Arquivo da Categoria ‘"Babélia"’

MARKETING FEMININO

segunda-feira, 8 de março de 2010

Por Marcos Morita

O dia 8 de março pode ser representado por uma mulher emancipada, independente, realizada e madura, completando 35 anos de vida. A data, instituída em 1975 pela ONU, teve como objetivo lembrar ao mundo suas lutas contra a violência e a discriminação. Apesar do avanço inegável, alguns países parecem ainda estar em 1857, ano em que uma fábrica de tecidos norte-americana foi incendiada para calar a voz de mais de 130 tecelãs que reivindicavam melhores condições de trabalho e equiparação de salário com os homens.

 

Felizmente não pertencemos mais a este grupo, assim como as discussões entre as diferenças dos sexos já não são tão acaloradas. Sabemos que os homens das cavernas partiam para caça, enquanto as mulheres guardavam e zelavam a cria e o lar. Mesmo assim, protegemos e falamos de maneira mais carinhosa com bebês vestidos de cor-de-rosa. Criamos filhos e filhas com enfoques diferenciados.

Homens têm cromossomos x e mulheres y. Competitividade, excesso de confiança e espírito de aventura no primeiro caso. Proteção, abrigo e nutrição no segundo. Talvez por isso meninos tenham brincadeiras agressivas e competitivas, gostem de filmes de aventura e vídeo games de ação, enquanto meninas brincam de papai e mamãe, adoram bonecas e se deliciam com filmes românticos.

A mulher utiliza os dois lados do cérebro ao invés do direito apenas. Há também mais conexões através dos dendritos, possibilitando maior capacidade de pensar holisticamente e expressar suas emoções. Tente discutir com sua esposa ou namorada e comprove o número de palavras por minuto, as histórias resgatadas do fundo do baú e a facilidade em transformar sentimentos em lágrimas.

Com o crescimento do poder de compra, as mulheres não mais influenciam as decisões nas unidades familiares. Preferem ir direto ao consumo. Carros e apartamentos substituíram roupas, compras de supermercado e educação dos filhos. Perdidas estão as empresas e profissionais de marketing que ainda tratam as mulheres como um mercado em ascensão. Hoje elas são o mercado.

Há ainda alguns nichos que podem ser explorados. O advento da internet, a queda brutal nos custos das comunicações e a globalização, possibilitaram que grupos anteriormente excluídos pelas empresas pudessem se tornar comercialmente interessantes. O pesquisador americano Mark Penn utilizou o termo microtendências para defini-los.

Segundo Penn, microtendências são pequenas forças imperceptíveis que podem envolver até 1% da população, moldando a sociedade de forma irreversível. Considerando uma população de aproximadamente 100 milhões de brasileiras, teríamos um mercado nada desprezível de um milhão de consumidoras esperando para terem suas necessidades atendidas. Vejamos algumas.

Solteiras demais: creio que já tenha discutido com sua esposa ou família, o fato de alguma prima ou conhecida ter ficado para a titia. Inteligentes, bonitas e com bons empregos, seriam partidões caso tivessem nascidos com outro cromossomo. O comportamento agressivo na juventude e os casais homossexuais em maior número pendem a balança para o lado das mulheres.

Tigresas: apesar do ar de reprovação de algumas pessoas, é fato que o número de mulheres mais velhas namorando homens mais jovens vem aumentando. Artistas e socialites cujas vidas são escarafunchadas são os exemplos mais visíveis. A independência financeira e sexual conquistada pelas gerações anteriores tem feito que mulheres maduras optem pelo divórcio.

Mulheres prolixas: as mulheres têm demonstrado aptidão em áreas que exigem o uso da palavra escrita ou oral. Algumas profissões estão se tornando redutos femininos. Cursos de jornalismo, direito e propaganda são bons exemplos. Apresentadoras, advogadas, juízas, deputadas, prefeitas, governadoras e quem sabe até a próxima presidenta, comprovam o sucesso feminino quando o assunto são palavras.

Utilizaria o termo oportunidade caso tivesse que resumir esta data em apenas uma palavra. Os especialistas em mulheres e seus comportamentos de compra têm hoje apenas uma foto do presente e a história escrita do passado. As microtendências provam que ainda há muito a avançar neste intrincado terreno que é o cérebro feminino. Mãos à obra, homens!

  

 

 

 

O JULGAMENTO DE OSCAR WILDE

domingo, 7 de março de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza

Já de algum tempo sou fã das comédias teatrais de Oscar Wilde (1854-1900). Coincidentemente, essa semana, uma notícia que vi na Web me levou a ele: a crescente perseguição a homossexuais em Uganda, onde a prática do homossexualismo é castigada com pena de morte.

Aliás, curioso, dei uma pesquisada e vi que ao homossexualismo é atribuída pena de morte em pelo menos mais cinco países: Mauritânia, Arábia Saudita, Sudão, Irã e Iêmen. No mesmo caminho, vão dois outros países: Nigéria e Somália. Isso sem falar que mais de 70 países ainda consideram como crime o homossexualismo, com punições que vão desde chibatadas à prisão. Juntando uma coisa com a outra, lembrei que é de Oscar Wilde, certamente, o mais famoso julgamento pelo “crime” de homossexualismo.

O fato é que Wilde, o grande conversador e dândi da Londres de fins do século XIX, está entre os mais lidos e traduzidos escritores de língua inglesa de todos os tempos. Irlandês de Dublin, ele foi jornalista, poeta, contista, romancista e dramaturgo. As peças a que me referi são do seu grande período de fertilidade artística, os anos 1890, que condensa o melhor de sua obra: o romance “The Picture of Dorian Gray” (1890) e a série de comédias teatrais “Lady Windermere’s Fan” (1892), “A Woman of No Importance” (1893), “An Ideal Husband” (1895) e “The Importance of Being Earnest” (1895).

Entretanto, os anos 1890 marcam a vida de Wilde multiplamente. Em 1891, tem início sua desastrosa relação homossexual com Lord Alfred Douglas (ou Bosie, como Wilde o chamava), segundo seus biógrafos, o grande amor de sua vida.

Apesar da educação protestante e conservadora do escritor (com passagens pelos prestigiosos Trinity College, Dublin University e Magdalen College, Oxford University) e de seu casamento com Constance Lloyd, com quem teve dois filhos.

Foi em 1895 que Oscar Wilde tomou a insensata decisão de processar criminalmente o pai de Bosie, o irascível Marquess of Queensberry (John Sholto Douglas), dando início a uma série de eventos que levariam ao seu próprio julgamento por homossexualismo.

Nutrido pelo ódio, o Marquês perseguia e procurava destruir a reputação de Oscar Wilde, tachando-o de sodomita. Em princípio, Wilde, apesar de ofendido, não pretendia tomar quaisquer medidas legais contra o enfurecido Marquês. Mas, compelido por seu amante (e desatendendo à recomendação dos amigos), decidiu processar o Marquês por crime contra a honra.

No auge do seu prestigio, Wilde foi apanhado numa armadilha. Por Bosie (ou sob a influência dele), abandonou a arte, para se dedicar a uma vendeta que, mais tarde, se voltaria contra ele. O Marquês estava preparado para a batalha. Contratou detetives e vasculhou a vida íntima do grande escritor. Reuniu provas contundentes em sua defesa e foi absolvido à unanimidade.

Kafkamente, como resultado, Oscar Wilde é levado à prisão, com fundamento, precisamente, nas provas produzidas em seu “desfavor” no julgamento do Marquess of Queensberry. Preso por um mês e tornado réu, antes mesmo do seu badalado julgamento (em Old Bailey, famosa sede das cortes criminais em Londres), ele teve sua insolvência civil declarada.

O caso, na Inglaterra vitoriana de então, não poderia ter outro desfecho. Era a mentalidade de uma época, que processava Wilde por homossexualidade, mas, hipocritamente, por exemplo, fechava os olhos para a proliferação da prostituição, que era a principal causa de índices alarmantes de doenças venéreas e outros males da época.

Wilde, agora no Banco dos réus, segundo se conta, continuou a agir como se em sociedade ainda estivesse ou, talvez, como o Lord Goring, a personagem dândi e irônica de “An Ideal Husband”. Abandonado por Bosie (que, se fosse o caso de processar Wilde, deveria, como seu amante, ter sido processado também), pego em mentiras e com a vida íntima completamente exposta, o desempenho de Wilde, na solenidade das cortes vitorianas, foi desastroso. O veredicto: culpado. Pena: 2 anos de prisão, com trabalhos forçados.

Em dado momento, liberto sob fiança antes da sentença, Oscar Wilde foi aconselhado pelos amigos a fugir para o Continente. Preferiu ficar em Londres. As razões: orgulho, falta de recursos financeiros ou a paixão que ainda o ligava a Bosie? Em maio de 1895, é novamente preso.

Após uma sucessão de transferências, finalmente chega à prisão de Reading, famoso porto de sua Ballad. Não foi abandonado por seus fiéis, mas impotentes, amigos, com exceção, claro, de Bosie. As humilhações que passou, o horror da prisão em si, por ele descritos, podemos muito bem imaginar.

Cumprida a pena, foi liberto em maio de 1897, mas humilhado, falido e ceifado, até mesmo, do contato com os filhos. Para a outrora celebridade dos salões londrinos, após isso, apenas restou o autoexílio em Paris. Em 1900, aos 46 anos, convertido ao catolicismo (recebendo em seu leito de morte os sacramentos do Batismo e da Extrema Unção), morre de meningite, talvez causada pela sífilis e certamente agravada pelo seu alcoolismo. Ainda hoje descansa no exílio, no Cemitério de Père Lachaise, em Paris.

Não tenho dúvida que criminalizar o homossexualismo é, acima de tudo, dividir as pessoas entre boas e más, por razões estritamente morais (e sabemos como a moral flutua, no tempo e no espaço). Nesse contexto, Oscar Wilde, o grande frasista, tinha razão: “É absurdo dividir as pessoas em boas e más”. Para ele, “as pessoas ou são encantadoras ou são aborrecedoras”. Wilde, respeitadas as suas preferências, foi uma pessoa e, acima de tudo, um escritor encantador.


Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London – KCL

O VELHO CHICO BATISTA

domingo, 7 de março de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Apesar das penúrias do corpo o velho ri, alegre, triunfante, porque superou os obstáculos e chegou aos oitenta anos. Oitenta janeiros, reitera festivamente, mostrando os dentes álveos. Oitenta janeiros… Não é todo mundo que alcança essa graça, diz, sentado na beira da rede armada no meio da sala desprovida de móveis. Apenas alguns tamboretes, cangalhas e arreios encostados a um canto da parede de onde pendem litogravuras já um tanto esmaecidas representando o Coração de Jesus e o Coração de Maria ladeadas por um grande rosário.

Tinha dez anos em 1910 quando seus pais deixaram a fazenda Pocinhas e se mudaram para uma encruzilhada entre dois rios, a meio caminho da várzea e dos tabuleiros, recorda.

Reside há muitos anos em companhia de uma filha, Albertina, que não se casou e agora se dedica exclusivamente a cuidar de sua saúde e do seu bem-estar.

Há muitos anos viúvo de dona Olívia, mestra obstinada que no Estevão desasnou com abnegação e paciência três ou quatro gerações, ensinando-lhes a carta de ABC e as primeiras noções de português e aritmética, tornou-se famosa por fomentar e promover pontualmente desfiles cívicos, quando botava todo mundo para marchar por essas estradas cheias de pó.

Se conheci Bibi? E como a conheci! Desde que me entendi de gente na várzea do Açu, conheci Bibi. Sempre bem arrumada e empoada, cheirando a loção. Não dispensava os seus brincos e trancelim de ouro em volta do pescoço. O cabelo enroladinho como bosta de cabra… Era gente do velho João Feitor, filho do velho Maneo Feitor, uma tribo de negros que viviam nas terras do velho Lulu, pai de Cazuzô.

Entre os antepassados dela havia um Maneo José Novo, para diferenciar de Maneo José Velho, que tinha a fama de adivinhão. Ah, como os conheci! Como os conheci! Pois veja só a astúcia desse negro, Maneo José Velho. Quando alguém lhe perguntava se ia chover, ele respondia invariavelmente dessa forma, Hoje chove ou não chove… Sim, essa era a sua eterna ladainha. Hoje chove ou não chove… O certo é que ele sempre acertava no seu palpite, pois afinal chovia ou não chovia. Mesmo assim, sempre havia alguém para gabar o negro e reconhecer o acerto de suas previsões. Ouvi muito o povo dizer, o Velho tinha razão…

Bibi era muito cavaquista e se arreliava com tudo. Era muito geniosa. Segurava uma pendenga danada com qualquer um que a provocasse, e não se cansava. Levava tudo a sério, sem discernir que as pessoas só queriam brincar com ela, ao provocá-la daquele maneira… Negra retinta, tinha o lábio inferior um tanto despencado que lhe dava a parecença de um peixe sonâmbulo dentro de um aquário. Se bem que nunca vi um aquário.

Acabou esclerosada, jogando dentro dos potes toda porcaria que encontrava. Todo doido tem sua mania, não é mesmo? Por que Bibi haveria de ser diferente? Ela tinha uma risada que era só dela. Mas não pense que ela ria muito não. Era uma mulher calada, que vivia pensando o dia inteiro, mormente quando não tinha nada para fazer. Ficava sentada num tamborete durante horas, sozinha, pensando. No fim, falava numa língua que ninguém entendia.

O velho ri gostosamente, lembrando-se de Bibi do Velho João Feitor. Noto que tem uma boa dentadura, de dentes brancos esfregados todos os dias com casca de juá. Nem mesmo os jovens que vivem nos matos têm uma dentadura assim, gaba-se, sem economizar no riso. Porém a vista é que não é boa. A vista é que não é boa, mas, que fazer?

Seu Chico não é como outros velhos que sentem uma nostalgia inenarrável do passado. Para ele, tempo bom é o presente.

Antigamente havia muitas coisas boas, mas ninguém queira que o passado volte. Tudo o que vive anda para frente, a não ser caranguejo que anda para trás, segundo sempre ouvi da boca de muita gente. Porém não posso jurar sobre isto porque estou nessa idade e nunca vi um caranguejo. Só dou minha opinião sobre o que conheço. Nunca vi o mar…

Cercado de netos, o velho observa a vida através duns óculos de lentes espessas e embaçadas pela abundante transpiração. A vida, àquela hora no Panom, está mergulhada no calor comatoso do meio-dia. O cabelo rebelde lhe dá uma aparência de menino vivaz.

Alcancei a casa do meu avô com jiraus cheios de queijos que sobravam de um ano para o outro, pois não havia fome suficiente para dar cabo de tanta fartura. Ah, pode escrever. Naquele tempo não havia fome que desse baixa em tanta fartura. Quase tudo era produzido em casa: a carne, o queijo, a manteiga, a farinha, o fubá, o mel, a banha… Mas, apesar de tudo, as casas eram cobertas de palha e as mulheres, por mais ricas que fossem, pariam sobre camas feitas de talos de carnaubeira.

Agora aqui todo mundo tem colchão de mola e luz elétrica; quase toda casa é feita de alvenaria e tem televisão. Eu prefiro o tempo de hoje, embora o sujeito só possa comprar um quilo de carne duas ou três vezes por semana. Penso que é melhor comer menos e dormir melhor. Melhor ainda, para quem pode, é comer e dormir bem. Isto sim é que é vida para a gente pedir a Deus. O resto é enfado e penitência.

Não tenho nada contra que anote nossa conversa. Pode anotar à vontade. Eu sempre soube que você vivia de anotar essas maluquiças de gente velha. Anote o que puder e quiser sem sobrosso e sem o receio de se fazer aborrecível. Pelo menos assim as coisas não se perdem e no futuro alguém vai saber que um dia, sem aviso, lhe recebi em minha humilde e honrada casa, já homem feito, depois de lhe ter visto menino recebendo as lições de Olívia e da sua avó.

Sempre soubemos que você não foi um menino igual aos outros. Sei que lia muito desde pequeno, orientado por sua avó que Seo Fonseca foi buscar no Ceará-Mirim, para reinar e ser dona dessas terras todas… Ler, como sabe, ajuda a pensar.

Trabalhar no Novo
Frequentemente sou abordado por amigos e colegas, geralmente da minha geração, sobre um assunto que está na boca de muita gente - este Novo Jornal.

Como é trabalhar no NJ, querem saber, às vezes com uma certa incredulidade. “É verdade que lá os colaboradores são pagos?” Esta indagação é feita fatalmente por todos, no começo ou no fim da conversa, pois afinal nenhum dos nossos jornais jamais adotou essa prática. Afinal, o trabalho intelectual, segundo alguns espertos, não tem preço…

Certa vez, ao ser convidado a colaborar num jornal local, o dono me disse à queima-roupa, logo após formalizar o convite: “Você é um grande intelectual. Por isso, não vou falar em dinheiro, para não ofendê-lo…”

Eu me lembro agora duma conversa com Dorian Jorge Freire, que se mostrava aborrecidíssimo com a poetisa Zila Mamede, a quem ele convidara havia um ou dois mses para escrever aos domingos no jornal que ele então dirigia. Pois bem, ela mandara a conta! “Nunca pensei que Zila fosse tão mercenária”, queixou-se, visivelmente contrariado. E, desta forma, matou a minha curiosidade sobre a repentina suspensão da colaboradora que, embora uma grande artífice do verso, produziu circunstancialmente uma prosa medíocre, insípida e sem estilo.

Pois, aqui, os colaboradores recebem, sim. Mas isto não é tudo. Também temos, por exemplo, workshops, como o que se realizou no penúltimo sábado no Vila do Mar, depois de um almoço em que nos confraternizamos, do diretor ao moço da portaria. Afinal, como costuma dizer-nos Cassiano Arruda Câmara, o principal capital do Novo Jornal é o elemento humano. E, sobretudo, diria eu, a transparência que rege as relações internas e externas da empresa com todos.

Confesso que pela primeira vez, depois de tantos anos de redação, fui testemunha, nessa confraternização, de um fato excepcional: a direção de um jornal detalhando para os seus funcionários o seu fluxo de caixa e informando-os sobre seus projetos. Outra coisa surpreendente, aqui, é a liberdade de opinião que desfrutamos, pelo menos até este momento. Sei que já até pediram minha cabeça à direção, mas ela, a cabeça, continua firme sobre os meus ombros e o jornal, firme e forte em sua disposição de bem informar aos cidadãos.

OS AMIGOS DO ARRUDA

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por André Giusti

É bem clássica a visita do Arcebispo de Brasília ao governador afastado e preso do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Clássica no sentido do padre visitando o preso, na esperança – quem sabe? – de arrancar uma confissão de culpa, ou lágrimas de arrependimento.

O padre e o preso. Tenho a vaga sensação de que a situação remete a alguma passagem clássica de nossa literatura, mas nesse início de noite cansado, quando escrevo quase às pressas, me será impossível transformar isso em lembrança concreta. Deixo que alguém procure por mim.

Não sei se Dom João Braz de Aviz costuma visitar presos por aí, se vai aos presídios e delegacias conferir a imagem terrena da morada do tinhoso. Talvez deixe para os simples padres das pequenas paróquias a visita aos pretos e pobres miseráveis, alguns dos quais menos ofensivos à sociedade do que outros tipos de encarcerados. Ou nem tão encarcerados, que merecem, pela hierarquia, a compaixão do arcebispo.

Dom João visitou Arruda e acabou contando a jornalistas como foi a conversa. Queixou-se o governador afastado e preso que ninguém o visita, à exceção de advogados e da mulher. Em outra cena clássica das prisões, a da lamúria dos encarcerados, muito embora sua “cela” não tenha grades, Arruda lamentou aos ouvidos do padre-mor que os amigos não apareceram desde que ele foi parar lá.

Se o cardeal não perguntou na hora, cabe agora a interrogação: que amigos, governador, no mais genuíno sentido dessa palavra, o senhor acha que pode ter conquistado? Cabe também a pronta reposta. Provavelmente, aqueles que se mantêm ao lado das pessoas apenas enquanto elas habitam os palácios.

É possível que o padre tenha pensado isso e ficado em silêncio.

DENE: DESENCONTRO NATALENSE DE ESCRITORES

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por Patrício Jr*

patriciojr.com.br

E a Funcarte (Fundação Confusa das Artes), órgão municipal irresponsável por fazer cultura em Natal, acaba de chegar a um entendimento sobre o antigo “Encontro Natalense de Escritores”, antigo “Encontro Lusófono de Escritores”, antigo… ”Não sabemos ainda qual será o novo nome, mas vai ser revolucionário”. O evento de literatura agora vai se chamar DENE: Desencontro Natalense de Escritores. Será o maior evento de literatura que nunca vai ocorrer em Natal.

