O REDESIGN DA ‘TESOURA’
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010![]()
Por Claudio Carneiro,
do Opinião e Notícia
Não é um privilégio do período colonial, da República ou da ditadura militar. A censura no Brasil sempre existiu. E, nos tempos atuais, resolveu espalhar seus tentáculos num gênero específico e promissor de nossa literatura – o da biografia. Os exemplos não são poucos. Que o digam os jornalistas Luiz Claudio Cunha (“Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios”), Ruy Castro (“Estrela Solitária”), Fernando Morais (“Toca dos Leões”) e Paulo Cesar Araújo (“Roberto Carlos em Detalhes”), e também os editores Roberto Feith (Objetiva) e Luciana Villas-Boas (Record), somente para citar fatos mais notórios.
O caso mais recente atinge a historiadora Mary Del Priore, autora de “Matar para não Morrer”, publicado pela Objetiva, livro que conta os fatos antes e após a troca de tiros – episódio que completou cem anos em 15 de agosto de 2009 – entre o escritor Euclides da Cunha e o militar Dilermando de Assis. Por intermédio de advogados, descendentes de Dilermando ameaçaram processar Mary que decidiu – junto com a editora – publicar a obra.
Obcecado em se vingar do cadete – que lhe roubara a mulher Ana – o temperamental autor de “Os Sertões” partiu naquele domingo para o bairro carioca de Piedade com uma arma na mão. Lá, ele acertou três tiros em Dilermando. Em seguida, Euclides tentou fugir mas caiu morto com dois balaços disparados pelo rival – que se recuperaria dos ferimentos, mas passaria à História como vilão. A “Tragédia da Piedade” foi recuperada passo a passo, graças aos inúmeros jornais da época.
“Era um momento de modernização do jornalismo com notícias colhidas de fresco, entrevistas e fotografias, graças à chegada da Kodak entre nós. Houve, igualmente, a publicação de inúmeras charges que não pudemos publicar. Muitas delas, caricaturando a relação adulterina entre uma mulher “mais velha” e um rapaz mais jovem. O fato causou sensação e sensacionalismo. Os autos do processo publicados e estudados por Walnice Galvão – professora de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP – colaboraram em muito para elucidar lacunas. Não faltaram documentos para seguir cada passo do que aconteceu. Foi como acender a luz sobre assunto escondido”, revela Mary Del Priore.
O livro narra o drama que envolveu os quatro atores históricos – todos homens – da tragédia da Piedade, cujas vidas só conhecemos uma versão: aquela dada pelos biógrafos de Euclides da Cunha. Os jovens irmãos Assis tinham carreiras promissoras pela frente – Dilermando, a militar e Dinorah, a quem Euclides baleou na nuca, acabou progressivamente inutilizado para o futebol. O suicídio abreviou o drama do craque do Botafogo. Quidinho – filho de Euclides e Ana – era apenas um estudante. O aspirante da Marinha acabou morto por Dilermando, no ano seguinte, ao tentar vingar a morte do pai. Todos – incluindo Euclides – colhidos por um paradigma que “imantava” a sociedade brasileira no início do século: “Honra manchada tinha que ser lavada em sangue. Deste quarteto infernal, apenas Dilermando sobreviveu. Sua vida, como digo, foi “uma noite sem fim”. Jamais se reabilitou, condenado a viver à sombra da glória de Euclides. Por trás desta interpretação, reside um objetivo: analisar o sofrimento masculino numa sociedade patriarcal. Pouco se sabe sobre como os homens lidavam com o fracasso, a “cornitude” e o abandono. Afinal, entre machos, “homem não chora”! O único recurso é matar ou matar-se. Debrucei-me sobre a questão, ainda mal analisada por estudiosos da sociedade brasileira. Esses quatro atores são exemplos terríveis do quanto sofrem os homens, numa sociedade onde a dor e o sofrimento masculino não podem ser ditos ou manifestados”, reflete.
Por um hábito que considera boa educação, Mary enviou o copião do livro aos herdeiros antes de entregá-lo definitivamente à editora. Ela ressalta que nenhum autor precisa da aprovação da família para colocar no papel suas impressões. Nessa obra, ela contou, desde o início, com a leitura sistemática de Dirce de Assis – filha de Dilermando com sua segunda esposa – que aprovou cada página. Estendeu o gesto às netas do militar. As descendentes de Ana da Cunha, contudo, ficaram inconformadas com a leitura extraída de documentos de época. “Os jornais do início do século, bem como a leitura dos autos do processo não deixam dúvidas quanto às atitudes ambíguas da então esposa de Euclides da Cunha: dominadora, manipuladora e mentirosa. Além do que, feia. Nada parecida com a bela Vera Fisher que encarnou seu papel no seriado de televisão”, conta. Dilermando não escondeu sua vida de sofrimento e dificuldades. E em muitas poesias de sua autoria, nota-se claramente que, salvo pelos inúmeros filhos que tiveram, a paixão há muito se esgotara. “Nesse livro, Ana da Cunha passou da musa – representada por Vera Fisher – a ‘erro de juventude’. No Brasil infelizmente temos leis que protegem a imagem que os descendentes querem guardar de seus antecessores. Se tal imagem contraria a história, pior para a História. Pois foi o que aconteceu. Fui submetida a inúmeros e-mails e cartas com todo o tipo de ameaça, das mais grosseiras”, denuncia.
