Por Pedro Simões Neto*
“Amigo é aquele que no seu silêncio, escuta o silêncio do outro” (Provérbio judeu)
Os que são devotados às amizades, já têm um capital inicial considerável: são todos anjos. A partir daí, evoluem até a gradação maior de arcanjos, permanecem onde estão, ou podem se converter em anjos caídos, que nem Lúcifer.
Armando Roberto Holanda Leite, a quem eu chamo de Beto, acrescentando, nas ocasiões mais solenes, o aditivo de “Seu Paulo da Farmácia”, numa alusão ao seu pai, é arcanjo. Mais que isso, é o irmão que eu não tive. Dizem os produtores de bons clichês que o verdadeiro amigo é como se fora um irmão com a vantagem de ter sido escolhido por nós para o posto. Pois é assim mesmo.
Comparo sempre Armando à minha irmã Joventina : são arcanjos-paradigma. Quem os tiver como amigos, contarão com alguém que fica sempre por perto quando os outros se vão ou desistem.
E ele está sempre por perto, montando guarda numa atalaia às vezes solitária, solidário, arrimo silencioso, aquele que oferece o ombro, sem dizer uma única palavra, certamente por entendê-las supérfluas, ociosas, inúteis. Foi assim quando perdi o meu pai, o ser humano que mais amei neste planeta; quando meu primeiro casamento se dissolveu e me vi destituído da companhia dos filhos; quando lançaram-me á infâmia, com acusações forjadas, no intuito de inviabilizarem qualquer projeto que pudesse ter acalentado; quando me exilei voluntariamente em Ceará-Mirim, convalescente de uma cirurgia de revascularização; quando constituí nova família… enfim, nunca me deixou na orfandade fraterna.
Um amigo assim constitui o maior patrimônio que um ser humano pode dispor.
Mas, digo, tomando de empréstimo a sabedoria popular: ninguém é bom porque é meu amigo; é meu amigo exatamente por ser bom. Beto é meu amigo porque é bom… mas não perfeito. Recebo com desconfiança a amizade dos seres gravados apenas pelas virtuosidades, sem defeitos, sem o condimento picante de algumas imperfeições que não os desconstroem, mas os singularizam e dão-lhes a feição humana perceptível, evidente, visível. Ao invés, os muito virtuosos se assemelham à lua ou aos icebergs – mantêm invisível uma das faces, ou a parte mais ofensiva de sua estrutura. Exatamente porque são ilegíveis por nós, míseros mortais, “indecodificáveis”, porque não há um paradigma humano.
Penso como seria Armando sem os seus defeitos…algo insosso, insalubre, fosco. Sem a sua “verve” um tanto cáustica, o seu imperialismo afetivo que desconstitui quaisquer outros liames paralelos, sem a franqueza, cortante como uma adaga afiada, mas sempre oportuna, dando razão ao adágio segundo o qual os amigos devem dizer o que precisamos ouvir e não o que queremos ouvir.
Para agradar e concordar sempre conosco, podemos adotar um bajulador, ou uma lagartixa.
É um tanto desajeitado nos agrados, tal outro amigo querido, Jussier Magalhães, cirurgião plástico e dos maiores pintores do nosso estado, convocado por Deus para o Seu Reino. Entendia o sem-jeito de Jussier e entendo o de Armando. As almas muito sensíveis, precisam resguardar o seu carinho, porque se vulnerabilizam, tal como se expusessem as suas “fraturas”, correndo o risco de que alguém, valendo-se dessa fragilidade, ponha o dedo na ferida. Por isso, preservam-se, adotando uma carapaça de indiferença ou de rudeza no ofício do carinho, que as protege, afastando os predadores.
E, por mais dureza que amostre a sua armadura, ela é como a concha em relação à ostra. E Beto vive em permanente transição, entre a ostra e a pérola.
Outro traço marcante na personalidade do meu amigo, consiste no fato de que ele foi fatalizado a viver togado. Antes de me tornar seu amigo, e conhecê-lo mais intimamente, dava-me a impressão de que dormia de paletó e gravata, e, sob certas circunstâncias, envergando uma toga forense, apesar de não ser formalista. Era o seu jeito de ser, de encarnar o profissional do direito que se abrigava nele vinte e quatro horas por dia. Nasceu advogado e será assim toda a vida, sem a franquia da aposentadoria.
Foi Professor de Direito, com Mestrado realizado na PUC de São Paulo, Promotor, Procurador da República e, nessa condição, Procurador Regional Eleitoral junto ao TRE e Chefe da Procuradoria, Consultor Jurídico do Estado, Advogado militante, titular de uma das maiores bancas do Estado do Rio Grande do Norte. Jamais se afastou da carreira que elegeu como o seu norte profissional e existencial.
Acredita no pontificado e na liturgia do Direito, como crê na sua própria existência, rememorada a cada momento na carnadura e na alma imortal, testemunhos da vitalidade perene, mesmo quando cessa a vida temporal. E nada lhe é mais prazeroso do que o envolvimento com as pesquisas, os arrazoados e os leguleios jurídicos, sobretudo quando oferecem um nível maior de complexidade. É, sobretudo, (valham os céus) um workaholic, uma criatura fascinada pelo seu trabalho.