Para as mesas do DENE já estão confirmados os nomes de Machado de Assis, Miguel de Cervantes e José de Alencar. Serão mesas brancas, claro. O presidente da Funcarte dessa semana garantiu que o DENE vai ser um evento único. O (presidente) da semana que vem já se adiantou dizendo que garante a mesma coisa.

Todos os escritores convidados para o DENE serão substituídos de última hora por apadrinhados do presidente da Funcarte. E o melhor: (só) saberão que foram preteridos através da imprensa e passarão por esse constrangimento público sem receber nenhum pedido de desculpas da Prefeitura.

Segundo o (atual) presidente da Funcarte, essa prática tem por objetivo desqualificar o trabalho de escritores profissionais ao mesmo tempo em que prestigia artistas frustrados que se dedicaram mais ao puxa-saquismo do que ao trabalho sério. “Nossa política cultural sempre vai privilegiar quem faz parte da nossa panelinha”, afirmou. “Nós somos um órgão público, que dá oportunidades iguais a todos os artistas, contanto que eles estejam filiados ao partido da situação”.

Debates da gente
Os debates terão temas modernos, em consonância com o que é discutido nos maiores eventos de literatura do mundo. Na mesa “Decoração natalina de Natal: uma redundância?”, grandes nomes da literatura de gosto duvidoso discutirão o que os responsáveis pela decoração do “Natal em Natal” fumaram pra achar aquilo bonito. Segundo o presidente da Funcarte, esta mesa “será tão revolucionária e inovadora que as pessoas não vão entender nada”, mas a prefeita vai dar uma entrevista dizendo que aquilo tudo é “mágico-lúdico-fantástico” e então a cidade toda vai concordar com ela.

Outra mesa que promete gerar uma discussão saudável e edificante (será) “Usando a retórica para jogar a culpa no seu antecessor”. A própria prefeita será uma das debatedoras e falará sobre sua experiência em culpar a gestão anterior por todos os problemas da cidade.

A mediação deste debate ficará a cargo de um assessor baba-ovo, que concordará com tudo que a prefeita disser enquanto segura sua bolsa e não deixa ninguém chegar perto dela. A organização do DENE promete ainda servir um bolo de fubá pra prefeita e expulsar do recinto quem tentar fotografá-la no momento em que ela come a guloseima.

Na seara da literatura sustentável, teremos debates bem interessantes também. Dias Gomes, autor da novela global “O espigão”, vai compor a mesa “Toma que o espigão é teu”.

Na ocasião, ele defenderá a tese de que a novela dos espigões de Ponta Negra é dele. Como ninguém quer tomar pra si a autoria dessa novela, os organizadores creem que não haverá grandes polêmicas. Mas o Ministério Público já avisou: vai fazer uma reunião com Dias Gomes e depois, magicamente, ele voltará atrás em todas as decisões que tomou. Jogando a culpa no antecessor (da prefeita), claro.

Outras mesas da parte verde do evento que merecem destaque são: “Meu pé de algaroba no Midway”; “As escutas telefônicas mais incríveis da Operação Impacto”; e “Plano diretor: quem te viu, quem PV”.

Oficinas da gente
Mas nem só de debates viverá o DENE. Na oficina “Venda seu blog: pergunte-me como”, uma blogueira inescrupulosa e medonha ensinará como enriquecer às custas de inverdades sem se corroer de remorso. Os presentes aprenderão, por exemplo, como formatar uma tabela de preços para a própria opinião.

A blogueira adiantou, em coletiva, um pouco do conteúdo da oficina “Manipular a verdade dá trabalho: tem que buscar argumentos falsos, escrever de forma dúbia e ainda posar de imparcial”: “tudo isso gera um custo que deve ser repassado a quem está te prostituindo”, afirmou ela. Durante a oficina, a blogueira promete emitir várias opiniões favoráveis ao grupo político da situação. Isto se ela não receber uma contraproposta da oposição até lá.

Os professores da rede de ensino municipal serão os responsáveis pela oficina “Plano de Cargos e Salários: promessa é dúvida”, na qual mostrarão passo a passo o que você deve fazer para ser ludibriado por propostas de campanha que nunca serão cumpridas. Esta oficina promete atrasar todo o cronograma do evento porque minutos antes de começar os professores entrarão em greve. Mas a prefeita garantiu que vai receber todos para uma conversa franca assim que sua popularidade cair pelo fato de nossas crianças estarem sem aulas.

Outros destaques são as oficinas “Via Livre, mas nem tanto”, “Inaugurando postos de saúde sem médicos”, “Como trocar seu apoio político pelo silêncio da imprensa” e a grande sensação do evento: “Diga repetidas vezes ‘Eu sou mãe, eu sou mulher’ sem ser taxada de preconceituosa”.

Baixarias da gente
Claro que Câmara Cascudo não poderia ficar de fora. Para homenagear nosso maior intelectual, a organização apresentará algo totalmente inédito: um natalense que leu um livro de Câmara Cascudo! Sim, existe! E o presidente da Funcarte garantiu que o rapaz não frequenta o Beco da Lama, não dá aulas na universidade e nem é herdeiro do folclorista, fato que torna a descoberta realmente única.

O DENE ainda promete grandes debates que descambarão pra baixaria sem, no entanto, ter seus responsáveis advertidos pelos superiores. O próprio presidente da Funcarte se encarregará de pôr a culpa pelo atraso do evento em ex-funcionários que pediram exoneração porque a Prefeitura não ofereceu condições para que seus trabalhos fossem realizados. “É de suma importância que a gente continue mentindo para o povo, sem jamais assumir a própria inoperância”, afirmou, para em seguida sair cagando e andando.

Anote aí: o DENE ocorrerá em algum dia dos meses de março, abril, maio ou junho, talvez julho, quem sabe agosto, pode ser até em setembro, provavelmente em outubro, no máximo em novembro, se bem que dezembro…

(*) Publicado originalmente no PLOG

O ATIVISMO JUDICIAL

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por Honório de Medeiros, professor de Filosofia do Direito [UnP]]

Um dos mitos fundantes da nossa concepção de Estado é a do contrato social. Por este, nós cedemos nossa liberdade para que o Estado nos impeça de nos destruirmos uns aos outros. Tal noção, até onde sabemos, foi pela primeira vez exposta por Licofronte, discípulo de Górgias, como podemos ler na “Política”, de Aristóteles (cap. III):

De outro modo, a sociedade-Estado torna-se mera aliança, diferindo apenas na localização, e na extensão, da aliança no sentido habitual; e sob tais condições a Lei se torna um simples contrato ou, como Licofronte, o Sofista, colocou, “uma garantia mútua de direitos”, incapaz de tornar os cidadãos virtuosos e justos, algo que o Estado deve fazer.

E muito embora um estudioso outsider do legado grego tal qual I. F. Stone defenda que a primeira aparição da teoria do contrato social está na conversa imaginária de Sócrates com as Leis de Atenas relatada no “Críton”, de Platão, há quase um consenso acadêmico quanto à hipótese Licofronte estar correta. É o que se depreende da leitura de “Os Sofistas”, de W. K. C. Guthrie, ou da caudalosa obra de Ernest Barker.

Bellum omnium contra omnes, guerra de todos contra todos até a auto-aniquilação no Estado de Natureza, é o que ocorre se impera a liberdade absoluta, diz-nos Hobbes no final do Século XVI, início do Século XVII - recuperando a noção de contrato social - e não houver a criação de um artefato – o Estado –, assegurando-se, assim, a sobrevivência dos homens quando estiverem em contato uns com os outros, pois haverá a submissão da vontade de todos à vontade de um só ou de um grupo, e esta atuará em tudo quanto for necessário para a manutenção da paz comum.

Entretanto é com Jean Jacques Rousseau, após John Locke, que se firma o mito fundante do contrato social, influenciando diretamente a Revolução Americana e Francesa, bem como a idéia de Estado conforme a concebemos ainda hoje. Em “O Contrato Social”, Rousseau põe na vontade dos homens, da qual surge o Estado, a origem absoluta de toda a lei e todo o direito, fonte de toda a justiça. O corpo político, assim formado, tem um interesse e uma vontade comuns, a vontade geral de homens livres.

Quanto a esse corpo político, José López Hernández em “Historia de La Filosofía Del Derecho Clásica y Moderna”, observa que Rousseau atribui o poder legislativo ao povo, já que esse mesmo povo, existente enquanto tal por intermédio do contrato social detém a soberania e, portanto, todo o poder do Estado.

As leis, inclusive a do contrato social, que emanam do povo, assim as vê Rousseau: “são atos da vontade geral, exclusivamente”; “é unicamente à lei que todos os homens devem a justiça e a liberdade”; “todos, inclusive o Estado, estão sujeitos a elas”.

O ideário acima exposto, no qual a lei a todos submete por que decorrente da vontade geral do povo – este, frise-se mais uma vez, surgido graças ao contrato social e detentor da soberania - pode ser encontrado em obras muito recentes, como o “Curso de Direito Constitucional”, primeira edição de 2007, do Ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil Gilmar Ferreira Mendes e outros. Às páginas 37, lê-se:

Por isso, quando hoje em dia se fala em Estado de Direito, o que se está a indicar, com essa expressão, não é qualquer Estado ou qualquer ordem jurídica em que se viva sob o primado do Direito, entendido este como um sistema de normas democraticamente estabelecidas e que atendam, pelo menos, as seguintes exigências fundamentais: a) império da lei, lei como expressão da vontade geral; (…)

Assim como é encontrado, expressamente, enquanto cláusula pétrea, imodificável, na Constituição da República Federativa do Brasil, no parágrafo único do seu artigo 1º:

Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Há algo de estranho, portanto, nessa doutrina do “ativismo judicial” que viceja célere nos tribunais do Brasil, principalmente no nosso Supremo Tribunal Federal. Entenda-se, aqui, como “ativismo judicial”, o “suposto” papel constituinte do Supremo, na sua função de reelaborar e reinterpretar continuamente a Constituição, conforme pregação sutil do Ministro Celso de Mello em entrevista ao “Estado de São Paulo”, e a atividade judicante de meramente preencher uma “possível” lacuna legal ou mudar o sentido de uma norma infraconstitucional já existente por meio de uma sentença, baseando-se em princípios difusos e indeterminados da Constituição Federal, estratégia empregada na Itália, Alemanha e pelo próprio STF. “Não é por razões ideológicas ou pressão popular. É porque a Constituição exige. Nós estamos traduzindo, até tardiamente, o espírito da Carta de 88, que deu à corte poderes mais amplos”, diz, arrogantemente, o presidente do STF Gilmar Mendes.

