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O COMPLEXO DE VIRA-LATA

domingo, 6 de junho de 2010

Por Luiz Costa Lima, do Site Sibila

A cena veio-me à lembrança quando há poucos dias, ao ligar a TV, deparei-me com um programa – não uma notícia – sobre uma recém-publicada biografia de Clarice Lispector.

Mas há um Nelson Rodrigues insuperável: aquele que nos definiu como perseguidos pelo complexo de vira-lata. Complexo que se manifesta pela sensação de que não suportamos comparação, pois logo nos vemos como evidentemente inferiores. As provas da qualidade do achado são inúmeras. Recorro às que de imediato me vêm à cabeça.

Em suas memórias, um autor hoje quase desconhecido, Gilberto Amado (1887-1969), recorda que, no começo de carreira diplomática, ao chegar ao hotel em que deveria se hospedar, em cidade holandesa, impressionou-se com a elegância dos porteiros. Tamanhos fraques e casacas cheias de tantos botões dourados lhe pareceram prova de que se defrontava com autoridades, ante as quais havia de prestar os sinais de consideração que aprendera estarem reservados a elas. Ao testemunho de décadas passadas acrescento um recentíssimo.

Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito.

Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês.

A cena veio-me à lembrança quando há poucos dias, ao ligar a TV, deparei-me com um programa – não uma notícia – sobre uma recém-publicada biografia de Clarice Lispector. Dela já havia tomado conhecimento. Tanto o The New York Times como a The New York Review of Books publicaram longos e elogiosos artigos sobre a biografia.

O artigo da segunda a chama de “esplendidamente pesquisada” e assinala que seu autor refizera o percurso de vida de Clarice, viajando pelos lugares onde ela havia estado. Ante tal cobertura, detalhada e capaz de satisfazer às questões dos mais diversos leitores, a matéria televisiva era uma obra-prima de chavões. Repetiam-se histórias duvidosas e anedotas conhecidas; que Clarice escrevia um português que nunca alguém escrevera, que ironizava ou se enfurecia contra os que falavam de sua obra de uma maneira tão “teórica” que ela própria não entendia.

Pouco importava aos responsáveis pela matéria que um pouco antes tanto se reiterasse que ela dizia não entender a si mesma. Ora, se assim sucedia – por certo, compreenda-se, please, tal era sua complexidade íntima –, como haveria de entender o que estranhos dissessem sobre ela? Muito bem. Mas, afinal, onde nisso tudo está o complexo de vira-lata?

Por certo, ele não está em que nossos jornalistas se rejubilem com o êxito da biografia de um escritor brasileiro. É tão raro que sejamos nomeados mais do que pela trinca “café – Carnaval – Pelé” que a notícia deverá ter vida longa. Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. É bem o caso.

Em 2008, a Edusp publicava, em edição graficamente preciosa, a Clarice fotobiografia de Nádia Gotlib. Seria injusto alegar que a obra não teve resenhas ou não tenha circulado ou não tenha sido reconhecida. Em suma, que não se tenha sabido dela. Mas nada semelhante ao que agora sucede com o jovem autor norte-americano – por certo, em vésperas de ser traduzido.
Lembremo-nos então do critério de pontuação ressaltado pelo especialista em publicações acadêmicas.

Nosso complexo de vira-lata não faz por menos: entre um produto escrito e editado no Brasil e outro, surgido em país de língua estrangeira, como duvidar do que merece maior reconhecimento?
Não que se duvide do ganho para a cultura nacional, em que autor e/ou obras suas ganhem espaço além das fronteiras. Mas qual a significação efetiva desse espaço se, internamente, encaramos nosso interlocutor com desconfiança se nele não reconhecemos o repetidor de alguma coisa antes legitimada lá fora?

KINHA ESTRÉIA NO NOVO JORNAL

sábado, 5 de junho de 2010

Por Franklin Jorge

A escritora e jornalista Kinha Costa estréia, neste domingo, nas páginas do Novo Jornal, escrevendo direto de Johanesburgo sobre a Copa do Mundo que se realiza na África. Colaboradora desta página, onde tem publicado seus Boletins da Copa, Kinha produzirá um material que se beneficiará de sua longa vivencia na África do Sul.

Nascida em Caicó, na Serra da Formiga, Kinha é autora de um texto leve e espirituoso que certamente despertará a atenção dos leitores do jornal.

O QUE CABRAL TEM A ENSINAR AOS POETAS

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Algumas dessas lições do escritor pernambucano estão sintetizadas em sua última e maior entrevista

Por Luis Dolhnikoff,
da revista Sibila

1. A persistência do lirismo
A diluição de estilemas de João Cabral de Melo Neto, que chamo de “cabralismo”, não é um evento raro na poesia brasileira contemporânea. Mas se imitar Cabral não é algo que deva ser tentado, pela inferioridade necessária da cópia, há, em compensação, outras lições que ainda podem e devem ser com ele aprendidas, principalmente por terem sido, ao contrário do “cabralismo”, persistentemente ignoradas. Algumas estão sintetizadas em sua última e maior entrevista.

A poesia brasileira sempre foi preponderantemente lírica. Mesmo um poeta pouco lírico, como Carlos Drummond, tem momentos de lirismo. Murilo era um lírico. Jorge de Lima era um lírico. Mário de Andrade era um lírico. Manuel Bandeira era um lírico. Vinicius de Moraes era um lírico. Cecília Meireles [1901-1964] era uma lírica. O Carlos Drummond era o menos lírico. Mas assim mesmo tem momentos de lirismo.

Por isso é que a influência maior que eu tive foi de Carlos Drummond. Na literatura brasileira Carlos Drummond foi meu grande mestre. Aquela poesia prosaica, direta, compreende? Só que ele de vez em quando cai no discursivo, cai na prosa discursiva. Eu nunca caí no discursivo. (“Conversas com o poeta João Cabral de Melo Neto”, entrevista a Bebeto Abrantes, in sibila.com.br/images/stories/joaocabral/Joao_cabral_revista.pdf, pp. 67-68 [grifo nosso])

Vindo do maior poeta brasileiro, e envolvendo praticamente todos os demais grandes poetas do país no século XX, a observação de Cabral nada tem de trivial, apesar mesmo do que possa ter de familiar: se a poesia brasileira sempre foi preponderantemente lírica, é provável que ainda o seja, pois fortes tendências históricas não se dissipam facilmente.

A longuíssima tradição lírica ocidental teve seus principais parâmetros estabelecidos já pelo primeiro poeta lírico, Arquíloco de Paros, no século VII a.C. – quepor isso “ocupa un lugar destacado en la historia de la literatura griega: representa la irrupción de la personalidad individual”.[1] O lirismo, em termos gramaticais, é a poesia da primeira pessoa do singular. Acompanhando a substituição gramatical do ele épico pelo eu lírico, Arquíloco, em termos formais, troca o hexâmetro épico pelo popular pentâmetro, enquanto, tematicamente, abandona a pólis, o mito e o civismo pelo indivíduo, o realismo e o egoísmo:

Algum saio do escudo se orgulha:
sem querer, larguei-o num arbusto.
Salvei, porém, a minha vida. Perca-se:
logo conseguirei outro igual.[2]

Mas o lirismo não foi, apesar de tudo, sempre dominante. Na poesia latina predominava, senso lato, a poesia cívica (apesar de não na forma épica), da qual a satírica é a contrafação: trata-se, como regra, de uma poesia centrada na terceira pessoa.

Na Idade Média, também são poesia da terceira pessoa os cancioneiros, com seus heróis de cavalaria e histórias de santos. A poesia da primeira pessoa retorna com força apenas às portas da modernidade, com os provençais.

Mas aqui é preciso cautela: os poetas provençais não são verdadeiros líricos, pois se usam a primeira pessoa e, mais ainda, a nomeação do próprio poeta no poema, o fazem de maneira convencional. Apesar de poder haver elementos biográficos, mesmos estes servem à construção poética de uma persona.

O poema é uma peça de propaganda de seu autor, não um sincero relato de sua dor (com o perdão da rima fácil). Procedimento equivalente domina a poesia dos séculos XVII e XVIII, em que é comum o poeta adotar explicitamente sua persona, como o Dirceu de Tomás Antonio Gonzaga. O convencional só se torna realmente confessional no romantismo.

O romantismo foi, fundamentalmente, uma reação aos dois maiores eventos do final do século XVIII, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Ou seja, uma reação ao utilitarismo, ao cientificismo, ao mercantilismo, ao iluminismo e ao racionalismo.

Esse grande e poderoso conjunto de ismos seria então contraposto ao ismo predominante da cultura ocidental, o individualismo, na forma da “livre expressão da personalidade do poeta”. Lirismo na mais pura acepção.

A partir do simbolismo, herdeiro do romantismo, essa “livre expressão” lírica afinal transborda da gramática e do tema para a forma. Parodiando Maiakóvski, assim como não há arte revolucionária sem forma revolucionária, não há arte pessoal sem forma pessoal. Daí o simbolismo começar a romper com as formas fixas – o que seria afinal completado pelo modernismo.

O modernismo opera então um desvio de causas e um aprofundamento de efeitos. O que no simbolismo era busca de expressão individual se torna uma recusa deliberada das formas consagradas – em função da grande crise moderna (que começa a tomar forma manifesta na Primeira Guerra) e das profundas mudanças impostas pelo capitalismo industrial e pela urbanização. O modernismo, porém, não leva essa recusa das formas clássicas até a dimensão gramatical.

No máximo, estranha e refrata o eu lírico através da ironia (da qual Oswald, Bandeira e Drummond são casos exemplares), porém não o questiona de fato, muito menos o elimina.

A filha do [Alfredo] Valadão tinha um gravador, Vinicius ia cantando e ela ia gravando. Vinicius cantava aquelas coisas bossa-nova, aquela coisa toda, falando sempre em coração. Aí, na gravação [...] se ouve minha voz no fundo da sala dizendo: “Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?”. (idem, p. 69)

O lirismo, de fato, canta as vísceras do poeta, incluindo a maior delas, o cérebro, que no modernismo substitui o coração romântico (com exceção da música popular, que por ser popular, tende a ser conservadora). O exemplo maior – em mais de um sentido – do lírico cerebral, ou modernista, é Fernando Pessoa, para quem um eu lírico apenas já não era suficiente.

2. A insuficiência do lirismo contemporâneo
Na poesia brasileira, a grande ruptura com a tradição lírica terá de esperar pelo concretismo e pelo antilirismo de Cabral. Os que não compreendem suas afinidades, não vendo o que a obra em versos metrificados e rimados de Cabral tem afinal a ver com o movimento que decretou a morte do verso, não se dão conta do outro aspecto fundamental da obra cabralina, que tem tudo a ver com o concretismo: a concretude.

A literatura espanhola é a mais concreta que há. Foi isso que me seduziu, porque eu sempre procurei fazer uma poesia concreta, quer dizer, com predominância dos vocábulos concretos. Quando cheguei na Espanha e conheci bem a literatura espanhola é que eu vi que ela é a literatura mais concreta do mundo. A literatura menos abstrata do mundo.

Eu dou um exemplo a você. No poema do Cid tem um momento em que há um choque de cavaleiros cristãos e cavaleiros mouros; morre muita gente e muitos cavalos correm disparados. Então, sabe como o autor diz isso, que muitos cavalos fugiram disparados? “Muitos cavalos fugiram sem seus donos.” [...] É uma descrição inteiramente concreta. [...] Uma coisa de cinema. (idem, p. 21 [grifo nosso])

Descrição concreta, coisa de cinema: imagem, não no sentido metafórico, mas visual (sentido dominante também no concretismo). O poema descreve, não o que poeta sente ou pensa, mas o que vê. O que se vê são coisas. Coisas reais.

A grande questão que esse quadro histórico coloca para a poesia brasileira contemporânea é saber se, depois de tal ruptura tardia, houve, de modo preponderante, um aprofundamento do “concretudismo” ou se, ao contrário, deu-se a persistência do lirismo – e, neste caso, em que condições.

Antes, porém, de continuar, é preciso harmonizar a nomenclatura. O primeiro termo da equação pode muito bem ser substituído por objetivismo, e o segundo, por subjetivismo. Pois Cabral considera uma poesia “concreta” quando é pouco abstrata.

Como abstrato, denotativamente, significa separado do referente, concreto significa ligado ao referente – ou seja, ao objeto. Daí poder ser sinônimo de objetivismo. O lirismo que ele critica, ao contrário, é ligado às “vísceras” do poeta – o que não deixa de ser um modo de abstrair o mundo exterior. Daí o subjetivismo.

A partir dos anos 80, com o fim das últimas grandes referências teóricas, formais e ideológicas, a poesia sofre um profundo processo de atomização. Nesse processo, qualquer dimensão objetivo-social, ainda marcante nos derradeiros movimentos poéticos, que se debatiam, grosso modo, entre a forma útil (concretismo) e o conteúdo útil (poesia engajada), é perdida, e substituída por um individualismo intenso, mas fraco.

Individualismo fraco, em primeiro lugar, porque depois do modernismo não é mais possível o desafiante subjetivismo romântico-simbolista; e em segundo lugar, porque a cultura ocidental não parece mais capaz de gerar grandes individualidades, como Whitman e Pessoa. Esse individualismo fraco contemporâneo, então, adota um substituto do lirismo que é o solipsismo.

O solipsismo está para o lirismo assim como o idiossincrático está para o individual.
Uma poesia solipsista, tão próxima do próprio poeta quanto distante do mundo, tende a ser fortemente abstratizante. Operam-se portanto vários mecanismos de afastamento da palavra de seu referente – mecanismo fundamental do “abstracionismo” verbal –, como a metaforização, a conotação arbitrária, o sentido privado ou grupal, o enfraquecimento semântico do clichê.

O abandono do eu lírico histórico defendido por Cabral não se revelou, afinal, um caminho para a concretude, mas, ao contrário, para o solipsismo abstratizante: se a recusa do eu lírico romântico-simbolista-modernista é condição necessária para a intensificação da concretude em poesia (e para um possível incremento de sua relevância), não é condição suficiente.

“Toda grande obra de arte, no fundo, é realista”, disse Pound. Afirmação compreensível se se entender realismo como o oposto do abstracionismo – que pôde e pode oferecer muito às artes plásticas, ou ser a única condição da música instrumental (pois notas musicais são autorreferentes), mas pouco ou nada tem a dizer à poesia, uma arte verbal, ou seja, congenitamente referente. Principalmente depois do fim histórico do eu lírico forte.

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[1] Francisco Adrados, Líricos griegos, Barcelona, Alma Mater, 1956, p. 3.
[2] Arquíloco, Fragmentos, tradução L.D., São Paulo, Olavobrás, 1989, s. n. p. (“saio” refere-se a um povo bárbaro).

AS PARCERIAS*

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por João da Mata Costa

Quando sou ou escrevo nunca sou eu mesmo. Mário de Andrade era mais que trezentos “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. Fernando Pessoa precisou se multiplicar em vários heterônimos. Numa deliciosa crônica do Fernando Veríssimo quem fica bêbado é o outro; o Rubens. Bouvard precisa de Pécuchet, o Quixote de Sancho e eu, acredito na “transmigração das almas”, mesmo sem saber o que é.

