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O CENSO E O DESPOTISMO

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Por Lew Rockwell

Conhecendo todo o histórico mundial do censo, pergunte a si próprio se você realmente pode confiar ao governo central de hoje informações que certamente estariam muito mais seguras se ficassem guardadas apenas consigo próprio.

“Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto,” diz São Lucas sobre o motivo de Maria e José terem ido para Belém, “ordenando o recenseamento de todo o mundo.” José teve de voltar à sua cidade porque o tirânico governo romano estava conduzindo o censo. Porém, as informações colhidas foram utilizadas com um propósito que ia muito além da mera tributação. O regente local do governo romano, mais tarde, decidiu que queria encontrar o Cristo menino e matá-Lo.

O governo romano utilizou os dados do censo para descobrir onde os membros da Casa de Davi estavam? Não podemos saber com certeza, embora um déspota romano mais tarde tenha feito exatamente isso. Porém, o que de fato sabemos é que José cometeu um enorme erro ao obedecer aos recenseadores. Eles não estavam tramando coisas boas.

Com efeito, um outro grupo de religiosos judeus na Judéia havia decidido que não iria
sujeitar-se às ordens do governo romano para serem contados e tributados. Este grupo era conhecido como os “Zelotes” (sim, foi daí que veio o termo). Eles entendiam que sujeitar-se ao censo era equivalente a submeter-se à escravidão. Muitos acabaram pagando com a própria vida por essa postura proba.

E, entretanto, essa resistência comprovadamente fez com que aspirantes a tiranos se tornassem mais cautelosos. Durante dez séculos após Constantino, quando a Europa feudal foi subdividida em milhares de pequenos principados e jurisdições, nenhum governo central tinha condições de coletar dados sobre seus cidadãos. Esse é um dos grandes méritos de sistemas políticos radicalmente descentralizados: não há um poder central para controlar a população por meio da coleta de dados e do registro da população.

A única exceção na Europa naqueles anos foi Guilherme, o Conquistador (também conhecido como Guilherme I de Inglaterra), que, após 1066, tentou estabelecer na Inglaterra uma sociedade autoritária e centralizada nos moldes romanos. Isso significou, em primeiro lugar, a criação de um censo.

O censo foi compilado em um livro cadastral que ficou conhecido como The Domesday Book, Domesday significando o dia do julgamento ou dia do juízo final, assim rotulado por um monge anglo-saxão porque ele representava o fim do mundo para a liberdade inglesa.

Um predecessor dos atuais cadastros de contribuintes, esse censo funcionou como uma listagem para o estado conquistador dividir as propriedades a seu bel prazer. “Não havia um só esconderijo ou pedaço de terra”, dizia um relato contemporâneo, “nem mesmo um boi ou uma vaca ou um porco deixados de lado e não contabilizados.” Com o tempo, a tentativa de mapear a população para propósitos tributários levou à reação populacional que criou a Magna Carta, a declaração fundamental dos limites do poder do estado.

O Domesday Book estabeleceu o precedente para várias outras tentativas de se compilar informação. Porém, de acordo com Martin Van Creveld (autor de The Rise and Decline of the State, 1999), as técnicas de coleta de informação daquela época eram tão primitivas, e os governos eram tão descentralizados, que os dados eram basicamente inúteis.

Na Europa continental, por exemplo, nenhum governo tinha a capacidade de exigir um censo abrangente. Isso começou a mudar no século XVI, quando o estado-nação começou a ganhar força contra o poder contraposto pela igreja, pelas cidades livres e pelos lordes locais. Na França, o primeiro filósofo moderno do estado, Jean Bodin, insistiu que um censo fosse feito para melhor controlar a população.

Também na França, escreveu Voltaire, Luis XIV tentou - mas fracassou - desenvolver uma abrangente contabilidade do “número de habitantes de cada distrito - aristocratas, civis, trabalhadores agrícolas, artistas e artífices - junto com animais de todos os tipos, terras com vários graus de fertilidade, todo o clérigo regular e secular, suas receitas, e as das cidades e as das comunidades.” Acontece que tudo isso era apenas uma fantasia utópica. Mesmo se o Rei-Sol pudesse ter idealizado esse formulário, seria impossível forçar as pessoas a confessar toda aquela informação.

Os primeiros censos do século XVIII foram feitos na Islândia e na Suécia, utilizando como desculpa o fenômeno da redução da população (despopulação). Como nos EUA do pós-revolução de 1776 não havia tal problema, aquela geração de americanos que havia se revoltado contra os agentes tributários britânicos sabia perfeitamente que não era algo sábio investir o governo com o poder de coletar informações sobre os cidadãos.

Nos Artigos da Confederação, escritos ainda naqueles dias da plena liberdade revolucionária (1), cada estado possuía apenas um voto, não importava quantos representantes ele tinha no Congresso. Não havia demanda para um censo simplesmente porque o governo central, como ele era, não tinha poder para fazer quase nada.

Foi com a Constituição americana de 1787 que os problemas começaram. O documento concedia ao governo federal mais poderes do que uma pessoa que preza a liberdade poderia tolerar, e a inclusão de um recenseamento era evidência desse problema. A intenção inicial era a de determinar o número de representantes que cada estado americano poderia ter no Congresso.

Foi a primeira vez que o termo ‘impostos’ foi mencionado como sendo também um dos motivos para o recenseamento, lembrando não apenas César Augusto, mas também toda a histórica tirania de se utilizar o censo com o intuito de controlar as pessoas. Ficou então decretado que o censo americano deveria ocorrer a cada 10 anos.

O censo de 1790 ainda parecia inocente, porém já em 1810, as coisas realmente estavam fora de controle: pela primeira vez, o governo começou a exigir informação sobre a ocupação das pessoas. Felizmente para o povo americano, os arquivos foram queimados pelos britânicos em 1813, mal deixando restos para que o estado utilizasse para expandir seu poder. Mas, ainda assim, o estado não iria ser contido, e o censo foi se tornando cada vez mais intrusivo, até chegar à sua monstruosidade atual.

A história do censo americano traz uma grande lição para todos: qualquer poder cedido a um governo será utilizado inapropriadamente - é só uma questão de tempo. Hoje, o censo pergunta detalhes de sua vida que você jamais contaria a um vizinho ou a uma empresa privada.

São inúmeras perguntas, algumas afrontosamente intrusivas, indo desde a raça, a relação de parentesco com os outros moradores, o tipo da união com seu cônjuge e todos os detalhes sobre sua profissão, até o número de cômodos em sua residência, o material predominante nas paredes, se há banheiro exclusivo para moradores, o tipo de sanitário e os objetos que você possui.

E para que é usada toda essa informação? Principalmente para planejamento econômico e social - uma atividade na qual o governo jamais deveria estar envolvido.
E essa não é uma interpretação tendenciosa dos objetivos do censo. O próprio censo diz que o resultado

“Tem por objetivo determinar políticas públicas e o planejamento dos serviços utilizados pela população, onde serão definidos e calculados os recursos financeiros do governo Federal para cada estado e município do país. Os resultados do Censo Demográfico de cada município e ou estado determinarão as reais necessidades e subsídios das políticas públicas de saúde, educação, habitação da região em questão, bem como a representatividade política dos Estados no Congresso Nacional.

As pesquisas e dados estatísticos necessários às políticas públicas nas três esferas governamentais, ou seja, municipais, estaduais e federais, auxiliam também as iniciativas privadas no que se referem aos investimentos.”

Apenas pergunte a si próprio o que algum liberal do século XVIII ou XIX pensaria da ideia de “iniciativas privadas” e planejamento dos serviços sendo comandados pelo estado central. As mesmas pessoas incapazes de gerir lucrativamente um serviço monopolístico como os correios e incapazes de manter equilibrado um simples orçamento governamental são aquelas a quem devemos confiar informações sobre nós para que possam planejar nossas vidas? Não, obrigado.

Ademais, como ficou claro, “os resultados do Censo Demográfico de cada município e ou estado determinarão as reais necessidades e subsídios das políticas públicas de saúde, educação, habitação da região em questão”. Em suma, o propósito em nada difere daquele pretendido por Guilherme, o Conquistador: redistribuir propriedade e exercer o poder.

Claramente, o simples objetivo da contagem de cabeças já foi deturpado. Ademais, há várias pessoas que creem que nós não “precisamos” desses programas.

Até porque, se uma contagem populacional fosse todo o objetivo do censo, então o trabalho poderia ser feito utilizando dados de empresas privadas ou até mesmo dos correios. Mas o censo quer mais. Por quê? Esqueça todos os argumentos oficiais. O real motivo para o governo querer essas informações é para manter um restrito controle sobre a população. A promessa de que os dados não serão utilizados contra você é tão válida quanto qualquer outra promessa do governo. Quanto vale uma promessa de político?

O que deveria fazer um homem livre ao receber o formulário de um burocrata? Primeiro, lembre-se de que aquela informação é a infraestrutura básica de um pretenso estado totalitário. Sem ela, o estado está às cegas. Depois, conhecendo todo o histórico mundial do censo, pergunte a si próprio se você realmente pode confiar ao governo central de hoje informações que certamente estariam muito mais seguras se ficassem guardadas apenas consigo próprio.

Por fim, considere se os custos associados à não obediência são menores ou maiores do que o benefício subjetivo de se estar atuando conjuntamente com várias outras pessoas que também estão resistindo a essa intrusiva coleta de dados feita pelo governo.

Quando você confidencialmente conta um segredo seu a alguém, é bom que você conheça esse alguém muito bem. Saber um segredo sobre uma pessoa é ter poder sobre ela. Por que você iria querer revelar suas intimidades justamente para um aparato monopolista de coerção extremamente bem financiado? O Grande Irmão definitivamente não é alguém a quem você queira confiar seus segredos.

Ademais, se você quer saber quem de fato irá se beneficiar com o censo, apenas observe quais são as pessoas que querem que você responda sem espernear a absolutamente todas as perguntas: grupos de interesse de esquerda, universidades públicas, a mídia e toda a classe política. Para o resto de nós, cidadãos comuns, o censo é uma ameaça com consequências potencialmente nefastas.

Se você optar por responder ao censo, alguns comentaristas recomendam que você mantenha-se fiel à Constituição (no Brasil, inciso X, artigo 5º) e responda apenas quantas pessoas vivem na sua casa. Que tal postura seja hoje considerada subversiva mostra bem o tanto que nos distanciamos dos padrões aceitáveis de intrusão vigentes no século XVIII.

Em 1941, Gustav Richter, um auxiliar do nazista Adolf Eichmann, foi enviado à Romênia para coletar informações em massa sobre a população judaica por meio de um censo, com o objetivo supremo de planejar uma deportação em massa para o campo de concentração de Belzec.

Porém, a Romênia cortou todas as relações políticas com os nazistas, e, como resultado, a população judaica foi poupada do mesmo destino dos judeus da Polônia e da Áustria. Assim como os Zelotes do primeiro século bem sabiam, quando um governo começa a coletar informações sobre seus cidadãos, coisa boa é que não é. Certamente, alguma barbaridade está sendo tramada.

Na Bíblia, em 1 Crônicas, Capítulo 21, há o relato de como o Diabo incitou Davi a fazer o recenseamento de Israel com a intenção de mandar homens para a guerra, e de como Davi se arrependeu a tempo de salvar Israel:

Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a fazer o recenseamento de Israel. Disse Davi a Joab e aos chefes do povo: Ide, fazei o recenseamento dos israelitas desde Bersabéia até Dã e fazei-me um relatório, para que eu saiba o número deles.

Respondeu Joab: Que o SENHOR, nosso Deus, faça o povo de Israel cem vezes mais numeroso do que é agora! Ó rei, todos eles são seus servidores. Por que, no entanto, exige meu senhor isso? Por que sobrecarregar Israel de um pecado?

Mas o rei persistiu na ordem que dera a Joab [.....] Mas Deus não viu isso com bons olhos, e por isso Ele castigou o povo de Israel. E Davi disse a Deus: Pequei gravemente agindo de tal maneira. Agora dignai-vos perdoar a iniquidade de vosso servo, porque agi em completa insensatez.

Mas não espere ouvir essas palavras arrependidas de seus governantes…

Por fim, voltando ao início, apenas pense: se José soubesse o que o esperava, ele certamente teria pensado duas vezes antes de cumprir ordens do governo e fazer aquela longa jornada até Belém.