Pergunta-se: teria o judiciário legitimidade, levando-se em consideração a doutrina exposta acima, para avançar na seara do legislativo, passando por cima da soberania do povo em produzir leis através de seus representantes, seja preenchendo lacunas (criando leis), seja alterando o sentido de normas jurídicas, seja modificando, via sentença, a legislação infraconstitucional? Ainda: teria amparo legal o STF para tanto?

Em que se basearia, qual seria o fulcro dessa atividade de invasão da competência do legislativo ao se criar normas jurídicas através de sentenças, ou modificar o sentido de outras por meio de interpretações? Seria, como deixa transparecer o presidente do STF em suas entrevistas, por que a Constituição Federal tem um “espírito” e somente os integrantes daquela Casa, em última instância, conseguem enxergá-lo em sua essência última? Que espírito é esse? O mesmo ao qual se refere São Paulo: “a letra mata, o espírito vivifica”?

Autoritário, tal argumento. Sob o véu de fumaça que é a noção de que haja um “espírito constitucional” a ser apreendido (interpretado segundo técnicas hermenêuticas somente acessíveis a iniciados – os guardiões do verdadeiro e definitivo saber) está o retorno do mito platônico das formas e idéias cuja contemplação é privilégio dos Reis-Filósofos enquanto. É a astúcia da razão a serviço do Poder.

Platão, esse gênio atemporal, legou aos espertos, com sua gnosiologia a serviço de uma estratégia de Poder, a eterna possibilidade de enganar os incautos lhes dizendo, das mais variadas e sofisticadas formas, ao longo da história, que somente “alguns”, os que estão no comando, podem encontrar e dizer “o espírito” da Lei, o certo e o errado, o bom e o mal, o justo e o injusto.

O mesmo estratagema a Igreja de Santo Agostinho, esse platônico empedernido, por séculos usou para administrar seu Poder: unicamente a ela cabia ligar a terra ao céu, e o céu à terra, por que unicamente seus príncipes sabiam e podiam interpretar corretamente o pensamento de Deus gravado na Bíblia.

E, assim, como no Brasil a última palavra acerca da “correta” interpretação de uma norma jurídica é do STF, e somente este pode “contemplar” e “dizer” o verdadeiro “espírito das leis”, aos moldes dos profetas bíblicos, em sua essência última, mesmo que circunstancial, estamos nós agora, além de submetidos ao autoritarismo dos pouco preparados representantes do povo, ao autoritarismo dos ativistas judiciais.

DIREITO NATURAL E POSITIVISMO JURÍDICO

segunda-feira, 1 de março de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

A concepção de Direito Natural é antiquíssima e, através dos tempos, é representada, entre outros, por pensadores como Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, Hugo Grotius, São Tomás de Aquino, Rousseau, John Locke e Del Vecchio; recentemente, no século XX, podem ser lembrados os nomes de Lon Fuller e Ronald Dworkin.

Ela quer significar, em linhas gerais e respeitadas as muitas variantes (não são poucas), a existência de um Direito Natural, de um Direito fundado na razão ou no mais íntimo da natureza humana, na qualidade de ser individual ou coletivo, ou mesmo na nossa relação com Deus, que preexiste ao Direito que é produzido pelos homens ou pelo Estado e que deve ser sempre respeitado.

Por muitas variantes, deseja-se dizer que, assim como a maioria das escolas filosóficas, o jusnaturalismo tem seguidores que vão desde ardorosos apóstolos, como São Tomás de Aquino, que desenvolveu uma verdadeira tipologia de direitos baseada na relação entre os seres humanos e o criador, a moderados defensores, como Leon Fuller, que apenas afirma haver princípios preexistentes ao “Direito Positivo” e que devem ser considerados em qualquer sistema jurídico.

A escola do direito natural, não resta dúvida, foi de grande importância para o Direito Ocidental. Essencialmente, a teoria fundamenta-se na afirmação de que os seres humanos são parte de uma ordem natural de coisas e eles deveriam atuar em harmonia com essa ordem. Particularmente em suas mais modernas manifestações, a teoria sugere que, enquanto o relacionamento da humanidade com o mundo é uma questão de ordem natural, os relacionamentos entre seres humanos são, em grande parte, uma questão de contrato social.

Já como positivismo jurídico, devemos entender, para os fins deste pequeno artigo, as várias manifestações deste pensamento, sem ficarmos presos a esta ou aquela tendência específica. Aqui devem ser inseridas suas principais tendências: normativista, codicista, jurisprudência analítica, decisionismo; e seus principais estudiosos, como Thomas Hobbes, H. L. Hart, John Austin e Hans Kelsen, entre muitos outros.

O positivismo jurídico contrapõe-se à ideia de um Direito Natural. Enquanto que os partidários do jusnaturalismo se ocupam do fundamento e legitimação do Direito Positivo, baseando sua validade no respeito aos princípios e valores absolutos, aos positivistas interessa tão-somente a averiguação dos pressupostos lógico-formais de sua vigência. O Direito é positivo, no sentido de que é criação do homem. Kelsen, por exemplo, baluarte da tendência normativista, exalta a norma jurídica, ponto em torno do qual gira toda a sua concepção do Direito.

Foi com esse objetivo, por exemplo, que Austin lançou sua tentativa de desenvolver um sistema completamente articulado e lógico do Direito. Ele começou com a idéia de que o direito é o comando do soberano apoiado por uma sanção. A tarefa é desenvolver, partindo dessa premissa, um sistema que seja logicamente coerente e consistente. Kelsen, partindo do que ele chamou de “norma fundamental” como princípio básico, propugnou, com reconhecido sucesso, na mesma direção.

Os ideais positivistas, seguindo a lição de Hart, poder ser assim sintetizados: a) o Direito identifica-se com mandatos; b) não há, necessariamente, um nexo entre as esferas da Moral e do Direito; c) a análise do direito deve ser isolada das reflexões de ordem sociológica, ética, econômica e teleológica; d) o caráter lógico do sistema jurídico faz com que as decisões judiciais possam ser alcançadas independentemente de apoio em outros valores, como, por exemplo, éticos ou políticos; e) os juízos morais não se assemelham aos juízos a respeito de fatos.

Em linhas gerais, até certo ponto pessimistas quanto à natureza dos seres humanos e à capacidade destes de aplicar o Direito num sentido de Direito Natural (se é que este Direito Natural existe), os positivistas insistem que o importante mesmo é se ter um sistema de Direito e manter a integridade lógica desse tecido legal.

(*) Procurador da República,
Mestre em Direito pela PUC/SP e
Doutorando pelo King’s College London - KCL

OLHANDO A CHUVA

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Por Geraldo Batista de Araújo

geraldobatistaaraujo@gmail.com

Naquela tarde chuvosa de um domingo sem graça, fiquei olhando a chuva que batia na vidraça da janela. Não havia nenhum movimento na rua. Natal naquela época ainda era uma província, onde se podia viver sem preocupação com segurança. Assalto era coisa de cinema.

Eu era feliz e não sabia, como cantava Ataulfo Alves. Eu não passava de um jovem pobre e sonhador.

Nas grossas gotas que escorriam da vidraça eu via apenas as silhuetas de duas jovens que tinham deixado no coração daquele menino grandes marcas que o tempo teimava em não apagar. A primeira tinha, no máximo 14 anos. Mesmo de olhos fechados, eu a via do mesmo jeito brejeiro de menina simples que trabalhava na cozinha do seminário para ajudar ao parco orçamento familiar.

No refeitório eu só a via da cintura para cima e dependendo da posição nem sequer via seu rosto. Mas ela sempre dava um jeito de mostrar sua carinha risonha me fitando com seus olhinhos dos quais eu via sair faíscas que flechavam meu coração. Aquilo para um jovem de 16 anos era a glória suprema. Eu me sentia o máximo. Repetia para mim mesmo, essa menina linda gosta de mim.

Na verdade, Nevinha não era linda. No máximo, engraçadinha. Mas isso era apenas um detalhe sem a menor importância naquela idade. Agora eu podia dizer aos meus colegas de minha confiança que estava flertando com a menina que ajudava às freiras. Se Antenor, o dedo duro descobrisse, eu seria expulso.

Escrevi inúmeros bilhetes para ela. Jamais tive coragem de entregar pelo menos um. Todos tinham o mesmo triste fim, picados bem miudinhos e jogados na privada.

A missa dominical era o momento mais esperado da semana. Nesse dia, eu a via de corpo inteiro, podia admirar sua blusinha exibindo um pequeno par de seios pedindo mais tecido para se acomodarem. A troca de olhares fazia que a missa passasse rápida, por mais demorado que fosse o sermão.

Minha grande frustração foi quando ela, não sei por que razão, deixou de trabalhar com as freiras. As refeições já não tinham o mesmo sabor. Faltava o sal do olhar de Nevinha, um amor que morreu sem ter nascido, como diria Olavo Bilac.

A segunda era muito diferente da primeira, devia ser filha de gente “mais ou menos” como se falava para dizer que alguém era da classe média, pois estudava interna em um colégio de freiras.

Ela me descobriu durante uma procissão do Senhor Morto, numa Sexta-feira Santa. Era realmente muito mais bonita do que Nevinha. Durante muitos meses, a via todos os dias, na missa do colégio, onde eu ia ajudar ao padre Cornélio a celebrar a missa.

Mas, nem sequer sabia seu nome.

Somente em outra procissão, em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, consegui trocar meia dúzia de palavras com ela e descobrir que se chamava Cristina. Já era quase noite. Foi o suficiente para passar a noite quase em claro para que seu rostinho lindo e sua cabeleira loura não saíssem de minha cabeça. Tinha nome de rainha, mas para mim era uma princesa.

Um dia, o destino nos separou. Cristina não passou de uma estrela cadente que a gente acha muito bonita mas, some de repente.

Quando vim para Natal, as duas vieram em minha bagagem sentimental e naquela tarde de chuva ficaram brincando com minha imaginação. Mesmo sem querer, senti “o gosto de jiló verdinho, plantado na lua nova do penar”, uma saudade boa danada.

