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UERN: SEMANA DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Divulgação

O ano de 2010 marca a sétima edição da Semana de Estudos Linguísticos e Literários de Pau dos Ferros (SELLP); pela dimensão que o evento ocupou nas últimas edições, este ano se propõe o enlarguecimento de suas fronteiras. Creio que essa deva ser a proficuidade de todo evento acadêmico ou de estudos - sua constante evolução e não seu encasulamento como ocorre a outros eventos. Por isso, paralela a VII SELLP se realiza esse ano o I Colóquio Nacional de Estudos Linguísticos e Literários. Na página do evento já está disponível todas as informações para inscrições, que seguem até o prazo final de 10 de setembro de 2010.

Na listagem de minicursos chamo atenção para o Minicurso 3 - Diagnósticos do presente em José Saramago, Chico Buarque e Jorge Reis-Sá que será ministrado por mim. Este será um grande momento de discussão da obra de três grandes escritores contemporâneos, sobretudo, José Saramago. Aos que se interessarem em se inscreverem para eles solicito que leia as informações postadas no meu blog http://letrasinversoreverso.blogspot.com/2010/05/dois-novos-momentos-para-agenda.html

Informações: http://www.uern.br/eventos/sellp/index.html

MP PROMOVE AÇÃO EM NISIA FLORESTA

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Divulgação

Atividade promove protagonismo e ações de preservação ambiental; iniciativa do Judiciário é realizada pelo segundo ano consecutivo

 

No próximo dia 14 de junho, a comarca de Nísia Floresta e demais parceiros realizarão a segunda edição do evento ‘Plante uma Floresta em Nísia Floresta’. A atividade de cunho educativo e cultural acontecerá no Eco Posto na localidade de Bonfim e reunirá cerca de 1.000 crianças e adolescentes numa ação de conscientização sobre a importância do meio ambiente.

 

Durante as atividades serão realizados plantio de árvores no local e depois todos os participantes do encontro formarão na área do evento uma gigantesca bandeira do Rio Grande do Norte. Na ocasião, um avião cedido para o evento, será utilizado para documentação em vídeo e fotografia, o que proporcionará uma visão aérea da iniciativa.

 

Além de exercitar o protagonismo de crianças, adolescentes e jovens, a atividade será um momento de mobilização em torno da questão ambiental. Além disso, a iniciativa também tem o propósito de dinamizar a área do Eco Posto. Nesse espaço está sendo construído o posto da Polícia Ambiental de Nísia Floresta, um auditório para a realização de atividades educativas e culturais e também será instalado um viveiro de mudas.

 

Museu Nísia floresta

 

Antes da atividade no Eco Posto, mas como parte das ações de mobilização do município, também será incorporado na programação o Lançamento da Pedra Fundamental do Museu Nísia Floresta. A solenidade acontecerá na comunidade de Campo de Santana, onde funcionará o Museu.

 

O evento vai contar com a participação do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário; além de instituições da sociedade civil organizada, grupos culturais, educadores e alunos das escolas públicas.

 

Durante o lançamento, acontecerá apresentação do grupo de forró pé de serra ‘Zé de Gorete’ e peça teatral. O Museu Nísia Floresta é uma iniciativa selecionada pelo Programa Mais Museus do Ministério da Cultura/IPHAN, onde o Centro de Documentação e Comunicação Popular – CECOP é o responsável por sua execução. O Museu conta com a parceria local da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta e o apoio da Casa Brasil e do Poder Judiciário.

 

Lançamento da Pedra Fundamental do Museu Nísia Floresta

Local: Centro de Cultura e Turismo de Campo de Santana – Nísia Floresta

            (Ao lado do cemitério de Campo de Santana)

Hora: 13h

 

Plante uma Floresta em Nísia Floresta

Local: Eco Posto – Bonfim / Nísia Floresta

           (Próximo ao Forró da Lua)

Hora: 14h30

 

Contato: Juiz Dr. Marcus Vinícius – 9993-0216

MONUMENTO RELIGIOSO AMEAÇADO

domingo, 4 de abril de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do Rio Grande do Norte, a Igreja Matriz da cidade do Açu, está ameaçado. Sem manutenção adequada, por falta de recursos, o ano passado o seu teto ruiu, repentinamente, sem causar vitimas.

Em 28 de setembro do ano passado o deputado José Dias requereu, na forma regimental, o seu tombamento pelo Patrimônio Histórico do Estado e para isto foram expedidas correspondencias para a então governadora Wilma de Faria, a consultora geral do estado, Tatiana Mendes Cunha, ao secretário da Educação e Cultura Ruy Pereira dos Santos, ao presidente da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto, sugerindo a medida que garantirá a preservação da Igreja Matriz de São João Batista da ribeira do Açu. Até o momento, são desconhecidas ações do governo nesse sentido.

O deputado José Dias apóia, assim, o pedido de tombamento encaminhado pela Diocese de Santa Luzia de Mosasoró, já endereçada à Fundação José Augusto.

Durante gerações uma das paróquias mais ricas do estado, possuidora de grandes cabedais em bens imóveis que em certa época se evaporaram misteriosamente ou – segundo alguns açuenses antigos – foram vendidos e transferidos para a Diocese de Mossoró, hoje São João Batista não tem o que um periquito roa e sua casa, uma das mais imponentes no gênero, está dependendo da caridade pública para sobreviver.

Ressalta, dessa inusitada ocorrencia, a pobreza ou a incapacidade de ação dos paroquianos e, mesmo, da sociedade organizada local, que não tem agido no sentido de contribuir para a restauração do monumento que se destaca pela sobriedade e solidez de sua estrutura duplamente secular.

Nem mesmo o governo do município tem se manifestado nesse sentido, apesar da importância histórica do monumento entregue ao deus-dará.

Palco de importantes acontecimentos religiosos, sociais e politicos, a Igreja Matriz de São João Batista está intima e visceralmente ligada à história do municipio e da região. Começpou a ser construida em 1760, por iniciativa do padre João Saraiva de Araújo, obedecendo ao projeto que privilegiara o estilo Romano, por dentro, e o Barroco por fora, quando o Açu ainda era um simples povoado, conhecido como Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres (antes, Presidio de Santa Margarida).Porém, antes, em 1712 Sebastião de Souza Jorge havia mdoado um terreno para que neçle fossem construidas uma igreja e uma Casa Paroquial, sendo o ato marcado com a ereção de um Cruzeiro que passou a ser o marco da devoção popular e do congraçamento social.

Em seu adro foi cometido em 1840 um multiplo assassinato, o maior crime politico já ocorrido na ribeira do Açu, que ficaria conhecido como o “Fogo de 40″. Vários militantes foram traiçoeiramente assassinados a tiros após um meeting que poria em risco a estabilidade do grupo dominante.

A história da Igreja Matriz de São João Batista foi escrita pela jornalista Auriceia Antunes e serviu de subsidio histórico ao pedido do deputado José Dias, que continua, juntamente com o povo do Açu, à\ espera da palavra (e sobretudo da ação) do governo do estado.

Leia a continuação deste artigo depois
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PROJETO ESPERANÇA CHEGA A IPANGUAÇU

segunda-feira, 22 de março de 2010

Por Keyson Cunha,
Do blog Ipanguaçu-News


Projeto Esperança que tem como parceria Petrobras e Prefeitura Municipal de Ipanguaçu será lançado oficialmente nesta segunda

Nesta segunda dia 22 às 19 horas será lançado oficialmente o Projeto Esperança, em uma solenidade na Câmara Municipal, o projeto destina a contribuir para a melhoria da qualidade de vida e prática da cidadania de crianças e adolescentes, compreendidos entre 7 e 17 anos, do município de Ipanguaçu, em situação de risco pessoal e social, exclusão e vulnerabilidade.

O Projeto Esperança é financiado pela PETROBRÁS em parceria com a Prefeitura Municipal de Ipanguaçu e é mais uma conquista em favor das crianças e adolescentes do município, uma vez que desenvolverá ações de proteção social básica e especial buscando combater todas as formas de abuso, negligência ou outras formas de violência contra esse público. Este projeto será implantado na sede do município e nas comunidades de Picada e Arapuá.

O projeto terá contra partida da prefeitura municipal no valor de R$ 12.000,00 e de R$ 92.874,47 pela Petrobrás, tendo um total de R$ 104.874,47. Serão atendidas 120 crianças que participarão de oficinas de teatro, musica e esporte.

