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LEMBRANDO CARMO BERNARDES

segunda-feira, 8 de março de 2010


Por Franklin Jorge

Alcyone Abrahão já havia me avisado que eu gostaria de Carmo Bernardes à primeira vista. “É um gentil-farmer bonacheirão”, disse-me, “sem herdade nem eira, mas dotado de grande carisma”. Nada mais preciso e correto do que esse juízo dessa que foi uma grande divulgadora da cultura goiana em Natal e da cultura norte-rio-grandense em Goiás.Ela ainda ajuntou que se eu chegasse a encontrá-lo algum dia, logo o reconheceria…

Conheci-o, sim, em Goiânia, à minha espera nas proximidades dum ponto de baldeação de ônibus, numa luminosa tarde de setembro. Modestamente vestido como um homem da roça, logo que saltei e meus olhos caíram sobre aquele velho que esperava encostado numa brasília chamativamente cor de abóbora, percebi de quem se tratava. Fiz-lhe um aceno e ambos nos encaminhamos, ele bem lentamente, um para o outro. Ele usava umas calças marrons e uma camisa xadrez decentemente passadas.

Carmo quis que nos encontrássemos ali, para evitar-me o cansaço de procurar a sua casa num bairro populoso e, segundo ele, distante de onde eu me achava hospedado, “num bairro de ricos e de gente metida a rica”. “Como sabe por experiência própria”, disse-me, “quem sabe escrever e tem opinião jamais consegue prosperar do ponto de vista material. Quem detém o poder, quer escribas servis… Pelo que já ouvi a seu respeito, creio não ser o nosso caso.” Sem delongas, rendi-me imediatamente aos carismas daquele homem que era também, a meu ver, um grande e original escritor que havia muito me enredara com a sua arte de concatenar em textos ricos de forma e conteúdo o fruto de suas observações.

Teria já uns setenta anos, mas não dava conta disso, apesar do rosto sulcado de rugas. Notei que tinha as mãos grossas e calosas, como as de alguém que lutara no cabo da enxada amanhando a terra benévola de seus antepassados, uma gente que em algum momento viera de Minas para Goiás, em busca de uma nova vida, conforme fiquei sabendo depois ao ler um livro seu de memórias que durante anos, especialmente durante os anos que vivi na Amazônia, me acompanhou por toda a parte, a ponto de praticamente se desfazer em minhas mãos.

Uma vez, tendo o esquecido esse livro num quarto de hotel, em Cabixi ou Pimenteira, fiz o motorista voltar trezentos quilômetros para recuperá-lo, aborrecendo com isso enormemente ao governador, que depois de me ouvir sobre a grandeza do seu conterrâneo, se divertia contando aos amigos que eu me atrasara por causa de “um livro velho”…

Autodidata, dotado de uma cultura popular enciclopédica, nada havia entre o céu e a terra que não lhe despertasse o interesse e estimulasse a sua inteligência e capacidade de análise. Passei algumas horas esplêndidas, ouvindo-o sobre a grandeza da terra e o engenho dos pobres, que são muitos, e, portanto, algum dia, tornarão a vida dos ricos insuportável, se a justiça social não for implementada em quanto há tempo. Sem ser um leitor de Borges, ele repetia assim o que dissera o velho bruxo das letras acerca da revolução que se fará, não pelos pobres, mas pelos ricos, que não suportarão viver num mundo de miseráveis…

Seu eu jornalístico, habituado a reagir e a opinar, fez de Carmo Bernardes, talvez, o cronista mais lido e querido de Goiás. Escrevendo sobre a terra e o povo, que conhecia em extensão e profundidade, reuniu em torno de suas letras um verdadeiro fã-clube, apesar de sua condição de homem pobre e avesso ao que chamamos de “vida literária”. Cônscio, porém, do seu talento, nunca transigiu com o compadrio que infesta e domina o oficialismo, fazendo-se reconhecer inclusive fora do país, ao receber o prestigioso prêmio literário conferido em Cuba pela “Casa de las Américas”, o que o coloca no mesmo elenco de outros grandes autores latino-americanos distinguidos com a láurea.

SÁTIRA FAZ SUCESSO ENTRE INTERNAUTAS

quinta-feira, 4 de março de 2010

Por Redação

O artigo do escritor e publicitário Patrício Jr., aqui publicado ontem, provocou uma onda de comentários espirituosos que põem em xeque a chamada “cultura oficial” e seus mais notórios representantes. Num desses comentários, Ronaldo Freitas propõe aos organizadores do Encontro Natalense de Escritores, objeto da crítica, a realização de mesas redondas, uma ideia aprovada e enriquecida com sugestões de outros leitores desta página.

Entre os intelectuais satirizados nos comentários, destaca-se o poeta Ney Leandro de Castro, que, como se sabe, tem se desentendido com muitos de seus confrades. O ano passado, por exemplo, perdeu a amizade do colega Demétrius Vieira Diniz, alvo de comentários maliciosos sobre sua sexualidade, publicados na coluna que Ney mantém na Tribuna do Norte. Vieira Diniz chegou a pedir-lhe satisfação, ao flagrar o autor de “Feira Livre” fazendo cooper na praia, rompendo assim uma famosa amizade estreita e calorosa. Aqui, Ney é visto como “fauno da 3a. Idade” acometido de “libido senil”, entre outros epítetos quase folclóricos.

Patrício Jr. satiriza em seu texto, originalmente publicado no blogue PLOG, o anunciado Encontro Natalense de Escritores (ENE), que sob o governo da prefeita Micarla de Souza já passou por diversas metamorfoses que deixam claro para a opinião pública a falta de planejamento e seriedade de suas ações em todas as áreas e, em especial, na Cultura do município que nunca esteve mais capenga desde que caiu nas malhas do Partido Verde.

Abaixo, os comentários dos internautas:

13 comentários para “DENE: DESENCONTRO NATALENSE DE ESCRITORES”

Fábio Capistrano disse:
3 de março de 2010 às 19:34
Patricio, é isso aí, meu caro. Tem uma caveira enterrada na Funcarte: sempre primou por ter gente incompetente na presidencia. Que eu me lembre, a jornalista Rejane Serejo, Rinaldo Barros, Gileno Guanabara, Isaura Rosado, Revoredo, Dácio, agora esse caras que “caga e anda”…Que esperar dessa gente? Artigo Nota 10! Dei boas gargalhadas.

Ana Paula disse:
3 de março de 2010 às 19:38
Legal essa estocada na Thaysa Galvão. A blogueira é ela, não é?

Ronaldo Freitas disse:
3 de março de 2010 às 19:39
Muito criativo: rindo e castigando os costumes. Sugiro que os internautas enviem sugestões de mesas redondas e oficinas:
“A poesia erótica potiguar: de como alguém resolve sua sexualidade via poesia de péssima qualidade”
“Poetas marqueteiros: escreva uma coisa, fale outra e trabalhe para eleger canalhas”

Carlos Feitosa disse:
3 de março de 2010 às 19:54
Aprovado, Ronaldo Freitas. Suas sugestões de mesas redondas não podiam ser melhores. Vou aproveitar e dar a minha contribuição, questionando: vc acha que um versejador, como o Ney Leandro de Castro, já não está acometido de libido senil? Está na cara: ele nunca foi esse amante irresistivel que alardeia em seus improvisos. Franklin mesmo já disse que ele se assemelha a um batráquio e batráquios, pelo que sei, despertam asco, repulsa… Só a Marize Castro para se engraçar de um tipo assim.

Talvani disse:
3 de março de 2010 às 20:03
Como disse Franklin Jorge, não lembro onde nem quando, com essa cara de “fauno da 3a. Idade”, o velhote Nei Leandro só come moscas.

Sandro Godeiro disse:
3 de março de 2010 às 20:08
Patricio, parabéns!Aqui você vai ser lido e comentado, pode crer, boy.

Diva disse:
3 de março de 2010 às 21:08
Ney é o antigalã. Não tem sex appeal. Uma mulher precisaria estar muito necessitada para recorrer aos seus préstimos. Além disso sempre foi gabola. Gosta de pabulagem. Hoje é esse “fauno da terceira idade”: um velhote libidinoso.

Manio Antunes disse:
3 de março de 2010 às 21:41
Essa é boa! Ney, o fauno da terceira idade! Beleza! Dava uma mesa redonda humoristica.

Caroline Abreu disse:
3 de março de 2010 às 22:22
Quem muito se gaba, como faz esse galã da 3a. idade, esconde alguma coisa… Talvez ele não seja tão ney quanto Marize pensa…

Tony Barreiros Morro Branco disse:
4 de março de 2010 às 6:52
Muito bom o artigo. A nau da capitania já afundou faz muito tempo, assim como o cafuço da Fundação José Augusto. Sugiro as mesas:
“Virei e mexi, mas acabei por aqui mesmo: sou da província, provinciano incurável”.
“Mulher e literatura potiguar: a arte de fazer contatos, artimanhas e mungangas no mundo da literatura”.
“Tradição e renovação na literatura potiguar: como os antigos vanguardistas hoje comem salgadinhos de segunda, e vinhos ácidos, nos regabofes oficias”.
Eis minha modesta contribuição.

Maria Rita Medeiros da Costa disse:
4 de março de 2010 às 8:20
O pornógrafo Nei Leandro de Castro é uma figura folclórica da cultura natalense. Fiscamente, lembra mesmo um “batráquio”, conforme o jornalista FJ e como D. Juan - ninguém tem dúvida - é um anticlímax. Malamanhado, de ombros curvados, despertará mais o riso do que o tesão. É somente um pseudo galã da terceira idade. Nem a Academia de Letras o quis…

Raphael Roqueiro disse:
4 de março de 2010 às 8:48
Parabéns, Patricio. Gostei das suas palavras.

Clivaneide Mossoró Rn disse:
4 de março de 2010 às 10:34
Ave Maria, como eu gostei do artigo desse rapaz talentoso e criativo. Sugiro uma mesa redonda entre Ney e Marize Castro, intemediada pelo grande intelectual, palestrador, peripatético e ajuntador de livros, O Sr. Inácio:
“O embuste na literatura: erário público como possibilidade de sustentar a mediocridade na produção poética contemporânea”.
Também Mossoró daria boas mesas, sua literatura lacrimogênica e repleta de sonetistas.

RELENDO FREI VICENTE DO SALVADOR

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Aproveitei meu domingo relendo trechos da História do Brasil escrita por Frei Vicente de Salvador (1564-1639?), na edição revisada por Capistrano de Abreu (1853-1927) e pelo meu ilustre conterrâneo do Ceará-Mirim, Rodolfo Garcia (1873-1949), entre outros prestigiosos comentaristas. Apresentando-a, diz-nos Aureliano Leite que, no Brasil seiscentista, Frei Vicente não foi o melhor do seu tempo, foi o único, ao doar-nos uma história geral do Brasil que é também uma enciclopédia.

É talvez o primeiro historiador da corrupção em solo pátrio, ao registrar que os feitores, aqui, davam em conta a despesa pela receita…

Nascido na dionisíaca e pagã Bahia de São Salvador (daí a adoção do nome da cidade pelo qual se fez conhecido), não é o Frei Vicente um historiador sisudo e dogmático. Os que o leram ou anotaram, louvam-lhe o espírito e a prosa quase sempre bem cuidada, minuciosa e sintética, lavrada num estilo que se esquiva de aborrecer ao leitor que se compraz no conhecimento do nosso passado.

Foi leitura cara ao nosso querido mestre Luis da Câmara Cascudo, que nele encontrou (e certamente terá se deliciado) curiosas e verídicas informações sobre a nossa província, então considerada “o pior território” da colônia havia pouco descoberta, como as que referem aos chefes indígenas potiguares Pau Seco, Braço de Peixe, Zorobabé, Ilha Grande (que suponho um dos chefes tribais do Ceará-Mirim antigo), as guerras com os “bárbaros”, franceses e holandeses e a repartição da primitiva Terra Papagalli em capitanias hereditárias etc.

