Arquivo de 12 de julho de 2010

GERALDO FORTE SEM LIMITES

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Da news letter “Jornal de
Roberto Guedes Via E-mail”

Candidato quer transformar região Oeste potiguar em Estado

A região Oeste do Rio Grande do Norte pode ser desmembrada desta unidade federativa e ganhar o mesmo “status” constitucional que esta, vindo a se transformar no 27° Estado brasileiro, se vingar projeto acalentado pelo advogado Geraldo Forte, candidato a deputado federal pela coligação “Vitória do Povo”, constituída por PTB, PSB, PT e PPS.

Esta é uma das mais incomuns propostas apresentadas na semana passada por pretendentes ao voto dos norte-rio-grandenses. Uma outra, que chamou atenção na sexta-feira 9, quando divulgada por jornais de Natal, é excludente em relação aos planos de Geraldo Forte.

Trata-se de transferir a capital do Rio Grande do Norte de Natal para Mossoró, a segunda maior cidade desta unidade federativa.

Geraldo protocolou a ideia da criação do novo estado e outras propostas junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme registro publicado pela versão on-line da Revista Brasília, que circula na capital federal.

Segundo a revista, na área de Educação ele quer que estudantes beneficiados por financiamentos governamentais possam pagar o empréstimo com prestação de serviços, agregando ao mesmo tempo valor à sua formação profissional.

Outro projeto apresentado visa ao desenvolvimento econômico. O candidato propõe a criação do Estado do Oeste Potiguar através de um plebiscito popular. Para que assim, a região banhada pelo Litoral, com riquezas incalculáveis como petróleo, sal e produção de fruticultura, além de ter encravado em seu solo uma das maiores jazidas de ferro do mundo, seja independente.

Por último, ele propõe a criação de um comitê em que os poderes executivo e legislativo, juntos, acompanhem as ações dos parlamentares, a exemplo do que o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) faz em relação aos magistrados.

Já o autor da proposta de transformar Mossoró na capital potiguar, microempresário Roberto Ronconi, candidato a governador pelo PTC, também quer criar um aeromóvel interligando as principais cidades do Estado, assim como erguer novas ponte sobre os rios Potengi, dotando-as de restaurantes panorâmico giratórios, e almeja reintegrar ao território do Rio Grande do Norte o arquipélago de Fernando de Noronha, anexado a Pernambuco pela Constituição Federal de 1988.

O CARA DE VERDADE, O DAQUI É ‘GÉNERICO’

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Por Ucho Hadadd,
Do ucho.info

Calorosa recepção a Mandela em estádio causa inveja a Lula da Silva

A cerimônia de encerramento da Copa da África do Sul, em Johanesburgo, quem começou duas horas antes da partida que terminou com a vitória do onze espanhol, esbanjou tecnologia e contou com a colombiana Shakira cantando mais uma vez o hino oficial da competição, “Waka Waka”.

Porém, o momento mais marcante do evento aconteceu logo após o encerramento do show. Líder do movimento antiapartheid e ex-presidente da África do Sul (1994-1999), Nelson Rolihlahla Mandela, 91 anos – completará 92 anos no próximo dia 18 de julho –, atravessou o gramado do Estádio Soccer City a bordo de um carrinho elétrico e foi ovacionado por mais de 84 mil torcedores que lotavam a arena esportiva.
Símbolo maior da África do Sul, Nelson Mandela – ou Madiba, como é chamado pelos sul-africanos –, sempre terá a própria história confundida com a luta pela liberdade.

Na última sexta-feira (9), o presidente Lula da Silva anunciou que não participaria da cerimônia de encerramento da Copa e a partida entre Holanda e Espanha. Como antecipou o ucho.info, a decisão do presidente-metalúrgico de antecipar o retorno ao Brasil teve razões meramente políticas.

Vice-presidente da República e no exercício da Presidência, o mineiro José Alencar Gomes da Silva foi acometido na última semana por problemas de saúde e foi internado às pressas no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Por sorte Lula da Silva não esticou sua estada na África do Sul, pois os aplausos a Nelson Mandela certamente obrigaria o presidente brasileiro a recuar no tempo e recordar a sonora e vergonhosa vaia de que foi alvo no Estádio Mário Filho, o Maracanã, por ocasião da abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007.

