MINHAS BIBLIOTECAS

Por Franklin Jorge

FRANCISCO MEIRELES, Porto Velho-RO. Biblioteca rica em obras raras e atuais. Lá, reli Thomas Mann, Machado de Assis, Eça de Queiroz, avancei em Elias Canetti, tudo enfim que havia de bom numa rica e diversificada coleção de livros de autores universais. Refiro-me ao final do século passado, quando a frequentei. Lá estavam Borges, Clarice, Lima Barreto, Marques Rebelo, Drummond, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Luis da Câmara Cascudo, Peregrino Jr.

Pertencente a Prefeitura, a biblioteca tem uma rede de amigos e colaboradores que mantém o seu acervo atualizado e em expansão. É comum empresários e empresas de Rondônia doarem os últimos lançamentos. Toda semana tem livro novo entrando no acervo, doados por particulares. Não sei como teria começado essa prática, então vigente, que me foi relatada.

Lá, encontrei exemplares do raríssimo Panorama da Poesia Norte-rio-grandense, antologia organizada por Rômulo Wanderley. Um conjunto de biografias e ensaios biográficos notáveis; estudos sobre a Amazônia, relatos de naturalistas e aventureiros, boa seleção de livros de poesia, romances, tudo enfim que podia suscitar o apetite e a gula nossa de leitura.

Dentre essas raridades, um conjunto de biografias clássicas e modernas de Eça de Queiroz. Todo o João do Rio, Guimarães Rosa, Cascudo, Gilberto Freyre, Bandeira, Machado de Assis, Cornélio Penna, a primeira enquete que ouviu escritores brasileiros da primeira metade do século passado, José de Alencar, os clássicos da Amazônia profunda, Brito Broca, Agripino Grieco, os barrocos e modernistas.

A biblioteca estava ficando pequena para o acervo e a frequentação diária. Numa praça, o prédio funcional, no Centro, perto da prefeitura. Lá, passeando com uma amiga, ocorreu-me escrever a crônica de minhas bibliotecas, não a historia de minhas leituras, consoante a incumbência que me dera o Cardeal das Letras, Antonio Carlos Villaça, sobrinho neto de Ramalho Ortigão. Um homem de letras au grand complet.

Alguém já sugerira que Villaça escrevesse essa História, porém ele declinou da missão e a delegou uns anos depois. Achei bem árdua a principio essa edificação da história de minhas leituras e logo o disse a Villaça, que insistiu com a ideia, dizendo que eu já teria um longo caminho andado. E, pegando o exemplar do Livro de Antonio que me acompanhava em meu périplo amazônico, abriu-o numa página ao acaso e leu, na presença de Wilton Gayo que me acompanhava nessa visita, trechos que eu sublinhara e anotações, inspirado pela leitura embebida em angústia e humanismo.

-V. lê fazendo anotações, destacando trechos e frases que lhe despertaram a atenção – e passando para outras páginas, que tambem leu, disse: – Estou vivendo uma nova experiência, lendo o que em meu livro lhe pareceu digno de comentário… Nunca me ocorreria justapor tais frases e criar uma terceira sentença, inteiramente autônoma em relação ao que escrevi.

Villaça fez-me pensar sobre a ideia.A princípio temi essa empreitada e o disse. Pensei, depois, que podia escrever esse livro, bastando dispor dos livros de minha biblioteca e das anotações de toda uma vida inspiradas pela leitura. Alicerçado em anotações, transcriações, paródias, repentes e iluminações que forjariam um livro singular.

- Sistematize suas notas -, assim falou o Cardeal das Letras,depois de ler mais duas ou três das minhas intervenções. V. terá matéria para uma biblioteca…

Anos depois, dei esse segundo exemplar do mesmo livro que Villaça autografara para mim; dei-o ao grande cronista da terra de Areia Branca, José Nicodemos, um villaciano incurável. Mais recentemente, morando pela segunda vez em Mossoró, tivemos José Nicodemos e eu vários encontros prazerosos em que evocamos o grande autor de O Nariz do Morto, que ambos admiramos.

Nicodemos contou-me, nesses encontros pelas ruas e cafés de Mossoró, da sua velha amizade com Navarro e o tempo em que no Rio de Janeiro trabalhou com o celebrado professor Antenor Nascentes, referência nos estudos da língua. Em certa época, em Natal, farrearam e se divertiram. Nicodemos revelou-me um Navarro desconhecido, hipocondríaco, cercado por uma farmácia.

Uma vez, enquanto bebiam, Nicodemos não lembra mais se na Cidade Alta ou na Ribeira, Navarro lhe revelou que compusera o próprio epitáfio, que desejava ter gravado em seu túmulo, no cemitério do Alecrim. Nicodemos os repete, pausadamente, enquanto se dirige, a pé, para o jornal De Fato onde escreve uma crônica diária:

Branco silêncio dos cemitérios,
Cobris os mortos como um dossel:
Às vezes cismo nos meus vagares
– Será que é isto que chamam céu?

Nicodemos é uma das nossas melhores prosas, um mestre da crônica de ideias, da crítica fundada num bom senso irônico, no permanente exercício da dúvida e do inconformismo que não deixam o juízo apodrecer.

5 comentários para “MINHAS BIBLIOTECAS”

  1. Céu Paganni da Rocha (Ponta Negra) disse:

    Ney deve morrer de inveja de não ser capz de escrever um artigo destes, sem ofender a honra de ninguém.

  2. Mikhael disse:

    O titulo dá a ideia de continuidade. Estou com vontade de ler mais…

  3. Ramalho Montenegro disse:

    Um mestre da crônica.

  4. Bia Queiroz disse:

    Vai escrever mais sobre este tema?

  5. Arlindo Matias disse:

    Brilhante artigo, obrigado por nos propiciar tão saborosa escrita.

Deixe um comentário