Escrita segundo a ordem cronológica, à maneira da crônica dos reis, alguns livros ou capítulos da obra se perderam, porem o que sobreviveu não deixa de constituir uma enciclopédia viva dos atos administrativos, da política, dos costumes, da ecologia e da mitologia, num período que vai do Descobrimento, em 1500, até 1627. Objetivo, assim principia a sua História do Brasil:

“A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito e de principal intento, mas acaso, indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de el-rei Dom Manuel no ano de 1500 para a Índia por capitão-mor de onze naus. Afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta, ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia noticia alguma; foi a costeando alguns dias com tormenta até chegar a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou o mesmo nome (…)”.

Mais do que com a história em si, deliciei-me com a saborosa dicção quinhentista e as descrições do clima, do temperamento, das riquezas minerais, das árvores agrestes, das ervas medicinais, dos mantimentos, dos animais, dos bichos, das aves e das coisas que há no mar e terra do Brasil, então ainda em pro-cesso de povoamento. Do cajueiro e do maracujá, tão nossos conhecidos e apreciados, eis o que nos diz o atilado historiador:

“Os cajueiros dão a fruta chamada cajus, que são como verdiais, mas de mais sumo, os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto que não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes ser-vem de fruta o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas que vem pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa pera fazerem maçapães e outros doces (…) Maracujás é outra planta que trepa pelos matos, e também a cultivam e põem em latadas nos pátios e quintais; dão fruto de quatro ou cinco sortes, uns maiores, outros menores, uns amarelos, outros roxos, todos mui cheirosos e gostosos. E o que mais se pode notar é a flor, porque, além de ser formosa e de várias cores, é misteriosa: começa no mais alto em três folhinhas, que se remetam em um globo que representa as três divinas pessoas em uma divindade, ou (como outros querem) os tres cravos com Cristo foi cravado, e logo tem abaixo do globo (que é o fruto) outras cinco folhas, que se rematam em uma roxa coroa, representando as cinco chagas e coroa de espinhos de Cristo Nosso Redentor…”

E, da preguiça, que, curiosa-mente, jamais alguém pensou para símbolo nacional:

Outro animal há a que chamam preguiça, por ser tão preguiçoso e tardo em mover os pés e mãos que, pêra subir a uma árvore ou andar um espaço de vinte palmos, há mister meia hora e, posto que o aguilhoem, nem por isso fogem mais depressa…”

Detive-me, porém, nas referências à história e geografia fluminenses, onde há uns quarenta anos, à sombra do jardim plantado por Dom João V, no Rio de Janeiro, li o bom frade pela primeira vez. De seus relatos das guerras movidas pelo colonizador contra o gentio, lembrou-me, de alguma forma, o que escreveu Sir Walter Scott sobre os piratas que, por essa mesma época em que compunha seu livro, dominavam os mares noutras longitudes.

Uma das passagens de que mais gosto, a da participação de São Sebastião, santo guerreiro, ajudando os portugueses - que defendiam a valorosa cidade do Rio de Janeiro -, em renhida batalha contra os Tamoios. Só não a transcrevo a aqui por ser demasiado longa para ocupar este espaço. Como se sabe, Sebastião, santo guerreiro, é o padroeiro da valorosa cidade do rio de Janeiro, que o homenageia com aquela curiosa e monumental estátua chantada diante do mar, no aterro da Glória; e que prefigura, na opinião de um velho e espirituoso amigo cea-rense, o nosso primeiro monumento gay nacional…

Dou-lhe, porém, leitor desprevenido, a descrição da cidade feita pelo autor da História do Brasil, que tanto me tem agradado:

“O Rio de Janeiro está em vinte e três graus abaixo do trópico de Capricórnio, e impropriamente se chama rio, porque antes é um braço de mar, que ali entra por uma boca estreita que se pode facilmente defender de uma parte a outra com artilharia; mas dentro faz uma baía ou enseada em que entram muitos rios e tem perto de quarenta ilhas, das quais as maiores se povoam e as menores servem de ornar o sitio, ou de portos onde se abriguem os navios. Estas comodidades e outras muitas deste rio e baía, juntas com a fertilidade da terra, a faziam digna de ser povoada, quando se povoaram as mais do Brasil…”

A MÃE DOS ESCÂNDALOS

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Por Ipojuca Pontes,
de Mídia Sem Máscara

Não sei se os leitores sabem, mas Brasília nasceu de um porre. Logo depois, enxergando na provocação do bêbado um “negócio da China”, Juscelino Kubitschek passou a fazer dela o cavalo de batalha do seu “plano de metas”.

Mergulhada num eterno mar de corrupção e sufocada por ondas sucessivas de escândalos, Brasília vai completar 50 anos no próximo 21 de abril. Os principais veículos da mídia cabocla estão faturando alto com anúncios programados pelo ora trancafiado (ex-) governador José Roberto Arruda, que, entre outras bravatas, diz ser a cidade artificial uma das “mais admiráveis do mundo”.

No recente carnaval do Rio, os bicheiros da Escola de Samba Beija-Flor também não se deram mal, faturando a partir de contrato com o governo do Distrito Federal mais de R$ 5 milhões para o desfile do samba-enredo “Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”.

Na onda das festividades, o insaciável Arruda, homem para quem a política é a melhor forma de se navegar na lama, tratava também de trazer à Capital Federal, por alguns milhões de Euros, o ex-beatle Paul McCartney - queria ouvir de perto “Yesterday”.

Por sua vez, como a cultura no Brasil vive sempre farejando “bons negócios”, vários cineastas tupiniquins, permanentemente ativos na “captação” das perdulárias verbas públicas, trataram de articular projetos cinematográficos para louvar a Jóia da Coroa. O próprio Carlos Diegues, o velhíssimo Cacá, prefaciador de indigente livro de José Roberto Arruda sobre a mãe de Glauber Rocha (”Lúcia - A mãe de Glauber” - Geração Editorial, São Paulo, 1999), já havia se reunido em Brasília com o governador “mensaleiro”, tramando a produção de filme milionário para “celebrar” os 50 anos da “Capital da Esperança”.

Não sei se os leitores sabem, mas Brasília nasceu de um porre. O negócio foi assim: em abril de 1955, Juscelino Kubitschek, então candidato à presidência da República, saltou na pequena cidade de Jataí, Goiás, para fazer discurso de campanha. Lá para tantas, no final do comício, entre promessas, acenos e sorrisos, JK foi interrompido por um popular - o Toniquinho da Farmácia - que estava completamente embriagado. Sem se agüentar nas pernas, voz pastosa, a folclórica figura jataíense provocou o candidato:
- “Se vosmecê for eleito vai mudar a Capital Federal para o Centro Oeste, conforme reza a Constituição de 1891?”.

Tomado de surpresa, Juscelino, raposa velha, improvisou:

- “Sendo um preceito constitucional, daria, sim, os primeiros passos neste sentido”.

Mas logo depois, enxergando na provocação do bêbado um “negócio da China”, passou a fazer dela o cavalo de batalha do seu “plano de metas”.

Ninguém contesta hoje que Brasília é uma cidade visceralmente corrupta - páreo duro para Sodoma, a urbe que, segundo relato bíblico, por excesso de corrupção foi destruída por bolas de fogo e enxofre enviadas pela vontade divina. Para construí-la Juscelino, sujeito totalmente irresponsável, imprimiu dinheiro sem fundo, pediu empréstimos em larga escala e estourou inúmeros orçamentos, fomentando gastos colossais que levaram o país à inflação galopante e, por extensão, boa parte da população pobre à miséria brutal.

Na nova capital, o próprio JK incrementou um regime de privilégios e negociatas que fez de Brasília símbolo da degradação nacional. Para povoar o serrado desértico, ele importou do Rio uma burocracia sedenta de benesses, mais tarde transformada em nomenclatura despótica, a produzir, em ritmo alucinante, tão somente - papel, discursos e impostos.

(Neste universo degradante, fechado sobre si mesmo e afastado do trabalho produtivo, a padrão da moralidade pública viu-se reduzido à zero. Basta observar: transpira no lugar uma atmosfera diuturna de subornos, propinas, traições, mentiras e conchavos os mais indecentes, capaz de atordoar o próprio Demônio. Por conseqüência, convive-se neste ambiente doentio com elevados índices de alcoolismo, dependência tóxica, loucura, suicídio, prostituição, adultério, cleptomania, ociosidade e, inevitavelmente, o apelo à prática da baixa magia - esta, consagrada pelo rito do sacrifício animal).

Em retrospecto, no ano de 1961, Jânio Quadros - um louco de pedra - tomou posse do governo em Brasília prometendo prender JK, mas, de porre permanente, terminou por condecorar o sanguinário “Che” Guevara e renunciar ao cargo com 7 meses de mandato.

Por sua vez, ainda em Brasília, feito presidente, o latifundiário Jango, parceirinho de comunistas históricos (”Com Goulart em Brasília, nós já estamos no poder” - Luiz Carlos Prestes à revista “Manchete”, em junho de 1963), ao tentar golpear a nação e transformá-la numa república “popular sindicalista”, levou-a aos estertores - o que obrigou a milicagem de plantão, na base do contragolpe, a tomar o mando político do país.

Com o Marechal Castelo Branco em Brasília, estancado o drama da subversão janguista, vieram as cassações e a pretensão de se manter o poder sem a legitimidade do voto, o agitprop da subversão comunista, o AI-5 de Costa e Silva, as guerrilhas terroristas de Marighella e Fidel Castro, o vigoroso governo Médici e a estupidez estatizante de Geisel, Golbery e Figueiredo - generais “simpatizantes da esquerda” que devolveram o poder à mesma corriola vermelha pré-64.

Já na transição para a sôfrega “Democracia Permissiva”, Zé Sarney, o Impostor, típica flor do lodo brasiliense, não só estuprou a nação com a hiperinflação de 3% ao dia, como ajudou, pela inépcia, a eleger Collor de Mello, o “Caçador de Marajás”.

Figura insensata e vã, Collor de Mello, de formação 100% brasiliense, foi deposto do poder por causa de um Fiat Elba, indício, para o PT (bons tempos, hein!), de “grossa corrupção”. Seu sucessor, Itamar Franco, o “Inocente Inútil”, além das tolices de praxe, apenas adubou o terreno para o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, marxista protetor de banqueiros e criador do Proer e outros bichos arrepiantes.

Por fim, este velho senhor, sempre lépido e falante, depois de oito anos de poder, passou a bola para Lula, o Messiânico, afinado instrumento do totalitarismo petista, cujo governo já contabiliza para mais de 3 mil escândalos, todos rigorosamente impunes, entre os quais o do mensalão - modelo seguido ipsis litteris por Zé Arruda, o governador delinqüente.

Para concluir, eis o que previ sobre o “futuro de Brasília”, conforme solicitado por um editor de jornal do Rio, ainda a ser publicado (ou não): “Nada indica que Brasília mude de rota ou padrão ao completar meio século de existência. Pelo contrário.

A perspectiva inelutável, nas próximas décadas, com gente da estatura de Dilma Roussef e congêneres no comando, é que a cidade se torne ainda mais sinistra, totalitária e deletéria, fazendo do resto do país refém de sua infinita miséria moral, política e ideológica, como bem evidencia o Programa Nacional de Direitos Humanos - o famigerado PNDH3 - assinado por Lula”.

PS - Alguns “formadores de opinião” têm por hábito tratar Brasília, ironicamente, como a “Ilha da Fantasia”. Nada mais irreal. Ali ninguém sonha com nada, tudo é muito concreto, na base do toma lá da cá. O mero voto aliado é trocado por rios de dinheiro e sua nomenclatura está sempre ávida por novos tetos salariais, isonomias e privilégios mesquinhos. Não é em vão que, sem produzir nenhuma riqueza socialmente útil, detenha há anos a maior renda per capita do país - em 2008 quase o triplo da renda nacional: R$ 37, 700 mil.

