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UMA SOCIOLOGIA PREGUIÇOSA DO DIREITO

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

No mundo acadêmico de hoje uma das coqueluches é a interdisciplinaridade, aqui entendida, no seu sentido lato, como a interação, nos mais diversos níveis de complexidade (multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade em sentido estrito e transdisciplinaridade), entre áreas do saber, visando a compreensão e o aperfeiçoamento da realidade que nos cerca.

Na FARN, onde ensino Direito, nos é recomendado pela coordenação do curso, seguindo o comando da Lei de Diretrizes e Bases, trabalhar as nossas disciplinas em interação com os demais ramos de Direito, assim como interagir com as demais ciências, tais como a Filosofia, a Política, a Economia e a Sociologia.

Muita embora se diga que a idéia de interdisciplinaridade, como a conhecemos hoje, tenha surgido na França e Itália nos anos 60 do século XX, exemplos de interdisciplinaridade no Direito remontam a um passado ainda mais distante. Levando em consideração o Direito e a Sociologia, por exemplo, basta ler Émile Durkheim (1858-1917), Max Weber (1864-1920) e Eugen Ehrlich (1862-1922), pensadores com formação tanto em Direito como em Sociologia, que deram marcantes contribuições para a interação dessas duas ciências.

Já no século XX, caracterizando-se como um forte ataque ao positivismo (sobretudo à escola analítica inglesa), uma das mais significativas correntes de pensamento jurídico surgidas foi a escola sociológica americana, representada por nomes como os de Roscoe Pound (1870-1964) e Julius Stone (1907-1985).

Essa escola procurava ver o direito pelo prisma do “povo”. De inspiração ao mesmo tempo empirista e utilitarista, afirmava que o Direito é ou deve ser a maximização das necessidades sociais e a minimização dos custos e tensões sociais. Pound, autor da famosa obra “Jurisprudence” (1959), composta de vários tomos, até cunhou a expressão “social engineering”, para defender a tese de que a função do Direito e dos juristas na sociedade é alcançar um equilíbrio entre liberdade e controle, incentivo e proibição, fazer com que as pessoas possam interagir em sociedade com o mínimo de atrito e usando suas energias para obtenção do máximo resultado possível.

Pound, ele próprio um ex-botânico chegado a classificações, comparou o pensamento da escola sociológica da seguinte maneira: (i) ela confia mais no funcionamento do Direito do que em seu conteúdo abstrato; (ii) ela entende o direito como uma instituição social que pode ser melhorada por esforço humano e sustenta missão de descobrir os melhores meios de favorecer e direcionar tal esforço; (iii) ela dá maior importância aos fins sociais a que o Direito se dirige do que à sanção; (iv) ela defende que as prescrições legais devem ser consideradas mais como diretrizes para resultados que são socialmente acertados e menos como comandos inflexíveis; e (v) ela não tem uma matriz filosófica única.

No fundo, muitos dizem, o que Pound quis realçar foi a diferença entre o Direito nos livros (“law in books”) e o Direito em ação (“law in action”) e que devemos harmonizá-los. Mas, na hipótese de conflito entre esses “direitos”, não sejamos juristas de gabinete ou, na forma como ele cunhou, “legal monks”.

Claro que a obra de Pound (e dos outros “engenheiros sociais”) não está imune a críticas, sobretudo quando lembrada a vagueza dos conceitos jurídico-sociológicos que ele classificou. Mas, pelo menos neste exato momento, com a Copa do Mundo por aí e eu aqui namorando livros e corrigindo provas, ele “tem” de ter razão.

O verdadeiro Direito e a verdadeira experiência sociológica estão na rua, no nosso esporte nacional, na “batalha dos vinte e dois homens no campo”, uma verdadeira “exibição da diversidade da natureza humana submetida a um comando, ao desejo de vitória”, como poetou José Lins do Rego (reproduzido pelo nosso Woden na Tribuna de sexta). Para não falar da sociologia dos “que estão de fora, gritando, vociferando, uivando de ódio e de alegria”, sem que a honra dos adversários ou da genitora do árbitro ganhe a proteção (devida?) do Direito.

Pound “tem” de ter razão, nem que seja apenas para justificar - na minha preguiça de olhar esses processos e corrigir essas provas - o fato de eu jogar tudo para o ar e ir assistir futebol.

*Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London – KCL

CONSIDERAÇÕES RELEVANTES

domingo, 13 de junho de 2010

Por Carlos Roberto de Miranda Gomes,
Professor e Advogado

Aproveito este momento de desligamento de assuntos relevantes para o País, em razão da Copa da África do Sul, para ‘catucar’ alguns temas de grande magnitude para o nosso futuro, em particular do Rio Grande do Norte e de Natal. Dividirei os assuntos por títulos:

FICHA LIMPA – Pelo imediatismo deste assunto, o TSE interpretou que a Lei que aprovou o Projeto “Ficha Limpa” tem aplicação para as eleições de 2010. Alguns estudiosos militantes do ramo, certamente adotando o casuísmo do interesse pessoal, vêm proclamando a sua inconstitucionalidade diante do princípio da ‘presunção constitucional de inocência’ e, por isso, insistem somente em considerar alguém com ficha suja com o trânsito em julgado.

Parece que ainda se pensa que a Lei esgota o Direito e para tanto, algum tempo verbal tem o condão de postergar um desejo do povo, externado em abaixo assinado popular para dotar o mais verdadeiro exemplo da vergonha e acabar com o reinado dos demagogos e enganadores que, indiciados em ilicitudes, utilizam esse defeito moral como boa indicação à concorrência em cargo político.

Não, absolutamente não, o Estado é uma ficção jurídica criada pela vontade soberana do povo que, assim, é o seu criador, enquanto o Estado é apenas a criatura.

Desta forma, deve sempre e sempre prevalecer a sua vontade, como aliás muito bem dissertou o jovem Procurador da República Marcelo Alves Dias de Souza: “Levando em consideração o Direito e a Sociologia, por exemplo, basta ler Émile Durkheim (1858 – 1917) Max Weber (1864 – 1920) e Eugen Ehrlich (1862 – 1922), pensadores com formação tanto em Direito como em Sociologia, que deram marcantes contribuições para a interação dessas duas ciências. Já no Século XX, caracterizando-se como um forte ataque ao positivismo (sobretudo à escola analítica inglesa), uma das mais significativas correntes de pensamento jurídico surgidas foi a escola sociológica americana, representada por nomes como os de Roscoe Poud (1870 – 1964) e Julius Stone (1907 – 1985).

Essa escola procurava ver o direito pelo prisma do “povo”. Ao concluir concorda que mais importante que o Direito nos Livros é o Direito em ação, mas Np conflito entre esses direito, não sejamos juristas de gabinete ou, na forma como ele (Pound) cunhou, “legal monks”.
O ideal seria a adoção de um mandato “imperativo” no lugar do “representativo”, pois poderíamos cassar os mandatos dos trampolineiros.

EXAME DE ORDEM – Um bom contingente de estudantes trabalha e torce para o término da exigibilidade do Exame de Ordem, como forma de permitir o exercício da advocacia. Se isso vier um dia a prevalecer, assistiremos, atônitos, a falência das faculdades de Direito e a banalização dos direitos e interesses do povo, para permitir a mecanização daquilo que é ainda a coisa mais sagrada – a defesa do Estado Democrático de Direito, os princípios da isonomia e da equidade. Mais importante é fiscalizar com rigor o funcionamento das fábricas de bacharéis!

COPA 2014 - Continua sem a devida solução a questão de Natal sediar alguns jogos da Copa de 2014. O Comitê encarregado dos trabalhos para a construção da “Arena das Dunas” insistem em manter uma postura insensata e ilógica, com perspectiva de comprometimento do Estado com o pagamento de uma dívida durante 30 anos, perda de um patrimônio já existente, da pouca rentabilidade de se pagar um possível investimento da iniciativa privada através da PPP, obrigando ao Erário Público desembolsar o numerário necessário para cobrir o investimento. Por que não adaptar o Machadão, procedimento inteiramente possível; por que não convocar quem mais tem competência para tanto, o CREA, que até agora não tem conhecimento do projeto; por que com o que se economizará não se complementa os inúmeros e graves problemas da cidade como transporte urbano, saneamento básico, recuperação de escolas, de estabelecimentos prisionais, equipar nosso aparato policial, consolidar a rede hospitalar do Estado; construir bibliotecas sustentáveis.

O tempo é muito curto e não será suficiente para se aguardar uma demolição tão gigantesca quando é possível aproveitar o Estádio ou mesmo construí-lo em outro local, tipo o do “parque Aristófanes Fernandes” que poderia ser deslocado para região mais rural. O Ministério Público precisa acompanhar a ganância econômica que existe por trás disso.

Aqui, em particular, lamento a conivência do meu primo Paulinho Freire, que poderia muito bem ter procurado subsídios com Moacyr, autor do projeto do Machadão, pois nossa família é sempre procurada em época de eleição. Sei não, Natal tem a fama de “terra que já teve e não tem mais” – Até quando?

O QUINTO CONSTITUCIONAL DOS ADVOGADOS – Assunto que tem preocupado os advogados, pois alguns magistrados que ocupam o quinto constitucional dos advogados, depois que vestem a toga se esquecem de sua origem e permite que os advogados sofram restrições esdrúxulas das cúpulas dos Tribunais, sem servir de um ele de ligação para amenizar e solucionar as questões com mais serenidade. Que saudades de Ítalo Pinheiro!

EXTINÇÃO DA CONSULTORIA – Lamentável essa iniciativa, que tem o apoio da Procuradoria Geral do Estado. Todos sabem que os Procuradores são advogados do Estado e o Consultor é o jurista independente que dirime controvérsias entre o direito do cidadão e do Estado, quando não se encontram em sintonia.

O Consultor é quem examina as razões de vetos, a elaboração de mensagens, o aconselhamento do Governador, assuntos que estão fora da competência administrativa da PGE, que tem missão definida. Vamos pensar melhor, deixar à margem as vaidades e a busca de poder e olhar o racional.

Pouco importa que sejamos o único Estado do Brasil a manter uma Consultoria, Vale à pena resguardar a memória daqueles que solucionaram questões cruciais no Direito local, como Raimundo Nonato Fernandes, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, Francisco de Assis Fernandes, Ivan Maciel de Andrade, dentre outros, cujos pareceres continuam como pérolas do nosso Direito.

Desculpe se desagradei a alguém, mas já atingi a idade bíblica e minha vida está por conta da bondade de Deus. Não devo mais nada aos homens e não tenho mais idade para suportar a indiferença e a omissão, a opressão e a arrogância de quem pode mais do que sabe.

OUTROS ASSUNTOS – Vou reservar outros temas para detonar mais adiante, um dos quais o abuso de interpretação que alguns tabelionatos dão para apresentação de documentos.