1 - Nota do editor:

É evidente que Lew Rockwell não usa o termo ‘revolucionário’ na mesma acepção dos colunistas do MSM. Ademais, a Revolução Americana, ainda que contivesse elementos daquilo que o filósofo Olavo de Carvalho conceitua como “mentalidade revolucionária”, não buscou, de forma alguma, remodelar a sociedade. Os founding fathers também não considerara a liberdade como um princípio para a estruturação sócio-política, mas sim, o resultado da prática das virtude nas dinâmicas sociais.

Afirma o professor Olavo de Carvalho no artigo A liberdade como parteira da tirania:
A idéia da virtude como base da organização política e fundamento teórico-prático da liberdade acaba vinculando as concepções da moderna democracia anglo-americana, mas principalmente a americana, a uma tradição de pensamento político e filosófico que remonta a Platão e Aristóteles e que está em perfeita harmonia com as doutrinas dos escolásticos.

Lew Rockwell é o presidente do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Tradução: Leandro Augusto Gomes Roque

Publicado no site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

A ALMA DOS ELEITORES

sábado, 17 de julho de 2010

Por Nivaldo Cordeiro

A grande questão é: quem começa? Quem organiza? Teremos que esperar a combustão espontânea das ruas, como o Tea Party nos EUA? Tudo está em aberto, mas, aconteça o que acontecer, o campo conservador terá que ser ocupado por quem de direito.

O fracasso político-eleitoral das idéias liberais em todo o mundo é patente. O discurso sobre o liberalismo tente a encantar certo tipo de platéia de intelectuais e acadêmicos. Acredito que no Brasil essa platéia não encheria um ônibus, incapaz portanto de encontrar nomes passíveis de empolgar a opinião pública.

O discurso liberal, centrado na exaltação da propriedade privada e da liberdade (e da igualdade, a mesma que está na boca dos socialistas) não tem apelo algum e sofre concorrência direta da alternativa socialista. Do ponto de vista da lógica do coração o discurso socialista esmaga o discurso liberal e o mantra da distribuição de renda por meio de políticas públicas (elevação de impostos, de um lado, e gastos públicos, do outro) parece ter capacidade superior de comunicação.

Todos sabem que o discurso falso dos socialistas esconde patranhas óbvias. Os políticos socialistas, embora busquem implantar suas propostas, sabem que não podem dispensar o núcleo científico das idéias liberais em matéria de economia. Depois das eleições tornam-se “conservadores” em matéria de política econômica, como foi o caso do primeiro governo Lula.

Seria o liberalismo bom para governar e ruim para conquistar o poder, dentro da ordem democrática? De certa maneira, sim, porque seu núcleo científico é insuperável. Especialmente em situações de crise é impossível que o governante não tenha a seu lado bons economistas treinados em escolas de clara tendência liberal, como são os economistas oriundos da Escola de Chicago.

Os liberais não têm como enfrentar o discurso político-eleitoral com a liderança socialista e a história mostra que sua derrota nas urnas é sempre previsão certa.

E os conservadores? Como vimos no fenômeno do Tea Party, eles falam também a lógica do coração, portanto são capazes de mobilizar as multidões. Os conservadores têm a vantagem de não precisar usar do expediente da mentira, pois falam a verdade da alma e apelam para a história do tempo em que os socialistas não haviam chegado ao poder, quando a ordem era estável e os valores superiores reconhecidos. Falam em nome da tradição. Têm automaticamente a seu lado o núcleo científico da economia liberal. Conservadores e liberais, nos bancos de escolas de economistas, são praticamente uma única e mesma coisa.

Em resumo, a única força política capaz de enfrentar a marcha vitoriosa dos partidos socialistas pelo mundo são os conservadores, que precisam se organizar politicamente e usar integralmente o seu discurso, pois este tem apelo capaz de falar ao coração do povo e tem a seu favor a verdade perene de todos os tempos. Nas verdadeiras situações de crise e para além da questão econômica, apenas os conservadores poderão implantar políticas capazes de resolver as graves situações criadas pelos socialistas no poder e, ao mesmo tempo, ter apoio popular.

O Brasil precisa urgentemente organizar um partido conservador de massas, genuíno, para fazer contraponto ao PT e ao arco socialista que se abriga ao seu redor. Ganhará as multidões com muita rapidez. Se o que eu imagino vai acontecer, o continuísmo do PT e o agravamento da crise mundial, com imediatos desdobramentos internos, é imperativo de urgência que a tarefa de organização de algo assim seja levada à frente.

Não adianta esperar pelos velhos caciques, que se confundem com o patrimonialismo político e acabaram aderindo covarde e sonsamente à nova ordem petista. Esses homens e mulheres não são conservadores, não passam de oportunistas. A renovação política terá que ser integral. A grande questão é: quem começa? Quem organiza? Teremos que esperar a combustão espontânea das ruas, como o Tea Party nos EUA? Tudo está em aberto, mas, aconteça o que acontecer, o campo conservador terá que ser ocupado por quem de direito. Os liberais estão fora desse processo, não têm discurso e não têm quadros. Já os conservadores têm seus núcleos operantes onde sempre tiveram, em torno de empresários, igrejas, operários e todos aqueles insatisfeitos com a deformação do sistema jurídico pelos socialistas no poder.

O conservadorismo é a força política dormente que deverá emergir em breve espaço de tempo. A alma dos eleitores é naturalmente conservadora. O discurso socialista é uma falsificação que precisa ser denunciada e derrotada.

O MELHOR DO BRASIL

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Por Marc Dourojeanni

Cada vez que está diante de uma tela em branco, quem escreve diz a si mesmo: Novamente você vai fazer críticas sardônicas! Por que não escrever sobre as muitas coisas boas que existem, em matéria ambiental, no Brasil ou na América Latina? E, sem dúvida, há muita coisa positiva acontecendo na área ambiental desta região, em especial no Brasil.

Não é por falta de exemplos positivos que, em geral, se prefere apontar os negativos. Isso se deve, em primeiro lugar, ao fato de essa ser a única forma, muito modesta, que dispõem os que escrevem para estimular a adoção de um curativo para problemas urgentes ou o estabelecimento de um programa preventivo que resolva questões mais importantes.

Em segundo lugar, porque os governos sempre estão dispostos a propalar sucessos e fazer propaganda cor-de-rosa. Em terceiro, porque as sátiras são, sempre, mais lidas e lembradas que os elogios e geram reações mais fortes.

Finalmente, porque ainda que não faltem exemplos de ações ambientais positivas, o entorno natural da América Latina vai de mal a pior e portanto as notas otimistas não refletem a realidade.

Mas, repetindo, desta vez será feita uma exceção e se apresentará uma lista curta e incompleta de políticas, medidas e ações muito bem-sucedidas e importantes ou originais, às vezes pouco difundidas, que o Brasil tem desenvolvido sobre o tema ambiental, em especial referentes à diversidade biológica.

Na área da política ambiental destaca-se, sem dúvida, a aplicação da idéia do Sistema Nacional do Meio Ambiente e, em especial, seu Conselho Nacional, democraticamente resolutivo, e suas réplicas no nível estadual e até municipal.

Já foi feito, nesta mesma coluna, um grande elogio a esta iniciativa que deveria ser imitada em todos os países do continente.

Além disso, a legislação sobre licenciamento ambiental, ainda que freqüentemente vilipendiada, é a melhor que existe na região, tanto na teoria como na prática.

Dispor de um ministério ou de uma secretaria de meio ambiente, respectivamente no nível federal e estadual, é muito positivo e, em termos gerais, ter separadas a parte normativa da executiva, criando também institutos ou fundações ambientais ou florestais para a execução das políticas ambientais e de recursos naturais, é adequado.

Também se destacam a criação da Agência Nacional de Águas (ANA) e dos Comitês de Bacias Hidrográficas, dentre muitas outras ações positivas, embora menos conspícuas, da administração da gestão ambiental.

O país tem tomado algumas medidas realmente excepcionais na área das finanças para meio ambiente.

As mais importantes e originais são o chamado “ICMS Ecológico”, que recompensa os municípios que mais protegem a natureza, e a norma dispondo que não menos de 0,5% do custo das infra-estruturas de elevado impacto ambiental seja destinado a unidades de conservação de proteção integral, conforme os resultados do processo de licenciamento ambiental.

O Fundo Nacional do Meio Ambiente é, igualmente, uma poderosa ferramenta para a aplicação da política ambiental nacional.

Outra iniciativa financeira importante, lamentavelmente abandonada, foi o chamado Protocolo Verde, que era uma auto-imposição dos bancos públicos e privados nacionais para aplicar seriamente as normas ambientais, tema hoje parcialmente retomado sob a batuta do Grupo do Banco Mundial. Assim mesmo, se for plenamente aplicada, a Lei de Crimes Ambientais tem grande potencial para o financiamento de medidas de proteção ao meio ambiente.

Comparado com seus vizinhos sul-americanos, que tratam suas responsabilidades ambientais especialmente ou exclusivamente à base de esmolas internacionais, o que está longe de ser apropriado para garantir independência e bons resultados, cabe destacar que é um sinal claro da seriedade e da maior importância relativa atribuída pelo Brasil aos temas ambientais o fato de vir obtendo mais empréstimos ambientais que qualquer outro país na região. Penoso é saber que muito desses recursos, obtidos no governo anterior, estão sendo abandonados pelo atual sem chegarem a coletar os benefícios esperados.

Embora as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) não sejam invenções brasileiras, sua aplicação neste país é a mais ampla já vista no continente, deixando para trás até a Costa Rica, onde foi criada a primeira delas.

O mérito, mais que do governo, é dos proprietários que, quiçá cansados de presenciar o abandono das unidades de conservação públicas, decidiram fazer as suas. Hoje, duas dessas reservas (SESC Pantanal e Salto Morato) são as áreas protegidas melhor manejadas e mais garantidas do país.

Outra dessas reservas, neste caso a minúscula Vagafogo, em Goiás, é um exemplo internacional de como uma família da classe trabalhadora pôde prosperar por cuidar e tirar proveito sabiamente de um pedacinho da natureza.

A idéia das reservas extrativistas tampouco é original, mas, como no caso anterior, foi no Brasil onde essas áreas alcançaram sua máxima expressão. Se elas não fossem consideradas, erroneamente, unidades de conservação ou substitutas a estas, mereceriam ser aplaudidas sem restrições.

Também é louvável o esforço de pessoas físicas para estabelecer Organizações Não-Governamentais visando lutar mais eficientemente pelos direitos dos cidadãos a um ambiente melhor. Ainda que poucas destas entidades nacionais sejam bem conhecidas do público (dentre elas SOS Mata Atlântica, Tamar, SPVS, Funatura, SOS Amazônia, IESB, ISA, Ipê e Fumdham), existem milhares a mais que também fazem esforçadamente sua parte para criar consciência pública e para resolver problemas ambientais locais.

O Brasil é o país da América Latina com o maior número destes grupos de ativistas. O setor privado nacional se destaca não só por estabelecer reservas privadas, mas, também, por ter criado pelo menos uma das mais generosas fundações privadas genuinamente nacionais: a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

E, o que não dizer dos personagens! O Brasil dispõe de uma legião de pessoas que deveriam passar para a história da luta pela conservação do patrimônio natural, alguns já falecidos, como José Luis Belart, Wanderbilt Duarte de Barros e José Cândido de Melo Carvalho; outros famosos em vida, como Paulo Nogueira Neto, Ibsen de Gusmão Câmara, Adelmar Coimbra Filho, Maria Tereza Jorge Pádua; e muitos outros, menos reconhecidos, com uma vida completa dedicada à luta para salvar um pouco do patrimônio cultural e natural do país, como no caso de Niede Guidon, a heroína “mais-que-de-novela” da Serra da Capivara. Mais humildes e, por isso sempre esquecidos, estão os guardas dos parques e outros trabalhadores de campo que tantas vezes ofereceram suas vidas para construir um futuro melhor para o país.

E – por que não mencionar? - os funcionários públicos que, se afogando no oceano burocrático, seja no Ibama ou no Ministério do Meio Ambiente ou nos seus equivalentes estaduais, lutam dia a dia, nos escritórios e no campo, para fazer o que deve ser feito no sentido de melhorar o meio ambiente brasileiro.

A cada dia se dispõe de provas silenciosas do esforço descomunal de muita gente bem intencionada, dentro do setor público, contra a influência política perversa e contra a inércia de um sistema administrativo construído para não fazer nada. Não cabe nem pensar onde se estaria sem essa quinta coluna do bem.

Os exemplos citados são apenas uma pequena amostra de que muita coisa positiva e importante foi feita e está sendo feita no Brasil para proteger o entorno natural. Somando os diferentes aspectos do progresso na área ambiental, é improvável que algum outro país da região tenha feito mais que o Brasil neste campo. Porém, ser o que está menos pior entre os que estão muito mal não é suficiente.