HORRIBLE DICTU

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

A Preguiça e sua filha a Ignorância estariam por trás de tudo isso, sintetizou avant la lettre Arthur Schoppenhauer (1788-1860) ao refletir sobre a arte de escrever; ambas teriam escorraçado a precisão, a clareza e a paciência e desde então todos passaram a fumar charuto e falar sobre política.

De fato, a confusão é geral, diria um outro grande alquimista da alta literatura, ou seja, da literatura feita de pensamento e estilo. No caso do filósofo alemão, seu pensamento chocou-se com o espírito pequeno-burguês representado pela literatura mundana que deu notoriedade à sua mãe, Johanna Schoppenhauer, autora de algum sucesso, cujo salão em Munique era frequentado por celebridades, como o próprio Goethe.

Essa espécie de literatura, criticada por Schoppenhauer, despreza a concisão que consiste em dizer apenas o que é digno de ser dito com a justa distinção e no estilo mais apropriado, de modo claro e direto. Quis dizer-nos, assim, que a verdade fica mais bonita quanto mais nua e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão. Usar muitas palavras, para comunicar escassos pensamentos, parecerá sempre a Schoppenhauer, o sinal inconfundível da mediocridade.

Escritor para escritores, é notável sua influência sobre outros grandes escritores, entre os quais, Nietzsche, Thomas Mann, Borges… Proust terá se inspirado nele ao escrever sobre um determinado autor, reproduzindo-lhe o estilo e a maneira de escrever, como o faz admiravelmente ao referir-se à obra do duque de Saint-Simon e de outros clássicos franceses que admirava. Engenhoso artifício metalinguístico que oferece ao leitor a oportunidade de ler Saint-Simon, por exemplo, ao ler o que Proust escreve a seu respeito…

Como um desses raros escritores que escrevem em plena consciência, o filósofo do mundo como vontade e representação descarta o superficial e o insípido, pois sabe que honra e proveito não cabem no bolso. Por isso, ao refletir sobre certos pressupostos kantianos, dedica-se ao deleite de pensar sem condescendência. Aliás, o prazer e a felicidade de sua existência consistiam exatamente em pensar.

Ao deter-se sobre a grande quantidade de escritores ruins que vive exclusivamente da abstenção de leitores que não pensam e do público que não quer nada além do que foi produzido no estilo displicente dos escritores assalariados e não como o arquiteto constrói, levando em consideração os detalhes, sem frivolidade nem desleixo.

Diz-nos Schoppenhauer que um escritor autêntico é alguém rico em pensamentos. Como ele próprio, Schoppenhauer, que, escrevendo, combinou critério e intenção ao falar diretamente ao leitor, sem subterfúgios retóricos ou subjetivos; enfim, como gente deste mundo.

Há três tipos de escritores, segundo a classificação schoppenhaueriana:

1) os que escrevem sem pensar, a partir da memória e de livros alheios;

2) os que pensam enquanto escrevem; e

3) os que pensam antes de escrever. Estes são raríssimos e, entre os quais, conta-se o próprio Arthur Schoppenhauer, que viu na solidão a sorte de todos os espíritos excepcionais.

Schoppenhauer viu a imprensa como um porta-voz de longo alcance contra a invencível e onipresente velhacaria, porém condenou o que chamou de “escritores de jornal”, responsabilizando-os pela deterioração da língua, que é em si uma obra de arte e deve ser considerada como tal, especialmente por aqueles que se dedicam a escrever. Seriam eles, a seu ver, os dilapidadores das palavras, meros fabricantes de livros. Uma gente que costuma empregar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos. E que, por escreverem automaticamente, por dever de oficio, acabam cometendo excessos que aborrecem a paciência do leitor, dando-nos a impressão de saber o que não sabem, de pensar o que não pensam e de dizer o que não dizem.

Eis aqui uma amostra do pen-samento de Schoppenhauer:

.A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.

.A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças do que nos nossos bolsos.

.As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.

.Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia.


A música em Proust
A sonata clássica, segundo Otto Károlyi (in “Introdução à Música”), estrutura-se basicamente como exposição de motivo, desenvolvimento e recapitulação, processo apropriado literariamente por Marcel Proust, em sua obra polifônica – “Em busca do tempo perdido”. Para Thomas Mann, escritor dotado de uma grande sensibilidade musical, a polifonia manifesta-se apenas como algo vago e generalizado.

É sabido que a pintura e a música lhe davam muito alegria, sobre as quais discorre ao longo da sua caudalosa obra que rompe com os limites do gênero. Segundo Proust, se o romancista tem muito a aprender com o pintor, deve também se instruir junto ao músico.

Vinteuil, obscuro e genial compositor provinciano construído segundo a inspiração impressionista que Proust admira e transfigura, irradia ao longo da ópera magna proustiana essa lição exemplar, haurida no conhecimento profundo de Cesar Franck e de Debussy e no exercicio experimental da liberdade que os caracteriza como criadores, magistralmente demonstrada pelo escritor sob a forma de uma “pequena frase” musical ou leitmotiv.

Nele (Proust), como na sonata clássica, a exposição é repetida com variações técnicas e emocionais que desenvolvem e ampliam os conflitos num cenário recorrente, autotransformante, onde os personagens readquirem o seu equilíbrio, mas, em função da vivência acumulada ao longo de uma vida, sofrem sutis mutações que enriquecem substancialmente o conhecimento do leitor.

Como um virtuose da composição musical, Marcel Proust usa em seu romance-rio o recurso tonal da modulação, fugindo assim da monotonia de um relato linear, contrário à ideia da memória involuntária.

QUEM É FILÓSOFO E QUEM NÃO É

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Por Olavo de Carvalho,
pensador brasileiro

À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a autoeducação, que é, no fim das contas, a única educação que existe.

Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak, o Seminário de Filosofia Online e outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia filosófica essencial. É pedido impossível.

O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada.

Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.

A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.

A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega-se ao domínio da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as ideias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento.

É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

Com o Padre Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

1. Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles.

2. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.

3. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom.

4. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.

É assim que se faz, é assim que se estuda filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.

ANA MARIA MACHADO E A CIDADANIA

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010


Por Franklin Jorge

De título um tanto prosaico e pouco atraente, “Balaio” sintetiza e exprime o espírito humanístico que norteia as reflexões de sua autora, Ana Maria Machado, sobre livros e leituras. Professora emérita, escritora e jornalista, ela integra o panteão da Academia Brasileira de Letras e se distingue, especialmente, por seus ensaios e pela difusão do gosto pela leitura entre os jovens; ensaios construídos a partir de uma prosa que se impõe por sua substantividade, através da qual empenha-se na construção da cidadania.

Encantada com as possibilidades criativas da linguagem, Ana Maria Machado reúne na obra em questão ensaios, reflexões, entrevista, críticas e, coroando tudo isso, o seu discurso de posse na ABL – mais que um mero discurso protocolar, a síntese mesma de sua experiência intelectual e do seu compromisso com a cultura e a crítica da cultura, a literatura, a educação de jovens brasileiros e a afirmação da própria nacionalidade, que se faz, como bem o disse Monteiro Lobato, com homens e livros. Uma mestra, portanto.

Ana Maria Machado socializa generosamente, nessa obra repleta de ideias e sugestões, todo o arsenal adquirido em anos de convívio com os livros que, para a sua autora, são mais que objetos inanimados, tal a vivacidade do seu pensamento crítico e a propriedade de um estilo a serviço duma cultura dinâmica e multifacetada.

Em “A Hora da Escrita”, capítulo de abertura, constituído por três curtos ensaios sobre a essência mesma da escritura em abordagem, por assim dizer, transparente, de recursos e segredos de ofício a que ela chama modestamente de “dicas”, experimentados por si e por outros autores de diversas nacionalidades, como Hemingway, Faulkner, Virginia Woolf, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Chico Buarque, Garcia Márquez, entre outros.

Não citarei a sequência de capítulos que recheiam esse balaio tecido de ideias, de leitura obrigatória não apenas para escritores, mas para todos aqueles que almejam vir a sê-lo, sem desperdício de tempo. Contudo, não posso deixar de referir “Crescendo com os Livros”, constituído por cinco ensaios e uma esclarecedora e instigante entrevista inédita com a escritora Deborah Ellis, que reiteram a cultura e o estilo da autora, expressos em lições hauridas no curso de uma existência digna e laboriosa.

Conhecida sobretudo por seus livros para o público infanto-juvenil, surpreende em Ana Maria Machado a lucidez com que percebe e interpreta a realidade em textos analíticos e reflexivos que delatam o vigor de sua inteligência privilegiada. Sua carta aberta ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, em defesa dos direitos do autor, chama a nossa atenção para a condição subalterna do trabalho intelectual ao desnudar com terrível elegância a alienação e a má fé de sua excelência, por acaso também um artista, mas empenhado, em má hora, no rebaixamento dos escritores. Ela nos mostra assim que, além de saber escrever, também sabe perfeitamente o que se passa à sua volta, inclusive no âmbito da política.

DE MAL A PIOR

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Carvalho deplora subsídio do Brasil a irrelevâncias

Carvalho deplora subsídio do Brasil a "irrelevâncias"


Por Franklin Jorge

Em conciso e pertinente ensaio sobre o paulatino e avassalador processo de pauperismo da cultura e da educação no Brasil, agravado agora pelo apetite bolivariano que começa a devorar alguns países sul-americanos, disse o filósofo Olavo de Carvalho que isto decorre não da falta de dinheiro, mas da instrumentalização da cultura e da educação, que se expressa através da diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Olavo questiona o mau uso dos recursos, inclusive do ponto de vista ideológico, ao ressaltar que ao governo interessa sobretudo financiar, neste momento, a escola da dissensão e o ensurdecimento do conflito de classes em todos os seus níveis e aspectos, para criar entre nós as condições favoráveis à implementação de doutrinas restritivas e discricionárias tão ao gosto da “ditadura do proletariado”.

Como todo bom professor, faz uso do método comparativo para aprofundar e esclarecer os fatos, e, confrontando o passado e o presente, nos dá uma síntese do nível da produção cultural, no Brasil, nos últimos 50 anos. Olavo consulta a própria memória – a memória da nossa geração – e indaga:

(…) a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem?

E, acrescenta, desfazendo qualquer dúvida que tenhamos porventura:

Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior (…), Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld. (…) O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo.

E agora, temos o quê, pergunta-se e pergunta-nos o arguto filósofo.

Agora – não contenho o impulso de responder-lhe - é tudo uma miséria só: Moacir Scliar, Zuenir Ventura, José Castelo, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Milton Hatoum, Jô Soares, Eduardo Bueno e, como exemplo cabal desse empobrecimento da cultura de ideias, entre nós, o Paulo Coelho. São as “bolas da vez”, enquanto as competências se retiram do cenário confuso.

Resumindo, hoje, para Olavo,

“cultura” é rap, funk e camisinhas; “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou — caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays — para a invasão de fazendas; “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial; e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Impossível não assinar embaixo dessas palavras, se nos detemos no âmbito local e provinciano.

Em um tempo relativamente recente, escreviam e publicavam entre nós, nomes tutelares do humanismo, como Edgar Barbosa, o maior estilista que o Ceará-Mirim já teve; Berilo Wanderley, Nilo Pereira, Manoel Rodrigues de Melo, Myriam Coeli, Eulicio Farias de Lacerda, Jayme Hipólito Dantas, Newton Navarro, Francisco Amorim, José Bezerra Gomes, Zila Mamede, Augusto Severo Neto, José Melquíades, Nilson Patriota, João Lins Caldas, Maria Eugenia Maceira Montenegro, Luis da Câmara Cascudo… Enobrecidos pela obra, cada página que escreviam pressupunha paciência, observação, reflexão, rascunhos; enfim, milhares de horas devotadas à solidão e ao silêncio.

