Arquivo da Categoria ‘Cultura’

UM FILME MUITO AQUÉM DO ALÉM…

sexta-feira, 3 de setembro de 2010


Por Bernardo Queiroz
e Kássia Alcântara,
do Acerto de Contas

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que qualquer comentário sobre ‘Nosso Lar’ é feito como uma peça de cinema, não é uma opinião sobre a religião espírita em si. Não sei quase nada dela, então qualquer opinião neste artigo reflete tanto essa ignorância pessoal, como meu desejo de uma avaliação do produto de mídia. Com isso estando dito…

‘Nosso Lar’ é a mais nova megaprodução do cinema nacional, praticamente um Spin Off do bem mais competente ‘Chico Xavier’, um recente sucesso de bilheteria nacional. Dirigido por Wagner de Assis, um roteirista que só fez bombas anteriormente (Xuxa e os duendes, Xuxa Requebra, Xuxa Popstar… é, vocês pegaram a ideia). A única produção em seu currículo como diretor foi A Cartomante (1994). E sinceramente, acredito que isso aparece, em ‘Nosso Lar’.

A história retrata o personagem André, um médico do início do século 20 (aparentemente), que ao morrer, se descobre em algum tipo de inferno grupal. Depois de algum tempo de sofrimento, ele é resgatado e levado para a comunidade/cidade chamada Nosso Lar, onde é apresentado a esta nova “vida depois da vida”. Esse tipo de temática já foi abordada antes em produções bem mais competentes, como Amor Além da Vida (What Dreams May Come, EUA, 1998), com Robin Williams, que é a que vem à mente com mais facilidade.

A total inexperiência do diretor com cinema de verdade aparece de maneira gritante. ‘Nosso Lar’ tem um uso razoavelmente competente de cenários de fundo feitos em computação gráfica, com uso de telas verdes, algo não muito comum no cinema nacional. Até acredito que poderia ser feito mais vezes, abrindo mais o leque de temáticas no cinema realizado por aqui. Mas aí este senhor Wagner de Assis nos prende com enquadramentos e montagem de novela dos anos 90, com imagens próximas dos rostos dos atores, e assim corta qualquer possibilidade maior de utilização destes cenários na composição.

Os cenários em si são limpos, às vezes por demais brilhantes, com um tipo de efeito de brilho glow, colocado na pós-produção, que impede que observemos mais detalhes da cidadela. Aliás, os prédios de ‘Nosso Lar’ parecem ter uma clara inspiração nos de design à la Oscar Niemeyer, numa versão futurista high-tech sci-fi, cromaticamente brilhante, da cidade de Brasília. Sei não…

Como se não fosse suficiente, temos o trabalho dos atores. Os atores, a grande maioria com pouca ou nenhuma experiência em cinema, entregam performances relativamente sem brilho. André Luiz é interpretado por Renato Prieto, se esforçando para representar um personagem com pouco conflito. Na verdade, o que acontece é que a plateia se sente um pouco como André: confuso, incrédulo e com dificuldade de seguir o que está acontecendo com ele. A diferença é que ele eventualmente se ajusta, enquanto nós continuamos num estado de tédio e descrença por mais tempo.

Acredito que um bom pedaço disso seja culpa do texto adaptado: é um texto duro, com pouco espírito (com o perdão do trocadilho) e com uma narrativa lenta, devagar quase parando. Dá perfeitamente para sair para ir ao banheiro em quase qualquer parte do filme, sem que sinta-se que se perdeu grande coisa. Apenas um pouco de conflito do André com a opinião post-mortem de sua família sobre ele é capaz de tocar a plateia no fim do filme.

A trilha sonora também marca pesadamente pela escolha do uso constante de instrumentos solenes como piano e violinos. Acaba sendo uma trilha que distrai, já que ele é jogada sobre as cenas dramáticas de André Luiz. Acho que Wagner Assis andou tomando aulas com Christopher Nolan, diretor de Batman: Cavaleiro das Trevas. O maestro responsável é Philip Glass, que já fez as trilhas de filmes de Woody Allen como Sonho de Cassandra, e filmes caros como O Show de Truman.

No fim, fica a sensação de um filme de uma hora e quarenta que pesa mais do que as quase três horas de um ‘A Origem’. ‘Nosso Lar’ tem grande investimento, tanto na parte de computação gráfica quanto na música, mas acaba morrendo na praia (novamente, com o perdão do trocadilho). Afinal, quando uma segunda guerra mundial estoura, nada realmente parece mudar de prático na vida de André, nem em ‘Nosso Lar’, e nem nas pessoas ao redor dele. E se uma guerra não é capaz de fazer uma cidade como Nosso Lar mudar, nada mais é capaz…

BRASILEIRO AO NATURAL

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Por Ipojuca Pontes, de Mídia Sem Máscara

A mesma gente que se diz ansiosa pela instauração de uma sociedade mais digna e justa, sequer exige da candidata oficial uma explicação compatível para o caso escabroso ou simplesmente aceita o fato como consumado.