Depois do fatídico episódio, Lula da Silva rumou para Brasília e mergulhou naquela famosa água que nenhum passarinho ousa beber.

COM A PALAVRA OS QUE TÊM FOME DE JUSTIÇA

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Por Carlos Vereza,
ator e ex-petista

É necessário que os militares se pronunciem, não como golpe, mas para que se estabeleça um limite que, tenho certeza, contaria com o apoio de parcelas expressivas da população

A metáfora para o “eterno país do futuro” seria o Mito de Sisifo? Condenado a empurrar a “pedra da esperança”, montanha acima, para vê-la em seguida rolar morro abaixo?

Que faço eu, plena madrugada depois de horas de gravação, tentando com meus amigos seguidores mostrar com provas, que o Brasil está sendo vítima de uma grande e cruel mistificação, deformado, formatando gerações de pigmeus mentais ,largados à margem da história?

Albert Camus, ante o absurdo existencial que o atormentava ,ainda assim, renegava o suicídio e pregava a revolta! Sinto-me repetitivo, lutando contra a amargura, contra a eterna apatia, contra este eterno sol ,esta “cordialidade” que forja a passividade , o compadrismo…Tristes trópicos!

Que dizer para minhas filhas e filho? Que é inútil estudar? Que ler dá azia? A revolta,ainda que solitária, ainda que ridicularizada…A revolta! Penso nas ForçasArmadas: João Goulart foi deposto do governo legalmente constituído,sob a alegação de que pretendia implantar uma ditadura comuno-sindicalista no Brasil ! Como assim?

Jango era um dos maiores proprietários de terras no país, e pretendia, apenas, tímidas reformas repudiadas pelos coronéis da época, e como resultado da guerra fria ,a intervenção militar contou com o apoio da CIA, temerosa do surgimento de uma nova Cuba! E o que dizer agora?

O estado aparelhado por uma burguesia sindical, tentativas de censura aos meios de comunicação, uma “politica externa”, cúmplice das piores ditaduras, corrupção desenfreada, cartilhas ideológicas distorcendo a historia do país, e qual é a posição das Forças Armadas?! Elas não têm o dever de zelar pela ordem da nação?

É necessário que os militares se pronunciem, não como golpe, mas para que se estabeleça um limite que, tenho certeza, contaria com o apoio de parcelas expressivas da população.

Tenho biografia para fazer este apelo, pois fui sequestrado por duas vezes pelo DOI-CODI e tratado “carinhosamente” no quartel que fica na Barão de Mesquita. Sou visceralmente democrata, e não posso assistir passivamente o retrocesso já evidente por tantos sinais.

Por que, apenas o general Heleno manifestou-se contra a criminosa demarcação da Reserva Raposa do Sol, onde encontram-se quantidades imensuráveis de Nióbio, já detectadas por potências estrangeira e “ONGS” suspeitíssimas?! Por que, o silêncio em relação à “contribuição” das FARC ao MST que, por sua vez, ensina Marxismo às suas crianças? Com a palavra aqueles que não perderam a chama sagrada da indignação!!!

BICUDO ‘PEGA PESADO’ CONTRA LULA

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Por Ivan de Carvalho,
da Tribuna da Bahia

Lula não perdoa ninguém, desabafa jurista que ajudou a fundar o PT

"Lula não perdoa ninguém", desabafa jurista que ajudou a fundar o PT

Hélio Bicudo, advogado conceituado, defensor, na profissão e como político, dos direitos humanos. Tem 88 anos e foi fundador do PT, partido pelo qual conquistou mandato de deputado federal e de vice-prefeito de São Paulo na gestão de Marta Suplicy. Foi, sem êxito, candidato a senador por São Paulo e, também sem êxito, a vice-governador desse estado na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva, no tempo que este perdia eleições. Afastou-se do PT desde o escândalo do Mensalão, em 2005.

Apesar da idade avançada, Hélio Bicudo está atualmente à frente da Fundação Interamericana de Direitos Humanos, tem página no Facebook e escreve de próprio punho as notas que publica no seu Twitter, onde tem 618 seguidores.