Agora, todos nos faltam…

Stella: leveza condimentada

Stella: leveza condimentada


A nova crônica de Natal

Stella Galvão escreve a comédia natalense. Em suas crônicas exemplares, dissemina-se o riso irreverente e iconoclasta, a ironia, o sarcasmo e todos aqueles temperos que faltam à nossa literatura – uma literatura que só ri das facécias.

Há pouco ela lançou um pequeno volume, “Calos e Afetos”, em edição particular em parte patrocinada por um seu leitor que a tem acompanhado em jornal e na internet. Ninguém se engane: apesar da publicação modesta e graficamente pouco atraente, apesar do formato funcional do artefato gráfico, aí está um dos mais vívidos retratos de Natal, ou melhor, uma sucessão de retratos e flagrantes concisos e de uma fluidez admirável.

Leitora de Dostoievski, Stella Galvão cultiva, no entanto, uma notável leveza de estilo que leva o leitor ao prazer. Juntamente com Rodrigo Levino, escreve Stella, atualmente, o melhor da nossa crônica. Uma crônica sagaz e ferina que, como salientou Adriano de Sousa em sua apresentação, não se enquadra no espírito da literatura praticada por nossas escritoras.

IMPRENSA MEDÍOCRE AMPUTOU A CRÍTICA

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

[Entrevista – final] FERREIRA GULLAR

Para Gullar, arte contemporânea se confunde com falso populismo

Para Gullar, arte contemporânea se confunde com falso populismo

Por Liege M. Gonzalez,
do site Dasartes.com

O neoconcretismo propunha obras orgânicas, que ganhavam vida com a participação do público, como os parangolés de Hélio Oiticica ou os bichos de Lygia Clark. Hoje, em virtude de seu valor histórico e financeiro, as obras em exposição não podem ser manipuladas. O Sr. acha que elas perderam sua organicidade?
Não, tradicionalmente nunca se permitiu tocar nas obras de arte. A ideia é inviável, o manuseio destrói as peças, por isso os museus fazem imitações para que as pessoas toquem. Eu mesmo tive um bicho da Lygia que quebrou porque meus filhos, quando garotos, usavam como brinquedo. A ideia de participar das obras nasceu do livro-poema que eu fiz. Para resolver alguns problemas da minha poesia, criei um livro que era o poema, uma coisa só, um poema que precisava ser tocado, manuseado (publicado pela primeira vez em Experiência Neoconcreta: Momento Limite da Arte, Cosac Naify, 2008). Depois, isso passou para as atividades da Lygia, do Hélio e eu também passei a fazer mais poemas para se participar.

Como o poema enterrado?
Sim, eu criei este poema em que a pessoa entrava dentro. Era enterrado porque era subterrâneo, em uma sala três metros abaixo do solo. A pessoa descia uma escada e entrava nesta sala, onde estava o poema. O Hélio Oiticica gostou da ideia e convenceu o pai dele a fazer o poema no quintal da casa que ele estava construindo. Quando ficou pronto, fomos todos lá inaugurar: Mário Pedrosa, Lygia Clark, Theon Spanudis, Amilcar de Castro, todo mundo. E quando abrimos a porta do poema, estava tudo inundado, os cubos do poema estavam boiando. Tinha chovido três dias sem parar e, como o poema ficava em um pé de montanha, virou caixa d’água. Há pouco tempo, ouvi dizer que a família do Hélio reconstruiu o poema e dizem que é uma obra dele. Não me comunicaram, isto foi o que ouvi dizer.

Alguns herdeiros, como os de Lygia Clark, adotam uma política de direitos autorais que dificulta ou impossibilita a reprodução de imagens das obras. O Sr. não acha que esta posição é contraditória à ideia de participação do público?
Essa lei de direito autoral está equivocada. Imagine que o Instituto Moreira Salles está sendo processado porque a família de Volpi queria cobrar R$ 150 mil para permitir expor as obras que não são deles, são dos colecionadores. E cobrou também pelas imagens, então o catálogo não tem imagem nenhuma. É uma confusão. E o pior é que você é dono do trabalho do Volpi, mas não é dono da imagem do trabalho. Como eu posso comprar o quadro sem comprar a imagem dele? Isto não existe. Entendo que não se possa reproduzir uma obra fielmente, como a fotografia, por exemplo, que é a própria obra: se for publicar, o autor deve receber, tudo bem. O mesmo para uma gravura, se for imprimir uma cópia. Mas se o óleo sobre tela do Volpi tem 80 x 50 cm e eu vou reproduzir uma foto de 4 x 3 cm no jornal, eu tenho que pagar? Eu mesmo tenho o caso do meu livro Relâmpagos (Cosac Naify, 2008), que são textos ligados a obras de arte. A única obra que não foi reproduzida é exatamente a do bicho da Lygia, que era minha amiga! Acaba acontecendo o que aconteceu com Drummond, cujo neto cobrava fortunas para deixar citar qualquer verso. Aos poucos, todo mundo passou a evitar usar Drummond na TV e no cinema. O neto percebeu isso e mudou, senão o artista acaba ficando esquecido.

O Sr. disse que a crítica literária acabou (em entrevista ao suplemento literário do Diário Oficial de Pernambuco, em 1996). E a crítica de arte?
Também acabou. Nos anos 1950 até 1970, todo jornal tinha uma coluna de arte, era quase diária. Depois, passou a ser semanal. Hoje, existem alguns críticos que escrevem raramente, porque não há muito espaço. A imprensa acabou com ele por uma visão medíocre, de subestimar as coisas culturais. Basta ver o Lula, o Presidente da República, que não sabe nem ler, aí você vê o nível a que chegamos.

O Sr. não faz mais crítica de arte por falta de espaço?
Eu faço crítica, sou crítico de arte, mas algumas coisas eu ignoro. O cara vai lá fazer larva de mosca, e eu com isso? Não entendo deste assunto, não posso escrever “esta larva está muito boa, está ótima”. Isto não é assunto de arte, é assunto para biólogo. Vinte ovos fritos cada um num prato expostos numa galeria. Eu não tenho nada a ver com isso, isso é uma bobagem, algo que foi inventado gratuitamente. O cara não precisa saber pintar, desenhar, esculpir, nem pensar nada, só precisa ter uma boa ideia. Chamo isto de Caninha 51 [risos]. Encontrei uma moça que estava indignada porque o museu estava mostrando uma obra que era cópia da dela. Eu perguntei qual era a obra e ela respondeu: “são séries de cordas com nós, fui eu que inventei”. Ah, você que inventou o nó na corda? [Risos]. Lá no Maranhão, os barqueiros usam muito sua técnica, não sabia que você tinha inventado. Realmente é piada, não é?

Talvez faça parte da liberdade de formalismo que guia a arte contemporânea.
Não, isto é uma besteirada, um falso populismo, falsa democracia. É proibido proibir? Não é. Tem que proibir, a civilização existe porque há proibições, senão vou lá cagar na tua sala. É tudo hipocrisia. Lembro de um cara liberal pra caramba que, quando soube que a filha dele estava transando com o namorado, queria matar a mulher [risos]. Lá em Buenos Aires, ele falava “porque o sexo é livre” etc. Livre para comer a filha dos outros! É uma grande hipocrisia. Os críticos defendem o ovo frito e outras coisas porque eles têm medo que digam que são retrógrados e ultrapassados. Por isso, cria-se esta patotinha de artistas que são tão agradados, enquanto tem pintores maravilhosos que ninguém conhece. Eu conheço um ótimo gravurista que, depois de tentar, tentar e não conseguir expor, começou a juntar pedra no sítio do pai e expor pedra, e aí começou a ganhar dinheiro.

Por isso, a última Bienal de São Paulo não tinha nenhuma pintura?
A melhor Bienal que já houve foi essa, que reconheceu que não há nada a expor na boa arte. Se a Bienal de Arte Contemporânea está vazia, é isso mesmo. Só que a história não dura apenas cinco décadas. Muitas das coisas tidas como sendo de qualidade há um século atrás hoje desapareceram. Quem carrega as coisas é o povo, e o que não fala às pessoas pode estar na moda hoje, mas, daqui a cinquenta anos, desaparece.

QUEBRAR REGRAS EXIGE CONHECIMENTO

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

[Entrevista – parte 1] FERREIRA GULLAR

Por Liege M. Gonzalez,
do site Dasartes.com

Ferreira Gullar é maranhense de nascença, mas adotou o Rio de Janeiro como sua cidade. Foi mão ativa no movimento concreto e autor do Manifesto Neoconcreto, publicado no Jornal do Brasil em 1959, no qual um grupo de artistas como Lygia Clark, Amilcar de Castro e Franz Weissman oficializava sua liberação dos dogmas do concretismo.

Polivalente, Gullar já escreveu crônicas, contos, memórias, peças de teatro, auxiliou em roteiros para TV e é autor de uma biografia de Nise da Silveira, pioneira da arte-terapia. Sua obra extensa e valiosa levou-o a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002. O poeta segue ativo como crítico de arte e literatura e nunca perde a oportunidade de lançar nova polêmica, como mostra a entrevista feita em sua casa em Copacabana.

*******

A exposição na Realidade Galeria é sua primeira exposição como pintor?
Não é uma exposição, é o lançamento de um álbum de serigrafias, feitas a partir de telas minhas. Nunca farei uma exposição de pintura porque eu não sou pintor profissional.

Existe influência de Morandi nas pinturas originais?
Nada [risos]… Vamos esclarecer as coisas: Morandi é um pintor que mostra sombra, volume, o ambiente. Eu comecei desenhando estes trabalhos com caneta Bic a partir de Morandi, mas isto foi há vinte, trinta anos atrás. Depois, fui modificando. Por exemplo, eliminei o pé da taça, ficou só um triângulo, só elementos geometrizados, sem profundidade. Sobre os triângulos, já disseram até que eram inspirados em Volpi, mas não tem nada de Volpi, eles são mestres da pintura, coisa que não sou nem aspiro ser. Pinto só por hobby, para me distrair.

Sobre a porta de entrada, tem também um Mondrian.
Certa época, eu tive vontade de copiar alguns quadros pelos quais eu tinha uma predileção especial. Copiei este Mondrian, tem também um Léger (mostra reprodução de Mulher com Vaso (1927), de Fernand Léger), e já tive de vários outros, embora não sejam do tamanho original. Uma moça certa vez disse: “Você é louco, botar um Mondrian do lado de fora da porta” [risos]. Louco é quem pensa que eu vou colocar um Mondrian na porta. Faço apenas como hobby.

Por que um poeta se torna pintor?
Quando eu era garoto, a primeira coisa que me interessou não foi a poesia, foi a pintura. Eu tinha 10 anos e já queria pintar, peguei um saco de pano, botei num chassi e fui pintar em cima. Como o pano não estava preparado, ficou um borrão só [risos]. Depois, comprei uma tela e pintei um quadrinho, que minha mãe guardou.

Sua biografia diz que, quando descobriu a vocação para escritor, o Sr. passou dois anos lendo só gramáticas. Obstinação ou perfeccionismo?
Não, nada disso, eu era garoto e fiz uma redação para a escola e a professora achou muito bem feita, mas não deu nota máxima porque tinha dois erros de português. Eu tinha 13 anos, achei que poderia ser escritor, mas para isto eu não podia errar gramática, então comecei a ler gramática. Não era mania, talvez eu fosse um pouco exagerado, mas se você vai desenvolver uma atividade em qualquer terreno, seja um metalúrgico ou eletricista, você tem que conhecer o instrumento de trabalho, as regras. Você pode até quebrá-las ou mudá-las depois, mas tem que conhecer. Quem dera que os artistas de hoje resolvessem aprender direito seu ofício em vez de ficar fazendo besteira.