Na História da literatura essas parcerias são muitas e decisivas. O meu ego desaparece um pouco para o outro existir. Alguns escritores até se escondem atrás do seu Ghost-Writer, editor, agente literário ou colaborador. A Imaginação de Julio Verne muitas vezes não era suficiente para concluir o livro e pedia socorro ao seu editor.

Colette, amante de Flaubert, manteve uma parceria mais ortodoxa com o seu primeiro marido Henry Gaulthier-Villars, conhecido por Willy. O Infiel Willy assinava os textos de Colette e montou uma criativa estratégia de marketing para vender os livros da sua mulher, posta reclusa.

O Primeiro livro dessa parceria foi “Claudine à L’ École” e mais três “Claudines”. O esquema montado por Willy ostentava em todos os prostíbulos de Paris uma Claudine residente e havia loções, gelados, roupas, cigarros, perfumes, pó-de-arroz e postais com a imagem de Claudine, a mulher criança, perversa e ingênua ao mesmo tempo, natural e super-produzida.

Através dessa personagem, Colette descreveu magistralmente as experiências simultaneamente eróticas e violentas que as raparigas experimentam” … essas neuroses da puberdade, o hábito de comer barro e carvão, de ler livros indecentes e de espetar alfinetes nas mãos” (As Meninas Exemplares /por Helena Vasconcelos. Colette, A Monstruosa Inocência.

A grande produção de Alexandre Dumas não foi solitária, e teve a participação de Auguste Maquet. Os grandes best-sellers “Os três Mosqueteiros” e o “Conde de Monte Cristo” assinados por Dumas teve a participação do Maquet. E assim acontece aos montes na historia da literatura, nas artes e ciências. A falta de ética e escrúpulos também freqüenta o fazer literário e as glórias muitas vezes escondem os fantasmas de muitos escritores criativos e anônimos.

Outra grande parceria da literatura se deu entre os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Parceria que rendeu muitos livros de crônicas, antologias e roteiros para cinema. A parceria entre o autor de “A invenção de Morel” e Borges começou em 1942 sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq, em alusão ao famoso conhaque apreciado pelos escritores e ao nome de ancestrais comuns a eles.

O primeiro livro dessa parceria foi “Seis problemas para Don Isidro Parodi (1942). Em 1946 eles escrevem “Dos fantasias memorables “ e “Un Modelo para la muerte”. Com Borges já acometido de cegueira, eles escreveram outros livros de histórias policiais “Crônicas de Bustos Domecq” (1967) e “Novos Contos de Bustos Domecq” (1977).

As crônicas escritas por Domecq são artigos sobre artistas imaginários e foram dedicadas “A esses três grandes esquecidos: Picasso, Joyce, Le Corbusier”. Borges gostava de imaginar lugares, enciclopédias e pessoas.

Na literatura fantástica não há um compromisso com o factual e real e a imaginação pode criar as mais estapafúrdias e incongruentes situações. Quem escreve é um terceiro escritor que se multiplica eternamente por entre espelhos e miragens que causam uma ilusão de verossemelhança e beleza que só a grande literatura pode proporcionar.

Casares não foi um escritor excepcional e sua parceria com o grande escritor Jorge Luis Borges renderam bons frutos. Morto em Março de 1999, escreveu outros livros e foi muito mais que um parceiro de Borges. Escreveu ainda “Diário de la guerra del cerdo”, “Dorme ao Sol” e “Sonho dos Heróis” (Cosacnaify), e outros livros de antologias em parceria com Borges e Silvina Ocampo - a grande escritora e biógrafa de Borges, de uma imaginação fértil e fantasias inesgotáveis. A parceria Borges-ABC (Casares) é uma das mais profícuas da literatura e num concerto a quatro mãos eles realizam o milagre da criação com se um fora:

“A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que os dois seja um”, sentencia Borges.

No cinema eles participam dos roteiros de Invasion (Argentina 1969), inspirado no grande filme Alphaville, de Godard. Lês Autres (França 1974) e Los Oriellos (Argentina 1975).

*a Franklin Jorge

CANNABIS E PRECONCEITO

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Por Carolina Neves, acadêmica

dos cursos de Ciências Sociais na UFRN e Direito na UnP

Com um título já bastante chamativo, o I Ciclo de debates “Cannabis e Preconceito”, realizado por ocasião do Colóquio Humanitas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, possibilitou o desvelamento de inúmeros tabus em relação a um dos psicoativos mais populares na nossa sociedade contemporânea.

 Fazendo uma top list das drogas atuais, após o álcool e o tabaco (mais comuns talvez por não adentrarem o âmbito da ilegalidade), na seqüência, provavelmente, teríamos a maconha. O primeiro preconceito quebrado foi o de que para se discutir o tema é preciso ser usuário. Muito pelo contrário, trata-se de uma discussão muito importante e que não pode mais ser deixada de lado por qualquer setor social.

O debate iniciou-se com as elucidativas exposições da Profª Maria Emília Monteiro (História) e do Profº Alípio de Sousa Filho (Ciências Sociais), ambos docentes da UFRN.

Numa perspectiva para as drogas, e não contra elas, narrando um pouco do que se poderia chamar, data vênia, de história do preconceito contra a maconha, a professora, enfatizou a questão da proporção de medidas e desmedidas de suas utilizações, destacou a importância do conhecimento dos elementos naturais/vegetais para o homem e da prática da alteração da consciência, tanto para fins lúdicos, quanto para o alívio da dor e do sofrimento, e até mesmo para o que seria uma arte de bem morrer, num alívio gerado pelos psicoativos. Como bem frisou a professora, as drogas não são nem boas nem más. São o que são e servem a isso.

Percorrendo um caminho que vai desde o século XVI até os dias atuais, discutiu-se a gradual associação do africano, negro, escravo, usuário e cultivador da cannabis - já então escoriado - ao pobre arruaceiro (sobretudo com a ação fortificada da imprensa nos anos 50), e mais tarde ao jovem rebelde, já mestiço, dos anos 70. Associação essa racista e que aos poucos vai se enfeitando de atributos, dos mais variados e cuja origem o discurso ideológico esconde como que num passe de mágica.

Nesse percurso, faz-se fundamental destacar o papel das ações proibicionistas e, mais ainda, de suas conseqüências. Essas ações enquanto já institucionalizadas, no transpasse do século XIX para o século XX, repercutem nas mais variadas extremidades do corpo social, atravessando setores desde o narcotráfico à indústria fármaco-química.

É nítido o interesse da indústria farmacêutica no monopólio dos psicoativos, por serem tão eficazes na luta contra o sofrimento. Nesse rol, o proibicionismo é interessante também ao narcotráfico, pois com o aumento da repressão, o preço sobe e os lucros aumentam, além de incluir numa mesma via de acesso drogas como a maconha e o crack, de graus de nocividade tão distantes. E num ciclo vicioso trava-se com o tráfico de drogas uma luta invencível. Chega a parecer óbvio que se o acesso às drogas mais leves fosse facilitado, poderia ser feito um controle bem mais eficaz sobre os usos problemáticos, até mesmo das drogas mais danosas.

Adentrando no tema da liberdade do indivíduo, o professor Alípio, em sua fala intitulada “do triunfo do prazer à escravização perigosa”, pontua certas reflexões acerca de uma aproximação entre a experiência do uso das drogas com o exercício do pensamento livre, da crítica, da razão abstrata, tanto no tocante às modificações de consciência produzidas por ambas as experiências, capazes de nos colocar em outro estágio de compreensão, como quanto às histórias de perseguição.

Nesse sentido, o extraviar-se num pensamento livre – que no caso da atividade intelectual carece de uma re-elaboração posterior, para que se possa por em ordem o caos da criatividade – muito se aproximaria do êxtase das drogas, embora quando desmedidas e a procedendo a maus usos, tanto das drogas como do conhecimento, possam causar danos.

E nem por isso tem fundamentação a proibição do conhecimento. Assim como as drogas, este pode incorrer em usos e abusos. Seria preciso então pensar uma ética de medidas, pensando o aproveitamento dessas experiências, não se podendo esquecer que se o sujeito não é mais capaz de regular suas ações livres quando elas ameaçam sua liberdade, como bem apontado pelo professor Alípio, ele corre seriamente o risco de cair numa escravização perigosa.

Bem, adentrando brevemente em questões técnico-jurídicas (e por isso muitas vezes pouco discutidas nos ambientes menos específicos), apontarei brevemente certos aspectos trazidos pela doutrina do direito penal.

Diz-se que todo crime tem seu sujeito ativo (aquele que pratica a infração) e seu sujeito passivo (aquele que a sofre). Afirma-se ainda que este último engloba formalmente o Estado, que sofre sempre que suas leis são desobedecidas, e um outro, materialmente identificável, ou seja, alguém, ou um grupo de pessoas, ou mesmo a coletividade como um todo.

Percebo-me a indagar: além do Estado – tido formalmente como sujeito passivo de qualquer crime –, quem seria o sujeito passivo no crime cometido por quem “adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar[1]?

Há os que dirão ser a coletividade, tendo em vista os danos causáveis a longo prazo pelo uso desmedido dos psicoativos. Como bem apontado pela professora Maria Emília, esvai-se de fundamento esse argumento contraditório, por tratar-se de uma pobre análise qualitativa, a qual desconsidera a vasta dimensão ritual do consumo de drogas, e baseia-se em casos extremamente problemáticos, que são inclusive numericamente pequenos.

Seria apenas mais um servente das invasões na esfera da autonomia do indivíduo sobre seu próprio corpo, agindo de forma semelhante aos invasivos argumentos da moral.

 Resta muito a ser discutido. Descriminalizar a maconha implica também sua legalização, normalização, enquadramento do uso da droga na norma. No entanto, quando se fala em legalizar a maconha, há toda uma imagem construída de banalização do uso da droga pelos jovens arruaceiros rebeldes… Contudo, ainda que numa análise rápida, porém mais elaborada dos fundamentos sócio-históricos das políticas proibicionistas e de suas consequências, fica claro que políticas para o uso das drogas de forma consciente surtiriam bem melhores efeitos. Cai então no vazio a retórica reacionária do discurso antidrogas.

[1] Art. 28 da lei 11.343/06, a qual institui o sistema de políticas nacionais sobre drogas

O MULTITUDINÁRIO RAIBRITO

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Por Misherlany Gouthier

Raimundo de Brito viveu tudo e mais um pouco em sua extensa caminha ao longo dos seus 90 anos. Andou por Seca e Meca como ele próprio costumava dizer. Curioso por assuntos relacionados à História de sua terra natal – Caraúbas, montou um dos mais ricos arquivos de pesquisa do Rio Grande do Norte.

Pesquisador incansável, metódico, persistente, detalhista, parcimonioso, conviveu com vários momentos da literatura no país. Amealhou grande amizades no campo das letras. Cascudo foi uma dessas culminâncias que nem o Tempo ousa enfrentar. Raimundo Nonato da Silva, Walter Wanderley, Pe. Jorge O’Grady, Helio Galvão, Gil Soares, Veríssimo de Melo, Edgard Barbosa, Nilo Pereira, Jorge Freire, Jaime Hipólito Dantas, Pedro Batista de Melo, Rafael Negreiros, Franklin Jorge, Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado e outros.

Leu tudo que chegou às lentes. Nunca poupou esforços quando o assunto era literatura; o germe da pesquisa está no sangue, repetia quase que diariamente.

Já o disse outras vezes que Raimundo Soares de Brito, é parafraseando Mário de Andrade, trezentos, trezentos e cinqüenta.

Antropologia, Folclore, etnografia, genealogia, memórias, costumes e tradições do patriarcado distante estão constantemente presente nos seus livros. Através da pesquisa de campo, juntado depoimentos os mais diversos cuidou de construir uma obra perdurável e eficiente nos estudos sobre a vida econômica, política, literária e boêmia do Rio Grande do Norte, bem como referência a estudos gerais catalogados ao seu gosto.

“Caraúbas Centenária”, seu primeiro trabalho, revista comemorativa ao centenário da paróquia daquela cidade, foi publicada em 1959. Depois vieram outros títulos para enriquecer a bibliografia potiguar, dentre livros e ensaios.

Estreou na prosa, a bem dizer, com “Eu, Ego e os Outros”, [edição Queima-Bucha], retalhos de suas memórias onde relaciona uma série de tipos folclóricos (ou populares), descrevendo fatos ocorridos durante a sua vivencia em Mossoró, Natal e Fortaleza, sem deixar de lado sua inesquecível Caraúbas.

É um completo romance, carregado de fatos marcantes do viajante sem rumo certo. Um livro interessantíssimo. Um fascínio: texto enxuto, desprezando os arroubos de palavras intragáveis à mente do homem simples e comum; um livro sobremaneira aprazível.

“Páginas Arrancadas”, o segundo volume das memórias de Raimundo Soares de Brito que tive o privilégio de acompanhar cada texto, traduz-se num dos livros de memórias mais deliciosos que já li nos últimos tempos. É a página comovente e fiel da vida sertaneja que o seu autor viveu; é o testemunho fiel daquele que muito soube aproveitar da vida e nunca se deixou esmorecer, mesmo sabendo-se um homem marcado por muitos desencontros…

Personagens como Tia Maria, Mãe Cecília, Ti João, Paulista, Ivanildo, mais conhecido como “Deus”, Zé Caiana, Cambraia, Cascudo, Djalma Maranhão, Professor Lourenço, da Ursulina; um turbilhão de gente que enriquece ainda mais as memórias, então ricas de conhecimentos e vivências do maior pesquisador de Mossoró de todos os tempos. Um relato dos costumes e das tradições de um povo na sua mais profunda maneira de viver. Vale a pena ler as “Páginas Arrancadas” do grande e inesquecível Mestre, Amigo e confidente Raimundo Soares de Brito.

A Prefeitura Municipal de Mossoró e a Coleção Mossoroense, do saudoso Vingt-un Rosado, na pessoa do Dr. Dix-sept Sobrinho, estão de parabéns por terem enfrentado a grande batalha para publicarem este precioso volume das memórias de Raibrito.

O RETRATO DE THOMAS HARDY

domingo, 30 de maio de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Sempre que saio do prédio do King’s College London dou de cara com um retrato de Thomas Hardy (1840-1928). A universidade relaciona Hardy, ao lado de outras celebridades e de ganhadores do prêmio nobel, no rol dos seus ex-dirigentes, ex-professores, ex-alunos, ex-algo. Por isso, o retrato. Andei investigando e parece que ele passou mesmo por lá, por volta de 1860, estudando línguas modernas. Não sei se aprendeu a falar português. Em inglês, como romancista, contista, poeta e dramaturgo, escreveu como poucos.

Mas da última vez que topei com Thomas Hardy, ele estava de cara amarrada. Dizem os mais espiritualizados que ele teria sido informado do caso da vovó americana que, aos 72 anos, namora o neto de 26. O casal ainda está programando ter um filho, a partir de inseminação artificial e de uma barriga de aluguel. E se essa estranha ligação está causando o olhar torto de Hardy (e por que não, o nosso), a vovó parece não estar nem aí para esse furor. Com outro tipo de furor (segundo os maledicentes), ela afirma ter uma vida sexual bem ativa com o neto, que, por sua vez, confessa sua atração por mulheres mais velhas.

