Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
Apesar das penúrias do corpo o velho ri, alegre, triunfante, porque superou os obstáculos e chegou aos oitenta anos. Oitenta janeiros, reitera festivamente, mostrando os dentes álveos. Oitenta janeiros… Não é todo mundo que alcança essa graça, diz, sentado na beira da rede armada no meio da sala desprovida de móveis. Apenas alguns tamboretes, cangalhas e arreios encostados a um canto da parede de onde pendem litogravuras já um tanto esmaecidas representando o Coração de Jesus e o Coração de Maria ladeadas por um grande rosário.
Tinha dez anos em 1910 quando seus pais deixaram a fazenda Pocinhas e se mudaram para uma encruzilhada entre dois rios, a meio caminho da várzea e dos tabuleiros, recorda.
Reside há muitos anos em companhia de uma filha, Albertina, que não se casou e agora se dedica exclusivamente a cuidar de sua saúde e do seu bem-estar.
Há muitos anos viúvo de dona Olívia, mestra obstinada que no Estevão desasnou com abnegação e paciência três ou quatro gerações, ensinando-lhes a carta de ABC e as primeiras noções de português e aritmética, tornou-se famosa por fomentar e promover pontualmente desfiles cívicos, quando botava todo mundo para marchar por essas estradas cheias de pó.
Se conheci Bibi? E como a conheci! Desde que me entendi de gente na várzea do Açu, conheci Bibi. Sempre bem arrumada e empoada, cheirando a loção. Não dispensava os seus brincos e trancelim de ouro em volta do pescoço. O cabelo enroladinho como bosta de cabra… Era gente do velho João Feitor, filho do velho Maneo Feitor, uma tribo de negros que viviam nas terras do velho Lulu, pai de Cazuzô.
Entre os antepassados dela havia um Maneo José Novo, para diferenciar de Maneo José Velho, que tinha a fama de adivinhão. Ah, como os conheci! Como os conheci! Pois veja só a astúcia desse negro, Maneo José Velho. Quando alguém lhe perguntava se ia chover, ele respondia invariavelmente dessa forma, Hoje chove ou não chove… Sim, essa era a sua eterna ladainha. Hoje chove ou não chove… O certo é que ele sempre acertava no seu palpite, pois afinal chovia ou não chovia. Mesmo assim, sempre havia alguém para gabar o negro e reconhecer o acerto de suas previsões. Ouvi muito o povo dizer, o Velho tinha razão…
Bibi era muito cavaquista e se arreliava com tudo. Era muito geniosa. Segurava uma pendenga danada com qualquer um que a provocasse, e não se cansava. Levava tudo a sério, sem discernir que as pessoas só queriam brincar com ela, ao provocá-la daquele maneira… Negra retinta, tinha o lábio inferior um tanto despencado que lhe dava a parecença de um peixe sonâmbulo dentro de um aquário. Se bem que nunca vi um aquário.
Acabou esclerosada, jogando dentro dos potes toda porcaria que encontrava. Todo doido tem sua mania, não é mesmo? Por que Bibi haveria de ser diferente? Ela tinha uma risada que era só dela. Mas não pense que ela ria muito não. Era uma mulher calada, que vivia pensando o dia inteiro, mormente quando não tinha nada para fazer. Ficava sentada num tamborete durante horas, sozinha, pensando. No fim, falava numa língua que ninguém entendia.
O velho ri gostosamente, lembrando-se de Bibi do Velho João Feitor. Noto que tem uma boa dentadura, de dentes brancos esfregados todos os dias com casca de juá. Nem mesmo os jovens que vivem nos matos têm uma dentadura assim, gaba-se, sem economizar no riso. Porém a vista é que não é boa. A vista é que não é boa, mas, que fazer?
Seu Chico não é como outros velhos que sentem uma nostalgia inenarrável do passado. Para ele, tempo bom é o presente.
Antigamente havia muitas coisas boas, mas ninguém queira que o passado volte. Tudo o que vive anda para frente, a não ser caranguejo que anda para trás, segundo sempre ouvi da boca de muita gente. Porém não posso jurar sobre isto porque estou nessa idade e nunca vi um caranguejo. Só dou minha opinião sobre o que conheço. Nunca vi o mar…
Cercado de netos, o velho observa a vida através duns óculos de lentes espessas e embaçadas pela abundante transpiração. A vida, àquela hora no Panom, está mergulhada no calor comatoso do meio-dia. O cabelo rebelde lhe dá uma aparência de menino vivaz.
