A CONFRARIA DO CIDADE JARDIM

Por Franklin Jorge

Diariamente, há vários anos, eles se reúnem para beber inúmeros cafezinhos e jogar conversa fora. Ninguém sabe dizer como o grupo se formou em torno de Elias, Gilberto, Alexandre, Laércio, Vicente – os principais dessa confraria que, em sendo inteiramente potiguar tem em sua composição algum tempero baiano, pois se caracteriza pela disponibilidade para divertir-se.

Embora não seja aquilo que possamos chamar de “fiel”, desses que batem o ponto em pelo menos um dos tres expedientes, sempre que posso compareço a esses encontros e ainda assim sempre tenho a convicção de que estou sendo esperado, sempre que venho aqui, partilhar da conversa e dos cafezinhos.

Neste sábado, cheguei bem cedo com o propósito de fazer algumas anotações e talvez escrever um ou dois artigos, antes do almoço, mas eis que de repente aparece-me o Gilbertinho, que não sabia tão madrugador.

É verdade que ainda consegui fazer algumas anotações sobre o Escrever, que desejava descrever como um ato político e, com o tal, sujeito a desdobramentos. Um ato extremamente complexo, que – diria Jacques Rancière -, não pode se realizar sem significar ao mesmo tempo aquilo que realiza e o que dá sentido a essa ocupação.

Por fim, deixei de lado as políticas da escrita e optei pela bem humorada e hedônica filosofia de Gilbertinho, que é verdadeiramente um adepto da política do bom viver, o que naturalmente não exclui as outras formas de política. Segundo meu amigo, abrindo a conversa em plena manhã deste sábado, “o Cidade Jardim é o shopping das pessoas que não fodem mais”. E, fazendo um gesto que abarcava o shopping inteiro, proclamou, “Tanta gente aqui e ninguém faz mais nada…” E, ao dizê-lo, riu aquela sua característica risadinha comprida e sonante.

Emérito comprador da castanha produzida em uns três estados nordestinos, tem Gilberto a sua filosofia, algo hedonista e pragmática. Como viver, aqui e agora, em boa companhia, sem dar bolas para a política. Um tema, aliás, que nunca está ausente dos nossos papos, apesar da recomendação de Laércio de nunca falar em politica, o que significa dizer, não falar mal do presidente Lula, principalmente na presença de Alexandre, o único parisiense do grupo, cujos amigos costumam presentear com um delicioso licor irlandês feito de mel.

Laércio sabe que faço parte do time que não vai com a cara deste governo. Enquanto Gilbertinho, por exemplo, já conta com a vitória da Dilma, não tanto por Dilma - ele me explica -, mas porque acredita que a sua eleição faz parte de um processo irreversível de mudanças que desmontará definitivamente o sistema oligárquico que, geração após geração, manda no País. A esta possibilidade de mudança Gilbertinho atribui o sucesso e a popularidade do presidente Lula: os brasileiros, ansiosos pela derrota do velho status quo, teriam vislumbrado nele, Lula - e não no PT, segundo enfatiza o meu amigo - essa possibilidade revolucionária. Por isso, para safar-se de iminente derrota, até o senador José Agripino já anda entoando loas ao presidente Lula… E José Serra, governador de São Paulo, botando carta de seguro, ou seja, comprometendo-se a manter as “conquistas” desse governo que a meu ver está arruinando o país. “O PT é só um partido… Ninguém liga para o PT. Lula, sim, é que o cara”, conclui, enquanto nos é servida nova rodada de cafezinhos.

Já sobre a política, no Rio Grande do Norte, ele diz que se transformou num tumulto. Ninguém sabe mais quem é quem. Que ninguém sabe para onde vai, tamanha a confusão que se instalou em todas as hostes. E agora, para completar, essa inesperada doença de Iberê, até nisso, parecido com a Dilma, só faltando agora - depois da cirurgias - a candidatura dele, para governador, deslanchar de vez, como aconteceu com a ministra-chefe e candidata à presidencia. De fato, agora, é só o que faltava acontecer por aqui.