Bom, parece que Thomas Hardy não gostou do rumo que as relações afetivas estão hoje tomando. “Mudanças depressa demais e tortuosamente”, teria ele dito. Psicograficamente, claro. Mas logo Hardy, que foi um reformista, inspirado pelas ideias do pensador John Stuart Mill. Ele que casou duas vezes e, em segunda núpcias, com sua secretaria, quase quarenta anos mais jovem.

Hardy que, consciente das mudanças que seu tempo impunha, buscou desmascarar, em sua obra, os muitos tabus (eufemisticamente chamados de convenções) existentes no Século XIX inglês. Tabus esses que, em última medida, só levavam à infelicidade. Ele que ambientou muitos de seus romances na “semi-fictícia” Wessex (inspirada na sua Dorchester de sua infância), exatamente porque nunca sentiu-se à vontade em Londres, onde, apesar de festejado pela crítica literária, era considerado, pela mentalidade conservadora da época, como um escritor “imoral”.

Hardy que, em seus dois últimos romances, “Tess of the d’Urbervilles” e “Jude the Obscure” (obra que, por sua explícita abordagem da sexualidade, foi apelidada de “Jude the Obscene”), assumiu explicitamente o papel de desafiador da hipócrita moralidade sexual de então.

Para se ter uma ideia, em “Tess”, Thomas Hardy denuncia como a sociedade vitoriana tratava com dois pesos e duas medidas as sexualidades feminina e masculina. Ele critica a arcaica exigência da pureza feminina (leia-se virgindade), que, no fundo, foi a causa primeira do desenrolar trágico da vida de Tess Durbeyfield, a heroína que é chamada no subtítulo do romance, com triste ironia, pelo autor e seu único advogado, de “uma pura mulher”.

Nascida em uma pobre família do campo, mas levada pelos delírios de nobreza do pai enlouquecido, ela ambiciosamente sonha com um lugar ao sol. Tess tem em Angel Clare, com quem vem a se casar, o seu verdadeiro amor. Angel credita-se como “um livre pensador”, mas não age como tal. Partindo em seguida para o Brasil (curiosamente), Angel abandona Tess na noite de núpcias quando esta confessa não ser mais virgem, muito embora ele também tenha tido relações sexuais antes do casamento.

Tess teria sido seduzida (para muitos críticos, estuprada) pelo bem-nascido Alec d’Urberville, quando tinha apenas 16 anos. Após anos de infrutíferas tentativas de contato com o marido e uma trágica existência, Tess é novamente seduzida pelo dissimulado Alec e torna-se, para ajudar a família, sua amante. Quando Angel retorna do Brasil, encontra Tess nos braços de Alec. Tess, enlouquecida por seu segundo “erro” e para se ver enfim livre, termina por matar Alec d’Urberville.

O final do romance é exemplar ao denunciar leis (ou regras de moral) absurdas ou, no mínimo, mal interpretadas. Ao descrever a execução de Tess (quando o juiz teria terminado o seu “esporte” para com a executada), Hardy nos mostra a impotência de Angel e Liza-Lu (jovem irmã de Tess) ao ser “feita a justiça”.

Hardy nos sugere a possibilidade de um futuro enlace entre Angel e a virgem Liza-Lu, a Tess “vitorianamente” pura. Apenas sugere, pois, pelas estritas leis da época, desde 1835 (e o final do romance se passa em torno de 1880) era considerado incesto e ilegal na Inglaterra casar-se com a irmã da falecida esposa (uma espécie de ultraconservador incesto por afinidade). A legislação de 1835, após dezenas de mal sucedidas tentativas nos mais de cinquenta anos seguintes (muitas vezes aprovadas na Casa dos comuns e rejeitadas na Casa dos Lordes), só veio a ser reformada em 1906.

“Mas casamento de avó com neto, com a perspectiva de um filho que será, entre outras coisas, tio do pai e bisneto da mãe, já é demais”, teria desabafado o reformista Hardy, segundo me disse um colega afeito a coisas do “outro” mundo.

Não me considero uma pessoa retrógrada, nem tão pouco um revolucionário. Sou um reformista convicto. E aprioristicamente contra tabus, posso dizer. Mas devo concordar com o enfezado Hardy. Talvez a coisa esteja indo rápido demais. Por exemplo, não faz muito tempo, a Procuradoria-Geral da Republica, em uma iniciativa bastante louvada, defendeu nacionalmente o reconhecimento das uniões homoafetivas como entidades familiares.

Mas veio um colega na nossa rede virtual e, mais animado, sugeriu a extensão da iniciativa às relações hoje consideradas incestuosas. Defendia expressamente a legalização do casamento entre irmãos, pais e filhos, “coisinhas simples” assim. Alguns acharam que ele estava brincando. Outros, não. Sei lá, tem doido para tudo. Não teve esse que se juntou com o avô. Ou foi com a avó? Já nem sei mais. Que confusão!

*Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

A VELHA URSA DE PARAÚ

domingo, 30 de maio de 2010

Por Misherlany Gouthier

Já descambava o entardecer no velho e faustoso rio Paraú quando dona Antonieta se preparava para mais uma de suas minguadas noites de sono. Dizia não dormir bem, passava horas da madrugada vigiando as galinhas que tinha no quintal da parca choupana onde pretendia encerrar seus dias de vida. Acreditava piamente em assombrações e dizia ver almas de outros mundos.

Manifestei-lhe minha curiosidade em ouvir estórias mirabolantes sobre vultos encaveirados e pessoas que se transformavam em bichos. Aquilo só pode ser coisa do Demo, sussurrava baixinho enquanto mastigava uns pedaços de biscoito que havia feito para o café da manhã. Já anoitecia, disse-lhe preferi vir no dia seguinte visita-la para lhe anotar a prosa.

Com umas feições pra lá de estranhas, trazia na face uma anomalia congênita: tinha cara de urso. Por esse motivo, dizem, os meninos endiabrados lhe pusera a alcunha de “Velha Ursa”. Ao contrário de muitos, ela não tinha raiva desse epíteto, mas evitava falar sobre o assunto.

Foi uma sobrinha sua que indicara a tia anciã para dar depoimentos sobre essas estórias que o povo na sua complexa religiosidade e no seu folclore de rua criam mundo afora.

Pela manhã os galos já amiudavam quando levantei-me para passar um café amargo. A boca parecia não reconhecer o gosto forte do café. Quase não dormi esta noite pensando nas palavras da Velha Ursa. Demorei-me um instante diante das águas do Paraú que passava por detrás da humilde casinha que encontrei abrigo há dois meses, se muito. Sentia uns beliscões pelo corpo. Era muito cacete viver ali; para mim consistia um paraíso, se não fosse a língua das pessoas…

Dona Antonieta assemelhava-se àquela velhinha que certa vez eu encontrara no Cais da Ilha de Maritaca. Trajava um vestido florido de ipês amarelos, um cachimbo caído no canto da boca, os cabelos encharcados que pareciam arame amarelos devido o peso dos anos. Lá se iam muitos janeiros. Andava arrastando os pés calçados com sapatos de couro de ovelha.

Ali, à beira do ditoso Paraú, rezei um Padre-Nosso e agradeci as maravilhas concedidas no último inverno. O sol despontava radioso. Subi na alimária, um burrico que lhe dei o nome de Jerome, e fui visitar minha entrevistada. De quando m quando o animal parava para sorver um pouco de água nas poças que a chuva havia deixado.

Uma preta que vivia de agourar a vidas das pessoas do rude vilarejo, havia confessado no roçado, pude escutar, que a Velha Ursa seria capaz de se transformar qualquer bicho se assim desejasse. “Ela tem a oração de São Cipriano”, lembrou. Não dei cartaz à conversa daquela mulher, preferi ir conversar com dona Antonieta e verificar se algo dessa natureza lhe tomava o tino.

Já somava dez da manhã quando cheguei ao sítio nas cercanias do Paraú; logo divisei a casa de portão de varas de marmeleiro, chão batido, paredes de taipa. Um silêncio sepulcral tomava conta do ambiente. Alguns gatos se enrolavam com restos de cordão de rede, e sob uma cadeira de palhinha um porco com olhos grandes e avermelhados parecia esconder algo. Chamei pela velha durante alguns minutos. Nenhuma resposta. O animal impaciente e impávido encarou-me com certa intolerância. Não contive o susto, voltei para casa pensando na estória da velha Ursa e no porco que encontrei sentado na cadeira de balanço.

BOLETIM DA COPA 27-05-2010

sábado, 29 de maio de 2010

Por Kinha Costa,
de Joanesburgo, África do Sul

BAFANA GANHA DA COLôMBIA
A BAFANA BAFANA ganhou de 2X1 da Colômbia em amistoso realizado, no último dia 27, no monumental estádio Soccer City, palco de abertura e encerramento da Copa. Os 75 mil ingressos colocados a disposição dos torcedores esgotou rapidinho, prova de que o povo sul-africano está dando aquele apoio à seleção da casa.

Falando em Bafana, tive o prazer de assistir parte do treino-jogo com Orlando Pirates, no campus da Wits, onde a minha filha estuda. Estou fazendo as vezes de guia de turística-futebolística do meu sobrinho e acabei tendo de ser a fotografa da tietagem dele.

Burlando toda a segurança, entrei no campo quando o jogo acabou e pedi ao Parreira somente uma foto, em português. Acabou rolando uma entrevista relâmpago, só que ele era o repórter:

-Você mora aqui?
-Por que?
-O que faz?
Como o tempo era pouco, ficamos nisso, mas espero que a coisa progrida.

AUSTRÁLIA, A PRIMEIRA
A seleção da Austrália foi a primeira a pisar no solo sul-africano. Apesar de o grupo ser bastante difícil, o técnico, Pim Verbeek, está otimista e diz que o seu objetivo, que parece impossível, é passar para a próxima fase.

Uma cena que se tornará normal nos próximos dias: dei de cara com o ônibus que transportava os jogadores para o treino de reconhecimento do estádio, no belo colégio Sint Sthichthian. O ônibus, inconfundível com seus batedores, carros de polícia e sirenas ligadas.

GAUTRAIN BARATO
Muito já se falou, mas parece que agora é pra valer: o Gautrain, trem rápido, vai começar a circular dia 08-06. A passagem aeroporto Internacional O R Tambo-Sandton, vai custar 10 euros. Já foi divulgado que seria bem mais barato, porém continua sendo muito mais em conta do que um táxi fazendo o mesmo percurso, que custa 35 euros.

ROUBO DE CRIANÇAS
A polícia chama a atenção de pais e familiares para cuidarem de suas crianças, porque é possível haver sequestros para fins de tráfico humano e prostituição, no período de preparação e durante a Copa do Mundo.

Informa ainda que nightclubs e áreas de entretenimento são as mais perigosas. As crianças de ruas são as mais vulneráveis, mas idas e vindas de escolas também devem ser controladas. As escolas do país darão férias coletivas durante o período da Copa. Serão cinco semanas. Uma pergunta que anda queimado a cabeça dos pais é: o que fazer com as crianças nessa longa pausa?

SEGURANÇA DAS SELEÇÕES
Ir ao aeroporto esperar a sua seleção preferida pode ser uma perda de tempo. A ACSA – Airports Companhy South África - avisa que preparou facilidades temporárias para separar times e delegados da Fifa do público em geral. As seleções desembarcarão direto nas salas VIPs escoltadas por seguranças, cães farejadores e detetives. A segurança será máxima nos aeroportos, hotéis e campos de treinamentos.

VANDALISMO EM ALEXANDRA
Alex, como é carinhosamente chamada a favela mais velha de Johannesburgo, e como Brasília teimosa, em Natal, resiste a todas as tentativas de removê-la. Ela está encravada no coração financeiro da cidade, Sandton.

Um programa muito legal ligado aos parques e jardins foi equipar mais de 800 parques com telões e outras facilidades pro povão poder assistir os jogos da Copa em grande estilo. Infelizmente, a organização teve que remover o telão de Alex, depois que a televisão sofreu três ataques de vandalismo e a antena parabólica foi roubada. Pena, né?

ÚLTIMOS INGRESSOS
A Fifa anunciou, hoje dia 27, que colocará mais 164 mil ingressos a disposição dos torcedores dentro de 24 horas. Jogos como França X África do Sul, em Bloemfontein e as semifinais irão ficar disponíveis para o grande público.
O povão faz fila na porta do escritório da Fifa em Sandton, apesar do frio de -5Cº durante a noite.

A BANDEIRA NA VERSÃO CALCINHA
A febre da Copa fez o mercado de vendas produzir um produto que está deixando os sul-africanos caretas de cabelos de pé: calcinhas fio dental nas cores da bandeira nacional. Muitos acham que o merchandisers baixou o nível, mas o produto vende como águas nas lojas para adultos ou sexshopping.

COMRADES 2010
A super maratona anual entre Durban e, a capital de Kwazulu-Natal, Pietermatizburg que acontece todo ano no mês de junho, devido à Copa, teve que mudar seu calendário e vai acontecer no domingo dia 30/05. Todo ano a corrida inverte a direção. Esse ano começa na capital, são 89 quilômetros ladeira abaixo. No ano Durban, são 87 km ladeira acima. Os primeiros colocados fazem em média, em seis horas, os mortais variam entre sete e doze horas quando a sirena apita e o portão fecha.

A gente se encontra no próximo boletim.

EIDER FURTADO TOMA POSSE NA ANRL

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Carlos de Miranda Gomes

Hoje, a comunidade potiguar e, em particular, o mundo cultural, recebe na imortalidade da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o ilustre causídico Eider Furtado de Mendonça e Menezes, natalense nascido aos 23 de abril de 1924, filho de Gil Furtado de Mendonça e Menezes e D. Maria Emília Furtado, aos quais homenageou no livro “Audiência de um Tempo vivido” (2004), primeiro de uma série de trabalhos memorialistas.

Iniciou seus estudos com a Professora Águeda de Oliveira Sucupira (Naná), numa escola municipal postada na Av. Rio Branco (local onde o BB construiu sua sede da cidade alta), nos idos de 1931 a 1934, sobre quem dedicou um capítulo especial no seu livro de memórias, alcançando as suas auxiliares D. Helena, Preta e Auta, sobre as quais derrama suas emoções mais caras, aliada a um amor quase filial, incluídas também em suas permanentes orações, acrescentando “Por isso, eu também tenho saudades da minha primeira professorinha”.

Em 1935 foi para o Colégio Pedro Segundo, do Prof. Severino Bezerra de Melo, daí para a escola particular do Prof. Antônio Fagundes, posteriormente o tradicional Atheneu Norteriograndense, em 1937, aos 13 anos de idade, tendo concluído o Colegial em 1944 e, somente em 1955, com 30 anos de idade, submete-se ao vestibular da Faculdade de Direito de Natal.

Bacharel em Direito pela UFRN, 1ª Turma, em 9 de outubro de 1959, denominada “Turma Clóvis Bevilácqua”, paraninfo Edgar Barbosa Aula da saudade Paulo Viveiros.

Em 1968 iniciou o seu magistério universitário, nas lides do Direito Financeiro e Tributário, depois Direito Comercial, Direito do Trabalho e Mercado de Capitais, tendo ainda demonstrado os seus conhecimentos em outras searas do Direito, quando transferido para o Curso de Direito, lotado no Departamento de Direito Privado, até a sua aposentadoria em março de 1991. Recebeu a láurea de “Professor Emérito da URFRN” em 17 de dezembro de 1997.