O QUE PENSAM OS CONSERVADORES

sábado, 1 de maio de 2010


Por Alexandre Magno Fernandes Moreira Aguiar

A natureza humana sofre irremediavelmente de certas falhas graves, bem conhecidas pelos conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Buscar a utopia é terminar num desastre, dizem os conservadores.

1. Da necessidade de precisão no debate político
No debate político brasileiro, a primeira vítima costuma ser a semântica. As palavras passam a ser utilizadas em contextos completamente diversos daqueles em que surgiram. Novos significados são acoplados a um termo para que pareça ser mais defensável ou até mais “atacável”. Em casos extremos, as palavras perdem todos os seus sentidos concretos, passando a designar um “oceano de significados”. Exemplo nítido disso é a conhecidíssima “justiça”, que parece ter um conceito diferente em cada boca que a pronuncia.

Outras palavras receberam cargas de ataques tão poderosos que deixaram de ter, para a população em geral, qualquer sentido próprio, tornando-se apenas rótulos odiosos prontos para serem utilizados em ataques retóricos contra os adversários ideológicos. Um caso contundente dessa degradação semântica é o termo “elite”, que deixou de significar “um grupo de pessoas que, em determinada área de atuação, conquistaram um nível de excelência” para, em contornos totalmente retóricos, significar “um grupo de sanguessugas que conquistaram o poder no País por meio de pilhagem e, por isso, devem ser severamente combatidos”. Para atestar essa transformação, basta verificar qualquer discurso político: em nenhum caso, aqueles que alcançaram o nível de excelência em suas áreas serão chamados de “elite”, termo sempre reservado a difamações.

Outros termos que foram vítimas da degradação semântica são “conservador” e “conservadorismo”. Destacados de suas raízes anglo-saxônicas e utilizados a esmo em um País que não tem nenhuma tradição conservadora, passaram a referir-se, no discurso político, àquelas pessoas que simplesmente desejam manter o status quo, qualquer que seja ele. Assim, “conservador” seria sinônimo de reacionário, tradicionalista, preconceituoso e avesso a riscos. Fala-se em “investidor conservador” (aquele que prefere renda fixa a ações), “política econômica conservadora” (referência comum à atuação do Banco Central) e até em “congresso conservador” (a despeito de não haver nenhum parlamentar no Brasil que se enquadre nessa categoria).

Assim, a principal função deste artigo é definir o conservadorismo, seus valores essenciais e quais as opiniões conservadoras sobre os principais temas jurídicos e políticos em discussão no Brasil. Não será possível, e nem é essa a pretensão, abordar exaustivamente o movimento conservador. Para isso, seria necessário não um artigo ou mesmo um livro, mas um tratado. A pretensão aqui é bem mais modesta: apresentar ao público brasileiro o que é realmente o conservadorismo e quais são suas principais ideias. Seu objetivo será alcançado se se conseguir, ao menos, tornar mais claro e objetivo o debate político brasileiro.

2. Os adversários do conservadorismo: liberais e esquerdistas

Em primeiro lugar, é preciso definir o conservadorismo por exclusão, ou seja, compreender as correntes políticas que, tradicionalmente, opõem-se a ele: o liberalismo e o esquerdismo. Em termos bastante simplificados, pode se dizer que esses ideários são guiados por valores fundamentais, verdadeiras metas a serem implementadas em níveis cada vez mais aprofundados: enquanto os liberais querem a maior liberdade possível, os esquerdistas pretendem alcançar a maior igualdade possível. Entre os defensores dos extremos de liberdade e de igualdade, respectivamente, do anarcocapitalismo (ausência total de Estado) e do Estado socialista (presença absoluta do Estado), existem diversas gradações que passam pelo Estado mínimo e pelo Estado intervencionista. Portanto, o que distingue um liberal de um esquerdista é o valor predominante - quando mais importante for a liberdade para ele, mais ele será um liberal; quanto mais importante for a igualdade para ele, mais ele será um esquerdista. Aqueles que tentam compatibilizar os dois valores em um termo médio são conhecidos como centristas.
No Brasil, a corrente ideológica predominante é, sem dúvida nenhuma, o esquerdismo. Mais do que dominante, pode ser considerada quase como hegemônica. Não há nenhum político brasileiro que se declare de direita (liberal). No máximo, ele se considerará como um centrista. As pessoas declaradamente esquerdistas ocupam não apenas a maioria dos cargos eletivos, mas também dos postos reservados à “intelectualidade”, como os professores universitários (nas universidades públicas, a hegemonia esquerdista é total e absoluta), os burocratas da Administração Pública e aqueles que escrevem periodicamente na imprensa. Os liberais brasileiros são uma nulidade em termos políticos e, como formadores de opinião, ocupam espaços restritíssimos, normalmente confinados a sites e blogs.
É preciso, ainda, uma referência aos políticos patrimonialistas, uma espécie bastante comum em terras brasileiras. Eles não aderem a nenhum conjunto de ideias, pois seu interesse é, somente, auferir o máximo de vantagens, em termos de dinheiro e poder, do Estado. Exatamente pela ausência de ideologia definida, esse grupo tende, com enorme frequência, a unir-se com todos os matizes de liberais e esquerdistas com o único objetivo de manter-se no poder e de auferir as vantagens daí decorrentes.
De forma extremamente simplificada, pode-se fazer uma gradação dos principais partidos políticos brasileiros quanto à ideologia: DEM (centro), PSDB (centroesquerda), PT (esquerda), PSOL e outros pequenos partidos (extrema esquerda). Em todos esses partidos, o componente patrimonialista é sempre bastante influente. No caso específico do PMDB, é possível considerar que, atualmente, é insignificante seu aspecto ideológico, sendo um partido quase que exclusivamente patrimonialista.
Porém, os pontos de contato entre liberais e esquerdistas são também bastante nítidos. Ambos são adeptos do que pode ser denominado de “progressismo”, uma corrente filosófica que advoga, genericamente, a necessidade de constantes mudanças na sociedade, tanto em termos políticos, quanto econômicos e sociais. Progredir e evoluir seriam, em si, algo benéfico para a sociedade. Superar a tradição é o objetivo tanto de liberais quanto de esquerdistas. Mais ainda: querem fazer uma sociedade melhor e até um ser humano melhor. A promessa é a mesma: se seus programas forem integralmente implementados (o que é, naturalmente, impossível), haverá uma espécie de “paraíso na terra”. Diferem apenas quanto ao modo de fazer isso: com mais liberdade individual, para os liberais, ou com mais igualdade, para os esquerdistas.
Por isso, liberais e esquerdistas concordam em diversos aspectos. Primeiramente, há um repúdio, quase automático, a quaisquer posicionamentos ligados à tradição judaico-cristã ocidental. São encontrados exemplos nítidos na defesa, muitas vezes incondicional, do aborto e da legalização das drogas. Também há o desprezo por institutos como o casamento e a monogamia. Finalmente, também é bastante comum a defesa de um relativismo moral, considerando que as noções de certo e de errado podem, legitimamente, variar de indivíduo para indivíduo (liberais); e de sociedade para sociedade, e até em uma mesma sociedade, a depender do momento histórico (esquerdistas).

3. O movimento conservador [01]
Como visto, o termo “conservador”, atualmente, é utilizado muito mais como um insulto do que como seria sua conotação exata. Em tempos progressistas, em que as outras ideologias querem encaminhar o mundo para “um lugar melhor”, produto de mais liberdade, para os liberais, ou de mais igualdade, para os socialistas, pode-se questionar: o que propõem os conservadores? Em primeiro lugar, uma saudável dúvida a respeito do que deve ser mudado, em contraposição àquilo que precisa ser mantido.

Porém, a simples reserva contra o progressismo e o apreço pela tradição não são suficientes para definir o conservadorismo.

Assim, para chegar a um conceito preciso, Samuel Huntington [02] trata o conservadorismo não como uma postura, refratária a qualquer mudança, mas como uma ideologia, ou seja, um corpo de ideias plenamente identificável. Com esse objetivo, traça três teorias a respeito do tema:

a)teoria aristocrática: o conservadorismo é uma ideologia radicada em um tempo e em um grupo social específico. Nesse sentido, “conservador” é o aristocrata, de mentalidade feudal e agrarista, que se opôs aos liberais e aos socialistas vitoriosos na Revolução Francesa de 1789;

b)teoria autônoma: o conservadorismo não se limita a um tempo e a uma classe em particular, mas é um sistema de ideias que independe do período histórico e dos agentes sociais que o defendem;

c)teoria situacional: o conservadorismo é uma ideologia que requer uma situação específica para se articular como tal. Ele emergeria em ocasiões dramáticas, nas quais as instituições fundamentais da sociedade estivessem em séria ameaça. Nesse ponto de vista, o conservador não defende um ideal de sociedade (como os liberais e os socialistas), mas, pelo contrário, defende aquilo que, na sociedade atual, mantém-se indispensável.

Atualmente, mostra-se sem sentido a teoria aristocrática, uma vez que, em termos históricos, vários personagens fora da aristocracia defenderam o conservadorismo. A questão é saber se essa ideologia tem um conjunto de valores próprios (teoria autônoma) ou se seria apenas uma reação em tempos extremados (teoria situacional).

Elucidando melhor a questão, John Kekes [03] define a proposição básica do conservadorismo: a crença na existência de valores “fundacionais”, ou seja, fundamentais para a sobrevivência de quaisquer comunidades políticas. São também chamados de “primários”, uma vez que são derivados da própria existência da natureza humana.

Os conservadores também acreditam ser necessária a preservação de certos valores “secundários”, que não fazem parte da essência da natureza humana, mas são derivados dos primários e formam parte relevante da cultura de uma sociedade. Nas palavras de Coutinho (op. cit., p. 36):
“(…) os “valores primários” habitam uma universo de necessidade moral; os “valores secundários”, um universo de possibilidade moral. Tal significa que é possível uma posição pluralista em que valores fundacionais são condições prioritárias para a existência dos restantes. É possível, em suma, defender mínima moralia (”mínimos morais”) que, embora não determinem aquilo que os seres humanos elegem como fins últimos de vida, não se furtam a afirmar aquilo que eles, enquanto seres humanos, necessariamente não serão capazes de prescindir”.

Portanto, ser conservador é acreditar, em primeiro lugar, na existência da natureza humana, própria da espécie e, portanto, imutável. Esse é o ponto essencial a ser preservado. Isso leva, inevitavelmente, a um direito natural, ou seja, a um conjunto de normas que, independentemente das condições históricas e locais, devem ser obedecidas para que a natureza humana tenha as condições para ser realizada de forma plena.

Natureza humana, entendida como o conjunto de características que todos os seres humanos têm em comum, é um conceito fortemente baseado na filosofia grega (Platão e Aristóteles) e na teologia judaico-cristã (Santo Tomás de Aquino). Sem dúvida, sua formulação foi consolidada com o cristianismo, segundo o qual “todos são iguais perante Deus”. Provavelmente, essa é a principal razão segundo a qual a imensa maioria dos conservadores é cristã. Além disso, a maior parte das ideologias progressistas, liberais e socialistas, acredita na inexistência de qualquer natureza humana ou, paradoxalmente, na possibilidade de “alterá-la” para melhor.

Contudo, ultimamente, a existência da natureza humana tem sido defendida por pessoas que, nem de longe, poderiam ser classificadas como conservadoras. São os evolucionistas, que, a despeito de fundamentá-la na genética e na evolução das espécies, chegam a conclusões bastante semelhantes às mais tradicionais.
Um exemplo notável dessa tendência é o livro “Tábula Rasa - A Negação Contemporânea da Natureza Humana”, escrito por Steve Pinker [04]. Em seu apêndice (p. 587-591), consta uma interessantíssima lista que enumera as características linguísticas e comportamentais presentes necessariamente em todas as sociedades humanas. Entre essas características constam: abrigo; abstração no pensamento e na fala; ações sob autocontrole distintas das não sujeitas a autocontrole; adorno corporal; afeição expressa e sentida; alavanca; ajustes ao ambiente; ambivalência; antônimos; antromorpofização; armas; arte decorativa não corporal; assassinato proscrito; assistência às crianças; atração sexual, etc.

A crença na natureza humana implica uma série de princípios morais a serem seguidos, mas, principalmente, repele qualquer alegação de relativismo moral, ou seja, de que as normas morais seriam completamente dependentes da época histórica e da sociedade e que seriam sempre “negociáveis”. Mais ainda: reconhece a existência de critérios concretos para definir o que é certo e o que é errado.