CHUVAS DE SÃO JOSÉ

sábado, 20 de março de 2010

Por Daniel Targino, do
Blog de Poço Branco

O dia de São José, tradicionalmente comemorado em 19 de março, não é apenas mais uma data religiosa. Para os agricultores nordestinos essa data significa a possibilidade de um bom inverno. Em 2010, as expectativas de chuvas são pequenas se considerarmos as previsões dos principais institutos de pesquisas sobre o clima. As mais otimistas não são animadoras, mas para o homem do campo “se chover no dia de São José o inverno será bom”.

Embora se esperasse o contrário, o dia 19 começou com o céu tomado de nuvens esparsas e muito calor. Parecia que a data seria desanimadora para os agricultores poçobranquenses, mas não foi. Já no meio da tarde as nuvens mudaram sua tonalidade clara para escura e a tão esperada chuva veio. Não foram tantos milímetros assim. Apenas o suficiente para abrir um animado sorriso no rosto do sertanejo

UMA TARDE NO MARÉ MANSA

domingo, 11 de outubro de 2009

Por Franklin Jorge

Macau - Ir à ilha de Macau e não pousar no Maré Mansa - uma instituição local - seria o mesmo que ir à Roma e não visitar a basílica de São Pedro. Assim, na terra do grande escritor Aurélio Pinheiro, fui almoçar e jantar algumas vezes no Maré Mansa que há 40 anos é o endereço gastronomico mais importante da região.

Comida honesta e saborosa, o restaurante fundado por Sebastião Amâncio oferece-nos tambem, como impagável cortesia, uma belissima paisagem e, dependendo do horário, um inesquecivel por do sol com direito a barcos ancorados sobre o plácido rio Assu emoldurado de mangues verdissimos.

Seu Sebastião é o anfitrião discreto e amável com quem converso sobre a cronica da cidade que me pareceu bem outra após a calamitosa ingerencia do ex-prefeito José Antonio Menezes, aliás condenado por corrupção, que nada fez pela cidade que fedia, tamanha era a sujeira - a que se expunha aparatosamente aos olhos de todos e a secreta, desvelada por ações do Ministério Público Estadual e Tribunal de Contas do Estado. - O Valadão, bairro construido sobre mangues e lamaçais, era a prova cabal dessa penúria gerencial do dr. Menezes…Hoje o Valadão está saneado e se tornou irreconhecivel. Espelha outra realidade.

Mas voltempos a Seu Sebastião, um patrimônio humano e imaterial vivo, decano em seu oficio de restauranteur, um dos homens bons de Macau. Entrevistei-o, há pouco, para a edição da “Folha de Macau”, comemorativa do aniversário da cidade que transcorreu em 9 de setembro, mensário que há mais de uma década registra os fastos e a história do Vale do Assu, sendo am publicação de maior credibilidade e circulação nessa área geográfica do estado.

Já octogenário, embora lucido e em plena atividade, administra Seu Sebastião o seu próprio negócio, ajudado pela filha Fátima Marcolino, que renunciou a uma carreira universitária para estar ao lado do pai, enfrentando e vivenciando desafios, como sobreviver em plena crise que, apesar do otimismo um tanto patológico do presidente Lula, contamina a atividade economica em todo o país.

Enquanto conversamos, no terraço do Maré Mansa, os pássaros meliantes vêm pousar a pouca distancia da nossa mesa, antes de encherem o papo e de se recolherem aos seus ninhos. Por fim, entre cafezinhos, o crepúsculo cinematográfico, súbito e pontual, ensaiado e apresentado por aquele que o poeta mineiro Murilo Mendes definiu como o melhor diretor de cena - Deus.

A Paisagem Humana de Touros

sábado, 10 de outubro de 2009

RABO FINO, O OUTRO NOME DA ELEGANCIA

 

 

Por Franklin Jorge

 

 

Touros — Rabo Fino, performático de Rio do Fogo é bailarino, travesti e transformista. Em Carnaubinha vive na casa de um e de outro, sofrendo maus tratos dos machos, porém defendido por uma falange de boas mulheres. Bem acolhido em todas as casas ninguém tem a audácia de maltrata-lo diante de suas protetoras.

 

Uma vez um neto de Dona Tereza quis se enfezar com Rabo Fino. Ela o mandou calar e respeitar a sua autoridade, no território de sua casa onde recebe e acolhe de coração aberto qualquer pessoa do bem, tentando compreender os motivos de cada um. Disse-lhe, ao neto, que não se atrevesse em sua presença a maltratar Rabo Fino, que ele também era “gente como a gente”.

 

Fui conhecê-lo na casa de Dona Tereza, num fim de tarde, em impecável toalete que ressaltava os contornos de seu corpo esguio e escultural tostado de sol, sob a peruca negra de fios longos e escorridos coroados no alto por um turbante estilizado em recorte cubista. Usava top de malha preta com listas púrpura e verde esmeralda. Calça verde limão brilhante de corte reto. Sandálias do tipo plataforma. Pesadonas. Maquiagem cuidada. Estilo.

 

O bailarino conhece a arte de impressionar, de se impor à curiosidade por sua terrível elegância. Tem um populoso guarda-roupa. Não passa semana sem receber roupas de presente, sapatos, adereços. Ele anda pra cima e pra baixo, carregado de sacolas apipadas de peças escolhidas com intuição, ousadia e arte. As que não se adequam ao seu estilo, passa adiante. “Vestir-se é uma arte”, declara, rindo-se e cobrindo a boca com a mão.

 

Reencontrei-o na praça, na noite de São João, durante o pastoril de mulheres maduras e da terceira idade. Numa lanchonete, esperando que alguém o convidasse para comer. Ofereci, para começar, um refrigerante, que ele recusou, declarando que seus dentes eram sensíveis aos gelados. Ele queria comer logo. Estava com fome. Disse-lhe que pedisse o que quisesse. Ele pediu apenas uma coxinha e mais nada, para não perder a forma.

 

Como bailarino, dançou inclusive em Touros. Narcisista por natureza e índole, sempre se desentende quando o assunto é espetáculo. Há quem diga que ele quer encarnar invariavelmente o papel de estrela, de virtuose, de prima dona. De principal atração.

 

Nessa noite, surpreendentemente, veste Rabo Fino um modelito ultra despojado. Talvez em sintonia com a natureza da festa de origem rural. A estamparia celebra a singeleza do campo, a rusticidade alegre da manhã, num impressionismo alegre e cativante qued delata a sua preocupação em criar conceitos. É, acima de tudo, um estilista muito intuitivo que sabe usar as cores e as padronagens com inteligenciah. Noto que conserva a peruca e substituiu e o turbante de estamparia cubista por um lenço de seda de motivações juninas.

 

Rabo Fino chegou a Carnaubinha com o circo de transformistas mambembes, oriundos de Rio do Fogo.  Aqui ficou quando eles partiram. Tem voltado sempre a sua terra de eleição, essa Carnaubinha que o tem cruelmente maltratado. Muitos lhe atiram pedregulhos. Muitos o anatematizam e jogam bosta em seu nome.

 

Ele me conta ainda que tem uma cárie. Este o motivo porque não bebe gelados. Como pessoa tem o prazer em servir, ajuda na cozinha, limpa, arruma, dá sempre uma mãozinha às amigas, em toda a parte, principalmente às velhas damas protetoras de Carnaubinha, que alguns dizem pertencer ao exército de Rabo Fino, abençoado e protegido dessas boas mulheres que fazem o bem sem olhar a quem.

A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS (2-3)

domingo, 13 de setembro de 2009

O VIGIA DO TEMPO

Por Franklin Jorge

Martins - Espírito vivo e curioso, amando em seu visionarismo a serra de Martins e defendendo-a da incúria dos homens, Raimundo Damascena é um prático homem de idéias, rejeitado e maltratado por Martins que não reconhece a sua voz nem o aproveita como agente  catalizador e fomentador da cultura local.

Autor do mural da Casa da Cultura, obra repleta de alegorias e motivações históricas que sobrevivem misteriosamente no imaginário coletivo do burgo aprazivel e sonolento, foi talvez a única voz a levantar-se contra a descaracterização da Igreja Matriz, recentemente, quando uma lage de mármore cobriu as antigas sepulturas dos avoengos e dos heróis de 1817. Fez, como particular, criticando e opondo-se à ânsia reformista do pároco local, o que a Delegacia do Patrimônio Histórico no Rio Grande do Norte, por inercia e incompetencia, deixou de fazer — a defesa do patrimônio histórico e cultural do nosso povo.

Desenhista, pintor, escultor, em certa época às voltas com o mundo do teatro, empolga-se na defesa do patrimonio cultural que diminui a cada governo. Vive na companhia de duas irmãs já idosas à rua Desembargador Hemetério, numa casa que é ao mesmo tempo abrigo, museu, galeria de arte e jardim secreto.