O DIA EM QUE A TELEVISÃO DA SALA PIFOU

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Profa. Maria Cristina Pavarini de Lima*

Sabia que isso iria acontecer. A danada já estava avisando fazia dias. Os chiados eram cada vez mais altos todas as vezes que nós a ligávamos. Até que do nada, nada de som ou de imagem. Foi um caos. Assim que eu cheguei em casa, o meu filho mais velho veio correndo me avisar. A empregada largou as panelas e tascou logo a notícia. De noite foi a vez do filho mais novo.

- E ai, mãe. Viu que a televisão quebrou?

- Que maravilha eu pensei, justo agora que começou o BBB 2010. Isso vai ser um sossego, a paz irá reinar em casa. Nada daqueles indivíduos interferirem no dia-a-dia da minha casa. Muito bom. Bendita seja a televisão quebrada. Nem por isso, deixamos de saber sobre as principais ocorrências no mundo.

A rotina de casa mudou, completamente. Não preciso dizer que a mudança foi para melhor. Uma noite dessas nós três ficamos conversando até mais de meia noite, sobre coisas que nunca havíamos conversado antes. Imaginem que nos distraímos horas, olhando a gaiola das hamsters e nos divertindo com as peripécias das duas.

Resolvi até fazer uma alteração no leiaute das salas de visita e de jantar. As energias foram renovadas. Sabemos que existem pessoas dentro de casa com as quais podemos conversar. Começamos a perceber que existem outras coisas possíveis de serem realizadas, ao invés de sentar em frente à tela da televisão.

Nada de soar contraditório por eu ser da área de Comunicação Social. Mesmo que a televisão seja um meio de sobrevivência do comunicólogo, não significa que devemos aceitar o processo de intoxicação. Quem sabe, nos próximos dias, além das conversas não sobre tempo para uns joguinhos de tômbola, dama, dominó, etc. E se a energia elétrica acabar ai então talvez possamos contar uns “causos” à luz de vela, como nos tempos da vovó.

(*) Coordenadora do Curso de Publicidade e Propaganda/Fatern Gama Filho

O HOSPITAL E O OLHAR DA CRIANÇA

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por Anna Valeska Procópio*

O hospital configura-se como uma entidade que, culturalmente, representa sofrimento, dor, medo, angústia. O indivíduo ao necessitar dos cuidados hospitalares, se vê diante desse cenário socialmente construído desencadeando, muitas vezes, um pré-sofrimento de incertezas e inseguranças.

É comum que isto aconteça. As doenças a nível hospitalares traz, com ela, no mínimo, inquietações e cuidados diferenciados. Com maior razão explicam-se estes desconfortos psicológicos nas crianças submetidas a tratamentos hospitalares.

Nestas condições, é preciso identificar os fatores que direta ou indiretamente concorrem para desestabilizar as defesas psicológicas das crianças. Um deles resulta das vivências familiares. Na prática, percebe-se que a criança, na maioria dos casos, já vem ao hospital com uma percepção construída na família como frases do tipo: “Se não comer vai ficar doente”, “Se desobedecer vai para o hospital levar injeção”, entre outras ameaças.

Essas insinuações provavelmente não contribuem para uma compreensão razoável acerca das instituições hospitalares, atribuindo a eles uma postura de punição ou de castigo.

Independente dessas influências domésticas sobre o processo de hospitalização da criança deve-se considerar outros momentos de internações anteriores que podem trazer a lembrança de vivências antigas, de outras internações que marcaram o imaginário infantil.

É aconselhável, em ambas as hipóteses, que os pais realizem, sendo possível, visitas antecipadas ao hospital no intuito de obter informações necessárias a capacitá-los nas relações com seus filhos. Estas informações são uma ponte entre as instituições hospitalares e a família da criança gerando confiança e desinibições.

Não se pode negar que a estrutura institucional, bem como as relações existentes no que concerne a assistência à criança e à família, se revelam também como fatores prejudiciais ou não.

Dessa maneira, acredita-se que seja de fundamental importância que a criança possa estar “preparada” para a hospitalização e possa conhecer as causas de sua internação, que entendam os sintomas que vivencia; enfim, que participe ativamente do processo. Portanto, esse “preparo” precisa ser realizado pelos pais ou outros responsáveis, pessoas que representem segurança e seja significativas para o paciente infantil.

É essencial que a criança participe dessa preparação, isto é, que possa questionar e tirar dúvidas, que indique caminhos, que seja ouvida e compreendida em seus medos, fantasias e que possa, em seu nível de entendimento, reavaliar a situação.

Como destaca Crepaldi, entre outros autores, nesse momento a explicação não deve ser prolongada ou excessiva, rica em detalhes que talvez a criança nem vivencie. O excesso de informações pode aumentar a ansiedade e fantasias da criança.

É importante que eles saibam se existem espaços lúdicos como fatores de amenidades infantis. Esse conhecimento é indispensável para que possam, também, levar o brinquedo que tenha significado relevante para a criança.

Este trabalho tem amplitude bem maior que os limites familiares.

Os educadores são outros segmentos que podem ter participação ativa nessa preparação de suavizar a dor e os receios das crianças. Como? Inserindo em suas propostas curriculares informações e reflexões acerca do processo saúde/doença como meio de construção biopsicossocial do indivíduo.

Diante das informações não se pode deixar de citar os profissionais de saúde, como outros agentes indispensáveis na experiência hospitalar infantil. A formação acadêmica necessita rever seus postulados no que faz referência aos cuidados subjetivos à criança hospitalizada.

Assim, não se pode desprezar que as crianças são seres pensantes, inteligentes e vivenciam emocionalmente os episódios da vida. É necessário institucionalizar esses cuidados para efetivar o apoio pretendido. Desta forma, é preciso que a criança possa aceitar o hospital já que ela não pode, muitas vezes, compreender a sua dor.

(*) Psicóloga do Hospital Infantil Varela Santiago

A PONTE

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Por Stella Galvão

Foram anos de espera para realizar o sonho de ir àquele lado da cidade sem passar pelo sufoco diário do trânsito congestionado. Chegou a fazer uma pasta com o arquivo dos jornais sobre o passo a passo da obra. Cada atraso no cronograma era marcado em caneta vermelha e deixava em sobressalto aquela alma expectante. De tão ansioso, reunia a família aos domingos para uma sessão de contemplação nada etérea, ao contrário, bem concreta.

Cada viga, cada coluna de sustentação era diligentemente acompanhada e se somava às anotações já feitas.Este herói anônimo, fiscal de uma obra portentosa, levava essa missão tão a sério que saiu do emprego e virou autônomo para ter mais tempo livre.

Brigou com parentes que achavam aquilo um exagero, uma coisa despropositada, e agastou-se até mesmo com os operários a caminho do canteiro de obras. Os homens ouviam, incrédulos, aquela arenga toda e comentavam, às gargalhadas, a perda de juízo daquela criatura. A vizinhança da obra também estranhava a ronda diurna e noturna, desacostumada com aquele cuidado todo. Era um vigilante remunerado unicamente pela alegria de ver a estrutura avançar.

A polícia foi chamada no dia em que ele, não satisfeito em montar campana nas imediações do acesso à ponte, correu todos os riscos de acidente ao meter-se no coração da obra, enfronhado no meio dos trabalhadores. Foi flagrado com meia dúzia de ferramentas pesadas, se fazendo passar por um mestre de obras sem rumo nem tino. Na delegacia, fez discurso cobrando o prefeito, a governadora, o presidente. Se necessário iria à ONU conclamar pela aproximação de grupos populacionais apartados por um rio.

Exigia providências energéticas para cessar aquele atraso sem fim, para terminar com anos de apartheid social, os do Norte confinados e com um acesso restrito a uma velha ponte. Os do Sul arrotando arrogância e virando o rostinho empoado para os seus co-irmãos. Uma quase guerra da Secessão em pleno século XXI! Era o que se configurava para aquele homem com visão geopolítica regressiva. Chegou aos jornais, televisões e rádios. Não havia como detê-lo.

Cronogramas foram vencidos por aquela força hercúlea, forjada no aço da determinação pessoal. Uma coisa bonita de se ver. Passou a fazer palestras para orientar gente sem rumo a ter uma meta, um sonho, uma ambição. E a lutar tenazmente como ele fazia. E não é que chegou o dia da inauguração da ponte?

Como um noivo que espera pela amada, ele apresentou-se logo cedo no acesso do lado sul, cuidadosamente vestido e penteado. Desnecessário buscar um lugar no palanque: foi rapidamente conduzido até lá por políticos interessados em tirar uma casquinha da fama emergente do louco lúcido. Na hora de cortar a fita inaugural, a emoção era tamanha que ele não aguentou. Correu e saltou do ponto mais alto, reaparecendo nas águas turvas do encontro rio-mar. O feito, naturalmente improvável, eclipsou todos os discursos e consagrou uma nova e emergente liderança.

UM DETETIVE À FRANCESA

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza

Que me perdoem os fãs de Edgar Allan Poe (1809-1849) e de seu detetive Auguste Dupin, mas, para mim, o detetive mais “à francesa” que a ficção policial já produziu foi o inconfundível Comissário Jules Maigret, pela pena do escritor belga (nascido em Liège e de língua francesa) Georges Simenon (1903-1989).

Reconheço, claro, a vanguardia e a engenhosa capacidade de desvendar crimes e mistérios do protagonista de “The Murders in the Rue Morgue”, “The Purloined Letter” e “The Mystery of Marie Roget”. Mas cheguei a essa conclusão ao assistir, durante este mês de fevereiro (e mesmo no carnaval, quando do necessário descanso da folia), no canal de TV por assinatura Eurochannel, a alguns filmes (especialmente produzidos para a televisão) em homenagem à personagem criada por Simenon, com o ator Bruno Crémer (1929-) no papel principal. Aliás, merece especial registro a interpretação de Bruno Crémer, realçando com perfeição as peculiaridades de Maigret, seu jeito ao mesmo tempo taciturno e compreensivo, sua empatia pelo ser humano (até os mais bizarros tipos) e sua queda pelo cachimbo.

Georges Simenon e o Comissário Maigret são, de fato, personalidades interessantíssimas. Simenon, primeiro de tudo, foi um escritor de uma fecundidade ímpar, publicando centenas de romances/novelas, utilizando inúmeros pseudônimos ou com seu nome verdadeiro. Com certeza, está entre os cinco escritores de língua francesa mais traduzidos no mundo todo. Boêmio, de vida faustosa, foi tido por uns como colaborador dos nazistas quando da ocupação alemã em França, na Segunda Guerra Mundial. Para outros, era um aproveitador ou mesmo um indiferente, que nunca denunciou ninguém, mas também nunca se engajou na resistência.