Da crença na existência da natureza humana, emerge uma característica marcante do conservador: o ceticismo das promessas de um ser humano melhor. Novamente, nos valemos da lição de Coutinho (op. cit., p. 42):
“Na sua resposta, o conservador será um agente ‘cético’; ‘cético’ porque capaz de desaconselhar a persecução do Paraíso na Terra; ‘cético’ porque capaz de pautar sua atividade por uma conduta humilde e prudente; mas ‘cético’, sobretudo, porque interessado em reconhecer a existência de um natureza humana que coloca perante o agente limites morais à sua ação. A afirmação de que os seres humanos procuram valores ou fins de vidas distintos não poderá ignorar aquilo que esses mesmos seres humanos não poderá prescindir.”

4. Os dez princípios conservadores

Por outro lado, a simples crença na existência da natureza humana não tem substrato suficiente para compor uma doutrina. Para isso, é preciso um conjunto de princípios que possam originar suas diversas ramificações. Quem se incumbiu formidavelmente dessa tarefa foi Russel Kirk, que, em sua obra “The Conservative Mind”, enunciou os dez princípios conservadores. Tais princípios serão, a seguir, apresentados, nos termos da tradução realizada pelo Padre Paulo Ricardo [05].

Primeiro: o conservador crê que existe uma ordem moral duradoura. Como visto, a natureza humana é uma constante e, portanto, as verdades morais são permanentes. Uma sociedade em que homens e mulheres são governados pela crença em uma ordem moral duradoura, por um forte sentido de certo e errado, por convicções pessoais sobre a justiça e a honra, será uma boa sociedade - não importa que mecanismo político se possa usar; enquanto, se uma sociedade for composta de homens e mulheres moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites, ela será sempre uma má sociedade - não importa o número de seus eleitores e não importa o quanto seja progressista sua constituição formal.

Segundo: o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade. Os conservadores são defensores do costume, da convenção e da continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. Eles creem que ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício. A necessidade de uma mudança prudente está na mente de um conservador. Mas a mudança necessária, advertem os conservadores, deve ser gradual e discriminativa, nunca se desvencilhando de uma só vez dos antigos cuidados.

Terceiro: os conservadores acreditam no “princípio do pré-estabelecimento”. Os conservadores percebem que as pessoas atuais são anãs nos ombros de gigantes, capazes de ver mais longe do que seus ancestrais apenas por causa da grande estatura dos que nos precederam no tempo [06]. Por isto os conservadores, com frequência, enfatizam a importância do pré-estabelecimento - ou seja, as coisas estabelecidas por costume imemorial, de cujo contrário não há memória de homem que se recorde. Os conservadores argumentam que seja improvável que nós, modernos, façamos alguma grande descoberta em termos de moral, de política ou de bom gosto.

Quarto: os conservadores são guiados pelo princípio da prudência. Toda posição política deveria ser medida a partir das prováveis consequências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Os progressistas e os radicais, dizem os conservadores, são imprudentes: porque eles se lançam aos seus objetivos sem dar muita importância ao risco de novos abusos, piores do que os males que esperam varrer. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios não podem ser simples, se desejam ser eficazes. O conservador afirma que só agirá depois de uma reflexão adequada, tendo pesado as consequências.

Quinto: os conservadores prestam atenção no princípio da variedade. Eles gostam do crescente emaranhado de instituições sociais e dos modos de vida tradicionais, e isso os diferencia da uniformidade estreita e do igualitarismo entorpecente dos sistemas radicais. Em qualquer civilização, para que seja preservada uma diversidade sadia, devem sobreviver ordens e classes, diferenças em condições matérias e várias formas de desigualdade. Uma sociedade precisa de liderança honesta e capaz; e, se as diferenças naturais e institucionais forem abolidas, algum tirano ou algum bando de oligarcas desprezíveis irá rapidamente criar novas formas de desigualdade.

Sexto: os conservadores são refreados pelo princípio da imperfectibilidade. A natureza humana sofre irremediavelmente de certas falhas graves, bem conhecidas pelos conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Buscar a utopia é terminar num desastre, dizem os conservadores: nós não somos capazes de coisas perfeitas. Tudo o que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade que seja sofrivelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustes e desprazeres continuarão a se esconder.

Sétimo
: os conservadores estão convencidos de que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas. Separe a propriedade do domínio privado e Leviatã se tornará o mestre de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada, construíram-se grandes civilizações. Quanto mais se espalhar o domínio da propriedade privada, tanto mais a nação será estável e produtiva. Os conservadores defendem que o nivelamento econômico não é progresso econômico. Aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana; mas deve-se desejar uma sólida base econômica para a pessoa, a família e o estado.

Oitavo
: os conservadores promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário. Uma nação não é mais forte do que as numerosas pequenas comunidades pelas quais é composta. Uma administração central, ou um grupo seleto de administradores e servidores públicos, por mais bem intencionado e bem treinado que seja, não pode produzir justiça, prosperidade e tranquilidade para uma massa de homens e mulheres privada de suas responsabilidades de outrora. Essa experiência já foi feita; e foi desastrosa. É a realização de nossos deveres em comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.

Nono: o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas. Sabendo que a natureza humana é uma mistura do bem e do mal, o conservador não coloca sua confiança na mera benevolência dos governantes. Restrições constitucionais, freios e contrapesos políticos (checks and balances), correta coerção das leis, a rede tradicional e intricada de contenções sobre a vontade e o apetite - tudo isso o conservador aprova como instrumento de liberdade e de ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as reivindicações da autoridade e as reivindicações da liberdade.

Décimo: o pensador conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta. O conservador não se opõe ao aprimoramento da sociedade, embora ele tenha suas dúvidas sobre a existência de qualquer força parecida com um místico Progresso, com P maiúsculo, em ação no mundo. Ele pensa que o progressista e o radical, cegos aos justos reclamos da Conservação, colocariam em perigo a herança que nos foi legada, num esforço de nos apressar na direção de um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em suma, é a favor de um razoável e moderado progresso; ele se opõe ao culto do Progresso, cujos devotos creem que tudo o que é novo é necessariamente superior a tudo o que é velho.

O último princípio requer um comentário à parte: o conservadorismo não se opõe à mudança e ao progresso, mas apenas é prudente com relação a eles. Sabe, em primeiro lugar, que qualquer mudança deve ser detidamente examinada com prudência, sem a ilusão de que a simples circunstância de ser “novidade” não faz uma ideia melhor que suas antecessoras. Sabe-se que a sede desenfreada de mudança provocou desastres humanitários como a Revolução Francesa e a Revolução Russa. Além disso, a natureza humana impõe que determinadas valores sejam definitivamente preservados, ou seja, protegidos de quaisquer “medidas tendentes a aboli-los” [07].

Portanto, não se pode identificar o conservador com o reacionário, aquele cuja postura implica contrariedade a qualquer mudança. O conservador aceita a mudança; apenas requer que ela seja prudente, gradual e tenha deferência por determinados valores fundamentais.

5. O ponto de vista conservador sobre os assuntos atuais
Todos esses princípios conservadores desdobram-se em diversas considerações sobre os temas mais importantes da atualidade. Esse conjunto de ponderações forma o que poderia ser chamado de “ideologia conservadora”. Não é um dogma, uma “bíblia conservadora”, mas apenas uma coletânea daquilo que é adotado pela maioria das pessoas que aderem a essa forma de pensar. A seguir, serão enumeradas as posições conservadoras mais proeminentes [08].

Estado laico não significa Estado ateu: a Constituição Federal nunca teve a intenção de excluir a religião da vida pública. Pelo contrário. No preâmbulo, faz referência implícita ao cristianismo (”sob a proteção de Deus”) e ainda concede imunidade tributária aos “templos de qualquer culto” (art. 150, VI, b). A única restrição refere-se à vinculação estatal com “cultos religiosos ou igrejas”, mesmo assim com a ressalva da “colaboração de interesse público”. Portanto, iniciativas que pretendem excluir qualquer forma de religiosidade dos espaços públicos (como a colocação de crucifixos) são um atentado à liberdade de religião.

As drogas devem continuar banidas: o movimento de legalização das drogas incorre em uma contradição insolúvel - defendem-na em nome da liberdade individual, mas é sabido que seu consumo provavelmente levará ao vício, que é a ausência total de liberdade! O efeito da legalização seria principalmente aumentar de modo drástico o consumo dessas substâncias. Um dos mitos a esse respeito é que a repressão não funciona: nos Estados Unidos, em 1979, 14,1% da população havia usado drogas ilícitas; em 2006, depois de anos de combate, o percentual diminuiu para 8,3 [09].

Os empreendedores são a força vital da economia do País e merecem cada centavo do que ganham: basta ver a propaganda política para perceber como os empresários são demonizados. São costumeiramente vilipendiados e considerados culpados pelos males da nação. [10] Porém, são eles que tomam os riscos: podem quebrar e podem ficar ricos ou, mais costumeiramente, em algum lugar no meio. Mais ainda: foi demonstrado que o empresário brasileiro é o campeão mundial em horas trabalhadas para pagar o Fisco - 2.600 horas por anos, contra, por exemplo, apenas 63 horas na Suíça [11]. Nossa prosperidade depende essencialmente daqueles que são mais atacados. Boa parte disso pode ser simplesmente explicado por um sentimento que ninguém admite ser portador: a inveja [12].

As cotas raciais são um erro: qualquer privilégio dado a uma categoria de pessoas em detrimento às outras é uma grave lesão ao princípio constitucional da igualdade. No caso das cotas raciais, a lesão é ainda mais grave, pois o Brasil não é um País racista - não há movimentos que defendam a “supremacia branca”, nem nenhuma publicação nesse sentido; também nunca houve leis segregacionistas [13]. Além disso, a imposição da política de cotas a todas as situações sociais (como pretende o projeto de lei chamado “Estatuto da Igualdade Racial”) tem um enorme potencial de criar tensões sociais, principalmente devido ao ressentimento daqueles prejudicados por essa política [14].

Os pais devem ter o direito de educar seus filhos em casa: é do conhecimento geral a falência do ensino brasileiro. Mesmo as escolas particulares têm desempenho pífio nos exames internacionais. Também é bastante conhecido o fato de que boa parte dos professores brasileiros tem se importado muito mais com a doutrinação ideológica (usando o famoso lema “formar cidadãos”) do que com a educação propriamente dita. Por isso, e considerando a liberdade de consciência de cada um, os pais devem ter a permissão para educar os filhos em casa (chamado de homeschooling). O Estado poderia exigir apenas que as crianças e os adolescentes sejam submetidos a testes de proficiência em determinadas matérias, para verificar a qualidade do ensino dado em casa.

Cada pessoa é a única responsável por seu destino: está na moda falar de “responsabilidade social”, como se cada pessoa fosse responsável pelo destino de todas as outras e cada um tivesse que pagar seu “débito social”. Por outro lado, também está em voga retirar a pessoa da responsabilidade por seus próprios atos, como se todos fossem inimputáveis. Exemplos disso são as constantes intervenções nas relações privadas (como a recente proibição de venda de aspirinas nos balcões de farmácia) e os processos de fumantes (conscientes dos danos causados pelo fumo) contra os fabricantes de cigarros. Retirar da pessoa a responsabilidade por seus próprios atos não é apenas imoral, mas também afeta profundamente sua dignidade como ser humano.

Deve haver “tolerância zero” contra a criminalidade: um dos efeitos da “desresponsabilização individual” é a crença romântica (para ser mais preciso, marxista) de que os criminosos são vítimas da sociedade e que, por isso, precisam ser protegidos ao extremo. Trata-se de uma nítida inversão de valores: os indivíduos honestos da sociedade passam a ser considerados culpados pelos crimes dos desonestos. Combater o crime significa salvar vidas e proteger pessoas inocentes. Para a sua diminuição drástica, não é necessário que o Brasil seja transformado em um “paraíso social-democrata”; basta a aplicação de uma velha fórmula testada e aprovada em diversos lugares (inclusive em São Paulo): cumprimento integral da lei, com mais policiamento e mais vagas nos presídios. Além disso, é preciso que a Justiça, a Polícia e o Ministério Público sejam geridos de forma eficiente, sem inquéritos e processos que se delongam indefinidamente.