Sua vida é pontilhada de atividades diversificadas, pois teve papel de relevo na radiofonia potiguar (Diretor da Rádio Poti, ao tempo em que, ainda, Rádio Educadora de Natal), não sem antes, nos idos dos anos 40, integrar, como músico, a Orquestra de Salão daquela rádio e o Quinteto “Alberto Maranhão” e teve passagem pelo teatro amador.

Foi jornalista consagrado e dirigente nas Rádios Poti e Niordeste.

Cidadão exemplar, que reparte o comando de uma bela família com o auxílio indispensável da sua eterna musa D. Helenita, cuja presença é uma constante em todos os momentos de sua vida e a ela dedica incontáveis registros da história de sua vida e sobre quem proclama ter sido a primeira e única namorada.

Na advocacia se orgulha de registrar seu estágio com o famoso causídico Hélio Mamede de Freitas Galvão e chegou a chefiar a Ordem dos Advogados, Seção do Rio Grande do Norte, num pleito memorável, que marcou a transição da velha Instituição para os novos tempos, substituindo o Dr. Claudionor Telógio de Andrade após 20 anos de presidência, ali permanecendo por 8 anos consecutivos (01/02/69 a 01/02/77).

É fiel à sua profissão até os dias presentes, compartilhando o escritório com filhos e netos. O mundo intelectual está de parabéns.

(Homenagem do seu admirador)

BLOOMSDAY 2010 APRESENTA PEÇA DE JOYCE

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Francisco Ivan da Silva*

                               

 

James Joyce, mais uma vez, Joyce; mais, ainda, James Joyce (1882- 1941). E, por que James Joyce? Como é sabido, que este ano, a cidade de Natal, celebra mais um Bloomsday, o inesquecível dia 16 de junho de 1904, um dia de celebração dedicado a Joyce, o autor de Ulysses, o mais trágico, cômico, dramático, derrotado e glorioso romance moderno/contemporâneo. Romance que conta a solitária “aventura” de Bloom durante esse dia de verão, em Dublin, na Irlanda. O gênero encontrou em Joyce a sua definição mais artisticamente moderna.

 

James Joyce inaugura a posição do romancista moderno frente ao gênero do romance, que depois muitos escritores contemporâneos irão absorver, direta e indiretamente, suas inevitáveis e essenciais influências. Ulysses é, na minha opinião, razão e coração da modernidade. E assim o encontraremos no centro da modernidade, em suas excentricidades, de que dentro de uma linguagem barroca, de formas fechadas e abertas em si mesma, formas modernas que soltam em espirais conteúdos antigos/escolásticos, esse personagem aparece.

 

Imediatamente, de repente, encontraremos Leopold Bloom, o Ulisses antigo e moderno, personagem que se abre para o universo da literatura universal. Abrindo-se para o universo, se abre ao mundo de hoje e afirma, mais ainda, a eterna angústia — essa angústia que é a nossa angústia, sempre a nossa; ou de qualquer modo, a nossa angústia.

 

Desde sua publicação, em 1922, em Paris, os críticos e grandes escritores tiveram clara consciência da posição peculiar que esse personagem, Ulysses, chamado Bloom, iria tomar dentro do mundo das artes e da literatura. Digo, mundo das artes, porque Ulysses não se limitou apenas ao espaço da arte literária.

 

Ulysses de Joyce penetrou em todos os campos: o cinema, a dança, a música, o canto, a mídia, o teatro e, de certo modo, Ulysses invadiu a vida humana; penetrou em nossa consciência, penetrou em nosso interior e exterior e definiu nosso papel no espetáculo teatral da vida.

 

Ulysses de Joyce está animado por um plurissignificante papel: os signos verbais, isto é, as palavras tendem a se converter em imagens, imagens sonoras, emblemas, imagens que evocam outras realidades, realidades que viram signos: uma linguagem que traça um périplo, uma passagem entre a realidade vista e o pensado pela mente de Bloom, a imagem da escritura, que cria um personagem novo, um verdadeiro monstro, lembro aqui, o Finnegans Wake, um verdadeiro monstro da palavra: algo que rompe a ordem natural e que nos maravilha e seduz.

 

Este ano, a apresentação da peça, Os Exilados (EXILES), no Teatro Alberto Maranhão, para celebrar o Bloomsday, basta para mostrar que a Obra de James Joyce tem grande recepção na cidade do Natal. Exiles, foi a única peça teatral que James Joyce escreveu. Escrita em 1916, depois de  A Portrait of the Artist as a Young Man e antes de Ulysses, foi vista como linha divisória, watershed, entre Um Retrato… e o grande romance que estaria por vir, o Ulysses. Sob direção de W. B. Yeats foi apresentada no  Abbey Theatre, em Dublin. Em 1970 teve sua maior apresentação em Londres, sob a direção de Harold Penter, no Mermaid Theatre. A peça que é a história de um renomado escritor retornando para Dublin, depois de nove anos de exílio, revela muito da própria experiência de Joyce.

 

As cenas transcorrem no subúrbio de Dublin, na Irlanda; é o verão do ano de 1912. Estamos nós, aqui, no começo do Século XXI; antes de tudo temos que sublinhar, e isto é muito importante, que vista a uma distância de tempo-espaço muito grande, e que dificulta a compreensão do tema apresentado, Exiles produz no expectador  uma rica expectativa, uma complexa impressão de incerteza, de dúvida e melancolia…

 

Parece que seus personagens pedem perdão por seus subterfúgios, por suas suspeitas, por se expressarem através de uma linguagem tão ambígua, mas deixando entrever suas ideias com extremada delicadeza. Certo. É sob a direção de Alex Beigui, artista e professor do Departamento de Artes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que vamos assistir a esse espetáculo, no palco do teatro Alberto Maranhão. E não tenhamos dúvida, cada um dos espetáculos montados do texto joyceano transforma-se em outra obra, em outro texto, em uma metáfora do texto original.

 

Minha expectativa para ver o Joyce em cena, no palco do Alberto Maranhão, começa, exatamente, com esta minha afirmação neste texto.

 

*Prof. Dr. da UFRN e escritor

 

                                       

 

 

                              P R O G R A M A Ç Ã O

 

 

PROMOÇÃO: UFRN – Departamentos e Artes e Letras do CCHLA e Pro - Reitoria de Pesquisa 

 

COORDENAÇÃO GERAL: Francisco Ivan da Silva, Alex Beigui

 

 

Data: 16 de junho

 

 9:30 h – Leitura Dramática do texto original da peça, Exiles, de James Joyce.

 Local: Sala Jesiel Figueiredo – Dep. Artes/UFRN

                           Coordenação: Profª Dª Ana Graça Canan

 

14:00 h – Mostra de Videos sobre a Irlanda e a Obra de James Joyce.

15:30 h – Palestra: Os Exilados, de James Joyce

               Profª Dª Sandra Erickson

               Local: Sala Jesiel Figueiredo – Dep. Artes/UFRN                     

               Coordenação: Profª Dª Maria Helena Vaz Costa

 

20:00h –Apresentação da peça, Os Exilados, de James Joyce.

              Local: Teatro Alberto Maranhão

              Direção: Prof. Dr. Alex Beigui

 

 

APENAS UMA CADEIRA VAZIA*

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por Ciro José Tavares **

 

            Sou uma triste visão para os meus amigos!”

             Ésquilo, em Prometeu Acorrentado.

 

 

Lembro como se fosse hoje do entusiasmo do meu pai. Eu tinha 10 anos e saboreei fascinado a notícia. Entre oitenta candidatos de 23 paises, nosso Oriano de Almeida, finalista do IV Concurso Internacional Chopin, em Varsóvia, submete os julgadores e ganha seu diploma de honra e um prêmio Chopin. A onda do orgulho invadiu a cidade que a partir de Luís da Câmara Cascudo, seu professor de História da Música no velho Instituto de Música do Rio Grande do Norte, na Ribeira, e outras figuras representativas da nossa vida cultural, aplaudiram e comemoraram a vitória.

 

Nascido em Belém do Pará veio para Natal menino trazido pelos pais e aqui profundamente fincou suas raízes. O primo Waldemar de Almeida, recém chegado da Alemanha, anteviu seu enorme potencial durante breve execução de algumas peças ao piano e decidiu conduzi-lo seriamente ao universo da música. Forçado pelas circunstâncias do ofício esteve muito tempo ausente, contudo sempre prisioneiro das lembranças da infância e da juventude, entre elas o batismo na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e as aulas do Atheneu, que acabaram fazendo de Natal seu estuário permanente.

 

Aos 12 anos inicia sua atividade de concertista na cidade do Recife apresentando um repertório que hoje poderia ser incluído num programa do famoso Carnegie Hall e antes dos 20 anos é aplicado aluno desta lenda do piano brasileiro que é Magdalena Tagliaferro de onde efetivamente partiu para tornar-se um cidadão do mundo e conquistar, uma após outra, as platéias de Paris, Roma, Varsóvia, Madrid, Barcelona, Buenos Aires e Nova York.

 

Nos períodos livres de sua agenda de compromissos profissionais regressa atraído pelo sentimento atávico que jamais o abandonou. Não procura o Rio ou São Paulo. Prefere o refúgio do bairro de Petrópolis ainda que não mais existam as sombras das árvores do sítio São Cristóvão, sagrado feudo de Waldemar de Almeida.Sua Canção para Natal, com a letra simples e saudosa de Waldemar Henrique, resgata o passado fixado nas retinas, jardins floridos, casas de telhas avermelhadas, dunas banhadas de luas e velas brancas no rio Potengi.

 

Recentemente fui visitá-lo no Hotel Sol, onde se exilou depois da aposentadoria.Quando hóspede tínhamos o hábito de conversar demoradamente duas vezes por dia, depois do almoço e do jantar, sentados na estreita recepção. Sua cadeira diante do aparelho de televisão que só acendia para saber das notícias ou se divertir com desenhos animados.

 

Cheguei no horário e não o encontrei. Os funcionários informaram que ele não mais descia do apartamento, usava cadeira de rodas, alimentando-se moderadamente. Falamos pelo telefone e sua voz transmitia incrível melancolia. Deixei o hotel deprimido, cabisbaixo e indignado com a absurda insensibilidade da cidade, principalmente dos poderes públicos.

 

Em nenhum momento, por quase dez anos recebeu a cortesia de um telefonema do Governador do Estado, do Reitor da Universidade, do Prefeito da Capital. Aquele gênio do teclado, a quem todos nós devíamos tanto, estava esquecido e recluso na Santa Helena dessa figura admirável que é Fernando Paiva e seu público reduzido a Cláudio Galvão, Luiza Maria Dantas, Enélio Petrovich. Sônia Cavalcanti, José Anchieta Ferreira, Onofre Lopes Junior, Olímpio Maciel, João Maria Monte e Ives Bezerra.

 

Lembrei-me de outrora, quando chegava vitorioso coberto pela fama que merecia, notícia das primeiras páginas dos jornais, o saguão do aeroporto, pequeno para os que vinham recepcioná-lo. E no silêncio da decadente rua João Pessoa olhando a Catedral, murmurei os versos de Calderón De La Barca na obra A Vida é Sonho, “segue esta luz e saberás dela o que foste e és”. 

 

Que o Estado e a cidade despertem, pois o nosso Oriano de Almeida, idoso e enfermo requer a atenção devida a todos os gênios, para não ser, hoje e amanhã, apenas uma cadeira vazia.

 

** Oriano de Almeida é já falecido

**  Advogado e escritor residente em Brasília.

CASCUDO LUSÓFONO [2]

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Por Anna Maria Cascudo Barreto*

Luís Chaves, especialista português em folclore, museólogo, escreve: “Estudar Cascudo é praticamente mergulhar nas raízes da humanidade”. E Augusto Guilherme Mesquitela Lima, etnógrafo e professor, acrescenta ser o escritor potiguar aquele que melhor projetou o espírito do pesquisador, garimpando com técnica cientifica o mundo português, comparativamente ao africano e ao brasileiro.

Gastão de Bittencourt, um dos mestres da música socializada e popular, critico famoso, acredita ser devedor eterno do folclorista brasileiro, pela aproximação legitima, material em livros e poderosa em simpatia e fervor intelectual.

Fundador da Sociedade Brasileira de Folclore, numa época de certo preconceito com o popular, confundido com vadiagem, Câmara Cascudo foi além da amizade sincera e troca de documentos com os folcloristas portugueses, mas, associando-se ao Dr. Tavares de Almeida, no semanário “Ação”, espalhou uma nuvem benfazeja de trabalho, confrontando a literatura oral do Brasil com os estudiosos de poética sertaneja e litorânea, costumes, superstições, mitos, lendas, contos locais, vocabulário típico, tradições portuguesas.

Notas sobre alimentação, morada, indumentária, autos, cantos, músicas, bailados populares, rondas, brinquedos infantis, foram reunidos aos dos brasileiros, estabelecendo-se relações diretas afetuosas de comunicabilidade cientifica, segundo Augusto Cesar Pires de Lima, etnógrafo, um dos maiores conhecedores das tradições e adivinhas do Porto.

O escritor de Funchal, Ilha da Madeira, Carlos Maria dos Santos, redator do “Jornal”, considerou ter sido a década de ouro para as relações Brasil/Portugal , companheiros de atividade e finalidade cientifica o conhecimento e amizade com Luís da Câmara Cascudo. Joaquim Lelis Pais Vilas Boas (cerâmica tradicional), Otaviano Sá (versos populares, tradições estudantinas de Coimbra) Jaime Lopes Dias, etnógrafo do Porto, Vitor Santos, folclorista de Alentejo, José Pombinho Júnior, estudioso das danças populares alentejanas de Portel; Conde de Aurora, mestre de tradições do Porto, foram nomes constantes na biblioteca e na correspondência do meu pai. É válido citar outros confreiros queridos como Fernando Augusto de Barros Russel Cortez, Armando Lessa, Fernando de Castro Pires de Lima (cancioneiros do Minho): A.C. da Rocha Madahil, (Coimbra), Mario Sampaio Ribeiro (Lisboa), Emanuel Ribeiro (Porto) Alberto Souto (Aveiro) Mario Lyster Franco (Faro) Alberto Vieira Braga (Guimarães) Armando de Matos (Gaia), Sebastião Pessanha (Sintra) Francisco Lage (Lisboa) Eugenio Amorim (Arcos-de-Val-de-Vez) Claudio Basto (Lisboa), Pedro Monteiro Cardoso (Cabo Verde) A. Lima Carneiro (Caldas da Saúde) figuras que povoaram minha infância e juventude, em referências paternas ou visitas pessoais na nossa casa, na antiga Junqueira Aires, 377, hoje Avenida Câmara Cascudo . Personagens que se irmanavam antenas sensíveis recebendo as auras sonoras e tradicionais do Brasil por intermédio do radialista cultural Cascudo.