De todas as criações de Simenon, foi o Comissário Maigret, sem dúvida, a personagem que o consagrou. Foram, no total, 103 “Maigrets”, sendo 75 romances/novelas e 28 contos, iniciando-se a longa série com “Maigret Pietr-le-Letton”, em 1931, para terminar com “Maigret et Monsieur Charles”, em 1972. É dito que Simenon não estudava os procedimentos da polícia judiciária francesa para os seus Maigrets, muito embora tivesse certa experiência nesse campo, pois trabalhou como repórter forense na juventude.

Sua abordagem é essencialmente literária, com Maigret absorvendo a atmosfera do local do crime, as peculiaridades das condutas dos envolvidos e buscando entender a psicologia dos suspeitos e criminosos. Maigret - definido pelo seu criador como um homem grande, que come e bebe muito e segue seus suspeitos pacientemente - é um detetive com um senso de justiça peculiar, eventualmente encobrindo a verdade. Maigret é um herói definitivamente humano, para quem, às vezes, não há culpados nem inocentes, apenas culpas a serem expiadas.

O fato é que Simenon foi um conhecedor da vida, em especial da vida parisiense (embora alguns dos seus melhores enredos se passem na província), com seus cafés, brasseries, bistrôs e comércios menos recomendáveis, já que também amante de mulheres de vida mais fácil ou difícil. Era aí onde ele encontrava suas personagens, sejam elas respeitáveis damas da sociedade ou mesmo a gente pobre da rua. Segundo um livro extremamente interessante, “Writes in Paris” (Counterpoint/Berkeley, 2008), de David Burke, que explora a Paris habitada pelas mais diversas personalidades literárias, são 77 os títulos protagonizados por Maigret ambientados em Paris. Simenon é, assim, um dos grandes exploradores da Cidade Luz. De Montmartre a Montparnasse, das residências burguesas aos subúrbios da classe trabalhadora, poucas esquinas de Paris não foram objeto do escrutínio de seu Maigret.

Para aqueles ligados ao direito e amantes de Paris, há, por fim, uma curiosidade especial. É numa das alas do Palais de Justice, em Paris, precisamente no número 36 do Quai des Orfèvres, que está o quartel-general da Polícia Judiciária do inspetor Maigret, “la mansion”, como chama a personagem. Uma placa ali apostada, aliás, reconhece a fama que o detetive de Simenon trouxe para o endereço, fama essa que, de tão sedimentada no imaginário dos leitores, a ele faz com que sejam endereçadas muitas correspondências cujo destinatário não é outro senão o Comissário Maigret.

Em tempos como os nossos, em que viajar de avião, mesmo para o exterior, se tornou mais barato, será que não a vale pena ir a Paris e pagar uma visita ao local? Para visitar o Palais de Justice - um dos mais belos edifícios de Paris, com sua linda fachada e o seu Salão dos Passos Perdidos (Salle des Pas Perdus) - certamente que sim. Penso que também ao número 36 do Quai des Orfèvres, em seguida. Afinal, quem sabe, não esbarramos com o Comissário Maigret por ali?

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

CARNAVAL OU FUTEBOL?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Por Francisco Miguel de Moura*

Meu ópio é a literatura. Mas, falemos agora de outros. No sábado passado não saiu meu artigo, neste jornal. Atribuo a que a pauta estivesse cheia de comentários sobre o Carnaval e a minha crônica referia outro assunto. Não importa que este meu escrito venha a ser publicado depois da festa mais popular do Brasil – quando se estabelece um novo Reinado, o do Rei Momo. E todo mundo cai na folia. Afinal de contas, ninguém é de ferro para trabalhar o ano inteiro e não ter nem isto: 3 dias de Carnaval.

Sou mais cronista que articulista, e não apenas para elogiar ou criticar. Tenho vários tipos de leitores. Observando bem, digo que o ano do Brasil só começa depois da Semana Santa. Por quê? Ora…

Janeiro é o rescaldo do Natal, e ainda estamos na Festa da Confraternização Universal (Festa de Ano Novo). Depois vêm as Festas de Reis com suas lapinhas e reisados onde ainda existem e noutros lugares com o bumba-meu-boi, tudo confirmando a religiosidade do povo brasileiro. Fevereiro já é o mês do Carnaval. E ai de quem dele não gostar! Vai mofar sentado num sofá, vendo-o pela televisão (pois não há outros programas) ou sai para ver os blocos que passam na rua, os carros de som que estouram nossos ouvidos e outras coisas do tipo.

Sem tevê, temos o rádio, quase igual à tevê.

Há lugares, hoje, onde o Carnaval continua quase o ano inteiro com nomes derivados do estado ou da cidade. E a música popular faz sua festa, claro. Pois Carnaval sem música não existe. Março! Bem, aí chega a Semana Santa, lá vem o sentimento religioso tomar conta de todas as ações do povo e do não-povo.

Depois disto, tome futebol o ano inteiro. Tem gente que torce por uma porrada de times: um em São Paulo, outro no Rio, mais outro do seu estado, e até do seu município onde nasceu ou mora. Já existem animados campeonatos municipais. Mas, como a maioria dos intelectuais, eu não gosto de futebol, e não vou dizer que gosto somente para agradar essa maioria que não lê, não escreve, não sabe o que é arte, nem mesmo no futebol. Quando o futebol é arte todo artista ou amante da boa arte gosta. Aos jogos decisivos de grandes campeonatos, muitos assistem: Copa do Mundo e Campeonato Brasileiro, etc. Mas assistir a toda partidazinha de pé-de-poeira de todo interiorzinho já chega a ser tolice.

E a gente tem que gostar de Carnaval ou de Futebol?

Não sei, acho que não. Que me lembre, quando era jovem, na cidade de Picos, brinquei, no Clube, uns três carnavais: No primeiro, peguei um fora de uma mocinha, irmã de minha colega. Esta colega bem que queria namorar comigo, mas eu teimava. Só queria a irmã mais nova. No segundo, tinha namorada. No último, já era casado recente. Se brinquei outros Carnavais “seriamente” não me lembro. Sei que naqueles tempos a gente ainda usava o tal “lança-perfume”, droga ainda não proibida. Assim, não posso dizer que gosto de Carnaval. Mas, num passado já bem distante, me perguntaram:

– De que você mais gosta, de Futebol ou Carnaval?

E eu, pensando acertadamente, respondi:

– Muito fácil! Carnaval só são três dias e Futebol é o ano inteiro.

Claro que ainda optaria pelo Carnaval. Mas, já começo a viver noutro mundo. Já existem carnavais quase o ano inteiro, no Brasil! Arre! Assim já não é divertimento, é trabalho.

(*) Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras (APL) e da Associação Internacional de Escritores (IWA-sigla em inglês), Toledo, OH, Estados Unidos

SOBRE CARNAVAL

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Por André Giusti, escritor

Na sexta-feira, na hora do almoço, o pai veio com a notícia: teria que passar o sábado e o domingo em Volta Redonda. É que surgira um entrevero entre a empresa em que trabalhava e a Companhia Siderúrgia Nacional, a poderosa CSN, àquela época ainda estatal. O patrão nem quis discutir se era carnaval. Vá lá, veja do que se trata e só volte quando tudo estiver resolvido.

O menino, decepcionado, olhou os olhos baixos da mãe, que foram parar no chão igualmente desencantados. Haviam programado um passeio, zoológico, Quinta da Boa Vista, pelo que parecia.

Logo em seguida, o rosto do pai clareou-se em idéia de conforto.

Por que não vamos todos? Mal ou bem, dá-se um passeio.

Daquela proposta à manhã de sábado, tudo o mais se apagou da memória do menino. Desde lá, só se lembra do dia muito azul, e bem cedo todos já de pé: o pai, a mãe e ele, indócil,  como bem sabem ser as crianças perante as novidades. Deveria ser lá pela metade dos anos 70, nem bem tinha sete anos, pelo que pode recordar.

E agora, o baile do nosso querido folião!

E os pais, quase em coro, apontaram-lhe o fusca laranja, tirado semanas antes da concessionária, todo decorado de serpentina e confete. Nas mãos do pai, um colorido e sonoro reco-reco, roubando o silêncio da manhã que o sol do verão começava a esquentar. A mãe lhe entregou um pacotinho de confete, e girou com ele no colo, cantando mansamente em seus ouvidos:

“Ó, mas quanto riso!

Ó, quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão…”

A memória corta a cena já para a estrada. Ele segura forte um rolinho de serpentina, de onde sobra um pedaço desenrolado, quase se desprendendo enlouquecido pelo vento que entra forte pela janela do pai. Junto, vem um cheiro de eucalipto perfumar a liberdade da estrada. No rádio, ouvem um especial sobre antigas marchinhas de carnaval.

“Ó, mas quanto riso!

Ó, quanta alegria…”

É a que toca lá pelas tantas, e a mãe arregala os olhos num tipo de espanto feliz. Emenda a letra, pega-lhe os dedos, e mesmo no carro em velocidade imita movimentos de um salão de baile.

Agora, no quarto escuro, no limiar abafado da quarta-feira de cinzas, uma brisa de momento traz alívio apressado para o calor da noite. Não tem a força do vento da janela do fusca, não cheira a eucalipto de estrada, mas carrega saudade maior que a distância do passado.

ANTIGO AMOR DE CARNAVAL

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza

“Mas que direito que nada!”, gritei para mim mesmo, já à noitinha, quando resolvi escrever esta crônica. Já era quase carnaval e não deveria perder meu tempo com assunto tão enfadonho. Nesses momentos, melhor é seguir a sábia lição de Ascenso Ferreira: hora de vadiar, vadiar; hora de “trabalhar”, se já é quase carnaval, “pernas pro ar que ninguém é de ferro!”.

“Está decidido”, confabulei, “vou escrever sobre o carnaval”. É assunto suave, lúdico e interessa a todos. Quem não tem um carnaval guardado na memória? Ou mesmo, ainda folião, não sonha com outros carnavais? E, nos dias de hoje, pelo que leio nos jornais da terrinha, o carnaval já é assunto de segurança municipal e, quem sabe, ano de eleição, não virará tema de segurança nacional ou até multinacional. “Poderei eu dar à minha crônica qualquer viés, tratando ou não das relevantíssimas questões jurídico-momescas, a depender do que me der na telha”, sussurrei para mim mesmo.