Esta, digamos, breve apresentação do jurista e político tem o objetivo de dar ao leitor régua e compasso para dimensionar da maneira mais exata possível as principais partes da entrevista que concedeu ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada ontem.

Declaração considerada mais importante e destacada pelo jornal, que a usou para titular a matéria: “Lula quer Dilma Rousseff no poder para continuar mandando no país”. É muito importante a declaração, embora se possa questionar se Dilma, por alguns considerada “arrogante”, deixaria que, estando ela na presidência da República, alguém, mesmo sendo Lula, a governe. Mas não se deve minimizar a gratidão: se um jabuti estiver em cima de uma árvore, pode-se apostar que alguém o colocou lá. Não subiu sozinho. Assim, se Dilma estiver na presidência, pode-se apostar que Lula a colocou lá (ajudado pelo PT, que controla, e por alguns outros “companheiros de viagem” – partidos aliados e muitas organizações sociais de forte viés político, tão bem alimentadas pelo atual governo). Supõe-se que o jabuti seria grato.

Outro modo de Lula ficar mandando no país durante eventual presidência de Dilma passaria longe da gratidão. É que com a popularidade que tem e com o controle que exerce sobre o PT, partido de Dilma, Lula imporia a esta um alto grau de obediência ou a obrigaria a perigosa rebelião, com conseqüências de difícil previsão.

Bem, Hélio Bicudo, que está apoiando publicamente para presidente a candidata do PV, Marina Silva, afirma sobre Lula: “É autoritário. Mira mais o poder pessoal do que os objetivos do PT. Me afastei dele. O eixo desse afastamento foi a sindicância interna feita por mim no PT, que enquadrava Roberto Teixeira, compadre de Lula e ele não perdoa ninguém.”

“Lula não perdoa ninguém”. Não estou dizendo isso. Nem sei mesmo, além de não gostar de julgar, para não ser julgado. Quem prolatou a sentença foi o jurista e político Hélio Bicudo. Se incluo aqui tal sentença é porque estamos tratando de um presidente da República e da pessoa mais popular do Brasil, não estamos tratando de um cidadão comum, sem o enorme poder que o presidente tem de perdoar ou não a tantos.

Hélio Bicudo adverte que o Congresso e o Judiciário estão desmoralizados e sustenta que a alternância de poder é indispensável ao regime democrático. Claro. (E mais importante ainda fica, no caso da Presidência da República, se o Congresso e o Judiciário estão desmoralizados, como analisa Bicudo). Pela alternância, após Franklin Roosevelt, que teve quatro mandatos presidenciais, os americanos proibiram mais de dois mandatos para um presidente. E ex-presidente não pode, nos EUA, candidatar-se a nada.

EX-VICE DE MARTA SUPLICY APÓIA MARINA

segunda-feira, 12 de julho de 2010


Por André Mascarenhas,
do blog Radar Político/AE

Ex-prefeito de São Paulo na gestão Marta Suplicy, o jurista Hélio Bicudo irá apoiar a candidatura de Marina Silva, do Partido Verde, à Presidência da República. Em vídeo de cerca de um minuto publicado no site da candidata verde, Bicudo diz que “a candidatura da Marina é a candidatura com que nós todos brasileiros sonhamos”.

Militante histórico da luta pelos direitos humanos, o ex-prefeito afirma que sua escolha deve-se à dedicação de Marina à questão. Segundo ele, Marina é “uma mulher de luta, que dedicou a sua vida, tem dedicado e vai continuar dedicando aos direitos de terceiros, quer dizer, aos direitos humanos”.

Bicudo foi um dos fundadores do PT, mas deixou a legenda em setembro de 2005, alegando descontentamento com as políticas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de ex-vice-prefeito de São Paulo, Bicudo foi deputado federal e secretário municipal de Negócios Jurídicos na gestão de Luiza Erundina.

Na declaração de apoio à candidata verde, o ex-procurador de Justiça diz ter conhecido Marina quando a convidou para participar, como jurada, do julgamento do massacre de Eldorado de Carajás. “A Marina deu um voto magnífico. Eu recomendaria que as pessoas lesem esse voto, porque lá está a alma e o coração de Marina, que é a alma e o coração de uma brasileira que bate por nós todos”, diz.