Martins, onde bem se respira o hálito da natureza, domina o sono e a vigilia de Damascena, rapaz velho mimado pelas irmãs, uma representação do Quijote em solitária e vã batalha em prol da cultura, antecipadamente marcada pelo fracasso. Apesar disto, sem esmorecimentos, continua o nosso artista a luta daqueles antigos heróis da nossa Independencia, que em 1817 teceram com o sonho e o opróbrio a aura que distingue a cronica dessa brava gente que o resto do Rio Grande do Norte desconhece.

Sua utopia é ver Martins reconhecida por sua história e peculiaridades, a exemplo de outras cidades pernambucanas e goianas, como Igarassu, Olinda, Goiana, Pirenópolis, Natividade e Goiás Velho, patrimonio cultural do povo norte-rio-grandense. Embora, no caso de Martins, já não reste senão muito pouco para ser salvo, como ocorreu com a cidade do Assu, reduzida a uma esquálida lembrança do que foi.

A PAISAGEM HUMANA DE MARTINS (1-3)

sábado, 12 de setembro de 2009

O VELHO DO SITIO FRADE

Por Franklin Jorge

Martins - Não tenho queixas da vida, diz o velho numa voz pausada, mas firme, acendendo mais um cigarro. É o terceiro ou quarto que fuma enquanto conversamos no terraço de sua casa, no Sítio Frade. Tenho a impressão que Deus me deu tudo em dobro. Porém perdi a minha Francisca, Francisca Bezerra da Conceição, que se estivesse viva completaria agora em setembro 92 anos…

Emocionado, ele a descreve com unção amorosa. Era baixinha, esperta e trabalhadeira e encheu meus dias de satisfação e tranqulidade. Quando ela morreu, emSão Paulo, onde vivemos por 40 anos, conclui que era chegada a hora de voltar à minha terra, Martins.

Luis de Lima Morais, Seu Lucas, fala a intervalos, sopesando cada palavra, pensando antes de emiti-las, pois não é de jogar conversa fora. Aos 93 anos, ainda procura o que fazer, informa o seu filho mais velho, Assis, como debulhar o feijão plantado por um Luis, meu irmão mais novo. Moram os tres na mesma casa, numa rua com jeito de chácara, a pouco mais ou menos um quilometro do centro da cidade que já foi colonial mas com o tempo foi se desfigurando e atualmente não apresenta mais nenhum interesse arquitetonico.

Cheguei aqui, salvo engano, em 1928, acompanhado de meus pais e de todo o meu pessoal. Dessa época, sou o único sobrevivente, o único ainda vivo e capaz de  contar a história. O que não é pouca coisa para um velho da minha idade…

Aqui viveu sempre no Estaleiro, ao pé da serra, sitio grande e bom, formado de terras agricultáveis e por uma mata ainda virgem habitada por viados, tatus, preás, mocós e até onças vermelhas.

Muito ereto, sentado num tamborete, o velho mantém os olhos fixos num ponto remoto, só acessivel aos seus pensamentos. Quase cego, recusa-se a fazer a cirurgia de catarata, por causa de um mau pressentimento e também porque, nessa idade, já viu bastante coisas muitas das quais preferia não ter visto, justifica-se.

Havia no Estaleiro um homem afamado por suas histórias. Respondia pelo nome de Sebastião Gato, grande e admirado contador de contos de Trancoso. Para ouvi-lo juntava-se um magote de gente vinda das redondezas. Era muito prestigiado por seu talento, sendo recebido festivamente em toda casa que honrasse com a sua visita… Sebastião Gato era um sujeito velho, mas trabalhador como um moço. Não falo dos moços de hoje, que vivem às custas do Funrural dos pais e sempre arranjam um jeito para não darem um prego numa barra de sabão…

Toda a minha vida foi de trabalho. Desde a infancia, minha vida foi mourejar atrás do cabo de uma enxada ou tangendo jumentos. Nunca gostei de cachaça nem de forrós. O trabalho para mim foi sustento e prazer ao mesmo tempo. Trabalhava para sustentar-me mas tambem por amor ao trabalho que produz o sustento e mantém a mente ocupada. Meu pai, Thomaz Manuel de Lima, sempre foi agricultor, sempre honrou a terra e dela tirou o sustento seu e o da familia. Trabalhou sem exaurir a terra, respeitando as antigas sabenças que aprendeu dos seus avós. Labutando sem descanso, chegou a possuir um sítio em Apodi, o São Lourenço…

Impressiona-me a sua memória de tudo, comento. Papai tem essa idade mas se lembra de tudo, diz Luis, seu filho mais novo, já maior de sessenta anos. Tem a memória de um menino; lembra-se de cada coisa que só vendo, acrescenta com uma pontinha de orgulho.

Quando moço, fui muitas vezes daqui de Martins a Apodi, a pé, levando a rede nas costas. Tambem fui muitas vezes de Apodi a Mossoró, do mesmo jeito, a pé, detendo-me apenas para beber um copo dágua. Saía deApodi às seis horas da manhã e chegava à noitinha em Mossoró… Fiz essas 14 léguas inumeras vezes, vencendo as intempéries. Tinha então treze ou catorze anos, mas já era um homem feito, trabalhando na agricultura e na construção, de sol a sol, sem choro nem queixumes. Todos os meses, trabalhando alugado, mandava os meus aganhos para o meu pai. Em Mossoró, onde morei por uns tempos na casa de minhas irmãs casadas, que me diziam, Luis, dos seus ganhos não queremos nada; mande tudo para papai…Era o que eu fazia com a maior satisfação, pois naquele tempo filho respeitava os pais, mesmo depois de casado. Não era como agora, quando qualquer frangote descompõe os pais e até lhes mete o sarrabulho…

Andei muito por essas estradas conduzindo quatro jumentos carregados de surrões cheios de sal que trocava por arroz, milho, feijão e toda qualidade de legumes, que vendiamos depois de casa em casa, pois naquele tempo não havia supermercados nem mercadinhos, como agora… O sal valia ouro; todo mundo queria um punhado de sal para temperar a panela. Fizemos bons negócios…

Porém a agricultura, para mim, rendia mais que dinheiro; rendia uma grande satisfação intima que rsultava dessa labuta de amanhar a terra, de semea-la, de alimpa-la e de acompanhar a semente brotando, engalhando, crescendo, bajeando, amadurecendo e dando frutos. Era oficio sagrado para os sertanejos de antigamente… Aí, de repente, meu pai morreu em Mossoró, deixando-nos a nós, seus filhos e sua mulher, Maria de Lima da Conceição, minha mãe… Meu pai morreu muito moço ainda, antes de completar 50 anos. Casou-se duas vezes…

Foi quando senti a necessidade de ter a minha própria familia. Casei-me, como disse no começo dessa conversa, com uma moça muito boa, Francisca, que sofreu muito nas unhas da madrasta, que judiava muito dela por ser filha única e a herdeira do seu pai. Sua madrasta a trazia debaixo dos pés, numa especie de escravidão; coisa medonha e de muito sofrimento para uma filha de Deus…

 Sou sadio, apesar da idade, porque sempr trabalhei e nunca me neguei ao esforço de fazer. Sempre apreciei o salário que ganhamos com o suor do próprio rosto. E sempre disse aos meus filhos, 26 ao todo, que o que se ganha sem especulação e seu fraude é bom e justo.

A PAISAGEM HUMANA DE MACAU (3-3)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DOIDA POR POLITICA, MEDONHA E SAPECA

 

 

Por Franklin Jorge

Especial para a “Folha de Macau” - Edição comemorativa dos 143 anos do municipio

Macau - Encontramos D. Chiquinha de manhã, sentada na calçada de sua casa à Rua Tenente Victor 224, Centro de Macau. Muito extrovertida, ao ser informada do motivo da visita, reage, dizendo: Voltem mais tarde, minhas pérolas. Preciso me vestir adequadamente. Agora não estou pronta para dar entrevistas. Preciso estar banhada e perfumada para recebe-los… Podem voltar no fim da tarde para eu dizer as belezas da minha cidade…

Magra, hiperativa, talvez um pouco coquete apesar de seus 82 anos, sente-se lisonjeada com o convite do jornal “Folha de Macau” para falar sobre a crônica da cidade e, também, de sua experiência de vida.