“Mas qual seria esse viés?”, ainda matutava. Foi aí que o “destino” pregou uma peça e dirigiu, sem eu querer, a tônica desta crônica. O fato é que, antes de traçar estas primeiras linhas, divagando, danei-me a assistir, via YouTube, a uns vídeos de poemas declamados. De declamação em declamação, eis que esbarro com “Meus oito anos”, com Casimiro de Abreu “à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”.

O “destino”, assim, fez-me um saudosista. É verdade que um cronista saudoso é sempre um perigo. Às vezes se revela uma figura triste e, não fosse carnaval, poderia eu ter escrito uma dolorosa crônica nessa noite. Mas não foi o caso. Recordei, sim, com imenso deleite, meus primeiros carnavais. Tempos ditosos dos carnavais da velha Redinha, onde todos se conheciam e que, se é verdade, “os anos não trazem mais”, nem por isso deixaram de ser tempos ditosos, cujas lembranças eu carrego ainda guardadas na algibeira.

Daqueles carnavais, não vou esquecer um em particular. O ano, passadas tantas folias, já não sei precisar. Suas muitas personagens, seus pierrôs e suas colombinas, seus rostos e seus cheiros, prefiro não nominar, uma vez já experimentados e misturados tantos perfumes. Mas isso não importa. Verdadeiramente importa, daquele carnaval, um único cheiro, que jamais esqueci. Meu amor de carnaval, ela tinha os olhos de um azul tão calmo e tão tempestuoso como o azul do mar. Aquela criatura, adorei-a, extasiado, como santa e pecadora (mas que amor carnal não é santo e pecador?). Para mim, ainda e já não mais menino, ela foi, ao mesmo tempo, a calmaria e a tempestade do meu carnaval.

Em momentos de calmaria, dávamos as mãos e íamos, sem rumo, só os dois. Aquele seu olhar já preenchia meu coração. Corremos pela praia e tomamos banho de mar. Construímos nossos castelos (de areia). E rimos, de modo tão natural, que se ouvia de longe. Ali, éramos, sobretudo, crianças felizes. Na tempestade da folia (e dela), bebemos, brigamos e amamos. Brindamos à alegria e à juventude pelas ruas daquela outra Redinha, nas marchas e contramarchas da sua banda e do nosso bloco, do querido Pé-do-Gavião às dunas do Portal. E à noite, já cansada, ela sempre adormecia em meus braços.

Mas ao passar a tempestade de folia, eis que veio uma diferente calmaria. E ela me disse, ao fim dos quatro dias, em tom de despedida, com uma calma que me marcou mais que qualquer de suas “tempestades”: “Nos encontraremos sempre na Redinha, no carnaval, se o carnaval daqui prometer ser bom. Eu juro”. O carnaval da Redinha nunca mais prometeu nem foi bom. Mesmo assim, ainda voltei ali em algumas folias, para, perdido e sabendo que já não seríamos mais os mesmos, procurar em vão pelo perfume do meu amor de carnaval.

Como já disse, um cronista saudoso é sempre um perigo. Se não se mostra inteiramente triste, ele guarda um quê de ranzinzisse e tem sempre algo para reclamar, como outrora o fez o outro Drummond, na busca por sua eterna e tempestuosa Hilda. Esse é o meu caso, acredito, justificadamente.

E assim exijo, pelo amor de Deus e do Diabo, dos foliões e folionas, autoridades municipais, estaduais, nacionais e até multinacionais: revitalizem o carnaval da Redinha. Se não por outro motivo, pelo menos para que eu possa, egoisticamente, reencontrar o meu amor de carnaval.

Marcelo Alves Dias de Souza é
Procurador da República,
Mestre em Direito pela PUC/SP e
Doutorando pelo King’s College London - KCL

FOLIA DE REIS

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por Stella Galvão

Mesmo diante do silêncio sepulcral dos homens do ramo privado, uns filhos do inominável, os blocos ganhariam as ruas natalenses, uma sequência de papangus em ano especialmente inspirado. Dali a alguns meses estariam todos em volta do pote de mel, ávidos por se besuntarem à farta.

Eram cinco blocos aguardados com impaciência pela cidade que amava folias dos reizinhos que ali imperavam. Havia o do boneco, marionete do primeiro quilate, louco para assomar na avenida com a opulência da sua crista livre de pelos. Era árdua a tarefa desse vivente amedrontador: achar no meio da folia quem lhe fizesse a corte, que aceitava romper com ele a aurora da bunfunfa federal, mesmo estando essa criatura fadada a ficar pelo caminho, deposto, pálida imagem do sombra defenestrado.

O boneco não perdia por esperar. Ao cair da noite do sábado de carnaval, se via ao longe uma bateção de asas sem fim. Era um séquito de libélulas, todas exageradamente enfeitadas para disfarçar a ausência de substância. De tão ocas e inexpressivas, mal cabiam nas vestes aéreas improvisadas.

Foram elas as mais ferozes defensoras da folia mesmo porque não tinham mais para onde correr. Sem um pau nem para ameaçar o mais tosco gato, esse bando só dava voltas e giros sem fim, cansando até o mais contentinho e desapegado dos foliões. Traziam ao fim do cortejo o número cabalístico da cifra que lançaram mão para duas folias, a popular e a restrita aos tubarões, estes inimigos mortais das piabinhas, tão simplesinhas e úteis.

Esses dois não contavam com a entrada do papangu-dama, este já mais alquebrado pela ação do tempo e pelas investidas cada vez mais torpes e lamentavelmente policiadas à sala do troféu. Esse papangu fazia o diabo para levar a melhor. Desde que tinha criado uma crista solene que rivalizava com extensões dignas de um mamífero doméstico, só queria saber do ganha-ganha.

Deixava adversários a morderem-se de raiva com os estratagemas que usava, mas, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, neste carnaval ele poderia dançar bonito, implorando ao público por uns caraminguás para seus deserdados, pobres inúteis sem meio de vida.

O quarto grupo era formado por papangus muito ciosos do bom gosto e da graciosidade de suas lantejoulas. Enfileiravam-se entre as coisas da cultura, com um monte de signos e significações, nada mais que mesuras para tentar levar os Zés no bico. Mas era só serem apertados no meio da avenida que lançavam toda sorte de imprecações, com direito a mencionar práticas escatológicas triviais. Que se danasse a festa, a alegria, a livre explosão das pulsões controladas dia a dia, semana a semana. Era uma papanguzada só.

Finalmente, havia uma meia dúzia de galinhos e pintos meio engaiolados, mantidos à base de ração e língua controlada. Tudo o que eles desejavam era juntar-se ao cortejo, contentes e concordantes. Era purpurina demais pra tanto papangu de meia pataca e brilho inigualável entre iguais.

PREFEITURA OMITE PATERNIDADE

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado

Ao ler o ‘Anuário Natal 2009’, editado pela Prefeitura do Natal, constatei uma lamentável omissão em suas páginas 58 e 61, pelo menos, pela não colocação da paternidade das obras do Machadão e Machadinho, tão visíveis aos olhos de todos e, em especial dos turistas, as quais fazerem parte da propaganda governamental e das empresas de promoções para atrair o público para Natal.

Pois bem, procuro aqui fazer a reparação dando conta que tais obras foram projetadas pelo arquiteto potiguar Moacyr Gomes da Costa, cuja cronologia foi assim referida por José Alexandre Garcia, segundo e-mail divulgado na internet, sob o título Breve histórico do Machadão, aqui reproduzido em alguns trechos:

“No final do seu governo, Dinarte Mariz - como todo político que está em campanha - chamava as diversas entidades classistas para perguntar quais eram as necessidades de cada uma. E procurava atendê-las, contanto que seus dirigentes se comprometessem a apoiá-lo. Quando ele reuniu os desportistas para saber quais eram as nossas reivindicações, nós respondemos: ‘Governador, nós queremos um estádio’. Ele então se comprometeu: ‘Eu prometo a vocês fazer um estádio…’ Foi quando escolhemos este terreno onde hoje é o Castelão. [atual Machadão].

“Nossa comissão era composta por Salatiel Silva, então presidente da Federação, Aluísio Menezes, eu, Antônio Soares Filho, João Machado e Moacyr Gomes da Costa. [responsável pelo projeto arquitetônico] …Conseguimos aquele terreno mandando Moacyr Gomes ao Rio de Janeiro conversar com o velho Saturnino de Brito, que era então o dono da Companhia de Saneamento de Natal, a quem pertencia o terreno. O Estado se propunha a permuta de terrenos com a Companhia, com aquele, mas a direção local era contra.

“Saturnino encantou-se com Moacyr e reviu nele o Saturnino de Brito da juventude. Graças a isso, conseguimos sua concordância e o terreno foi doado a Federação. Dinarte Mariz fez a doação do terreno à então Federação Norte-rio-grandense de Desportos. Depois de Dinarte, nós tivemos a figura de Djalma Maranhão, que tinha em seus planos à frente da Prefeitura de Natal, construir o estádio. Mas só na gestão de Agnelo Alves foi que se partiu objetivamente para realizar a obra. Foi então criada a FENAT (Fundação de Esportes de Natal), que encontrou o terreno parcialmente cercado por Djalma Maranhão, que também tinha mandado construir umas salas que serviram como canteiro de obras. [Ali Moacyr montou o seu escritório].

“Assim, devemos a construção principalmente a Agnelo Alves, que era o prefeito; a Ernani Silveira, que foi o primeiro presidente da FENAT; e, posteriormente, ao prefeito Ubiratan Galvão. Na fase de Agnelo, nós construímos as gerais e as intermediárias, em regime de administração direta.

“Eu, como diretor-adiministrativo, Ernani como presidente da FENAT, Rossini Azevedo como diretor-financeiro, fizemos um pacto pelo qual nenhum documento referente a despesas deixaria de passar sem a assinatura dos três. Levamos muitas cantadas, mas nenhum de nós cedeu. É tanto que, quando Agnelo foi cassado e foi criada a comissão de inquérito sobre o Castelão, a própria comissão reconheceu a lisura com que a FENAT trabalhou.

“O estádio acabou sendo inaugurado pelo governador Cortez Pereira que também era um entusiasta da obra [chegou a denominá-la ‘Poema de Concreto’, confirmado pelo consagrado colunista João Saldanha no Globo do Rio de Janeiro, quando qualificou o nosso estádio como o mais bonito, e de melhor concepção arquitetônica do Brasil, no momento em que aqui se realizava um torneio internacional do nível de uma Copa do Mundo: “Copa do Sesquicentenário da República], e pelo prefeito Jorge Ivan, mas, sem dúvida, o grande trabalho foi de Agnelo Alves e de Ubiratan Galvão.”