Os cidadãos honestos devem ter o direito de portar armas: desde a promulgação do Estatuto do Desarmamento, em 2003, tem sido realizada uma intensa campanha que vincula a quantidade de armas de fogo com a ocorrência de crimes violentos. Essa vinculação é simplesmente falsa, uma vez que países com número de armas por habitante bem maior que o Brasil (Estados Unidos, Finlândia e França, por exemplo), têm níveis de homicídio significativamente menores. Além disso, existem pesquisas consistentes indicando exatamente o contrário: quanto mais armas existem, menor é a criminalidade [15].

O Estado de Direito não pode ser submetido aos desejos de determinados grupos: nos Estados Unidos, os conservadores distinguem-se dos esquerdistas (chamados de liberals) principalmente no tocante à atitude perante a lei. Os primeiros acreditam que a lei, mesmo ruim, deve ser cumprida, uma vez que é vinculante para todos. Os últimos distorcem o sentido da lei ou mesmo a desobedecem frontalmente em nome do que consideram mais justo para a sociedade. Na verdade, os esquerdistas querem impor sua particular visão de mundo para os outros. No Brasil, são exemplos nítidos: o Movimento dos Sem-Terra, que constantemente desprezam a lei em nome de uma “sociedade melhor”; e os juristas que distorcem o sentido da Constituição para adequá-la ao que consideram ser mais justo - é a famosa doutrina da “mutação constitucional”.

O aborto, em qualquer fase da gestão, deve ser mantido como crime: qual é a essência do ser humano? Para os religiosos, a alma; para os materialistas, a carga genética. Nos dois pontos de vista, é inegável que a vida humana começa na concepção e deve ser, a partir desse momento, protegida. A argumentação abortista falha ao relacionar o direito à vida com circunstâncias meramente acidentais à própria vida, como a sua viabilidade; a possibilidade de sentir dor; a dependência do corpo materno; e mesmo a existência da consciência de si mesmos [16]. Aparentemente, só teria direito à vida o ser humano “completo”, que tenha, efetivamente, todas as potencialidades da espécie humana. Enfim: o argumento da liberdade da mulher sobre o próprio corpo esbarra em seu equivalente - o direito do nascituro ao seu próprio corpo, mais ainda, à sua própria existência.

A família tradicional é a base de qualquer sociedade e seu desmantelamento tem provocado efeitos extremamente danosos: é bem sabido que a família chamada de tradicional (formada por pai, mãe e filhos) está em franca decadência, sendo considerada por muito como ultrapassada. Porém, quase nada é falado quanto aos “efeitos colaterais” desse processo: aumento dramático da criminalidade juvenil (é notável que quase todos os adolescentes infratores presos não tenham sido criados pelos pais); crescimento, também dramático, de infecção por doenças sexualmente transmissíveis e, de forma colateral, de gravidez na adolescência; aumento também dos crimes sexuais (chama a atenção que um menina criada sem o pai tem várias vezes mais chances de ser violentada) [17]. Finalmente, as recentes pesquisas sobre felicidade têm demonstrado que a vida em família é um componente essencial para o bem-estar do indivíduo [18]. Nesse sentido, é preciso estimular o casamento (uniões informais são bem mais propensas ao desfazimento) e manter as formalidades legais para o divórcio que, muitas vezes, terminam por desestimulá-lo (ao contrário do que prevê o bizarro projeto do “divórcio on line”, feito pela internet e sem necessidade de tempo mínimo de separação).

Bibliografia

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VALETINO, Phil. The conservative´s handbook. Nashville: Cumberland House, 2003.

Notas
1. Trecho baseado no artigo “Em busca do equilíbrio”, de João Pereira Coutinho. Revista Dicta e Contradicta, n. 3, junho de 2009, p. 32-42.
2. “Conservatism as an ideology”. The American Political Science Review, Vol. 51, No. 2 (Jun., 1957), pp. 454-473. Published by: American Political Science Association.
3. “A case for conservatism”. Cornell University Press (March 2001).
4. Companhia das Letras, 2004.
5. Dez princípios conservadores. Disponível em: http://www.padrepauloricardo.org/site/wp-content/uploads/2009/07/Dez_principios_conservadores_Russel_Kirk_Traducao.pdf. Acessado em 2 de setembro de 2009.
6. Em interessantíssimo texto, Olavo de Carvalho argumenta que, em meio a tantas “minorias” que reclamam seus “direitos”, há uma categoria de pessoas totalmente excluída do diálogo atual: os mortos. Consideramos que somos superiores a nossos antepassados pelo simples motivo de sucedermos a eles. Com essa mentalidade, toda a tradição é relegada, tida simplesmente por ultrapassada. Cf.: Os mais excluídos dos excluídos. O silêncio dos mortos como modelo dos vivos proibidos de falar. In O Futuro do Pensamento Brasileiro: Estudos sobre o nosso lugar no mundo. 2a. edição. Rio de Janeiro, Faculdade da Cidade Editora, 1997, pp. 82-111.
7. Esse termo é uma referência clara ao art. 60, § 4º, da Constituição Federal, que proíbe emendas constitucionais tendentes a abolir “a forma federativa de estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; os direitos e garantias fundamentais”. Esses dispositivos, cujo conteúdo não pode ser restrito, são chamados de cláusulas pétreas.
8. Trecho parcialmente baseado no livro: “The conservative’s handbook. Defining the right positions on issues froam A to Z”, de Phil Valentine.
9. Op. cit., p. 70.
10. Esse fenômeno ocorre também em nível mundial. Os empresários, de preferência “brancos de olhos azuis”, foram considerados os grandes culpados pela crise de 2008. Convenientemente, nenhuma referência foi feita à significativa influência governamental na ocorrência da crise.
11. Cf.: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u621281.shtml.
12. Nesse sentido, cf. “Egalitarian Envy: the Political Foundations of Social Justice”, de Gonzalo Fernandez de la Mora.
13. Para deixar a questão bem clara: não se afirma a inexistência de racistas no Brasil. Eles existem aqui e em qualquer lugar do mundo. O que se afirma é a inexistência de uma cultura racista no Brasil.
14. Cf., a esse respeito, “Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico”, de Thomas Sowell.
15. Cf. “More guns, less crimes. Understanding crime and guns control laws.”, de John R. Lott Jr.
16. Peter Singer chega a defender que bebês de até um ano de idade não têm direito à vida, pois ainda está ausente neles a autoconsciência. Cf. “Ética Prática”.
17. “(…) estudos confirmam o dano de ser criado apenas por um dos pais. Se, por volta dos 16 anos, você vive apenas com um de seus pais biológicos, tende a sofrer mais danos que as outras crianças. Tem 50% de chances a mais de ser condenado criminalmente aos 15; o dobro de chances de deixar a escola secundária sem obter um diploma e ter um filho na adolescência e 50% de chances a mais de não fazer coisa alguma aos 20 anos. Curiosamente, não fica em melhor situação se sua mãe se casa de novo ou sua avó vai morar com vocês.” (Layard, 2006, p. 81 - grifou-se).
18. “De todos os fatores que afetam a felicidade, a vida familiar ou outro relacionamento íntimo vem em primeiro lugar” (idem, p. 207).
19. Alexandre Magno Fernandes Moreira Aguiar é procurador do Banco Central do Brasil em Brasília (DF), especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade Estácio de Sá, professor de Direito Penal e Processual Penal na Universidade Paulista (Unip) e nos cursos preparatórios Objetivo e Pró-Cursos.

Publicado originalmente no site Jus Navigandi - http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=13511

DEPRECIAÇÃO DA ÉTICA

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Por Marc Dourojeanni, presidente
da Fundação ProNatureza

Poucos, na atualidade, pensam que a natureza deve existir porque ela tem direito a existir ou, pelo menos, porque ela pode ser muito bela. Quase todos a observam precedida pelo cifrão do dólar (ou melhor, do euro). Se a natureza não gera lucro rápido, então “pode se estrepar”.

Esta é uma realidade evidente na sociedade atual, independentemente do que seja levado à prática pela esquerda, com afinidades socialistas, ou pela direita apelidada de neoliberal.

Todos querem agora que a natureza pague, ou seja, que a natureza traga benefícios tangíveis e rápidos. Esses grupos apenas diferem entre si no que diz respeito aos beneficiários. Para os primeiros devem ser os pobres, os excluídos; para os segundos são eles mesmos. Ambos os grupos utilizam como escusa a tentadora utopia do desenvolvimento sustentável. Essa realidade é muito triste. Rompeu-se o equilíbrio entre os argumentos éticos e os econômicos.

Acontece, com efeito, que no decorrer do século XX os argumentos éticos e estéticos para a conservação da natureza se perderam quase completamente. Tem-se colocado tanta ênfase na valoração econômica dos recursos naturais que agora poucos percebem a união inelutável entre o natural e o cultural ou, dito em outra forma, a necessidade essencial do ser humano de ter uma referência no entorno natural.

Em lugar de ver a beleza de uma paisagem, a maior parte da gente só vê terra para loteamento urbano ou para novos assentamentos rurais, metros cúbicos de madeira ou toneladas de minério. Cachoeiras são para fazer pequenas centrais hidroelétricas (sem avaliação de impacto ambiental), rios são para construir barragens, lagos são para criar as tilápias africanas, após a eliminação dos peixes originais.

Como chegamos a esse ponto? Existem várias hipóteses entrelaçadas. Entre elas, a mais provável diz que isso é fruto do pensamento ocidental, hoje onipresente no mundo globalizado que, partindo de um monoteísmo pouco amigo da natureza (com poucas exceções, entre elas o simpático Francisco de Assis), moldou uma sociedade feita à imagem e semelhança de Deus.

Daí a se sentir quase um deus era apenas um passo, postura ratificada com a recente descoberta do genoma humano e o de outras espécies, abrindo infinitas possibilidades ao potencial da engenharia genética.

O sentimento de “poder tudo” afasta o sentimento de “Mãe Natureza” e faz perder os limites tradicionais de seu aproveitamento.

Aplicando a tradição judaico-cristã, que favorece a cobiça e a acumulação da riqueza, instaura-se a lógica da destruição ilimitada, pois a natureza passa a ser apenas uma mercadoria que pode ser aproveitada agora, sem se importar com um futuro que, com perigosa arrogância, pensam poder contornar.

Vale lembrar que as culturas americanas, assim como as de outros continentes, tinham uma mitologia intimamente associada à natureza e eram os deuses que impunham os limites à exploração da natureza.

O budismo, e até certo ponto o hinduismo, inserem-se também nessa linha. Pelo contrário, os únicos elementos naturais da simbologia cristã são pomba e cordeiro, bichos convenientemente domesticados.

A tradição cristã, para melhor destruir os deuses bem mais naturais dos povos que os impérios europeus conquistaram, denegriu a floresta, onde vivem os espíritos do mal ou o lobo feroz, as bruxas, os anões e a demoníaca serpente, entre outros seres abomináveis.

Voltando aos nossos dias, será por isso que os latino-americanos são tão pouco amantes da floresta? Por isso é que os agricultores do sul do Brasil têm a tradição de destruir até a última árvore das terras que ocupam, para depois plantar uns poucos eucaliptos patéticos para ter um pouco de sombra? É por isso que os pescadores extraem, com conhecimento de causa, até o último casal de peixes do rio para evitar que outro o pesque?

Até o final do século XIX a maior parte da humanidade acreditava firmemente no caráter inesgotável da natureza.

O mundo era amplo e alheio.

A Amazônia era ainda terra essencialmente selvagem.

Matavam-se baleias aos milhares em todos os mares e as penas de avestruzes adornavam chapéus, tanto como as peles de onças e tigres faziam abrigos e a lã da vicunha se convertia nas telas mais finas.

Essa atitude gerou uma reação intelectual muito forte e, por isso, até meados do século passado era bem visto falar de “proteção da natureza”, que essencialmente por razões éticas e estéticas devia ser mantida intocada, um conceito definitivamente exagerado e inviável.

Assim, nos anos 1960 e 1970, os filósofos do movimento ambiental inventaram sucessivamente os conceitos de “desenvolvimento racional” e de “conservação da natureza”, muito mais realistas e moderados, com bom equilíbrio entre a ética e a economia.

Reconheceram, de fato, que a humanidade necessitaria de mais espaço e de maiores meios para sobreviver, e portanto preconizavam um difícil, embora mais harmonioso, equilíbrio entre crescimento humano e entorno natural. Quando os neo-filósofos ambientais de finais do século passado inventaram o termo “desenvolvimento sustentável”, que na superfície e no fundo é um oxímoro (figura que consiste em reunir palavras com significados contraditórios), voltou-se na prática à mesma situação que predominava no século XIX.