Toda quinzena entregava ao meu pai polpudo envelope, com as listras proverbiais das cores portuguesas. A guisa de destinatário, uma excelente caricatura de Cascudo. O endereço? Somente Brasil, sem titular município, cidade, estado. Obra do pintor português, Albano Neves e Souza, que residia na África. Nunca se extraviou uma missiva de tal originalidade, que sempre o deixava imensamente alegre, pois laços de extraordinário afeto o ligavam ao genial artista. Duas telas da sua autoria enfeitam até hoje as paredes do Instituto Câmara Cascudo, Ludovicus, e mantemos correspondência com a sua viúva.

No livro “O Colecionador de Crepúsculos”, da Editora Global, São Paulo, 2003, foto biografia de Luís da Câmara Cascudo de autoria da filha e confidente, publico o Painel da EXPO-98, Lisboa, Portugal. Foi Cascudo o único escritor sul-americano homenageado. A frase escolhida era encimada com uma imagem da Virgem Maria.

Eis o texto que emocionou o mundo da época, traduzido em várias línguas: “A devoção mais profunda e popular no Brasil é dedicada a Nossa Senhora, cuja invocação implica o possessivo no singular porque o plural daria a função maternal genérica, e o fiel pretende o direito privativo da unidade afetuosa. Daí, Minha Nossa Senhora!”. Assinatura: Luís da Câmara Cascudo.

O Professor Francisco Fernandes Marinho, da UFRN e Instituto Histórico e Geográfico, no seu volume “Câmara Cascudo em Portugal”, faz um levantamento documental da viagem do meu pai em 1947, membro da Comissão Organizadora do Primeiro Congresso Luso-Brasileiro de Folclore, como um dos chanceleres sul americanos.

Autor da idéia, Cascudo viajou no navio Santa Cruz e demorou quatro meses em Portugal. Foi a primeira das suas inúmeras idas ao país dos nossos antepassados. No Ensaio de Abertura do citado livro de pesquisa, afirmo que minha relação com Portugal é um misto de cumplicidade e lembranças. Quanto a Portugal & Cascudo, amor, simbiose, amalgama. Professor Marinho se impressionou com a repercussão, na mídia e com os estudiosos, da presença Cascudiana. O número de livros, escritos pelo meu pai em Portugal e Espanha, alguns até hoje inéditos, o deixou boquiaberto e orgulhoso.

Em Artigo intitulado “Brasileirismos… de Portugal”, editado no Diário de Natal, quatro de março de 1949 escreve Cascudo: “Andei rodando Portugal de Valença de Minho até o Algarves. Rodando com os olhos e ouvidos alertados. Ia para estudar e não passear, qual turista irresponsável e rico. Sabia das dificuldades vencidas e da remota possibilidade de um retorno a Europa. Era obrigado a ver e ouvir como devia.
Não me arrependo dos cuidados que punha na observação menor. Conversando com o povo nas feiras, arraiadas, festadas, trabalho rural ia ouvindo vocábulos que pensava originários do Brasil ou propriedade do brasileiro do interior. Palavras e frases, imagens descritivas ou comparativas surgiam com surpreendente igualdade às do meu país.Igualdade e, muitíssimas vezes, identidade.”

E Cascudo retirava da algibeira preciosa da sua memória privilegiada, cristais preciosos de vibrações seletivas, reunindo fatos e frases percebidas pelo olhar de um sábio. Conexões até os dias atuais repetidas na imprensa, sem citar o autor. Frases sobreviventes da ótica de um professor provinciano que amava sua terra e estudava a magia dos seus antecessores.

No livro de Marinho, comentamos a amizade que unia Câmara Cascudo ao Professor Frederico Guilherme Gavazzo Pery Vidal. Os dois se correspondiam desde abril de 1933, e se encontraram no aeroporto de Lisboa. Algo estelar… Seu filho, Frederico Perry Vidal, nascido em Lisboa, considerado uma das maiores autoridades no que se refere à cultura luso-brasileira, fundador do Centro de Estudos Portugueses da UFSP e do Centro de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na USP, manifestou-se encantado com o Colecionador de Crepúsculos. Infelizmente perdemos o contato. Resta-me a esperança de conhecê-lo pessoalmente, já que somos de outra geração de amizade.

A África, na obra cascudiana, resultante da sua presença e pesquisas in loco, testemunhando e visitando 20.000 km do continente africano, foi à abertura para livros monumentais, como Historia da Alimentação no Brasil, subdividida em cozinha ameríndia, cozinha branca e cozinha negra, além do famoso “Made In África”.

Prefaciado por Edison Carneiro, comenta os profundos estudos, discutindo vocábulos, usos e costumes, animais e plantas, crenças e bailes, que o escritor potiguar fez com dedicação, usando linguagem essencialmente jornalística. Figuras emblemáticas fizeram a viagem do Brasil para a África, como a banana, o papagaio colorido, o búzio, o ananás, a rede; e da África para o Brasil, o cafuné, a umbigada, a farofa, o rebolado do andar das brasileiras, a rainha Jinga das congadas, a sereia kianda de Angola.

São elos que unem a fraternidade de sangue e de cultura que liga, por cima do Atlântico, brasileiros e africanos. Quantas vezes aprendi com meu pai os pontos da Umbanda; me encantei com o simbolismo dos pejis, provei comidas e bebidas dos santos; joguei flores à beira mar. Constrangida e até revoltada, assisti a soltura dos babalorixás, mães-de-santo e brincantes, presos por pretensa vadiagem. Dizia Cascudo: “No meu tempo era pecado mortal dançar forró, entoar cânticos. Enfim, o popular, o tradicional, o cotidiano, o comum. Tudo era muito formal. Foi difícil conseguir a valorização dos costumes do povo”. Imaginem o quanto lutou e foi incompreendido por estar muito à frente do seu tempo…

Termino repetindo um verso do cordel de Oliveira de Panelas, intitulado “O Gênio Câmara Cascudo, um Homem Chamado Brasil:
“Na sua cosmovisão
Elevou-se um grande estudo,
Cabral descobre o Brasil,
Brasil descobre Cascudo.
A fonte da informação,
De um homem que sabe “tudo.”

*Escritora, Acadêmica
Conferência proferida no Teatro Alberto Maranhão,no dia 28 de abril de 2010, na abertura do FELP, Primeiro Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal, promoção da Fundação Cultural Capitania das Artes, Prefeitura do Natal, Universidade Potiguar, UFRN, União das cidades capitais de língua portuguesa, e TAP Portugal.

O GRANDE IRMÃO

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Por Maria Lucia Victor Barbosa*
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

O presidente Lula da Silva possui como componentes de sua felicidade, primeiro, a fruição das delícias do poder nas quais ele imerge com aquele enorme prazer dos boas-vidas e, segundo, o contentamento que nunca cessa quando se tem uma paixão, sentimento que, aliás, se confunde com obsessão.

A paixão do presidente se concentra em uma meta, o poder, que uma vez conquistado deve ser mantido a qualquer custo. E ele está certo que conservará o domínio através de sua criação política, ou seja, da ex-ministra da casa Civil, Dilma Rousseff, sombra ainda desajeitada do chefe que o marketing e retoques físicos tentam corrigir e aprimorar.

Porém, Rousseff tem algo que nenhum candidato possui: a máquina estatal que fartamente distribui bondades e o padrinho Lula que está todo tempo ao seu lado e estará nos programas eleitorais gratuitos, quer dizer, no palanque eletrônico a partir do qual se consegue influenciar emoções e conquistar corações. Por Maria Lucia Victor Barbosa

A proteção dada à afilhada é tão grande que é de se perguntar: se ela ganhar, quem governará de fato? A autoritária e dura senhora Rousseff ou o esperto Lula da Silva que concebeu um jeitinho bem brasileiro de obter o terceiro mandato sem se parecer demais com seu querido companheiro e ditador de fato da Venezuela, Hugo Chávez?

Mas o ambicioso Lula quer muito mais. Além de manter os cordéis internos do poder quer ser um dos senhores da “nova desordem mundial”. Para satisfazer sua flamejante paixão trabalham incessantemente assessores também interessados em conservar aqueles privilégios só permitidos aos que alcançam o cume iluminado da montanha dos poderosos.

Com relação à política externa, além da obsessão da diplomacia brasileira pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, entraram em cena outras ambições: a chefia do Banco Mundial ou, principalmente, a secretária-geral da ONU. Afinal, com bons tradutores o presidente que mal fala português poderia continuar na ONU a contar piadas, fazer gracejos, dar mancadas, viajar bastante e, especialmente, abrir caminho para a “nova desordem mundial” ao lado de companheiros ditadores da pior espécie e ditos de esquerda, os mesmos com os quais ele tem se confraternizado.

A política externa brasileira tem sido uma sucessão de erros e fracassos, pois até agora o Brasil perdeu todos os cargos internacionais que pleiteou. Dirão alguns, que não é bem assim, pois pelo menos Lula da Silva tem sido bastante premiado. Contudo, dizem as más línguas, que tal sucesso é obtido por meios bastante custosos. Além do mais, não está muito claro se o encanto que países importantes sentiram inicialmente pelo folclórico Lula da Silva ainda se mantém.

Um dos fiascos que ensejou o começo do desencanto aconteceu no episódio da intromissão em Honduras, quando em conluio com Hugo Chávez o governo brasileiro apoiou Zelaya e o hospedou por meses na embaixada brasileira. Mas essa aventura em vez de desanimar levou o mentor de nossa política externa, Marco Aurélio Garcia, a sonhar com vôos mais altos. Na sua utopia, Lula da Silva deve ser o grandioso mediador de conflitos mundiais, o luminoso líder capaz de resolver todos os graves problemas que anos de esforços diplomáticos de outros experientes governos não conseguiram. Assim, Lula promete que vai dar solução aos complexos conflitos entre israelenses e palestinos.
Mas essa chibantice não basta. Lula da Silva tem que provar que é melhor do que os governantes das grandes potenciais mundiais, notadamente, dos Estados Unidos. E, por isso, foi ao Irã, assim como o premiê turco, Recep Tayyip Ergodan que atropelou o presidente brasileiro ao anunciar em primeira mão que um acordo sobre o programa nuclear iraniano fora alcançado em negociações nas quais o Brasil participara.

Já Ahmadinejad bajulou Lula ao dizer que este é seu “bom amigo” e “irmão”, que “Brasil e Irã compartilham valores morais”. “Somos contra a discriminação, o preconceito, a agressão a tirania” disse o astucioso iraniano. Mas, enquanto ele destilava hipocrisia, dissidentes eram presos, torturados, enforcados, minorias religiosas perseguidas, como os bahais, assim como outras minorias sociais, sem falar na situação das mulheres que regrediu ao século treze.

Depois de muito foguetório na diplomacia brasileira o tal acordo sobre o programa nuclear iraniano se mostrou uma farsa, pois logo depois de assinado um porta-voz da Chancelaria iraniana anunciou que o país continuará a enriquecer urânio. Quanto as sanções em estudo a serem impostas por outros países levaram Ahmadinejad ao riso e ao deboche, pois ele conhece bem as artes e manhas de como burlá-las conforme seu hábito. E assim, lá para 2013, calcula-se que o iraniano poderá ter sua sonhada bomba atômica cujo primeiro alvo, conforme sua idéia fixa deverá ser Israel.

Tudo isso significa que Lula da Silva deve estar muito orgulhoso de sua valiosa colaboração a tão importante projeto de destruição em massa, assim como de poder participar da “nova desordem mundial” pretendida pelo “irmão” Ahmadinejad. Isso se sobrar alguma coisa.

*É socióloga

CASCUDO LUSÓFONO [1]

segunda-feira, 24 de maio de 2010


Por Anna Maria Cascudo Barreto*

Cresci escutando os tons diferentes da língua portuguesa, falados por amigos do meu pai. Vindos dos cinco continentes que consideram seu o nosso idioma. Mas principalmente de Portugal e da África. Na época do Natal, íamos jantar com o Sr. Aníbal, avô da nossa Hilneth Correia. Português, casado com uma alemã, apresentava pratos cujos sabores estão gravados até hoje naquele relicário secreto de prazeres inesquecíveis. Recebemos e visitamos gente de toda parte, e os sons em vários sustenidos maiores ou menores ainda ecoam na memória. Quando aprendi a orar, a frase bíblica “No principio era o verbo” associei mentalmente, às orações que uma senhora portuguesa me ensinou, carregadas de vogais deliciosas…

Luís da Câmara Cascudo, considerado por vários estudiosos como o mais autenticamente brasileiro dos escritores, era também legitimo português, africano, ameríndio. Sua obra se derrama no mel da ternura quando se refere às nossas raízes.

Em artigo intitulado “Onde o português não pode ser estrangeiro”, em 1956, afirmava: “Deve o Brasil a Portugal não apenas o idioma, a consciência jurídica instintiva, a mecânica das soluções psicológicas, a quase totalidade das suas tradições, mitos, lendas, crendices, a base de sua culinária, o fidelismo cristão, mas, acima e antes de tudo, sua unidade moral. O sentimento comum e natural de constituir-se uma nação, na continuidade da função em todos os quadrantes do imenso território”.

Estudou o Brasil menino, afirmando, honesta e corajosamente, contra todos os ensinamentos da época, a intencionalidade do seu descobrimento. Quando fez concurso para professor do Ateneu norte-rio-grandense, em 1933, sua tese foi “A Intencionalidade do descobrimento do Brasil”. “Reimpressa em Funchal em 1937, com sucesso indiscutível, foi ampliada e publicada em “Dois Ensaios de História”, publicados pela Imprensa Universitária em 1965. Comprovada pelas viagens anteriores européias, ampliações lógicas do atlântico, cruzando águas meridionais, depois do traço da equinocial.

Os mapas que acompanhavam as mais modernas conferências do Almirante Gago Coutinho elucidaram esse ponto. O rumo era certo para as quilhas portuguesas. O encontro do monte Pascoal foi na tarde de 22 de abril de 1500, a sétima das horas canônicas. A primeira missa no domingo de Páscoa, 26 de abril, no ilhéu da Coroa Vermelha. Na segunda, sexta feira, primeiro de maio, missa cantada no continente e diante do cruzeiro, chantado nessa manhã, com a presença dos habitantes atônitos e curiosos, informa testemunha de vista, o escrivão Pero Vaz de Caminha.

Cascudo documenta os primeiros passos, a relação inicial entre os portugueses e os ameríndios, com tal riqueza de detalhes e carinho amoroso que somente uma vida de pesquisa e a emoção de um historiador e etnógrafo poderiam registrar. Através dos seus olhos verde-azulados, experimentamos a emoção do encontro entre povos tão diferentes que depois se fundiriam na mesma raça. Na “História da Alimentação do Brasil”, ele nos conta que na sexta, 24 de abril, à noitinha, dois tupiniquins foram levados à nau-capitania e recebidos com aparato.

O Capitão, Pedro Álvares Cabral, bem vestido, sentado numa cadeira, usava um colar de ouro, alcatifa por estrado nos pés, cercado pelos seus comandantes, que estavam no chão, pernas cruzadas à maneira turca. Tochas acesas, os visitantes reconheceram um papagaio pardo, a bordo, como familiar. Acenaram num gesto universal, unindo os dedos, significando a variedade daquela ave na sua terra. É verdade que os papagaios brasileiros eram coloridos, verde/amarelos, mas tão falantes quanto aquele cinzento que lhes apresentavam.

