VIRGINIA WOOLF
quarta-feira, 30 de junho de 2010Por Chico Lopes
Um volume de uma coleção chamada “Vidas literárias”, da Jorge Zahar Editor, trazendo “Virginia Woolf”, por John Lehmann, me atraiu num sebo. Na capa, a figura estilizada da escritora, numa praia, com livros ao seu lado, e o mar com um infalível farol (encoberto por nuvens) ao fundo.
Já se leu mais Virginia Woolf no Brasil. Lembro-me que nos anos 80, todo mundo começou a conhecê-la melhor, pelos muitos livros seus lançados pela Nova Fronteira e por uma edição de “Orlando” que circulava como “cult book” entre escritores seduzidos por aquele estilo e aquela audácia criativa e por entre adeptos de uma vida sexual e existencialmente mais livre. É ainda seu livro mais famoso e mais acessível, e teve belíssima tradução brasileira por Cecília Meirelles. A capa trazia uma foto emblemática da beleza enigmática e torturada de Virgínia, muito repetida desde então.
Mas o livro deu origem a um culto equivocado, baseado na sexualidade polêmica da escritora que, ao que tudo indica, foi quase indiferente ao assunto (nisso se parecendo um pouco com a enigmática Garbo), mas teria tido uma paixão por Vita Sackville-Vest, a quem o romance foi dedicado.
Orlando, o personagem, atravessa séculos, sendo indiferentemente homem ou mulher, e a narrativa é cheia de um humor peculiarmente “woolfiano”, sarcástico e desafiador. Ao longo dos séculos, Orlando, que é um(a) candidato(a) a escritor(a), carrega consigo um poema esboçado chamado “O carvalho”, razão pela qual, no início do livro, na era elizabetana, estabelece relação com um poeta importante, cujas obras financia.
É um caráter bastante duvidoso, o do poeta. É engraçado ver aí o aristocrático Orlando, querendo ser literato e topando com uma figura de talento literário, mas tão pouco confiável humanamente, que só queria adulá-lo para ser financiado e seguir sua vida de escritor, aliás, conturbada, com um monte de filhos e dívidas; ele conclui que há muita baixeza em “gente de Letras” e, não obstante, segue sustentando a carreira do ilustre mau-caráter. Porque seu amor pela Literatura está acima de qualquer coisa.
Medos e mitos
Virginia tem muito senso de humor em seu “Orlando” e é muito sarcástica em suas memórias (“Momentos de vida” é corajoso e até contundente, mas jamais vulgar, em algumas passagens) e diários, justificando a famosa frase do medo que inspiraria e que rendeu um trocadilho que só faz sentido em Inglês, título de uma peça teatral de Edward Albee.
Tinha língua ferina e era capaz de liquidar reputações e inspirar terror com ela. Mas era pouco mais que uma criatura muito frágil, de uma sensibilidade demasiado à flor da pele, e até mesmo desprovida de humor, em muitos livros.
Fora “Orlando” e “Miss Dalloway”, eu particularmente não consegui me ligar na ficção de Virginia em “O farol”, “Noite e dia”, “As ondas”, “Entre os atos” etc. O estilo dela, que funciona maravilhosamente em determinados assuntos, fica opaco e redundante em outros, com toques de sensibilidade um tanto “feminina” no mau sentido, desperdiçada em sucessivas análises de sensações, locais, impressões.
É uma prosa sempre brilhante, mas cai no rebarbativo e em certo “culto à sensibilidade excêntrica” que pode se tornar chato. É possível afirmar que, em sua ficção, ela alternou pontos altíssimos, que a celebrizaram com justiça, com outros bem medianos ou simplesmente desdenháveis, e nem isso a impediu de ter a grandeza que teve.
A sua vida permanece interessando, talvez porque o Grupo de Bloomsbury, celebrizado por ser libertino e vanguardeiro na era vitoriana e aprontar bastante do ponto de vista social, continue atiçando a imaginação.
Essa convivência de gente muito talentosa e anti-convencional, culta, refinada e adepta de franqueza e do culto da inteligência ao custo da civilidade polida demais que redundava em hipocrisia, parece um fenômeno de Civilização e Cultura que só poderia se dar na Inglaterra daqueles tempos, mas, sem dúvida, todo grupinho unido por apelos anti-convencionais, onde se misturem sensibilidade e sexualidades heterodoxas, fica lisonjeado e estimulado pela existência histórica desse Bloomsbury.