Voltamos depois e a encontramos Dona Chiquinha bem vestida e perfumada, esperando-nos, ansiosa, para falar do passado embora declare, num tom vivaz, que bom é o dia de hoje, apesar da velhice. Olhe, minha pérola, estou acostumada com a velhice e não falo mal dela. Faz parte da vida. A única coisa ruim é que vai nos roubando a memória…

Já não me lembro mais de tanta coisa, mas do que me lembro, gosto. Gosto da lembrança dos prazeres e das alegrias que tive na vida. Por isso, gosto da velhice e não tenho medo da morte em si, mas de adoecer e ficar na dependência dos outros. Em minhas orações, peço muito a Jesus que não me deixe sofrendo em cima de uma cama…

Dona Chiquinha salta de um assunto a outro, sem pausa. Quero que conheça minha casa por dentro. Estava em petição de miséria e foi reconstruída pelo prefeito, graças a ação de João Batista, meu vizinho aqui de frente, que falou com o secretário Ubiratã e ele falou com o prefeito, que veio aqui e mandou reconstruir esta casa… Venha, venha ver… Agora, quando já estavam botando o piso, meu filho que trabalha na Petrobras disse que tomava conta do resto.

Ah, cheguei aqui em 1947 e encontrei uma terra boa, rica, muito movimentada, com um comercio pujante. Não sei se já lhe disse que sou filha natural do Assu, nascida no distrito de Água Branca, para onde nunca mais voltei. Meu pai se chamava Luiz Fernandes do Nascimento, que morreu em 1967, e minha mãe, Ana Valentim, que morreu em 1969; ele com 72 e ela com 71 anos…

Naquele tempo não havia aqui tanta violência como há hoje. Minha pérola, o que há hoje aqui é muita carestia e novos costumes. A maconha toma conta dos jovens. Sim, os costumes mudaram… Hoje, se alguém disser que uma moça é virgem, o povo censura; antes, uma boato desses a deixava mal falada. Mas, cada terra tem seus costumes, cada fuso tem seu uso. Temos que acompanhar as voltas que o tempo dá, senão ficamos para trás. O tempo não esperava por ninguém.

Dona Chiquinha já foi “a outra” de um ex-prefeito de Macau. Porém não tem motivos de queixas. A esposa legitima era relacionada com a sua família e nunca a prejudicou em nada. Quando o marido morreu, um filho do casal a procurou para aconselhá-la a entrar com ação na justiça, requerendo parte da herança.

Mas não fiz isto porque considerei que ele já me deixava uma boa herança, os dois filhos que tivemos. Mesmo assim seu filho, Floriano Bezerra, ex-deputado, insistiu. Não entrei com nenhuma ação, por este motivo e também por consideração à viúva, que nunca fez alarde contra mim. Adoro meus filhos e considero eles a minha verdadeira herança, como esta filha que mora comigo e o meu neto de treze anos.

Dona Chiquinha, aposentada como costureira, casou,  mas o marido a deixou. Fiquei só por muitos anos, na casa dos meus pais. Até que arranjei essa relação com Venancio Zacarias, com quem tive esses dois filhos. Ele era prefeito quando comecei a viver com ele, que me deixou essa herança viva. Aqui em Macau as mães só podem dizer que têm filhos iguais aos meus, melhores não…

Uma das paixões de Dona Chiquinha, que continua ainda muito viva, é a política. A política que promove, às vezes, muitos chafurdos e abala a vida das pessoas. Aqui em Macau a política é uma coisa. Só vendo pra crer. Uns atrasam a vida da cidade, outros a ignoram. E assim vamos levando a vida…

Hoje temos um prefeito que começou a fazer alguma coisa por Macau. Você já viu como a cidade está iluminada…? Até diminuiu o número das muriçocas que antes comiam a gente viva… O defeito desse atual prefeito é esse chafurdo que ele faz todos os meses, tirando e botando secretários. Nesse governo, ninguém esquenta cadeira nem demora na prefeitura. É um entra-e-sai danado. Só vendo pra crer. Parece que o homem não confia em ninguém.

Por muitos anos o que tínhamos aqui eram as belezas naturais. Nenhum prefeito se dava ao trabalho de melhorar Macau. O doutor José Varela, que chegou a governador e era daqui, só fez por Macau uma maternidade Esse José Antonio Menezes não fez nada por Macau. Não gosto nem de falar o nome desse homem…

Macau nunca teve uma primeira dama como dona Elizabeth. Que mulher! Caridosa, vive de fazer o bem. Ainda hoje está sempre procurando uma maneira de ajudar às pessoas. Sou fã dessa mulher… Sempre fui muito envolvida com política. Entrei na política por acaso e nela conheci Venancio Zacarias.                                                       

 

Um pouco esnobe, orgulhosa de suas relações, informa que em Mossoró tem uma amiga na deputada federal Sandra Rosado, que n ao conhece pessoalmente, mas não lhe sonega o voto. Ainda quero voltar pelo menos mais uma vez nessa mulher que duas ou três vezes por ano, no meu aniversário, no Natal e no Dia das Mães me manda um cartão pelo correio. É muita delicadeza…

Desde que votei pela primeira vez, fiquei com a obrigação de votar sempre que há eleição. E sempre vou a pé até a seção eleitoral, para que todos me vejam e me perguntem o que estou fazendo na rua. Eu respondo que estou indo votar… Por isso não aceito caronas, pois dentro do carro ninguém vai me ver e a pé, todos me vêem e ficam sabendo que fui votar…

Amiga do senador Dinarte Mariz, que a recebia em sua casa, em Natal, guarda dele boas lembranças. Era um velho amigo. Sempre que ia a Natal fazia-lhe uma visita. Quando e chegava lá, Dona Diva dizia, Seu Dinarte Mariz, está preparado para receber a visita de Dona Chiquinha Fernandes…? De Caicó ele me mandava queijos, curimatãs ovadas, mocós sequinhos, caçados nos serrotes da sua fazenda. Mandava por Equivel, seu filho adotivo que ainda mora em Natal, no bairro da Candelária…

Essa amizade com Seu Dinarte começou por causa da política. Fui apresentada a ele por Alfredo Teixeira, que era farmacêutico aqui e de sua esposa, Dona Delfina, que me convidou para ajudá-la na campanha. Sempre votei em Dinarte Mariz. Venâncio era a pessoa dele aqui… Hoje, a herança de Dinarte Mariz está liquidada. Os filhos não souberam levar a sua bandeira adiante. Não sei ouve mais ninguem falar nesse povo…

Ah sempre fumei e andei de sapato alto. Por isso, hoje, não saio mais de casa. Vou lá sair de sapato baixo! O sapato alto foi feito para a mulher. Quando ela sabe pisar firme e delicadamente, o sapato alto é sinônimo de elegância. Uma mulher de sapato alto é muito diferente de uma mulher de sapato baixo. Hoje, por causa da idade, não posso mais usar sapato alto e sair à rua de sapato baixo, não saio de jeito nenhum…

Pois como lhe disse, fumei durante 71 anos. Deixei de fumar de repente, sem ter feito nenhum plano. Todos os dias acordo entre as três e as quatro horas da manhã. Num desses dias, me levantei, liguei a televisão e sintonizei num desses programas da Igreja Universal e fui tomar banho. Quando voltei, o pastor estava abençoado copos dágua e disse que quem estivesse em casa enchesse um copo de água e levasse para a frente da televisão… Foi o que fiz.

Abençoada a água pelo pastor, Dona Chiquinha botou o copo em cima da geladeira. Algum tempo depois bateu um homem à sua porta, oferecendo lambedor de cupim. Minha filha comprou um frasco e eu tomei uma colher do lambedor. Logo me deu sede e resolvi beber a água benta… Pois foi aí que aconteceu o milagre. Quando fui acender um cigarro, arrepunei. Senti um gosto horrível na boca e nunca mais senti vontade de fumar… Não foi um milagre? Agora, não sou evangélica embora me dê com todo mundo e se um evangélico vier orar em minha casa as portas estarão abertas. Mas sou católica. Não praticante, mas católica. Até fui pessoa muito próxima do santo de Macau, o Monsenhor Honório, que me mandava fazer seus mandados, como pegar seus livros que ele tinha deixado em  cima da cama. Monsenhor Honório me chamava de Mazeda. Um dia ele me deu uma cipoada com o cordão de São Francisco. Eu era medonha, medonha (sapeca).

A PAISAGEM HUMANA DE MACAU (2-3)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O SENHOR DAS MARÉS

Por Franklin Jorge

Especial para a “Folha de Macau” – Edição Comemorativa dos 143 anos de criação do municipio

Macau – Sebastião Amâncio de Lima chegou a Macau ainda menino, aos dez anos de idade, para morar com uma irmã após ter perdido os pais Cicero Gonçalo de Lima e Joaquina Porcina da Conceição, que morreram de impaludismo em 1936, quando uma significativa parcela de varzeanos foi dizimada num curto espaço de tempo. O casal deixou cinco filhos, todos ainda vivos, Francisca Chagas, João Batista, Sebastião, Josefa Rosa (Senhorinha) e Manuel Amadeu.