Não fizeram caso de um carneiro, o primeiro que viam. Espantaram-se com uma galinha – que depois os conquistaria como ave doméstica. Deram-lhe de comer pão e peixe cozido, confeitos, mel e figos passados. Provaram, mas logo lançavam fora os quitutes desconhecidos. A primeira prova do vinho de Portugal não foi positiva naquela noite. Desconfiados com a própria água, mal lhe puseram a boca. Pão de trigo, vinho de uvas, massa d`ovos, os condimentos do peixe cozido, eram revelações. Na tarde de 25 de abril os amerabas vêem uma grande rede de arrasto, tradicional na pesca marítima portuguesa.

E os descobridores viram à primeira piperi, igapeba, batizada depois como jangada ou almadia. “Visitaram os portugueses uma maloca, a primeira oca brasiliense,” tão comprida como a nau capitania e dentro muitos esteios e de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. “Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos.” Batismo da ini e quisarias com o nome lusitano de rede, cama tropical que se espalharia pelo mundo.

Mas não se limitou a matéria tão fascinante. Luís da Câmara Cascudo foi um mago, decifrando temperos do caldeirão de influências luso-brasileiras, acrescentando uma forte pitada africana, tudo reunido com colher ameríndia. Em “Viajando o Sertão”, Cascudo narra sua excursão ao interior da província, que o interventor Mario Câmara, em 1934, leva em sua companhia técnicos em educação, agricultura e açudagem, além de um escritor de renome, capaz de ver com olhos voltados para o futuro os problemas artísticos e culturais do estado do Rio Grande do Norte. Cascudo era chefe provincial do integralismo, na época sinônimo de brasilidade.

Não engajado na política partidária, professor e diretor do Ateneu norte-rio-grandense. No Capítulo intitulado “Classicismo Sertanejo”, o etnógrafo aponta a prosódia, construção gramatical e vocabulário do homem do sertão como o português do século XVI, da era do descobrimento. O escritor lamenta a ausência de um filólogo, pela oportunidade de ouvir como falavam Luís de Camões e Gil Vicente. Estou (como sinônimo de pensar), ventura, home, calidade, desagardecido, eraro, dixe, alevantar, arreceio, treição, filosomia, usados pelos sertanejos, eram palavras camonianas.

No “Cancioneiro” de Garcia Resende, vemos estruir, alifante, camalião, arreceando, entrementes. Sá de Miranda, puro vate do vernáculo, escrevia alumeia, tromento, demudado, home. Em Bernadim Ribeiro, anotamos os mesmos termos que o sertanejo emprega. Entonces, assossegou, empacho, despois, pólos, pulos, inté, foram escritos pelo poeta pastoril.

O sertanejo teima em pronunciar Anrique por Henrique. Assim se assinava o Cardeal Rei Anrique, quinhentista. O poeta Antonio Ferreira (1528-1569) utilizava vocabulário idêntico ao do nosso sertanejo. Trouve (do verbo trazer) reposta, mezinha, pide, minino, piqueno, supito, malenconia, esconado, espritasse, estamago, o cujo, o gorpe, parança. Em Gil Vicente, a negativa posposta que julgamos modismo peculiar ao sertão: Senhor Não! O Dicionário de Morais registra “graça” como sinônimo de nome. Até hoje – em 2010 –ouvimos o conservador “qual é sua graça?”

O sertanejo – e muitos políticos atuais – não conhecem o plural. Centenas de arcaísmos são empregados vivamente em nosso dialetar. Sabemos o número apenas pelo determinativo: o boi, os boi, a vaca, as vacas, dois boi, meus boi, seus boi, etc. No século XIII e principio do século XIV não havia feminino para senhor. Dizia-se meu senhor e minha senhor. No famoso cancioneiro Del Rey Dom Dinis (1261- 1325) o Rei Trovador cantava: “Quant` eu, fremosa minha senhor”! Mas na opinião do escritor potiguar, foi influência do tupi.

No nheêngatu não havia plural. Socorria-se o indígena de adjetivos como etá (muitos) ou cuera (multiplicado) repetindo o substantivo. Paca etá, ( as pacas), itacuera (as pedras), pira-pira, peixe-peixe, os peixes. A assimilação foi não somente sua permanência nos sertões ao lado dos grandes sesmeiros ou criadores, ou ainda acompanhando as bandeiras. Não podemos esquecer a multidão de vocábulos que herdamos dos primeiros senhores das terras. O índio cativo das guerras, obrigado aos trabalhos agrícolas ou simplesmente assoldadado para as campanhas guerreiras, influenciou a fala português-tupi com seus modismos, peculiaridades e exotismos gramaticais. O caso da ausência de plural seria uma parte deste patrimônio verbal que ainda vive…

*Escritora, Acadêmica.
Conferência proferida no Teatro Alberto Maranhão,no dia 28 de abril de 2010, na abertura do FELP, Primeiro Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal, promoção da Fundação Cultural Capitania das Artes, Prefeitura do Natal, Universidade Potiguar, UFRN, União das cidades capitais de língua portuguesa, e TAP Portugal.

LEMBRANDO STEVENSON

domingo, 23 de maio de 2010

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Quem é o médico (ou o juiz) e quem é o monstro?

Robert Louis Stevenson (1850-1894), escocês com formação em direito, foi romancista, poeta, ensaísta, boêmio e, ainda, um grande viajante. Autor de romances como “Treasure Island” (1883), “Kidnapped” (1886) e “The Master of Ballantrae” (1889), é hoje mundialmente conhecido, sobretudo, por sua novela “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” (de 1886 e entre nós conhecidada como “O médico e Monstro”).

Seja para o teatro, para o cinema ou para a televisão, “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” tem dado ensejo a inúmeras adaptações, cada vez mais caindo no gosto do público. Seu enredo gira em torno de Dr. Jekyll, um médico que descobre uma “fórmula” que dá a ele a possibilidade de tranformar-se em um “outro”: Mr. Hyde, personalidade que absorve todos os instintos malignos do seu criador.

Essa repulsiva personalidade vai paulatinamente ganhando ascendência sobre o ser criador, ao ponto de cometer homicídio. Cada vez com mais frequência, Dr. Jekyll se vê transformado, involutariamente, em Mr. Hyde, sem que as drogas que toma façam mais efeito no sentido de reverter o processo. Ao ponto de ser descoberto e preso, Dr. Jekyll/Mr. Hyde comete suicídio. Retratando em cores aberrantes a dupla personalidade da(s) personagem(ens), do ponto de vista moral, Stevenson busca mostrar como o bem e o mal podem coexistir em uma mesma pessoa.

Poucos, entretanto, já ouviram falar de “Weir of Hermiston”, segundo os críticos e o próprio Stevenson, a obra-prima que ele, morto prematuramente de hemorragia cerebral, deixou inacabada. Stevenson, já vivendo nas Ilhas Samoa e com a saúde debilitada, trabalhava em “Weir of Hermiston” no dia de sua morte, vindo o romance a ser publicado postumamente, mesmo que inacabado, em 1896.

“Weir of Hermiston” paga tributo a pelo menos três importantes aspectos da vida de Stevenson. Sua fixação por “dualidades”, sua nacionalidade escocesa e, não menos importante, sua formação em direito. Sabe-se que Stevenson, em 1871, abandonou a engenharia, profissão do assim desgostoso pai, para dedicar-se ao estudo do direito, tendo sido aceito na Ordem dos Advogados escocesa em 1875 (Scottish Bar), mas sem nunca haver de fato exercido qualquer carreira jurídica. Foi ser escritor. Ainda bem.

Em “Weir of Hermiston”, Stevenson explora uma forma de dualidade “edipiana”, contando a vida de Archie Wier, orfão de mãe e filho único de Adam Wier, Lord Hermiston, juiz famoso por seu pendor - e prazer - em mandar “seus” réus para a forca. Conhecido pelo apelido de “The Hanging Judge” (algo como “o juiz enforcador”, numa tradução livre), a personagem está baseada numa figura da história escocesa, Robert Macqueen, Lord Braxfield.

O romance basicamente ganha corpo com o conflito entre as duas personagens principais, quando o filho assiste a um julgamento presidido pelo pai, em que este, com prazer incontido, manda um réu, o miserável Duncan Jopp, à forca. O filho publicamente confronta o pai, perorando contra a pena de morte, e é banido para a interiorana vila de Herminston. Com esse novo pano de fundo, a obra segue seu curso centrado em uma estória de amor entre Archie Wier e a personagem Christina. Pelas anotações do autor, sabe-se que Archie Wier, mais tarde, seria acusado de homicídio (de Frank Innes, este acusado de haver violado sua amada Christina) e o romance terminaria com uma final confrontação, na Justiça, entre pai e filho.

Mas a dualidade “interna” da personagem Wier Pai também nos chama a atenção. Ele (assim como sua inspiração histórica, Lord Braxfield) era homem de grande reputação (merecida, sob muitos aspectos), mas, como visto, deleitava-se ao punir alguém. Usando de seu dialeto escocês - para que o patético réu não pudesse sequer entender o que se passava, como hoje em dia muito se faz com o “juridiquês” – assim o fez, com “selvagem prazer”, com Duncan Jopp.

Não se sabe, porque Stevenson não nos diz, que crime teria cometido o infeliz, apenas registrando que sua vida teria sido uma história de desgraça e covardice. Àquela época, ele poderia ter ido à forca, a depender do pendor do juiz, até pelo furto de um pedaço de pão (ou, pior, indaguemos: teria mesmo Duncan Jopp cometido algum crime?). E mais: a duplicidade do caráter do Weir Pai é exposta ao tratar de forma aterradora o réu, humilhando ainda mais o já humilde. Como diz o Wier Filho, uma coisa é atacar um tigre, outra é pisotear um pobre coitado. O Wier Pai pune o “vilão” com uma vilania igual ou pior.

Mas será que o Wier Pai, “The Hanging Judge”, teria condenado o Wier Filho à forca (levando em consideração, claro, que ele não estaria impedido de julgar, como o seria certamente hoje)? Ou, “moralmente” alquebrado e hipócrita (como todos nós pecadores somos), absolveria o filho? Infelizmente, o “Contador de Estórias” ou “Tusitala” (como Stevenson era chamado pelos samoanos) não viveu para nos contar.

Quanto a nós, seria preciso lembrar ao leitor as vezes em que ele se deparou com alguém – juiz, promotor ou mesmo pessoa do seu convívio – que, sob a máscara de vestal, tem, na verdade, prazer na desgraça alheia? Ou de alguém que é um leão com os mais humildes e um doce com aqueles que não o são? Às vezes porque se acha acima dos pobres mortais, às vezes por um complexo de inferioridade mal resolvido. Acusar ou condenar alguém, estou certo, não deve ser um prazer. Faz-se por dever e com a cortesia devida aos mais e aos menos afortunados. Isso sem falar na absurdez intrínseca à pena de morte.

Finalmente, cá entre nós e Stenvenson: dá para você me apontar, em “Weir of Hermiston”, quem é médico (ou juiz) e quem é o monstro?

*Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

RETRATO DE MANOEL ONOFRE JÚNIOR

domingo, 23 de maio de 2010

Por Pedro Simões Neto*

Afaste-se a escuridão que eu estou chegando com a aurora

Tenho para mim que um homem se constrói com migalhas de si mesmo, fragmentos de espelhos auto-reflexos, fotos amarelecidas, cheiros, sons, cores, mas, sobretudo, alicerçado pelo conjunto de sua obra, seja ela qual for.

O perfil que é agora revelado, trata de uma personalidade hermética, que aparentemente é identificada como um espécime fora do comum, porque não é possível catalogá-lo entre aqueles reconhecidos como padrões. Em tal circunstância, os parâmetros de avaliação tendem a não alcançá-lo e, diante de tal circunstância, o analisado ficaria à mercê do humor e do juízo do analista.

Por isso, prefiro tratá-lo como personagem, construí-lo, qual Stanislawski, pelo menos nos traços marcantes da sua personalidade, conduzindo com liberdade os meus registros, muito próximos da verdade, verossímeis.

ECCE HOMO
Eu o via passar pelos corredores do Atheneu dos anos sessenta. A sua figura, grave, taciturna e um tanto solene me chamava atenção. Caminhava pesado, como se tivesse dificuldade em se deslocar. Depois observei que o andar fazia parte de um sistema unitário interdependente que o articulava na sua vida de relações.

Sempre busquei estereótipos literários para os seres humanos que destaco como singulares. Então, o pus entre Judas, o obscuro, um figurativamente Quixote aculturado, e um personagem Machadiano ainda inédito, mas com o molde, o caráter e a roupagem típica do universo literário do escritor carioca.

Sua fisionomia lembrava-me a de um totem pré-colombiano – madeira recortada a golpes rudes, o nariz arqueado, a cabeça entre o redondo do “cocoruto” e o oval pronunciado pelo queixo, bem talhado, retangular, sugerindo firmeza. O olhar distante, a boca grande com os lábios separados por uma nesga decotada muito estreita.

Os cabelos encaracolados resistiam ao pente. Os óculos pesados potencializavam a expressão míope. Às vezes transparecia os lábios crispados. Talvez o sal preso da palavra lhe amargasse tanto e, malgrado o incômodo, não ousasse cuspi-lo.

Estava sempre bem vestido, roupas conservadoras bem assentadas, a camisa por fora das calças e vez por outra concedia-se a um desfrute comum à nossa geração: os sapatos sem meias.

O conjunto me transmitia seriedade, compostura, reserva, integridade e timidez. Percebia nele um ser humano naturalmente honesto, sem a afetação dos que acreditam que esse predicado é uma virtude pouco encontradiça e que, portanto, merece um tratamento reverencial. Mas intui, também, uma criatura contida, disciplinada, submetida a auto-controle. Conclui que se essa criatura não buscasse a própria censura, se não se reprimisse, daria vazão a algumas verdades incômodas, e por isso mesmo impróprias de serem ditas porque politicamente incorretas. Daí o sal preso e o ricto da boca crispada.

Verifiquei, depois de algum tempo, que o meu personagem não era intolerante ou preconceituoso, sequer poderia enquadrá-lo na categoria de donatário de verdades absolutas, mas alguém inconformado com o desvio das condutas franqueadas pelo senso comum por outras, transgressoras, em prejuízo de direitos de terceiros ou da harmonia social.

Devia sentir-se como estrangeiro em seu próprio país, submetido, convenientemente, à lei da mordaça. Eis porque a armadura da timidez, autêntica, todavia estrategicamente utilizada como disfarce, dissimulando a firmeza de princípios, a inteireza de caráter, represando a vontade afirmativamente inconveniente. (Lembrei-me, bem a propósito, de Pessoa: O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, dor que deveras sente)

Como num jogo de sombras chinesas, ou no enigma de Pirandello, assim é, se lhes parece.

Ele sabia-se, mas deixava que os “outros” se valessem da metáfora da poeta Cecília das Gerais buscando as suas imagens num espelho que tudo reflete menos a verdade. Um jogo de esconde-esconde. Um personagem à procura de um autor.

Alguns anos depois, nos tornamos colegas e estudamos juntos durante cinco anos na velha Faculdade de Direito da Ribeira.

Logo depois que nos relacionamos, adquiri uma sua composição a aquarela, dentre outras que ele levou à exposição: a cena de um enterro interiorano em que o defunto era conduzido numa rede. Agradou-me a escolha do tema, o colorismo, o molde popular, mas sobretudo a fidelidade aos arquétipos regionais, opção pouco usual na elite intelectual de então.