Anos atrás, dois diplomatas brasileiros entraram num bar da Rua da Palma, em Assunção, capital do Paraguai, paraíso do contrabando oficializado. Os funcionários do Itamaraty, bem vestidos e escovados, uma vez no bar, dirigiram-se ao balconista e pediram água mineral. Enquanto esperavam atendimento, iniciaram uma animada prosa na língua mater.

Ao lado dos diplomatas, dois paraguaios típicos, caras ensebadas, olhos repuxados, pegaram copos e garrafas (de “cerveza”) e se afastaram do balcão. Antes, encararam os brasileiros e um deles, mais insolente, arrancando catarro do peito, cuspiu de lado e, em tom de desprezo, soltou a voz:

- Brasileños…

O diplomata mais jovem, que era faixa-preta, quis revidar. O mais velho, no entanto, encarando-o firmemente, segurou-o pelos ombros e ciciou:

- Deixa pra lá… Deixa pra lá… No fundo, eles têm razão.

O diplomata mais jovem arrefeceu o ímpeto de revide, o mais velho pagou a conta e ambos deram no pé. Mas o que de fato queria expressar o paraguaio ensebado com aquela desdenhosa expressão… “brasileños”?

Para muita gente boa o brasileiro, depois de cinco séculos de existência, continua sendo um enigma em aberto. Para uns, mais generosos, ele seria um ser essencialmente lúdico, na verdade uma eterna criança grande para quem a vida não passa de uma simples brincadeira.

Para outros, tidos como fatalistas, o brasileiro seria uma figura volúvel degradada pela natureza, marcada pelo sol abrasador dos trópicos.

O sociólogo de Pernambuco Gilberto Freyre desnudou em minucioso strip-tease a natureza mais profunda do caráter preponderantemente erótico e emocional da nossa sociedade, que leva o brasileiro a sentir mais do que pensar ou, mais precisamente, a pensar intuitivamente.

Já para o escritor paulista Paulo Prado, conforme registro no decantado “Retrato do Brasil”, o brasileiro se definiria como um ser triste, levado à melancolia pelo fastio da luxúria e da cobiça, querendo dizer com isso que somos um povo de moral ambígua, ou mesmo sombria.

Outro escritor paulista, Mário de Andrade, nos anos 30 do século passado, querendo ir ao centro da questão, avançou a teoria de que esse homem brasileiro é um ser sem caráter. O arguto Mário, como peça de ficção, para representar o brasileiro, distinguiu a figura de Macunaíma, herói sem nenhum caráter, malandro metido em eternas trapalhadas sob o manto de incontáveis metamorfoses.

Para ampliar o espaço de citações, lembro a tirada de um dolorido cronista dos anos 80 do século passado, José Carlos Oliveira. Para o ele, o brasileiro não passaria de um ser-no-vazio, tipo inacabado que, por qualquer razão primitiva, não percorreu o caminho evolutivo da espécie: “O brasileiro não é: ele se faz, mas não se faz em definitivo: ele se experimenta; troca de idéias como as cobras trocam de casca”. O brasileiro seria, assim, em princípio, um eterno agente do improviso.

Outro sociólogo paulista, por sua vez, qualifica o brasileiro como o “homem cordial”, sujeito que pensa com o coração, para confundir, pela manha herdada dos ancestrais ibéricos, o espaço público com o espaço privado, ou seja: impor o clientelismo cupincha como principal atribuição da vida política.

Eis aqui o âmago da questão: a cultura política do brasileiro, que mescla o interesse privado com a coisa pública, ultrapassa os limites da decência humana. Como exemplo emblemático, enfrentamos no momento o caso sobejamente conhecido da guerrilheira Dilma Rousseff, tida como uma das responsáveis, nos anos de chumbo, por ações beligerantes, contrabando de armas, roubos à mão armada e o assalto (no montante de 2.800 milhões de dólares) ao cofre de Ana Benchimol Capriglione, a amante do ex-governador (paulista) Ademar de Barros.

Vejam só: no pleito eleitoral em andamento, fala-se muito na deflagração da campanha “Ficha Limpa”, movimento de combate à corrupção na política, em especifico contra a candidatura de políticos em débito com a justiça.

Assim seja. Mas à frente nas pesquisas eleitorais ao cargo de presidente da República, Dilma Rousseff, a companheira preferida de Lula da Silva, jamais explicou onde foi parar tanto dinheiro saqueado de um ser privado. E aqui vem o pior: a mesma gente que se diz ansiosa pela instauração de uma sociedade mais digna e justa, sequer exige da candidata oficial uma explicação compatível para o caso escabroso ou simplesmente aceita o fato como consumado: o que não tem remédio, remediado está.

