O SENHOR DAS MARÉS
Por Franklin Jorge
Especial para a “Folha de Macau” – Edição Comemorativa dos 143 anos de criação do municipio
Macau – Sebastião Amâncio de Lima chegou a Macau ainda menino, aos dez anos de idade, para morar com uma irmã após ter perdido os pais Cicero Gonçalo de Lima e Joaquina Porcina da Conceição, que morreram de impaludismo em 1936, quando uma significativa parcela de varzeanos foi dizimada num curto espaço de tempo. O casal deixou cinco filhos, todos ainda vivos, Francisca Chagas, João Batista, Sebastião, Josefa Rosa (Senhorinha) e Manuel Amadeu.
Conversamos no terraço do Restaurante Maré Mansa, no Valadão, enquanto o sol se põe deitando reflexos surpreendentes sobre as águas do rio Assu, na companhia de sua filha Fátima Marcolino, hoje seu braço direito nos negócios e na administração da casa; e do jornalista José Antonio Degas, editor do jornal “Folha de Macau”, que propicia esse encontro.
Viúvo de Dona Celeste, que foi tudo em sua vida e com quem viveu durante 52 anos em estado de graça, não pensa mais em casamento, para não desassossegar sua paz e dificultar seu caminho, como gosta de dizer.
Cheguei aqui em 1940 para morar com minha irmã mais velha à Rua Assu, no Porto do Roçado, depois chamado de São Pedro, como é mais conhecido, lembra Seu Sebastião, um dos homens bons de Macau.
Nesse tempo a cidade era abastecida com água que vinha de Barreiras. Aqui não havia água potável, a que se extraía dos poços era usada apenas para a limpeza das casas e lavagem de roupas…
Macau era mais ou menos o que é hoje Havia muitos terrenos baldios e sujeira. O que mudou foi a chegada do calçamento, novas ruas, a limpeza. Hoje a cidade está toda edificada. Não havia tanta violência, como agora. Podia-se dormir de porta aberta. Hoje não podemos sair mais de casa porque corremos o risco de não voltarmos…
Quem assim fala é um dos comerciantes mais conhecidos da cidade, o proprietário do mais tradicional restaurante do Vale do Assu, o Maré Mansa, que há pouco comemorou num festival gastronômico quarenta anos de atividades ininterruptas. Lá se come o melhor pescado, num local privilegiado à beira do rio.
Na maré alta, as águas esbarram ao pé do Maré Mansa, de onde se descortina uma paisagem deslumbrante, emoldurada de mangues e pontilhada de barcos coloridos, balouçantes. Não é à toa que o seu estabelecimento é considerado um patrimônio cultural da cidade. Um lugar do qual os macauenses se orgulham, relicário de muitas histórias que sobrevivem no imaginário coletivo da cidade.
Rapaz, nessa idade já me foge a lembrança dos fatos. Já não me lembro tanto da época em que, menino, cheguei aqui. Mas lembro sim de alguns tipos populares de Macau que fui conhecendo no curso desses anos. Lembro de Jaime Dantas, o fabulista oficial, funcionário da Cia. Comércio e Navegação, que disputava com a mulher Dona Dalva quem tinha mais imaginação. Eles deixaram muitas histórias em Macau.
Uma vez, eles iam de carro para algum lugar e atravessaram o Aterro, na entrada da cidade, e de repente ele diminuiu a marcha e gritou, olhando a estrada, Olha uma agulha! Uma agulha no meio da estrada! E Dona Dalva respondeu, Não pára não que a agulha está quebrada, não tem fundo! Jaime era um tipo bem apessoado, bem educado. Ele e a mulher deixaram um vasto anedotário ainda lembrado por muitos…
Ele lembra ainda alguns outros tipos excêntricos de Macau, como Senhorinha, que levantava a saia e ficava dançando, nas ruas do Porto do Roçado; e de Dulce, que vivia em casa e os meninos do Grupo Escolar morriam de medo dela, que vivia debruçada na janela com uma fita na cabeça e as mãos cheias de flores.
Já Dona Neném de Seu Djalma tinha mania de grandeza e gostava de enumerar a genealogia das famílias do Assu. Dizia-se prima do governador Aluizio Alves e de outras pessoas de projeção. Era uma mulher chique, elegantíssima. Morava na Rua da Frente. Dona Simone, casada com João Melo, que chegou a ser prefeito de Macau, também era elegantíssima…
Homem amável e de fino trato, tímido e modesto, nem sempre foi restauranteur. Começou a vida trabalhando na agricultura e cuidando de bois. Olha, eu vim de lá de dentro do mato. Quando completei 18 anos, inscrevi-me no Tiro de Guerra que havia aqui, para fazer o serviço militar.