Com efeito, o conceito de desenvolvimento sustentável, que de outra parte não dá a menor importância aos aspetos éticos, é simplesmente um conceito impossível, que virou dogma. Não significa nada nem serve para nada, mas não é discutível sob pena de excomunhão. O pêndulo foi de um extremo ao outro sem se deter.

Querer pisotear e explorar cada pedaço deste planeta, negando o direito a outros milhões de seres humanos de preservar o que amam, quer dizer, a natureza da qual saíram, é uma agressão violenta.

Não importa que a destruição seja feita por ricos ou por pobres, ou que seja fruto da iniqüidade. O resultado é o mesmo.

Milhões de pessoas neste mundo, quer sejam os povos que ainda moram nas florestas e em outras áreas naturais, ou os que simplesmente querem desfrutar das paisagens naturais, dos animais, das plantas e de suas flores, sentem destruídas suas raízes.

Tem gente que, pelo menos por breves momentos, quer se confundir com a sua origem remota, sentir-se como um ser em um universo que não seja completamente artificial. Isso, no fundo, é apenas qualidade de vida, um direito consagrado em todo o mundo.

Então, por respeito a essa parte da humanidade, e para preservar o direito a esse sentimento das gerações futuras apesar da onipresença da filosofia dominante, é indispensável se manterem áreas naturais, onde a Mãe Natureza possa sobreviver e onde a sua veneração ainda seja possível.

Se não se aceita que as áreas naturais protegidas sejam como os museus, quer dizer, lugares para proteger e venerar o patrimônio natural da humanidade, quiçá seja aceitável que elas sejam os templos da Mãe Natureza, onde possa ser adorada.

A cada dia é mais válido o ditado que diz que não temos o direito de destruir a vida que não podemos reconstruir.

O FUTURO ESMURRA A PORTA

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por Alon Feuerwerker,
Do Blog do Alon

A transmissão pelo YouTube do Teleton “Hope for Haiti Now”, sexta à noite, foi uma antevisão do futuro, em meio à tragédia do presente. Talvez o terremoto tenha convertido o destroçado Haiti num ícone das dificuldades para universalizar o progresso e o bem-estar. No outro polo, a tecnologia permite a transmissão de um show daqueles pela internet, em alta definição, com qualidade excepcional.

Assim como é apenas questão de tempo as novidades de um Fórmula 1 chegarem ao carro zero que você vai comprar na concessionária, também tem data para chegar o mundo dominado pela convergência digital, que, batida, virou chavão. O que embute um risco: de tanto ouvir falar e nunca ver, você começa a achar que ela não virá mais. Pois ela chegou aos nossos computadores e celulares na sexta. Se você não viu, perdeu.

Toda inovação tende a universalizar-se, ainda que o processo não seja linear e sem buracos na estrada. Quais os principais obstáculos à convergência: a oferta de “banda”, o canal que conduz a informação distribuída em pequenos pacotes na rede, e a disponibilidade de conexões simultâneas ao servidor. No Teleton do Haiti, a conta de ambos foi para os veículos digitais e as empresas de tecnologia, que arcaram com os custos de oferecer uma infraestrutura “ilimitada” para que tudo corresse bem.

Foi um pool gigantesco, que virou conceitualmente a rede pelo avesso. Internet é pulverização, mas na sexta o “pool” inverteu a equação. Precisou apenas de massa crítica, atingida com a mobilização em torno do Haiti.

O que isso tem a ver conosco, com a política? Tudo. Se já éramos um país com milhões de técnicos de futebol, agora, além de milhões de cientistas políticos (Lula vai transferir os votos para Dilma ou não?), nos últimos tempos universalizamos também o debate sobre a democracia na comunicação.

Aqui há um problema: nossas discussões parecem focadas no passadismo, enquanto o futuro esmurra a porta pedindo desesperadamente para entrar. O que é o passadismo? Alguém imaginar que vai restringir o fluxo de informação na rede a partir de formas orgânicas de “controle social”, de restrições. O cenário do futuro é outro. É a disponibilidade “universal” de canais, banda e conexões. É a universalização da capacidade de dizer as coisas e ser ouvido.

A polícia e a Justiça irão adaptar-se para combater o crime na nova esfera, mas fora isso — e a não ser que se esteja a falar em censura — o controle será necessariamente distribuído, pulverizado. Não vai ser refém da esfera estatal, ou paraestatal, como acontecia na época em que predominava o broadcast, a radiodifusão. Ou em que era necessário um capital volumoso para bancar os custos fixos do impresso.

Talvez uma parte, a maior parte, da energia nacional investida no tema devesse então ser canalizada para encontrar meios de prover abundância tecnológica, para baixar radicalmente os custos de distribuição digital. Quem sabe não é um bom tema para a campanha eleitoral?

LULA DOBRA DÍVIDA PÚBLICA

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Deco Bancillon e Vicente Nunes/Correio Braziliense

Dívida pública dispara nos dois governos petistas

Assim que tomou posse em janeiro de 2003, o presidente Lula celebrizou a expressão “herança maldita” numa clara referência ao tamanho da dívida pública (R$ 892,94 bilhões) que recebeu do governo Fernando Henrique Cardoso.

Pois, a se confirmarem as previsões do Tesouro Nacional de que a dívida interna federal pode fechar 2010 em até R$ 1,73 trilhão, Lula repetirá a maldição do antecessor. Entregará, muito provavelmente a José Serra (PSDB) ou a Dilma Rousseff (PT), os dois candidatos à sucessão presidencial mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de votos, um débito quase duas vezes maior do que o que recebeu. (Uma ressalva: se Lula vai entregar o país com um débito duas vezes maior, então, não vai entregar do mesmo jeito que recebeu - e, sim, muito piorado).

“A dívida pública será, sim, uma herança muito ruim a ser herdada pelo próximo presidente da República. Ainda que, a curto prazo, não se dê tanta importância ao assunto, esse endividamento comprometerá a capacidade futura de crescimento do país”, disse o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.

O que está chamando a atenção do mercado é a velocidade com que os débitos vêm crescendo. Em 2009, para um Produto Interno Bruto (PIB) com variação zero, a dívida federal aumentou 7,16%, atingindo o recorde de R$ 1,49 trilhão. Neste ano, conforme o Programa Anual de Financiamento (PAF), a expansão variará entre 6,9% (R$ 1,6 trilhão) e 16% (R$ 1,73 trilhão).

Na avaliação da economista Vitória Saddi, professora do Véris Instituto, é inaceitável que a dívida pública continue aumentando acima do PIB. “Essa velocidade é preocupante, pois pode tornar o endividamento insustentável”, afirmou. A seu ver, o mercado só não está questionando o “movimento perigoso” porque, nos países mais ricos, especialmente os Estados Unidos, a dívida pública explodiu devido aos programas de socorro à economia e a bancos atingidos pela mais grave crise mundial em 80 anos. “Por incrível que pareça, o Brasil está em uma situação melhor. Mas que não é aceitável”, acrescentou.

Para Vitória, também é incompreensível que a dívida federal tenha dado um salto de R$ 100 bilhões no ano passado por causa do processo de capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Em outros países, o socorro aos bancos foi uma exceção, por causa da crise. Mas, no Brasil, parece que está virando regra”, ressaltou. Além do BNDES, o Tesouro Nacional injetou dinheiro na Caixa Econômica Federal e botará recursos no Banco do Brasil. Também estão prometidos pelo menos mais R$ 80 bilhões ao BNDES, que serão liberados ao longo de 2010.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, rebateu as críticas dos economistas e garantiu que o governo não deixará qualquer herança maldita ao sucessor do presidente Lula. “Com certeza, vamos entregar um passivo mobiliário (divida em títulos) melhor do que encontramos no primeiro mandato, em 2003. “As condições que projetamos para o final de 2010 serão infinitamente melhores do que as do fim de 2002”, frisou. Ele ressaltou ainda que 2009 foi um ano “muito bom”, com resultados superiores às expectativas mais otimistas do governo.

Quanto ao reforço de capital do BNDES, Augustin assinalou que a operação teve como objetivo estimular setores-chave da economia, como o de máquinas e equipamentos (bens de capital), vitais para o aumento da produção. “A retomada da atividade econômica está umbilicalmente ligada ao endividamento do governo”, destacou.

No entender do secretário, para que a previsão de crescimento do PIB de 6% em 2010 se confirme será preciso que o banco federal dê sustentação aos planos de investimentos da indústria. “É preciso continuar a capitalizar o BNDES, para que ele continue a fomentar o desenvolvimento da indústria”, emendou.

E eu com isso?

O endividamento crônico do setor público é um grande entrave para o crescimento. Para conseguir quitar os juros da dívida, o governo será obrigado a manter a carga tributária elevada. Ou seja, ao continuarem pagando pesados impostos, as empresas ficarão com menos recursos em caixa para tocar importantes investimentos, que sempre resultam em mais empregos.

O problema fica maior porque o Estado também não terá condições de ampliar os desembolsos para a melhoria da educação, saúde, segurança pública e transportes. Mesmo que continue sugando o caixa das empresas e o salário dos trabalhadores com tributos exagerados, terá que destinar mais e mais recursos para os seus credores — estima-se que a conta de juros passará dos R$ 160 bilhões em 2010, quase 14 vezes mais do que o consumido pelo Bolsa Família, que atende mais de 11 milhões de famílias.

Mas não é só: com a dívida crescente e a dependência do mercado, o governo terá que aceitar pagar juros cada vez maiores aos compradores de seus títulos. Isso significa dizer que haverá limites para que o Banco Central reduza a taxa básica (Selic). E, com a Selic emperrada, o crédito continuará caro. (VN e DB)

Combinação perversa

Quem acompanha com lupa o endividamento do governo alerta: em 2010 haverá uma combinação perversa: débitos crescentes e juros em alta, já que o Banco Central terá que apertar a política monetária para conter pressões inflacionárias advindas do crescimento econômico. “Aumenta a preocupação. O desconforto é grande, apesar de não haver risco de insolvência (calote)”, afirmou o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.

Para ele, o foco não deve ficar restrito à dívida pública federal. É preciso olhar para a dívida bruta (total), que fechou 2009 acima de R$ 2 trilhões, o correspondente a 68% do Produto Interno Bruto (PIB). “Um endividamento desse tamanho sacrifica o crescimento futuro da economia, pois exige mais impostos para o pagamento de juros”, ressaltou.

O incômodo com o perfil gastador e devedor do governo provocou uma queda de braço com os investidores no fim de 2009. Eles passaram a exigir juros maiores (prêmios) para comprar títulos públicos. Com o intuito de evitar tal confronto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, só falta assinar um compromisso em cartório com a garantia de que cumprirá a meta de superávit primário (economia para o pagamento de juros) de 3,3% do PIB este ano.

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, garantiu que, diante das boas condições da economia brasileira, não há motivo para o mercado peitar o governo. “Por isso, não vamos sancionar taxas de juros acima do razoável”, avisou.

O PROBLEMA DA POBREZA [3-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Casimiro De Pina

“…uma sociedade é a combinação, em graus diversos, de uma multidão de elementos heterogêneos: políticos uns, econômicos outros, e religiosos, artísticos, filosóficos, morais, que sei eu? Um todo um conjunto, uma articulação prodigiosamente complicada…”. No entanto, algumas criaturas insistem no erro elementar.

Não se pode equacionar problemas econômicos, como a “competitividade” ou a “eficiência”, sem ter em atenção a concreta sociedade dos homens.

O “homo oeconomicus” é um clichê, uma caricatura, e uma caricatura marxista. A história, ao contrário da doce ilusão socialista, não é a história da “luta de classes” ditada unicamente, ou sobretudo, pelo fator econômico.

Na Idade Média, organizaram-se “cruzadas” que lutavam pela Fé, tentando impor, pela espada, certas concepções aos povos “infiéis”. A religião guiava a sociedade. A “respublica christiana” não era governada pelo dinheiro, mas pela força do Evangelho. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que é possível criar algo como os Beatles ou Dire Straits sem ser por uma paixão louca pela Arte e pela Música? Claro que não.

Os integrantes desses grupos fabulosos ganharam muito dinheiro e receberam royalties, mas havia, sem dúvida, uma força espiritual por detrás do êxito estrondoso. Eles buscavam o Belo! Tentaram interpretar a grandeza da alma humana.

Caso contrário, não teriam feito, como fizeram, grandes canções, melodias de rara beleza capazes de encantar várias gerações de ouvintes. Até hoje.

Marx estava equivocado. O “economismo” é uma teoria inservível e um erro metodológico grave. Peca pelo cinismo. A realidade é muito mais complicada. Ou complexa, se se quiser.