A bem da verdade, de uns tempos para cá, abriu um espaço para si mesmo, entre um e outro trabalho. Vai a restaurantes, viaja pelo Brasil e alhures, freqüenta mais amiúde os filhos, faz hidroginástica, ouve música, vai a shows, e visita compulsivamente os “marchand de tableaux” à procura de telas que o encantem. Não reprime mais o riso, agora tornado público, que soa entre o brejeiro e o zombeteiro, antes reservado para os amigos mais íntimos. Nem sovina os comentários cheios de graça, improvisados, “na ponta da língua” sobre os personagens incômodos ou pitorescos da nossa aldeia.
É dele o comentário rápido e chistoso sobre uma pessoa notoriamente estabanada: “ela é doida e pensa que é alegre”. Mas, além do trabalho, o seu maior “hobby” é colecionar amigos… “que valham a pena”, acrescenta, sempre que me refiro a essa particularidade.
Faz profissão de fé na “intriga do bem”, predicado que Cascudo alçava ao mesmo nível das virtudes teologais, embora o considerasse raro. Entusiasma-se quando defende a integridade alheia ou transmite o testemunho de um elogio ao beneficiário.
É um vitorioso, e não por gratuidade ou favorecimento, mas porque é um combatente inato, um guerreiro implacável, mas leal, desses que dizem ao seu oponente que vão atacá-lo, e até indica o local do ataque. Um samurai, capaz de pelejar indefinidamente, com uma vantagem moral sobre o guerreiro japonês: jamais cometerá o “seppuku” na eventualidade da derrota, porque permanece no combate mesmo quando é derrotado. Recuar, talvez, mas nunca fugir da liça.
Ninguém é tão equilibrado entre os extremos como ele, exatamente porque oscila entre os opostos, o “ying” e o “yang”. Ou é ou não é. É amigo ou desafeto, não há meio termo… nem capitulações. É carne ou peixe. Não usa panos quentes, nem se serve das palavras com guardanapos de linho, para usar uma feliz metáfora de um ilustre Macaibense. Oferece a mão ao caído, deixa que utilizem o seu ombro, despoja-se em favor do necessitado, mas não é morno.
Universal, é bem informado sobre a “aldeia global” e conhece o mundo. Tem gosto refinado: gosta de bons vinhos e de artes plásticas. Possui expressivo acervo de obras de Newton Navarro, em sua melhor fase. No entanto, mantém Macaíba, a cidade de sua infância, lá dentro do peito, guardadinha, a salvo do pandemônio da globalização.
Por isso não nos causa nenhuma estranheza quando, convocado para o café da manhã, ou o almoço, provoca a comadre Jailza, minha mulher: só vou se tiver tapioca, cuscuz, mungunzá, guiné, farofa d´água…!
Mantém uma distância respeitosa do computador, não o teme, nem o reverencia, tem-no como um mal necessário. Em suas relações com esse complicado instrumento de trabalho, utiliza Mércia, a sua fiel e eficiente auxiliar, como uma espécie de “médium”, a que incorpora as mensagens do etéreo e as converte em algo inteligível. Prefere mesmo a sua inestimável máquina de escrever IBM elétrica, adquirida como inimaginável avanço tecnológico nos anos setenta. “É suficiente” – arremata – “para um menino de Macaíba que escrevia a lápis com certa dificuldade… já é muita coisa”. (Nesse aspecto, lembra-me outro grande amigo, o escritor e desembargador aposentado, Manoel Onofre de Souza Júnior, meu colega de turma, que supera Armando na fidelidade aos anos dourados: usa uma Olivetti mecânica e explica que a sua serventia contribui para a formação de um acervo histórico e auxilia o trabalho dos pesquisadores)
É afoito. Certo dia me procurou e disse que precisava de um parecer sobre matéria cível, para apoiar uma tese num dos seus arrazoados. Disse-me que buscou a opinião de um dos mais festejados civilistas do país e que recebera um documento óbvio, considerando-se os magistérios reconhecidamente brilhantes do mestre jurisconsulto. Pediu-me que eu o fizesse, pois tinha certeza de que seria melhor que o elaborado pelo douto professor.
Com certa relutância e muita insegurança, aceitei o encargo, para atender ao amigo. Nunca me dediquei com tanta devoção a um trabalho. Trabalhei com ardor, febril, atento, analítico, minucioso. Dois dias depois o entreguei. Armando leu, degustou, saboreou e, silenciosamente, abraçou-me dizendo que era o que queria.
Deus concedeu-lhe duas mães. A legítima, Dona Tetê, que o aguardava em Macaíba nos fins de semana, nas férias, vindo do Marista e depois da Faculdade de Direito, e Tia Ana, que o acolhia em Natal. Deu-lhe um pai que valia por dois, um homem com virtudes acima da média, bom amigo, caridoso, pacífico, conciliador, generoso. E três irmãs: Ana Rosa (a mais velha), Adala Rejane (Nani) e Andréa, a mais nova, juiza de direito. Floresceram-lhe cinco filhos, bonitos e valiosos, por ordem de idade: Henrique, Hugo, Haroldo, Paulinho e Beatriz, final de rama e única mulher, preciso dizer mais alguma coisa? Um casal de netos – por merecimento, não por antiguidade.
