Arquivo de junho de 2010

VIRGINIA WOOLF

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Por Chico Lopes

Um volume de uma coleção chamada “Vidas literárias”, da Jorge Zahar Editor, trazendo “Virginia Woolf”, por John Lehmann, me atraiu num sebo. Na capa, a figura estilizada da escritora, numa praia, com livros ao seu lado, e o mar com um infalível farol (encoberto por nuvens) ao fundo.

Já se leu mais Virginia Woolf no Brasil. Lembro-me que nos anos 80, todo mundo começou a conhecê-la melhor, pelos muitos livros seus lançados pela Nova Fronteira e por uma edição de “Orlando” que circulava como “cult book” entre escritores seduzidos por aquele estilo e aquela audácia criativa e por entre adeptos de uma vida sexual e existencialmente mais livre. É ainda seu livro mais famoso e mais acessível, e teve belíssima tradução brasileira por Cecília Meirelles. A capa trazia uma foto emblemática da beleza enigmática e torturada de Virgínia, muito repetida desde então.

Mas o livro deu origem a um culto equivocado, baseado na sexualidade polêmica da escritora que, ao que tudo indica, foi quase indiferente ao assunto (nisso se parecendo um pouco com a enigmática Garbo), mas teria tido uma paixão por Vita Sackville-Vest, a quem o romance foi dedicado.

Orlando, o personagem, atravessa séculos, sendo indiferentemente homem ou mulher, e a narrativa é cheia de um humor peculiarmente “woolfiano”, sarcástico e desafiador. Ao longo dos séculos, Orlando, que é um(a) candidato(a) a escritor(a), carrega consigo um poema esboçado chamado “O carvalho”, razão pela qual, no início do livro, na era elizabetana, estabelece relação com um poeta importante, cujas obras financia.

É um caráter bastante duvidoso, o do poeta. É engraçado ver aí o aristocrático Orlando, querendo ser literato e topando com uma figura de talento literário, mas tão pouco confiável humanamente, que só queria adulá-lo para ser financiado e seguir sua vida de escritor, aliás, conturbada, com um monte de filhos e dívidas; ele conclui que há muita baixeza em “gente de Letras” e, não obstante, segue sustentando a carreira do ilustre mau-caráter. Porque seu amor pela Literatura está acima de qualquer coisa.

Medos e mitos
Virginia tem muito senso de humor em seu “Orlando” e é muito sarcástica em suas memórias (“Momentos de vida” é corajoso e até contundente, mas jamais vulgar, em algumas passagens) e diários, justificando a famosa frase do medo que inspiraria e que rendeu um trocadilho que só faz sentido em Inglês, título de uma peça teatral de Edward Albee.

Tinha língua ferina e era capaz de liquidar reputações e inspirar terror com ela. Mas era pouco mais que uma criatura muito frágil, de uma sensibilidade demasiado à flor da pele, e até mesmo desprovida de humor, em muitos livros.

Fora “Orlando” e “Miss Dalloway”, eu particularmente não consegui me ligar na ficção de Virginia em “O farol”, “Noite e dia”, “As ondas”, “Entre os atos” etc. O estilo dela, que funciona maravilhosamente em determinados assuntos, fica opaco e redundante em outros, com toques de sensibilidade um tanto “feminina” no mau sentido, desperdiçada em sucessivas análises de sensações, locais, impressões.

É uma prosa sempre brilhante, mas cai no rebarbativo e em certo “culto à sensibilidade excêntrica” que pode se tornar chato. É possível afirmar que, em sua ficção, ela alternou pontos altíssimos, que a celebrizaram com justiça, com outros bem medianos ou simplesmente desdenháveis, e nem isso a impediu de ter a grandeza que teve.

A sua vida permanece interessando, talvez porque o Grupo de Bloomsbury, celebrizado por ser libertino e vanguardeiro na era vitoriana e aprontar bastante do ponto de vista social, continue atiçando a imaginação.

Essa convivência de gente muito talentosa e anti-convencional, culta, refinada e adepta de franqueza e do culto da inteligência ao custo da civilidade polida demais que redundava em hipocrisia, parece um fenômeno de Civilização e Cultura que só poderia se dar na Inglaterra daqueles tempos, mas, sem dúvida, todo grupinho unido por apelos anti-convencionais, onde se misturem sensibilidade e sexualidades heterodoxas, fica lisonjeado e estimulado pela existência histórica desse Bloomsbury.

Virginia conta que ela e a irmã, a pintora Vanessa Bell, acharam que tudo começou a mudar quando um dia um irmão de criação das duas pronunciou, rindo e corajosamente, a palavra “esperma”. O excessivo refreio do pudor vitoriano vinha abaixo, e não era sem tempo, ao menos para elas.

Depois, curiosamente, num trecho bastante engraçado de suas memórias, ela lembra que a convivência com Keynes, Strachey e outros integrantes do grupo famoso pareceu a ela e a irmã interessantíssima do ponto de vista intelectual, pois eles eram finalmente homens com os quais uma mulher poderia conversar em abstrato, penetrar no mundo das ideias sem se sentir perturbada pelo interesse sexual que tornaria um homem sempre incômodo para manter uma amizade com uma mulher.

Mas, precisamente isso passou a ser perturbador, porque ambas não se sentiam desejadas (o desejo de um sexo pelo outro seria um elemento de excitação fundamental num salão social misto) e demoraram um pouco a perceber que eram todos homossexuais. É divertido, porque Virginia descobria o óbvio: que as mulheres sempre se sentirão melhor na companhia dos “gays” porque eles são indiferentes a elas. Com héteros, a coisa pode se complicar, e muito.

Este volume da Zahar é amplamente servido por fotos de Virginia e de membros de sua família e do grupo, com reproduções de pinturas da irmã de Virginia e até de Dora Carrington, vivida por Emma Thompson no filme inglês em que se conta da desesperada paixão da pintora pelo escritor homossexual Lytton Strachey (feito pelo ator Jonathan Pryce).

O filme não era grande coisa, exceto pelas boas interpretações principais, e o Cinema ainda não parece ter feito um filme à altura de Virginia e de seu grupo. Achei “As horas”, inspirado em sua vida, bastante duvidoso, até porque a transformação de Nicole Kidman (premiada com um Oscar) numa mulher feia, com um nariz estranho, para se parecer com a verdadeira Virginia, se baseou num equívoco – o famoso clichê de Hollywood de que mulher intelectualizada tem que ser automaticamente feia.

Virginia, de um modo nada convencional, era uma mulher belíssima, e a sucessão de fotos que esse livro de Lehmann exibe é capaz de convencer qualquer um do autêntico encanto da escritora.

O livro também nos faz admirar ainda mais a figura realmente enigmática do marido de Virginia, Leonard Woolf, que realizou com a escritora um casamento célebre pela ausência de sexo. Essa castidade é acima de tudo comovente, embora nada compreendida hoje em dia.

Virginia, com seu grupo (claro que sem saber, como todo pioneiro em mudanças de comportamento social), deflagrava um tipo de atitude necessária para vencer a hipocrisia de sociedades muito fechadas e preconceituosas e não podia prever os excessos que daí viriam, inclusive a sociedade de consumo voltada para um culto obsessivo do desnudamento pessoal em todos os sentidos, com toda a abjeção do voyeurismo de hoje.

Ninguém nem mesmo sonharia com o retorno da polidez nos termos vitorianos, mas a grande verdade é que a franqueza a qualquer custo tornou o mundo muitíssimo mais vulgar e deprimente. Fez com que cada um julgasse sua pífia intimidade pessoal uma espécie de legado para o mundo todo ver e conhecer.

E fez com que a velha “boa educação” parecesse sempre máscara de sentimentos condenáveis e interesses baixos, como se o ser humano jamais pudesse se elevar da lama e, se o tentasse, tivesse que ser necessariamente convencido de que a humanidade só é crível quando se revela torpe. Uma pena que isso tenha ficado epidêmico.

Em todo caso, a arte de Virgínia, que inspirou também, infelizmente, muita gente interessada apenas em pirotecnias “sensíveis” e anti-linearidades presunçosas, é muito mais refinada e interessante do que as pessoas que ouviram falar superficialmente da escritora suspeitam. E conhecer essa biografia cheia de belas imagens de Lehmann só reforçará isso.

UM DESIGN ECOLÓGICO PARA A DEMOCRACIA

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Por Leonardo Boff,
de Triplov

A democracia é seguramente o ideal mais alto que a convivência social historicamente elaborou. O princípio que subjaz à democracia é este:” o que interessa a todos, deve poder ser pensado e decidido por todos”. Ela tem muitas formas, a direta, como é vivida na Suiça, na qual a população toda participa nas decisões via plebiscito.

A representativa, na qual as sociedades mais complexas elegem delegados que, em nome de todos, discutem e tomam decisões. A grande questão atual é que a democracia representativa se mostra incapaz de recolher as forças vivas de uma sociedade complexa, com seus movimentos sociais.

Em sociedades de grande desigualdade social, como no Brasil, a democracia representativa assume características de irrealidade, quando não de farsa. A cada quatro ou cinco anos, os cidadãos têm a possibilidade de escolher o seu “ditador” que, uma vez eleito, faz mais a política palaciana do que estabelece uma relação orgânica com as forças sociais.

Há a democracia participativa que significa uma avanço face à representativa. Forças organizadas, como os grandes sindicatos, os movimentos sociais por terra, teto, saúde, educação, direitos humanos, ambientalistas e outros cresceram de tal maneira que se constituiram como base da democracia participativa: o Estado obriga-se a ouvir e a discutir com tais forças as decisões a tomar. Ela está se impondo por todas as partes especialmente na América Latina.

Há ainda a democracia comunitária que é singular dos povos originários da América Latina e pouco conhecida e reconhecida pelos analistas. Ela nasce da estruturação comunitária das culturas originárias, do norte até o sul de Abya Yala, nome indígena para a América Latina. Ela busca realizar o “bem viver” que não é o nosso “viver melhor” que implica que muitos vivam pior.

O “bem viver” é a busca permanente do equilíbrio mediante a participação de todos, equilíbrio entre homem e mulher, entre ser humano e natureza, equilíbrio entre a produção e o consumo na perspectiva de uma economia do suficiente e do decente e não da acumulação.

O “bem viver” implica uma superação do antropocentrismo: não é só uma harmonia entre os humanos mas com as energias da Terra, do Sol, das montanhas, das águas, das florestas e com Deus. Trata-se de uma democracia sociocósmica, onde todos os elementos são considerados portadores de vida e por isso incluidos na comunidade e com seus direitos respeitados..

Por fim estamos caminhando rumo a uma superdemocracia planetária. Alguns analistas como Jacques Attalli (Uma breve historia do futuro, 2008) imaginam que ela será a alternativa salvadora face a um superconflito que poderá, deixado em livre curso, destruir a humanidade.

Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá conta da unicidade da família humana e de que o planeta Terra, pequeno, com recursos escassos, superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas obrigará os povos a estabelecer estratégias e políticas globais para garantir a vida de todos e as condições ecológicas da Terra.

Esta superdemocracia planetária não anula as várias tradições democráticas, fazendo-as complementares. Isso se alcança melhor mediante o bioregionalismo. Trata-se de um novo design ecológico, quer dizer, uma outra forma de organizar a relação com a natureza, a partir dos ecossistemas regionais.

Ao contrário da globalização uniformizadora, ele valoriza as diferenças e respeita as singulariedades das bioregiões, com sua cultura local, tornando mais fácil o respeito aos ciclos da natureza e a harmonia com a mãe Terra.

Temos que rezar para que este tipo de democracia triunfe senão ignoramos totalmente para onde seremos levados.

O QUE É A GERAÇÃO Y?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Por Luis Soares,
de Obvius

O livro “Geração X” de Douglas Coupland marcou-me quando o li e levou-me a ler compulsivamente a maior parte das obras do autor. Embora situado noutro universo social e cultural, a vida e as preocupações das personagens eram as minhas e diziam-me muito. Descubro agora que existe já uma Geração Y e tento descobrir se, discretamente, consigo chegar lá.

Primeiro que tudo acho assustadora a escolha de letras. O facto de já irmos na Geração Y quer dizer que o fim do mundo se aproxima? Vamos dar a volta por cima (ou por baixo) e teremos uma nova Geração A? Não sei. Sei que os estudiosos do mercado definem a Geração Y como tendo entre 18 e 27 anos, com três características principais: estão continuamente ligados; falam a sua própria língua; são influenciados pelos seus pares. (Acho que há esperança para mim).

Mais uma nota, que não é de rodapé: a Geração X foi descrita por um escritor e definida com subtileza pelas suas palavras, uma história, um conjunto de personagens. A Geração Y é definida pelo pessoal do Marketing. E é um sonho para o marketing.

Estão sempre ligados, o que quer dizer que estão susceptíveis a ser permanentemente bombardeados por mensagens. Emocionalmente são inseguros, em busca permanente de reconhecimento e fama, emocionalmente numa adolescência perene que um dia lhes há-de formar a personalidade (mesmo que seja à base de iPods).

Num segundo nível, a coisa é mais complexa. A sua atenção é mais difícil de agarrar, aborrecem-se com facilidade, exigem imediatismo e a mudança está à distância de um clique. Agora estão aqui. Daqui a um segundo já não.