EM CARNE E OSSO
Estou esboçando, em traços rápidos e econômicos, o perfil do meu amigo Manoel Onofre de Souza Júnior, Desembargador aposentado, Escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da União Brasileira de Escritores, diplomado como personalidade cultural pela União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Câmara Cascudo, em 1975, com o livro “Estudos Norte-rio-grandenses” e autor de mais de vinte livros que depõem sobre o seu amor à sua terra e à terra dos nossos mais remotos ancestrais.

Foi jornalista da Tribuna do Norte, Professor de História do Brasil, na Escola Alberto Maranhão e no Colégio Winston Churchill, e de História Política e Administrativa do Brasil, na então Faculdade de Sociologia e Política de Natal.

Ingressou na magistratura em 1970, sendo Juiz de Direito das comarcas de São Bento do Norte, Taipu, Pau dos Ferros, Martins, Mossoró e Natal. Dezenove anos depois, foi promovido, por merecimento, ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado, e, nesta condição, exerceu as funções de Corregedor da Justiça e membro do Conselho da Magistratura, aposentando-se em 1992.

Desde então, tem-se dedicado todas as horas do dia, ao seu verdadeiro ofício e vocação de escritor

Entretanto, não é dos seus belos livros que quero tratar agora , mas do próprio autor, que se revela riquissimo personagem, pela singularidade da sua personalidade e pelo conjunto de sua obra existencial e literária. Ora é revelado pela arte que imita a vida, ora pela vida que imita a arte.

O meu nobre amigo é filho e neto de juízes. O avô, Desembargador João Vicente da Costa, foi nosso professor de Teoria Geral do Estado, no primeiro ano de direito. Senhor de uma notória erudição e quase litúrgica devoção ao direito, no entanto, a idade já avançada nos sonegou os benefícios da sua sapiência. Falava com um fio de voz, quase imperceptível para a maioria da turma. Usava chapéu de massa, paletó e gravata e a impertinente calvície era acentuada por uns poucos fios de cabelo rebeldes e longos. Os olhos, no entanto, eram vivos e penetrantes, denunciando uma energia subjacente inimaginada.

Descende de duas ilustres famílias – Onofre e Costa – cujas origens se perdem nos confins da Ibéria e se encontram nos registros da história do nosso estado.

Mas, creio nele quando se confessa “beiradeiro”. É de fato um menino crescido no interior, um serrano de Martins, terra que carrega para onde vai, como confessa em “O Caçador de Jandaíras”.

Talvez a alma serrana/beiradeira se some à sua timidez, ou seja parte dela, fazendo-o como é. Mas, permito-me discordar dele, quando, comentando declaração do sergipano Gilberto Amado, segundo a qual teria pena de quem não foi menino de engenho, afirmou que substituiria o “menino de engenho” pelo “menino serrano”. Eu substituiria o “menino serrano” por “menino do interior” – o menino beiradeiro.

A OBRA
Onofre, no entanto, é denunciado na sua obra, exposto, abordável, claro, preciso, lógico, simples, direto. Os seus textos são de uma clareza Natalense, abrem-se como girassóis, oferecem-se como pequenos guias informais dos sítios turísticos, à cumplicidade da aventura da descoberta.

São, sobretudo, telas, aquarelas que não retratam a profundeza humana, nem se comprometem com transfigurações do real, antes, são relatos, observações, composições que não distorcem o cenário, acentuam-no, apenas. Econômico, como os americanos John dos Passos, John O´Hara e, uma certa fase de Hemingway, sobremodo na incrível proposta reducionista de “O homem e o mar”. Muito próximo do nosso Graciliano, seco, duro, mas não impermeável à emoção que não produz gratuitamente, mas ressalta do próprio cenário, emerge da temática. Mais tendente ao jornalístico, ao histórico e ao memorial que à ficção, embora “A Primeira feira de José” denuncie o grande contista que ele é.

É, sem dúvida, um colecionador de tipos, um “causeur”, que não precisa esforçar-se para criar, porque, parafraseando Van Gogh, todas as coisas estão ali, ao alcance da memória. A arte imitaria a vida.

O meu amigo, contrariando o lendário e o mítico, é solar. Habituado aos altiplanos, não sente a vertigem dos que habitam as planícies, quando expostos às grandes altitudes. Por isso não sofre do mal das alturas. Porque permanece no “Chão dos Simples”, fiel às suas origens, mesmo em Macchu Pichu, na Cordilheira dos Andes ou nos Alpes.

Não resisto ao clichê: é um Quixote de chapéu de couro, gibão e um cajado de jurema. Subindo e descendo a serra de Martins no lombo de um burro, em feliz algazarra, que nem os passarinhos acanalhados de Inácio Magalhães Sena em “Agora Lábios Meus Dizei e Anunciai”. Aqui e ali se abastece de frutinhas do mato, escuta um que outro passarinho cantador, rouba o mel das jandaíras, banha-se num riacho atrevido que pensa que é rio, deita-se à sombra de uma mangueira frondosa e bota olho gordo nos cajus vizinhos, vermelhas e grossas vírgulas ou cedilhas invertidas, aspira o cheiro das açucenas e das ervas embriagadas pela umidade

Enfim, mesmo de calças compridas e o cenho franzido e grave do adulto, carrega no ventre da memória nunca parido, o menino de Martins, desembestado nas abas da serra em direção ao sítio da tia Mariquinha. Mesmo que adote Portugal, Oropa, França e Bahia, é Martins que é embalada na mais alva e mais bem trançada rede armada no alpendre do seu afeto.

DEPOIMENTOS
Exercia o cargo de Secretário da Segurança Pública, nos idos de 1987, quando um agente de polícia, supostamente envolvido com o tráfico e consumo de drogas e respondendo a inquérito administrativo, entrou armado com metralhadora no prédio da Secretaria, submeteu um dos meus seguranças e ameaçou avançar sobre o meu gabinete.

O fato foi objeto de representação apresentada ao Tribunal de Justiça pelo então Procurador Geral da Justiça Edson Lucena, e distribuído a Manoel Onofre para relatório.

Certo dia, recebo uma ligação telefônica do meu amigo desembargador-relator.
Fez uma rápida introdução em que se confessava meu amigo e protestava pela fidelidade à amizade e foi direto ao assunto:

“Não aceitei a representação porque não está bem caracterizado o tipo (tentativa de homicídio). Infelizmente, tenho de decidir em conformidade com a lei, por mais que me tenha causado indignação o fato delituoso”.

É assim, o meu colega – não transige em questões de princípios.

De outra feita, apreciando um dos meus livros, disse que tinha boa qualidade literária, abro aspas “mas não era uma obra prima”. No prefácio da “Quinta dos Pirilampos” (ainda inédito) cita Rachel de Queiroz para concordar que “todo prefácio é uma excrescência”.

Fomos, ambos, candidatos a vice-presidente do Diretório Acadêmico Amaro Cavalcanti, da Faculdade de Direito. Ele, na chapa de Sílvio Procópio; eu, na de Jansen Leiros.

Jansen perdeu, mas eu fui eleito com o candidato a presidente adversário, Silvio Procópio.

Comentário de Onofre sobre a minha performance e singularíssima eleição: “Não é tanto que ele seja bom de urna, eu é que sou péssimo”.

É assim, espontâneo e verdadeiro esse querido amigo. Íntegro. Sólido. Autêntico. Coerente. Leal. Honesto. Poderia alguém aspirar mais? Tenho muito orgulho em tê-lo como amigo e colega.

Pensei até mesmo que todos os seus amigos poderiam incluir como referência curricular de louvor, dentre os títulos e honrarias que possuísse, a máxima chancela, uma espécie de comenda que predispusesse o agraciado à credibilidade pública: “Amigo de Manuel Onofre Júnior”. O título seria como um salvo conduto, um passaporte de tanta idoneidade que valesse até mesmo na portaria do céu, com a aquiescência de São Pedro.

* Professor de Direito aposentado, advogado e escritor

BOLETIM DA COPA 20-05-10

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Por Kinha Costa,
De Johanesburgo

Parreira está perdendo o sono: a SAFA – South African Football Association – mudou novamente todos os amistosos da seleção local. A Bafana Bafana joga com a Bulgária segunda-feira, dia 24, no velho e histórico estádio de Orlando em Soweto.

Mas lá também vai rolar no sábado, dia 22, uma semifinal de rúgbi, do campeonato Super 14. O jogo será entre dois gigantes: da parte sul-africana, Bulls X Crusaders, da Nova Zelândia. Parreira pergunta: o gramado vai ter condições e se recuperar somente com dois dias de descanso?

POLÊMICA DO BENIN
O atacante sul-africano Benin McCarthy tem sido muito criticado desde que chegou da Inglaterra, onde joga, há duas semanas. Benin quase não jogou na última sessão do campeonato inglês, ficou no banco do Blackburn Rovers a maior parte do tempo que serviu ao clube, mudou-se para o West Ham e continuou esquentando o banco.

Resultado: parece meio gordinho e fora de forma. Parreira está preocupado. Mas quem não lembra do Fenômeno em 2006? Até o presidente da República deu pitaco na dieta do Ronaldo. Ele, fez gols e saiu consagrado, apesar do fiasco da arrumação do meão de Roberto Carlos. Mas, a similaridade entre o Fenômeno e Benin fica somente na falta da forma física.

HOLANDA AMEAÇADA DE ATAQUE TERRORISTA
Os jornais sul-africanos deram uma notícia que me deixou de cabelos em pé: o al-Qaeda, em revanche - contra o cartum feito, em 2005, pelo artista dinamarquês, Kurt Westergaard, debochando do profeta Maomé e a Holanda que ajudou os Estados Unidos nas guerras do Iraque e Afeganistão - está preparando um ataque aos jogadores dos dois países, marcado para o jogo Holanda X Dinamarca, dia 14-06.

O ataque pretende ser com armas e carros bombas. O alvo é os jogadores, mas torcedores também serve.

Poxa, vibrei quando consegui ingressos pra esse jogo, agora estou com dor de barriga. A que ponto chegamos?!

BIBLIOTECA DE SOWETO ADOTA O BRASIL
A maior biblioteca de Soweto, localizada em Diepkloof, adotou o Brasil como o país preferido na Copa 2010 e será decorada com motivos brasileiros a partir de 21 de maio. Bandeiras, fotos, mapas e informação sobre nossa geografia, gastronomia e outros aspectos culturais estarão espalhados pelas salas e corredores da biblioteca.

Em tempo de Copa do Mundo, não faltarão referências aos craques brasileiros, cujas lustrações estão sendo elaboradas pelos alunos das escolas que frequentam a biblioteca.

Vai rolar oficinas de capoeira e percussão ministradas pelos brasileiros residentes em Johanesburgo e Pretória. Além de oficinas de língua portuguesa. O objetivo é ensinar palavras chaves para as crianças saudar turistas brasileiros que visitarão o estádio Soccer City, em Soweto, durante a Copa do Mundo. O Centro também exibirá filmes brasileiros ao longo das próximas semanas.

Além de ser conhecida pela luta contra o apartheid na África do Sul, Soweto é o berço do futebol sul-africano. Lá surgiram, entre outros, os famosos times Orlando Pirates, Kaiser Chiefs e Moroka Swallows.

A biblioteca de Soweto recebe uma média de 700 pessoas por dia. A exposição ficará aberta ao público de 21 de maio a 12 de julho.
Embaixada Brasil em Pretória: + 27 12-3665200
pretoria@brazilianembassy.org.za

TRANSNET GREVE GERAL
Entra no seu quinto dia de greve geral a empresa estatal, Transnet, responsável por toda a rede de transporte de trens, entrada e saída dos portos e toda a condução do oleoduto do país.

O porto de Durban, o terceiro maior do mundo e maior da África, está fechado. A Sasol, estatal do petróleo, equivalente a nossa Petrobrás, diminuiu a produção diária porque não tem como estocar o produto. Os trens que ligam subúrbios ao centro da cidade estão parados. Representantes dos trabalhadores exigem 15%. As negociações continuam. O preju, estimado, fica entre 30 e 50 mil euros diários.

E agora José, quem paga a conta?

O RECURSO EXTRAORDINÁRIO

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Por Pedro Simões Neto*

“Amigo é aquele que no seu silêncio, escuta o silêncio do outro” (Provérbio judeu)

Os que são devotados às amizades, já têm um capital inicial considerável: são todos anjos. A partir daí, evoluem até a gradação maior de arcanjos, permanecem onde estão, ou podem se converter em anjos caídos, que nem Lúcifer.

Armando Roberto Holanda Leite, a quem eu chamo de Beto, acrescentando, nas ocasiões mais solenes, o aditivo de “Seu Paulo da Farmácia”, numa alusão ao seu pai, é arcanjo. Mais que isso, é o irmão que eu não tive. Dizem os produtores de bons clichês que o verdadeiro amigo é como se fora um irmão com a vantagem de ter sido escolhido por nós para o posto. Pois é assim mesmo.

Comparo sempre Armando à minha irmã Joventina : são arcanjos-paradigma. Quem os tiver como amigos, contarão com alguém que fica sempre por perto quando os outros se vão ou desistem.

E ele está sempre por perto, montando guarda numa atalaia às vezes solitária, solidário, arrimo silencioso, aquele que oferece o ombro, sem dizer uma única palavra, certamente por entendê-las supérfluas, ociosas, inúteis. Foi assim quando perdi o meu pai, o ser humano que mais amei neste planeta; quando meu primeiro casamento se dissolveu e me vi destituído da companhia dos filhos; quando lançaram-me á infâmia, com acusações forjadas, no intuito de inviabilizarem qualquer projeto que pudesse ter acalentado; quando me exilei voluntariamente em Ceará-Mirim, convalescente de uma cirurgia de revascularização; quando constituí nova família… enfim, nunca me deixou na orfandade fraterna.

Um amigo assim constitui o maior patrimônio que um ser humano pode dispor.

Mas, digo, tomando de empréstimo a sabedoria popular: ninguém é bom porque é meu amigo; é meu amigo exatamente por ser bom. Beto é meu amigo porque é bom… mas não perfeito. Recebo com desconfiança a amizade dos seres gravados apenas pelas virtuosidades, sem defeitos, sem o condimento picante de algumas imperfeições que não os desconstroem, mas os singularizam e dão-lhes a feição humana perceptível, evidente, visível. Ao invés, os muito virtuosos se assemelham à lua ou aos icebergs – mantêm invisível uma das faces, ou a parte mais ofensiva de sua estrutura. Exatamente porque são ilegíveis por nós, míseros mortais, “indecodificáveis”, porque não há um paradigma humano.

Penso como seria Armando sem os seus defeitos…algo insosso, insalubre, fosco. Sem a sua “verve” um tanto cáustica, o seu imperialismo afetivo que desconstitui quaisquer outros liames paralelos, sem a franqueza, cortante como uma adaga afiada, mas sempre oportuna, dando razão ao adágio segundo o qual os amigos devem dizer o que precisamos ouvir e não o que queremos ouvir.

Para agradar e concordar sempre conosco, podemos adotar um bajulador, ou uma lagartixa.