A pesquisadora se diz chocada com o que chama de ‘pequenas formas de abortar o conhecimento histórico’. “Tudo bem, não existe mais a figura do censor, de tesoura na mão. Mas há uma forma de censura explícita, que proíbe a voz de jornalistas e jornais, a publicação de matérias e entrevistas à censura mais implícita, que se configura em mecanismos repressivos que se exercem de maneira dissimulada na sociedade”. É o caso de parentes de biografados que acionam a Justiça para cercear o direito de pesquisadores, jornalistas e historiadores escrever e opinar sobre eventos que tiveram lugar há mais de cem anos. E o fazem sem a preocupação com acusações de calúnia, difamação e injúria, motivos de sanções no mundo inteiro. “A busca é por proventos financeiros. Ou seja, não são as ideias as perseguidas. Mas persegue-se o dinheiro que pode resultar do silêncio das ideias. E lamentavelmente todo um aparato jurídico se põe em funcionamento para viabilizar essas formas de censura”, queixa-se.
Na falta de uma legislação a respeito, os biógrafos ficam expostos a decisões insólitas como a do juiz Jeová Sardinha, de Goiânia, que proibiu o jornalista Fernando Morais de sequer citar em entrevistas a existência de seu livro “Toca dos Leões”, editado pela Planeta – que conta a trajetória da agência de publicidade W/Brasil. Em dado instante da obra, Morais mencionou uma declaração do então candidato à presidência da República – deputado Ronaldo Caiado – de que, se eleito fosse, mandaria esterilizar todas as mulheres do Nordeste. O parlamentar obteve a busca e apreensão judicial da obra. O autor ainda teria de pagar R$ 5 mil a cada vez que falasse do assunto. A decisão acabou anulada pelo Tribunal de Justiça de Goiás.
Autor do livro “Operação Condor: o sequestro dos uruguaios”, o jornalista Luiz Claudio Cunha narra – entre outras coisas – a ação do policial aposentado João Augusto da Rosa, conhecido como Irno – num fato amplamente contado na imprensa: o sequestro de Lilian Celiberti e Universindo Dias, em novembro de 1978. Irno está processando o ex-repórter da Veja. “Achei muito esquisito. O livro reconta a história que havia publicado na revista. Durante todo esse tempo nunca recebi nenhuma contestação. Não entendo a lógica que moveu o policial a tentar confundir o que é líquido e certo. Bem mais tolerante, eu nunca pensei em pedir indenização a ele por ter apontado uma pistola para minha testa naquela tarde de novembro de 78, no apartamento da rua Botafogo, onde ele mantinha Lilian Celiberti sequestrada. O que não devemos, jamais, é nos render a estas tentativas de intimidação, mesmo sob a capa da lei”, denuncia.
Luiz Claudio Cunha repudia mais essa modalidade de censura: “Imagine se a história do mundo, para ser contada, precisasse de autorização prévia dos personagens. Espera-se que todos os melindrados, de todas as épocas, tenham aprendido a lição e parem com este tipo de bobagem, que nada mais é do que cerceamento ao jornalismo, à literatura e à livre expressão”, conclui.
Autor das biografias de Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda, Ruy Castro se viu pressionado pelas filhas do craque conhecido como “a alegria do povo” ao publicar o seu “Estrela Solitária”, pela Companhia das Letras. Entre o lançamento e algumas proibições se passaram onze anos. Em 2006, um acordo financeiro resultou na liberação da obra. O historiador Paulo César Araújo, por sua vez, continua envolvido em longa batalha judicial para obter a liberação de “Roberto Carlos em Detalhes” uma biografia cuidadosa que em nada atinge a honra do biografado, segundo a advogada Deborah Sztajnberg. Tais proibições devem-se ao artigo 20 da lei nº 10.406 do Código Civil de 2002, que permite que personagens e seus herdeiros impeçam a circulação de biografias não autorizadas.
O deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) apresentou o projeto de lei nº 3378 de 2008 que propõe “a livre divulgação da imagem e de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública ou cuja trajetória pessoal ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade” alterando o artigo 20, tal como está, que estabelece que a imagem – tanto a reputação ou biografia – de uma pessoa só pode ser usada para fins comerciais com a prévia autorização dela. A proposta do ex-ministro da Fazenda tem apoio de todo o segmento editorial. O parlamentar entende que não se pode proibir que se escreva a História do Brasil. Aprovada a lei – que se espera para 2010 – poderemos ler todas as biografias não autorizadas como a do “rei da jovem guarda” e até mesmo, quem sabe, a curiosa e polêmica biografia de Palocci.