Marina não é a única candidata à Presidência a despertar a simpatia do ex-vice-prefeito de São Paulo. Embora diga claramente no vídeo ser “mais um pela Marina Silva”, Bicudo declarou em abril ter recebido com “alegria” a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, à sucessão de Lula. A afirmação, feita numa conversa entre os dois ex-petistas, também foi registrada em vídeo. Assista aqui.

“Recebi a noticia de que você é candidato a presidente da República com muita alegria. Eu acho que você é uma pessoa que representa realmente o cidadão brasileiro perante os outros cidadãos que vivem nesse país. Acho que você está numa empreitada difícil, mas tem muita coisa a dizer. E nós, como eleitores, temos muita coisa a pensar daquilo que você nos disser”, diz Bicudo na gravação.

GUSTAVE FLAUBERT

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Desde a adolescência, Flaubert sentia desejos insaciáveis e um tédio atroz.

Ele confessa em uma de suas cartas, hoje consideradas documentos importantes não somente pelo que revelam de sua alma, mas como exercício de estilo que proclama a consagração a um oficio regular e fatigante, ou seja, ao ato mesmo de escrever que foi a razão da sua existência e que fez dele - o autor de “Bouvard e Pécuchet” -, segundo alguns críticos e estudiosos, um dos mártires da literatura.

Entre 1821 e 1852, durante os anos de sua infância e aprendizado, ele escreve precocemente em carta endereçada a Ernest Chevalier, datada de 24 de fevereiro de 1839, que não pretende ter nenhuma profissão e que, se vier a tomar parte ativa no mundo, há de ser como pensador e ‘desmoralizador’, estabelecendo desta forma um projeto de vida que dele fará um dos maiores escritores da língua francesa:

Não creia no entanto que eu esteja muito hesitante sobre a escolha de minha carreira. Estou decidido a não ter nenhuma, pois desprezo demais os homens para lhes fazer bem ou mal…

Gustave Flaubert (1821-1880), um dos mestres de Frans Kafka e de Borges, proclama o seu horror à vida e uma obsessão minuciosa pelo trabalho de escrever e idear uma obra que o representasse no futuro. Seu ideal de vida se resume em duas premissas significativas de um projeto aristocrático, viver como burguês e pensar como semideus.

Frequentemente, por essa época, surge-lhe o desejo de isolar-se do mundo, recolhendo-se a um porão escuro, munido apenas de uma lâmpada e dos utensílios necessários à sua atividade de escritor obcecado pela escolha do vocábulo certo e da elaboração de uma frase que resultaria de uma complicada e dispendiosa alquimia formal.

Ali, nesse porão que seria o seu arquétipo de caverna platônica, viveria trancado a chave, sem jamais abrir a porta para visitas, nem mesmo, aliás, para receber a comida que seria deixada no chão, longe do lugar onde ele se encontrasse; seu único esforço seria o de caminhar até a bandeja que levaria para a sua mesa e em seguida comeria, lenta e minuciosamente, como se escrevesse, retomando logo depois a tarefa interrompida de lançar suas idéias sobre o papel.

Muitos o consideram, por isso, um dos mártires da literatura. Alguém que sacrificou a própria vida à escritura de uma obra cuja elaboração minuciosa e fatigante lhe proporcionaria, em alto grau, delícias e tormentos inenarráveis e que Mario Vargas Lhosa descreveu como uma “orgia perpétua”- com todas as conseqüências que a orgia acarreta, em dispêndio de prazer e dor, para quem a desfruta de maneira tão visceral e avassaladora.

Seria Flaubert um escritor para escritores, apesar do êxito pontual de livros como Madame Bovary, que se impôs ao leitor mediano, sem duvida, pelo escândalo que provocou ao surgir, dando margem à polêmica numa época em que o adultério ainda era motivo de vergonha e desgosto.

Hoje, riríamos de seus motivos. Porém, como ocorre em qualquer um outro grande escritor, não é aqui o tema que conta, mas a maneira como se conta e o impecável estilo que resulta de um temperamento obcecado pela precisão de uma forma que não admite veleidades nem  quaisquer cochilos do autor.

Frequentemente Flaubert levava mais de cinco dias para compor uma única página manuscrita, trabalhando tanto quanto trabalharia um operário em uma manufatura que exigisse, além do esforço físico uma jornada que desconsiderasse qualquer noção de conforto e lazer, algo assim muito próximo da escravidão.