É um tanto desajeitado nos agrados, tal outro amigo querido, Jussier Magalhães, cirurgião plástico e dos maiores pintores do nosso estado, convocado por Deus para o Seu Reino. Entendia o sem-jeito de Jussier e entendo o de Armando. As almas muito sensíveis, precisam resguardar o seu carinho, porque se vulnerabilizam, tal como se expusessem as suas “fraturas”, correndo o risco de que alguém, valendo-se dessa fragilidade, ponha o dedo na ferida. Por isso, preservam-se, adotando uma carapaça de indiferença ou de rudeza no ofício do carinho, que as protege, afastando os predadores.

E, por mais dureza que amostre a sua armadura, ela é como a concha em relação à ostra. E Beto vive em permanente transição, entre a ostra e a pérola.

Outro traço marcante na personalidade do meu amigo, consiste no fato de que ele foi fatalizado a viver togado. Antes de me tornar seu amigo, e conhecê-lo mais intimamente, dava-me a impressão de que dormia de paletó e gravata, e, sob certas circunstâncias, envergando uma toga forense, apesar de não ser formalista. Era o seu jeito de ser, de encarnar o profissional do direito que se abrigava nele vinte e quatro horas por dia. Nasceu advogado e será assim toda a vida, sem a franquia da aposentadoria.

Foi Professor de Direito, com Mestrado realizado na PUC de São Paulo, Promotor, Procurador da República e, nessa condição, Procurador Regional Eleitoral junto ao TRE e Chefe da Procuradoria, Consultor Jurídico do Estado, Advogado militante, titular de uma das maiores bancas do Estado do Rio Grande do Norte. Jamais se afastou da carreira que elegeu como o seu norte profissional e existencial.

Acredita no pontificado e na liturgia do Direito, como crê na sua própria existência, rememorada a cada momento na carnadura e na alma imortal, testemunhos da vitalidade perene, mesmo quando cessa a vida temporal. E nada lhe é mais prazeroso do que o envolvimento com as pesquisas, os arrazoados e os leguleios jurídicos, sobretudo quando oferecem um nível maior de complexidade. É, sobretudo, (valham os céus) um workaholic, uma criatura fascinada pelo seu trabalho.

A bem da verdade, de uns tempos para cá, abriu um espaço para si mesmo, entre um e outro trabalho. Vai a restaurantes, viaja pelo Brasil e alhures, freqüenta mais amiúde os filhos, faz hidroginástica, ouve música, vai a shows, e visita compulsivamente os “marchand de tableaux” à procura de telas que o encantem. Não reprime mais o riso, agora tornado público, que soa entre o brejeiro e o zombeteiro, antes reservado para os amigos mais íntimos. Nem sovina os comentários cheios de graça, improvisados, “na ponta da língua” sobre os personagens incômodos ou pitorescos da nossa aldeia.

É dele o comentário rápido e chistoso sobre uma pessoa notoriamente estabanada: “ela é doida e pensa que é alegre”. Mas, além do trabalho, o seu maior “hobby” é colecionar amigos… “que valham a pena”, acrescenta, sempre que me refiro a essa particularidade.

Faz profissão de fé na “intriga do bem”, predicado que Cascudo alçava ao mesmo nível das virtudes teologais, embora o considerasse raro. Entusiasma-se quando defende a integridade alheia ou transmite o testemunho de um elogio ao beneficiário.

É um vitorioso, e não por gratuidade ou favorecimento, mas porque é um combatente inato, um guerreiro implacável, mas leal, desses que dizem ao seu oponente que vão atacá-lo, e até indica o local do ataque. Um samurai, capaz de pelejar indefinidamente, com uma vantagem moral sobre o guerreiro japonês: jamais cometerá o “seppuku” na eventualidade da derrota, porque permanece no combate mesmo quando é derrotado. Recuar, talvez, mas nunca fugir da liça.

Ninguém é tão equilibrado entre os extremos como ele, exatamente porque oscila entre os opostos, o “ying” e o “yang”. Ou é ou não é. É amigo ou desafeto, não há meio termo… nem capitulações. É carne ou peixe. Não usa panos quentes, nem se serve das palavras com guardanapos de linho, para usar uma feliz metáfora de um ilustre Macaibense. Oferece a mão ao caído, deixa que utilizem o seu ombro, despoja-se em favor do necessitado, mas não é morno.

Universal, é bem informado sobre a “aldeia global” e conhece o mundo. Tem gosto refinado: gosta de bons vinhos e de artes plásticas. Possui expressivo acervo de obras de Newton Navarro, em sua melhor fase. No entanto, mantém Macaíba, a cidade de sua infância, lá dentro do peito, guardadinha, a salvo do pandemônio da globalização.

Por isso não nos causa nenhuma estranheza quando, convocado para o café da manhã, ou o almoço, provoca a comadre Jailza, minha mulher: só vou se tiver tapioca, cuscuz, mungunzá, guiné, farofa d´água…!

Mantém uma distância respeitosa do computador, não o teme, nem o reverencia, tem-no como um mal necessário. Em suas relações com esse complicado instrumento de trabalho, utiliza Mércia, a sua fiel e eficiente auxiliar, como uma espécie de “médium”, a que incorpora as mensagens do etéreo e as converte em algo inteligível. Prefere mesmo a sua inestimável máquina de escrever IBM elétrica, adquirida como inimaginável avanço tecnológico nos anos setenta. “É suficiente” – arremata – “para um menino de Macaíba que escrevia a lápis com certa dificuldade… já é muita coisa”. (Nesse aspecto, lembra-me outro grande amigo, o escritor e desembargador aposentado, Manoel Onofre de Souza Júnior, meu colega de turma, que supera Armando na fidelidade aos anos dourados: usa uma Olivetti mecânica e explica que a sua serventia contribui para a formação de um acervo histórico e auxilia o trabalho dos pesquisadores)

É afoito. Certo dia me procurou e disse que precisava de um parecer sobre matéria cível, para apoiar uma tese num dos seus arrazoados. Disse-me que buscou a opinião de um dos mais festejados civilistas do país e que recebera um documento óbvio, considerando-se os magistérios reconhecidamente brilhantes do mestre jurisconsulto. Pediu-me que eu o fizesse, pois tinha certeza de que seria melhor que o elaborado pelo douto professor.

Com certa relutância e muita insegurança, aceitei o encargo, para atender ao amigo. Nunca me dediquei com tanta devoção a um trabalho. Trabalhei com ardor, febril, atento, analítico, minucioso. Dois dias depois o entreguei. Armando leu, degustou, saboreou e, silenciosamente, abraçou-me dizendo que era o que queria.

Deus concedeu-lhe duas mães. A legítima, Dona Tetê, que o aguardava em Macaíba nos fins de semana, nas férias, vindo do Marista e depois da Faculdade de Direito, e Tia Ana, que o acolhia em Natal. Deu-lhe um pai que valia por dois, um homem com virtudes acima da média, bom amigo, caridoso, pacífico, conciliador, generoso. E três irmãs: Ana Rosa (a mais velha), Adala Rejane (Nani) e Andréa, a mais nova, juiza de direito. Floresceram-lhe cinco filhos, bonitos e valiosos, por ordem de idade: Henrique, Hugo, Haroldo, Paulinho e Beatriz, final de rama e única mulher, preciso dizer mais alguma coisa? Um casal de netos – por merecimento, não por antiguidade.

Sem nenhum demérito para uma família tão rica e tão devotada uns aos outros, destaco, por minha conta e risco, a figura de Tia Ana. Que acolheu, além de Beto, sua irmã Ana Rosa e dedicou-se a outra parente, Deijair Henrique Borges, minha amiga, ex-diretora e professora da Escola de Música da UFRN.

Não sei porque, quando via Tia Ana, lembrava-me de uma mamãe Noel – coisas de quem tem a mente muito fértil e consegue “ver” com os olhos da alma. De pele alva, como os habitantes da fantástica terra de São Nicolau, alguma coisa de avermelhada nas bochechas, lembrava-me uma maçã. O conjunto era de uma harmonia indiciadora – era uma fada-madrinha. Para Beto, era uma mãe-avó, com todos os predicados da mãe e uma cobertura caramelizada da avó.

Mas não a imaginem complacente, dessas que querem barganhar a afeição dos filhos-netos com excessiva tolerância. Ao invés, ensinou disciplina e estoicismo, o desprezo pelas facilidades, que, como dizem os americanos “easy come, easy go” e o valor da luta na perseguição e conquista dos sonhos. Ensinou-lhe, também, que muitas vezes não é a reta a menor distância entre dois pontos. Haveria que se planejar a caminhada, muitas vezes tomando veredas e caminhos vicinais pedregosos, íngremes e movediços E a perseverar.

Como passava a maior parte do tempo com a Tia Ana, foi com esses ensinamentos que se tornou adulto, curtido para as batalhas que se apresentariam no seu dia-a-dia, comum a todos os meninos nascidos na pobreza digna, com vontade de ter uma identidade e um lugar sob o sol.

Por formação, era o que classificávamos, na Faculdade de Direito dos anos sessenta, um integrante da “direita”, isto é, todos os que não participavam da “frente única” que reunia os comunistas, os cripto-comunistas e os simpatizantes - a gente da esquerda. Eu mesmo reuni alguns amigos sob uma organização informal que chamávamos de MEI (Movimento de Esquerda Independente), participantes da frente única, mas eqüidistantes, tanto quanto possível da radicalização reducionista.

Pois bem, mesmo com a genuína ojeriza que os “direitistas” devotavam à turma da esquerda, Armando foi a única ajuda com que contou um nosso colega advogado, professor da UFRN, quando este foi alcançado pelos atos de exceção. O nosso Beto socorreu a família inteira até quando a vítima do ato institucional foi reabilitado. Porque não distinguia os amigos entre “esquerdos” e “direitos”, mas segundo a doutrina do afeto e a exigência da sua necessidade. Sei de dezenas de casos como esse, do efetivo apoio material, da indispensável solidariedade no momento do desespero. Nem era necessário o grito, o pedido de socorro, ou o constrangimento do pedido de esmola. Beto possui um rastreador que o mantém “antenado” nos seus amigos.

Como no ditado judaico que secunda o título, ele, no seu silêncio, escuta o silêncio do irmão aflito.

Um parente distante, beneficiário de uma aposentadoria por invalidez, cuja renda o inabilitava à sobrevivência, certo dia viu-se sem condições de pagar o aluguel de uma casa para morar. Armando cedeu-lhe um dos seus imóveis e me pediu para fazer a entrega das chaves ao beneficiário, encarecendo que o fizesse entender que o agradecimento não seria bem-vindo. Ele se sente constrangido, sem jeito, embaraçado com as demonstrações de gratidão. Apressa-se em explicar que tem receio de que o seu gesto seja entendido como uma esmola. Se pudesse, faria como os espíritas, para quem “a mão esquerda não deve saber o que faz a direita”.

Afora os pais e a Tia Ana, talvez a sua maior devoção, corresponde à contribuição mais marcante na sua vida profissional - o Professor Múcio Vilar Ribeiro Dantas, de quem foi auxiliar e o teve como orientador nos primeiros movimentos da advocacia. Ele se considera filho intelectual do grande mestre e dele herdou a inflexibilidade nas questões ético-jurídicas, a feição polêmica e o desvelado amor ao Direito. Para não perder o norte assinalado pelo ícone, cultiva uma relação fraterna com o talentoso filho do seu mestre, Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, a quem credita a mesma vocação para a ciência jurídica e o mesmo aprumo intelectual do seu pai.

Quando estava concluindo este perfil, Maria, minha filha mais nova, afilhada de Armando, pergunta o que estou fazendo. Quando a informei, ela me recriminou: “Eu sou a pessoa mais ligada a ele. Sou a sua afilhada e o chamo de tio. Por que não fui chamada para dar a minha opinião?”. Perguntei-lhe, então, qual era. “Ele é a pessoa de mais alto astral que eu conheço”.

Nada mais foi dito, nem perguntado.

*Professor de Direito aposentado, advogado e escritor

INDISPENSÁVEL NO KIT DA COPA 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Por Kinha Costa

Alfred Baloyi é o criador do Makarapa, um capacete de trabalhador da construção civil enfeitado de forma extravagante, que certamente deixaria Carmem Miranda com água na boca.

As vuvuzelas já estão famosas no Brasil e no mundo, mas o MAKARAPA ainda precisa ser incorporado como peça fundamental à indumentária do torcedor que vai à Copa do Mundo na África do Sul, que quer se divertir pra valer e chamar
atenção.

Tudo começou há 30 anos, em 1979, quando o, então, empregado da prefeitura de Pretória, como lavador de ônibus, curtia um jogo do seu time predileto e presenciou, horrorizado, um outro torcedor ser atingido por uma garrafa jogada da arquibancada de cima.

- Poxa, esse lugar é perigoso! Exclamou. Alfred trabalhava uniformizado de macacão e capacete.
Apaixonado por futebol, não desistiu. E no jogo seguinte, foi ao estádio protegido por seu capacete de trabalho. Enfeitá-lo com as cores do Keizer Chiefs, seu amado time, foi o primeiro passo.
Apesar de não ter ido além do ensino primário, sempre foi um artista nato e passou a caprichar na decoração do seu protetor de torcedor fanático.

Sem perder um jogo do seu dileto time, começou a chamar atenção por exibir um capacete único e chifroso. De tanto receber ofertas de compra, resolveu aceitar encomendas do seu extravagante adereço. O batizou de makarapa, que na língua isiXhosa, significa operário imigrante. A grande massa de trabalhador das minas de ouro de Johanesburgo oriunda de todas as regiões do país e da Ásia.

Alfred vendia seus makarapas nos sinais de trânsito, nas paradas das kombis e no estádio, em dia de clássico. O negócio foi tomando conta da sua vida e transformou-se no seu ganha pão. Mas a produção artesanal rendia somente dois capacetes por dia. O ritmo não acompanhava a demanda e também não possibilitava lucro.
Arrumou um sócio, o vendedor de artigos esportivos, Grant Nicholls, criaram a Papadi e passaram a produzir numa escala industrial, sem o produto final perder as suas características de peça de arte única.
Os makarapas imigraram pra esportes como rúgbi e críquete e a pequena fábrica começou a receber encomendas de empresas e grandes quantidades. Os desenhos foram ficando mais sofisticados e hoje os capacetes exibem chifres, emblemas de times internacionais, figuras famosas dos esportes e pra Copa do Mundo, as cores e os símbolos dos 32 países participantes entre outras inspirações.

Alfred Baloyi, 57 anos, pai de cinco filhos, não ficou rico, mas construiu uma casa bacana pra sua família e a filha, de 20 anos, frequenta a faculdade de graphic design. Sonhos realizados, mas impossíveis de acontecer se ainda fosse lavador de ônibus. Graças ao makarapa!

Até o Makarapa ser apresentado na Suíça, como parte do kit do torcedor na batalha pra sediar a Copa que se aproxima, foi uma longa caminhada. Porém, hoje sua marca se tornou imprescindível na festa do futebol sul-africano e vai, com certeza, conquistar os corações dos torcedores internacionais, com a vantagem de não fazer o som barulhento da vuvuzela e ainda atrair, como abelhas, as câmeras de televisão.

O preço, pra Copa, varia entre 25 e 40 euros e pode ser encomendado via internet: www.makarapa.com