De repente, não sei como nem por quê, o nome de Maluf surgiu em meio a conversa, talvez pelo fato de ter sido ele incluído, finalmente, na “lista vermelha” da Interpol, a polícia internacional que caça criminosos em todos continentes, creio eu. Sim, foi isso, a notícia está estampada na edição de hoje do Novo Jornal… Ah não, agora me lembro. Ao ouvir um dos nossos amigos se oferecendo para pagar uma nova rodada de cafezinhos, disse Gilberto que ninguém nunca via um rico pagando nada; que certas gentilezas, como essa com que éramos acarinhados, seriam próprias de gente pobre ou remediada. “Veja o Paulo Maluf - disse -, rico como a gota serena, sempre roubando o erário, e nunca ninguém o viu metendo a mão no bolso para pagar um cafezinho para alguém…”

E, logo acrescentou, rindo e fazendo-nos rir de coisa tão séria. “Aliás, rico não anda com dinheiro… Nem guarda dinheiro em cueca. É fativel até que ele, Maluf, não use nem cuecas, pelo menos não para este fim, já que ele guarda o produto do roubo em contas bancárias espalhadas por esses paraísos fiscais…” Além disso, o rico roubaria sem tocar num tostão e ainda dribla a Polícia Federal, transferindo o dinheiro de um paraíso para outro, numa velocidade tal que deixa os agentes da lei em permanente desvantagem.

A propósito, como uma coisa leva a outra, ele nos chamou a atenção para aqueles que, a seu ver, ainda parecem ser os operadores financeiros mais honestos do país - os doleiros. “Imaginem, botar a mão em tanta grana suja e não desviar nem um centavo…” Ao contrário de alguns genros que operam por aqui.

Segundo Gilbertinho, pobre gosta de agradar e, por isso, mete a mão no bolso e paga a conta. Ora, “o pobre passa o ano engordando uma galinha para encher a barriga do rico” e, transmutando os exemplos para o campo da política, lembra-nos que o senador Garibaldi, por exemplo, nunca convidou ninguém para almoçar na casa dele…” Agora, Gilbertinho afirma que alguém só é rico quando vai a um restuarante e não mete a mão noi bolso para pagar a conta, e dá como exemplo de homem rico o Antonio Ermírio de Morais, que vive apenas com trinta mil reais por mês e ainda lhe sobra dinheiro. É que sempre tem alguém para pagar-lhe o restaurante.

O rico quer dinheiro não para gastar, acrescenta, rindo de minha incredulidade. Rouba para juntar uma cédula em cima da outra, pois o seu prazer é pensar que tem dinheiro. Já o pobre, quando pega uma mixaria, gasta logo. A primeira coisa que faz é correr para o supermercado, pois ninguém gosta mais de comer do que o pobre. Para o pobre autêntico, dinheiro é para gastar e passar troco…

Bem, já que é assim - digo eu -, bote a mão no bolso e pague uma nova rodada de cafezinhos…

4 comentários para “A CONFRARIA DO CIDADE JARDIM”

  1. Lucas Andrade disse:

    Seus artigos são longos, mas não consigo deixar de ler tudo o que v. escreve aqui. Minha mulher sempre diz: esse Franklin é um danado, fazer v. ler mais de cinco linhas!
    Seu leitor e admirador - Lucas Andrade.

  2. Fábio Fagundes disse:

    Isto é que é escrever e saber agradar aos leitores… É por isto que o Nei tem tanta inveja do talento de Franklin, que até nisso tem sorte. Ninguém pode levar a sério um homem que usa nome de mulher para escrever poesia.

  3. Adroaldo Mesquita disse:

    Vida boa aí está…

  4. Alexandre Ramos disse:

    Caro Franklin;

    Gilbertinho só não tocou num ponto: ele é o Presidente eleito em primeiro turno da ABS (Associação dos Brochas do Shopping).

    No mais, belo texto. Parabéns.

    Alexandre

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