Ao dar baixa do Tiro de Guerra, fui trabalhar em Areia Branca, levado por um primo que morava no Rio e me recomendou a um irmão que já havia se mudado para Areia Branca, onde comandava um rebocador. Fui ser o seu assistente e logo em seguida ele me entregou o comando do rebocador que transportava sal para os navios cargueiros.
Eu não tinha nenhuma experiência, mas estava disposto a aprender uma profissão, pois entendia que não podia viver sem uma. Em apenas três meses consegui minha carteira de marinheiro prático e trabalhei nessa função durante 27 anos, quando me aposentei por ter tempo de serviço, que, para o marinheiro no exercício de minhas funções era contado em dobro.
Um ano de serviço para um marinheiro, ao contrário do que ocorria com outras profissões, era constituído de apenas 250 dias e não dos 365 dias regulares. Essa sobra de dias eram contados como compensação pela insalubridade. Aposentei-me trabalhando para a Cia. Henrique Lage.
Ainda durante esse tempo, para reforçar meus ganhos, botei um Café, também chamado Maré Mansa, aqui ao lado. Escolhi esse nome ouvindo, no rádio, a propaganda de uma loja de roupas que havia no Rio de Janeiro com esse mesmo nome. Vendia todos os dias na faixa de 150 cafés e fui ampliando o local com a convicção que tiraria dele o dinheiro necessário para educar meus filhos. Esse Café Maré Mansa era apenas uma barraquinha montada na casa de comando de um barco, ou cabine que comprei e trouxe aqui para o Valadão. Começamos, Dona Celeste e eu a vender cafezinhos, cervejinhas, bolinhos, tapioquinhas e tira-gostos variados. Sempre procuramos enriquecer o cardápio com novos quitutes. Assim fomos progredindo e conquistando clientes.
Depois, quando já estava bem estabelecido aqui apareceram os donos do terreno. Fiz uma negociação e fiquei. Antes, no local, havia um estaleiro onde se construíam e reparavam barcos avariados. Até que um dia veio um oficial da Capitania dos Portos e disse que o terreno era da Marinha e eu tinha que sair daqui.
Tentei uma negociação.
Depois soube que o oficial tinha uma amante em Pendencias, que era conhecida de um amigo meu. Recorri a ele, que falou com a mulher, que falou com oficial e conseguiu que eu ficasse por aqui. Algum tempo depois, veio o próprio capitão dos portos, um tipo bruto, pedir a devolução do terreno. Eu pedi a ele que ouvisse minhas razões e ele condescendeu.
Então eu lhe disse que tinha ouvido no rádio (era no tempo da ditadura militar) o presidente dizer que todo pai de família tinha a responsabilidade e a obrigação de educar os filhos e de mante-los na escola, estudando.
Eu sabia que Deus ajuda aos inocentes. E por isso lhe disse que o Maré Mansa era a bolsa de estudos dos meus filhos que estudavam aí perto, como ele próprio podia verificar, indo à escola. Fechar o restaurante seria o mesmo que privar meus filhos dessa bolsa e tirar eles da escola.
Depois de me ouvir, o homem mudou da água pro vinho. Noutro tom, disse que se eu procurasse um bom local para instalar o restaurante daria certo. Eu lhe disse que não, que não tinha condições de fazer isso e ele respondeu não era para agora, mas num futuro distante, dali a quatro ou cinco anos…
Voltei para casa aliviado. Nessa altura, Dona Celeste, minha mulher, já me ajudava aqui e comandava a cozinha muito elogiada por todos. Tempos depois um outro comandante esteve aqui e me disse que ampliasse as instalações e eu lhe disse que não pensava nisso não, pois já tinha o suficiente para sustentar meus filhos na escola. Mas ele insistiu, “faça, faça. Esse negócio é como um vicio, ninguém deixa”…
A melhor lição que tirei da vida? A de me sentir liberto e independente. Eu não curvo a cabeça para nenhum político, pois sempre vivi do meu trabalho. Só os respeito e trato bem, porque tenho consideração e respeito por todos os que freqüentam esta casa. Agora, se um deles se torna meu desafeto, o problema é dele. Estou aqui para servir a todos.