Contudo, seria esse “mal-estar perpétuo”, além de uma prova de Fé, a garantia de escrúpulos de um escritor que escrevia em plena consciência e sem fazer concessões à vaidade e a essa coisa tola e imperdoável, num verdadeiro artista da palavra, a que chamamos de auto-satisfação.

Por isso, pode escrever à sua amante Louise Colet em carta datada de 9 de dezembro de 1852:

[...] O autor, em sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda parte, e visível em parte nenhuma. A Arte sendo uma segunda natureza, o criador dessa natureza deve agir com o procedimento análogo. Que se sinta em todos os átomos, em todos os aspectos, uma impassibilidade escondida e infinita. O efeito, para o espectador, deve ser uma espécie de assombro. Como tudo isto foi feito? É o que se deve dizer, e sentir-se esmagado sem saber por quê. A arte grega residia nesse principio e para chegar a ele mais rápido, escolhia seus personagens em condições sociais excepcionais, reis, deuses, semideuses. Não fazia com que você viesse a se interessar por você mesmo; o divino era o fim.

Flaubert reconhecia, porém, que o medíocre, por ser mediano, é que seria comum e legítimo, pois está ao alcance de todos, como provam à exaustão, entre nós, subliteratos do feitio de um Nelson Patriota, de um Valério Mesquita, de um Humberto Hermenegildo, de um Cláudio Galvão, de um Flávio Rezende… Escrevinhadores empedernidos e sem distinção intelectual, resumem vulgarmente o que é banal e comum na província.

 

PADRE CALAZANS PINHEIRO

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Por João da Mata Costa
No próximo ano completa 100 anos da criação do famoso bairro do Alecrim, criado no dia 23 de outubro de 1911. Como antigo morador do bairro mais querido e mais populoso de Natal, inicio com esses artigos as comemorações do secular bairro que mora em mim e faz parte da minha biografia.

Na Rua Sílvio Pélico, onde morava seu Antonio, fica situado a Escola Estadual Calazans Pinheiro. Em homenagem ao importante educador e religioso Monsenhor José Calazans Pinheiro, nascido em São Gonçalo do Amarante no dia 27 de agosto de 1899 e falecido em 1946. Filho do capitão Manoel Joaquim da Costa Pinheiro e de Gertrudes Cassimiro Pinheiro, morador da Rua Vigário Bartolomeu.

Calazans Pinheiro ordenou-se padre em 20 de dezembro de 1891. Foi professor de Latim e Grego no seminário São Pedro e colégio Ateneu Norte – Riograndense. Um homem culto também ensinou Geografia e publicou um importante com noções de Cosmographia.

Corria o venturoso ano de 1922 quando o sudeste brasileiro comemorava a Semana de arte Moderna. Uma grande festa feita por alguns dos maiores fazedores da arte e literatura brasileira.

Em Natal, o padre José de Calazans Pinheiro, lente de Geografia e Cosmographia, ensinava no famoso
colégio Ateneu. O Pe Calazans publicou as suas Liçôes de Cosmographia em 1922 pela Typografia Leuzinger do RJ.

Um livro de excelente nível didático e com um conteúdo bastante abrangente. Formado de 25 lições e ao final uma lista de exercícios com três problemas pra cada unidade, tudo conforme o programa do Ginásio Nacional.

O livro começa com noções de Geometria Euclidiana. Estuda o universo e as forças da natureza, O sistema planetário e as leis de Kepler. A lua e suas fases, O sol e a atmosfera da Terra. Eclipses, as
estrelas e constelações, o zodíaco e termina com os calendários Juliano e Gregoriano.

Chama atenção a riqueza de conteúdo e clareza das lições ensinadas pelo padre Calazans numa escola pública no início do século XX. Alguma ou outra informação precisava ser atualizada.

No geral o livro de Cosmografia do padre Calazans é muito bom e didático e cumpria bem a sua função numa época de difícil acesso a livros didáticos escritos em português.

Falta a bibliografia para torná-lo mais completo. Um livro que mostra o nível de nossa escola pública no passado e como eram bons seus professores que lecionavam com material produzido do próprio punho.