Vamos acionar a Corregedoria, pois não é possível suportar absurdos, como se fazer o arquivamento do livro original de criação de uma associação, com capa dura e tudo, porque o interessado não trouxe dois exemplares do livro original.

A expressão “original” para alguns não é mais uma coisa única singular e confundem a expressão legal “duas vias” como “dois originais”, como que o Tabelião não gozasse de “fé pública” para dar certificado de autenticação de cópia reprográfica do original.

PRESOS POR BONS MOTIVOS

sábado, 12 de junho de 2010

Por Diana Guerra
de Obvious

Nem todos as pessoas que se encontram na prisão são desordeiros crônicos: há também rebeldes com causa que foram confundidos com bad boys pelos seus contemporâneos. De Nelson Mandela a Rosa Parks.

Rosa Parks cometeu um delito indesculpável na sua época: a 1 de Dezembro de 1955 recusou-se a obedecer a um motorista de autocarro, sentando-se nos lugares destinados aos brancos. O resultado foi terem-na levado para dormir na prisão. Mas houve uma consequência maior: a partir do seu gesto de coragem, gerou-se o boicote dos autocarros de Montgomery, ponto de partida para a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, nos anos 60.

Parks não foi, no entanto, a única pessoa a dormir atrás das grades por causa dos direitos civis. Martin Luther King foi condenado a quatro meses de prisão 5 anos depois, numa manifestação pacífica pela mesma causa. Foi, contudo, libertado pela intervenção do futuro presidente John F. Kennedy.

Noutro continente, a mesma causa: Lutando contra o Apartheid desde os anos 50, Nelson Mandela já tinha sido acusado de traição em 1956. Mas foi a 5 de Agosto de 1962 que foi levado pelas autoridades, depois de ter sido descoberta a sua resistência ao governo pela destruição de propriedades públicas. Só foi libertado em 1990 depois do presidente sul-africano P. W. Botha ter morrido, vítima de um ataque cardíaco. Ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1993.

E por fim, Mahatma Ghandi. O símbolo da luta pelos direitos civis dos indianos, na luta pela independência do Império Britânico também não escapou à polícia. Em 1922, quando tinha 47 anos, Ghandi foi preso pelos britânicos, que o acusaram de conspiração e de tentar derrubar o Governo. Ele declara-se culpado e é condenado a 6 anos, mas foi libertado dois anos depois por problemas de saúde.

Mais em: http://obviousmag.org/archives/2010/06/pessoas_famosas_na_prisao_por_otimos_motivos.html#ixzz0qgScUEpb

REFLEXÃO HISTÓRICA

sábado, 12 de junho de 2010

Quem não usar os olhos para ver,
terá que usá-los para chorar!

Forster.

O General Olympio Mourão Filho morreu em 1972, portanto não conheceu Lula, mas veja como ele fpoi profético quando escreveu em seu livro de Memórias, contendo a verdade de um revolucionário.

“Ponha-se na Presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará a sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, de que tudo quanto faz está certo.

“Em pouco tempo transforma-se um ignorante em sábio, um louco em gênio equilibrado, um primário em estadista.

“E um homem nessa posição, empunhando nas mãos as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.

“Enquanto esse monstro é dirigido e explorado apenas pela lisonja, bajulado pela corte, a Nação sofre prejuízos de monta, é verdade, mas, apenas danos materiais em sua maioria e morais alguns.

“Quando, porém, sua roda é formada ou dominada por um bando refece de demônios, nesse momento a Nação corre os mais sérios perigos.”

Trecho extraído do livro MEMÓRIAS: A VERDADE DE UM REVOLUCIONÁRIO, apresentado pelo historiador Hélio Silva, publicado em 1978, pela L&M Editores Ltda, sobre a participação do General Olympio Mourão Filho na Revolução de 1964

O CEARÁ-MIRIM VESTIDO DE ONTEM

sábado, 12 de junho de 2010

Carta aberta a Pedro Simões

Por Gracinha Brandão Soares

Oi, Pedrinho, seu texto me fez recordar meu passado, na velha rua Heráclio Vilar. Nela passamos felizes, nossos primeiros anos de casados. Era uma casinha simples, pertencia a Dona Lima, tia de Flora, mulher de Edgar Varela.

Diante dos meus olhos pareço ver pessoas, casas e cenas típicas de um cotidiano morno, de toda cidade interiorana. Muros do Instituto Imaculada Conceição, administrada por Padre Rui Miranda.

Posto de saúde, maternidade, a “Bodega de Bubu”, o cartório de Seu Antônio Potengi, a casa de Simão, de João de Castro e Zoneide, nossos vizinhos compadres. Na esquina da Heráclio Vilar, o velho Café de Cleto, contrastando com a beleza do casarão de Dr. Canindé. A mansão de Batu e Madrinha Elita; a casa de Seu Valmir e Dona Celina ecoando acordes das valsas de Strauss.

Caminho até a bodega de Seu Chico Dantas, a casa de Djalma e Maria Correia, de Seu Chicó, Jorginho Barreto, Seu Aurelino e Dona Augusta. Na esquina, um par de leões, quais duas esfinges, na escadaria da casa de Seu Clóvis e Dona Cremilda, guardavam a paz dos moradores da Heráclio Vilar.

A rua era percurso dos habitantes nas manhãs de domingo que acordavam com o soar dos sinos da Matriz anunciando a celebração da santa missa. Trajeto dos caminhões carregados de cana-de-açúcar em direção as Usinas em época de safra. A rua enchia-se de risos e algazarras nas manhãs, com crianças dirigindo-se aos portões do colégio “de Padre Rui”.

Caminho dos moradores humildes da usina São Francisco à feira domingueira no mercado. Trajeto dos doentes e futuras mamães carregando em seus ventres, o fruto bendito da esperança, rumo ao hospital-maternidade da Heráclio Vilar.Viagem derradeira para os que buscavam morada no cemitério da cidade.

Abrigo de alegria no mês de junho nos alegres ensaios de quadrilhas juninas, com sons ecoando de suas salas e passos ritmados dos alegres matutos. Na subida da ladeira do mercado a moderna casa ajardinada, abrigando o casal Dr.Percílio e Dona Esmeralda. Defronte, a casa de Seu Jorge Moura e posteriormente a residência de Seu Pedro Costa,

Não sei se sinto alegria ou uma imensa saudade ao recordar um tempo passado, presente em nossas carnes e veias, como bem sintetizou o poeta Drummond: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara sem uso.Ela nos espia do aparador”

JOÃO DE DONINHA, O PROFETA

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Por Misherlany Gouthier

 

O mês de março se aproximava. O assunto do dia na Caieira era o mesmo: a seca que assolava até as regiões mais temperadas da zona oeste a exemplo das cidades serranas Martins e Portalegre. O sertão outrora adusto a se transformar, por assim dizer, num vasto descampado onde não se encontrava viv’alma. A gadaria sendo vendida a preço módico, coisa de tostões. Essa era a descrição que ouvi de seu Anselmo, um velhote baixo, entroncado mesmo, a faltar-lhe uns dentes na boca, enquanto apertava mais um “curtido”. De vez enquanto deslizava os dedos por entre o bigode já então amarelado pelo fumo.

 

Os mais experientes diziam que quando fosse o fim dos tempos de tudo se poderia presenciar. Lembrava meu tio-avô o tempo das sete vacas magras, cuja lenda está escrita na Bíblia. As conversas sempre se davam no alpendre do modesto casebre que dona Herculava herdara como dote quando se casou.

 

Meninos de calças curtas costumávamos escutar as estórias de Trancoso intercaladas com alguns goles de chá de cidreira ou café, sempre servido com “orelha de pau” que nossa avó preparava com tamanha dedicação; adivinhações, prognósticos, profecias que somente os mais sábios poderiam descrever e orientar. Tio Zeca sempre relembrava a estória da vaca Mimosa, fato ocorrido na era de 30. “Numa noite de chuva, o relâmpago cortando o infinito, céu escuro, os trovões a amedrontar a meninada nos cueros, uma rês que se agasalhava debaixo de uma frondosa oiticica fora atingida por um corisco; a coitadinha tava amojada”, lembrava com os olhos n’água.

 

João de Doninha sempre acertava “na mosca”. Fazia parte dos profetas do sertão. Uma premonição sua valia qual tiro certeiro. Deixava todo mundo de chapéu virado. Até o burrico do velho Janjão conhecia as adivinhações de João de Doninha. Notícias suas corriam toda zona fronteiriça do médio oeste.

 

Transpondo os umbrais de seus oitenta janeiros minha tia Dita — Benedita era seu nome –, dissera que certa vez se encontrara com aquele cavaleiro e ele disse-lhe que tomasse muito cuidado com cobras. Ela não retrucou. Por causa disso, não saía à rua temerosa de encontrar uma rastejantes pelo caminho. Morreu de velha sem conhecer a capelinha do cimo da serra.

 

O fato é que, João de Doninha, já muito acostumado bendizer invernos, secas, desgraças, mortes, ficava a soltar papagaios ao avistar o vaqueiro Sebastião, pois este aperreava até macaco de loca. Parece ver-lhe: pixote, chapéu de couro fincado na cabeça chata, olhos amiudados, beiços curtos. Sebastião trazia no espírito o gosto pela pilhéria. Duvidava de tudo e de todos. Fazia alma desaparecer. Era uma sombra sem luz, dizia a sinhá Franklina, sua sogra.

 

João de Doninha com todos seus atributos, carregava na mente uma indiferença. Ninguém podia lhe falar de morte que ele mudava o rumo da prosa. Seu Alclépio, que gostava de ver os dois se engalfinhando, dizia que quando um morresse o outro vinha buscar aquele que havia ficado… A conversa sempre tomava essa linha.

 

João de Doninha abandonava o campo quando Sebastião de Fantico aparecia. Dizia para os da roda: “Lá vem aquele besta. Só falta a calça para palhaço…” E lá se ia João de Doninha baixar em outro terreiro…

 

 

ALIANÇA DE CIVILIZAÇÕES

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Por Antonio Campos*

Apresentar novas dimensões aos problemas entre as diferentes culturas e chamar a atenção para questões que afetam diretamente os países como emigração, fome e educação. Esses foram alguns dos eixos temáticos discutidos durante o 3º Fórum da Aliança de Civilizações, que reuniu cerca de 7 mil participantes de 100 países, no Rio de Janeiro. Realizado entre os dias 28 e 29 de maio, o encontro abordou questões referentes aos conflitos mundiais e diferenças culturais, além de propor soluções, através do diálogo, para superação de conflitos entre as nações.

A Aliança de Civilizações é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas, cujo objetivo é mobilizar a opinião pública a fim de superar preconceitos e ideias que, muitas vezes, geram conflitos entre países e etnias diferentes. Foi inicialmente proposta pelo presidente da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, na 59ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), logo após os atentados terroristas no metrô de Madri em 2004.

O evento acontece em boa hora, pois métodos para melhorar o convívio ou diálogo entre culturas ou indivíduos, admitindo diferenças, sem discriminações, passou a ser um dos principais desafios do século XXI. Atualmente, as relações ou diálogos entre as culturas estão sendo alteradas pelos deslocamentos de imigrantes, como também pela crescente interdependência entre as sociedades pelo efeito da globalização.

Exemplo disso é o que acontece em Los Angeles, segunda cidade em número de mexicanos, e Buenos Aires é a segunda em número de bolivianos. O que significa ser europeu, num continente marcado não apenas pelas culturas de suas antigas colônias, mas também por outras culturas e povos oriundos de migrações ou diásporas pós-coloniais?

Recentemente, a Suíça proibiu novas cúpulas de mesquitas. Debate-se na França o uso da burca e a edição de uma legislação proibindo o uso de vestimentas árabes, quando cerca de 1,5 milhões de muçulmanos vivem na região de Paris. Cresce o medo de terrorismo, na Alemanha, num momento em que a comunidade muçulmana chega a mais de 2 milhões de habitantes.

No seu livro Choque de Civilizações, o sociólogo Samuel P. Huntington previu que, depois da guerra fria, as disputas se dariam no terreno da cultura e da religião. O historiador Eric Hobsbawm comentou em entrevista publicada na Folha de São Paulo, em abril de 2010, que: “Hoje, porém, o fator xenofóbico do nacionalismo é cada vez mais importante. Trata-se de algo muito mais cultural que político”.

Jorge Sampaio, ex-presidente de Portugal e alto representante da ONU no Fórum Aliança de Civilizações, ressaltou duas notas em entrevista recentemente publicada: “Em primeiro lugar, entendo que a governança democrática da diversidade cultural se tornou questão central do desenvolvimento sustentável enquanto o seu quarto pilar, para além das dimensões econômica, social e ambiental. Em segundo lugar, a questão das relações entre o Ocidente e o islã comporta uma vertente global, e nesse sentido interessa a todos independentemente do tecido étnico, cultural e religioso de cada”.

O Brasil, que é um País mestiço, marcado pela mistura de várias raças, deve ser motivo de estudos quanto à tolerância e convívio entre etnias e culturas. Prescindimos de identidade, porque temos todas elas. O Brasil pode e deve ser um paradigma importante para o diálogo entre culturas e etnias no mundo contemporâneo. Esse traço marcante da mistura racial do Brasil foi objeto de estudos de alguns brasileiros, destacando-se o sociólogo Gilberto Freyre.

Ultimamente o Brasil tem papel relevante nas relações diplomáticas internacionais, destacando-se o acordo firmado entre o Brasil, Irã e Turquia, que mostra um caminho de diálogo entre o ocidente e o Islã. O cineasta Oliver Stone, diretor do filme “Platoon”, comentou em visita ao Brasil que o país é muito importante no mundo, mas que a parceria firmada com o Irã pode não ser bem vista por todos. “Nós queremos paz. Nós não queremos uma guerra. E a situação do Irã pode se tornar outro caso como o Iraque. Me parece que os Estados Unidos estão interessados em outra marcha para a guerra”, afirmou.

Está no centro da vida contemporânea o desafio de construir pontes, diálogos construtivos de paz, entre culturas que estão em choque real ou aparente, em sociedades cada vez mais interculturais. É preciso lutar contra os comportamentos de discriminação e de condenação do “diferente”. Resistir contra a tentação fácil da xenofobia e do racismo de toda espécie. Diálogo é a palavra chave do mundo contemporâneo: entre artes, etnias, religiões, culturas.

*É escritor e advogado

SALVADOR LAMAS, O CRAQUE GENTIL

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Por Leonardo Sodré,

jornalista
Semanalmente, geralmente às sextas-feiras ou sábados, um grupo de saudosos ex-atletas do futebol de salão se reúne na confraria do Bar Azulão para conversar e, invariavelmente, reviver os bons tempos dos times que disputavam os campeonatos locais e os brasileiros daquela modalidade. Entre eles Dodoca Benfica, Véscio Pinheiro, Evandro Montenegro, Dailor Pessoa, Décio Holanda, Maurício Baíto, entre outros.

Fazem parte da geração de ouro dos craques dos anos 1960. A maioria já superou os 60 anos, mas parecem meninos quando contam as Histórias e as estripulias vividas naqueles tempos românticos, onde toda a rivalidade estava dentro das quadras. Dodoca, o eterno menino brincalhão, que todas às vezes que chega ao bar entra sem camisa para ser expulso e voltar vestido, parece um rapazinho quando conta as presepadas vividas entre eles, incluindo o lendário Arturzinho, que não é de freqüentar bares.

Mas, numa sexta-feira de poucos clientes e vários ex-atletas, as lembranças foram para aqueles que já partiram, motivados pela morte, há alguns dias, de um dos maiores jogadores de futebol de salão que o Brasil já conheceu: Salvador Lamas, que aliava sua condição de empresário do ramo de variedades com a prática do futsal, como hoje chamam o futebol de salão.

Evandro Montenegro, competente ex-pivô do time de Ceará - Mirim e várias vezes jogador da Seleção Norteriograndense, contou uma História emocionante, que fez brotar lágrimas em vários ex-atletas e outros participantes da mesa, como o dentista Lenilson Carvalho. Ele falava sobre o estilo correto, a técnica e a generosidade de Salvador Lamas, e lembrou-se de um fato ocorrido horas antes de o América, onde Salvador jogava, disputar a final de um Campeonato Potiguar contra o ABC. E contou:

“Não me lembro do ano, mas foi na década de 1960”, iniciou. “Domício Damásio, atleta do ABC - outro craque conhecido pela correção dentro e fora de campo - procurou Salvador Lamas horas antes da disputa do campeonato. Por algum motivo o time de futsal do ABC estava sem terno para jogar”, relatou. “Um time não poderia jogar uma final sem a camisa do clube e por isso Salvador abriu sua loja, Casas Lamas, na Ribeira e vendeu um terno completo, fiado, para o time do ABC, eterno rival do América”, concluiu Evandro Montenegro.

“A verdade é que as diretorias do América e do ABC não davam bola para o salão”, disparou Dodoca, reavivando uma velha queixa. “É verdade, Arturzinho levava o time inteirinho do juvenil do América no seu Fusca. Eu, o eterno reserva, fui muitas vezes feito uma sardinha para o Palácio dos Esportes”, completei.

O fato é que o ABC, de terno novinho em folha, terminou vencendo o campeonato naquela noite, vestido por um americano. Sobra desta História emocionante, recheada de espírito esportivo, um exemplo para a geração atual de torcedores que se engalfinham nas ruas e nas quadras por não entenderem que o esporte serve, sobretudo, para unir.

 

GLOBALIZAÇÃO E DIREITO

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Ainda pouco conhecido no Brasil, o britânico William Twining, juntamente com o português Boaventura de Sousa Santos, é um dos autores que mais tem procurado estudar a ciência do direito no contexto da globalização, entendida esta como o fenômeno que tende a estabelecer uma economia mundial unificada, um meio ambiente global interdependente e uma complexa rede de comunicação que conecta todo o planeta, entre outras coisas.

Twining explicitamente reconhece a existência de um mundo cada vez mais interdependente, em que as fronteiras nacionais (e mesmo o conceito de Estado nacional) estão mudando rapidamente e que não podemos mais entender o direito adotando uma perspectiva puramente paroquial. Ele recomenda uma perspectiva do direito mais abrangente, sobretudo a redução da ignorância – algo tão comum – do que se passa em outros países. Ele, assim, propõe um diálogo intercultural com sérias aspirações de universalismo.

Não resta dúvida que o fenômeno da globalização tem atingido os mais diversos setores da sociedade e, assim, o “mundo” do direito não pode mais ser enxergado localmente. As antigas fronteiras entre países ou mesmo entre as tradições do common law e civil law não mais existem.

No mundo globalizado de hoje, no mínimo, devemos enxergar o direito sob a perspectiva de uma matriz de direito ocidental mais ou menos uniforme (sem desconhecer, claro, a existência de outras tradições como a muçulmana e chinesa, apenas para dar alguns exemplos).

Nessa (quase-universal) cultura ocidental do direito – delineada a partir dos países da Europa ocidental, mas diretamente repercutindo nas suas antigas colônias, como são os casos dos países das Américas do Norte, Central e do Sul – é onde deve ser inserido o Brasil. E se, no passado, o Brasil apenas lentamente abeberou-se na tradição jurídica de outros países, hoje, com a facilidade das comunicações proporcionada pela globalização, um jurista brasileiro pode estar conectado com um jurista europeu ou norte-americano em tempo real e isso tem amplificado o intercâmbio de experiências.

Apenas para se ter uma idéia, na área do direito processual, onde durante muito tempo busquei me especializar, uma das tendências visíveis na América Latina – e no Brasil, especificamente – é a absorção de conhecimentos e institutos inerentes à tradição do common law. Antes fortemente vinculados às tradições e aos institutos desenvolvidos pelos processualistas ibéricos e, depois, pelos italianos e alemães, os processualistas latino-americanos têm mostrado cada vez mais interesse pela cultura processualista da tradição ocidental co-irmã. E ainda que estejamos diante de modelos processuais nacionais distintos, frutíferas interações vêm acontecendo.

O Brasil tem ganho muito, por exemplo, com a adoção das experiências anglo-americanas das class actions, dos juizados especiais, das transações para solução de infrações penais de pouca monta, das aplicações da cláusula due process of law, do contempt of court e dos precedentes judiciais vinculantes. Ao final, quebrando as barreiras antes havidas como incontornáveis e misturando as tradições, tende-se a chegar a uma processualística ideal.

É verdade que há opiniões em contrário. São os “nacionalistas do direito”, que opinam em favor de uma concepção mais puritana do direito brasileiro. Com todo respeito, tem-se a impressão de que boa parte dessas opiniões é fruto de desconhecimento. E o desconhecido assusta.

Some-se a isso uma boa dose de conservadorismo e, sobretudo, o preconceito. É claro que também censuramos a simples adoção de modelos ou institutos estrangeiros, pregada por entusiastas deste ou daquele sistema. Com o simples transplante de um instituto estrangeiro, sem qualquer discussão prévia e sem as devidas adaptações, estar-se-ia encampando uma sistemática contrária às tradições e às realidades do país recipiente.

Por exemplo, no caso do Brasil, a adoção de qualquer instituto estrangeiro tem de levar em consideração a realidade de nossas dimensões continentais e de nossas diferenças regionais e de um Poder Judiciário que é composto por magistrados com valores, às vezes, os mais diversos, acerca de uma mesma situação fática ou jurídica.

Mas não se pode concordar com o preconceito, sobretudo quando ele vem ao lado do paroquialismo e da ignorância. Propõe-se, sim, o estudo aprofundado da realidade que nos cerca, levando em consideração o saber já desenvolvido em outras plagas.

E, com fundamento nesses estudos, propõe-se, para um mundo hoje globalizado, o aperfeiçoamento progressivo dos sistemas legais, com adoção de um direito ao mesmo tempo universal e compatível com as tradições e a realidade locais.

No Brasil, os problemas por que passa a Justiça – morosidade, ausência de previsibilidade, para citar alguns – por si só desmascaram “verdades” que se têm por estabelecidas. Está na hora de se fomentar, cada vez mais, mudanças a partir de estudos de direito comparado, aproveitando a circunstância de ser o Brasil hoje um dos “países da moda”.

Uma das vantagens da globalização é que ela permitiu uma grande fluidez técnico-jurídica para fins de adequação às circunstâncias históricas normais, mas que também serve para o aproveitamento de circunstâncias excepcionais e transitórias. Assim, o Brasil, aproveitando a conjuntura atual, pode exercer o papel de vanguarda do desenvolvimento dessa visão globalizada do direito.

*É Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

O COMPLEXO DE VIRA-LATA

domingo, 6 de junho de 2010

Por Luiz Costa Lima, do Site Sibila

A cena veio-me à lembrança quando há poucos dias, ao ligar a TV, deparei-me com um programa – não uma notícia – sobre uma recém-publicada biografia de Clarice Lispector.

Mas há um Nelson Rodrigues insuperável: aquele que nos definiu como perseguidos pelo complexo de vira-lata. Complexo que se manifesta pela sensação de que não suportamos comparação, pois logo nos vemos como evidentemente inferiores. As provas da qualidade do achado são inúmeras. Recorro às que de imediato me vêm à cabeça.

Em suas memórias, um autor hoje quase desconhecido, Gilberto Amado (1887-1969), recorda que, no começo de carreira diplomática, ao chegar ao hotel em que deveria se hospedar, em cidade holandesa, impressionou-se com a elegância dos porteiros. Tamanhos fraques e casacas cheias de tantos botões dourados lhe pareceram prova de que se defrontava com autoridades, ante as quais havia de prestar os sinais de consideração que aprendera estarem reservados a elas. Ao testemunho de décadas passadas acrescento um recentíssimo.

Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito.

Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês.

A cena veio-me à lembrança quando há poucos dias, ao ligar a TV, deparei-me com um programa – não uma notícia – sobre uma recém-publicada biografia de Clarice Lispector. Dela já havia tomado conhecimento. Tanto o The New York Times como a The New York Review of Books publicaram longos e elogiosos artigos sobre a biografia.

O artigo da segunda a chama de “esplendidamente pesquisada” e assinala que seu autor refizera o percurso de vida de Clarice, viajando pelos lugares onde ela havia estado. Ante tal cobertura, detalhada e capaz de satisfazer às questões dos mais diversos leitores, a matéria televisiva era uma obra-prima de chavões. Repetiam-se histórias duvidosas e anedotas conhecidas; que Clarice escrevia um português que nunca alguém escrevera, que ironizava ou se enfurecia contra os que falavam de sua obra de uma maneira tão “teórica” que ela própria não entendia.

Pouco importava aos responsáveis pela matéria que um pouco antes tanto se reiterasse que ela dizia não entender a si mesma. Ora, se assim sucedia – por certo, compreenda-se, please, tal era sua complexidade íntima –, como haveria de entender o que estranhos dissessem sobre ela? Muito bem. Mas, afinal, onde nisso tudo está o complexo de vira-lata?

Por certo, ele não está em que nossos jornalistas se rejubilem com o êxito da biografia de um escritor brasileiro. É tão raro que sejamos nomeados mais do que pela trinca “café – Carnaval – Pelé” que a notícia deverá ter vida longa. Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. É bem o caso.

Em 2008, a Edusp publicava, em edição graficamente preciosa, a Clarice fotobiografia de Nádia Gotlib. Seria injusto alegar que a obra não teve resenhas ou não tenha circulado ou não tenha sido reconhecida. Em suma, que não se tenha sabido dela. Mas nada semelhante ao que agora sucede com o jovem autor norte-americano – por certo, em vésperas de ser traduzido.
Lembremo-nos então do critério de pontuação ressaltado pelo especialista em publicações acadêmicas.

Nosso complexo de vira-lata não faz por menos: entre um produto escrito e editado no Brasil e outro, surgido em país de língua estrangeira, como duvidar do que merece maior reconhecimento?
Não que se duvide do ganho para a cultura nacional, em que autor e/ou obras suas ganhem espaço além das fronteiras. Mas qual a significação efetiva desse espaço se, internamente, encaramos nosso interlocutor com desconfiança se nele não reconhecemos o repetidor de alguma coisa antes legitimada lá fora?

KINHA ESTRÉIA NO NOVO JORNAL

sábado, 5 de junho de 2010

Por Franklin Jorge

A escritora e jornalista Kinha Costa estréia, neste domingo, nas páginas do Novo Jornal, escrevendo direto de Johanesburgo sobre a Copa do Mundo que se realiza na África. Colaboradora desta página, onde tem publicado seus Boletins da Copa, Kinha produzirá um material que se beneficiará de sua longa vivencia na África do Sul.

Nascida em Caicó, na Serra da Formiga, Kinha é autora de um texto leve e espirituoso que certamente despertará a atenção dos leitores do jornal.

O QUE CABRAL TEM A ENSINAR AOS POETAS

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Algumas dessas lições do escritor pernambucano estão sintetizadas em sua última e maior entrevista

Por Luis Dolhnikoff,
da revista Sibila

1. A persistência do lirismo
A diluição de estilemas de João Cabral de Melo Neto, que chamo de “cabralismo”, não é um evento raro na poesia brasileira contemporânea. Mas se imitar Cabral não é algo que deva ser tentado, pela inferioridade necessária da cópia, há, em compensação, outras lições que ainda podem e devem ser com ele aprendidas, principalmente por terem sido, ao contrário do “cabralismo”, persistentemente ignoradas. Algumas estão sintetizadas em sua última e maior entrevista.

A poesia brasileira sempre foi preponderantemente lírica. Mesmo um poeta pouco lírico, como Carlos Drummond, tem momentos de lirismo. Murilo era um lírico. Jorge de Lima era um lírico. Mário de Andrade era um lírico. Manuel Bandeira era um lírico. Vinicius de Moraes era um lírico. Cecília Meireles [1901-1964] era uma lírica. O Carlos Drummond era o menos lírico. Mas assim mesmo tem momentos de lirismo.

Por isso é que a influência maior que eu tive foi de Carlos Drummond. Na literatura brasileira Carlos Drummond foi meu grande mestre. Aquela poesia prosaica, direta, compreende? Só que ele de vez em quando cai no discursivo, cai na prosa discursiva. Eu nunca caí no discursivo. (“Conversas com o poeta João Cabral de Melo Neto”, entrevista a Bebeto Abrantes, in sibila.com.br/images/stories/joaocabral/Joao_cabral_revista.pdf, pp. 67-68 [grifo nosso])

Vindo do maior poeta brasileiro, e envolvendo praticamente todos os demais grandes poetas do país no século XX, a observação de Cabral nada tem de trivial, apesar mesmo do que possa ter de familiar: se a poesia brasileira sempre foi preponderantemente lírica, é provável que ainda o seja, pois fortes tendências históricas não se dissipam facilmente.

A longuíssima tradição lírica ocidental teve seus principais parâmetros estabelecidos já pelo primeiro poeta lírico, Arquíloco de Paros, no século VII a.C. – quepor isso “ocupa un lugar destacado en la historia de la literatura griega: representa la irrupción de la personalidad individual”.[1] O lirismo, em termos gramaticais, é a poesia da primeira pessoa do singular. Acompanhando a substituição gramatical do ele épico pelo eu lírico, Arquíloco, em termos formais, troca o hexâmetro épico pelo popular pentâmetro, enquanto, tematicamente, abandona a pólis, o mito e o civismo pelo indivíduo, o realismo e o egoísmo:

Algum saio do escudo se orgulha:
sem querer, larguei-o num arbusto.
Salvei, porém, a minha vida. Perca-se:
logo conseguirei outro igual.[2]

Mas o lirismo não foi, apesar de tudo, sempre dominante. Na poesia latina predominava, senso lato, a poesia cívica (apesar de não na forma épica), da qual a satírica é a contrafação: trata-se, como regra, de uma poesia centrada na terceira pessoa.

Na Idade Média, também são poesia da terceira pessoa os cancioneiros, com seus heróis de cavalaria e histórias de santos. A poesia da primeira pessoa retorna com força apenas às portas da modernidade, com os provençais.

Mas aqui é preciso cautela: os poetas provençais não são verdadeiros líricos, pois se usam a primeira pessoa e, mais ainda, a nomeação do próprio poeta no poema, o fazem de maneira convencional. Apesar de poder haver elementos biográficos, mesmos estes servem à construção poética de uma persona.

O poema é uma peça de propaganda de seu autor, não um sincero relato de sua dor (com o perdão da rima fácil). Procedimento equivalente domina a poesia dos séculos XVII e XVIII, em que é comum o poeta adotar explicitamente sua persona, como o Dirceu de Tomás Antonio Gonzaga. O convencional só se torna realmente confessional no romantismo.

O romantismo foi, fundamentalmente, uma reação aos dois maiores eventos do final do século XVIII, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Ou seja, uma reação ao utilitarismo, ao cientificismo, ao mercantilismo, ao iluminismo e ao racionalismo.

Esse grande e poderoso conjunto de ismos seria então contraposto ao ismo predominante da cultura ocidental, o individualismo, na forma da “livre expressão da personalidade do poeta”. Lirismo na mais pura acepção.

A partir do simbolismo, herdeiro do romantismo, essa “livre expressão” lírica afinal transborda da gramática e do tema para a forma. Parodiando Maiakóvski, assim como não há arte revolucionária sem forma revolucionária, não há arte pessoal sem forma pessoal. Daí o simbolismo começar a romper com as formas fixas – o que seria afinal completado pelo modernismo.

O modernismo opera então um desvio de causas e um aprofundamento de efeitos. O que no simbolismo era busca de expressão individual se torna uma recusa deliberada das formas consagradas – em função da grande crise moderna (que começa a tomar forma manifesta na Primeira Guerra) e das profundas mudanças impostas pelo capitalismo industrial e pela urbanização. O modernismo, porém, não leva essa recusa das formas clássicas até a dimensão gramatical.

No máximo, estranha e refrata o eu lírico através da ironia (da qual Oswald, Bandeira e Drummond são casos exemplares), porém não o questiona de fato, muito menos o elimina.

A filha do [Alfredo] Valadão tinha um gravador, Vinicius ia cantando e ela ia gravando. Vinicius cantava aquelas coisas bossa-nova, aquela coisa toda, falando sempre em coração. Aí, na gravação [...] se ouve minha voz no fundo da sala dizendo: “Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?”. (idem, p. 69)

O lirismo, de fato, canta as vísceras do poeta, incluindo a maior delas, o cérebro, que no modernismo substitui o coração romântico (com exceção da música popular, que por ser popular, tende a ser conservadora). O exemplo maior – em mais de um sentido – do lírico cerebral, ou modernista, é Fernando Pessoa, para quem um eu lírico apenas já não era suficiente.

2. A insuficiência do lirismo contemporâneo
Na poesia brasileira, a grande ruptura com a tradição lírica terá de esperar pelo concretismo e pelo antilirismo de Cabral. Os que não compreendem suas afinidades, não vendo o que a obra em versos metrificados e rimados de Cabral tem afinal a ver com o movimento que decretou a morte do verso, não se dão conta do outro aspecto fundamental da obra cabralina, que tem tudo a ver com o concretismo: a concretude.

A literatura espanhola é a mais concreta que há. Foi isso que me seduziu, porque eu sempre procurei fazer uma poesia concreta, quer dizer, com predominância dos vocábulos concretos. Quando cheguei na Espanha e conheci bem a literatura espanhola é que eu vi que ela é a literatura mais concreta do mundo. A literatura menos abstrata do mundo.

Eu dou um exemplo a você. No poema do Cid tem um momento em que há um choque de cavaleiros cristãos e cavaleiros mouros; morre muita gente e muitos cavalos correm disparados. Então, sabe como o autor diz isso, que muitos cavalos fugiram disparados? “Muitos cavalos fugiram sem seus donos.” [...] É uma descrição inteiramente concreta. [...] Uma coisa de cinema. (idem, p. 21 [grifo nosso])

Descrição concreta, coisa de cinema: imagem, não no sentido metafórico, mas visual (sentido dominante também no concretismo). O poema descreve, não o que poeta sente ou pensa, mas o que vê. O que se vê são coisas. Coisas reais.

A grande questão que esse quadro histórico coloca para a poesia brasileira contemporânea é saber se, depois de tal ruptura tardia, houve, de modo preponderante, um aprofundamento do “concretudismo” ou se, ao contrário, deu-se a persistência do lirismo – e, neste caso, em que condições.

Antes, porém, de continuar, é preciso harmonizar a nomenclatura. O primeiro termo da equação pode muito bem ser substituído por objetivismo, e o segundo, por subjetivismo. Pois Cabral considera uma poesia “concreta” quando é pouco abstrata.

Como abstrato, denotativamente, significa separado do referente, concreto significa ligado ao referente – ou seja, ao objeto. Daí poder ser sinônimo de objetivismo. O lirismo que ele critica, ao contrário, é ligado às “vísceras” do poeta – o que não deixa de ser um modo de abstrair o mundo exterior. Daí o subjetivismo.

A partir dos anos 80, com o fim das últimas grandes referências teóricas, formais e ideológicas, a poesia sofre um profundo processo de atomização. Nesse processo, qualquer dimensão objetivo-social, ainda marcante nos derradeiros movimentos poéticos, que se debatiam, grosso modo, entre a forma útil (concretismo) e o conteúdo útil (poesia engajada), é perdida, e substituída por um individualismo intenso, mas fraco.

Individualismo fraco, em primeiro lugar, porque depois do modernismo não é mais possível o desafiante subjetivismo romântico-simbolista; e em segundo lugar, porque a cultura ocidental não parece mais capaz de gerar grandes individualidades, como Whitman e Pessoa. Esse individualismo fraco contemporâneo, então, adota um substituto do lirismo que é o solipsismo.

O solipsismo está para o lirismo assim como o idiossincrático está para o individual.
Uma poesia solipsista, tão próxima do próprio poeta quanto distante do mundo, tende a ser fortemente abstratizante. Operam-se portanto vários mecanismos de afastamento da palavra de seu referente – mecanismo fundamental do “abstracionismo” verbal –, como a metaforização, a conotação arbitrária, o sentido privado ou grupal, o enfraquecimento semântico do clichê.

O abandono do eu lírico histórico defendido por Cabral não se revelou, afinal, um caminho para a concretude, mas, ao contrário, para o solipsismo abstratizante: se a recusa do eu lírico romântico-simbolista-modernista é condição necessária para a intensificação da concretude em poesia (e para um possível incremento de sua relevância), não é condição suficiente.

“Toda grande obra de arte, no fundo, é realista”, disse Pound. Afirmação compreensível se se entender realismo como o oposto do abstracionismo – que pôde e pode oferecer muito às artes plásticas, ou ser a única condição da música instrumental (pois notas musicais são autorreferentes), mas pouco ou nada tem a dizer à poesia, uma arte verbal, ou seja, congenitamente referente. Principalmente depois do fim histórico do eu lírico forte.

________________________________________
[1] Francisco Adrados, Líricos griegos, Barcelona, Alma Mater, 1956, p. 3.
[2] Arquíloco, Fragmentos, tradução L.D., São Paulo, Olavobrás, 1989, s. n. p. (“saio” refere-se a um povo bárbaro).

AS PARCERIAS*

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por João da Mata Costa

Quando sou ou escrevo nunca sou eu mesmo. Mário de Andrade era mais que trezentos “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. Fernando Pessoa precisou se multiplicar em vários heterônimos. Numa deliciosa crônica do Fernando Veríssimo quem fica bêbado é o outro; o Rubens. Bouvard precisa de Pécuchet, o Quixote de Sancho e eu, acredito na “transmigração das almas”, mesmo sem saber o que é.

Na História da literatura essas parcerias são muitas e decisivas. O meu ego desaparece um pouco para o outro existir. Alguns escritores até se escondem atrás do seu Ghost-Writer, editor, agente literário ou colaborador. A Imaginação de Julio Verne muitas vezes não era suficiente para concluir o livro e pedia socorro ao seu editor.

Colette, amante de Flaubert, manteve uma parceria mais ortodoxa com o seu primeiro marido Henry Gaulthier-Villars, conhecido por Willy. O Infiel Willy assinava os textos de Colette e montou uma criativa estratégia de marketing para vender os livros da sua mulher, posta reclusa.

O Primeiro livro dessa parceria foi “Claudine à L’ École” e mais três “Claudines”. O esquema montado por Willy ostentava em todos os prostíbulos de Paris uma Claudine residente e havia loções, gelados, roupas, cigarros, perfumes, pó-de-arroz e postais com a imagem de Claudine, a mulher criança, perversa e ingênua ao mesmo tempo, natural e super-produzida.

Através dessa personagem, Colette descreveu magistralmente as experiências simultaneamente eróticas e violentas que as raparigas experimentam” … essas neuroses da puberdade, o hábito de comer barro e carvão, de ler livros indecentes e de espetar alfinetes nas mãos” (As Meninas Exemplares /por Helena Vasconcelos. Colette, A Monstruosa Inocência.

A grande produção de Alexandre Dumas não foi solitária, e teve a participação de Auguste Maquet. Os grandes best-sellers “Os três Mosqueteiros” e o “Conde de Monte Cristo” assinados por Dumas teve a participação do Maquet. E assim acontece aos montes na historia da literatura, nas artes e ciências. A falta de ética e escrúpulos também freqüenta o fazer literário e as glórias muitas vezes escondem os fantasmas de muitos escritores criativos e anônimos.

Outra grande parceria da literatura se deu entre os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Parceria que rendeu muitos livros de crônicas, antologias e roteiros para cinema. A parceria entre o autor de “A invenção de Morel” e Borges começou em 1942 sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq, em alusão ao famoso conhaque apreciado pelos escritores e ao nome de ancestrais comuns a eles.

O primeiro livro dessa parceria foi “Seis problemas para Don Isidro Parodi (1942). Em 1946 eles escrevem “Dos fantasias memorables “ e “Un Modelo para la muerte”. Com Borges já acometido de cegueira, eles escreveram outros livros de histórias policiais “Crônicas de Bustos Domecq” (1967) e “Novos Contos de Bustos Domecq” (1977).

As crônicas escritas por Domecq são artigos sobre artistas imaginários e foram dedicadas “A esses três grandes esquecidos: Picasso, Joyce, Le Corbusier”. Borges gostava de imaginar lugares, enciclopédias e pessoas.

Na literatura fantástica não há um compromisso com o factual e real e a imaginação pode criar as mais estapafúrdias e incongruentes situações. Quem escreve é um terceiro escritor que se multiplica eternamente por entre espelhos e miragens que causam uma ilusão de verossemelhança e beleza que só a grande literatura pode proporcionar.

Casares não foi um escritor excepcional e sua parceria com o grande escritor Jorge Luis Borges renderam bons frutos. Morto em Março de 1999, escreveu outros livros e foi muito mais que um parceiro de Borges. Escreveu ainda “Diário de la guerra del cerdo”, “Dorme ao Sol” e “Sonho dos Heróis” (Cosacnaify), e outros livros de antologias em parceria com Borges e Silvina Ocampo - a grande escritora e biógrafa de Borges, de uma imaginação fértil e fantasias inesgotáveis. A parceria Borges-ABC (Casares) é uma das mais profícuas da literatura e num concerto a quatro mãos eles realizam o milagre da criação com se um fora:

“A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que os dois seja um”, sentencia Borges.

No cinema eles participam dos roteiros de Invasion (Argentina 1969), inspirado no grande filme Alphaville, de Godard. Lês Autres (França 1974) e Los Oriellos (Argentina 1975).

*a Franklin Jorge

CANNABIS E PRECONCEITO

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por Carolina Neves, acadêmica

dos cursos de Ciências Sociais na UFRN e Direito na UnP

Com um título já bastante chamativo, o I Ciclo de debates “Cannabis e Preconceito”, realizado por ocasião do Colóquio Humanitas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, possibilitou o desvelamento de inúmeros tabus em relação a um dos psicoativos mais populares na nossa sociedade contemporânea.

 Fazendo uma top list das drogas atuais, após o álcool e o tabaco (mais comuns talvez por não adentrarem o âmbito da ilegalidade), na seqüência, provavelmente, teríamos a maconha. O primeiro preconceito quebrado foi o de que para se discutir o tema é preciso ser usuário. Muito pelo contrário, trata-se de uma discussão muito importante e que não pode mais ser deixada de lado por qualquer setor social.

O debate iniciou-se com as elucidativas exposições da Profª Maria Emília Monteiro (História) e do Profº Alípio de Sousa Filho (Ciências Sociais), ambos docentes da UFRN.

Numa perspectiva para as drogas, e não contra elas, narrando um pouco do que se poderia chamar, data vênia, de história do preconceito contra a maconha, a professora, enfatizou a questão da proporção de medidas e desmedidas de suas utilizações, destacou a importância do conhecimento dos elementos naturais/vegetais para o homem e da prática da alteração da consciência, tanto para fins lúdicos, quanto para o alívio da dor e do sofrimento, e até mesmo para o que seria uma arte de bem morrer, num alívio gerado pelos psicoativos. Como bem frisou a professora, as drogas não são nem boas nem más. São o que são e servem a isso.

Percorrendo um caminho que vai desde o século XVI até os dias atuais, discutiu-se a gradual associação do africano, negro, escravo, usuário e cultivador da cannabis - já então escoriado - ao pobre arruaceiro (sobretudo com a ação fortificada da imprensa nos anos 50), e mais tarde ao jovem rebelde, já mestiço, dos anos 70. Associação essa racista e que aos poucos vai se enfeitando de atributos, dos mais variados e cuja origem o discurso ideológico esconde como que num passe de mágica.

Nesse percurso, faz-se fundamental destacar o papel das ações proibicionistas e, mais ainda, de suas conseqüências. Essas ações enquanto já institucionalizadas, no transpasse do século XIX para o século XX, repercutem nas mais variadas extremidades do corpo social, atravessando setores desde o narcotráfico à indústria fármaco-química.

É nítido o interesse da indústria farmacêutica no monopólio dos psicoativos, por serem tão eficazes na luta contra o sofrimento. Nesse rol, o proibicionismo é interessante também ao narcotráfico, pois com o aumento da repressão, o preço sobe e os lucros aumentam, além de incluir numa mesma via de acesso drogas como a maconha e o crack, de graus de nocividade tão distantes. E num ciclo vicioso trava-se com o tráfico de drogas uma luta invencível. Chega a parecer óbvio que se o acesso às drogas mais leves fosse facilitado, poderia ser feito um controle bem mais eficaz sobre os usos problemáticos, até mesmo das drogas mais danosas.

Adentrando no tema da liberdade do indivíduo, o professor Alípio, em sua fala intitulada “do triunfo do prazer à escravização perigosa”, pontua certas reflexões acerca de uma aproximação entre a experiência do uso das drogas com o exercício do pensamento livre, da crítica, da razão abstrata, tanto no tocante às modificações de consciência produzidas por ambas as experiências, capazes de nos colocar em outro estágio de compreensão, como quanto às histórias de perseguição.

Nesse sentido, o extraviar-se num pensamento livre – que no caso da atividade intelectual carece de uma re-elaboração posterior, para que se possa por em ordem o caos da criatividade – muito se aproximaria do êxtase das drogas, embora quando desmedidas e a procedendo a maus usos, tanto das drogas como do conhecimento, possam causar danos.

E nem por isso tem fundamentação a proibição do conhecimento. Assim como as drogas, este pode incorrer em usos e abusos. Seria preciso então pensar uma ética de medidas, pensando o aproveitamento dessas experiências, não se podendo esquecer que se o sujeito não é mais capaz de regular suas ações livres quando elas ameaçam sua liberdade, como bem apontado pelo professor Alípio, ele corre seriamente o risco de cair numa escravização perigosa.

Bem, adentrando brevemente em questões técnico-jurídicas (e por isso muitas vezes pouco discutidas nos ambientes menos específicos), apontarei brevemente certos aspectos trazidos pela doutrina do direito penal.

Diz-se que todo crime tem seu sujeito ativo (aquele que pratica a infração) e seu sujeito passivo (aquele que a sofre). Afirma-se ainda que este último engloba formalmente o Estado, que sofre sempre que suas leis são desobedecidas, e um outro, materialmente identificável, ou seja, alguém, ou um grupo de pessoas, ou mesmo a coletividade como um todo.

Percebo-me a indagar: além do Estado – tido formalmente como sujeito passivo de qualquer crime –, quem seria o sujeito passivo no crime cometido por quem “adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar[1]?

Há os que dirão ser a coletividade, tendo em vista os danos causáveis a longo prazo pelo uso desmedido dos psicoativos. Como bem apontado pela professora Maria Emília, esvai-se de fundamento esse argumento contraditório, por tratar-se de uma pobre análise qualitativa, a qual desconsidera a vasta dimensão ritual do consumo de drogas, e baseia-se em casos extremamente problemáticos, que são inclusive numericamente pequenos.

Seria apenas mais um servente das invasões na esfera da autonomia do indivíduo sobre seu próprio corpo, agindo de forma semelhante aos invasivos argumentos da moral.

 Resta muito a ser discutido. Descriminalizar a maconha implica também sua legalização, normalização, enquadramento do uso da droga na norma. No entanto, quando se fala em legalizar a maconha, há toda uma imagem construída de banalização do uso da droga pelos jovens arruaceiros rebeldes… Contudo, ainda que numa análise rápida, porém mais elaborada dos fundamentos sócio-históricos das políticas proibicionistas e de suas consequências, fica claro que políticas para o uso das drogas de forma consciente surtiriam bem melhores efeitos. Cai então no vazio a retórica reacionária do discurso antidrogas.

[1] Art. 28 da lei 11.343/06, a qual institui o sistema de políticas nacionais sobre drogas

O MULTITUDINÁRIO RAIBRITO

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Por Misherlany Gouthier

Raimundo de Brito viveu tudo e mais um pouco em sua extensa caminha ao longo dos seus 90 anos. Andou por Seca e Meca como ele próprio costumava dizer. Curioso por assuntos relacionados à História de sua terra natal – Caraúbas, montou um dos mais ricos arquivos de pesquisa do Rio Grande do Norte.

Pesquisador incansável, metódico, persistente, detalhista, parcimonioso, conviveu com vários momentos da literatura no país. Amealhou grande amizades no campo das letras. Cascudo foi uma dessas culminâncias que nem o Tempo ousa enfrentar. Raimundo Nonato da Silva, Walter Wanderley, Pe. Jorge O’Grady, Helio Galvão, Gil Soares, Veríssimo de Melo, Edgard Barbosa, Nilo Pereira, Jorge Freire, Jaime Hipólito Dantas, Pedro Batista de Melo, Rafael Negreiros, Franklin Jorge, Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado e outros.

Leu tudo que chegou às lentes. Nunca poupou esforços quando o assunto era literatura; o germe da pesquisa está no sangue, repetia quase que diariamente.

Já o disse outras vezes que Raimundo Soares de Brito, é parafraseando Mário de Andrade, trezentos, trezentos e cinqüenta.

Antropologia, Folclore, etnografia, genealogia, memórias, costumes e tradições do patriarcado distante estão constantemente presente nos seus livros. Através da pesquisa de campo, juntado depoimentos os mais diversos cuidou de construir uma obra perdurável e eficiente nos estudos sobre a vida econômica, política, literária e boêmia do Rio Grande do Norte, bem como referência a estudos gerais catalogados ao seu gosto.

“Caraúbas Centenária”, seu primeiro trabalho, revista comemorativa ao centenário da paróquia daquela cidade, foi publicada em 1959. Depois vieram outros títulos para enriquecer a bibliografia potiguar, dentre livros e ensaios.

Estreou na prosa, a bem dizer, com “Eu, Ego e os Outros”, [edição Queima-Bucha], retalhos de suas memórias onde relaciona uma série de tipos folclóricos (ou populares), descrevendo fatos ocorridos durante a sua vivencia em Mossoró, Natal e Fortaleza, sem deixar de lado sua inesquecível Caraúbas.

É um completo romance, carregado de fatos marcantes do viajante sem rumo certo. Um livro interessantíssimo. Um fascínio: texto enxuto, desprezando os arroubos de palavras intragáveis à mente do homem simples e comum; um livro sobremaneira aprazível.

“Páginas Arrancadas”, o segundo volume das memórias de Raimundo Soares de Brito que tive o privilégio de acompanhar cada texto, traduz-se num dos livros de memórias mais deliciosos que já li nos últimos tempos. É a página comovente e fiel da vida sertaneja que o seu autor viveu; é o testemunho fiel daquele que muito soube aproveitar da vida e nunca se deixou esmorecer, mesmo sabendo-se um homem marcado por muitos desencontros…

Personagens como Tia Maria, Mãe Cecília, Ti João, Paulista, Ivanildo, mais conhecido como “Deus”, Zé Caiana, Cambraia, Cascudo, Djalma Maranhão, Professor Lourenço, da Ursulina; um turbilhão de gente que enriquece ainda mais as memórias, então ricas de conhecimentos e vivências do maior pesquisador de Mossoró de todos os tempos. Um relato dos costumes e das tradições de um povo na sua mais profunda maneira de viver. Vale a pena ler as “Páginas Arrancadas” do grande e inesquecível Mestre, Amigo e confidente Raimundo Soares de Brito.

A Prefeitura Municipal de Mossoró e a Coleção Mossoroense, do saudoso Vingt-un Rosado, na pessoa do Dr. Dix-sept Sobrinho, estão de parabéns por terem enfrentado a grande batalha para publicarem este precioso volume das memórias de Raibrito.

O RETRATO DE THOMAS HARDY

domingo, 30 de maio de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Sempre que saio do prédio do King’s College London dou de cara com um retrato de Thomas Hardy (1840-1928). A universidade relaciona Hardy, ao lado de outras celebridades e de ganhadores do prêmio nobel, no rol dos seus ex-dirigentes, ex-professores, ex-alunos, ex-algo. Por isso, o retrato. Andei investigando e parece que ele passou mesmo por lá, por volta de 1860, estudando línguas modernas. Não sei se aprendeu a falar português. Em inglês, como romancista, contista, poeta e dramaturgo, escreveu como poucos.

Mas da última vez que topei com Thomas Hardy, ele estava de cara amarrada. Dizem os mais espiritualizados que ele teria sido informado do caso da vovó americana que, aos 72 anos, namora o neto de 26. O casal ainda está programando ter um filho, a partir de inseminação artificial e de uma barriga de aluguel. E se essa estranha ligação está causando o olhar torto de Hardy (e por que não, o nosso), a vovó parece não estar nem aí para esse furor. Com outro tipo de furor (segundo os maledicentes), ela afirma ter uma vida sexual bem ativa com o neto, que, por sua vez, confessa sua atração por mulheres mais velhas.

Bom, parece que Thomas Hardy não gostou do rumo que as relações afetivas estão hoje tomando. “Mudanças depressa demais e tortuosamente”, teria ele dito. Psicograficamente, claro. Mas logo Hardy, que foi um reformista, inspirado pelas ideias do pensador John Stuart Mill. Ele que casou duas vezes e, em segunda núpcias, com sua secretaria, quase quarenta anos mais jovem.

Hardy que, consciente das mudanças que seu tempo impunha, buscou desmascarar, em sua obra, os muitos tabus (eufemisticamente chamados de convenções) existentes no Século XIX inglês. Tabus esses que, em última medida, só levavam à infelicidade. Ele que ambientou muitos de seus romances na “semi-fictícia” Wessex (inspirada na sua Dorchester de sua infância), exatamente porque nunca sentiu-se à vontade em Londres, onde, apesar de festejado pela crítica literária, era considerado, pela mentalidade conservadora da época, como um escritor “imoral”.

Hardy que, em seus dois últimos romances, “Tess of the d’Urbervilles” e “Jude the Obscure” (obra que, por sua explícita abordagem da sexualidade, foi apelidada de “Jude the Obscene”), assumiu explicitamente o papel de desafiador da hipócrita moralidade sexual de então.

Para se ter uma ideia, em “Tess”, Thomas Hardy denuncia como a sociedade vitoriana tratava com dois pesos e duas medidas as sexualidades feminina e masculina. Ele critica a arcaica exigência da pureza feminina (leia-se virgindade), que, no fundo, foi a causa primeira do desenrolar trágico da vida de Tess Durbeyfield, a heroína que é chamada no subtítulo do romance, com triste ironia, pelo autor e seu único advogado, de “uma pura mulher”.

Nascida em uma pobre família do campo, mas levada pelos delírios de nobreza do pai enlouquecido, ela ambiciosamente sonha com um lugar ao sol. Tess tem em Angel Clare, com quem vem a se casar, o seu verdadeiro amor. Angel credita-se como “um livre pensador”, mas não age como tal. Partindo em seguida para o Brasil (curiosamente), Angel abandona Tess na noite de núpcias quando esta confessa não ser mais virgem, muito embora ele também tenha tido relações sexuais antes do casamento.

Tess teria sido seduzida (para muitos críticos, estuprada) pelo bem-nascido Alec d’Urberville, quando tinha apenas 16 anos. Após anos de infrutíferas tentativas de contato com o marido e uma trágica existência, Tess é novamente seduzida pelo dissimulado Alec e torna-se, para ajudar a família, sua amante. Quando Angel retorna do Brasil, encontra Tess nos braços de Alec. Tess, enlouquecida por seu segundo “erro” e para se ver enfim livre, termina por matar Alec d’Urberville.

O final do romance é exemplar ao denunciar leis (ou regras de moral) absurdas ou, no mínimo, mal interpretadas. Ao descrever a execução de Tess (quando o juiz teria terminado o seu “esporte” para com a executada), Hardy nos mostra a impotência de Angel e Liza-Lu (jovem irmã de Tess) ao ser “feita a justiça”.

Hardy nos sugere a possibilidade de um futuro enlace entre Angel e a virgem Liza-Lu, a Tess “vitorianamente” pura. Apenas sugere, pois, pelas estritas leis da época, desde 1835 (e o final do romance se passa em torno de 1880) era considerado incesto e ilegal na Inglaterra casar-se com a irmã da falecida esposa (uma espécie de ultraconservador incesto por afinidade). A legislação de 1835, após dezenas de mal sucedidas tentativas nos mais de cinquenta anos seguintes (muitas vezes aprovadas na Casa dos comuns e rejeitadas na Casa dos Lordes), só veio a ser reformada em 1906.

“Mas casamento de avó com neto, com a perspectiva de um filho que será, entre outras coisas, tio do pai e bisneto da mãe, já é demais”, teria desabafado o reformista Hardy, segundo me disse um colega afeito a coisas do “outro” mundo.

Não me considero uma pessoa retrógrada, nem tão pouco um revolucionário. Sou um reformista convicto. E aprioristicamente contra tabus, posso dizer. Mas devo concordar com o enfezado Hardy. Talvez a coisa esteja indo rápido demais. Por exemplo, não faz muito tempo, a Procuradoria-Geral da Republica, em uma iniciativa bastante louvada, defendeu nacionalmente o reconhecimento das uniões homoafetivas como entidades familiares.

Mas veio um colega na nossa rede virtual e, mais animado, sugeriu a extensão da iniciativa às relações hoje consideradas incestuosas. Defendia expressamente a legalização do casamento entre irmãos, pais e filhos, “coisinhas simples” assim. Alguns acharam que ele estava brincando. Outros, não. Sei lá, tem doido para tudo. Não teve esse que se juntou com o avô. Ou foi com a avó? Já nem sei mais. Que confusão!

*Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

A VELHA URSA DE PARAÚ

domingo, 30 de maio de 2010

Por Misherlany Gouthier

Já descambava o entardecer no velho e faustoso rio Paraú quando dona Antonieta se preparava para mais uma de suas minguadas noites de sono. Dizia não dormir bem, passava horas da madrugada vigiando as galinhas que tinha no quintal da parca choupana onde pretendia encerrar seus dias de vida. Acreditava piamente em assombrações e dizia ver almas de outros mundos.

Manifestei-lhe minha curiosidade em ouvir estórias mirabolantes sobre vultos encaveirados e pessoas que se transformavam em bichos. Aquilo só pode ser coisa do Demo, sussurrava baixinho enquanto mastigava uns pedaços de biscoito que havia feito para o café da manhã. Já anoitecia, disse-lhe preferi vir no dia seguinte visita-la para lhe anotar a prosa.

Com umas feições pra lá de estranhas, trazia na face uma anomalia congênita: tinha cara de urso. Por esse motivo, dizem, os meninos endiabrados lhe pusera a alcunha de “Velha Ursa”. Ao contrário de muitos, ela não tinha raiva desse epíteto, mas evitava falar sobre o assunto.

Foi uma sobrinha sua que indicara a tia anciã para dar depoimentos sobre essas estórias que o povo na sua complexa religiosidade e no seu folclore de rua criam mundo afora.

Pela manhã os galos já amiudavam quando levantei-me para passar um café amargo. A boca parecia não reconhecer o gosto forte do café. Quase não dormi esta noite pensando nas palavras da Velha Ursa. Demorei-me um instante diante das águas do Paraú que passava por detrás da humilde casinha que encontrei abrigo há dois meses, se muito. Sentia uns beliscões pelo corpo. Era muito cacete viver ali; para mim consistia um paraíso, se não fosse a língua das pessoas…

Dona Antonieta assemelhava-se àquela velhinha que certa vez eu encontrara no Cais da Ilha de Maritaca. Trajava um vestido florido de ipês amarelos, um cachimbo caído no canto da boca, os cabelos encharcados que pareciam arame amarelos devido o peso dos anos. Lá se iam muitos janeiros. Andava arrastando os pés calçados com sapatos de couro de ovelha.

Ali, à beira do ditoso Paraú, rezei um Padre-Nosso e agradeci as maravilhas concedidas no último inverno. O sol despontava radioso. Subi na alimária, um burrico que lhe dei o nome de Jerome, e fui visitar minha entrevistada. De quando m quando o animal parava para sorver um pouco de água nas poças que a chuva havia deixado.

Uma preta que vivia de agourar a vidas das pessoas do rude vilarejo, havia confessado no roçado, pude escutar, que a Velha Ursa seria capaz de se transformar qualquer bicho se assim desejasse. “Ela tem a oração de São Cipriano”, lembrou. Não dei cartaz à conversa daquela mulher, preferi ir conversar com dona Antonieta e verificar se algo dessa natureza lhe tomava o tino.

Já somava dez da manhã quando cheguei ao sítio nas cercanias do Paraú; logo divisei a casa de portão de varas de marmeleiro, chão batido, paredes de taipa. Um silêncio sepulcral tomava conta do ambiente. Alguns gatos se enrolavam com restos de cordão de rede, e sob uma cadeira de palhinha um porco com olhos grandes e avermelhados parecia esconder algo. Chamei pela velha durante alguns minutos. Nenhuma resposta. O animal impaciente e impávido encarou-me com certa intolerância. Não contive o susto, voltei para casa pensando na estória da velha Ursa e no porco que encontrei sentado na cadeira de balanço.

BOLETIM DA COPA 27-05-2010

sábado, 29 de maio de 2010

Por Kinha Costa,
de Joanesburgo, África do Sul

BAFANA GANHA DA COLôMBIA
A BAFANA BAFANA ganhou de 2X1 da Colômbia em amistoso realizado, no último dia 27, no monumental estádio Soccer City, palco de abertura e encerramento da Copa. Os 75 mil ingressos colocados a disposição dos torcedores esgotou rapidinho, prova de que o povo sul-africano está dando aquele apoio à seleção da casa.

Falando em Bafana, tive o prazer de assistir parte do treino-jogo com Orlando Pirates, no campus da Wits, onde a minha filha estuda. Estou fazendo as vezes de guia de turística-futebolística do meu sobrinho e acabei tendo de ser a fotografa da tietagem dele.

Burlando toda a segurança, entrei no campo quando o jogo acabou e pedi ao Parreira somente uma foto, em português. Acabou rolando uma entrevista relâmpago, só que ele era o repórter:

-Você mora aqui?
-Por que?
-O que faz?
Como o tempo era pouco, ficamos nisso, mas espero que a coisa progrida.

AUSTRÁLIA, A PRIMEIRA
A seleção da Austrália foi a primeira a pisar no solo sul-africano. Apesar de o grupo ser bastante difícil, o técnico, Pim Verbeek, está otimista e diz que o seu objetivo, que parece impossível, é passar para a próxima fase.

Uma cena que se tornará normal nos próximos dias: dei de cara com o ônibus que transportava os jogadores para o treino de reconhecimento do estádio, no belo colégio Sint Sthichthian. O ônibus, inconfundível com seus batedores, carros de polícia e sirenas ligadas.

GAUTRAIN BARATO
Muito já se falou, mas parece que agora é pra valer: o Gautrain, trem rápido, vai começar a circular dia 08-06. A passagem aeroporto Internacional O R Tambo-Sandton, vai custar 10 euros. Já foi divulgado que seria bem mais barato, porém continua sendo muito mais em conta do que um táxi fazendo o mesmo percurso, que custa 35 euros.

ROUBO DE CRIANÇAS
A polícia chama a atenção de pais e familiares para cuidarem de suas crianças, porque é possível haver sequestros para fins de tráfico humano e prostituição, no período de preparação e durante a Copa do Mundo.

Informa ainda que nightclubs e áreas de entretenimento são as mais perigosas. As crianças de ruas são as mais vulneráveis, mas idas e vindas de escolas também devem ser controladas. As escolas do país darão férias coletivas durante o período da Copa. Serão cinco semanas. Uma pergunta que anda queimado a cabeça dos pais é: o que fazer com as crianças nessa longa pausa?

SEGURANÇA DAS SELEÇÕES
Ir ao aeroporto esperar a sua seleção preferida pode ser uma perda de tempo. A ACSA – Airports Companhy South África - avisa que preparou facilidades temporárias para separar times e delegados da Fifa do público em geral. As seleções desembarcarão direto nas salas VIPs escoltadas por seguranças, cães farejadores e detetives. A segurança será máxima nos aeroportos, hotéis e campos de treinamentos.

VANDALISMO EM ALEXANDRA
Alex, como é carinhosamente chamada a favela mais velha de Johannesburgo, e como Brasília teimosa, em Natal, resiste a todas as tentativas de removê-la. Ela está encravada no coração financeiro da cidade, Sandton.