A sua linguagem é difícil de imitar e exige uma pertença difícil para quem está de fora, é muitas vezes dominada por um nonsense e por uma rede de referências culturais que se espalha como um fogo na savana.

Num terceiro nível, a coisa piora definitivamente para o pessoal do Marketing. A Geração Y tem opinião. Pior que isso, tem muitas opiniões. E muda muito de opiniões. É fiel à opinião dos amigos e pouco fiel às marcas.

Hoje é Nike, amanhã é Adidas, depois é Element e para a semana Carhartt. As suas tribos estão em constante mutação e interacção: Emos, Gamers, Punks, Alternativos, já nem sei quantos são… E ainda por cima… são criativos. Não criativos de uma maneira ordenada e fácil de compreender, mas numa lógica de nonsense sem limites.

Este é o público de parte significativa da Internet. Em Portugal e no Brasil como no resto do mundo. Repararam como comecei a escrever frases curtas? É para não vos aborrecer. Paz.

Deu no blogue de Carlos Santos

segunda-feira, 28 de junho de 2010

“Ficha Suja não impede sucesso familiar na política do RN
(http://www.blogdocarlossantos.com.br/)

A vitória do estudante universitário Rafael Freire (PMDB) à Prefeitura de Tibau,domingo, 20, é outro sucesso familiar indireto da fauna “Ficha Suja” da política potiguar.

Apesar de não ter problemas quanto à gestão pública, Rafael é filho do ex-prefeito Sidrônio Freire (PMDB), que a princípio era o candidato, mas teve registro impugnado devido problemas no Tribunal de Contas da União (TCU) e Tribunal de Contas do Estado (TCE). O caso de Rafael e o pai remete a outro episódio recente da política do Rio Grande do Norte.

Cassado após eleição no dia 5 de outubro de 2008, à Prefeitura de Patu, o ex-prefeito Ednardo Moura (PSB) botou a mulher Evilásia de Oliveira (PSB) à disputa de eleição suplementar. Ele tinha “engancho” no TCU e TCE também.

Ela venceu. Evilásia superou o segundo colocado, vereador Alexandrino Suassuna Filho (PMDB), por 290 votos.”

MOTE

A corja da ficha suja
se enterra mais na sujeira

GLOSA

A lei virou garatuja
no fazer desses ladrões,
come-verbas, cafifões
- a corja da ficha suja!
Qualquer prefeitinho intruja,
não passando na peneira,
da cadeia quase à beira,
recorre à mulher, ao filho
- permanece no estribilho,
se enterra mais na sujeira!

Laélio Ferreira

RELENDO GILBERTO FREYRE

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorg
e

É sabido que o que se salva em Gilberto Freyre é o estilo, não as suas teorias sociológicas; o escritor, não o cientista social que acolheu e defendeu a ditadura, fazendo-se presente pela cumplicidade com os ditadores militares.

Certamente, se ainda vivesse, estaria defendendo o presidente Lula, a malandragem congênita deste governo e o braço ideológico do PT, como o feroz vocacionado governista que era desde a sua mocidade, sempre ávido e famélico de reconhecimento e de comendas, viessem de onde viessem tais ouropéis.

Dono de um estilo que delata em grande grau o que Baudelaire definiu como a arte do feiticeiro, impõe-se aos leitores mais refinados por sua elegância, por sua contenção e individualidade, por seu característico humor aristocrático e suas obsessões de escritor

Excetuando-se o estilo, o seu estilo fluido e envolvente, está ultrapassado. Até porque, em nenhum momento, chegou aos pés do nosso Cascudo, Luis da Câmara Cascudo, contra quem cultivou uma espécie de rivalidade a que nunca o potiguar jamais deu trelas e assim puderam, no curso dos anos, manter uma boa e civilizada vizinhança.

Um estilista, portanto, não importando ao leitor o que escrevesse, mas a forma como escrevia e deu vida às suas idéias, algumas inteiramente destemperadas, como aquela em que defendeu a reserva, em qualquer um país civilizado, de um contingente de analfabetos que a seu ver manteriam a pureza do idioma, como decorrência de uma ignorância saudável, algo rousseauniana ou primitivista, sei lá no que ele terá efetivamente pensado ao propor semelhante e indefensável sandice…

Hoje, seria Gilberto o grande apologista do presidente Lula. Até por serem ambos pernambucanos e, sobretudo porque, sem nunca jamais na historia deste país ter um lido um livro sequer e mesmo a despeito disto, chegou o metalúrgico à presidência e ao limiar de um regime que não esconde a sua simpatia pelo totalitarismo e pelas idéias de mão única.

Mas fiquemos com o Gilberto Freyre estilista; com o escritor que dominava a sua arte e fazia-se notável sobretudo como jornalista e por seus textos, diabolicamente bem escritos; sobretudo, escritos com o concurso da cultura criadora e critica, que se opõe à erudição incaracterística.

Ora, o escritor que saboreava elogios como quem saboreia bombons ou goles do mais fino e espirituoso licor, conforme confessaria em uma das numerosas páginas que escreveu, está vivíssimo, apesar de morto para as teorias tão valorizadas durante os anos turvos da ditadura que deu notoriedade, entre nós, à sociologia e à discriminação que faz arremedos de vida sob o atual governo; um governo que só não se impôs ainda, ditatorialmente e de maneira universalmente descarada porque temos um presidente que se acovarda e costuma dar para trás, quando encontra, numa pequena parcela da imprensa – ainda livre e democrática, - algum resquício de oposição.

Grande jornalista e editor, vivendo por toda a vida à sombra do jornal, Gilberto Freyre, tinha a compulsão de opinar sobre tudo, como faz aqui quase sem nenhuma cultura profunda ou com a cultura superficial e rasteira dos jornalistas profissionais, o nosso retórico-mor, Vicente Serejo, o mais vaniloqüente operador de um jornalismo que vai se tornando cada vez mais démodé, repetitivo e sonolento. O cronista, em síntese, de um leitor médio e sentimental.

Durante dois anos, foi o autor de “Casa Grande e Senzala” o feliz editor de A Província, um pequeno jornal do Recife a que deu status de grande e notável, ao reunir entre os seus colaboradores alguns dos maiores talentos do seu tempo, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, José Américo de Almeida, Jorge de Lima, Ribeiro Couto, José Lins do Rêgo, Aníbal Fernandes, Luís Jardim – outro grande escritor e artista plástico há muito submergido no limbo do esquecimento -; um jornal que, segundo as palavras de Bandeira foi uma reação contra o jornalismo estandartizado.

Um jornal, enfim, que deu guarida e pôs em circulação o que o próprio Gilberto Freyre chamou de “pernambucanidade”,ou seja, um leque de valores provincianos para os quais a imprensa provinciana, na ânsia de ser moderna, costumeiramente virava a cara , desdenhava e fazia beicinho…

Além disso, foi um escritor que se foi tornando com o tempo cada vez mais refinado e capaz de substituir o pedantismo ostensivo do jovem intelectual formado em Baylor por uma espécie de serenidade aplicada à forma, que faz dele, hoje, neste sentido, um clássico brasileiro; o detentor dum classicismo já latente na sobriedade do seu vocabulário, que alguns dizem ser parco e restrito, e na escassez da adjetivação que tem enrascado muitos talentos… Usando duma metáfora bíblica e apocalíptica, poder-se-ia dizer de Gilberto Freyre que escreveu em estilo de homem.

Para encerrar, pois não quero ser acusado de provocar bocejos no leitor desavisado que me prestigia, diria que não podemos prescindir do que o notável pernambucano escreveu, em todas as fases de sua vida - que não foi curta nem improfícua - , para os jornais; especialmente para os jornais de sua terra, através dos quais pôs em relevo esse elemento inesperado de pernambucanidade brasílica e luso-tropical, e que constitui uma teoria e uma invenção que faria dele, Gilberto, para os ditadores militares, uma espécie de magister dixit. Em termos de cultura brasileira, a última palavra.

“COMMON LAW” E SEUS SIGNIFICADOS

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Puxando pela memória, do meu tempo de UFRN não consigo recordar qualquer preocupação de professores e estudantes com o estudo metodológico do Direito anglo-americano ou do “common law”.

É verdade que eram tempos anteriores à Internet e à globalização e estudos de Direito comparado não eram comuns à época. Quando muito, ficávamos jungidos, em disciplinas como as de direito civil ou penal, a meras citações de autores franceses, italianos e alemães.

O fato é que hoje, em sala de aula, tenho notado a coisa bem diferente. Por exemplo, se falo algo sobre a tradição de direito co-irmã do “common law”, logo pipocam estudantes com as mais diversas informações e opiniões acerca do assunto. Mas ainda tenho notado certo desconhecimento sobre o que realmente significa (ou pode vir a significar) a expressão “common law”.

Mais corriqueiramente, é verdade, essa expressão é usada apenas para reunir os sistemas jurídicos de certos países (a Inglaterra e outros que a seguiram, como os Estados Unidos) em uma família ou tradição jurídica com características próprias e comuns, em contraposição à família jurídica do “civil law”, também com seus caracteres comuns, à qual estão filiados os sistemas jurídicos da maioria dos países da Europa Ocidental e também o Brasil.

Nesse sentido, a expressão quer significar, para além de simplesmente a família jurídica a que pertencem os países ligados à tradição anglo-americana (que inclui também a Nova Zelândia, a Austrália e o Canadá, por exemplo), o sistema de conceitos jurídicos e a técnica que fundamentam o Direito desses países, sobretudo sua estrutura jurídica fundamentalmente jurisprudencial.

Entretanto, o termo “common law”, ainda que se levando em consideração apenas o Direito anglo-americano de hoje, possui mais de um significado, a depender do contexto em que é utilizado.

Para um livro que publiquei faz alguns anos (conseqüência de minha dissertação de mestrado), cheguei a reunir, baseado na lição de uma autora chamada Victoria Sesma, pelo menos mais três outros sentidos.

De logo, sob um segundo prisma, por “common law” é possível entender-se o elemento casuístico do Direito anglo-americano, o “case law”, constituído pelos precedentes judiciais, ou seja, a jurisprudência dos tribunais anglo-americanos.

rata-se, assim, de uma forma de Direito escrito, que não leis, códigos, decretos etc., e que, portanto, não advém da autoridade de um Legislativo ou mesmo do Executivo.

Numa terceira acepção, a expressão “common law” quer dizer o Direito formado pelas decisões emanadas das cortes do “common law”, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, em contraposição ao Direito criado pelas “Courts of Equity” ou “Chancery Courts”, sendo a “equity” um tipo de prestação de Justiça fundada num sistema de regras e princípios que nasceram na Inglaterra como uma alternativa para as duras regras do “common law” e que eram fundadas naquilo que era considerado justo numa situação específica.

Historicamente falando, na Inglaterra de fins do século XV foi criado esse verdadeiro “sistema” jurídico paralelo de “equity” para corrigir as imperfeições do “common law”, no qual as decisões, por sua natureza, deviam ser mais maleáveis e levar em conta as circunstâncias do caso concreto.

Esse “duplo” sistema jurídico na Inglaterra perdurou até o final do século XIX, quando, de modo apenas parcial, se fundiram os dois sistemas (apesar de as Cortes da Chancelaria terem sido suprimidas, a antiga distinção de certo modo sobrevive, pois a aplicação da “equity” está confiada, destacadamente, à “Chancery Division”, uma das três secções da “High Court of Justice” inglesa).

Por fim, o termo common law pode ainda significar o antigo direito existente na Inglaterra e nos Estados Unidos, em contraposição ao direito atual desses países, recentemente forjado pelas autoridades legislativas ou mesmo por decisões judiciais.

Nesse contexto, benditas sejam a Internet e a globalização, que permitiram aos estudantes uma maior aproximação, mesmo que ainda superficial, com as tradições jurídicas de outros países, alargando, assim, suas percepções do Direito.

BARTOLOMEU CORREIA DE MELO [3-3]

domingo, 27 de junho de 2010

Por Pedro Simões Neto*

Os livros das decifrações
Botou tudo que ouviu em dois livros que dedicou à cidade: “Lugar de Estórias” e “Tempo de Estórias”.

Como um breviário completo, ou um almanaque, dá conta de tudim - dos ofícios, bem quereres, malquerenças, febres suspirosas, mal assombros, amores queridos e rejeitados…causos que se não forem acontecidos, bem que poderiam.

Uma espécie de Cabala, de livrinho de cordel em prosa, de Roteiro Místico da cidade, de desnudamento da alma dos seus habitantes, uma declaração de amor à sua própria obra profana, todavia, reconhecida por Nossa Senhora, que deu mostras de ter-se encantado com toda a recriação e com as invencionices do seu mestre de obras.

O que tem de humano nas criaturas de Deus está lá, devidamente registrado e tombado. Sacramentado. Só não está lá o que não interessa e não recomenda um criador de boa fé e honestas intenções. Se não há barões, nem baronetes, nem senhores de baraço e cutelo e os seus escravos, é porque o autor resolveu passar flanela com vinagre nesse azinhavrado e borracha nos mal amanhados.

O que está lá é o povo de Deus, na média possível, na medida do possível. Está lá, a infância perdida no passado, sobrevivente no presente e resgatável no futuro. O imutável sentimento de amor às raízes sentimentais e ancestrais.

Está lá, também, o socorro ao náufrago, coitado sem identidade, perdido no oceano da globalização, macaqueando os outros sem saber porquê, ou sabendo, mas envergonhado de ser o que é.