Conversamos no terraço do Restaurante Maré Mansa, no Valadão, enquanto o sol se põe deitando reflexos surpreendentes sobre as águas do rio Assu, na companhia de sua filha Fátima Marcolino, hoje seu braço direito nos negócios e na administração da casa; e do jornalista José Antonio Degas, editor do jornal “Folha de Macau”, que propicia esse encontro.

Viúvo de Dona Celeste, que foi tudo em sua vida e com quem viveu durante 52 anos em estado de graça, não pensa mais em casamento, para não desassossegar sua paz e dificultar seu caminho, como gosta de dizer.

Cheguei aqui em 1940 para morar com minha irmã mais velha à Rua Assu, no Porto do Roçado, depois chamado de São Pedro, como é mais conhecido, lembra Seu Sebastião, um dos homens bons de Macau.

Nesse tempo a cidade era abastecida com água que vinha de Barreiras. Aqui não havia água potável, a que se extraía dos poços era usada apenas para a limpeza das casas e lavagem de roupas…

Macau era mais ou menos o que é hoje Havia muitos terrenos baldios e sujeira. O que mudou foi a chegada do calçamento, novas ruas, a limpeza. Hoje a cidade está toda edificada. Não havia tanta violência, como agora. Podia-se dormir de porta aberta. Hoje não podemos sair mais de casa porque corremos o risco de não voltarmos…

Quem assim fala é um dos comerciantes mais conhecidos da cidade, o proprietário do mais tradicional restaurante do Vale do Assu, o Maré Mansa, que há pouco comemorou num festival gastronômico quarenta anos de atividades ininterruptas. Lá se come o melhor pescado, num local privilegiado à beira do rio.

Na maré alta, as águas esbarram ao pé do Maré Mansa, de onde se descortina uma paisagem deslumbrante, emoldurada de mangues e pontilhada de barcos coloridos, balouçantes. Não é à toa que o seu estabelecimento é considerado um patrimônio cultural da cidade. Um lugar do qual os macauenses se orgulham, relicário de muitas histórias que sobrevivem no imaginário coletivo da cidade.

Rapaz, nessa idade já me foge a lembrança dos fatos. Já não me lembro tanto da época em que, menino, cheguei aqui. Mas lembro sim de alguns tipos populares de Macau que fui conhecendo no curso desses anos. Lembro de Jaime Dantas, o fabulista oficial, funcionário da Cia. Comércio e Navegação, que disputava com a mulher Dona Dalva quem tinha mais imaginação. Eles deixaram muitas histórias em Macau.

Uma vez, eles iam de carro para algum lugar e atravessaram o Aterro, na entrada da cidade, e de repente ele diminuiu a marcha e gritou, olhando a estrada, Olha uma agulha! Uma agulha no meio da estrada! E Dona Dalva respondeu, Não pára não que a agulha está quebrada, não tem fundo! Jaime era um tipo bem apessoado, bem educado. Ele e a mulher deixaram um vasto anedotário ainda lembrado por muitos…

Ele lembra ainda alguns outros tipos excêntricos de Macau, como Senhorinha, que levantava a saia e ficava dançando, nas ruas do Porto do Roçado; e de Dulce, que vivia em casa e os meninos do Grupo Escolar morriam de medo dela, que vivia debruçada na janela com uma fita na cabeça e as mãos cheias de flores.

Já Dona Neném de Seu Djalma tinha mania de grandeza e gostava de enumerar a genealogia das famílias do Assu. Dizia-se prima do governador Aluizio Alves e de outras pessoas de projeção. Era uma mulher chique, elegantíssima. Morava na Rua da Frente. Dona Simone, casada com João Melo, que chegou a ser prefeito de Macau, também era elegantíssima…

Homem amável e de fino trato, tímido e modesto, nem sempre foi restauranteur. Começou a vida trabalhando na agricultura e cuidando de bois. Olha, eu vim de lá de dentro do mato. Quando completei 18 anos, inscrevi-me no Tiro de Guerra que havia aqui, para fazer o serviço militar.

Ao dar baixa do Tiro de Guerra, fui trabalhar em Areia Branca, levado por um primo que morava no Rio e me recomendou a um irmão que já havia se mudado para Areia Branca, onde comandava um rebocador. Fui ser o seu assistente e logo em seguida ele me entregou o comando do rebocador que transportava sal para os navios cargueiros.

Eu não tinha nenhuma experiência, mas estava disposto a aprender uma profissão, pois entendia que não podia viver sem uma. Em apenas três meses consegui minha carteira de marinheiro prático e trabalhei nessa função durante 27 anos, quando me aposentei por ter tempo de serviço, que, para o marinheiro no exercício de minhas funções era contado em dobro.

Um ano de serviço para um marinheiro, ao contrário do que ocorria com outras profissões, era constituído de apenas 250 dias e não dos 365 dias regulares. Essa sobra de dias eram contados como compensação pela insalubridade. Aposentei-me trabalhando para a Cia. Henrique Lage.

Ainda durante esse tempo, para reforçar meus ganhos, botei um Café, também chamado Maré Mansa, aqui ao lado. Escolhi esse nome ouvindo, no rádio, a propaganda de uma loja de roupas que havia no Rio de Janeiro com esse mesmo nome. Vendia todos os dias na faixa de 150 cafés e fui ampliando o local com a convicção que tiraria dele o dinheiro necessário para educar meus filhos. Esse Café Maré Mansa era apenas uma barraquinha montada na casa de comando de um barco, ou cabine que comprei e trouxe aqui para o Valadão. Começamos, Dona Celeste e eu a vender cafezinhos, cervejinhas, bolinhos, tapioquinhas e tira-gostos variados. Sempre procuramos enriquecer o cardápio com novos quitutes. Assim fomos progredindo e conquistando clientes.

Depois, quando já estava bem estabelecido aqui apareceram os donos do terreno. Fiz uma negociação e fiquei. Antes, no local, havia um estaleiro onde se construíam e reparavam barcos avariados. Até que um dia veio um oficial da Capitania dos Portos e disse que o terreno era da Marinha e eu tinha que sair daqui.

Tentei uma negociação.

Depois soube que o oficial tinha uma amante em Pendencias, que era conhecida de um amigo meu. Recorri a ele, que falou com a mulher, que falou com oficial e conseguiu que eu ficasse por aqui. Algum tempo depois, veio o próprio capitão dos portos, um tipo bruto, pedir a devolução do terreno. Eu pedi a ele que ouvisse minhas razões e ele condescendeu.

Então eu lhe disse que tinha ouvido no rádio (era no tempo da ditadura militar) o presidente dizer que todo pai de família tinha a responsabilidade e a obrigação de educar os filhos e de mante-los na escola, estudando.

Eu sabia que Deus ajuda aos inocentes. E por isso lhe disse que o Maré Mansa era a bolsa de estudos dos meus filhos que estudavam aí perto, como ele próprio podia verificar, indo à escola. Fechar o restaurante seria o mesmo que privar meus filhos dessa bolsa e tirar eles da escola.

Depois de me ouvir, o homem mudou da água pro vinho. Noutro tom, disse que se eu procurasse um bom local para instalar o restaurante daria certo. Eu lhe disse que não, que não tinha condições de fazer isso e ele respondeu não era para agora, mas num futuro distante, dali a quatro ou cinco anos…

Voltei para casa aliviado. Nessa altura, Dona Celeste, minha mulher, já me ajudava aqui e comandava a cozinha muito elogiada por todos. Tempos depois um outro comandante esteve aqui e me disse que ampliasse as instalações e eu lhe disse que não pensava nisso não, pois já tinha o suficiente para sustentar meus filhos na escola. Mas ele insistiu, “faça, faça. Esse negócio é como um vicio, ninguém deixa”…

A melhor lição que tirei da vida? A de me sentir liberto e independente. Eu não curvo a cabeça para nenhum político, pois sempre vivi do meu trabalho. Só os respeito e trato bem, porque tenho consideração e respeito por todos os que freqüentam esta casa. Agora, se um deles se torna meu desafeto, o problema é dele. Estou aqui para servir a todos.                                    

A PAISAGEM HUMANA DE SERRA CAIADA (2-2)

sábado, 5 de setembro de 2009

Á SOMBRA DOS CAJUEIROS

 

 Por Franklin Jorge

 

 

Em 1996 uma representação da fraternidade do Café São Luiz foi a Serra Caiada dar o seu apoio à candidatura de José Lins a prefeito do município.

 Motivava-nos, além daquela fraternidade da Calçada do Café, a promessa de que, ao tomar posse, José Lins restauraria a antiga denominação do município, mudada para Senador Eloy de Souza, num ato leviano de parlamentareso que não respeitaram a tradição. Bajulação pura e simples, pois afinal o senador Eloy de Souza apenas lucrou com a politica; não consta que tenha feito alguma coisa por Serra Caiada.

 Assim, numa manhã de sábado em que o Café reúne tanta gente espirituosa, seguimos para Serra Caiada, onde conheci uma gente interessantíssima que me levo a pensar no ex-governador Antonio de Souza (1867 – 1955) e no seu apego por aquela terra.

 O slogan da campanha, criado de  repente pelo poeta Jarbas Martins, num  daqueles esplêndidos e bem humorados encontros, ao sabor dos cafezinhos, fez sucesso em Serra Caiada. O povo comentava sob as árvores: Feio é não votar em José Lins.

 Conversei com uns velhos amáveis, bibliotecas vivas e falantes que imprimiram àquele dia o encanto difuso de uma lenda.

 Passeando à sombra dos cajueiros ,numa celebração amistosa ao nome de José Lins, referência vital no afeto daquela gente alegre e novidadeira, as conversas, o entusiasmo do povo numa longa confidência de exclamações, riso e  interpolações gentis, como recorrências da memória hospitaleira.

 Converso com tanta gente. Francisco de Assis Jacob, pouco mais de vinte anos, morador no sítio Carnaúba, diz que essa festa é uma revivescência da época do pai de Zelins e de sua irmã — uma senhora boníssima em cuja casa tivemos um almoço delicioso — quando o povo ainda seguia fielmente a orientação dos chefes.

 Rosendo, Joaquim Rosendo de Lima, maior de oitenta anos, agricultor na lagoa da Ema, veio de  longe prestigiar o velho amigo e dar apoio a José Lins, que conheceu há mais de trinta anos. Diz que é gente boa demais. Merece ser prefeito com a graça de Deus.

 Quando estou doente — conta –, Zelins corre em riba  da hora  e me leva para o hospital. É mesmo que ser um pai quando a gente se vê na precisão de ocupá-lo.

Já Maria Selma Valdevino, de dezenove anos, moradora na lagoa do Xavier, com quem converso por muito tempo sobre as aspirações dos jovens da zona rural, vota em José Lins porque ele é um homem sem besteira. Voto nele, apesar da feiúra, afirma e sinto firmeza em suas palavras ditas debaixo de um cajueiro. Aqui há quem diga que ele é mais feio até do que Lavoisier Maia, enfatiza a moça bem humorada, mas não voto em boniteza; voto nele porque se trata de um homem bom. Não por que seja um galã…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A PAISAGEM HUMANA DE SERRA CAIADA (1-2)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

 


FRANCISCO TEIXEIRA CONFESSOR


 


Por Franklin Jorge


 


 


               


Eis um homem que aprendeu com o Tempo e só não adivinha porque a mãe lhe cortou o Dom ao contar às pessoas que Francisco, antes de nascer, chorava em sua barriga. Também já veio ao mundo de olhos arregalados para as coisas do mundo, numa época já distante em que no sítio Bom Sucesso, em Santa Cruz do Inharé, só passava carro-de-boi


 


Conheci-o numa concentração política em Serra Caiada, onde conversamos durante horas sobre o seu fraco de andar a cavalo. Em menino e rapaz, na fazenda do seu pai, havia cavalos bons de montaria e Francisco nunca deixou de fazer bonito sobre uma sela. Ainda agora, maior de oitenta anos, tem a sua montaria que o leva para todo canto.


 


Viveu sempre na lagoa dos Novilhos, bebendo e achando graça de tudo. Sempre ganhou a vida viveu comprando e vendendo gado por essas ribeiras do Rio Grande e da Paraíba. Tem filhos que nunca viu, espalhados pelo mundo,vasto mundo. Curandeiro, diz-se do lado do Rei Salomão. É homem valente, mas não mata cobras. Matar cobras atrasaria o seu expediente na terra.


 


Francisco nasceu na riqueza, mas nunca foi rico. Sempre gostou de virar os bolsos. Toda a vida foi um Cão vivo, fazendo farras de doido, andando para todo canto com revólver, punhal e uma Macaca, que ele explica ser uma espécie de chicote usado pelos vaqueiros do Agreste. Nunca encontrou boi que não derrubasse.


 


Agora não está bebendo mais porque está com essa idade, embora seja ainda duro como no tempo em que botava as mulheres mais afoitas para correr.


 


Refletindo sobre a realidade, diz que o político é uma gente poderosa mas sem fiança. Acredita que com a verdade a gente chega aonde quiser.


 


Homem que faz o que quer fazer, nunca estudou, não tem letras, mas doutor nenhum quebra o seu quengo. Quando moço, gostava de beber e sambear. Dançou até o ano passado, conta-me, satisfeito com as suas memórias de dançarino e pé-de-valsa.


 


Trabalhou na agricultura, atividade eu não recomenda a ninguém. Quanto mais se trabalha lavrando a terra, mais a gente deve e morre de fome. Negócio bom, para ele, é criar bois. Não emprega muita mão de obra não. Tem as doenças, sim, mas a lavoura tem as pragas.


 

A PAISAGEM HUMANA DE MACAU

terça-feira, 1 de setembro de 2009

UMA TARDE NO MARÉ MANSA

Por Franklin Jorge

Macau - Ir à ilha de Macau e não pousar no Maré Mansa - uma instituição local - seria o mesmo que ir à Roma e não visitar a basílica de São Pedro. Assim, na terra do grande escritor Aurélio Pinheiro, fui almoçar e jantar algumas vezes no Maré Mansa que há 40 anos é o endereço gastronomico mais importante da região.

Comida honesta e saborosa, o restaurante fundado por Sebastião Amâncio oferece-nos tambem, como impagável cortesia, uma belissima paisagem e, dependendo do horário, um inesquecivel por do sol com direito a barcos ancorados sobre o plácido rio Assu emoldurado de mangues verdissimos.

Seu Sebastião é o anfitrião discreto e amável com quem converso sobre a cronica da cidade que me pareceu bem outra após a calamitosa ingerencia do ex-prefeito José Antonio Menezes, aliás condenado por corrupção, que nada fez pela cidade que fedia, tamanha era a sujeira - a que se expunha aparatosamente aos olhos de todos e a secreta, desvelada por ações do Ministério Público Estadual e Tribunal de Contas do Estado. - O Valadão, bairro construido sobre mangues e lamaçais, era a prova cabal dessa penúria gerencial do dr. Menezes…Hoje o Valadão está saneado e se tornou irreconhecivel. Espelha outra realidade.

Mas voltempos a Seu Sebastião, um patrimônio humano e imaterial vivo, decano em seu oficio de restauranteur, um dos homens bons de Macau. Entrevistei-o, há pouco, para a edição da “Folha de Macau”, comemorativa do aniversário da cidade que transcorre no próximo dia 9, mensário que há mais de uma década registra os fastos e a história do Vale do Assu, sendo am publicação de maior credibilidade e circulação nessa área geográfica do estado.

Já octogenário, embora lucido e em plena atividade, administa Seu Sebastião o seu próprio negócio, ajudado pela filha Fátima Marcolino, que renunciou a uma carreira universitária para estar ao lado do pai, enfrentando e vivenciando desafios, como sobreviver em plena crise que, apesar do otimismo um tanto patológico do presidente Lula, contamina a atividade economica em todo o país.

Enquanto conversamos, no terraço do Maré Mansa, os pássaros meliantes vêm pousar a pouca distancia da nossa mesa, antes de encherem o papo e de se recolherem aos seus ninhos. Por fim, entre cafezinhos, o crepúsculo cinematográfico, súbito e pontual, ensaiado e apresentado por aquele que o poeta mineiro Murilo Mendes definiu como o melhor diretor de cena - Deus.

Ao povo de Macau.

A PAISAGEM HUMANA DE TOUROS

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O VELHO RAPSODO

Por Franklin Jorge

Touros – No tempo em que São Pedro andava com Nosso Senhor pelo mundo, pregando o Evangelho, conta-me o velho numa voz pausada que uma noite os dois se arrancharam numa casa e ao se deitarem, disse Jesus, Pedro, vamos rezar…

 O dono casa ouviu e, enfadado, sem saber que hospedava o Salvador em pessoa, mandou que eles acabassem com aquele converseiro e fossem dormir, pois ele não estava conseguindo pregar os olhos… Mesmo assim, Jesus e S. Pedro continuaram rezando…

José Zacarias Libânio, Seu José, nascido em Touros em 1925, é o contador de histórias da Vila de Carnaubinha, uma praia rústica a um quilometro da sede do municipio. Esteio de uma família numerosa, coordena o Terço dos Homens que se reúne uma vez por semana na capela de Nossa Senhora de Fátima para orar, a poucos metros de sua casa.

…O dono do casa, já agastado pela desobediencia dos hóspedes, se levantou de ligeira na mão – uma especie de chicote usado para instigar os animais de carga - e deu tres lamboradas no lombo de São Pedro para faze-lo calar e retirou-se de volta ao seu quarto.

 São Pedro, voltando-se para Jesus, disse, Senhor, vamos embora, pois estou com o lombo ardendo… Jesus lhe pediu que tivesse paciência, e continuaram rezando.

O homem reclamou mais uma vez, dizendo que não agüentava mais aquele falatório e, furioso, voltou e deu mais duas lamboradas no lombo de São Pedro, a quem Jesus pediu mais paciência e os dois continuaram rezando como se nada tivesse acontecido. Rezaram até o amanhecer do dia, quando continuaram a viagem pelo mundo afora.

São Pedro não conhecia o país. Andaram umas quatro léguas, até que alcançaram uma várzea bonita onde encontraram uma ossada humana. São Pedro toda vida foi caviloso e deu um pontapé no esqueleto.

 Aí Jesus mandou que ele perguntasse àqueles ossos de alguém que um dia foi um homem como qualquer um de nós e lhe perguntasse o que mais gostava quando era vivo. Eu, enfadado de tanto andar, reclamou São Pedro, ter de voltar para fazer uma pergunta dessas à um monte de ossos, era só o que faltava! Mesmo assim, instigado por Jesus, ele voltou e fez a pergunta.

A caveira respondeu que o que mais gostava de fazer era comer muito, morar debaixo da sombra e de ter entre os seus filhos um que servia a Jesus. Ouvindo aquela voz saída de parte alguma, São Pedro reconheceu naqueles ossos o seu próprio pai; e, arrependido, recolheu o esqueleto num saco e voltou para encontrar Jesus. E, juntos, enterraram os ossos do pai de São Pedro dentro de uma igreja…

Seu José é contador de histórias com um talento inato para prender a atenção do ouvinte. Histórias contemporâneas do Descobrimento do Brasil, narradas originalmente em Portugal pelo mítico Trancoso, sobrevivem em sua memória prodigiosa.

 

 

EM MARTINS

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge 

Martins — Chegamos a Martins às quatro horas da manhã, Marcos Sueldo e eu. Uma névoa fluorescente cobria a serra silenciosa e espectral, coroada por uma solidéu de estrelas hipnóticas.

Notei, a partir do bucólico distrito de Lagoa Nova, que o povo de Martins acorda cedo, talvez para enfrentar o frio que nos enregela a medula.

Cidade dotada de personalidade, estação turística em potencial, os moradores de Martins gabam-lhe as virtudes. Viver nela é rejuvenescer dez anos, graças ao seu ar puríssimo, vivificante, em meio a sítios e pomares que conferem uma atmosfera ecológica à cidade, velha de mais de duzentos anos.

Exceção de um horrendo primeiro andar, construído numa esquina da praça da Matriz, o casario de Martins não tem a presunção reformista de outras cidades que não respeitam a tradição e se danam a derrubar tudo aquilo que lhes parece “fora de moda”. Foi o que aconteceu e continua acontecendo na cidade do Assu, desfigurada em sua arquitetura original. Especialmente depois da chegada de pessoas da familia Vieira Diniz, oriunda de Alexandrias, no outro extremo do estado.

O patrimônio histórico de Martins é limitado e pobre, mas possui alguns exemplares interessantes e bem conservados, graças ao zelo de um povo cônscio de seus deveres na defesa da memória da cidade rica de tradições. Um exemplo dessa cidadania martinense, a reação da professora Azelma Lisboa, diretora da Escola Almino Afonso – que possui em seu acervo algumas raridades bibliográficas, entre as quais uma edição muito antiga de “Os Lusíadas”-, que o então secretário da Educação e Cultura do Estado, professor Dalton Melo, quis transferir para Natal. Felizmente o crime de lesa-cultura ficou apenas na intenção. Certamente, ele não contava com a reação do esclarecido povo de Martins, que fez valer sua autoestima.

Fragmento de “Viagens na Minha Terra” [Inédito]

 

 

 

 

A PAISAGEM HUMANA DE MOSSORÓ

domingo, 30 de agosto de 2009

 

UMA TARDE COM DONA ZÉLIA FERNANDES

 

 

Por Franklin Jorge

 

Mossoró - Dona Zélia me pede que corte do texto final toda e qualquer besteira que, por acaso, tenha deixado escapar durante a nossa conversa. Falo demais, reitera, sentada numa cadeira de rodas, de onde vê tudo o que se passa na rua, diante de sua porta. Nascida em Marcelino Vieira, no mais recôndito sertão potiguar, chegou a Mossoró para morar na casa de um parente que gozava de boa situação financeira e se mostrava disposto a ajudar a família a melhorar de vida. Mais de setenta anos se passaram desde então.

 

Tinha então catorze anos quando desembarcou em Mossoró. Não sabia então coar um café. Aqui, trabalhou como balconista de loja e manicure, possuiu um café e uma loja de confecções, casou-se com um primo com o dobro de sua idade, teve três filhos e enviuvou, sempre pensando que Deus ajuda a quem se ajuda. E, a qualquer pretexto, ao exercitar a arte do bate-papo, adoça a boca com o nome do neto Afonso Adolfo, que tive o prazer de conhecer, ao tempo em que ele, ainda muito jovem e creio que recém-formado, fez parte do staff do governador Garibaldi Filho e se destacava por sua modéstia e diligência em ajudar ao próximo, para isso quebrando arestas e vencendo obstáculos.

 

A leitura é o que a diverte. Sempre, desde moça, leu compulsivamente, pois descobriu cedo que o livro é uma companhia e a melhor provisão para a velhice. Leu de tudo, confessa, até Cassandra Rios e Adelaide Carraro, autoras malditas, várias vezes processadas por pornografia, há muito esquecidas, pois o que escreveram não escandaliza mais sequer a uma debutante. Hoje lê sobretudo os autores norte-rio-grandenses e tudo o que diz respeito à história da cidade e das famílias de Mossoró. E acrescenta, gentilmente, que acompanha o que tenho publicado em jornais e livros desde quando aqui vivi e trabalhei. “Gostei muito do seu Spleen de Natal e do artigo sobre Soutinho”, concordando com tudo o que eu disse a seu respeito, isto é, a respeito do banqueiro Francisco Souto Filho. “Não é porque seja meu genro, não; mas Soutinho é um santo…”

 

Dona Zélia revela que em Mossoró ninguém acreditava no casamento de Edite, sua filha, com Soutinho, por ser ela uma moça pobre, embora inteligentíssima. Muita gente ia ao salão apenas para lembrá-las que Soutinho, um homem rico, jamais casaria com uma pobretona, filha de motorista de praça e manicure e, para completar, ajudante de manicure. Outras sentiam prazer em fazer as unhas com Edite com a clara intenção de a humilhar, revela-me, exibindo um lindo sorriso de velha. Porém, apesar de tudo, pobretona ou não, manicure ou não, tornou-se Edite a Sra. Francisco Souto Filho.

 

Mulher vivida e experiente, Dona Zélia aceita a vida com simplicidade, sem queixar-se, pois sabe que tudo é contingente e não dura para sempre.Vai completar noventa anos no próximo dia trinta e me convida para um café da manhã comemorativo. Terá de faze-lo obrigatoriamente, por exigência de filhos e netos que se reúnem em sua casa nesse dia, chova ou faça sol. Não é festa, frisa, pois nessa idade não há mais o que festejar. Mais café sempre se faz enquanto há vida, senão para ela – que come pouco, muito pouco –, mas para os outros, parentes e amigos de uma vida inteira, que com ou sem convite, todos os anos, a cumprimentam nessa data que a seu ver está se tornando muito repetitiva. Noventa anos. Não tem apego à vida, quer morrer na paz de Deus e dos homens, embora viver traga muita contrariedade. Para ela, uma vida comprida oferece mais oportunidades de desgostos do que de alegrias. E, sem querer incorrer em ingratidão para com Aquele que lhe deu o dom da vida, confessa-se já um pouquinho enjoada de viver, mas obediente à vontade de Deus, que é santo velho. De qualquer forma se diz pronta para cumprir os desígnios.

 

 

AINDA O VALE DO ASSU

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Mossoró - O Vale do Assu está em processo de desenvolvimento, é o que ouvi de diversas pessoas oriundas dos municipios que o compõe e que têm a particularidade de estarem à margem do rio ancestral. É notável o crescimento de Ipanguaçu, Alto do Rodrigues e Pendencias, se as comparo com o que eram há uma década, por exemplo.

Além do petróleo, ou seja, dos beneficios que acarreta através das prestadoras de serviço, têm esses municipios na agricultura, praticada em escala industrial, e no cultivo do camarão em viveiros, o motor do seu progresso.

As duas últimas enchentes, porém, deixaram um rasto de destruição ao longo das margens do rio Assu, o que significa dizer que tanto as grandes empresas quanto e os médios e pequenos proprietarios que praticam uma agricultura familiar baseada em métodos tradicionais, tiveram grandes prejuizos e nenhuma assistencia do governo do estado que tem o mau costume de substituir as ações por palavras. São os que mais perderam com as intempéries e o mau humor da natureza. A médio prazão, terão dificuldades para se recompor, enquanto a governadora investe grandes somas em publicidade para vender a idéia de que aqui, no Rio Grande do Norte, vivemos no melhor dos mundos possiveis.

O caso da Potiporã, no entanto uma grande empressa associada a Queiroz Galvão, dedicada ao cultivo do camarão em cativeiro, tinha antes dessa última enchente 1.500 empregados regulares que foram recentemente reduzidos para 150. No momento a Potiporã está recuperando 250 viveiros destruidos pelas águas, num momento em que devia-se começar a despescagem, pois os camarões já estavam com o peso praticamente na medida para serem comercializados. Seu prejuizo e as consequencias disto para o Vale do Assu são incalculáveis.

Já o municipio do Assu, propriamente dito, perdeu sua condição de maior produtor de bananas do país. Uma verdadeira calamidade que não aparece nos noticiários, como se tudo tivesse voltado á normalidade depois da catástrofe. Não é nada disso… Nossa imprensa é que está alienada da realidade e não acompanha de perto e sistematicamente a vida off Natal…

Apesar disso, surpreende o crescimento (ou a “inchação”) demográfica dessas cidades. A zona rural deixou de ser áreas isoladas e integra-se vivamente à vida urbana através de sistema informais de transporte. Algumas, até, têm clubes e boates. E os jovens têm os mesmos hábitos dos urbanos. Em muitos casos, o uso de drogas tornou-se comum, assim como a prostituição.

EM MACAU

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Macau - Cheguei ontem a noite em Macau e, logo de entrada, me surpreendi com a transformação da cidade. Na verdade, em um curto espaço de tempo, as cidades desde o municipio de Ipanguaçu até Macau passaram por grandes transformações, como Alto do Rodrigues e Pendencias, que se adensaram e ganharam novo contorno urbanistico.

No caso especifico de Macau, devo pedir desculpas ao leitor por ter chamado o prefeito de omisso. Numas coisas, noutras não.

Figura controvertida, já ameaçado de impeachment por duas ou tres vezes, administrador vontadoso e com a particularidade de ter o Ministério Público “na mão” (como se diz por aqui), numa alusão ao fato de ter saído incólume de todas as ações que lhe foram movidas, Flávio Veras é alvo de muitas criticas por seu comportamento atrabiliário. Ousado, tem desmoralizado principios legais impunemente, mas, como gestor, difere extraordinariamente do seu antecessor, ao mudar a cara de Macau. Para melhor.

Passeando hoje durante a manhã por toda Macau, percebi que estou em uma outra cidade muito diferente daquela que visitei alguns anos antes: numa cidade limpa, limpissima, sem termo de comparação com a Macau do tempo do ex-prefeito José Antonio Menezes, condenado por corrupção a devolver dinheiro aos cofres públicos, sentença que nem mesmo seus adversários esperam ver fielmente cumprida; a expectativa é a de que, como noutras situações, tudo acabe caindo no esquecimento…

Voltarei ao assunto.

A CAMINHO DE MACAU

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Estarei viajando amanhã para Macau a convite do jornal “Folha de Macau”, editado por José Antonio Dega. Há tempos que não vou a Macau. Pelo que tenho ouvido, seus problemas se agravaram muito desde então. Há roubos e assaltos, além de um prefeito omisso.

Lembro-me de uma experiencia com oficinas de jornalismo que realizei lá, em 1993, para mais de duzentos jovens, dentro de um programa criado por Véscio Lisboa sob a denominação de “100 Dias Ação Cultural”, um empreendimento ambicioso e bem sucedido, que atendeu à fome de cultura da população.

Foram dias esplendidos que aproveitei para conversar com os velhos de Diogo Lopes sobre os costumes e tradições locais. E consegui reunir um grupo de jovens e juntos deflagramos uma ação que chamamos de “Pentear as Dunas”, ou seja, empreendemos uma ação educativa recolhendo o lixo que degradava a paisagem belissima.

Produzi tanto, levado pelo entusiasmo dos meus colaboradores, que cheguei a compor um pequeno livro - “O Ouro de Macau” - que  engrossou o rol dos inéditos. A proposito, transcrevo abaixo um fragmento de umn outro livro, também inédito, contendo as impressões e paisagens que recolhi em minhas andanças pelo Rio Grande do Norte.

Ei-lo:

 EM DIOGO LOPES

 

Por Franklin Jorge

 

Fragmento do livro “Viagens na minha terra” [inédito]

 

Atravessamos o rio e desembarcamos na Ponta do Tubarão, onde acampamos e catamos conchas. Há ilhas entre os mangues, formadas por raízes e plantas aquáticas, onde habitam guaxinins.

 

Praia de difícil acesso, conhecida apenas pelos nativos, em noites de lua cheia vem uma ou outra forma confraternizar nas areias dessa praia quase secreta, cujo acesso só é possível através de canoa. A “Ponta”, uma estreita faixa de praia que alcançamos após a travessia do rio Tubarão, lembra uma espécie de baía com fortificações de manguezais, como o rio Potengi em Natal.

 

Aqui, recém-chegado, visitei primeiro um dos velhos sábios do lugar, bodegueiro e memorialista vivaz, historiador e cronista da Vila de Diogo Lopes. Em sua memória hospitaleira refulge a vida cotidiana com o seu imaginário plástico, vivo e intenso. Conversamos todos os dias, por algumas horas, sentados em tamboretes, em frente da sua bodega, um lugar modesto e sossegado, a poucos metros de um estaleiro onde homens trabalham na construção e reparos de barcos.

 

Conheci primeiro seus netos, rapazes entre si tão diferentes, mas como o avô enraizados na terra, sociáveis e louvados por seu caráter sem manchas. O mais velho, moreno, é um homem da rua e se dedica a cortar cabelos; o mais novo, alourado, não resistiu aos apelos do mar. Mergulhador e pescador profissional, levou-me até às personagens mais interessantes e curiosas de Diogo Lopes. Denilson é o seu nome.

 

Quando conversávamos, no lugar dos banhos, após caminharmos a pé muitos metros de ida e volta, ele me disse que eu certamente gostaria de conhecer o seu avô, homem já idoso, esperto e bem humorado, amante das letras e da leitura. Fez as apresentações com simplicidade, despediu-se lamentando ter compromisso de trabalho e, após o aperto de mão, foi cuidar da vida.

 

A Vila tem uma capelinha consagrada a São Francisco, de quem todos se engraçam por sua humildade e sangue-bom. O povo do lugar dedica-lhe todos os anos, em outubro, uma festa animadíssima e tradicional que atrai gente até de Canoa Quebrada, vinte ônibus lotados de cearenses.

 

Há danças no clube local, passeios, excursões às dunas, banhos na Ponta do Tubarão, a inesquecível travessia do rio, música, ritmo, envolvimentos durante um mês de festa. O povo de Diogo Lopes, orgulhoso de seus costumes, preza as leis da hospitalidade e valoriza a cultura. É também permeável aos modismos e absorve tudo com naturalidade.

 

Lá, com alguns alunos da Oficina de Jornalismo e Cidadania que fiz em Macau, como parte do “Projeto Percursos”, de interiorização cultural, “penteamos as dunas” de Mangue Seco, catando todo o lixo produzido pela negligência de eventuais turistas. Vários jovens vieram para a tarefa e à sombra de cajueiros conversamos sobre arte e meio ambiente, cultura e cidadania.