Um grande historiador francês contemporâneo, Lucien Febvre, co-fundador dos Annales d’Histoire Économique et Sociale, escreveu um parágrafo notável a esse respeito.

Disse ele: “…uma sociedade é a combinação, em graus diversos, de uma multidão de elementos heterogêneos: políticos uns, econômicos outros, e religiosos, artísticos, filosóficos, morais, que sei eu? Um todo um conjunto, uma articulação prodigiosamente complicada…”.
No entanto, algumas criaturas insistem no erro elementar.

Há uns anos atrás, eu próprio pude verificar a tremenda força da mentalidade marxista em Cabo Verde, quando uns “cientistas” sociais de carteirinha, com um rendilhado mais ou menos oco, tentaram “explicar” o aumento da criminalidade em função do aumento da pobreza.

A ideia é simples: o dinheiro, a economia, é o fator dominante, a chave mágica da história e dos problemas sociais. Ora, trata-se, como mostrei na altura, de uma “explicação” aberrante e manifestamente absurda. Uma falácia, em suma.

Épocas houve em que Cabo Verde era um país muito mais pobre, mas a criminalidade era, todavia, baixíssima. Por quê? Porque as pessoas tinham uma outra educação e, sobretudo, outros valores.

Havia uma doçura, uma simpatia tão agradável, que, ainda hoje, podemos apreciar nos nossos pais e avós. A cultura cívica degradou-se a olhos vistos, apesar do aumento do PIB e do crescimento econômico.

Nos Estados Unidos da América, a criminalidade atingiu o seu pico mais alto precisamente nos anos 60 do séc. XX, em plena época de prosperidade. Evitemos o simplismo e os cacoetes economicistas. O dinheiro é meramente instrumental.

Eu e você precisamos de dinheiro para realizarmos, unicamente, os nossos planos de vida. É certo que existem pessoas obcecadas com o vil metal. Todos nós conhecemos, aliás, alguns infelizes dessa estirpe. Mas até o avarento (aparentemente) mais estúpido, esse tio Patinhas cujos olhos brilham, rendidos, perante a maravilhosa moedinha de prata!, procura, no fundo, algo mais que o dinheiro: o prestígio, a consideração social.

Quando a vox populi confirmar que ele é, realmente, “o mais rico”, o detentor da maior conta bancária do lugarejo, a sua felicidade será completa! Terá orgasmos intensos e incontroláveis, porque é isso que ele procura, e sempre procurou.

A construção da prosperidade em Cabo Verde não pode abstrair-se dos aspectos morais, religiosos e políticos, os verdadeiros pilares do crescimento econômico.

Temos, à partida, um problema gravíssimo. A confiança é muito baixa em Cabo Verde. O sr. José Maria Neves, visivelmente emocionado, garantiu a Hillary Clinton que o nosso país possui um forte “capital social”. É falso. Redondamente falso.

Os estudos mostram que a população cabo-verdiana é, pelo contrário, altamente desconfiada. Tudo isso condiciona, como se sabe, a atividade econômica, aumentando, em grande medida, a burocracia e os chamados custos de transação. (Consulte-se Robert Putnam sobre esta matéria). O Estado e as instituições não ajudam.

Quem confiará, por exemplo, numa Justiça incapaz de responsabilizar um Primeiro-Ministro que cometeu, num só dia, cerca de meia dúzia de crimes?

José Maria Pereira Neves, cultor da impunidade, é a mais eloquente contra-prova daquilo que ele afirma. Não tem credibilidade para falar de “valores” e do primado da lei. Sidónio Monteiro e Marisa Morais, idem aspas. A moral imagination não existe na Neveslândia.
Além disso, a nossa herança cultural é latina e católica (e o catolicismo, após a Contra-Reforma, combateu a iniciativa privada e a liberdade econômica só a partir da Centesimus Annus, de João Paulo II, é que houve uma compreensão equilibrada do papel do mercado e da criação de riqueza).

Portugal e Espanha possuíam colônias ricas em ouro e outros metais preciosos. Territórios vastíssimos. Mesmo assim, ficaram para trás. Foram ultrapassados por países como a Holanda e a Inglaterra.

Não possuíam, na verdade, o mais importante, a ética econômica, tão bem estudada por Max Weber. As virtudes do trabalho (e, logo, da produtividade), da poupança e da honestidade constituem o segredo do desenvolvimento. A chave da prosperidade. Sem isso, não há progresso, nem “crescimento sustentável”.

Ora, ainda não possuímos estes pré-requisitos. Vivemos na ilusão da “ajuda” e do dinheiro que vem de fora. Cada empréstimo conseguido é festejado ruidosamente nos telejornais, como se fosse um “feito nacional” de primeira grandeza! O efeito disto é o aumento exponencial da dívida pública e o desequilíbrio da balança de pagamentos.

Paulo Monteiro Jr., analisando o “impasse governativo”, com base nas estimativas do Banco de Cabo Verde, põe o dedo na ferida: quanto às contas correntes e de capital, registra-se, para o biênio 2007/2008, “um déficit muito elevado, equivalente a 13% do PIB - uma situação obviamente insustentável, seja qual for o padrão”.

Para o primeiro semestre de 2009, o déficit é de 791.683 milhões de CVE. A nossa cultura é desleixada e brincalhona. No limite, assistencialista. Não dispomos, por enquanto, das conditions of liberty (”condições da liberdade”), que tão intensamente preocuparam Gellner.

Um filósofo português, José Gil, trabalhou um conceito bastante instrutivo: a “não-inscrição”.

É a marca dominante da nossa psicologia coletiva. Sabemos que as regras existem, mas
ninguém as cumpre nem possui, tampouco, vontade de as cumprir. Um breve mas significativo exemplo: todos, ou quase todos, possuem, hoje, um relógio. Mas esse instrumento tão decisivo, tão economicamente relevante, só tem, entre nós, um valor lúdico e facial. É um símbolo inútil. Supérfluo.

Não serve, ao que parece, e como se comprova todos os dias, para garantir a pontualidade e o cumprimento do horário! “Não-inscrição”, pois. O valor prático de um objeto extraordinário e único (uma das maiores invenções da Humanidade) resulta, assim, completamente desvirtuado…

O PROBLEMA DA POBREZA [2-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Por Casimiro De Pina

A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser.

Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo.

Em virtude do incrível aumento da produção e da prosperidade geral crescente, as previsões apocalípticas de Malthus não se confirmaram. A prédica era interessante: “Enquanto os recursos crescem numa progressão aritmética, a população cresce numa progressão geométrica”.

Mas nada disso aconteceu. Hayek chama a atenção para um fato decisivo: a relação entre o aumento da população e a melhoria das condições de vida. A Inglaterra tinha, em 1801, nove milhões de habitantes em 1851, tinha já dezoito milhões.

A introdução de máquinas na agricultura aumentou o estoque de alimentos disponíveis. Registaram-se, também, grandes progressos na medicina: bactericidas, antibióticos, etc.

Tudo isso é, contudo, uma pequena parte da história.

Escutemos David Landes: “O aumento considerável da esperança de vida nos dias de hoje deve-se mais às conquistas na área preventiva e à disseminação dos hábitos de higiene… Água limpa e rápida remoção de lixo, aliadas a mais asseio pessoal, marcaram a diferença”.

A infeccão gastrintestinal era uma das doenças mais perigosas, uma calamidade pública. A falta de papel higiênico e de roupas interiores laváveis favorecia, em épocas recuadas, a contaminação (via contacto com dejetos, etc.).

A resposta foi encontrada, explica Landes, “…na inovação industrial. O principal produto da nova tecnologia que conhecemos como a revolução industrial foi o algodão barato e lavável e, paralelamente, a produção em massa de sabão feito de óleos vegetais. Pela primeira vez, o homem comum podia dar-se ao luxo de adquirir roupa interior, outrora conhecida como ‘roupa branca’, porque era feita de linho, o tecido lavável que as pessoas abastadas usavam junto à pele. O indivíduo podia lavar-se com sabão…A higiene pessoal mudou tão drasticamente que as pessoas comuns, dos finais do século XIX e início do século XX, viviam em geral com maior asseio do que os reis e rainhas do século anterior”.

O bem-estar e a riqueza das nações cresceram de uma forma admirável. As fomes cíclicas e coletivas desapareceram, pelo menos nos espaços geográficos atingidos pelo fulgor do novo e criativo sistema econômico.

Houve um crescimento surpreendente da oferta de alimentos e uma melhoria substancial dos transportes. A riqueza produzida podia circular com facilidade e servir, assim, um maior número de pessoas.

Resultado: uma dieta alimentar mais rica, uma vida mais feliz e saudável mil necessidades satisfeitas. O rendimento per capita aumentou consideravelmente.

A mudança social foi de tal ordem que, décadas mais tarde, a retórica anticapitalista foi obrigada a dar uma volta de 360 graus.

Assim, abandonando, por instantes, a falácia marxista de que “os pobres estão a ficar mais pobres”, os intelectuais ressentidos, mestres supremos da arte dialética, passaram a criticar a “alienação” que o sistema provoca, ao produzir cidadãos obcecados com o “consumo e o supérfluo”. Já não se pode alegar o “empobrecimento das massas”? Critique-se, então, o seu estúpido enriquecimento! É esta a linha dos Marcuses e companhia; da crítica econômica passou-se, pois, ao apelo moralizante.

O sistema da “liberdade natural” funciona, hoje, em vários continentes, sempre com resultados apreciáveis. Não se ignora o passivo. Mas as suas vantagens compensam largamente os inconvenientes.

O capitalismo - parafraseando Churchill - é o pior sistema econômico, excetuando todos os outros.

K. Marx, no Manifesto Comunista, imaginou um mundo medieval idílico que nunca existiu.
Partindo de um diagnóstico errado, só podia produzir uma terapêutica desastrosa. O socialismo totalitário, nos sítios infelizes onde se implantou, apenas produziu miséria, opressão e atraso tecnológico.

Cuba e a Venezuela de Chávez são exemplos cintilantes de uma filosofia irrealista (o “ópio dos intelectuais”), contrária à dignidade humana.

A economia de mercado possui, na verdade, como mostrou também João César das Neves (http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1138527), prof. na Universidade Católica de Lisboa, um valor ético, que escapou, lamentavelmente, ao catecismo frouxo do “materialismo dialético”:

A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser.

Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo.

Acima de tudo, são incríveis os ganhos na redução da pobreza. A população mundial na situação de carência (menos de 1,25 dólares por dia) caiu de 35% do total para menos de 26% nos últimos dez anos. Isso significou arrancar à miséria 50 milhões de pessoas por ano.

Quem fez isto não foi a ajuda ao Terceiro Mundo, a caridade cristã ou a sociedade socialista, mas a entrada na economia de mercado pela globalização.

Em Cabo Verde, o regime totalitário do Partido Único, imposto pelo PAIGC/CV a partir da independência nacional, estabeleceu, com base nos dogmas marxistas, uma mentalidade francamente antieconômica.

A iniciativa privada era fortemente combatida, como sinônimo de “egoísmo” e “exploração do homem pelo homem”.

Em virtude de um atavismo incompreensível, Cabo Verde desligou-se do sistema econômico internacional, perdendo oportunidades e atrasando-se notoriamente, em termos, sobretudo, de capacidade tecnológica e ideias inovadoras. Era o “não-alinhamento”, com o subdesenvolvimento e a ineficácia.

O investimento estrangeiro era insignificante. Preferiu-se a “substituição das importações”.
Havia que resguardar a nação da influência maligna do “capital” e dos vilões do Ocidente liberal, segundo as sábias orientações da teologia marxista-leninista!

Os manuais escolares estavam recheados dessas tolices ideológicas.

O Estado dominava as indústrias e controlava a economia.

Quando a odisséia da I República terminou, em 1991, Cabo Verde tinha uma factura caríssima à sua frente: desemprego elevado e uma taxa de crescimento econômico quase nula (cerca de 1%).

O MpD recebeu um país tecnicamente estagnado.

Após um ambicioso programa de reformas (a começar pelo sistema político, com a aprovação da Constituição de 1992, que instituiu o Estado de Direito e a prioridade ontológica da dignidade humana), Cabo Verde começou a mudar, entrando nos eixos do desenvolvimento e da modernidade. Negando o transpersonalismo constitucional de matriz hegeliana, afirmou-se, antes, o pluralismo e a singularidade da condição humana: cada pessoa é um ser livre e responsável, senhor dos seus projectos e do seu destino, “[...] sob o único governo de Deus e das leis”, na síntese primorosa de Tocqueville.

Nos finais da década de 90, os resultados sociais eram claros: um crescimento econômico apreciável (cerca de 8%) e um bom Índice de Desenvolvimento Humano (vide os relatórios do PNUD). O desemprego conheceu uma redução bastante acentuada.

Olavo Correia, num recente artigo publicado no Expresso das Ilhas (5/8/2009, p. 8), tem plena razão.

O PAICV do Sr. José Maria Pereira Neves, ao privilegiar o Estado em vez das empresas, desenhou uma política econômica errada, que não consegue resolver a questão do desemprego, a prioridade máxima de qualquer Governo responsável e de “rosto humano”.
O falhanço é clamoroso. As metas do Programa da atual Legislatura não foram cumpridas.
Alguém falou do “crescimento a dois dígitos”?!

O Governo é mercantilista e o Fisco goza do incrível “privilégio de execução prévia”, herança do absolutismo monárquico.

Quem dá emprego (e inova: criando novos produtos e serviços) são as empresas. Se não houver um enquadramento institucional que estimule a atividade empresarial, e o crescimento econômico, o problema manter-se-á praticamente insolúvel.

Os atuais governantes, apesar da arenga à volta dos “ganhos na economia”, parecem não perceber a raiz do problema.

Olavo aponta, a meu ver, ideias interessantes para sairmos do marasmo. Concordo com quase todas, desde a baixa fiscalidade (um poderoso incentivo da poupança e do investimento, como se verificou na Irlanda) à aposta num Estado mínimo, promotor das empresas e da criação de mais riqueza. É bom ler e discutir as suas propostas. Sensatas.

O Estado liberal não é um Estado ausente. Quem defende, em termos de Filosofia Política, a “extinção do Estado” são dois grupos ideológicos bem identificados: os Marxistas e os Anarquistas. Mais ninguém.

O problema é que muitos continuam a confundir a força do Estado com a sua dimensão.
O Zimbabwe é um Estado grande, altamente interventor, mas simultaneamente fraco. Falta tudo no país, desde a eletricidade aos gêneros alimentícios. O quotidiano popular é surrealista, no meio de uma inflação astronômica e da arbitrariedade policial.

O atraso endêmico é a consequência de uma deliciosa confusão!

Para o pensamento liberal, o Estado é sempre necessário. Garante a Justiça e a ordem pública, assegura a diplomacia, protege os mais fracos, disciplina a concorrência e a atividade econômica. O Estado é o sustentáculo da res publica e da convivência civilizada.
Adam Smith, em pleno séc. XVIII, defendia a intervenção do Estado com vista à educação das classes mais pobres.

Vale a pena lembrar isto, num país, como o nosso, em que o pensamento totalitário, apostado na dezinformatsya, contaminou todo o debate político.

Mas há um ponto que fica em aberto: massificar a Internet, abrir uma Escola de Negócios (”virada para a capacitação do sector privado”), legislar sobre a “flexisegurança” ou certificar as profissões, providências indiscutivelmente acertadas, fazem parte da “engenharia econômica”.

Com um simples Decreto, um burocrata dedicado, um Colbert high tech, pode criar tudo isso.
E a Etica Econômica, tão essencial à formação do capitalismo e à “vocação para o desenvolvimento”? Como se cria? Como se mantém? Pelos votos da maioria?

Abordaremos isso num próximo artigo, tentando explorar algumas facetas da nossa Psicologia Coletiva (o nosso temperamento e a nossa índole) e das relações entre a Economia, a Moral, a Cultura e a Religião.

O tema é difícil e, por isso, não se promete qualquer panacéia. Mas é preciso abrir o debate, tocando, aliás, no ponto-chave do desenvolvimento.

O PROBLEMA DE POBREZA [1-3]

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Por Casimiro De Pina


Em “O problema da pobreza: entre o reducionismo atávico e a compreensão integral”, Casimiro de Pina articula os aspectos morais, religiosos, econômicos e políticos de uma questão que há tempos é discutida de forma parcial e desviada de seus aspectos essenciais, sobretudo por uma casta acadêmica viciada em devaneios ideológicos e por militantes vazios e interesseiros.

A pobreza é uma questão moderna. Melhor: um subproduto da modernidade, enquanto “questão social”.

Uma encíclica papal (Rerum Novarum), de 1891, debruçou-se justamente sobre essa temática, à luz da Fé e dos ensinamentos do Evangelho. O nascimento da própria ciência econômica está intimamente vinculado ao nosso inquietante problema. Numa carta dirigida a Ricardo, datada de 26 de Janeiro de 1817, Thomas Malthus clarifica este ponto de vista: “[...] as causas da riqueza e da pobreza das nações - o grande objetivo de todas as investigações em economia política”.

A economia é, nessa linha, uma disciplina humanística, centrada na promoção da riqueza e da prosperidade geral. É com esta declaração impressiva que David Landes, professor em Harvard, abre o seu monumental A Riqueza e a Pobreza das Nações (Gradiva, 2002), um livro de leitura obrigatória, sem o qual, como escreveu o scholar Bradford DeLong, no Washington Post, “Não é possível começar sequer a pensar sobre os problemas do desenvolvimento”.

Objeto de discussão apaixonada nos areópagos internacionais, a pobreza ganhou, sem dúvida, um estatuto de primeira grandeza, dividindo a opinião pública e alimentando clivagens ideológicas.

Bono (o vocalista dos U2) e outras figuras do show business, encavalitados no humanitarismo fácil, atribuíram-na um cunho de espectáculo e protesto emocionado. A pobreza é celebrada e causticada, mas raras vezes merece um exame sereno e informado. Os fatos, esses, são muitas vezes desprezados, numa atitude intelectual que impressiona pela ligeireza e vacuidade da análise.

Durante milênios, a humanidade viveu sob o peso cruel da indigência e da carestia. A pobreza foi assim, desde tempos imemoriais, a condição normal dos povos e das civilizações.
A pobreza, e não a riqueza, foi, no passado, a fiel companheira da espécie humana.

Jean-François Revel recorda-nos, a propósito, numa fórmula precisa, esta verdade incontestável: “Sociedades sem crescimento”, resumo da história econômica num arco temporal que vai do Neolítico às vésperas da Revolução Industrial.

Havia, é certo, pequenos “oásis de prosperidade”, mas a condição rotineira das massas (leia-se: da imensa maioria da população, os “condenados da terra”, no dizer de Fanon) era paupérrima e degradante. As cidades eram insalubres. Não tinham qualquer sistema de saneamento básico, nem dispunham de iluminação pública. Recolha periódica do lixo? Não havia.

Os campos, círculos de rotina e hábitos ancestrais, na melancolia do pitoresco, vegetavam na mais completa penúria, entregues às vicissitudes da sorte e ao capricho das estações. Reinava o arbítrio da Natureza! As jacqueries (revolta de camponeses) eram frequentes na Europa.

Até as famílias mais ricas e aristocráticas viviam num certo desconforto, o qual, nos dias de hoje, seria motivo de incompreensão e riso generalizado.

O magnífico Luis XIV (esse mesmo que, do alto do seu poderio, proclamava: “L’État, c’est moi!”) não tinha uma simples casa de banho. Os dejectos do palácio real eram despejados nas redondezas, numa operação roll on-roll off pouco civilizada! Não havia papel higiênico em Versailles. As damas de Paris, senhoras de uma elegância quase mítica, não tinham nada parecido com o actual “penso higiênico”. Não me perguntem, por favor, como elas faziam, nos momentos de aperto biológico!…

Os salões da “alta sociedade” podiam ser espaços requintados, animados por poetas e músicos talentosos, mas imperava, ainda assim, a escassez de bens e produtos indispensáveis. Não havia, nessa altura, aspirinas para aliviar uma repentina dor de cabeça.

A atmosfera circundante era pobre, mesmo nas maiores metrópoles europeias. Em 1709, a França viveu uma grande fome. Dois milhões de pessoas pereceram. A desordem social acompanhava, normalmente, o movimento do flagelo. E o “bas-fond” da sociedade refletia, até certo ponto, esse estado de coisas. Victor Hugo captou esse quadro, de forma magistral, num dos seus romances mais famosos: Les Misérables. As casas das classes baixas não possuíam nenhum sinal de conforto.

O recheio circunscrevia-se a uma ou outra peça de mobiliário tosco. Faltavam talheres não havia estantes, nem sofás. Mesmo na França, o mais rico país europeu até finais do séc. XVIII, as famílias raramente comiam carne. Só as classes abastadas podiam beber cerveja. A esperança média de vida não ia além dos 35 anos.

Os membros da família amontoavam-se, não raras vezes, e num caldo de promiscuidade, num mesmíssimo e reduzido aposento. A residência era infestada por insectos e parasitas, foco de várias doenças e incomodidade. As crianças e as mulheres andavam descalças. Vestia-se blusões e calções de sarja. A indumentária era mínima. Uma florescente “indústria” caseira de remendos, profissão predominantemente feminina, foi, durante muito tempo, a solução encontrada para resolver a escassez.

O Inverno, sobretudo nos anos mais frios, era um suplício. A “superfície da existência humana” (Norbert Elias) era, portanto, frágil e miserável, numa sociedade marcada pela estagnação econômica - o jogo de soma zero. Quando surgia uma epidemia, a falta geral de condições sanitárias fazia com que a situação ganhasse, numa espécie de efeito multiplicador, a dimensão de uma tragédia. Populações inteiras eram dizimadas.

A Irlanda (hoje uma nação rica e desenvolvida) atravessou períodos de fome catastróficos, o que levou Jonathan Swift, em 1729, a propor receitas jocosas (Modest Proposal) com vista à resolução do magno problema nacional.

Tratava-se, evidentemente, de um país atrasado, preso a um sistema econômico feudal, ineficiente, tecnologicamente deficitário e pré-capitalista. Hegel, o notável filósofo do Estado e do “fim da história” (tese engenhosa que os ignaros e a intelectuária esquerdista atribuem ao pobre Fukuyama), morreu de cólera, uma doença engendrada pela imundície, quando a cidade de Berlim, onde se encontrava ao tempo, foi fustigada pela horrível moléstia.

Foi a Revolução Industrial que criou o conceito de abundância e resolveu o problema milenar da escassez. Nasce aqui, como resultado da poderosa revolução epistemológica trazida pelo capitalismo liberal, a tal “questão social”.

Os espíritos mais subtis perceberam que algo inédito estava a acontecer. Era possível vencer a pobreza! Abriu-se um novo campo de estudo e investigação científica. A literatura socialista destaca a longa jornada de trabalho e a exploração infantil nas fábricas do séc. XIX, mas omite, tendenciosamente, a condição social anterior daqueles que procuravam trabalho nas cidades industriais da Inglaterra.

A industrialização, criando uma gama vastíssima de bens e serviços, aliviou grandemente a pobreza, a fome e a carestia generalizada das épocas anteriores. Foi, pois, um progresso extraordinário.

Hoje, uma pessoa comum vive com um grau de conforto superior aos monarcas e nobres do séc. XVII. Muitos possuem TV, telefones celulares, casa de banho, automóvel, rádio, água canalizada, frigorífico e um conjunto de outras vantagens propiciadas pela tecnologia moderna.

O capitalismo (ou “economia de mercado”) é, como bem notou Schumpeter, um sistema de “destruição criativa”. A electricidade substituiu a lamparina o telefone tomou o lugar do pombo-correio e do telégrafo, o computador sucedeu à velha máquina de escrever, e assim por diante.

Lênin, impressionado pela opulência capitalista, chegou a definir o socialismo deste modo curioso: “eletricidade mais sovietes”.

Vejam, nos nossos dias, a história do telefone celular. No início, só uma pequena elite (executivos, políticos, etc.) podia adquirir esse bem raro. Era, então, uma questão de status e símbolo de poder econômico. Atender uma chamada no meio da multidão dos have not era o cúmulo da sofisticação - um suspiro mágico e de sedução! Pouco tempo depois, porém, toda a gente já podia adquiri-lo.

O seu uso democratizou-se. Há dias, este vosso criado presenciou, em Ribeira do Ilhéu, uma cena tocante: em pleno trabalho agrícola (a sementeira), jovens usavam o telefone celular, conversando, alegremente, com pessoas amigas. Por meio desse aparelho revolucionário, podem trocar “mensagens” e falar com os seus familiares na terra longe.

As vantagens, em termos de liberdade e facilidade de contactos, são incalculáveis. Adam Smith estava certo: o sistema capitalista cria um estado de “opulência geral”. A concorrência entre empresas, sob regras claras e imparciais (fair-play), gera a inovação e oferece, decerto, benefícios crescentes à população e aos consumidores.