DA VUVUZELA A NUREMBERG

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

No sábado seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo, eu estava borocochô. Era uma mistura de sentimentos. Sobretudo uma ausência do que fazer.

Confesso: apaixonado por futebol, minha vida, meus horários, estavam girando em torno da Copa. Assistia aos jogos, claro, mas meu forte mesmo eram os programas esportivos, nos canais por assinatura, madrugada a dentro.

Mas naquele momento, meu nacionalismo falava mais forte e não tinha sequer vontade de sair de casa. Era só pensar em futebol que já batia uma tristeza.

É claro que ainda pensei: “vai ver, saio de casa e encontro uma apaixonada por futebol e nos consolamos mutuamente?”. Cheguei até a trocar de roupa, mas bastou o som distante de uma vuvuzela que afundei de novo na rede.

Foi nesse clima de completa “derrota” que, zapeando os canais da TV a Cabo, tive uma grata surpresa. O Canal TCM (especializado em seriados e filmes clássicos) iniciava, naquele dia, uma programação chamada “Justiça para Todos”.

Todas as terças e sábados de julho, coisa de 22 horas, o canal apresentará clássicos do “cinema de tribunal”. Serão mostrados filmes como “Testemunha de Acusação” (1957, de Billy Wilder), “Doze Homens e uma Sentença” (1957, de Sidney Lumet), “Anatomia de um Crime” (1959, de Otto Preminger) e “Julgamento em Nuremberg” (1961, de Stanley Cramer), entre outros.

“La creme de la creme”, como diriam os franceses. Foi o que conferi em “Justice e Cinéma: quarante méditations sur la justice vue à travers le septième art” (2007, de Bruno Dayez, editora Anthemis), livrinho interessantíssimo que, já faz algum tempo, estava ali, esperando para ser consultado, paradinho, em minha estante.

O filme daquela noite era “Julgamento em Nuremberg”. Obra-prima, vencedora de 11 Oscars, com Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlène Dietrich, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Cliff e Werner Klemperer.

Os dois primeiros, respectivamente nos papéis do juiz Haywood e do réu-juiz alemão Ernst Janning (personagem baseada na vida do jurista alemão Franz Schlegelberger), a meu ver, dominando o filme.
O enredo de “Julgamento em Nuremberg” gira em torno do julgamento, pelos aliados (no caso, os EUA), de quatros juristas alemães que ocuparam posições importantes no aparelho judicial durante o período nazista.

Nessas posições, muitas vezes por razões políticas, seguiram fielmente as leis nazistas e foram implacáveis com situações de pouca ou nenhuma gravidade.

Sob a ótica do nacionalismo alemão, determinaram a esterilização de pessoas socialmente indesejáveis ao regime, enviaram outros a campos de concentração/extermínio ou mesmo condenaram à pena de morte opositores políticos.

A personagem Ernst Janning nos chama logo a atenção. Em um caso denominado “Feldenstein”, ele condena um judeu à morte, por ter supostamente mantido relações sexuais com uma mulher ariana. Pela lei alemã/nazista, isso era crime com pena de morte e assim determinou Ernst Janning. Jurista respeitado mundialmente por sua qualidade acadêmica e pelo seu caráter, ele condena, mesmo ciente disso, um inocente. A partir daí, condena a si próprio.

Na verdade, se Ernst Janning e seus companheiros fossem criminosos típicos, a coisa toda seria menos estranha. Mas não. Eles eram juízes e, guardadas as devidas distâncias de tempo e lugar, pessoas como nós.

Eram, pelo menos antes do nazismo, pessoas de bem, como nós nos consideramos. Então, como eles foram capazes de praticar aquelas atrocidades? E tudo em nome da lei, da “Justiça” do “III Reich”.

Na minha interpretação da “filosofia” do filme, uma das causas da barbárie (não a única, é verdade) foi o nacionalismo exacerbado.

O mesmo nacionalismo (guardadas as devidas proporções) que me fez não sair de casa e, quem sabe, deixar de encontrar a torcedora que, não padecendo dessa “doença”, carinhosamente me confortaria.

Felizmente, na TV tinha a série “Justiça para Todos” e sábados outros virão. Já curado da “doença”, digo apenas: bola pra frente.

*Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL