram como “uma nova atrocidade” da ditadura cubana.

Zapata, de 42 anos, foi catalogado como prisioneiro político pela Anistia Internacional após sua prisão em 2003. O dissidente se revelou em 3 de dezembro passado para denunciar atropelos e humilhações na prisão Kilo 7, na cidade de Camagüey.

“Estamos aqui por um opositor ao qual deixaram morrer por greve de fome, e por todas as vítimas da revolução. Não vamos permitir mais injustiças, queremo a liberdade de Cuba e de todos os cubanos”, disse Mario Averhoff, um manifestante de 48 anos. O homem era um dos muitos cidadãos comuns que agitaram bandeiras e cartazes com a foto de Zapata ao lado da Rua Oito. O protesto se iniciou ao pé do Monumento dos Mártires de Girón, às 2 p.m. e se prolongou até às 4 p.m.

“A mensagem que trago não está escrita por nós, senão pelos irmãos que morreram nestes cinqüenta anos de ditadura comunista, e por Zapata. Um porta-voz do dever caiu”, disse Rodolfo San Román, porta-voz do Presídio Político Cubano.

No evento realizou-se um cortejo fúnebre, de caráter simbólico, em honra a Zapata, que cumpria condenação de mais de 30 anos no momento de seu falecimento. Também leu-se uma lista parcial com os nomes dos presos políticos cubanos e guardou-se um minuto de silêncio pelas vítimas do comunismo e pelos mortos do terremoto no Chile.

A manifestação alcançou seu ponto mais emotivo quando os exilados conseguiram se comunicar via telefônica com Reina Tamayo, mãe de Zapata. A mulher valorizou as mostras de solidariedade da comunidade e instou os presentes a continuar na luta democrática. “Adiante nesta marcha, Orlando não morreu. Adiante!”, exclamou Tamayo. O ato de recordação encerrou-se com o tema “Já vem chegando”, de Willy Chirino, e foi um dos vários eventos que se organizaram no fim de semana em escala local, entre eles, uma missa na Ermida de La Caridad.

Traduções e comentários: G. Salgueiro

OFENSIVA CONTRA O JORNALISMO LIVRE

quinta-feira, 11 de março de 2010

Nos países onde o poder não caiu nas mãos chavistas o drama da perseguição aos espíritos livres também se agrava. Em Honduras, nove meios de comunicação têm sofrido ataques desde 28 de junho de 2009. Os agressores são simpatizantes do deposto presidente Manuel Zelaya.

Por Eduardo Mackenzie,
de Mídia Sem Máscara

O combate pela verdade dos jornalistas venezuelanos e latino-americanos em geral é um dos maiores obstáculos à consolidação do regime autoritário de Hugo Chávez. À diferença do regime cubano, o de Caracas não pôde vender ao mundo a imagem de um regime simpático e triunfante, como conseguiu fazê-lo Fidel Castro nos primeiros anos de seu atroz experimento, graças à destruição radical e definitiva da imprensa livre da ilha.

Para corrigir esse “erro”, o poder bolivariano redige leis de censura e aplica a intimidação e a violência direta contra os jornalistas, sem conseguir abafar de todo a informação e a análise. E isso ocorre não só na Venezuela, mas também, de forma simultânea e quase idêntica, em países clientes do ditador chavista, sobretudo no Equador, Bolívia, Nicarágua e El Salvador.

Na semana passada, por exemplo, doze repórteres da cadeia Capriles que se manifestavam contra a nova lei de Educação, sofreram em Caracas brutais golpes das mãos de um bando de revolucionários [1]. Dias antes, Hugo Chávez havia apresentado a lei para sancionar os “delitos midiáticos” e ordenado o fechamento de 34 emissoras privadas de rádio. Na Bolívia, o câmera Marcelo Lobo, do canal Gigavisión, foi agredido por desconhecidos em La Paz. Em Quito, onde Rafael Correa insulta os jornalistas que não bajulam suas políticas, há alarme após o anúncio de que o governo utilizará um “mandato de transição constitucional” para entregar as freqüências radiais a agentes do oficialismo e reduzir ainda mais a liberdade de expressão e informação. Em El Salvador, três repórteres da Radio Victoria receberam ameaças de morte.

Nos países onde o poder não caiu nas mãos chavistas o drama da perseguição aos espíritos livres também se agrava. Em Honduras, nove meios de comunicação têm sofrido ataques desde 28 de junho de 2009. Os agressores são simpatizantes do deposto presidente Manuel Zelaya. O mais recente ocorreu neste 19 de agosto, quando o diário El Heraldo foi atacado com explosivos [2].

A Colômbia também é um exemplo. Porém, ali não é o governo quem persegue os jornalistas; pelo contrario. Essa atividade é engendrada em círculos inimigos do governo e, lamentavelmente, impulsionada por membros importantes do poder judiciário, conhecidos por sua fanática oposição ao presidente Álvaro Uribe.

No começo de agosto de 2009, um grupo de jornalistas que haviam sido demandados penalmente por um magistrado do Conselho Superior da Magistratura, José Alfredo Escobar Araújo, escaparam de uma severa condenação. O Tribunal Superior de Bogotá (TSB) rechaçou a pretensão do magistrado, no sentido de que os demandados haviam “violado seus direitos” por haver escrito em vários artigos de 2008 que ele era um “magistrado indigno”. Escobar merecia de sobra esse qualificativo. Ele havia aceitado um presente (uns botins) de um tal Giorgio Sale, um indivíduo encarcerado na Itália, em novembro de 2006, por lavagem de narco-dólares. Giorgio Sale também havia sido relacionado com Salvatore Mancuso, um temível ex-chefe paramilitar, extraditado aos Estados Unidos com outros 14 ex-chefes “paras”.

Colunista muito lido de El Tiempo, Mauricio Vargas denuncia com veemência os nexos de alguns magistrados com obscuros personagens ligados a Mancuso e critica a guerra de guerrilhas que a Corte Suprema de Justiça faz ao governo de Uribe [3]. Ele e outros editorialistas que haviam fustigado a atitude indelicada do magistrado Escobar Araújo, foram absolvidos pelo TSB. Este organismo, todavia, exigiu que se “retificasse” uma frase dos artigos onde se dizia que Escobar Araújo influía desde seu cargo na nomeação de outros juízes e magistrados. A ordem teve de ser acatada de imediato pelos jornalistas.

Porém, acatar às vezes não é suficiente. Rodrigo Pardo García-Peña, outro jornalista que também havia criticado o magistrado Escobar pelo mesmo fato, foi convidado por uma juíza de Bogotá a passar uns dias na prisão e a pagar uma pesada multa. Segundo ela, Pardo havia “desacatado” a ordem de um juiz no caso do magistrado Escobar. Este havia ficado “insatisfeito” com a retificação de duas frases feita meses atrás por Pardo, diretor da revista Cambio.

Ante a arbitrariedade, várias sociedades de imprensa protestaram: “Privar um jornalista da liberdade sob um argumento tão insignificante, constitui uma afronta de proporções incalculáveis e cria um grave precedente contra a atividade jornalística”, declararam Andiarios, Asomedios e a Sociedade Interamericana de Imprensa. Inclusive a Procuradoria Geral da Nação conceituou que a revista Cambio havia sim retificado suficientemente as duas afirmações que o juiz de primeira instância havia condenado e concluiu que a demanda por desacato não procedia.

Ex-ministro de Relações Exteriores, Rodrigo Pardo García-Peña é um fino analista da atualidade internacional e, embora muito moderado em suas expressões, é um critico das FARC [4] e está longe de ser um admirador de Hugo Chávez.

Um caso ainda mais grave estourou em 30 de junho de 2009, quando a magistrada Sandra Castro, da Fiscalização Geral, expediu uma denúncia penal contra outro jornalista. Considerando que o trabalho de Fernando Londoño Hoyos, diretor do noticiário La Hora de la Verdad, da Radio Super de Bogotá, constitui, de fato, um “concerto para delinqüir agravado”, a magistrada, que é nada menos que a Coordenadora Nacional da Unidade de Direitos Humanos da Fiscalização Geral, e deveria por isso dar o exemplo em matéria de respeito aos Direitos Humanos, decidiu incriminar Fernando Londoño e William Calderón, outro jornalista do citado noticiário, por exercer essa profissão.

As acusações da magistrada são assombrosas. Ela não aceita que Fernando Londoño, ex-ministro do Interior de Álvaro Uribe, denuncie e apresente provas em seu conhecido programa radial acerca dos abusos anti-jurídicos que cometem certas dependências da Fiscalização, sobretudo contra alguns altos militares que foram encarcerados injustamente graças a “provas” e “testemunhos” cuja credibilidade não vale nada.

La Hora de la Verdad questiona também o fenômeno contrário, quer dizer, a não estimação das provas que certos inculpados apresentam e a moderação da Fiscalização no momento de decidir os casos onde se encontra envolvida gente acusada de fazer parte do aparato político-militar das FARC [5]. Além disso, Londoño revelou em junho de 2009, que as numerosas visitas de Giogio Sale a gabinetes da Corte Suprema de Justiça haviam sido apagadas das gravações eletrônicas “no mais puro estilo mafioso com destruição de provas”.

Dias mais tarde, os ataques contra Fernando Londoño se intensificaram. Desta vez o petardo foi posto em Caracas. Em entrevista com uma televisão colombiana, o presidente Hugo Chávez acusou o jornalista de haver organizado em 2004 o envio à Venezuela de “200 paramilitares colombianos” para assassinar o chefe de Estado. venezuelano

Londoño negou peremptoriamente a acusação e lembrou que a imprensa venezuelana havia investigado o assunto dos pretendidos paramilitares e contestado a versão de Chávez [6]. Londoño anunciou que abrirá um processo por calúnia contra o mandatário venezuelano, em vista do que não só pretende intimidá-lo, como com seu conto dos “paras” busca atentar contra a reputação do governo da Colômbia e do presidente Álvaro Uribe.

Fernando Londoño foi também objeto de interceptações telefônicas ilegais. Mesmo não castigado, tal delito foi cometido por elementos desconhecidos que manipularam um noticiário para começar uma campanha de desprestígio contra o brilhante editorialista que denuncia com intransigência os crimes do chavismo e os erros do ex Procurador Geral, Mario Iguarán.

Essas operações de perseguição que procuram tapar a boca dos jornalistas insubmissos da Colômbia, da Venezuela e da América Latina, estão se intensificando. Não satisfeito em reprimir os jornalistas da Venezuela, Hugo Chávez toma iniciativas contra jornalistas colombianos. O pior de tudo é que na Colômbia, como na Venezuela, em vez de encontrar um baluarte protetor da liberdade de imprensa, os jornalistas tropeçam com a hostilidade visível do poder judiciário.

Isso reforça a auto-censura, uma das maiores ameaças contra as sociedades abertas. Por exemplo, as notícias sobre os processos em curso dos militares, onde se estão violando todas as regras do Direito, são publicadas pelos jornais em quantidades microscópicas. Na Colômbia certos magistrados tratam de minar a autoridade do governo e demolir ao mesmo tempo os jornalistas que denunciam esses fenômenos. Na Venezuela ocorre quase o mesmo. Fanatizados pela ideologia no poder, os magistrados avalizam as políticas liberticidas de Chávez e ignoram as violências que se cometem contra a imprensa.

Na Colômbia a ofensiva contra os jornalistas se dá no marco de uma revolta do poder judiciário que pretende ditar sua lei ao poder executivo, criando situações grotescas. Esse desafio ao Estado de Direito já suscitou fortes choques entre os poderes públicos. A Corte Constitucional entrou em querela com a Corte Suprema de Justiça, e esta contra a Procuradoria. Existem tensões incríveis entre o poder judiciário e o poder legislativo, e entre o poder judiciário e o poder executivo.

Tudo isso coincide de forma patética com o que está ocorrendo na Venezuela, Equador e Bolívia, onde os governos impulsionam leis e medidas para destruir a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e de informação.

Embora muito diferentes, o que mostram os casos de Fernando Londoño Hoyos e Rodrigo Pardo é que de alguma maneira um pólo totalitário incrustado na magistratura colombiana atua como se a soberania chavista imperasse já sobre a Colômbia, ou sobre uma parte da institucionalidade colombiana.

Estamos, pois, ante um fenômeno muito singular no qual se dá, de fato, uma extensão insidiosa de uma influência estrangeira sobre um setor do aparato de Estado colombiano. Parece que estamos ante uma estratégia de pérfida e paulatina conquista do Estado e da sociedade colombiana, passo a passo, parcela por parcela, sem fazer ruído. É hora de o governo e a imprensa livre na Colômbia começarem a abrir os olhos ante isso e a desvelar esse projeto para desmantelá-lo antes que seja impossível.

Notas:
[1] Rubén Mendoza, o chefe da RNCB, um bando de matadores a serviço do chavismo, justificou o ataque aos jornalistas e prometeu novas agressões: “A Cadeia Capriles é um antro de conspiração”, disse.
[2] Ver Diário Exterior, Madri, 20 de agosto de 2009 em http://www.eldiarioexterior.com/noticia.asp?idarticulo=33498
[3] Ler seu artigo ¿A qué juega de Corte Suprema?, El Tiempo, 16 de junho de 2008.
[4] Ver as declarações de Rodrigo Pardo intituladas “Alfonso Cano no abre esperanzas de aproximación política”, RCN, Bogotá, 14 de agosto de 2009.
[5] Em 20 de março de 2009, La Hora de la Verdad entrevistou Olivo Saldaña, ex-guerrilheiro das FARC. Ele falou das obscuras relações que existem entre certa classe política do Tolima e as FARC, sobre as motivações da senadora Piedad Córdoba e alguns líderes do Polo Democrático e, sobretudo, acerca da infiltração que as FARC fizeram na Fiscalização Geral da Nação. Saldaña disse que até esse momento a Fiscalização havia se negado a receber seu testemunho.
[6] Escutar o editorial de Fernando Londoño em La Hora de la Verdad, de 10 de agosto de 2009 em: http://www.lahoradelaverdad.com.co/post/day/_id=8&y=2009&m=8&d=10

Tradução: Graça Salgueiro

‘O FILHO DO BRASIL’ É A CARA DO PAI

quinta-feira, 11 de março de 2010

O filme é um esférico e lustroso fracasso. Olhando assim, pelo alto, de avião, até parece obra do PAC, não é mesmo?

Por Percival Puggina,
de Mídia Sem Máscara

Tenho um casal de amigos que gostou tanto do filme “Lula o filho do Brasil” que já foi assisti-lo quatro vezes. Hein? Mentira minha? Tem razão. Estou apenas demonstrando o completo desencontro do filme com as expectativas de seus personagens, protagonistas e produtores.

A única plateia que bateu palmas para a obra de Fábio Barreto foi a que compareceu à sua pré-estreia, um seleto cordão de - como direi? - parceiros, cativados pelos cheques dos contratos ou pelos contracheques funcionais.

Pois eis que na contramão daqueles aplausos e das reverências dos blogs de esquerda, quando chegou aos cinemas - quase quatrocentas salas decoradas para recebê-lo - o filme travou. Travou miseravelmente.

Deu apagão na sala de projeção. Após dois meses nas telas, ainda estava longe do milhão de espectadores. No fim de semana de 28/02 (veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/cultura de 1º de março), menos de quinhentas pessoas assistiram a película, que despencava como pedra, em irreversível parábola descendente. Para quem antevia um estouro de bilheteria, produzido por um público entre cinco e 16 milhões de fãs, o filme é um esférico e lustroso fracasso.

Olhando assim, pelo alto, de avião, até parece obra do PAC, não é mesmo? Empacou, não funcionou, custou caro, foi cercado de imensa publicidade, recebeu calorosos aplausos dos companheiros, pretendia ampliar o prestígio de Lula e foi concebido em tom de puxa-saquismo. Mas não é obra do PAC, não! Tem tudo para ser, mas não é.

Não é do PAC e não tem mãe. Alguém dirá que não faz sentido ironizar o insucesso do filme. Acontece que “Lula, o filho do Brasil” encaixou-se na perspectiva política e eleitoral de 2010. Esperava-se que o ato de assisti-lo se constituísse em reverência litúrgica. E confiava-se em que os fiéis assistentes deixariam as salas de exibição decididos a obedecer cegamente seu pastor. Ora, quem se farda para o jogo político e entra em campo pode fazer gol e pode levar gol. Então ironizo.

Em qualquer lugar do mundo, um fracasso de bilheteria arde no bolso de quem investiu no espetáculo. No Brasil, as coisas não são assim. Quando um filme chega aos cinemas todo mundo já ganhou dinheiro através dos benefícios que, a título de incentivo à cultura, retiram recursos diretamente do erário. Não recuso importância à cultura (quando o bem ou produto realmente tem valor cultural).

Mas quando os pacientes do SUS se empilham em beliches nos corredores, quando a sociedade padece nas mãos da criminalidade e quando a educação anda um passo atrás da ignorância, creio que a escala das prioridades aponta outros rumos para esses recursos. Não vejo sentido em que o sucesso financeiro de um filme não dependa da aceitação do público, mas da coleta de incentivos fiscais.

A bem da verdade, esclareça-se: não foi assim com “Lula o filho do Brasil”. A obra de Fábio Barreto, por motivos óbvios, não usou esse mecanismo. Seria difícil explicar a concessão de estímulo fiscal para um filme de louvação ao presidente da República, em pleno exercício do mandato e em ano eleitoral.