Ver a coisa pública como patrimônio privado não é, de resto, uma postura exclusiva dos políticos. Ela campeia, como um ferrete infamante, entre as chamadas elites intelectuais. Abram-se, por exemplo, os jornais ou vejam-se as entrevistas repassadas nas televisões: não haverá um dia sem que representantes desta ativa confraria de ladinos não estejam, por vias postas e interpostas, a reclamar dinheiro público em troca de pretensão, água e vento.

Em nome da “cultura”, e da pretensa busca de uma abstrata “identidade nacional” - esta, uma espécie de peru sem cabeça, pois ninguém sabe ao certo o que é ou o que representa -, ensandecidas hordas de cineastas, músicos, pintores, escritores, produtores culturais os mais diversos, demandam furiosos pela grana fácil dos contribuintes acumulada nos cofres públicos gerenciados por políticos matreiros. “Um direito adquirido”, dizem eles, visto que ela, a cultura, não é só “um momento de recreação, ornamento social ou cortina rendada que se abre a papos mais sérios”.

Tudo isso acima exposto configura o quadro da miséria moral que contamina o ser nacional: as elites intelectuais, a pretexto de “defender o povo brasileiro”, terminam por sacar do estômago das massas ignorantes o alimento farto de que se nutrem.

Não é por acaso que o país naufragou em trauma profundo, alheio a uma moral compartilhada, mergulhado no horror da guerra civil, da exploração e da segregação social. Com um ser brasileiro assim ao natural, como não soçobrar?

E VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Por F. César Barbosa, articulista

Há anos Erivan Seixas (sósia de Raul Seixas) me convidava a participar do anual tributo ao “Maluco Beleza”. Por razões diversas eu faltava ao evento. Depois lhe dava algum tipo de desculpa pela ausência. Mas, este ano, diante da necessidade de “respirar ar puro”, viajei à terra dos Verdes Canaviais.

Não vou, aqui, dizer que sou membro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista – nem mesmo honorário. E confesso que sei, apenas, meia-dúzia de três ou quatro versos de uma ou duas músicas do homenageado. Na realidade meu “vício” é cinema e minha mania é John Wayne.

O certo é que eu fui a Ceará - Mirim e o quadro que vi por lá me impressionou: Erivan e um grupo de amigos - simpatizantes do homem que foi “mosca” na sopa de muita gente grande – organizaram (se é que se pode chamar de festa organizada, no sentido literal) o 21º Tributo ao “profeta psicodélico”.

Usando uma linguagem dita moderna eu diria que lá estavam todas as “tribos” e facções “raulseixistas”, infestando o ambiente com suas vibrações cósmicas. Na ausência do “contador da polícia” - como sempre falo – calculei mais de mil pessoas. Entre os que estavam pelo lado de dentro do Clube e os que preferiram curtir pelo lado de fora. Que, diga-se de passagem, estava tão animado quanto ao pé do palco. Muita gente bonita abrilhantando a festa – com seus chapéus, panos sobre as cabeças e “quem não tinha colírio, usava óculos escuros”.

O mandamento maior era a igualdade entre os povos. Negros; brancos, mestiços, pobres, ricos, “arremediados”, homens, mulheres, não tão “homens”, não tão “mulheres” dançaram embalados por diversas bandas que foram lá depositar suas “oferendas”, em forma de rock e baladas, a Raul Santos Seixas.

O “incenso” – aquele vindo do Nepal, e transado em camelô – dava o ar de sua graça. A julgar pelo meu apuradíssimo “olfato”. Mas nada que incomodasse. Como se diz por aí: “Faz parte”! E pensar que tudo começou sem nenhuma pretensão. Como uma simples brincadeira entre os amigos Erivan, Lisboa, Aragão, Ubiratan, Cláudio, Eliel, Jean dos Grogs; entre outros “fundamentalistas” de um Raul que simboliza (e para sempre representará) toda uma geração que “tinha medo, mas, estava com Deus”.

E foi possível notar, no meio da multidão, gerações distintas que iam desde avós, passando pelos pais, e chegando a netos. Ou seja: Idades oscilando entre 60 e 14 anos. Pessoalmente me comovi vendo que 70% dos presentes estavam em uma faixa etária de gente que não viveu, de fato, os famosos “Anos de Chumbo”- quando se “andava falando de lado e olhando pro chão”, como diria outro poeta - do qual Raul era um dos “heróis da Resistência”.

É bom lembrar que curti-lo, naquela época, não era para qualquer um. Era preciso transpor “barreiras”. Havia a censura militar, censura religiosa, e, por fim, a censura de casa. Mas, entre mortos e feridos, estamos todos aqui. Vivendo um Raul Seixas que eternizou seu legado, a meu ver, numa única frase: “O cantor morre, a música fica”.