Alcancei a casa do meu avô com jiraus cheios de queijos que sobravam de um ano para o outro, pois não havia fome suficiente para dar cabo de tanta fartura. Ah, pode escrever. Naquele tempo não havia fome que desse baixa em tanta fartura. Quase tudo era produzido em casa: a carne, o queijo, a manteiga, a farinha, o fubá, o mel, a banha… Mas, apesar de tudo, as casas eram cobertas de palha e as mulheres, por mais ricas que fossem, pariam sobre camas feitas de talos de carnaubeira.
Agora aqui todo mundo tem colchão de mola e luz elétrica; quase toda casa é feita de alvenaria e tem televisão. Eu prefiro o tempo de hoje, embora o sujeito só possa comprar um quilo de carne duas ou três vezes por semana. Penso que é melhor comer menos e dormir melhor. Melhor ainda, para quem pode, é comer e dormir bem. Isto sim é que é vida para a gente pedir a Deus. O resto é enfado e penitência.
Não tenho nada contra que anote nossa conversa. Pode anotar à vontade. Eu sempre soube que você vivia de anotar essas maluquiças de gente velha. Anote o que puder e quiser sem sobrosso e sem o receio de se fazer aborrecível. Pelo menos assim as coisas não se perdem e no futuro alguém vai saber que um dia, sem aviso, lhe recebi em minha humilde e honrada casa, já homem feito, depois de lhe ter visto menino recebendo as lições de Olívia e da sua avó.
Sempre soubemos que você não foi um menino igual aos outros. Sei que lia muito desde pequeno, orientado por sua avó que Seo Fonseca foi buscar no Ceará-Mirim, para reinar e ser dona dessas terras todas… Ler, como sabe, ajuda a pensar.
Trabalhar no Novo
Frequentemente sou abordado por amigos e colegas, geralmente da minha geração, sobre um assunto que está na boca de muita gente - este Novo Jornal.
Como é trabalhar no NJ, querem saber, às vezes com uma certa incredulidade. “É verdade que lá os colaboradores são pagos?” Esta indagação é feita fatalmente por todos, no começo ou no fim da conversa, pois afinal nenhum dos nossos jornais jamais adotou essa prática. Afinal, o trabalho intelectual, segundo alguns espertos, não tem preço…
Certa vez, ao ser convidado a colaborar num jornal local, o dono me disse à queima-roupa, logo após formalizar o convite: “Você é um grande intelectual. Por isso, não vou falar em dinheiro, para não ofendê-lo…”
Eu me lembro agora duma conversa com Dorian Jorge Freire, que se mostrava aborrecidíssimo com a poetisa Zila Mamede, a quem ele convidara havia um ou dois mses para escrever aos domingos no jornal que ele então dirigia. Pois bem, ela mandara a conta! “Nunca pensei que Zila fosse tão mercenária”, queixou-se, visivelmente contrariado. E, desta forma, matou a minha curiosidade sobre a repentina suspensão da colaboradora que, embora uma grande artífice do verso, produziu circunstancialmente uma prosa medíocre, insípida e sem estilo.
Pois, aqui, os colaboradores recebem, sim. Mas isto não é tudo. Também temos, por exemplo, workshops, como o que se realizou no penúltimo sábado no Vila do Mar, depois de um almoço em que nos confraternizamos, do diretor ao moço da portaria. Afinal, como costuma dizer-nos Cassiano Arruda Câmara, o principal capital do Novo Jornal é o elemento humano. E, sobretudo, diria eu, a transparência que rege as relações internas e externas da empresa com todos.
Confesso que pela primeira vez, depois de tantos anos de redação, fui testemunha, nessa confraternização, de um fato excepcional: a direção de um jornal detalhando para os seus funcionários o seu fluxo de caixa e informando-os sobre seus projetos. Outra coisa surpreendente, aqui, é a liberdade de opinião que desfrutamos, pelo menos até este momento. Sei que já até pediram minha cabeça à direção, mas ela, a cabeça, continua firme sobre os meus ombros e o jornal, firme e forte em sua disposição de bem informar aos cidadãos.