JOÃO DE DONINHA, O PROFETA
Por Misherlany Gouthier
O mês de março se aproximava. O assunto do dia na Caieira era o mesmo: a seca que assolava até as regiões mais temperadas da zona oeste a exemplo das cidades serranas Martins e Portalegre. O sertão outrora adusto a se transformar, por assim dizer, num vasto descampado onde não se encontrava viv’alma. A gadaria sendo vendida a preço módico, coisa de tostões. Essa era a descrição que ouvi de seu Anselmo, um velhote baixo, entroncado mesmo, a faltar-lhe uns dentes na boca, enquanto apertava mais um “curtido”. De vez enquanto deslizava os dedos por entre o bigode já então amarelado pelo fumo.
Os mais experientes diziam que quando fosse o fim dos tempos de tudo se poderia presenciar. Lembrava meu tio-avô o tempo das sete vacas magras, cuja lenda está escrita na Bíblia. As conversas sempre se davam no alpendre do modesto casebre que dona Herculava herdara como dote quando se casou.
Meninos de calças curtas costumávamos escutar as estórias de Trancoso intercaladas com alguns goles de chá de cidreira ou café, sempre servido com “orelha de pau” que nossa avó preparava com tamanha dedicação; adivinhações, prognósticos, profecias que somente os mais sábios poderiam descrever e orientar. Tio Zeca sempre relembrava a estória da vaca Mimosa, fato ocorrido na era de 30. “Numa noite de chuva, o relâmpago cortando o infinito, céu escuro, os trovões a amedrontar a meninada nos cueros, uma rês que se agasalhava debaixo de uma frondosa oiticica fora atingida por um corisco; a coitadinha tava amojada”, lembrava com os olhos n’água.
João de Doninha sempre acertava “na mosca”. Fazia parte dos profetas do sertão. Uma premonição sua valia qual tiro certeiro. Deixava todo mundo de chapéu virado. Até o burrico do velho Janjão conhecia as adivinhações de João de Doninha. Notícias suas corriam toda zona fronteiriça do médio oeste.
Transpondo os umbrais de seus oitenta janeiros minha tia Dita — Benedita era seu nome –, dissera que certa vez se encontrara com aquele cavaleiro e ele disse-lhe que tomasse muito cuidado com cobras. Ela não retrucou. Por causa disso, não saía à rua temerosa de encontrar uma rastejantes pelo caminho. Morreu de velha sem conhecer a capelinha do cimo da serra.
O fato é que, João de Doninha, já muito acostumado bendizer invernos, secas, desgraças, mortes, ficava a soltar papagaios ao avistar o vaqueiro Sebastião, pois este aperreava até macaco de loca. Parece ver-lhe: pixote, chapéu de couro fincado na cabeça chata, olhos amiudados, beiços curtos. Sebastião trazia no espírito o gosto pela pilhéria. Duvidava de tudo e de todos. Fazia alma desaparecer. Era uma sombra sem luz, dizia a sinhá Franklina, sua sogra.
João de Doninha com todos seus atributos, carregava na mente uma indiferença. Ninguém podia lhe falar de morte que ele mudava o rumo da prosa. Seu Alclépio, que gostava de ver os dois se engalfinhando, dizia que quando um morresse o outro vinha buscar aquele que havia ficado… A conversa sempre tomava essa linha.
João de Doninha abandonava o campo quando Sebastião de Fantico aparecia. Dizia para os da roda: “Lá vem aquele besta. Só falta a calça para palhaço…” E lá se ia João de Doninha baixar em outro terreiro…
12 de junho de 2010 às 22:29
Amei!!!