O farol que alumia o caminho para o porto seguro (Ninguém se perde no caminho da volta). A razão de sermos o que somos e porque somos. O orgulho de sermos únicos, individualidades distintas, a partir da nossa origem, hábitos, língua, caráter.

Um amigo observador da cena humana, disse certa vez que há uma ciência que ninguém nos supera em conhecimento e vivência: a nossa terra. A aldeia que nos pariu e nos projetou para o mundo.

Desde que tenhamos dividido com ela a nossa própria vida, que pelo menos um pedacinho de nós haja-se incorporado à história e ao cenário da nossa vivência: naquela rua, naquela árvore, naquela igreja, naquele colégio, sob aquele céu, no fundo da paisagem, num causo perdido, há uma marca indelével da nossa passagem que podemos testemunhar com as nossas estórias.

Nesse espaço somos protagonistas, não apenas testemunhas ou circunstanciados dos fados. Fizemos, nós mesmos, a nossa própria história, mesmo que tenha sido uma “ponta” do enredo, que tenhamos sido coadjuvantes, nossa marca está lá, num talho de canivete, numa velha foto encardida, no livro de batismo, no registro do cartório, na tradição oral.

Na sementeira dos filhos e netos. Na memória dos mais velhos e mais acreditados. Na retina sempre-verde dos companheiros da infância.

No inconsciente coletivo, que guardou o vagido da criança, o arrastado dos primeiros passos, os primeiros aprendizados, os primeiros gemidos do amor. E muito depois, o difícil, mas prazeroso retorno aos primeiros momentos, só reencontrados no lugar de origem. O caminho da volta.

Bartola, como ficou conhecido o anjo-trovador, poeta e cantador, na vulgarização sem cerimônia dos cearamirinenses, que apelidariam até o Papa, é uma instituição da cidade. Talvez o seu mais importante habitante, porque a recriou.

Não que tenha pedido por isso, porque o enfada a notoriedade, prefere a alforria das obrigações que o conserva irreverente e maroto. Um sonso, isso sim! Daquela sonsice de quem foi predestinado à liberdade, e é forçado à prisão na saia avoenga.

E também, porque guardou a sua ciência até os mais de cinqüenta anos de idade, para só então torná-la pública, sovinando aos seus amigos, aos conterrâneos e no geral aos que tem sede e fome de saber, a chave para decifrar conhecimento tão hermético e ao mesmo tempo tão singelo.

Mas resistir quem há de. O que esperava o criador de uma freguesia, mestre de obras de Nossa Senhora da Conceição, autor de uma obra comparável à Pedra de Roseta, decifradora da cultura singular de uma cidade, que, sendo igual a tantas outras, não é igual a nenhuma delas.

Rejeito as generalizações. Todas são simplificadoras e embusteiras, porque têm sempre um propósito de apoucamento ou de igualação, ou cortam o que lhes sobra em tamanho ou nivelam por baixo, no mesmo tope, mesmo que maiores.

Como querer estabelecer um parâmetro entre Bartola e o Rosa das Gerais. Não há como compará-los ou medir a importância segundo este ou aquele referencial. Em favor de Rosa, a criação. Em benefício de Bartola, a apropriação do dialeto popular e a sua conversão em linguagem corrente literária, às vezes decodificadora da emoção, do caráter, da cultura.

De fato, a partir do molde originalíssimo, criou-se a verdadeira escola literária do Ceará-Mirim.

Porque é isso o que o anjo-trovador faz: transporta-se, pela linguagem comum, ao seres humanos desfavorecidos de teres e haveres, mas ricos em aventura, alegria e esperança. Sonham. E por isso revivem, transfiguram-se, transmutam-se, renascem meninos. Beiradeiros.

Viva Bartola!

Que viva sempre em nós, a nossa aldeia, que é o nosso mundo, a nossa referência e a nossa fiança, a teta-mãe que nos aleitou, qual Rômulo e Remo, pelos úberes dos guaxinins do canavial.

O SERTANEJO FRANKLIN JORGE

domingo, 27 de junho de 2010

Entrevista a Carla Souza,
da revista Saga


Escritor eclético e enigmático, nascido no Ceará-Mirim e criado numa propriedade rural no Vale do Assu, Franklin Jorge, 57 anos, é editor de Cultura e Opinião do Novo Jornal e assina um blogue de sucesso, “O Santo Oficio”, com quase 200 mil acessos [WWW.franklinjorge.com]. Dentre os livros que publicou, destacam-se “Fantasmas cotidianos”, “O Spleen de Natal” e “Ficções Fricções Africções”, com o qual obteve em 1999 o Prêmio Luis da Câmara Cascudo, atribuído pela Prefeitura do Natal. Quando menino, uma cigana leu a sua mão e vaticinou-lhe um destino de “muitas letras”. Tem, inéditos, 44 livros, entre os quais, “O Escrivão de Chatham”, “Gente de Ouro”, “Cinco Minutos” e “Leituras Potiguares”. Avesso a badalações, vive recluso e dedicado à preservação e direitos dos animais e dos felinos em particular, contribuindo, neste sentido, com várias organizações não-governamentais.


Carla Souza
- Quais os autores e obras mais significativas sobre o sertão potiguar que você destaca e porque?

Franklin Jorge - Não temos no Rio Grande do Norte uma literatura voltada para este tema. Contudo, Cascudo o abordou incidentalmente com as ferramentas da erudição, porém de maneira assistemática. Seu estudo mais significativo, neste sentido, terá sido um pequeno volume no qual consignou as anotações que resultaram de observações feitas no curso de 11 dias por 16 municípios. Refiro-me a “Viajando o Sertão”.

É claro que o sertão está disperso em sua obra, porém o que quero dizer aqui é que ele não realizou, a rigor, estudos específicos sobre o sertão e o sertanejo. É verdade que foi o primeiro a inventariar e historiar esse fenômeno - que eu não diria literário – conhecido como literatura de cordel. “Flor de Romances Trágicos” prova-o sobejamente.

Em termos estritamente literários, Afonso Bezerra foi um autor que captou o sertão e o resumiu em um conto antológico – Mordido de cobra. O polígrafo Manoel Rodrigues de Melo – que com coragem e denodo ergueu o curioso prédio da nossa Academia de Letras – é autor do que de mais importante se escreveu, até este momento, sobre o Vale do Assu, talvez inspirado pelo sociólogo Gilberto Freyre. “A Várzea do Açu”, “Cavalo de Pau”, “Patriarcas e Carreiros”, como o que produziu Cascudo nessa temática, resultam mais de um olhar etnográfico e sociológico; a rigor, não são obras literárias, embora fundamentais e, mesmo, canônicas, diria.

Quero lembrar-me aqui de dois autores seridoenses, Artéfio Bezerra da Cunha, que escreveu “Memórias de um Sertanejo” e Pery Lamartine, autor de dois pequenos volumes que tenho em alta conta.

Fale sobre o sertão de Oswaldo Lamartine e suas características?

FJ - Trata-se de um sertão relacionado com a memória do autor. No que pese o fato de ser Oswaldo Lamartine um estilista, produziu ele uma pequena obra que tem sido super dimensionada.

Talvez, despertado pela poesia de João Cabral de Melo Neto ou mesmo pelo que escreveu o seu pai, o ex-governador e jornalista Juvenal Lamartine, escreveu algumas páginas significativas sobre acessórios e utensílios que estão historicamente incorporados à vida do sertanejo e a uma cultura rural, como as facas e arreios.

Seu pai, no entanto, me parece mais importante nesse sentido, porém carecido do estilo do filho, de quem se pode dizer que, a despeito do fato de ser um estilista, repito-o, não produziu a obra literária esperada, especialmente por todos aqueles que sabem que escrever e publicar livros não faz de ninguém escritor.

Fale-me da participação do sertanejo na literatura brasileira. Qual o significado e importância da literatura sertanista?

FJ – José de Alencar, Franklin Távora, Euclides da Cunha, Amando Fontes, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Ascendino Leite, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna…, muitos deram a sua contribuição e fizeram do sertão e do sertanejo elementos marcantes da literatura brasileira, geograficamente oriunda do Nordeste do Brasil.

Aqui mesmo, neste momento, creio que Bartolomeu de Melo tem neste sentido uma obra significativa que recupera o sotaque e sintaxe do povo sertanejo com algum elemento, no entanto, caricatural e pitoresco.

O tema é complexo e não caberia numa curta entrevista, pois, para começar, precisaríamos desvendar e conceituar o sertão, do ponto de vista da geografia, onde a natureza aparentemente se empobrece, torna-se erma e se deprime - como diria um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos -, especialmente na quadra do estio.

A rigor, o tema comporta vários aspectos: o geográfico, o antropológico, o histórico (este, talvez, o aspecto menos conhecido de todos), o etnográfico, o sociológico etc, já que o sertão, como bem o disse João Guimarães Rosa, está em toda parte.

Fixando-nos, porém, no literário, eu diria que ninguém melhor do que o próprio Guimarães Rosa percebeu e transcriou em sua obra o que é o sertão, um fenômeno que transcende o elemento físico, o elemento geográfico – embora seja a geografia parte desse contexto -, ao perceber que o sertão está em toda parte.

Nada mais literário do que o sertão, nesse sentido, pois para além de toda a fisicalidade é, em grande parte, um produto do imaginário. Desse imaginário que se beneficia em grande parte do empirismo e da transmissão ociosa do conhecimento humano.

Quem é o sertanejo?

FJ – Muitos tentaram defini-lo, sendo que Euclides da Cunha cunhou aquela célebre frase que se tornou proverbial, “o sertanejo é antes de tudo um forte”. Euclides, como notável escritor que é, de alguma forma heroicizou o sertanejo.

Além disso, sua descrição do sertanejo é muito precisa e atenta para peculiaridades que somente alguém que teve a experiência de viver no sertão poderá ressalvar. Relendo-o, neste momento, confesso-me surpreso e impressionado com as observações euclidianas.

O sertanejo, como o conhecemos, é o resultado de uma cultura que tem o seu fundamento no trabalho rude e no esforço físico. Mas, também, na geografia que remete-nos ao desconhecido, ao ignoto, ao remoto e ao deserto. O sertanejo não é uma etnia, não é uma raça, mas um produto do meio, tendo assim, como contraponto, no caso do nosso País, o gaúcho, do qual difere fundamentalmente.

No dia 03/05 comemoramos o dia do sertanejo. Qual o significado dessa data para a cultura nacional?

FJ – É apenas uma convenção, nada mais. Como o dia das Mães, do Pai, do Orgulho Gay, do Professor, do Jornalista, da Mulher etc… Mais um artificialismo criado por algum político oportunista e interesseiro querendo fazer média. Não me diz nada.

Você acha que o capitalismo e os avanços industriais e tecnológicos estão pondo fim a figura do sertanejo? A literatura é uma forma de eternizar esse personagem? Fale-me sobre isso.

FJ - O sertanejo, como produto de uma cultura especifica, está desaparecendo ou sendo apropriado e devorado por uma pseudo cultura rural mais palatável ao leitor apressado e hostil às complexidades do conhecimento.

Mas não é o sertanejo que está desaparecendo, é a terra - e consequentemente a cultura sertaneja - que está morrendo ou se transformando, porque na vida tudo evolui ou involui de acordo com a circunstancia, como sabemos.

Criado numa propriedade rural que se estendia da várzea ubérrima aos taboleiros inóspitos do Vale do Assu, no meu tempo de menino a terra era cortada e preparada para o plantio com o concurso da tração animal, usando para isto a charrua, já usada pelos povos da antiguidade.

Já adolescente, o uso dos tratores já estava se tornando comum e universal. Hoje a charrua e a capinadeira estão aposentadas ou praticamente sem uso. Ora, a tradição é um processo que evolui.

Assim, no curso de 50 e poucos anos de existência, conheci e vi desaparecer o que podíamos chamar de sertanejo autentico, ou seja, o homem arraigado à terra, ou seja, o homem telúrico produtor e herdeiro de uma cultura característica que remontava a um tempo em que a agricultura era um oficio considerado sagrado e, segundo Varrão, dela resultava o único lucro que era desprovido de pecado, pois não enganava nem custava a honra de ninguém.

A agricultura está em grande parte mecanizada. A sofisticação tecnológica chegou ao campo. Por isso, creio que esse sertanejo que conheci em menino só subsiste hoje através da literatura. Aliás, como disse Schoppenhauer, a palavra e não o bronze é que faz o monumento mais duradouro.

O BRASILEIRO RUI BARBOSA

domingo, 27 de junho de 2010

Por Ypojuca Pontes

A ação múltipla de Rui Barbosa desmonta o velho trololó marxista de que a história se move por meio da luta de classes e não pela vontade de homens (e mulheres) capazes e decididos. Dotado de saber, caráter, energia, constância e sensibilidade, o Dr. Barbosa era um ser muito acima dos seus pares.

Certa feita, um obscuro comentarista de jornal escreveu que a biografia era um gênero literário de geografia definida, limitado ao norte pela história, ao sul pela ficção, ao leste pelo obituário e a oeste pelo tédio.

Desde logo a frase, bem construída, pega pelo balizamento estrutural do gênero, mas peca pelo princípio da generalização: nem sempre a biografia, enquanto gênero literário, aborrece, em particular quando é traçada por um escritor de estilo claro e íntegro, que compreenda o tempo, o sentido da vida e a obra do seu personagem.