A grana foi buscada junto a empresas altamente conscientes de suas responsabilidades com a arte e a cultura nacional, animadas por irresistível desejo de contribuir com quotas da ordem de R$ 1 milhão (Revista Época fev/2009) para que Barreto promovesse um personagem que, só por acaso, é o dono do caixa do país. Mas convenhamos, deu no mesmo que se fosse coisa da Lei de Incentivo à Cultura. Ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, o dinheiro sai do mesmíssimo lugar. E a Campanha da Fraternidade está convencida de que o Brasil é assim por causa da economia de mercado.

A DIREITA CONSENTIDA

quinta-feira, 11 de março de 2010

Por Nivaldo Cordeiro, de Mídia Sem Máscara

Até mesmo as Forças Armadas foram submetidas. Nenhuma resistência organizada está operante diante do petismo.

No Brasil a direita consentida é o PSDB e todo o arco político em torno dele, inclusive o DEM, que desgraçadamente tomou a si o programa político do Partido Democrata dos EUA, fazendo de conta que poderia competir, seja no âmbito da social-democracia, seja no âmbito da esquerda mais radical, como um simulacro “liberal”à moda norte-americana.

Está sendo esmagado inexoravelmente. A um só tempo o eleitorado foi-lhe roubado enquanto seus quadros foram destruídos. José Roberto Arruda é o espelho acabado dessa situação. A cassação do prefeito Gilberto Kassab também. Mesmo o DEM agora está sendo considerado oposição não consentida e qualquer pretexto está sendo utilizado para o seu aniquilamento. A sua aliança estratégica com o PSDB de nada lhe serve. Os caciques tradicionais estão sendo destruídos um a um, mesmo quando aderem de forma explícita ao partido situacionista, como é o caso de José Sarney (este no PMDB).

A direita consentida é, nada mais nada menos, que a esquerda, uma falsificação. Não há mais direita política e essa situação significa simplesmente o limiar da ordem totalitária, que até mesmo o jornalista Reinaldo Azevedo (moralmente o governo Lula já é um tirania) reconheceu como realidade. Reinaldo esqueceu-se de que não é apenas “moralmente”, mas factualmente. O PT controla os três poderes da República e conseguiu fundir o partido com o Estado. Até mesmo as Forças Armadas foram submetidas. Nenhuma resistência organizada está operante diante do petismo.

A grande mídia, conforme meu artigo anterior (Serra e a midia), rendeu-se integralmente. Apenas dois jornalistas têm a permissão dos barões da mídia para fazer a oposição oficial ao poder estabelecido: o próprio Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, ambos da revista Veja. Por quanto tempo, não se sabe.

Ambos são homens íntegros e profissionais competentes, mas para um país da nossa dimensão podemos dizer que são vozes isoladas, ainda que com alguma influência. Dentro da algazarra esquerdista que é a grande mídia, todavia, suas vozes são prontamente abafadas.

O “direita” jornalística foi eliminada, bem antes que a direita política. Pode até ser que uma coisa levou a outra: a destruição dos formadores de opinião conservadores, meta primeira da revolução gramsciana, levou necessariamente ao desaparecimento dos políticos conservadores. A ditadura começou pelo seqüestro das almas na sua formação.

Meu caro leitor, nada há a fazer. O processo revolucionário, por assim dizer, está completo. A eleição de Dilma são favas contadas. O Brasil viverá inexoravelmente as conseqüências desse fato, como a Alemanha nos tempos de Hitler viveu. Como a Rússia desde os tempos de Lênin viveu. Resta a cada um que manteve a sua integridade e a sua independência virar cronista do que está acontecendo. A loucura é completa e a solidão é o que espera para os que não aderiram ao sistema.

Empregos, oportunidades, bons negócios, tudo agora depende da relação de compadrio com o partido governante. Não ao acaso Abílio Diniz, o emblemático empresário de São Paulo, aderiu de público à candidatura Dilma, ele que está no varejo, atividade que em tese não depende de favores governamentais. O que dirão os demais, que precisam do governo como os pulmões do ar? Não apenas aderiram, mas se avassalaram. Não há mais nenhum espaço de liberdade, não apenas política, mas também econômica.

O totalitarismo é a realidade radical em que estamos metidos.

UM CAPÍTULO DA HISTÓRIA DE PATU

quinta-feira, 11 de março de 2010

Por Misherlany Gouthier

“História do Município de Patu” é o titulo do livro do pesquisador e historiador conterrâneo Petronilo Hemetério Filho, um dos homens de cultura daquela cidade, preocupado com o saber e a educação de seus patrícios.

O livro que aborda temas os mais diversos [configura-se numa geografia dos assuntos relacionados com aquele município] é um testemunho dos que fizeram [e dos que continuam a fazer] a História do lugar onde nasceu o famoso cangaceiro Jesuíno Brilhante. Mas, o que pretendo abordar nestas linhas é a figura ímpar do fazendeiro, político e intelectual Etelvino Fernandes Leite, um dos nomes de relevância daquela comunidade, ausente da literatura citadina.

Etelvino Fernandes Leite nasceu em Mossoró aos 26 de agosto de 1883 [considerava-se patuense convicto], época em que estava no auge a campanha abolicionista em todo o Rio Grande do Norte. Teve uma vida bastante ativa no seio da sociedade patriarcal de seu tempo, ora agindo como médico-prático [desenvolvendo atividades homeopáticas], ora advogando causas naquela comuna, pois tornara-se rábula prestimoso naquelas paragens, ou nas lides do campo.

Filho único do segundo casamento de Herculano Victor de Lima e de Liberalina Leite Lima [falecida aos 102 anos]. Em Fortaleza iniciou seus primeiros estudos no Ateneu.

Mais tarde transferiu-se com seus pais para a fazenda Paulista, propriedade esta encravada no município oestano. No ano de 1901 continuou seus estudos em Itabaiana-PB, onde conheceu Ana de Melo Andrade, com quem se casaria. Mais tarde Ingressa na Faculdade de Direito, mas motivado pelo casamento não concluiu seus estudos, regressando a sua terra [Patu]. Desse consócio houve uma prole de 13 filhos: Osvaldo, cc/ Adalzira Alves; Olavo, cc/ Maria Porcina; Maria cc/ José Farias; Otavio cc/ Alzira Alves; Oscar cc/ Maria Angela; Olga cc/ Severino Cortez; Olivia, Odete [solteiras]; Odília, Ovidio, Manuel, Mariana e Olga Maria.

Escrevia, ensaiava seus debates, medicava os familiares de seus moradores. Simples, inteligente, modesto, Etelvino Leite nunca esboçou qualquer tipo de orgulho pelo muito que sabia, enquanto muitos andam por aí afora arrotando grandeza e cuspindo desaforos medíocres de uma cultura insignificante e medíocre.

Leitor perspicaz gostava dos clássicos da grande literatura, bem como os escritores brasileiros de seu tempo, a exemplo de Machado de Assis e José de Alencar. Nas horas de banzo corria os olhos pelos jornais e revistas que comprava na praça de Mossoró.

Durante a Revolução de 30 impetrada por Getúlio Vargas foi nomeado para o cargo de conselheiro do Conselho da Vila de Patu, pelo interventor estadual. Nessa mesma época, chefe da Aliança Liberal, ganhou a chefia do município patuense, mas renunciou o cargo em favor de seu correligionário Ascendino Almeida.

Sua vida foi pautada por generosos serviços que prestou a sua gente, sendo reconhecido por seu patrícios como um gentleman. Honrado, sensato, prudente, nunca titubeou em ajudar alguém que precisasse de seus préstimos.

Dentre os seus irmãos paternos constam: José Costa Lima e Canuto Costa Lima [este último exerceu o cargo de escrivão em Patu].

Em segundas núpcias Casou-se com Maria Clara Ferreira, tiveram: Francisca Leny, Maria de Lourdes, Djalma; Idelzuite cc/ Tarcilio Viana Dutra; Dinorá cc/ Francisco Rocha; Luis cc/ Heloisa Moreira Lima; Expedito cc/ Vandir Câmara; Elza cc/ Geraldo Benevides; Maristela cc/ Francisco Cordeiro de Oliveira; Dorinha [solteira].

Após uma vida intensa de atividades as mais diversas quer como fazendeiro, político, homeopata, o patuense Etelvino Fernandes Leite, faleceu em Recife, para onde tinha ido a tratamento de saúde, no dia 8 de fevereiro de 1953, aos 89 anos de idade.

A edilidade patuense, numa lembrança vaga, deu-lhe o nome a uma rua. Etelvino figura de escol merece muito mais daquela cidade oestana onde serviu com tamanha grandeza, dedicação e amor.