Certa vez, o senhor foi demitido por ter se recusado a abrir mão de convicções políticas. Nos dias de hoje, é mais difícil manter a crença na política?
Na verdade, fui demitido por me recusar a mentir. Eu tinha 20 anos de idade, em São Luís, e não me metia em política, mas houve um comício da campanha para eleição para Presidente e a polícia interveio e matou uma manifestante. Eu vi por acaso, estava passando a caminho do trabalho, vi a confusão e quis saber o que estava acontecendo. No dia seguinte, quando cheguei à rádio onde trabalhava como locutor, tinha uma nota do governador dizendo que os comunistas tinham matado um operário. Eu me recusei a ler a nota no ar. Meu chefe disse que, se eu não lesse, seria demitido, e assim foi. Sobre manter a crença, continuo envolvido com a política, claro, sou um cidadão. Não faço mais poesia política porque a época passou, acabou a ditadura, tudo aquilo que me motivava a fazer a poesia política esmaeceu. Mas continuo opinando nos jornais onde escrevo.

O Sr. foi um dos precursores do movimento concreto, mas, mais tarde, assinou, junto com Lygia Clark, Amilcar de Castro e outros, o Manifesto Neoconcreto. Como se deu esta ruptura?
Eu cheguei ao Rio em 1951 e me tornei amigo do Mário Pedrosa, que era quem difundia as ideias do concretismo. Depois, em São Paulo, surgiu um outro grupo neoconcreto liderado pelo Valdemar Cordeiro. O movimento de poesia concreta começou em 1955, 56, adotando o pessoal de São Paulo, e eu participei deste início. Mas as ideias começaram a divergir; eles propunham que se fizesse poesia de acordo com regras e equações matemáticas, muitas bobagens. E, quando eles decidiram publicar o documento que oficializava isto, eu não pude assinar embaixo, e deu-se o rompimento. Na verdade, as diferenças eram mais profundas do que esse simples incidente. O grupo dos artistas e poetas do Rio desenvolveu um caminho que é o oposto deste do pessoal de São Paulo, e daí nasceu o movimento neoconcreto; não como uma teoria nova, mas do trabalho que vinha sendo feito. O movimento neoconcreto tornou-se um movimento autônomo, um movimento brasileiro, enquanto a arte concreta foi importada da Europa, uma repetição de coisas do passado.

[Continua no próximo post]

BRASIL: CULTURA E EDUCAÇÃO DE MAL A PIOR

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Por Olavo de Carvalho, filósofo e escritor

Em editorial do dia 25 último, a Folha de S.Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76° para o 88° lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa na verdade um progresso formidável. Não vou nem entrar na discussão. Entre a Unesco, o Ministério da Educação e o jornal do sr. Frias, não sei em quem confio menos. Mas confio nos testes internacionais em que os nossos alunos do curso médio tiram invariavelmente os últimos lugares entre concorrentes de três dezenas de países. Numa dessas ocasiões o então ministro da Educação buscou até consolar-se mediante a alegação sublime de que “poderia ter sido pior”. Claro: se ele próprio fizesse o teste, a banca teria de criar ad hoc um lugar abaixo do último. Seríamos hors concours no sentido descendente do termo.

Confio também na proporção matemática entre o número de profissionais da ciência em cada país e o de seus trabalhos científicos citados em outros trabalhos, tal como aparece no banco de dados da Scimago (v. o site do prof. Marcelo Hermes). Aí vê-se que, em número de citações — medida da sua importância para a ciência mundial –, os cientistas brasileiros vêm caindo de posto com a mesma velocidade com que, forçada pelo CNPq e pela Capes, aumenta de ano para ano a sua produção de trabalhos escritos. Ou seja: quanto mais escrevem, menos utilidade o que escrevem tem para o progresso da ciência. Em medicina, passamos do 24° lugar, em 1997, para o 36° em 2008. Em bioquímica e genética, no mesmo período, do 19° para o 36°. Em biologia e agricultura, do 18° para o 32°. Em química, do 15° para o 28°. Em física e astronomia, do 18° para o 29°. Em matemática, do 13° para o 28°. Não houve um só setor em que os nossos cientistas não escrevessem cada vez mais coisas com cada vez menos conteúdo aproveitável para os outros cientistas. Em doses crescentes, o que se entende por ciência no Brasil vai-se tornando puro fingimento burocrático, pago com dinheiro público em doses também crescentes. Segundo o prof. Hermes, a coisa começou em 2003, mas piorou muito (ele grafa “muito” com letras maiúsculas) entre 2005 e 2008.

No entanto, de 1999 a 2009 “houve um aumento de 133 por cento no número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. O investimento do ministério da Ciência e Tecnologia neste setor duplicou de 2000 a 2007. O investimento privado também aumentou nesse período”.

Obviamente, portanto, o que está faltando não é dinheiro. É o CNPq, a Capes e o governo em geral admitirem que há uma diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Se essa diferença parece obscura ou inexistente para os atuais senhores das verbas científicas no Brasil (bem como para a mídia que os bajula), fenômeno similar ocorre na educação primária e média, onde o governo dá cada vez menos educação a um número cada vez maior de alunos, democratizando a ignorância como jamais se viu neste mundo.

Mas, esperem aí, coisa parecida também não acontece no ramo editorial, onde a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem? Confio, quanto a esse ponto, na minha própria memória de leitor. Vejam bem. Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos, vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo. Tínhamos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nélson Rodrigues, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior, além dos importados Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld e tutti quanti. Que me perdoem as omissões, muitas e volumosas. O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo. Agora temos o quê? Fora os sobreviventes nonagenários e centenários, dos quais não se pode exigir que repitam as glórias do passado, é tudo uma miséria só, uma fraqueza, a obscuridade turva do pensamento, a paralisia covarde da imaginação e a impotência da linguagem. “Cultura”, hoje, é rap, funk e camisinhas, “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou — caso faltem aos pimpolhos as requeridas aptidões gays — para a invasão de fazendas, “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial, e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Será possível que todas essas quedas, paralelas no tempo e iguais em velocidade, tenham sido fenômenos autônomos, separados, casuais, sem conexão uns com os outros? Ou, ao contrário, compõem solidariamente, como efeitos de um mesmo processo causal geral, o quadro unitário da autodestruição da inteligência nacional?

E será mera coincidência que toda essa corrupção mental sem paralelo no mundo tenha sobrevindo ao Brasil justamente nas décadas em que a intromissão do governo na educação e na cultura veio crescendo até ao ponto de poder, hoje, assumir abertamente suas intenções dirigistas e controladoras sem que isto cause escândalo e revolta proporcionais ao tamanho do mal?

A resposta a essas duas perguntas é: Não, obviamente não. A História não se compõe de curiosas coincidências. A debacle da vida intelectual no Brasil é um processo geral, unitário, coerente e contínuo há várias décadas, e o fator que unifica as suas manifestações nos diversos campos chama-se: intromissão estatal, governo invasivo, controle oficial e transformação da cultura e da educação em instrumentos de propaganda, manipulação e corrupção.

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do seu presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for totalmente destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

A Segunda Conferência Nacional de Cultura e o Plano Nacional de Direitos Humanos não passam de conspirações criminosas destinadas a agravar consideravelmente esses males que já deveriam ter sido extirpados há muito tempo.

E EU QUE NUNCA LI J.D. SALINGER…

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Por André Giusti

 

Pois é, para você ver.

Vasculhando fichários empoeirados da mente, descobri que esse vácuo de minha vida de leitor pode ter a ver com a faculdade de Comunicação Social.

É que na década de 80, a exemplo do que já fazia há mais de trinta anos nos Estados Unidos, O apanhador no campo de centeio norteava as cabeças de uma penca de jovens no Brasil, ainda mais se fossem estudantes de comunicação, e principalmente dos que queriam ser jornalistas. Nos anos 80, alguns estudantes de jornalismo ainda pensavam em chegar às redações para mudar o mundo, derrubar governos. Serviço Público era somente o destino de conformados burocratas sem talento, e na faculdade nimguém achava que o curso serviria de trilha para se entrar no Big Brother, até porque, à época, nada existia de tão grotesco.

Lembro-me de um professor universitário dizer que a obra máxima de Salinger estava para os pretensos comunicólogos assim como O Pequeno Príncipe estava para as misses nos anos 50. E parecia mesmo. O livro morava nas bolsas de couro de um povo que se odiava por não ter vivido nos anos 70. Estava também na cabeceira de tipos convictos de serem intelectuais de uma resistência que só existia na cabeça deles.

Olhando para trás, no tempo, chego à conclusão de que foi isso que me privou de Salinger. E como parte de minha responsabilidade, a irresistível tendência em ser do contra.

Na verdade, é bem normal que ao longo da vida não consigamos ler todos os mais importantes livros da história. O problema é que quando um grande autor morre, fica um sentimento de culpa, um complexo de ser desconectado se nada dele conhecemos.

Bem tarde devorei Cem anos de Solidão, em êxtase.

Bem mais tarde do que deveria, parei de fumar.

Semana passada, em O Globo, o colunista José Castello disse que até hoje Salinger lhe provoca assombro.

Pois sempre é tempo de se assombrar.

E de ser rebelde.

 

PARA QUÊ SERVE A ARTE CONTEMPORÂNEA?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Por Luís Soares

O título contém já uma falácia. A arte não tem de obrigatoriamente de servir para nada. Ou tem? Partamos do princípio que sim, que tem de ter alguma utilidade, mesmo que seja do universo mais íntimo e pessoal e nunca chegue a ser vista por mais do que meia dúzia ou, no limite, uma pessoa apenas. Este é um post muito pessoal, com uma opinião muito pessoal.

Noutro dia, em conversa ao almoço, ouvi sobre a arte contemporânea uma frase que não ouvia há muito tempo: “até eu fazia aquilo”. Apercebi-me, após três livros escritos com muito suor que é no verbo fazer que está a diferença. A arte não está nos museus e nas galerias, nas livrarias e nas salas de cinema e de concerto, não está nas paredes e nunca, nunca está acabada. A arte é um verbo, como o amor (já lá diziam os Massive Attack), é uma acção, é uma palavra de “fazer” e não de “estar”. Por isso é que nem toda a gente é artista.Pode ser-se artista por ter talento indizível, por se querer ganhar dinheiro, por se trabalhar sem dormir, por se ser psicologicamente instável, por intuição ou racionalidade puras, por raiva, por amor, por tristeza ou imensa alegria, mas nunca se pode ser artista parado. Um artista é alguém que faz. É alguém que age sobre um motivo, seja ela a beleza ou o nojo, a morte ou uma lata de sopa de tomate. E ao fazer, mesmo que nunca fosse essa a sua intenção, interroga. A si próprio, aos que o rodeiam ou ao passado, a toda a sociedade ou apenas a uma restrita plateia.
É claro que nem toda a arte nasce igual, porque por muito que quiséssemos, nem todos colocamos as mesmas perguntas da mesma maneira, com a mesma acuidade; uns serão recordados para sempre, outros cairão no esquecimento, alguns poderão ser redescobertos passados duzentos anos, a maior parte será apenas mais uma pincelada no espírito do tempo.

Todo este preâmbulo para ter uma opinião. A arte contemporânea está em grande parte mercantilizada e industrializada. No princípio do século passado, Duchamp demonstrou que bastava mudar o urinol de sítio e posição para ele nos interrogar como, digamos, um quadro. Não é por grandes obras serem produzidas por génios desplicentes que acabam a ganhar fortunas que devemos, numa espécie de snobeira invertida, desprezá-los. Apenas os critérios mudaram e a arte deixou de ser, dominantemente, a arte do “belo”.

Hoje, a arte, como grande parte da actividade humana, é a procura de limites, interiores e exteriores, visuais e materiais, de tempo e espaço, usando como plasticina todas as tecnologias ao dispor do artista, do clássico escopro ou pincel a robots no limite da consciência, a instalações vídeo, camas com lençóis sujos ou… quadrados pretos sobre fundo preto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Luis Soares é escritor e colabora com o obvious. Mais informações e textos deste autor no seu blog pessoal: blog.luis.soares

WALMIR AYALA

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Por Franklin Jorge

Pertence Walmir Ayala àquela rara e singular linhagem de escritores que são também artífices e estilistas.

Agraciado por múltiplos talentos, dominando com mestria todas as formas da escritura, cultuou todos os gêneros com inesgotável energia e discernimento, sendo, neste aspecto, da mesma família espiritual e literária de um Oscar Wilde, porém mais complexo e beneficiado pelo que Marcel Proust chamou de “o conhecimento posterior”.

Seu memorável surgimento, em fins dos anos 50, ainda muito jovem e dominado pelo entusiasmo que caracteriza o talento, constitui um grande acontecimento ou um fato estético que se consolidou em seguida, com trabalho e persistência, numa obra personalíssima interrompida apenas pela morte, que nos sonegou ao convívio e às letras nacionais, num só golpe, o poeta lírico, o romancista, o diarista, o dramaturgo – no seu caso, seria mais adequado recorrer ao antigo termo de “poeta dramático” –, o critico, o ensaísta, o cronista, o agitador cultural e, sobretudo, o criador lúcido e generoso que se irradiou sem cessar, no curso dos anos, como uma sombra benfazeja e magnânima sobre a cultura da sua época e do nosso tempo.

Exorbitando-se de si mesmo, como uma força da natureza, Walmir expandiu-se com o século. Não surpreende que tenha se feito admirar por todas as gerações, sagrando-se, no apogeu da sua estrela cambiante e bela, uma espécie de “príncipe das letras” e “rei do Rio”, cidade que encarnou em seu cosmopolitismo.

Sua vida, intensa e fecunda, terá sido feita mais de trabalhos que de dias. Assim viveu, sabendo que um dos deveres do intelectual cônscio do que cria consiste em ir sempre mais além.

Neste aspecto, sua obra é um exemplo acabado e perfeito, da inquietação que o avassalava e, do ponto de vista fenomenológico e estético, um modelo para os mestres.

Como critico, ou seja, como leitor da criação artística, deu autonomia a um gênero antes associado ao registro jornalístico, fazendo-se, entre nós, uma referencia e a um tempo corroborando o que antes dele dissera o Prêmio Nobel inglês T. S. Eliot, “o melhor critico é o poeta”.

Walmir Ayala ocupa um lugar distinto na poesia contemporânea, o que num certo sentido faz dele um poeta obscuro, não acessível a leitores desprevenidos daquela espécie de refinamento que prodiga a alta cultura.

Não se trata, porém, de um poeta esotérico, incompreensível, pois apesar de sua requintada arte poética, manteve-se, como ser humano, sintonizado com a realidade circundante, interagindo, fazendo-se assim um dos mais carismáticos intérpretes da vida e, como tal, sensível em alto grau aos fenômenos sociais que traduziu em voltagem lírica, num tom viril, ao transfigurar em um mundo novo de sugestões os acontecimentos do dia a dia.

Em sua abundante colheita, capaz de desnortear a critica pela variedade de seus dons, inscreveu o seu nome de maneira indelével como um dos escritores mais representativos da nossa língua, que ele enriqueceu substancialmente, através da elaboração de uma obra carismática que desperta nos leitores uma amizade duradoura e fecunda.

Não sei se caberia registrar aqui, a titulo de curiosidade, a maneira pela qual o descobri, ainda muito moço, através de um conto seu publicado numa revista que deu um novo direcionamento ao jornalismo brasileiro. Circulando uma vez por mês, a “Realidade” trazia em cada número um conto ou fragmento da obra de um grande escritor, entre os quais Borges, Faulkner, George Orwell, Curzio Malaparte, e, naturalmente, o nosso Walmir Ayala, que a minha avó leu em voz alta para mim e que me despertou, ao ouvir as aventuras do Coelhinho Miraflores, um desejo insubornável de conhecer o seu autor que me encantara com a magia ilusionista da sua arte literária.

Alguns anos depois, creio que entre os meus 19 e 20 anos, fui encontrá-lo no Rio, morando em Ipanema, à Rua Barão da Torre, onde o visitei uma tarde. Permitam-me transcrever um fragmento de “Os Diários do Rio”, em cujas páginas consignei esse encontro memorável:

A primeira vez em que estive em sua casa, em Ipanema, um elegante apartamento à Rua Barão da Torre, Walmir Ayala estava sentado numa cadeira de espaldar alto, como um mandarim, vestindo um suntuoso roupão de seda verde com dragões matizados de uma paleta de verdes e azuis debruados de riscas douradas. Uma mulata jovem e silenciosa massageava-lhe os pés, enquanto sobre seus joelhos, Gustavo, então um menino de quatro ou cinco anos, puxava-lhe a barba negra e bem cuidada
.

Era a quadra tumultuosa de sua relação com Adolfo, quando Walmir, no auge de seu prestígio e requestado por todos, reinava sobre as letras e as artes tendo como cetro o seu prodigioso talento. Ele teria pouco mais de quarenta anos, enquanto eu ainda mal completara vinte anos.

Walmir recebeu-me como se fôssemos velhos amigos, pedindo-me notícias do Ceará-Mirim e de Natal, cidade que o encantara por seu relevo geográfico e por sua estonteante luminosidade.

DEGRADAÇÃO

domingo, 24 de janeiro de 2010


Por Edgar Barbosa

A causa mais funesta da degradação de uma magistratura é a submissão passiva ou procurada aos galanteios da política e às instâncias palacianas.

Não se pede ao juiz que seja um anacoreta, uma vestal trancada em seu templo, um fetiche envolvido no véu fatal de Tanit.

Mas se exige que guarde nas relações pessoais com representantes dos outros poderes, na convivência com os políticos, no intercambio protocolar com o governo, a discrição e a sobriedade que são complementos da toga e sem as quais esta passará a ser uma túnica de Nessus, um labéu de irrisão e fraqueza.

A justiça sofre por toda a parte com a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia. Porque, como o apuízeiro amazônico, o regime enleia, parasita e constrange o cerne de todas as suas instituições e tenta, em sua agonia prolongada, não morrer sozinho.

Esta é, pois, a hora do sacrifício e da coragem, aquela vigésima quinta hora a que se referia, em livro recente, um escritor romeno.

Quem aceitou a missão da Justiça e não assinou com algum dos Mefistofeles que nos rodeiam, o pacto mortal, deve viver preparado para todas as decepções.

Não transigir, não renunciar.

E sim permanecer Juiz sem temer o espírito daquele grande déspota asiático que mandava arrancar a pele dos juízes fracos que, como tributários de um deus bárbaro, acendem velas nas escadarias dos palácios, entre genuflexões e louvores equívocos.

Fragmento do livro Imagens do Tempo.

EDGAR BARBOSA NO TEMPO

domingo, 24 de janeiro de 2010

Por Franklin Jorge

Escritor ático, conciso e denso, da plêiade de humanistas, escreveu Edgar Barbosa [1909-1976] uma página memorável sobre a longa impunidade que instiga os maus instintos do homem.

Está em Imagens do Tempo, reunião de crônicas e preciosos ensaios, há muito esgotado e pedindo reedição cuidadosa. Trata-se dum clássico moderno. Uma obra canônica.

“Para muito poucos ouvidos ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, ficava-se menos espantado dos quadros de corrução que revelam do que do cinismo com que essa corrução cantava as suas vitórias e se vangloriava de sua longa impunidade”, põe-se o fino estilista do Ceará-Mirim a escrever.

E prossegue:

“Pergunta-se ainda hoje se toda aquela ignomínia era possível em Roma, dentro do Senado e sob a indiferença do povo-rei. E os exemplos de varões da estirpe de Cincinato e Régulo? Onde homens como Catão o Antigo? Onde aquela jovem patrícia citada por Renan e cujo epitáfio dizia que fora bela, e que fiara o seu linho sem jamais sair de casa?

É o próprio Cícero quem responde: -

A severidade dos costumes foi, talvez, apanágio dos Camilos, dos Fabrícios, dos Curius, mas não está hoje em prática. Ainda mais quase se não lêem os livros que as recomendam, envelheceram e saíram da atualidade. Hoje em dia, os que pregam que se deve seguir penosamente o caminho direito para chegar à glória, são abandonados nas solidões das escolas…

Adverte-nos Edgar que essas palavras têm vinte séculos. Mas – acrescenta -, repetidas em nossa época, ainda se traduzem em todas as línguas, sobretudo entre os povos mais novos, que poderiam ao menos ter a escusa da inocência e da boa fé.

Vivendo em Natal, Edgar viu.

“Justamente a fraude, a corrução e o suborno se constituíram, em nosso tempo, as marcas predominantes nos crimes contra o patrimônio. O ladrão violento passou a ser figura de opereta. O cangaceiro brasileiro do tipo de Lampeão, o “bravi” da Sardenha e da Calábria, o “out-law” do oeste americano, são personagens que saíram do palco, postos para fora pelo “architectus fallaciarum”, o “scroc”, o chantagista, o marreteiro das cidades”.

“É nas metrópoles que agem esses bandidos risonhos, bem enfarpelados, sociáveis, que dominam vários idiomas e que assassinam brincando. O seu símbolo mais humanizado foi aquele Al Capone, cavalheiro distinto, de superior elegância, que, rei dos “gangsters”, morreu docemente, sem nenhum remorso”.

Edgar reitera, ao fim, o que Cícero clamava, há dois mil anos, pode se ter perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos.

Mas a corrução que ele verberou continua, impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.

AS RUÍNAS DO COLISEU

domingo, 24 de janeiro de 2010

Por Edgar Barbosa

Lê-se em Tácito que, mesmo depois das guerras sociais,a miséria e a depravação se exacerbaram em Roma.

Os cidadãos pobres vendiam o seu voto, o seu testemunho ou o seu punhal e as familias indigentes se apinhavam, como caranguejos, na lamacenta Suburra ou nos casebres que o Tibre afogava a cada inundação.

Essa plebe imunda e mal nascida era o caldo de cultura de onde começaram a sair, sob os Césares da decadência, os validos e favoritos de imperadores pervertidos.

A mania dos ricos era, naquele tempo, imitar os gregos, não nas suas virtudes mais homéricas, porém nos hábitos de moleza e volutuosidade. Por isso certo escritor, contemporâneo de Cícero, comparava os romanos aos bárbaros mercenários, tanto mais depravados quanto mais grego sabiam.

Todo o nobre romano que se prezava ia, realmente, acabar a sua educação na Grécia, no convivio dos filósofos e das escolas célebres de Atenas. Mas, se voltavam instruidos em literatura, eloquentes e desenvolvidos na arte do discurso, vinham muito mais conhecedores da parte prática da filosofia epicurista.

Estava em moda desprezar-se os deuses, negar-se a providência, fazer praça de uma espécie de existencialismo risonho e descuidado.

Os próprios mestres mais escutados e conhecidos recomendavam gozar o quanto possivel, para não seguir o exemplo da plebe que morria nos anfiteatros, que se inutilizava nas guerras, mais pelo prazer da morte do que pelo orgulho de servir à pátria.

Foi nesse estado que os germanos surpreenderam Roma no quinto século desta era, quando os palácios dos ricos, bem como a corte dos césares, eram pasto de aduladores, aventureiros e párias de toda procedência.

Eram os “clientes”, primeira safra mundial dos bajuladores, que enchiam o “atrium”, antes do romper do dia, para saber noticias do amigo e protetor, que só era isso enquanto rico e enquanto estava de cima.

A chusma invadia os aposentos mais íntimos, por vezes se arriscando aos golpes da vara do porteiro, a fim de chegar até ao dormitório do poderoso, que ainda se enroscava no torpor do sono.

E então, depois de assistir ao seu despertar, os desocupados iam esperar, lá fora, a primeira refeição do patrono, qual uma nuvem de moscas em torno de uma sobremesa abandonada.

Fragmento do livro Imagens do Tempo

DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS

sábado, 23 de janeiro de 2010

Do Site Sibila

Por Ronald Augusto

Xerxes, segundo Heródoto, chorou ao mirar seu inumerável exército porque considerou que de todos aqueles homens nenhum estaria vivo cem anos depois: assim, conclui Arthur Schopenhauer — de quem empresto a citação —, quem não choraria, diante da visão de um grosso catálogo de feira de livro (ou de coisa similar), ao pensar que de todos esses livros nenhum estará vivo em menos de dez anos.

Acho que, além da idéia espirituosa do filósofo alemão, é o caso de recuperar para essa discussão acerca das relações entre cânone e premiações, cânone e mercado, o comentário poundiano a propósito dos diluidores e beletristas.

Para o autor dos Cantos, eles não existem, o ambiente (literário) é que lhes confere uma existência - ainda que como fantasmagoria.

Parece-me que o mercado livreiro-editorial, por meio inclusive da instituição de certames literários, almeja canonizar e/ou laurear menos esta ou aquela celebridade literária em particular do que um modo de escrita conectado com o repertório de um hipotético e mediano público leitor.

O mercado canoniza uma forma média de literatura que pode ser representada por um estilo a meio caminho da fórmula publicitária e do literário em tom pastel. Esta literatura light, que qualquer indivíduo pode “acessar”, é tão canônica quanto à mobilidade social o possa permitir. O escritor canonizado será aquele cujo perfil se revelar mais apto a conquistar a melhor fatia do bolo durante o maior tempo possível.

De resto, o mercado dinamizado amplia tanto as chances de sobrevivência, quanto de aniquilamento do nosso grande pequeno literato. Por fim, ao manter o debate “literário” em nível de atacado, o mercado, ele mesmo, é que acaba por se canonizar.

Mas, relacionada de algum modo aos dilemas envolvidos no esquema da consagração, é possível observar uma constante que acomete a maior parte dos escritores e poetas: seus percursos textuais denunciam com o passar dos anos uma decepcionante tendência à acomodação — e que devido a tal situação mais se mostram merecedores, ou pior, apetitosos de prêmios e comendas.

Assim, é justamente neste momento que entram em cena os concursos literários. O cume e o declínio dos grandes autores começam a justificar a existência desses prêmios. De resto, o hábito de participar (perdendo ou ganhando) de concursos e festivais competitivos é tão corruptor quanto o estreitamento dos laços entre autor e leitor preconizado pelos mistificadores da cena em questão.

Mas, alguém objetará dizendo que os concursos também premiam e revelam inéditos; sim, textos inéditos, mas não autores. Em defesa dos concursos literários (não fora fundamental anotar uma árdua perversidade a animá-los), poder-se-ia dizer que preenchem parcialmente o vazio deixado pelas políticas públicas relativas ao setor.

Digamos então que os concursos são um bem desnecessário. Mas que também são reféns de inúmeros interesses e imposturas.

A Câmara Brasileira do Livro, por exemplo, é um órgão patronal, atende às necessidades das editoras e é a mantenedora do Prêmio Jabuti. Por esta razão os concursos servem mais aos próprios promotores, sejam privados, sejam públicos, do que aos autores que se submetem às suas regras. Além disso, os concursos pretendem se antecipar ao “julgamento divino”, isto é, à palavra final que deveria ser reservada ao tempo.

Jabuti e Telecom: anedotas vulgares

Naturalmente, não se trata de cruzar os braços e esperar pelo delicado e operoso trabalho das térmitas. Muito menos de reforçar, por exemplo, a chapa convencional do interlocutor que se omite frente à exigência de tornar público, ou de pôr em perspectiva, uma ponderação de valor a respeito do que quer que seja, (des)dizendo: só o tempo dirá.

Talvez também seja desnecessário argumentar - em todo caso, vá lá - que a menção ao “tempo” não pretende reforçar um sentido divinatório, oracular, utópico, que seguidas vezes creditamos a esse “ser de engano” de que dispomos com a presunção de ordenar o funcionamento das coisas.

Assim, dentro de um sentido lato em torno à idéia de um percurso de tempo necessário para que aquilo que importa se descole da indiferenciação circunstante, sancionada, ou até mesmo, exigida pelo processo, identifico a necessidade do debate, do confronto, da produção e da recepção inteligentes acerca dessas realizações poéticas em jogo no emaranhado do sistema literário, tal como o conhecemos.

Muito bem, “aquilo que importa”, assim como o “tempo” enfiado numa espécie de segunda identidade seletivo-crítica, são extensões, presentificações simbólicas dos pensamentos e das vontades de todos os envolvidos no quadro. Isto é, uma sucessão de interlocuções controversas, simultâneas ou não, formam a imagem e o ideário, provisórios, a partir dos quais revogamos uns e inauguramos outros parâmetros.

Isso que é destilado ao tempo - metáfora de vozes que se enfrentam no âmago da tradição, cujo acabar-começar vem dar num aqui -, não é nem a excrescência, nem a dádiva de um “Senhor tão bonito”, como diz a canção do compositor baiano.

Essa “última palavra”, que linhas acima fiz questão de conceder ao tempo, é, enfim, uma conquista. Resultado de um esforço multifário e sem margens.

Dentro desta perspectiva, concursos são anedotas vulgares que a um só tempo tematizam e documentam a obviedade e a baixeza da visão crítica de determinado trecho histórico-cultural.

Com efeito, as recompensas, com estranhas ressalvas, vão sempre para os beletristas medíocres bem relacionados ou para os velhos criadores cujo conjunto da obra há tempo vem nos dizendo que já não é necessário provar mais coisa nenhuma a seu respeito. Entretanto, a penúria continua rondando suas vidas. E, em fim de contas, os concursos estão aí, mesmo.

Então, locupletem-se!

No entanto, por onde passam, premiações literárias deixam atrás de si rastros de humilhações e constrangimentos. Uma metáfora nova em folha a propósito do assunto em apreço que compartilho com o leitor: recentemente, aqui em Porto Alegre, um grande shopping promoveu um concurso, ou melhor, uma disputa cujo vencedor logrou uma casa que era oferecida como prêmio.

Em espetáculo público para a audiência da torpe classe média, dez ou doze selecionados (pobres diabos!) enfrentaram uma prova que consistia no seguinte: todos foram confinados num cubículo com a missão de suportar em pé, sem comer, sem beber, ser ir ao banheiro e sem se apoiar nas paredes da jaula, o tempo que fosse necessário até que restasse apenas um sobrevivente.

Casa própria, livro que sai do prelo já premiado, etc. O melhor dos dois mundos em oferta aos pactários.

Poetas anódinos

Voltemos aos certames do sistema literário.

No que diz respeito aos candidatos, esses vexames se referem, por um lado, à aceitação da cláusula universal que os obriga a submeter seus originais ao crivo de um corpo de jurados que, nas raras ocasiões em que seus nomes são revelados, mostram-se muitas vezes incompetentes para a tarefa.

De outra parte, quando da avaliação das escolhas da comissão julgadora depois de tudo “resolvido”, e devidamente publicadas, verificamos que os critérios estabelecidos para os julgam entos ou são controversos, ou indecorosamente “sem noção”.

Tomando ainda o Prêmio Jabuti deste ano como matéria para discussão — anoto de passagem a categoria prosa, na qual o caça-prêmios Bernardo Carvalho (prosador, ficcionista) mais uma vez dá o ar da graça —, deparamos na lista dos finalistas da categoria poesia (onde os jurados devem saber avaliar características-tipo com “alto grau de poeticidade”, como síntese, ritmo, sonoridade e outros recursos intrínsecos à criação literária), os nomes de, por exemplo, Ivan Junqueira, Mariana Ianelli, e Chacal, entre outros.

Se o leitor me permitir, antes de prosseguir, por uma questão de lealdade e ao mesmo tempo sem nunca desprezar o item da reticência, gostaria de deixar a pessoa do Chacal fora dessa vala comum.

Portanto, mais do que o reconhecimento e a afirmação da pertinência da diversidade, o que essa parcela do elenco de finalistas do prêmio mencionado denuncia, é na verdade o gosto da capacidade crítica contemporânea por espojar-se nos limites de uma tradição por assim dizer de costumier, e cada vez mais anódina.

Vale-tudo livreiro-editorial e diversidade textual em relação promíscua, cinzenta. Em artigo há pouco publicado no periódico El País abordando o mesmo assunto, porém em contexto distinto, o escritor José María Guelbenzu sustenta que não há nada mais incerto que o juízo artístico:

“el gusto y el criterio son producto de una intensa y constante formación y confrontación personal, no de un status predeterminado por el cargo”.

Por meio de concursos e eventos similares (mesmo bolsas de pesquisa, ou bolsas que financiam livros em progresso de jovens escritores, etc, não conseguem escapar à lógica), o sistema literário e os seus concomitantes meios de consagração promovem a “costumização” da linguagem poética como a escritura competente dos estetas do “deixa - disso”; dizem à viva voz: “o meu negócio é só poesia!”.

Num rápido despacho o sistema literário (clã de antas e chato-boys) confecciona a credencial da venalidade que outorga a alguns o direito de desempenharem a função ou o cargo de jurado.

Mas ao aceitar o cargo, não está garantido que em suas dobras venha embrulhada, à maneira de um bônus — a não ser talvez a notoriedade —, a capacidade de juízo. No entanto, se alguns a possuem, através da generosa repetição do ofício ofídico, e mais o trato e o traquejo com tanto texto imperito, o que acontece é que eles acabam por perdê-la.

Talvez em função dos atributos associados à massa de escritos sobre os quais exercem seus cuidados, a tarefa desses jurados inacessíveis deve ser mesmo de extrema insalubridade.

Portanto, pelo resultado do que invariavelmente nos apresentam, a conclusão a que chegamos é a de que só podem ter lido, esses eruditos de fina estampa, e se enfronhado de maneira tal com essas obras que acabaram ficando estúpidos.

O mais absurdo é que o fruto do julgamento vem à luz como uma espécie de conhecimento ordenado por pessoas de uma cultura que ultrapassa os limites do provincianamente tolerável e concebido de maneira que as próximas gerações e os interessados de agora, não “percam tempo” no uso de sua liberdade de pensamento questionando as razões que fizeram as escolhas desses polígrafos recair sobre estas obras e não aquelas; estes artistas em detrimento de outros.

No entanto, na aquisição de algumas dessas peças laureadas, além de festejadas pelos suplementos de literatura, e visando a uma fruição mais ampla de suas “virtudes”, seria apropriado também se pudéssemos comprar (muito embora o preço não fora compensador) junto com elas alguns aplicativos, como por exemplo: a anomia, o ecletismo da não-invenção e o escopo da mediocridade, entre outros, de modo que assim fizessem funcionar e justificar em nossa sensibilidade já bastante alquebrada suas condecorações e seus galardões argênteos.

Anexos
Ao shopping center
José Paulo Paes, 1926-1998

Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus.
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.
(de Prosas seguidas de odes mínimas, 1992)

Escena II
Lope de Veja, 1562-1635

Barrildo : Después que vemos tanto libro impreso
no hay nadie que de sabio no presuma.


(de Fuente Ovejuna, 1612-1614)


REPERCUSSÃO

Oi, Ronald!
Muito bom o teu texto na Sibila. Adorei este trecho:
sistema literário e os seus concomitantes meios de consagração promovem a “costumização” da linguagem poética como a escritura competente dos estetas do “deixa - disso”
Esses prêmios e concursos são feitos para, permita-me a tautologia, premiar o “já-dito”. Por isso, os Hatoums estão sempre por aí, enchendo o bolso de dinheiro. Alguém diria que a gente está com inveja. De fato, esses “dinheiros” cairiam muito bem em minha conta bancária.A questão maior é criar um público-leitor, que possa, no futuro, fazer com que os escritores e poetas sejam capazes de sobreviver de suas habilidades. Mas não creio que nossos “escribas” estejam interessados nessa tarefa pedagógica, que dá tanto trabalho e tão pouco “prestígio”. Paulo


Belíssimo texto sobre os prêmios
. Leda Tenório da Motta

.Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.blogspot.com

LUIS ROMANO, INVENTOR DO CABO VERDE

sábado, 23 de janeiro de 2010


Por Franklin Jorge

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Vacinado contra as fanfarras publicitárias, Luis Romano encontrou em Natal um refúgio, por muitos anos pacífico e bucólico, para a elaboração de uma obra que lhe requeria tempo e fé.

Engenheiro de profissão, especializado na extração e beneficiamento do sal e do petróleo, jamais negligenciou o seu trabalho de criação, destacando-se como ficcionista, poeta e ensaísta inspirado na cultura, na tradição e nos costumes de sua terra natal, o arquipélago de Cabo Verde, que passa a existir literariamente através do seu talento e de uma vontade que jamais se rendeu aos obstáculos que geralmente se interpõem entre o homem e o sonho, para dificultar a obra e fazê-lo desistir.

Romano, porém, venceu inclusive a doença e os achaques da velhice e, hoje, vivendo em Petrópolis, à avenida Afonso Pena, tem no trabalho de criação e reflexão o pão com que alimenta cotidianamente o seu espírito fortalecido pelo ideal.

Desde jovem, em seu nomadismo que o levou, sobretudo por motivação profissional a diversos países da África, da Europa e da América do Sul, escolheu o caminho das realizações e não o do prazer e da dispersão. Assim, nesse comércio obsessivo e paciente com idéias e palavras, construiu lentamente ao longo de mais de sessenta anos a extraordinária representação de algo fora do tempo, ou seja, a grandeza contida num vasto e significativo painel cultural que justifica sua própria existência.

Li-o pela primeira vez no Açu, creio que em 1966, quando ao vasculhar as preciosidades da biblioteca particular da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, sua amiga e admiradora, descobri um exemplar de “Famintos” com um autógrafo do autor.

Notei que o prefácio fora escrito por um primo-irmão de minha avó, o que aumentou o meu interesse por uma obra que me descortinava a literatura de uma terra distante que se resumira até então para mim pelo esplendor selvagem de suas praias e por ter sido, no alvorecer do Brasil, um entreposto do comércio de escravos para o Novo Mundo…

E, por último, o chão e a salsugem cantados por Cesária Évora, uma voz que vem de muito longe, consubstancida em misteriosa ancestralidade. Uma voz visceral e telúrica.

Creio que teria de catorze para quinze anos naquela ocasião. Ambientado em sua terra, “Famintos” impressiona por seu contundente realismo, ao radiografar a seca e o séqüito de misérias que acompanha o destempero climático. Guardei desde então o nome do autor, sem suspeitar que, por astúcia do destino, um dia nos tornaríamos amigos.

Prisioneiro do demônio da pesquisa, Luis Romano tomou para si, com uma precisão que nada deixa ao acaso, a árdua e apaixonante tarefa de dotar o seu país de uma literatura e de um idioma literários próprios.

É, neste sentido, um escritor adâmico, aquele que nomeia pela primeira vez tudo o que existe de singular e relevante em Cabo Verde, no âmbito das letras, da sociologia, da etnografia, do folclore e da antropologia cultural.

Dotado do espírito de águia de um ancião, nada escapa ao seu instinto literário. Porém, a mais grandiosa invenção do seu poderoso intelecto é o Cabo Verde, a maior de suas obras, sua pátria e sua língua.

Fragmento do livro Leituras Potiguaress [Inédito]

FALTA IMAGINAÇÃO À ACADEMIA

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Por Marc Dourojeann, presidente da Fundação ProNatureza

A imaginação é uma capacidade intelectual preciosa que, aparentemente, é exclusiva à espécie humana. Não há dúvida que ela transformou os humanos no que hoje são. A imaginação esteve presente na invenção do machado de pedra pré-histórico e das primeiras fogueiras nas cavernas, até as portentosas máquinas atuais, nas teorias mais ousadas sobre o universo e, através dos tempos, é a essência das artes.

Os jovens, menos influenciados que os mais velhos pelos parâmetros intelectuais impostos pela sociedade, sempre têm sido a ponta de lança da imaginação criativa. Porém, pelo menos nas ciências referentes ao uso sustentável e conservação dos recursos biológicos, a imaginação da juventude estudiosa parece estar perdendo o rumo.

O comentário vem à tona após vários anos de leitura de textos que pretendem ser publicados em revistas sérias ou, dentre outros, projetos de tese ou teses já concluídas para obtenção de títulos de mestrado e doutorado. E, com poucas exceções, o resultado é deprimente. Deprimente porque, às vezes, apesar da evidência do intenso esforço dos autores, os trabalhos simplesmente não demonstram algo que já não seja bem conhecido e principalmente não aportam nada que seja útil ou, sequer, interessante.

De fato, ler e comentar esses textos, um após o outro, ano após ano, é um dos mais tediosos exercícios imagináveis. É verdade que não é sempre necessário usar a experimentação para que um trabalho demonstre ou aporte evidências sobre um fato novo. A novidade pode vir, também, de trabalhos baseados na observação direta e na interpretação teórica do fenômeno visto ou, inclusive, pode ser encontrada em tratados eminentemente narrativos que, embora não apelem à criatividade, aportam informação que não estava disponível sobre uma região, sobre espécies e o fato. Por exemplo, os relatos minuciosos das viagens pela América do Sul dos grandes exploradores dos séculos XVIII e XIX são, até hoje, uma fonte reconhecidamente valiosa de informações.

Porém, na atualidade, é evidente um abuso da reiteração de temas trilhados, como no caso dos “mais científicos”: compilar estatísticas de animais atropelados nas estradas, fazer listas de espécies muito bem conhecidas de locais já fartamente estudados, ou contar animais noturnos que posam para fotografias em fragmentos florestais. Ou, no caso dos “menos científicos”: analisar planos de manejo de áreas protegidas; ou a sua aplicação, estudar a percepção das comunidades rurais; ou de outros sobre medidas de conservação; entrevistar proprietários de cachorros para determinar o impacto destes sobre a fauna nativa ou, pior, resenhar opiniões de personalidades da área ambiental e fazer estatísticas baseadas exclusivamente em revisão bibliográfica.

Na verdade, embora possam ter sido aportes quando originalmente idealizados, após terem sido já explorados por muitos outros e por décadas, esses temas apenas mereceriam ser exercícios ou requisitos para a aprovação do curso correspondente. Além do mais, essas teses exploram metodologias ou técnicas que podem complementar outras, mas dificilmente podem ser a única utilizada para demonstrar alguma coisa.

Aportes para o avanço da ciência

Trabalhos assim feitos são apresentados como teses de mestrado e doutorado e, logo, têm a pretensão de ser publicados em revistas científicas. Esses trabalhos não passam no teste clássico do “Então o quê?” ou “E a quem isso interessa?” nem do lapidar comentário “Mas todo mundo já sabe disso!”

O que é uma tese? A tese é o enunciado de uma proposição, ou de uma teoria, que se acredita poder defender e demonstrar. A proposição parte de uma hipótese, ou seja, de uma suposição ou conjectura que orienta a investigação ou pesquisa na busca de demonstrar o fato, matéria do esforço. A hipótese antecipa características prováveis do objeto investigado e que vale, quer pela confirmação dessas características, quer pelo encontro de novos caminhos de investigação.

Nem sempre a pesquisa, inclusive quando o método é o mais correto aplicável, confirma a hipótese, por mais bem formulada que esteja. No entanto isso não desvaloriza o resultado, pois a não confirmação da hipótese é, também, um resultado concreto. A definição do Aurélio, que coincide com as de outras línguas, contém outro elemento freqüentemente esquecido nas teses feitas na região: as únicas recomendações que uma tese pode conter referem-se às novas linhas de pesquisa decorrentes do resultado.

Uma tese não tem a autoridade para dar recomendações de toda índole aos gestores, governos ou, como é freqüente, até do tipo urbi et orbi. Já no artigo que possa ser produzido com base em tese defendida e aprovada cabem, sim, umas poucas recomendações muito concretas que são exclusiva e diretamente decorrentes dos resultados.

A finalidade das teses exigidas aos graduandos universitários é, primeiramente, testar ou confirmar a sua capacidade de resolver um problema concernente à sua nova especialidade, aplicando um método científico. Mas, principalmente no nível de doutorado, o objetivo da tese é ser um aporte concreto ao avanço da ciência ou da tecnologia.

Teses que se limitam à preparação de um projeto de investimento, ou de um exercício de planejamento, são trabalhos pré-profissionais que podem servir para a outorga de um título profissional, porém não servem para um grau acadêmico, como os de mestre ou doutor, especialmente no caso das ciências relacionadas à biologia.

Deve-se reconhecer que é difícil defender uma hipótese se o conhecimento geral sobre o tema, por parte dos professores e estudantes, é incipiente. O tempo e os recursos que podem ser dedicados a uma pesquisa são quase sempre limitados estimulando a escolha de temas corriqueiros.

Por isso é que as melhores teses e os melhores textos publicados em revistas científicas quase sempre correspondem às universidades nas que haja um professor destacado ou um grupo que trabalham, por longo tempo, sobre temas específicos, aproveitando os estudantes graduados para desenvolver temas correlatos que estão baseados em hipóteses surgidas de trabalhos anteriores, ou dos desenvolvidos em paralelo. Na verdade esses professores, seus colegas e estudantes, reproduzem a antiga e sempre desejável relação do mestre com os seus discípulos.

Imaginar faz bem à pesquisa

Voltando ao ponto inicial, ainda é possível que a principal razão da situação das pesquisas acadêmicas sobre temas relativos à conservação da natureza seja devida, em grande parte, ao escasso uso que fazem professores e estudantes da sua imaginação para levantar hipóteses e assim desenvolver a tese.

Nenhum professor pode esquecer a desagradável e reiterada experiência de escutar do candidato a mestre ou a doutor a frase desesperada “Mas, professor, sobre isso não há bibliografia!” a cada vez que se propõe um tema relativamente inovador. Ante a alegação do professor de quão importante e bom é que se faça uma pesquisa sobre um tema que ninguém ou poucos trilharam, a maior parte dos graduandos prefere ir buscar outro orientador de tese.

Desses que propõem simples experimentos comparativos de pesticidas, variedades ou fertilizantes, ou daqueles que vão aceitar como único o principal método de pesquisa, fazer entrevistas e questionários, bem longe da natureza. Ou seja, teses que se muito resumidas e corretamente redigidas até podem gerar um artigo informativo, mas não aportam nada realmente novo ou útil à nação, apesar de terem um custo elevado para o erário público.

O mais triste dessa realidade é que, na área da conservação da natureza, existem milhares de problemas científicos e técnicos esperando explicação ou solução. A juventude estudiosa deve sabe que as suas idéias mais valiosas, embora possam parecer loucas, são todas desenvolvidas antes de cumprir os trinta e poucos anos de idade. Portanto esses jovens que se orientam para a ciência, não devem desperdiçar a sua principal possibilidade de fazer algo que realmente seja de proveito para eles mesmos e para a sociedade onde vivem.