Em tempo: as referências entre colchetes não são do original.

A Omissão de Paternidade cometida pela Prefeitura contraria o que diz o Titulo III – Direitos do Autor, da Lei Nº 9.610/98, além de agredir o bom senso, e faltar com o devido respeito ao povo de Natal que consagrou o Machadão e sua área de influência, por eleição espontânea, independente de “tombamento” formal, constituído hoje em patrimônio histórico, cultural, arquitetônico e esportivo de nossa sociedade, sendo ainda o “palco” onde a multidão humilde extravasa suas emoções.

Seria correto que a Prefeitura desse uma nota a respeito dessa omissão, pois poderá parecer que, além de pretender a sinistra demolição dessas obras da cidade, também procura apagar o nome de Moacyr da história. Esquecimento ou propósito?

OS BLOCOS DA SAUDADE

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Deliciosos da Folia se destacaram no carnaval de 1958

Deliciosos da Folia se destacaram no carnaval de 1958

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado

De repente, não mais que de repente, ressoam entre os devaneios de um setentão, os ecos de saudade dos velhos carnavais. Resolvi romancear alguma coisa sobre o tema e vieram à minha mente, tal qual a marcha-rancho do maestro Nelson Ferreira, nomes e fatos. Clementino Câmara puxava o bloco Geringonça do Nordeste, com a observação dos geniais Edgar Barbosa e Luís Soares. Bem perto passavam as troças ‘lambecu’ e ‘aparapeido’, liderada pelo menino Geraldo Queiroz.

Nesse encontro momesco estava também Tarcísio Gurgel com o estandarte da Escola de Samba “Belle Époque na esquina”, trazendo as cantigas mais antigas do nosso interland que certamente desfilaria pela Junqueira Aires, saudado por Cascudinho, D. Dhália e a menina Anna Maria.

Os meninos de Seu Sinzenando, Carlos e Fred com improvisação de tambores feitos de lata, corriam pegando morcego nos bondes da Cia. Força e Luz em busca de chegarem em tempo para o enduro do Hippie Drive-In.

Djalma Maranhão e D. Dária: folia do poder

Djalma Maranhão e D. Dária: folia do poder

Num botequim do Beco da Lama estavam Guga e Bob Mota cantando as sacanagens compostas para o carnaval, que não esqueciam a cueca e a meia recheadas de dinheiro e as propinas do Arruda, as borboletas, os tucanos, as araras e os bacuraus, algumas da autoria de Dozinho.

Enquanto isso eu me preparava para sair no desfile do bloco Deliciosos da Folia para uma acirrada disputa com os rivais Azes do Ritmo e Imperadores do Samba. Certamente vamos ganhar, pois nosso comando está com Odeman e temos em nosso elenco Natal, Lelé e seu trombone, Múcio Mago, Petit, Picado e tantos outros grandes foliões. Só rendíamos homenagem ao incrível `Aí Vem a Marinha’.

O Aero Clube e o América estão ornamentados para os seus bailes e as fantasias estão sendo preparadas com esmero pelas meninas da cidade. Também o Alecrim Clube promete.

A briga é pela compra de lanças-perfume Rhodo e Rhodouro, que não chegam para quem quer, embora sobrem confetes e serpentinas.

A orquestra de Jonatas Albuquerque está com a corda toda, se preparando para tocar na Assen.

Djalma Maranhão, com Luizinho Doublecheque já estão concentrados na Cisne para começarem os trabalhos, aguardando apenas o Paulo Maux que ainda não terminou a sua fantasia, pois passarão em várias tribos de índios.

Paulo Maux e sua partner: reinado absoluto

Paulo Maux e sua partner: reinado absoluto

Os blocos já programaram os seus “assaltos” às casas mais abastadas de Natal, havendo ameaças de visitar também D. Maria Barros.

As famílias se organizam para o `corso´ na Deodoro e a multidão procura um lugar nas calçadas para brindar a alegria de Momo. No rádio, D. Helder afirma que carnaval é alegria e o cristão pode brincar sem excessos.

Todos têm a esperança de mais um período de alegria, em segurança e cordialidade como sempre tem acontecido até que a quarta-feira de cinzas amanhece e o carnaval todo mundo esquece entre os confetes e serpentinas pelo chão. Nos repiques dos sinos das igrejas – começa um outro tempo – a quaresma.

CARTAS DE COTOVELO [Final]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

 

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado/veranista

 

Alguém já disse que em todo findar existe um amanhecer. Terminou o veraneio em Cotovelo, para mim. Amanhã já assumo as minhas tarefas citadinas, deixando para trás o tempo de devaneio.

 Foi uma jornada de quase 30 dias, cinco visitas a prontos-socorros com pessoas da família, um curto-circuito que inutilizou meu velho televisor e alguns outros aparelhos elétricos, uma visita “do amigo do alheio”, sem sucesso, um armador quebrado com queda da rede de um filho, muito abuso de som, em particular com os excessos do Circo da Folia, cujos decibéis devem incomodar até os defuntos, sem qualquer alento das autoridades constituídas ou mínimo respeito ao próximo.

No entanto, igualmente, de muitas caminhadas, visitas de pessoas e dos passarinhos (nos despertavam todas as manhãs - em especial a fidelidade de um beija-flor), jogos, boas conversas, leitura de livros e revistas e o deleite de um mar infinito aberto para limpar as mazelas do corpo e da alma, com suas águas `calientes’. 

“Noves fora os percalços referidos”, no mais tudo correu bem e deixou algumas saudades. É hora da partida, antes do findar deste domingo e o coração bate mais forte, não sei se a indicar um até o próximo veraneio ou mesmo um adeus – nunca se sabe o tempo de Deus. Afinal, a simplicidade da praia e o seu silêncio de outrora foram sufocados por alguns forasteiros com pouca educação, e já cativa menos.

Agradeço as homenagens recebidas dos amigos, a receptividade das minhas Cartas de Cotovelo pelos “blogueiros” Lívio de Oliveira, Franklin Jorge, Lúcia Helena, Dumaresq do blog da UBE/RN; dos e-mail’s, telefonemas ou comentários pessoais; aos leitores que fizeram críticas (todas favoráveis) nos próprios blogs; por fim, aos amigos do Jornal de Hoje, que publicaram algumas das minhas crônicas.

Agradeço, ainda, às visitas dos parentes e amigos, a assistência do meu caseiro João Batista, os pães de D. Léa e as tapiocas de D. Helena, das auxiliares domésticas Iara, Leninha e Luciana, a presença dos filhos, netos, noras e genro e demais parentes e esquecer alguns poucos desencontros.

Registro, por fim, os momentos de solidariedade cristã proporcionada por D. Luiza e Seu Soares, velhos moradores da Rua Parnaíba, 486, vizinhos de Pandofe e Zé Correia, na sua capelinha do “Imaculado Coração de Maria” e da festa que carinhosamente prepararam em homenagem à Nossa Senhora da Conceição com o comparecimento de veranistas e moradores de Cotovelo e Pium e o apoio total da Paróquia da região, que conduziu as suas celebrações com extrema competência, encerrando o tríduo de 28 a 30 com procissão e missa. A festa contou com uma banda de música, leilão, sorteios, comida e música.

Até breve, um abraço para todos, aleluia…oberê, obará…

(31/01/2010)

CARTAS DE COTOVELO [8]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

  

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado/veranista

 

A nossa casa de praia teve a alegria de receber uma visita querida, que nos levou a um passado marcante dos anos 50, quando éramos, ainda adolescente. Refiro-me a Edílson Avelino dos Santos (Didi Avelino), irmão de Edmilson, que foi comigo e Odúlio Botelho – os meninos prodígio da Rádio Poti de Natal. Em verdade, no tempo em que freqüentamos a casa de Seu Chico Avelino, ali pertinho da Maternidade Januário Cicco, Didi era uma criança.

A sua descoberta aconteceu no ano passado, quando navegava pela internet em busca de alguma informação sobre Edmilson, já falecido, para complementação de parte do livro que estou escrevendo sobre meu tempo de radialista e, fui surpreendido com uma entrevista dada por Didi a um blog, quanto descobri ser ele um artista consagrado no Rio de Janeiro, onde dizia que o seu irmão mais velho Edmilson, fora um artista mirim em Natal e até gravara um disco.

Entrei em contato com ele e daí por diante estreitamos nossa amizade, solidificada com sua vinda a Natal, passando por São José de Mipibú, cidades onde possue familiares e proporcionando a gravação de um programa na TVU conduzido pelo seu primo Tarcísio Gurgel - “Memória Viva” exibido no dia 24 de dezembro passado, contando, além de mim, com a participação de Domílson Damásio e dos músicos Gustavo Medeiros (cavaquinho), Francie (violão de 7 cordas) e Deo do pandeiro. A cada intervalo a equipe técnica vibrava, pois nunca o programa havia sido gravado nesse formatação, com apresentação de músicas.

Didi Avelino integra hoje o ‘Grupo Retrô’ do Rio de Janeiro, onde reside, especializado na difusão da música popular brasileira de raiz, possuidor de invulgar simpatia e de uma voz que lhe rendeu ser conhecido como  o “voz de veludo”.

Eu e minha família o recebemos em Natal, como também ao meu colega de turma Antônio Edvaldo de Araújo, residente, também, no Rio, a escritora Leide Câmara, Domilson e Iara, que trouxeram Gustavo Medeiros e Deo do pandeiro. Rolou muita música da legítima MPB, tangos e canções interpretadas por Didi, por mim, Iara, dando um show especial e os meus irmãos Moacyr e Zezinho, também amantes da música. Diga aí uma coisa não programada que deu certo!

Naquela ensolarada tarde de Cotovelo, a par das despedidas, renovamos a nossa amizade e aos seus familiares, em especial aos sobrinhos Nílton Avelino, artista plástico, filho de Edmilsa, Hudson e D. Núbia, mas já acertamos novo encontro no final do ano, desta feita tudo programado, quando teremos tempo de ampliar o elenco de amigos-artistas, como Guaracy Picado, Odúlio Botelho, Liz Nôga, Airton Ramalho, Roberto Ney e outros que certamente nos lembraremos, resgatando o passado e comemorando o presente.

(25/01/2010)