Virginia conta que ela e a irmã, a pintora Vanessa Bell, acharam que tudo começou a mudar quando um dia um irmão de criação das duas pronunciou, rindo e corajosamente, a palavra “esperma”. O excessivo refreio do pudor vitoriano vinha abaixo, e não era sem tempo, ao menos para elas.
Depois, curiosamente, num trecho bastante engraçado de suas memórias, ela lembra que a convivência com Keynes, Strachey e outros integrantes do grupo famoso pareceu a ela e a irmã interessantíssima do ponto de vista intelectual, pois eles eram finalmente homens com os quais uma mulher poderia conversar em abstrato, penetrar no mundo das ideias sem se sentir perturbada pelo interesse sexual que tornaria um homem sempre incômodo para manter uma amizade com uma mulher.
Mas, precisamente isso passou a ser perturbador, porque ambas não se sentiam desejadas (o desejo de um sexo pelo outro seria um elemento de excitação fundamental num salão social misto) e demoraram um pouco a perceber que eram todos homossexuais. É divertido, porque Virginia descobria o óbvio: que as mulheres sempre se sentirão melhor na companhia dos “gays” porque eles são indiferentes a elas. Com héteros, a coisa pode se complicar, e muito.
Este volume da Zahar é amplamente servido por fotos de Virginia e de membros de sua família e do grupo, com reproduções de pinturas da irmã de Virginia e até de Dora Carrington, vivida por Emma Thompson no filme inglês em que se conta da desesperada paixão da pintora pelo escritor homossexual Lytton Strachey (feito pelo ator Jonathan Pryce).
O filme não era grande coisa, exceto pelas boas interpretações principais, e o Cinema ainda não parece ter feito um filme à altura de Virginia e de seu grupo. Achei “As horas”, inspirado em sua vida, bastante duvidoso, até porque a transformação de Nicole Kidman (premiada com um Oscar) numa mulher feia, com um nariz estranho, para se parecer com a verdadeira Virginia, se baseou num equívoco – o famoso clichê de Hollywood de que mulher intelectualizada tem que ser automaticamente feia.
Virginia, de um modo nada convencional, era uma mulher belíssima, e a sucessão de fotos que esse livro de Lehmann exibe é capaz de convencer qualquer um do autêntico encanto da escritora.
O livro também nos faz admirar ainda mais a figura realmente enigmática do marido de Virginia, Leonard Woolf, que realizou com a escritora um casamento célebre pela ausência de sexo. Essa castidade é acima de tudo comovente, embora nada compreendida hoje em dia.
Virginia, com seu grupo (claro que sem saber, como todo pioneiro em mudanças de comportamento social), deflagrava um tipo de atitude necessária para vencer a hipocrisia de sociedades muito fechadas e preconceituosas e não podia prever os excessos que daí viriam, inclusive a sociedade de consumo voltada para um culto obsessivo do desnudamento pessoal em todos os sentidos, com toda a abjeção do voyeurismo de hoje.
Ninguém nem mesmo sonharia com o retorno da polidez nos termos vitorianos, mas a grande verdade é que a franqueza a qualquer custo tornou o mundo muitíssimo mais vulgar e deprimente. Fez com que cada um julgasse sua pífia intimidade pessoal uma espécie de legado para o mundo todo ver e conhecer.
E fez com que a velha “boa educação” parecesse sempre máscara de sentimentos condenáveis e interesses baixos, como se o ser humano jamais pudesse se elevar da lama e, se o tentasse, tivesse que ser necessariamente convencido de que a humanidade só é crível quando se revela torpe. Uma pena que isso tenha ficado epidêmico.
Em todo caso, a arte de Virgínia, que inspirou também, infelizmente, muita gente interessada apenas em pirotecnias “sensíveis” e anti-linearidades presunçosas, é muito mais refinada e interessante do que as pessoas que ouviram falar superficialmente da escritora suspeitam. E conhecer essa biografia cheia de belas imagens de Lehmann só reforçará isso.