Sem nenhum demérito para uma família tão rica e tão devotada uns aos outros, destaco, por minha conta e risco, a figura de Tia Ana. Que acolheu, além de Beto, sua irmã Ana Rosa e dedicou-se a outra parente, Deijair Henrique Borges, minha amiga, ex-diretora e professora da Escola de Música da UFRN.
Não sei porque, quando via Tia Ana, lembrava-me de uma mamãe Noel – coisas de quem tem a mente muito fértil e consegue “ver” com os olhos da alma. De pele alva, como os habitantes da fantástica terra de São Nicolau, alguma coisa de avermelhada nas bochechas, lembrava-me uma maçã. O conjunto era de uma harmonia indiciadora – era uma fada-madrinha. Para Beto, era uma mãe-avó, com todos os predicados da mãe e uma cobertura caramelizada da avó.
Mas não a imaginem complacente, dessas que querem barganhar a afeição dos filhos-netos com excessiva tolerância. Ao invés, ensinou disciplina e estoicismo, o desprezo pelas facilidades, que, como dizem os americanos “easy come, easy go” e o valor da luta na perseguição e conquista dos sonhos. Ensinou-lhe, também, que muitas vezes não é a reta a menor distância entre dois pontos. Haveria que se planejar a caminhada, muitas vezes tomando veredas e caminhos vicinais pedregosos, íngremes e movediços E a perseverar.
Como passava a maior parte do tempo com a Tia Ana, foi com esses ensinamentos que se tornou adulto, curtido para as batalhas que se apresentariam no seu dia-a-dia, comum a todos os meninos nascidos na pobreza digna, com vontade de ter uma identidade e um lugar sob o sol.
Por formação, era o que classificávamos, na Faculdade de Direito dos anos sessenta, um integrante da “direita”, isto é, todos os que não participavam da “frente única” que reunia os comunistas, os cripto-comunistas e os simpatizantes - a gente da esquerda. Eu mesmo reuni alguns amigos sob uma organização informal que chamávamos de MEI (Movimento de Esquerda Independente), participantes da frente única, mas eqüidistantes, tanto quanto possível da radicalização reducionista.
Pois bem, mesmo com a genuína ojeriza que os “direitistas” devotavam à turma da esquerda, Armando foi a única ajuda com que contou um nosso colega advogado, professor da UFRN, quando este foi alcançado pelos atos de exceção. O nosso Beto socorreu a família inteira até quando a vítima do ato institucional foi reabilitado. Porque não distinguia os amigos entre “esquerdos” e “direitos”, mas segundo a doutrina do afeto e a exigência da sua necessidade. Sei de dezenas de casos como esse, do efetivo apoio material, da indispensável solidariedade no momento do desespero. Nem era necessário o grito, o pedido de socorro, ou o constrangimento do pedido de esmola. Beto possui um rastreador que o mantém “antenado” nos seus amigos.
Como no ditado judaico que secunda o título, ele, no seu silêncio, escuta o silêncio do irmão aflito.
Um parente distante, beneficiário de uma aposentadoria por invalidez, cuja renda o inabilitava à sobrevivência, certo dia viu-se sem condições de pagar o aluguel de uma casa para morar. Armando cedeu-lhe um dos seus imóveis e me pediu para fazer a entrega das chaves ao beneficiário, encarecendo que o fizesse entender que o agradecimento não seria bem-vindo. Ele se sente constrangido, sem jeito, embaraçado com as demonstrações de gratidão. Apressa-se em explicar que tem receio de que o seu gesto seja entendido como uma esmola. Se pudesse, faria como os espíritas, para quem “a mão esquerda não deve saber o que faz a direita”.
Afora os pais e a Tia Ana, talvez a sua maior devoção, corresponde à contribuição mais marcante na sua vida profissional - o Professor Múcio Vilar Ribeiro Dantas, de quem foi auxiliar e o teve como orientador nos primeiros movimentos da advocacia. Ele se considera filho intelectual do grande mestre e dele herdou a inflexibilidade nas questões ético-jurídicas, a feição polêmica e o desvelado amor ao Direito. Para não perder o norte assinalado pelo ícone, cultiva uma relação fraterna com o talentoso filho do seu mestre, Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, a quem credita a mesma vocação para a ciência jurídica e o mesmo aprumo intelectual do seu pai.
Quando estava concluindo este perfil, Maria, minha filha mais nova, afilhada de Armando, pergunta o que estou fazendo. Quando a informei, ela me recriminou: “Eu sou a pessoa mais ligada a ele. Sou a sua afilhada e o chamo de tio. Por que não fui chamada para dar a minha opinião?”. Perguntei-lhe, então, qual era. “Ele é a pessoa de mais alto astral que eu conheço”.
Nada mais foi dito, nem perguntado.
*Professor de Direito aposentado, advogado e escritor