Um programa muito legal ligado aos parques e jardins foi equipar mais de 800 parques com telões e outras facilidades pro povão poder assistir os jogos da Copa em grande estilo. Infelizmente, a organização teve que remover o telão de Alex, depois que a televisão sofreu três ataques de vandalismo e a antena parabólica foi roubada. Pena, né?

ÚLTIMOS INGRESSOS
A Fifa anunciou, hoje dia 27, que colocará mais 164 mil ingressos a disposição dos torcedores dentro de 24 horas. Jogos como França X África do Sul, em Bloemfontein e as semifinais irão ficar disponíveis para o grande público.
O povão faz fila na porta do escritório da Fifa em Sandton, apesar do frio de -5Cº durante a noite.

A BANDEIRA NA VERSÃO CALCINHA
A febre da Copa fez o mercado de vendas produzir um produto que está deixando os sul-africanos caretas de cabelos de pé: calcinhas fio dental nas cores da bandeira nacional. Muitos acham que o merchandisers baixou o nível, mas o produto vende como águas nas lojas para adultos ou sexshopping.

COMRADES 2010
A super maratona anual entre Durban e, a capital de Kwazulu-Natal, Pietermatizburg que acontece todo ano no mês de junho, devido à Copa, teve que mudar seu calendário e vai acontecer no domingo dia 30/05. Todo ano a corrida inverte a direção. Esse ano começa na capital, são 89 quilômetros ladeira abaixo. No ano Durban, são 87 km ladeira acima. Os primeiros colocados fazem em média, em seis horas, os mortais variam entre sete e doze horas quando a sirena apita e o portão fecha.

A gente se encontra no próximo boletim.

EIDER FURTADO TOMA POSSE NA ANRL

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Carlos de Miranda Gomes

Hoje, a comunidade potiguar e, em particular, o mundo cultural, recebe na imortalidade da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o ilustre causídico Eider Furtado de Mendonça e Menezes, natalense nascido aos 23 de abril de 1924, filho de Gil Furtado de Mendonça e Menezes e D. Maria Emília Furtado, aos quais homenageou no livro “Audiência de um Tempo vivido” (2004), primeiro de uma série de trabalhos memorialistas.

Iniciou seus estudos com a Professora Águeda de Oliveira Sucupira (Naná), numa escola municipal postada na Av. Rio Branco (local onde o BB construiu sua sede da cidade alta), nos idos de 1931 a 1934, sobre quem dedicou um capítulo especial no seu livro de memórias, alcançando as suas auxiliares D. Helena, Preta e Auta, sobre as quais derrama suas emoções mais caras, aliada a um amor quase filial, incluídas também em suas permanentes orações, acrescentando “Por isso, eu também tenho saudades da minha primeira professorinha”.

Em 1935 foi para o Colégio Pedro Segundo, do Prof. Severino Bezerra de Melo, daí para a escola particular do Prof. Antônio Fagundes, posteriormente o tradicional Atheneu Norteriograndense, em 1937, aos 13 anos de idade, tendo concluído o Colegial em 1944 e, somente em 1955, com 30 anos de idade, submete-se ao vestibular da Faculdade de Direito de Natal.

Bacharel em Direito pela UFRN, 1ª Turma, em 9 de outubro de 1959, denominada “Turma Clóvis Bevilácqua”, paraninfo Edgar Barbosa Aula da saudade Paulo Viveiros.

Em 1968 iniciou o seu magistério universitário, nas lides do Direito Financeiro e Tributário, depois Direito Comercial, Direito do Trabalho e Mercado de Capitais, tendo ainda demonstrado os seus conhecimentos em outras searas do Direito, quando transferido para o Curso de Direito, lotado no Departamento de Direito Privado, até a sua aposentadoria em março de 1991. Recebeu a láurea de “Professor Emérito da URFRN” em 17 de dezembro de 1997.

Sua vida é pontilhada de atividades diversificadas, pois teve papel de relevo na radiofonia potiguar (Diretor da Rádio Poti, ao tempo em que, ainda, Rádio Educadora de Natal), não sem antes, nos idos dos anos 40, integrar, como músico, a Orquestra de Salão daquela rádio e o Quinteto “Alberto Maranhão” e teve passagem pelo teatro amador.

Foi jornalista consagrado e dirigente nas Rádios Poti e Niordeste.

Cidadão exemplar, que reparte o comando de uma bela família com o auxílio indispensável da sua eterna musa D. Helenita, cuja presença é uma constante em todos os momentos de sua vida e a ela dedica incontáveis registros da história de sua vida e sobre quem proclama ter sido a primeira e única namorada.

Na advocacia se orgulha de registrar seu estágio com o famoso causídico Hélio Mamede de Freitas Galvão e chegou a chefiar a Ordem dos Advogados, Seção do Rio Grande do Norte, num pleito memorável, que marcou a transição da velha Instituição para os novos tempos, substituindo o Dr. Claudionor Telógio de Andrade após 20 anos de presidência, ali permanecendo por 8 anos consecutivos (01/02/69 a 01/02/77).

É fiel à sua profissão até os dias presentes, compartilhando o escritório com filhos e netos. O mundo intelectual está de parabéns.

(Homenagem do seu admirador)

BLOOMSDAY 2010 APRESENTA PEÇA DE JOYCE

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Francisco Ivan da Silva*

                               

 

James Joyce, mais uma vez, Joyce; mais, ainda, James Joyce (1882- 1941). E, por que James Joyce? Como é sabido, que este ano, a cidade de Natal, celebra mais um Bloomsday, o inesquecível dia 16 de junho de 1904, um dia de celebração dedicado a Joyce, o autor de Ulysses, o mais trágico, cômico, dramático, derrotado e glorioso romance moderno/contemporâneo. Romance que conta a solitária “aventura” de Bloom durante esse dia de verão, em Dublin, na Irlanda. O gênero encontrou em Joyce a sua definição mais artisticamente moderna.

 

James Joyce inaugura a posição do romancista moderno frente ao gênero do romance, que depois muitos escritores contemporâneos irão absorver, direta e indiretamente, suas inevitáveis e essenciais influências. Ulysses é, na minha opinião, razão e coração da modernidade. E assim o encontraremos no centro da modernidade, em suas excentricidades, de que dentro de uma linguagem barroca, de formas fechadas e abertas em si mesma, formas modernas que soltam em espirais conteúdos antigos/escolásticos, esse personagem aparece.

 

Imediatamente, de repente, encontraremos Leopold Bloom, o Ulisses antigo e moderno, personagem que se abre para o universo da literatura universal. Abrindo-se para o universo, se abre ao mundo de hoje e afirma, mais ainda, a eterna angústia — essa angústia que é a nossa angústia, sempre a nossa; ou de qualquer modo, a nossa angústia.

 

Desde sua publicação, em 1922, em Paris, os críticos e grandes escritores tiveram clara consciência da posição peculiar que esse personagem, Ulysses, chamado Bloom, iria tomar dentro do mundo das artes e da literatura. Digo, mundo das artes, porque Ulysses não se limitou apenas ao espaço da arte literária.

 

Ulysses de Joyce penetrou em todos os campos: o cinema, a dança, a música, o canto, a mídia, o teatro e, de certo modo, Ulysses invadiu a vida humana; penetrou em nossa consciência, penetrou em nosso interior e exterior e definiu nosso papel no espetáculo teatral da vida.

 

Ulysses de Joyce está animado por um plurissignificante papel: os signos verbais, isto é, as palavras tendem a se converter em imagens, imagens sonoras, emblemas, imagens que evocam outras realidades, realidades que viram signos: uma linguagem que traça um périplo, uma passagem entre a realidade vista e o pensado pela mente de Bloom, a imagem da escritura, que cria um personagem novo, um verdadeiro monstro, lembro aqui, o Finnegans Wake, um verdadeiro monstro da palavra: algo que rompe a ordem natural e que nos maravilha e seduz.

 

Este ano, a apresentação da peça, Os Exilados (EXILES), no Teatro Alberto Maranhão, para celebrar o Bloomsday, basta para mostrar que a Obra de James Joyce tem grande recepção na cidade do Natal. Exiles, foi a única peça teatral que James Joyce escreveu. Escrita em 1916, depois de  A Portrait of the Artist as a Young Man e antes de Ulysses, foi vista como linha divisória, watershed, entre Um Retrato… e o grande romance que estaria por vir, o Ulysses. Sob direção de W. B. Yeats foi apresentada no  Abbey Theatre, em Dublin. Em 1970 teve sua maior apresentação em Londres, sob a direção de Harold Penter, no Mermaid Theatre. A peça que é a história de um renomado escritor retornando para Dublin, depois de nove anos de exílio, revela muito da própria experiência de Joyce.

 

As cenas transcorrem no subúrbio de Dublin, na Irlanda; é o verão do ano de 1912. Estamos nós, aqui, no começo do Século XXI; antes de tudo temos que sublinhar, e isto é muito importante, que vista a uma distância de tempo-espaço muito grande, e que dificulta a compreensão do tema apresentado, Exiles produz no expectador  uma rica expectativa, uma complexa impressão de incerteza, de dúvida e melancolia…

 

Parece que seus personagens pedem perdão por seus subterfúgios, por suas suspeitas, por se expressarem através de uma linguagem tão ambígua, mas deixando entrever suas ideias com extremada delicadeza. Certo. É sob a direção de Alex Beigui, artista e professor do Departamento de Artes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que vamos assistir a esse espetáculo, no palco do teatro Alberto Maranhão. E não tenhamos dúvida, cada um dos espetáculos montados do texto joyceano transforma-se em outra obra, em outro texto, em uma metáfora do texto original.

 

Minha expectativa para ver o Joyce em cena, no palco do Alberto Maranhão, começa, exatamente, com esta minha afirmação neste texto.

 

*Prof. Dr. da UFRN e escritor

 

                                       

 

 

                              P R O G R A M A Ç Ã O

 

 

PROMOÇÃO: UFRN – Departamentos e Artes e Letras do CCHLA e Pro - Reitoria de Pesquisa 

 

COORDENAÇÃO GERAL: Francisco Ivan da Silva, Alex Beigui

 

 

Data: 16 de junho

 

 9:30 h – Leitura Dramática do texto original da peça, Exiles, de James Joyce.

 Local: Sala Jesiel Figueiredo – Dep. Artes/UFRN

                           Coordenação: Profª Dª Ana Graça Canan

 

14:00 h – Mostra de Videos sobre a Irlanda e a Obra de James Joyce.

15:30 h – Palestra: Os Exilados, de James Joyce

               Profª Dª Sandra Erickson

               Local: Sala Jesiel Figueiredo – Dep. Artes/UFRN                     

               Coordenação: Profª Dª Maria Helena Vaz Costa

 

20:00h –Apresentação da peça, Os Exilados, de James Joyce.

              Local: Teatro Alberto Maranhão

              Direção: Prof. Dr. Alex Beigui