(A propósito - cumpre lembrar - ficou célebre nos anais da história literária o caso da biografia do lexicólogo inglês Samuel Johnson: o seu biógrafo e confidente, James Boswell, tornou-se mais festejado do que o próprio biografado - autor, por sinal, da frase lapidar: “O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”).

Este é justamente o caso do escritor Murilo Melo Filho, em seu livro “O brasileiro Rui Barbosa” (União Editora, João Pessoa, 2010), lançamento não apenas oportuno e essencial, mas de leitura cativante.

Oportuno, em primeiro lugar, porque ao ser lançado em momento tão singularmente acanalhado da vida pública brasileira, recoloca na ordem do dia a pouco lembrada figura de Rui Barbosa, um dos nossos raros homens públicos que soube manter ao longo da vida (de 73 anos) a necessária decência; essencial, porque em exatas 255 páginas a obra nos concede, em substância, os elementos indispensáveis para se avaliar com objetividade a presença marcante de Rui Barbosa no cenário nacional - cenário em que se fez legenda não só como jornalista, político e jurista, mas como escritor, filólogo, educador, diplomata (sem jamais ter passado pelo Itamaraty) e orador; e cativante, por sua vez, porque o autor conduz o leitor - em meio ao levantamento de uma vida plena de peripécias e dramaticidade - ao deleite de pura fruição estética, algo só perceptível na genuína obra literária.

Na sua bem-sucedida empreitada, Murilo Melo Filho soube realçar os muitos atributos que definiram (e definem, ainda hoje) o brasileiro Rui Barbosa, especialmente no que ele tinha (vá lá o chavão) de inteligente, culto, corajoso, fluente e tenaz. No capítulo tenacidade, como realçam alguns biógrafos, Rui Barbosa tinha por hábito trabalhar até 15 horas por dia, uma coisa espantosa, sobretudo para quem, como ele, convivia com freqüentes problemas de saúde, não passava de 1,58m de altura, pesando em média 49 quilos.

De ordinário, para se reconstituir a vida de personagem de grande estatura histórica se faz necessário algo mais do que a simples tarefa de coligir fatos, intercalados de datas - uma constante no trabalho de certos biógrafos, nacionais ou estrangeiros, em geral incapazes de refletir sobre o passado.

Neste terreno intrincado, como é sabido, antes de cumprir as tarefas básicas do ofício (ler cartas, livros, estudar documentos, consultar arquivos, entrevistar pessoas, etc.), há que se admirar, nos seus prós e contras, para o bem ou para o mal, a figura do personagem a ser retratado.

Nesta perspectiva, ao considerar Rui Barbosa o protagonista principal da nossa história dita culta e civilizada, no Império e na República, Murilo Melo Filho vai fundo na sua admiração, assumindo a postura de biógrafo consciente e criterioso.

De início, o livro de MMF se impõe como trabalho abrangente. O autor, sem fugir à complexidade do desafio, se empenha em revelar as múltiplas facetas do brasileiro Rui Barbosa, tais como, por exemplo, as do abolicionista, salientando sua extraordinária capacidade de luta para nos livrar, sem o rancor ideológico das cotas raciais em voga, da chaga da escravidão tardia.

Neste embate, travado por Rui no parlamento e nas redações de jornais, seu empenho foi tanto que o próprio Machado de Assis diagnosticou: “Ninguém o excedeu, em brilho e em denodo, na libertação dos escravos”.

Não menos importante, por outro lado, foi a sua participação na construção da República (hoje muito exaltada, mas cada vez mais vilipendiada). De fato, embora respeitado por D. Pedro II, um monarca moderador, Rui era um federalista convicto e logo aderiu à conspiração, transformando-se no arauto da idéia republicana.

Quando o Império é derrubado e a República é proclamada sob os olhares do povo “perplexo e bestificado”, em 15 de novembro de 1889, Rui redige o Decreto provisório que estabeleceu a República Federativa Brasileira, separando a Igreja do Estado - quem sabe, uma das prováveis causas do vácuo moral que se abate sobre o País.

Posteriormente, sozinho, redigiu a Constituição de 1891, fortemente inspirada na Constituição dos Estados Unidos, descentralizadora dos poderes, dando larga autonomia, hoje sonegada, aos municípios e às províncias, transformadas em “estados”. Feito Vice-Chefe do Governo Provisório de Deodoro da Fonseca, Rui Barbosa lançou um manifesto cujo lema era o seguinte: “Com a lei, pela lei e dentro da lei, por que fora da lei não há salvação.Ouso dizer que este é o programa da República”.

Estudiosos desta fase da vida nacional acreditam que Rui, nomeado ministro da Fazenda, abriu séria fenda na sua biografia.

De fato, ao impor, na “macroeconomia” cabocla, a conversibilidade do padrão-ouro, o baiano, tal como o venturoso JK, passou a emitir papel moeda aos borbotões, dando margem à política do “encilhamento”, propulsora do jogo especulativo da bolsa, que fez fortunas da noite para o dia e levou o país à inflação galopante, à “carestia” e à quebradeira geral. Como resultado, veio a crise política e a previsível renúncia do ministério.

Rui só ergueu a cabeça (que lhe era desproporcional ao tamanho do corpo) seis anos depois, em 1907, por ocasião da Conferência de Paz, em Haia, onde representou o Brasil na qualidade de Embaixador Plenipotenciário.

Na Conferência - considerada a maior assembléia diplomática internacional até então realizada, com a participação de 44 países do chamado mundo civilizado - a atuação de Rui colocou o Brasil (então, uma floresta gigantesca com 25 milhões de habitantes) nas páginas da história universal.

De início, causou surpresa ver aquela figura mirrada, quase anã, analisar projetos e apresentar emendas e substitutivos no mais irrepreensível francês. Criou ressentimentos, é claro. Numa dessas reuniões, Rui invocou-se ao sentir que um seu discurso, considerado político pelo presidente da Mesa (o embaixador russo De Martens), não seria transcrito nos Anais.

Foi o suficiente para que o orador, até então visto com descaso, subisse à tribuna e, de improviso, fizesse o mais lúcido discurso por acaso já proferido numa conferência internacional sobre as distinções entre a baixa e a alta política, sendo esta, no seu entender, a atmosfera em que podem respirar os povos civilizados - razão pela qual, afirmava, não poderia ser ela excluída de uma assembléia de homens livres.

E num arremate marcante, concluiu que a alta política tornava inatacável o princípio da justiça, sem o qual não poderia prevalecer a soberania do direito e a almejada igualdade jurídica entre os povos. O mundo, ali representado, desabou.

Mas o seu grande tento não ficou restrito à palavra. No final da Conferência, no momento da criação da Corte Permanente de Justiça composta por cinco integrantes - Rússia, França, Inglaterra, Áustria e Estados Unidos -, denunciou a manobra, repudiando a formação do quinquovirato. Com o gesto, obrigou as grandes potências incluírem na Comissão Permanente de Justiça de Haia (que julgou, recentemente, o sérvio Slobodan Milosevic), não apenas a representação das cinco nações, mas de todas as nações presentes.

Como registrou o delegado belga Lapradelle, “Aquela figura frágil agigantou-se em tamanho e grandeza. Através do Dr. Barbosa, o Brasil alçava-se a uma posição culminante. Ele poderia aliar-se aos maiores, mas preferiu teimar em defesa dos pequenos”.

Durante quase meio século a Águia de Haia impôs-se como fenômeno político único e duradouro: deputado provincial, inúmeras vezes senador da República e duas vezes candidato (derrotado) à presidente da Nação (numa delas, na campanha Civilista, contra o folclórico Marechal Hermes da Fonseca), ele assumiu, com legitimidade, o papel da melhor consciência nacional, sempre se insurgindo, com voz firme e oratória incisiva, contra os políticos boçais e desonestos, as maquinações de governos malandros, as imposturas dos movimentos supostamente democráticos e, sobretudo, a alarmante e contagiosa burrice nacional.

Escritor exigente, autor de clássicos da língua portuguesa (da qual foi intransigente defensor), presidente da Academia Brasileira de Letras a despeito de sua vontade, Rui Barbosa foi o relator responsável pelo mais completo projeto de Reforma de Ensino Primário, Secundário e Superior até hoje encaminhado ao poder público - reforma que partia da observação singular de que “os maus alunos serão maus professores, que, por sua vez, serão péssimos líderes”. Na verdade, como o seu objetivo era “ensinar a pensar, a compreender as instituições e a construir a nacionalidade”, seu projeto, em essência, continua intocado.

De minha parte, penso que a ação múltipla de Rui Barbosa desmonta o velho trololó marxista de que a história se move por meio da luta de classes e não pela vontade de homens (e mulheres) capazes e decididos. Com efeito, Rui Barbosa, que exaltava o papel do indivíduo, aprofundou os alicerces da nação brasileira, debatendo os seus principais problemas e enfrentando com inteireza suas questões morais, políticas e sociais. Dotado de saber, caráter, energia, constância e sensibilidade, o Dr. Barbosa era um ser muito acima dos seus pares.

Quero crer que se os integrantes mais conscientes das novas gerações soubessem, por exemplo, que Rui Barbosa, no final da vida, doente e necessitado, recusou, por questão de consciência, projeto do Senado Federal que lhe assegurava prêmio de 5 mil contos; e que, para não deixar o Brasil cair de quatro, recusou o privilegiado cargo de Juiz Permanente na Corte Internacional de Haia; e que, exilado em Londres, em vez sacar dinheiro dos cofres partidários ou assaltar bancos, resolveu lecionar em terra estranha, colocando numa placa de rua o anúncio “Ensina-se inglês”; e que, mesmo atacando em prólogo a infalibilidade do Papa, acreditava em Deus e não deixava de ir para a cama sem rezar de joelhos; e que, no final da vida, na alvorada da morte, escreveu peça oratória da dimensão de “Oração aos Moços”, um testamento cívico e moral sem precedentes na vida do povos - bem, repito, se os integrantes das novas gerações soubessem disso, na certa arrancariam os próprios olhos, como fez o malsinado Édipo, em Tebas, diante do horror da realidade trágica que o cercava.

Em suma, “O brasileiro Rui Barbosa” é um livro fascinante, que nos livra da praga das interpretações “desconstrutivistas” dos professores universitários. Devemos agradecer, penhorados, ao jornalista e escritor Murilo Melo Filho ter sabido criar e oferecer uma obra tão inesperada quanto valiosa.

BARTOLOMEU CORREIA DE MELO [2-3]

domingo, 27 de junho de 2010

Por Pedro Simões Neto*

A criação

Pintou de um verde luxuriante o vale lá-embaixo, chegando até a embriaguez e a um embaralho nos olhos, espantado com tanta beleza. Nem acreditou no que tinha feito.

Coloriu o céu de algo mui levemente fletido num verde muito esmaecido colhido do canavial e de todos os tons de azul que inventaram e pudessem ser – só assim conseguiu a cor do manto de Nossa Senhora, a homenagem que lhe fez. Depois de se embriagar de tanto azul no azul do céu, e mais azul não havia, ouviu Carlos Pena Filho:
Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

Pôs o verde sobre o azulado, puxado mais para o verde cana, nas águas dos rios e dos mares que beijam a terra da imaculada conceição.

A alquimia fez e agrimensurou os solos mais variados - da piçarra da Jacoca e o arisco do Gravatá ao alagadiço do vale. Fez dois balneários de águas tão límpidas e transparentes que ele próprio não resistiu e se banhou e os denominou de Diamante e Jericó, este último, à lembrança da cidade bíblica das palmeiras, berço da redenção de Israel. Secou uma porção de terra alagada que rodeava uma coroa no meio da mata fechada e deu-lhe o sugestivo nome de Ilha Bela.

Deu a Jacoca o abacaxi mais doce; a farinha de mandioca de alvura e finura incomparáveis a Ponta do Mato; a laranja mais doce e sumosa a Comum e Primavera; o beiju e o grude mais gostosos a Aningas; a goma de mandioca e a tapioca mais caprichosas a Coqueiros; a Mineiro, deu o picado receitado por Geraldo Abdias; ensinou a Cicinha, a arte da feitura da cocada preta e da branca, preparada com o coco tirado do futuro sitio de Manoel Pereira, na divisa de Muriú com Maxaranguape.

Plantou umas canas de valia, a partir de “soca” divina, dando matéria prima para adoçar a boca dos nativos, mesmo os mais amargosos pela dura vida do eito – mel de furo e refinado, rapadura, açúcar mascavo (impropriamente dito “bruto”) e açúcar branco; cachaça (que ninguém é de ferro) e álcool.

Semeou umas frutinhas doce-azedinhas no tabuleiro dos ariscos praieiros e adjacentes, tais que chamou de camboim, guajiru e massaranduba. Fincou uns troncos de árvores rugosas que nem os rostos de velhos muito mais velhos e as chamou de mangaba. Fincou paus mais ou menos linheiros, de copas ramosas e os considerou cajueiros. E se divertiu queimando as “catotas” nos lajedos para fustigar os calangos, as cobras e a própria pele.

Compôs o mais lindo amanhecer, no meio do oceano vegetal do vale, e o mais belo e nostálgico por do sol, por trás das ondulações do morro do Patu.

Era forte a influência mediterrânea do mestre de obras da Virgem e ele esolveu fundar a cidade nas encostas de uma pequena serra, à falta de falésias. E também, para dar um quê de ascencionalidade ao plano diretor da sua arquitetura. Nada que se assemelhasse a segregação ou divisão de castas, a partir de maior ou menor altura, mas uma insinuação, uma metáfora que sugerisse o plano evolutivo do ser humano, sempre para o alto, na direção de Deus.

Mas, para evitar dúvidas e insinuações, arrumou uma compensação. Se o lá-em-cima fosse, de fato, a ascensão, o lá-embaixo era a sua inspiração. Não há recompensa maior para a subida, que olhar o vale verde se espreguiçando todo lindo e verdoso na aba da colina.

Deu margem ao “lá-em-cima” e o “lá-embaixo”, simplificando a topografia e a geografia da cidade. Na compreensão dos habitantes, que sempre se referiam ao lá-em-cima como uma peregrinação penosa e cansativa, vencer a subida era um prêmio, pela visão que oferecia ao peregrino, o lá-embaixo. E assim a metáfora era assimilada. Para se chegar ao céu, era preciso muito esforço e muito sacrifício, mas valia a pena.

Da parte urbana, só cuidou para que quando a cidade sucedesse à briosa vila em que a freguesia se tornaria, plantassem pés de fícus benjamim nuns canteiros no meio da rua. Sombra e facilidade para as idas e vindas. E também para a alegria da meninada, que se enfeitiçaria com o som das modinhas assopradas por seu Alegria, dono do Circo Alegria, na dobradiça das folhas do fícus

Deu-se então que num domingo em que estava embriagado com a sua própria criação, decidiu se superar. Deixou-se levar pela onipotência megalômana, voou em linha quase reta até um ponto do oceano em território do município e convocou aquele que viria a ser Dorian Gray, mestre desenhista e colorista das azuis e verdes cartografias, para sugerir-lhe a paisagística do litoral da freguesia.

Areias alvas, coqueiros, muitos coqueiros, lagoas, mar tépido e calmo – sugeriu o pintor. E uns parrachos de contraponto, anteparo de predadores e de marés bravias. Até mesmo uns salpicos de sargaço. Então, usando a sua paleta criou uma cor especial para o mar: nem azul nem verde, sem deixar de ser azul, nem deixar de ser verde - uma cor especial, particular apenas àquela parte do oceano.

Bartola não conseguiu distinguir a cor dada pelo grande artista de outras que conhecia. Na sua percepção aquele colorido era comum, encontradiço em outras praias do litoral nordeste do continente brasileiro.

O pintor ofendeu-se e foi direto ao ponto – o anjo, apesar de criatura angelical, não tinha a retina, nem a íris do artista plástico, era uma espécie daltônica, porque havia consumido a sua percepção visual na embriaguez contemplativa da sua própria criação. Nesse ponto tornou-se grave e contundente – não usava a alma como guia. Até concedia que ele “sentia” com a alma, pois era poeta e imaginoso. Mas não via através desse filtro.

O artista, que “via” com a alma, lembrou Van Gogh quando disse que tudo estava na natureza, o artista apenas emprestava a sua alma. Ainda assegurou ao anjo que no futuro, os que amassem aquele mar, aquela nesga de céu, da praia, do sol luxuriantemente, delirantemente amarelo, iriam perceber essa diferença. A perspectiva do tempo das memórias faria a diferença.
Sem se dar por convencido, o fundador da cidade concedeu, no entanto, o benefício da dúvida, pelas credenciais do pintor. Despediram-se sem atritos.

No dia seguinte, avaliou a criação. Ainda insatisfeito, mas no geral pacificado, pensou no passo seguinte.

Se não poderia criar o ser humano, já concebido por Deus, o recriaria. De resto, todas as coisas já tinham sido criadas, ele apenas as escolheu, dando o jeito pedido por Nossa Senhora.
Mas havia algo que ele podia esbanjar-se na invenção. O perfil dos habitantes daquela cidade.

À “sua” matriz humana deu de beber água do Diamante e Jericó e a batizou com a água salobra do Olheiro, juntando água e sal na mesma cerimônia. Mimou-a com garapa, água de coco, suco de manga e de caju. Deu-lhe de pouca a média estatura, tez variando do negro ao branco, passando pelo mameluco e o mulato. Pernas firmes de bom andador de subidas e descidas, alavanca para os atoleiros dos alagadiços, boas para o ofício recadeiro e aviador e sustentação para o dia inteiro no corte de cana.

Alma leve, de passarinho cantador e madrugador. Formiga e cigarra. De missa e canjerê. Esperançoso. Todo dono da chã da alegria, mas sem exageros pois a sua natureza era meio reservosa.

Deu-lhe um chapéu de palha meio sobre o atrevido, um pito feito de imburana, um banho de rio com direito a cangapé, uma rede na varanda, comida no bucho e saúde que dê pro gasto - taí um ser humano feliz! Melhora se tiver um passarinho cativo, uma criaçãozinha no quintal, um burrinho de carga e um galo madrugador. ´Magine se tiver um roçado numa terrinha pouca cedida pelo patrão – vixe Maria!

Fez barateado, quase a preço de liquidação, o ser que vai habitar essa terra. E de pouquinhos teréns. Muitos são os seus sonhares, que ficam guardadinhos debaixo da moleira, e somente o tempo pra se interter entre uma e outra baforada do cachimbo, no terreiro, depois da janta.

Deu-lhes uns olhos de ver o vale, o céu azul de dia e o cobertor negro bordado de estrelas à noite, para agasalhá-lo na falta de fé, na frieza do desanimoso. Vez em quando deixou que pintasse uma lua muito soberba, pra alumiar os namoros, as serestas e as prosas; o rio d´água azul, a praia de Muriú. Uma que outra dança, coisa pouca, mas mui alegre, animada pelo baticum dos atabaques e a cadência dos pés no chão.

Á noite, os corpos nus se esfregando em cima das esteiras de palha, no chão de barro batido, suor com suor, dois num só, cavaleiro e montaria, promessa de cria que o leito da miséria é fecundo.

Os ouvidos de escutar o apito do trem, a tirada da Asa Branca na buzina de Chico Horácio, o saxofone de Zé Gago, o violão de Misael, os sinos “…com timbre de enxada velha que se põe a dizer o amém das ave-marias”, o badalar do relógio do campanário, os pregões dos vendedores ambulantes, as arengas dos botadores d´água com os “roxinhos”, o latido e o miado dos animais sem dono ou vigias das casas e as vozes das beatas nas procissões.

Zé Lemos que restauraria com o pai, seu Justo, as estampas sacras do teto da igreja matriz, cantaria com voz Vicentina Celestiniana, a canção “Porta Aberta”. E Minhém pensaria que era “cover” de Bob Nelson: “Eu pego meu cavalo e jogo o laço…”, os olhos de chinês com terçol, o bigode maior que o de Bienvenido Granda, uma tragédia de desafinos e de troca-letras.

As ventas sempre acesas para o cheiro da bagaceira e do mel; o aroma acre provocado pela umidade da chuva engravidando a terra, em pleno parto das ervas e das flores baldias; a água de cheiro escapulida da carapinha das beiradeiras; o cheiro profuso e confuso do “quadro” do mercado e do pátio da feira – uma mistura de tudo, até de mijo e cocô de gente e de animais.

O visgo açucarado no céu da boca dos cortadores de cana, cambiteiros e operários dos engenhos, o colorau da galinha caipira, o leite de coco e o propriamente dito ralado, presente nas mesas de café, almoço e jantar, o gosto do pãozinho quente, saído da fornalha da padaria de João Neto, a manteiga derretida espirrando nos cantos da boca e nos dedos, as piabas fritas com farinha na banha de porco, o torresmo chiando na panela.

É nesse ponto que me vem Bartolomeu e se lembra da fala, do modo como essa criatura vai-se comunicar uns com os outros. E quer mais, que ela fale até em pensamento, dela pra ela mesmo, e como fosse telepatia, com os pareceiros.

Descartou a fala dos doutores, dos padres e dos políticos – até mesmo dos escritores, que mais fosse a que é aprendida nas escolas. Queria um falar deles, inventado na precisão e na distração. Uma que fosse usada nas conversas e nos escritos, uma coisa só, sem o atrapalho de dois modos diferentes de se comunicar na nossa linguagem brasileira. Que besteira: falar de um jeito e escrever de outro. Quem já viu presepada igual?

Apurou as oiças e consultou o vento, os animais, as aves, os barulhos das feiras, dos partidos de cana, dos engenhos, dos canjerês, dos rios, do mar, o falatório dos meninos e dos velhos, a língua afiada da raiva e do despeito e a melosidade dos ditos de amor. Cascavilhou as frases cuspidas e mal empregadas, os chorares e os sorrisos, os mandos, os desmandos, os suspiros e as cavilações. Tornou-se o pé-de-ouvido cativo de cada um dos nativos.

Deu no que deu.

* É professor de Direito aposentado, escritor e advogado

RELENDO O CONDE DE VOLNEY

domingo, 27 de junho de 2010

Por Franklin Jorge

O pensamento está no cerne da escrita, diz-nos Constantine François, conde de Volney, um desses homens que mais tem pensado.

Visionário kantiano, autor de um catecismo contendo os princípios físicos de moral extraídos da organização do homem e do universo, desejava que o seu livro – A Lei Natural - viesse a tornar-se de leitura universal na Europa.

Sempre me atraíram os pensadores e os moralistas que nos estimulam a pensar e, sobretudo, a duvidar metodicamente, com paixão e constância, pois, afinal, sensatez de espírito quer dizer retidão, preleciona o conde, acrescentando que o preceito do Evangelho é o mesmo que o da natureza.

Não é De Volney um escritor improvisado. Por isso, pode dizer:

Minha fantasia, que se exalta no campo – escreveu -, enlanguesce e sucumbe em casa, sob o madeiramento de um teto. Muitas vezes tenho lamentado de que não existissem as dríades; asseguro que entre elas teria querido fixar-me eu…

Orientalista devotado ao estudo das religiões antigas, vasculha o conde a cinza dos legisladores e medita sobre a ciência dos séculos ao pé do deserto espaçoso e triste, cemitério de cidades e povos desaparecidos, do homem órgão desamparado da potencia não conhecida que lhe havia dado o ser, semelhante aos demais animais – privado de experiência do passado, de previsão do futuro -, órfão desamparado da potência não conhecida que lhe havia dado a vida; e, antes de domesticar o camelo, vagava o homem pelas selvas guiado e regido por seus instintos naturais.

Percorre o conde uma terra arenosa e distante onde vagaram os primeiros homens pelas selvas e margens dos rios, perseguindo as feras e os peixes, cercados de perigos e acuados pela fome, pelos repteis, conhecendo suas fraquezas individuais, movidos pela necessidade comum de viver seguros e pela recíproca consciência dos próprios males, uniram seus meios e forças; e quando encontraram alguém em perigo o ajudaram e socorreram os outros, quando faltou a um o alimento, lhe deu outra parte da sua presa.

Hoje o conde não é popular, embora tenha o seu culto por uma capela de leitores que formam uma seita agnóstica. Porém, nunca em qualquer época foi a sabedoria popular ou teve grande audiência, admitamos. Chegará o dia em que os leitores formarão uma maçonaria secreta que se reunirá, em lugar não sabido e incerto, para discutir e ruminar a leitura dos livros, artefatos considerados então de alta periculosidade, quando exposto à curiosidade dos homens; condenados e banidos pela tirania de plantão, como temos visto no curso da história.

Crê De Volney que a decadência se instala quando fica estabelecida a ociosidade sagrada no orbe político. É quando, progressivamente, abandonam-se os campos, ficam infecundas as terras, os impérios se despovoam, arruinando-se os monumentos; nessa circunstancia, restam somente escombros do passado, enquanto passiva e precária a generalidade do povo aplaude os demagogos e os tiranos que Constantine François Chasseboeuf Boisgirais, o Conde de Volney, nascido no Anjou, em 1757] e falecido em Paris, em 1820, fustiga em A Lei Natural e em As Ruínas de Palmira, suas bras máximas.

Antevendo o novo século - no Capítulo XV do que chamou de “catecismo do cidadão francês”-, quando o povo recuperaria o seu poder, após conscientizar-se de que ondas do inumerável gentio abarrotava o orbe, inunda as ruas e praças, por todo canto ouvindo-se o grito, Que novo privilégio é este?

E continua o conde visionário e moralista, escrevendo os seus pensamentos:
Somos uma populosa nação, e nos faltam braços, reitera o conde da tribuna do livro. Possuímos uma terra fecunda, e nos faltam viveres ou estão pela hora da morte. Somos ativos e laboriosos, e não temos o que comer. Pagamos enormes tributos, e nos dizem que são insuficientes. Estamos em paz com os de fora, e não estão seguras nossas pessoas nem nossas fazendas dentro de nossa própria casa. Que secreto inimigo é este que nos devora? E que envilece os bons com o servilismo?

Um criador devotado ao logos, à palavra, ao raciocínio, combate o Conde de Volney a fama popular que se converteu em fato certo e deu corpo ao ser imaginário. São questões que se colocam em A Lei Natural através de princípios físicos de moral sacados da organização do homem e do universo.

Em seu humanismo militante, De Volney descreve um mundo racional regido por preceitos e doutrinas que se conformam com a razão e o entendimento humano. Por isto viveu e lutou o bom combate

Fragmento do livro O Escrivão de Chatham [inédito]

BARTOLOMEU CORREIA DE MELO [1-3]

domingo, 27 de junho de 2010

Por Pedro Simões Neto*

De como Bartola, o anjo-trovador, foi mestre de obras de Nossa Senhora (Memorial dos Fundamentos da Criação da Freguesia de Nossa da Conceição do Rio dos Homens)

“E eu, que ando só, me reencontro
na sombra de cada coisa perdida
.”
Sanderson Negreiros

Bartolomeu Correia de Melo, cearamirinense naturalizado, tem-se distinguido como das melhores expressões da literatura norte-rio-grandense e, sem sombra de dúvida, o mais original contista dessas e doutras terras do nordeste e dos Brasil. É dono de uma linguagem bem tecida porque de boa urdidura, emprestada da língua do povo de sua terra.

Não há como confundi-lo, nem como desentranhá-lo do fabulário e do imaginário popular – melhor dizendo, da massa de sangue e das raízes telúricas de sua gente e de sua terra. O modo como reencontrei o menino do meu convívio, o adolescente apenas riscado a giz na memória, nessa imerecida

velhice precoce, só pode ser explicado através do fantástico e do mágico. E é isso que faço, numa homenagem ao meu amigo de memórias conterrâneas e de afinidades, e ao nosso terreiro, pedindo licença aos leitores para fugir do trivial, e o perdão a Nossa Senhora pela heresia. A benção, meu padim Padre Cícero Romão Batista e o nihil obstat do meu amigo Padre Rui Miranda.

A explicação
Não creio nos acasos. Sustento a tese de que se aceitássemos como manifestações autenticamente espontâneas as interferências na nossa vida, sem o concurso da nossa vontade, estaríamos admitindo que o livre arbítrio franqueado pelo Criador apenas ao ser humano, se estendesse à própria natureza e se vulgarizasse. O mundo seria, então, fruto de gerações espontâneas e Deus, apenas um espectador silencioso e impotente. Ou omisso.

Nada tão falso. Deus é onipotente e nenhuma ramada é colorida, nem uma só folha se move, sem a sua aquiescência. Acredito, sem tentar fazer proselitismo religioso, mas apenas declarando a minha convicção, que Deus tem planos para cada um de nós. Sou de crença espírita cristã e acredito na reencarnação e nos seus desdobramentos.

Eis porque acolhi Bartolomeu Correia de Melo, a quem trato carinhosa e propositadamente de Don Bartolo, qual um personagem de ópera transversal a Don Giovanni, como meu irmão. Teríamos sido assim em alguma dobra do tempo. Senão, como explicar o fato de que o vi tão poucas vezes na adolescência e só voltasse a vê-lo na nossa precoce velhice, e ainda assim se estabelecesse entre nós tanta afinidade, tanta memória comum, tanta substanciação existencial?

Por isso, confirma-se a minha tese e aqui declaro, sem pompa nem circunstância, mas de peito aberto e lavado e espírito enxaguado, a geminação da nossa alma.

As revelações
Segundo informações da dupla de saltimbancos Cherubino e Zambetta, iniciados nas adivinhatórias e esoterismos, Don Bartolo teria sido um anjo trovador, desses que andam sempre com uma lira à mão e versejam à toa, tanta fartura de imaginação e riqueza vocabular rimosa.

Por isso, o Divino sempre foi muito tolerante com ele, permitindo que fizesse a sua graduação com os pássaros e os bardos do naipe de Camões, Zé Limeira, Carlos Pena Filho e, principalmente, com “Rebequinha”, o poeta nativo das terras ainda virgens do que viria a ser Ceará-Mirim, de dia contemplador de paisagens e tocador de burro no bota-água nas casas , de noite, repentista e tocador de rebeca – daí o nome.

Foi a sua danação. Tinha dia de se perder, doido de tanto trinado bonito, tanta poesia e tanta música, quando, então, cutucado pelos saltimbancos, procurava parelha com Juvenal Antunes e Jorge Fernandes, ganhando os partidos de cana e os tabuleiros cheios de cajus, para encher os olhos dos mais verdes e mais vermelhos, amarelos e azuis que já tinha visto. Era a cura de sua ressaca, pelo método homeopático: quanto mais beleza, mais depressa a cura da tontice pela beleza vertiginosa.

Um dia, com os ouvidos prenhes de tanta reclamação beata o Todo-Poderoso cansou da contagiante humanidade do seu anjo e o desterrou definitivamente no nosso planeta, também louvado no similia similibus curandi.

Desterro? Parece brincadeira, não é? Melhor seria dizer premiação, se era só o que o anjo enviesado queria.
Se não foi premiar, a intenção do Senhor ficou bem juntinho disso. A dupla apelidada por Bartola como Quero-mais e Cambeta, confirmou que o Todo Poderoso concordava em soltá-lo na buraqueira, digo, no alagadiço do vale porque tinha planos para ele, só que essa verdadeira missão não podia ser revelada, senão iriam comentar que era caso de preferência, privilégio, proteção – sabe como é a língua do povo, que dirá dos anjos, meões de defeitos e meeiros de santidade.

Mas teve um “porém”: ficaria confinado, até nova ordem, no campanário de uma igreja apenas idealizada, mas já de concretude visível na imaginação mística dos entes divinos, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Deu-lhe a penitência de tanger no imaginário os sinos nos finados, nos júbilos e nas procissões, espantar e limpar os morcegos e suas titicas, sossegar algumas almas desgarradas e alimentar os passarinhos mais afoitos.

De vantagem, contar estrelas, pastorar a lua, adivinhar as esculturas feitas pelo vento nas nuvens gordinhas e brancas que brincavam no céu, catar os cavacos de noite na barra o dia e beber o vinho rosé dos ocasos para celebrar a noite renovada, quando todos os gatos são pretos.

Foi quando Nossa Senhora da Conceição, surpresa e prazerosa por encontrá-lo nesse ofício, o convocou para uma missão muito importante: colorir o lugar de que era madrinha, dar-lhe o jeito, um aroma, traçar o perfil das ruas e a geografia do município, e, finalmente, o caráter dos seus habitantes.

O anjo, entre afoito e cauteloso, ainda perguntou se a Divina Pastora tinha alguma preferência ou proibição. Tanta era a confiança da Madona que não lhe impôs nenhuma regra nem lhe fez nenhuma advertência. Disse apenas que queria algo especial, digno do seu amadrinhamento.

Era dar corda ao jumento, soltar a corrente do cachorro, abrir a gaiola ao pássaro, semear na terra uberosa de húmus e de água. Dar de beber e de comer a quem tem sede e fome.

O anjo soltou-se. Ficou que nem um beija flor ou um zig-zag, flanando algum tempo ao redor do fantasioso campanário, como se buscasse o néctar da inspiração, naquele dilema do burrinho da estória de Apuleio, que teria morrido de fome e sede, rodeado de bacias de água e de milho, por não saber por onde começar.

Depois, cravou o “seja o que Deus quiser” e decidiu iniciar o trabalho.

Continua depois.

*É professor de direito aposentado, escritor e advogado

PARAMIOLOGIA

domingo, 27 de junho de 2010

Por João da Mata Costa

São as mais aprovadas sentenças que a experiência achou as ações
humanas, ditas em breves e elegantes palavras. Padre Antonio Delicado
(citado por Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro)

Parece-me, Sancho, que não há rifão que não seja verdadeiro, porque todos
eles contêm sentenças consagradas pela experiência, mãe de todo o saber.
(Dom Quixote de Miguel de Cervantes)

A paramiologia é um dos assuntos mais férteis da literatura popular. A
sabedoria do povo na forma de ditos seculares que remontam à idade média.

O Dom Quixote de la Mancha é um rico manancial de paramiologia, onde
abundam os rifões, provérbios, frases proverbiais, anexins e outros tipos
de parêmias. O Sancho Pança e sua mulher Tereza Pança falam muitos rifões.
O Quixote também, apesar de reclamar do Sancho sua proverbial sabedoria.

No prefácio à edição do Quixote em 5v pela José Olympio, Cascudo escreve
sobre esses provérbios que encantam gerações e estão muitos presentes na
nossa cultura e nas falas dos nossos pais e avós.

É lamentável a fala do senhor Ivan Lessa (BBC/ Estadão “Do infinito besteirol dos ditados
populares em 09/06/10) que conhecesse um pouco mais a cultura brasileira
não diria asneiras e receberia o conselho do Quixote ( parafraseando) : –

Nunca interpretes arbitrariamente o que a sabedoria popular diz como fazem
os ignorantes que têm presunção de ter grandeza.

Excertos de Paramiologia do Quixote
:
1-As sentenças ou máximas contém uma sabedoria popular
Mas vale bom nome que muita riqueza (Sancho II, 33) Eclesiastes VII, 2

2-Provérbio
Sempre ouvi dizer: Quem canta seus males espanta (I, 22)
Virgílio – Georgica I, 293 (citado por Cascudo in obra cit.)

3- Adágio
[...] cumprindo-se o adágio de que às vezes paga o justo pelo pecador (I, 7)
Una golondrina sola não hace verano (I, 13),
Uma andorinha só não faz verão
Uma andorinha só não faz primavera

Em português e espanhol medieval e clássico é comum a sinonímia verão e
primavera.

Conselhos de Dom Quixote a Sancho Pança, antes que seu escudeiro fosse
governar a ilha Baratária:

-Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os
ignorantes que têm presunção de ter grandeza.

-Anda devagar, fala pausadamente, mas não de forma que pareça que te
escutas a ti mesmo, porque toda afetação é má.

O ‘MONSTRO’ DE SAPUCAIA DO SUL

domingo, 27 de junho de 2010

Por Franklin Jorge

Divulguei aqui, num primeiro impulso - levado pela indignação -, nota distribuida pela Agencia de Noticias em Defesa dos Animais [ANDA], denunciando o vereador gaúcho Edson Portilho, autor de uma lei que permite o sacrificio de animais em rituais religiosos.

Mas em seguida percebi que a nota da ANDA está eivada de contradições e confunde os leitores, o que mostra a pouca seriedade desse organismo que quer defender os direitos dos animais ludibriando a opinião pública com informações equivocadas.

Em verdade, o fato aconteceu quando Edson Portilho era deputado estadual, e não agora, como vereador. Em 2006, após a promulgação da lei, ele perdeu o mandato, depois de ter sido execrado na Internet como torturador de animais indefesos.

Ligado aos rituais africanos, o ex-deputado e atual vereador declara-se negro e defensor da negritude, e por este motivo teria criado essa lei bárbara e inaceitável, para apoiar os rituais e cultos de origem africana que fazem uso, ainda, do sacrificio de seres vivos… Quem não se lembra do que ocorreu, há alguns anos, no municipio de Ipanguaçu, aqui mesmo no Rio Grande do Norte, quando uma criança foi sacrificada num ritual hediondo?

Porém, no caso da nota que me foi enviada, faltou responsabilidade a ANDA, que desta forma presta um desserviço a causa em defesa dos direitos dos animais.

Contudo, apesar disso, o vereador (na nota não fica claro se ele conseguiu aprovar a lei quando deputado ou já agora, na condição de vereador no municipio gaúcho de Sapucaia do Sul), Edson Portilho entra para a história como um torturador e um paradigma de homem cruel e inumano, merecendo, pois, que jamais seja eleito ou reeleito para qualquer cargo público. Nem mesmo para a Câmara de Sapucaia ou para síndico de edificio, pois esse homem representa o que há de pior no homem.

Professor de profissão, Portilho é militante do Partido dos Trabalhadores (PT) e conseguiu aprovar a lei com 32 votos dos deputados contra 2, usando de uma artimanha: antecipou a data prevista para a apresentação do projeto e o fez aprovar sem discussão, ou seja, sem a participação das organizações que defendem os direitos dos animais e daqueles que se opõem à barbárie.

Sua proposição - que se tornou lei no RS - provocou uma onda de revolta e trouxe consequencias graves aos seus interesses politicos: em 2006, ao disputar a reeleição de deputado, foi fragorosamente derrotado. Dois anos depois conseguiu eleger-se vereador em Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, cargo que ocupa atualmente para desonra do municipio.

Militante dos movimentos negros em seu estado, Edson Portilho entra para a historia gaúcha como uma espécie de Hitler do reino animal.

Mais um petista passando os pés pelas mãos.

GILBERTIANAS

domingo, 27 de junho de 2010

Por João da Mata

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nesse breve ensaio comentamos a força que o erotismo tem na obra gilbertiana e a relação do escritor com as ditaduras.

1- Gilberto Freyre e as Ditaduras
O escritor de Sobrados e Mocambos e Assombrações no Recife Velho foi um grande interprete do Brasil. Escreveu alguns dos maiores livros da cultura Brasileira. Era um homem extremamente vaidoso. Vaidoso por ser um grande escritor. Ou escritor porque vaidoso.

Seu biógrafo Edson Nery também é um homem vaidoso. Usa perfume francês, gravata borboleta e atua com se fora um lorde Inglês. Gilberto Freyre, no prefácio do livro Minha Formação do Joaquim Nabuco, comenta sobre o caráter apolíneo e narcisista do escritor pernambucano também grande camonista.

Nesse janeiro próximo comemora-se o centenário da morte do grande abolicionista Joaquim Nabuco. São grandes e vaidosos escritores que muitas vezes vêem além do que conseguimos vislumbrar e sentir.

Gilberto Freyre teve uma relação cúmplice com as forças armadas, para ele, “Uma força suprapartidária na vida pública Brasileira” (artigo em Anexo, publicado em O Cruzeiro de 19 de Setembro de 1964, ano que começou a terrível ditadura militar). Elogia ao final do artigo líderes como Humberto Castello Branco, Kruel, Mourão, Justino Alves, Costa e Silva e Francisco Mello.

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nabuco merece um grande centenário e Edson – espero, possa produzir ainda muito mais numa profícua e bela carreira literária. Alguns intelectuais são assim mesmo, vaidosos. Muitas vezes dizem coisas que não gostamos. Foi assim com Gilberto no seu elogio de um regime de exceção:

“…em momentos de agudo desajustamento intranacional ou interpatidário – em 1889, em 1930, em 1932, em 45, em 54- e para sobrepor aos interesses facciosos, em conflito ou em choque extremado, o interesse ou a conveniência nacional”, defende Gilberto ditaduras que para mim são assombrações.

2- Gilberto Eroticus
A presença do erotismo na obra gilbertiana é estruturante de uma semântica da raça. Uma suruba que é uma amálgama da nossa identidade Da miscigenação que formou essa civilização nos trópicos.
Abaixo do equador tudo pode. Dessa mistura de raças Darcy Ribeiro vislumbrou uma grande civilização. Macunaíma brinca com a cunhada. Minha amiga de gangorra com o portuga. Os santos mais populares no Brasil são os casamenteiros Santo Antonio, São Gonçalo e São João.

Os negros e índios possuíam um pênis menor que o branco europeu, escreve Gilberto em Sobrados e Mocambos. Os índios precisariam de artifícios para suprir essa falta. A sexualidade que prevarica é a sexualidade

Kitsch. Sexo kitsch orgasmo vicário, fissura priápica, continua teorizando Gilberto com base nos relatos dos visitantes e no escritor Havelock Ellis.

No livro “Alhos e Bugalhos” saído a lume em 1978 Gilberto afirma que os escravos que se afoitaram a fecundar sinhás brancas, em uniões que de acordo com as teses apresentadas nos livros Casa- Grande e Sobrados e Mocambos resultaram de vitórias do amor ou do sexo sobre obstáculos de várias espécies sociais. Ou seja, o esperma teria vencido os ódios de classes, consequentemente seria impossível aplicar de maneira rígida o esquema marxista de lutas de classes no Brasil, onde houve uma rendição ao sexo metarracial (em Helena Bocayuva- Erotismo à brasileira).

Quando o livro Casa-Grande & Senzala foi lançado em 1933 houve quem o considerasse imundamente obsceno; ou extremamente sexy, pornográfico, até; ou imoral ao mesmo tempo que anti-religioso e mesmo antibrasileiro. Obra de alguém desvairado pela obsessão do sexo. História social? , perguntou austero crítico, professor da então pudica Universidade de Havard. E respondia, ele próprio …” Não! É sim uma história sexual” ( Freyre G. Alhos & Bugalhos 1978)

Para casar mulher branca e para pecar mulher negra. Freyre confessa preferências eróticas endogâmicas na sua predileção pelas mulheres brancas. O moreno é a cor do pecado, da transgressão e do exotismo, enquanto o branco é a cor da vida doméstica e da existência protegida da família.

“Foram os corpos das negras que constituíram a arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro…” As mulheres intelectualizadas eram poucas; Nísia Floresta surgiu – com exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosa do meado do século XIX. (G. Freyre).

Gilberto nunca conclui e pratica uma sociologia impressionista que seria uma ideologia de Apipucos – e não ciência; comenta o seu xará Gilberto Vasconcellos que lhe dedica um belo livro. Gilberto é para ler curtindo! Roland Barthes e outros grandes escritores elogiaram. Gilberto foi, sim, um grande e original pensador da cultura brasileira. Leu tudo. Pesquisou em jornais, arquivos e outras fontes primárias.

Sexo é vida.

3- Gilbertianas
“ a bengala de GF é imaginada tal um bastão de ébano com um cabo de Limoges, como um símbolo de autoridade e comando no estilo de Brummel” Cascudo

Gilberto Freyre foi um conservador radical respeitoso de uma tradição que tinha no leito e redes das mucamas da casa grande o seu leitmotiv.

Do oligarca da república velha o governador autoritário Estácio Coimbra foi oficial de Gabinete e ganhou muito dinheiro. Estácio pretendia fazer de Gilberto seu sucessor quando a revolução de 30 os deportaram recebendo abrigo em Portugal. Salazar estava lá.

Gilberto se prepara para escrever seu maior livro Casa Grande & Senzala publicado em 1933.
Movido por aquilo que o antropólogo Darcy Ribeiro chamou de “Tara Direitista “, Freyre acusou o reitor da Universidade de Recife de conivente com a propaganda comunista e pediu sua renúncia ao cargo.

Tinha exigido antes, 1963, o afastamento de supostos esquerdistas da SUDENE (Roberto Ventura)
Foi conivente com a política colonialista da matriz em nome do “luso- tropicalismo”.

Pela cultura, tudo. Gilberto foi um grande escritor e não lê-lo foi um erro de gerações.

NÃO QUEIME SEI FILME NA NET

domingo, 27 de junho de 2010

Por Renato Grinberg*

Especialista enumera os macetes para não se comprometer nem profissional e nem pessoalmente na web

Com o boom de ferramentas como o Facebook, Orkut e Twitter entre os internautas brasileiros, a vida pessoal torna-se ainda mais exposta em toda a rede. Isso pode trazer benefícios, caso as informações sejam bem gerenciadas, mas também tem o potencial de gerar graves conseqüências, até mesmo no ambiente profissional.

Alguns casos ganharam notoriedade pela falta de cuidados de profissionais ao emitir opiniões sobre as companhias em que trabalhavam. Um exemplo disso é o caso do diretor Comercial de uma empresa que foi demitido ao escrever no microblog ofensas aos torcedores de um time de futebol patrocinado pela organização.

Nesses casos, é preciso ter mente que as informações disponibilizadas na internet estão em um espaço público, que pode ser acessado por qualquer pessoa, inclusive pelo seu chefe. De acordo com uma pesquisa da consultoria Manpower, que contou com a participação de quase mil empregadores, 55% das empresas brasileiras controlam o uso das mídias sociais. Dentre elas, 32% diz que o motivo é proteger informações confidenciais e 19% que é preciso proteger a reputação.

Tudo isso trouxe à tona o questionamento sobre a relação existente entre as esferas pública e privada da vida de um cidadão. Acredito que uma empresa não pode dispensar um funcionário apenas pelo fato de discordar de alguma de suas ações.

Porém, desabafos em ambientes virtuais que digam respeito à companhia onde trabalha ou aos seus parceiros, denegrindo a imagem de ambos, podem gerar demissão por justa causa. Isso, inclusive, está de acordo com a lei brasileira, desde que o colaborador tenha infringido regras apresentadas anteriormente ou que a empresa comprove que determinada atitude tenha sido prejudicial.

Veja, a discussão aqui não deve ser sobre o que é certo ou errado quanto ao monitoramento realizado por parte das empresas.

O fato é que mesmo sem a intenção da companhia de controlar o conteúdo, as informações geradas na internet são disseminadas e podem chegar aos ouvidos de um profissional que tenha o poder de decidir sobre sua permanência ou não no cargo que ocupa. Por isso, vale a pena pensar em maneiras de evitar situações prejudiciais, tanto para as empresas quanto para os profissionais.

Para os profissionais
-.Avalie o peso da sua opinião e possíveis conseqüências que podem ser geradas, principalmente se ocupa um cargo gerencial ou de confiança;- Tenha em mente que o mundo inteiro pode ter acesso ao que escreve e que sua imagem está em jogo;

- Cuidado com a divulgação de questões internas da empresa, mesmo que pareçam simples ao seu julgamento. Muitas vezes, estamos tão imersos em uma realidade que não damos conta de como um pequeno detalhe pode revelar muitas coisas;

- Evite falar mal de concorrentes, pois essa é uma prática considerada antiética;

- Tenha uma conversa com seus superiores sobre o que pode ou não ser divulgado na internet. Nada melhor do que ter o aval da companhia para evitar possíveis problemas por falta de alinhamento.

Para os gestores de empresas ou líderes
Reconheça que a presença das mídias sociais na rotina da maioria dos funcionários é uma realidade. Portanto, busque elaborar um código de conduta explicativo quanto às informações que podem ser ou não divulgadas;

- Oriente a equipe quanto aos cuidados que devem tomar, pois os colaboradores devem entender que carregam consigo a imagem corporativa;

- Esteja sempre aberto para dúvidas relacionadas a esse tema e não trate o assunto como algo que não pode ser discutido dentro da empresa.

*É diretor Geral do portal de empregos Trabalhando.com.br e especialista em carreiras e mercado de trabalho

CEARÁ-MIRIM TEM PUBLICAÇÃO VIRTUAL

sábado, 26 de junho de 2010


A Academia Cearamirinense de Letras e Artes (ACLA) vai estimular a cultura no município

Uma comissão organizadora cuida da fundação da Academia Cearamirinense de Letras e Artes – ACLA, entidade que já nasce com o compromisso de estimular e preservar a riquíssima cultura da terra dos canaviais.

Composta por Gibson Machado, Lúcia Helena Pereira, Bartolomeu Correia de Melo e Pedro Simões, cearamirinenses nascidos ou adotados pela cidade, comprometidos com a cultura em suas mais variadas formas, a comissão já concluiu a as iniciativas necessárias à constituição da ACLA.

“Já contamos com Estatuto, relação de patronos, candidatos a acadêmicos e até mesmo um brasão” – relata Simões. “Temos o apoio da Academia Norte-rio-grandense de Letras e de alguns dos mais importantes intelectuais do nosso estado” conclui Pedro Simões.

De fato, a relação de patronos faz inveja a qualquer instituição cultural, dado a expressão literária dos relacionados e a sua importância no contexto regional e até nacional.

Rodolfo Garcia, por exemplo, foi membro a Academia Brasileira de Letras e a biblioteca dessa entidade tem o seu nome. Escritores como Jayme Adour da Câmara, e Júlio Gomes de Sena, de projeção nacional. Gente tombada pelo patrimônio cultural nordestino, como Nilo Pereira, Edgar Barbosa e Maria Madalena Antunes Pereira.

Poetas que fazem parte de qualquer antologia do nosso estado, tais como Juvenal Antunes, Adele de Oliveira e Anete Varela. Figuras de expressão até mesmo da política e da dramaturgia, do porte de Augusto Meira e Inácio Meira Pires.

Educador do nível do Padre Jorge O´Grady, festejado como notável em outros estados da federação.

Para que se tenha idéia de como anda a memória cultural do município, a maioria dos leitores com certeza ignorava o berço da maior parte dos patronos, não sabe nada, ou pouquíssima coisa sobre suas obras.
Pois a ACLA vai exigir dos seus acadêmicos uma monografia sobre cada um dos patronos para editá-las e distribuí-las nas escolas públicas e bibliotecas, com vistas à formação de uma consciência cultural regional.

Muita gente também desconhece os valores culturais contemporâneos. Gente que honra o patrimônio intelectual do município, tais como Sanderson Negreiros, um dos mais importantes escritores do Rio Grande do Norte, Bartolomeu Correia de Melo, reputado como um dos maiores contistas do país, Franklin Jorge, crítico literário, escritor, cronista do Ceará-Mirim, Inácio Magalhães de Sena, dos mais eruditos intelectuais do estado, autor de dois livros de memórias sobre o município.

Lúcia Helena Pereira, a poeta que tem no verde vale a sua fonte de inspiração, Anchieta Cavalcanti, jornalista, escritor e com um passado dedicado às artes cênicas da nossa terra e Pedro Simões, memorialista, cronista e contista que apropriou em seus livros o modo cearamirinense de ser.

E, finalmente, o escritor e arquivista da memória do Ceará-Mirim, Gibson Machado, grande animador da cultura popular e cioso guardião da história municipal.

A comissão organizadora da ACLA aguarda o fim do período eleitoral para implantarem a entidade, receosos de que a política partidária possa conduzir os nobres propósitos da instituição a rumos diversos dos pretendidos.

Até o momento em que editamos esse veículo, inúmeras tentativas foram feitas no sentido de obter apoio dos poderes constituídos do município – a Prefeitura e a Câmara Municipal – através dos seus titulares e nenhuma resposta foi dada, nem mesmo para que os membros da comissão fossem recebidos em audiência.

FESTIVAL JEAN ROUCH NO SEBRAE-NATAL

sábado, 26 de junho de 2010

Por João da Mata

O grande ciclo dos ritos sigui, entre os Dogon do Mali
Maravilhoso filme documentário num ritual que só acontece a cada sessenta anos.

Para conseguir filmar teve que ter a autorização da Raposa Pálida.

A bebida é feita de milho.

Longo ritual cosmogônico para liberar a palavra e a morte.

Toda história é registrada nas paredes das cavernas e lajedos. Os homens/eremitas dormem em buracos no chão.

Os meninos são fantasiados e participam do grande ritual.

Longas tomadas em caminhadas de leste a oeste. Grande elenco num filme inprescindível e dificil de ver novamente.

Cansativo e importante.

O filme todo tem mais mais de três horas. O que vimos tem 128 minutos.

O ciclo dos ritos Yenendi, entre os Songhay do Niger

Três filmes separados por vinte e cinco anos. Belos filmes

Yenendi significa refrescar. A aldeia é seca e é feito um longo ritual para chover.

Para isso é preciso negociar com os Deuses. Dongon é o temido deus do trovão.
Rouch resolveu fazer esse filme e entrar definitivamente no mundo do cinema depois que um raio matou muitas pessoas na região do Niger.

A música ritual tocada em cabaças e a preparação do líquido que será derramado na terra para fazer chuva é fielmente documentado num filme maravilhoso e raro.

O Espírito do mal baixa na mulher. A sereia é domada. A arvore recebe água e a chuva se faz num dos grandes filmes de Rouch.

A caça ao leão com arco

Uma obra prima do cinema etnográfico. Talvez a obra prima do Jean Rouch.

Melhor filme do festival de Veneza 1965. Foram precisos sete anos para realizar o filme. Belo roteiro, música e ritual.

O americano (leão) foi o último da família a ser capturado.

A longa preparação do veneno que vai ser colocado na flecha. A preparação dos caçadores e a reza que ajudará a matar o leão.

Desgraça Boto!

O veneno da mulher é mais forte.

Não se deve matar o leão zangado.

Ao matar o leão é preciso liberar sua alma e o caçador alisa a cabeça da fera para concluir o ritual longamente preparado com armadilhas e flechas que não serão reutilizadas.

Gawey- Gawey
Belo filme da mostra Rouch que continua até sábado.
Do Transe ao Funeral

Três grandes filmes num crescendo da minha admiração por esse cineasta múltiplo.
O primeiro filme “A invenção do cine- transe junto aos Songhay- Niger” narra de forma muito fiel a uma seção de transe de mulheres/ cavalos que recebem o espírito ao som dos tambores (cabaças) monocórdios tocados repetidamente acompanhados por violinos de arco. Filme longo e bastante cansativo podia ser reduzido.

O segundo filme do dia foi o “Niger- França, ida evolta, ou a etno– ficção ao avesso”.

Petit à Petit. Uma deliciosa comedia de um africano que vem a Paris para olhar os prédios e encomendar um projeto que vai ser levado á sua cidade. O prédio será o mais alto e abrigará suas várias esposas.

Em Paris ele aproveita para fazer etnografia de campo em cenas muito bem urdidas e hilárias. Em Paris o rio é preso e as pessoas são feias.

Ao voltar à sua Niger junto com o amigo na companhia de duas mulheres e um malandro de rua para tocar a sua fábrica não mais se adapta ao capitalismo que compra barato e vende caro. As mulheres trazidas de Paris não se adaptam e o malandro vai embora. Belo filme com os mesmos atores do excelente “Jaguar” (exibido na terça feira)

O ultimo filme foi o melhor de todos. Ritos funerários dos Dogon, no Mali. O primeiro filme narra um funeral com muita festa e lutas.

O segundo Funeral “A dama de Ambara” é deslumbrante.

Um cortejo de mascaras e danças encomendam o morto num rito que representa todas as etapas da vida e a não possibilidade da união do casal Raposa Pálida (entidade muito forte entre os povos Mali) e sua gêmea.

A dança pulando a vagina é empolgante.

O texto é um lindo poema.

JOSÉ GURJÃO, MESTRE DO ENSINO

sábado, 26 de junho de 2010

Por Misherlany Gouthier

Na literatura mossoroense muitos são os pseudo-historiadores que tentam engendrar descuidados textos superficiais como obra que valha mérito ou coisa do tipo, tecendo comentários já então por demais imprecisos e sem nenhum embasamento sólido que lhe permita destaque nas letras provincianas. Desnudos de técnicas, de impressões que traga à luz novidades inerentes à pesquisa, poucos sãos os que conseguem enxergar um palmo além do nariz, na tentativa de esboçar um texto enxuto e real, tornando-se fracassados escrevinhadores de folhetins.

A gravidade é tanta que os livros publicados nos últimos anos dão conta disso. Assim é que me esforço para resgatar da oralidade nomes que já estão soterrados pelas areias do esquecimento. A história dos grandes homens não é senão a sua própria história, disse Carlyle. Valho-me desta filosofia para fazer justiça a algumas figuras do passado que por ironia do destino ou por falta de iniciativa dos pesquisadores oficiais da província não tiveram o merecido reconhecimento.

José Fernandes Gurjão nasceu a 19 de fevereiro de 1896, na fazenda Três Lagoas, em Pau dos Ferros/RN. Foi batizado pelo Pe. Campos. Sendo seus padrinhos Hermógenes e Joana Fernandes. De crisma Raimundo Rubira da Luz.

Formou-se em Medicina a 22 de dezembro de 1920. Casou-se aos 09 de setembro de 1921 com Nila Xavier de Queiroz. Enviuvando em 1922. Faleceu aos 06 de dezembro de 1927, no Rio. Após o falecimento de Nila José Gurjão contraiu núpcias com Seize, cuja união não duraria muito…

Lente da Escola Normal de Mossoró, intelectual disseminador de uma cultura ímpar nos dias que se seguem; gente que está intimamente ligada ao passado como ao presente representados por alguns descendentes, cujo reconhecimento pelo desvelo ao trabalho realizado em prol da sociedade de outrora não tivesse valor algum. Eternizar a memória daqueles que nos antecederam é o mínimo que os estudiosos podem fazer…

José Gurjão Fernandes uma das figuras de proa da educação em Mossoró na década de 20-30 não teve um biógrafo que pudesse retratar-lhe a personalidade, a inteligência, o denodo ao ensino do magistério. Um homem que deixou as marcas de sua cultura; um ser de pensamento vivaz, inquiridor. Raimundo Nonato da Silva, seu contemporâneo, somente ele, escreveu uma página de recordação sobre o grande mestre do ensino de Mossoró. Antes, ninguém mais.

Filho do comerciante pauferrense Abílio Fernandes Gurjão e de dona Maria Urcicina Fernandes, era irmão dentre outros do ex-governador Rafael Fernandes Gurjão, nome emblemático na história política do Estado.

Jovem ainda, vindo de uma família tradicional – os Fernandes – era dotado de uma cultura universal. Foi um dos primeiros médicos a operar em Mossoró. Era um homem irreverente. Espírito alegre, irrequieto, dono de uma inteligência brilhante e vivaz.

Lia todos os clássicos. Montesquieu, Verlaine, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Hermes Fontes, Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu e outros. “Homem culto, de idéias arejadas, não admitia preconceitos nem intolerância de convicções”. José Gurjão foi a inteligência mais fulgurante, mais extraordinária que Mossoró possuiu até hoje. Rápido no argumento, ferino na resposta, tinha uma enorme cultura, escreveu sobre ele certa vez o jornalista Rafael Negreiros, seu sobrinho.

José Gurjão soube tirar da leitura a essência para suas aulas no curso Normal da escola fundada por seus pares, dentre os quais destaco a professora Celina Guimarães — tão esquecida na história do magistério –, Eliseu Viana e Manoel Quintela Júnior, este último tendo publicado trabalhos versando sobre abolição dos escravos, além de ter sido crítico literário economicamente.

Dono se um senso crítico aguçadíssimo, não poupava quem o molestasse com “tiradas filosóficas”, dando demonstração eficaz de sua cultura vasta e do seu refinado estilo lingüístico, um dos marcos da educação de antanho quando a cultura pedagógica ganhava contornos de verdadeiras academias.

Elizabeth Fernandes de Negreiros, sobrinha do professor-mestre contou-me várias histórias a despeito da vida do professor Gurjão. Era uma inteligência fora do comum, disse. Ela guarda consigo bilhetes do então governador do estado Rafael Fernandes Gurjão, agradecendo ao pai da mesma – Solon Negreiros, a gentileza de atender tão bem as necessidades do prestimoso professor, seu cunhado.

Apesar de sublevada inteligência o Dr. José Gurjão não deixou obra que pudesse ser levada ao conhecimento de quantos teriam a oportunidade de provar do seu acurado saber literário. Volto à máxima “Nem tudo está perdido”, num átimo de justiça resgatando do olvido a figura incandescente que muito trouxe para as gerações que o seguiram.

BOMBONS DE MEL

sábado, 26 de junho de 2010

Por Franklin Jorge

Gilberto Freyre, considerado um dos escritores brasileiros mais vaidosos e narcisistas de todos os tempos, confessou que saboreava o elogio como se fossem bombons.

Eu também os saboreio, mas não qualquer elogio, pois alguns sem dúvida comprometem em vez de afagar o ego.

Aliás, sempre, desde menininho, intui que o elogio para ser levado a serio tem que ser proferido por gente capaz e ilibada e, não menos importante, desinteressadamente.

Como o que acabo de receber, via e-mail, de alguém que se identifica como Paulo Robério.

Proferido por um anonimo, o elogio de Paulo Robério,suas palavras tocaram-me especialmente, pois é a prova de que o que escrevi sobre a corrupção que tem grassado na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, no curso dos anos, encontrou eco na opinião pública e contribuiu para dar visibililidade a fatos que ficaram ocultos durante muito tempo.

Como a contratação e a manutenção de servidores irregulares que dezoito anos depois estão se aposentando sem nunca terem jamais prestado concurso público. E, não menos grave, o concurso que estaria sendo forjado tem despertado todo tipo de suspeita: como a de servir, apenas, para legitimar a irregularidade sob o disfarce de legalidade etc.

Transformada pela ex-governadora Wilma de Faria em dispendioso palanque eleitoral, a UERN tem se desmoralizado aos olhos de todos os norte-rio-grandenses. O que escrevi aqui, a partir de maio do ano passado, ao cobrir a campanha de reeleição do atual reitor, repercutiu tremendamente na comunidade acadêmica de Mossoró.

E fez com que alguns corruptos tremessem na base e chegassem mesmo a ameaçar-me, como se fosse possivel calar denuncias tão graves de irregularidades relativas, por exemplo, aos chamados “contratos provisórios” que já perduram há mais de 18 anos e que beneficiam, não a instituição, mas a alguns espertalhões que se aproveitam dos cargos que ocupam, como o vice-reitor - que se diz “professor-doutor” com base em um titulo questionável, pois ele não chegou a ser submetido a uma banca examinadora na Universidade do Canadá…

Sobretudo, apreciei as palavras do leitor anonimo, porque me pareceu que ele está bem informado em relação a UERN, uma instituição que é um cabide de empregos e faz o papel de cabo eleitoral dos governantes.

Paulo Robério alude em seu comentário à Promotoria (naturalmente à Promotoria de Defesa do Patrimônio), que tem sido excessivamente complacente nesse caso que prejudica a imagem da instituição. Ele me fez lembrar das palavras do promotor Eduardo Medeiros, quando o procurei, ao tempo em que ainda morava em Mossoró, para ouvi-lo sobre a questão e ele foi curto e grosso: “Só aceitamos denúncias de professores universitarios, não de blogues” etc.

Ora, em toda a parte do mundo civilizado a imprensa tem sido reconhecidamente colaboradora do Ministério Público. Geralmente as denuncias chegam através de reportagens e autoridades zelosas do cumprimento da lei se apressam em investigá-las.

O Subprocurador Geral da República, eminente professor Edilson França, colaborador efetivo desta publicação, já por diversas vezes me enalteceu a colaboração da Imprensa em suas bem sucedidas investigações em favor da defesa dos direitos dos cidadãos.

Mas, no caso especifico de Mossoró, resta-nos reconhecer que se trata de um outro país… O Pais dos Rosado e das conveniencias.

Recentemente, vimos aqui em Natal o processo relativo ao Foliaduto - que dormia nos escaninhos de um cartório criminal -, um dos maiores escandalos envolvendo o governo passado, despertar de uma longa e conveniente madorna, graças a uma reportagem do Novo Jornal que chamou a atenção do Conselho Nacional de Justiça para um fato que estava fadado ao esquecimento, pois não interessava a alguns fiscais da lei mexer com gente tão poderosa, como o irmão da própria governadora, que supostamente estaria no comando da ação criminosa…

Como se sabe, não são poucas nem desconhecidas as irregularidades que grassam na UERN, onde tudo pode ser questionado e posto em dúvida, a começar pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que tem sido sistematicamente desmoralizado pelo reitor Milton Marques e reformado sucessivas vezes, por bondade da Promotoria de Defesa do Patrimônio e da Delegacia do Trabalho, seção de Mossoró, em beneficio, não da Academia, mas de uma politica institucional espúria que a comunidade universitária séria e decente tem repudiado sem êxito.

Eis, pois, o que escreveu o internauta anônimo e gentil, que se identifica como

Paulo Robério


Diga-se de passagem que o povo norte-rio-grandense agradece e reconhece que este grande jornalista - o Franklin Jorge foi o propulsor de mudanças significativas na história política desa região, como por exemplo, o fim do nepotismo e criiação de um grande curral eleitoral na Universidade Estadual.

Não foi polítco. Nem promotoria alguma e nem tão pouco foram os títulos de doutores em Salamanca, Canadá ou nos Cafundós. Foi simplesmente a intrepidez desse grande jornalista em defesa de uma grande causa.

A HISTÓRIA REGISTRA E CONSAGRA.

De A OPINIÃO DOS LEITORES, 25/06/2010, 22:52