Para concluir parabenizo a todos que fizeram aquele tributo acontecer. E deixo o registro que, em nenhum momento houve animosidade; confusão. Reinou a harmonia e a curtição a um cara que só queria que um disco voador o levasse a uma estrela, entre tantas que há por aí. E, quanto a mim, só posso dizer que a beleza da festa – que indiscutivelmente é um marco cultural daquela cidade - me fez senti a “energia” da paz de uma verdadeira Sociedade Alternativa.

ALEXANDRIA É CENÁRIO DE FILME

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Filme alexandriense começa a ser gravado na cidade do Alto Oeste Potiguar

Por Márcio Morais

Começaram a serem rodadas as cenas do filme “Inácio Garapa, Um Matuto Sonhador” na cidade de Alexandria, no Alto Oeste Potiguar. A idéia do filme partiu do radialista José Gomes da Silva Filho, mais conhecido por J. Gomes.

Depois de ganhar mais experiência ao trabalhar em um canal de TV afiliado da Rede Record de Televisão, em Sorriso MT, onde trabalhou de repórter cinematográfico e edição de imagens, sempre sonhou em ser o propulsor do primeiro filme a ser produzido na região. J. Gomes também já foi do teatro, tem cursos na área e foi o criador do primeiro grupo de teatro de Alexandria, cidade em que nasceu.

O filme é uma comédia matuta. Conta a saga de um sertanejo sofrido que vive de sonhos e por isso enfrenta situações hilárias em sua vida. As gravações ocorrem na área rural e também na cidade de Alexandria. Os moradores da cidade oestana já vivem a expectativa do lançamento do filme que deve acontecer no final de novembro para o início de dezembro deste ano.

O elenco foi escolhido entre populares da cidade, pessoas que têm profissões definidas, mas que se esforçam para serem protagonistas desse feito. “Resolvi fazer um filme 100% alexandriense. Dar oportunidade as pessoas da terra mostrarem os seus talentos”, diz J. Gomes. Os representantes do grupo de Teatro da Pastoral Familiar de Alexandria foram escolhidos para formar o elenco do filme.

“Muita gente vai se surpreender com esse filme”, diz J. Gomes, se referindo ao fato da produção não dispor de um aparato de equipamentos para realização de uma grande produção.

“O filme já tem uma edição piloto e o produto final está muito bom, isso foi dito por pessoas que conhecem do negócio e viram as cenas”. Gomes se refere ao teatrólogo Lindenberg da Silva (Berg), do Grupo de Teatro Ciranduis, da cidade de Janduis/RN, que também produziu um filme na sua cidade, onde está sendo transformado em película.

Pessoas de grande influência no município também participam do filme, a exemplo do presidente do Instituto Zulmirinha Veras, Dr. George Antonio de Oliveira Veras; a professora Maria Carlos Fernandes e o advogado Dr. Gilberto de Figueiredo Lobo.

CARLOS FIALHO NO NOVO JORNAL

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Por Franklin Jorge

O escritor Carlos Fialho estreia amanhã, no Novo Jornal, uma coluna semanal publicada aos sábados, em substituição ao jornalista Rodrigo Levino, que foi contratado pela revista Veja em tempo integral.

Nascido em Natal em 1979, Fialho é um dos criadores do selo editorial Jovens Escribas e já publicou, até agora, “Verão Veraneio” (2004) - Crônicas; “É Tudo Mentira!” (2006) - Contos; e “Mano Celo” (2009) - Crônicas.

É titular do blogue O Fiasco, que pode ser acessado no endereço virtual blogdofialho.wordpress.com

Hoje o Novo Jornal publica a entrevista que fiz com ele, “Sábado é dia do Jornal de Carlos Fialho”.

STALLONE ESTÁ CERTO

domingo, 22 de agosto de 2010

Por Olavo de Carvalho, de Mídia Sem Máscara

A declaração do ator de “Rambo” é a coisa mais verdadeira que alguém disse sobre o Brasil nos últimos anos: este é um país de covardes, que preferem antes bajular os seus agressores do que tomar uma providência para detê-los.

A mídia inteira está brabíssima com o ator Sylvester Stallone porque ele disse que no Brasil você pode explodir o país e as pessoas ainda lhe agradecem, dando-lhe de quebra um macaco de presente.

Alguns enfezados chegaram até a resmungar que com isso o ator estava nos chamando de macacos - evidenciando claramente que não sentem a diferença entre dar um macaco e ser um macaco.

Da minha parte, garanto que Stallone só pecou por eufemismo. Macaco? Por que só macaco? Exploda o País e os brasileiros lhe dão macaco, tatu, capivara, onça pintada, arara, cacatua, colibri, a fauna nacional inteira, mais um vale-transporte, uma quota no Fome Zero, assistência médica de graça, um ingresso para o próximo show do Caetano Veloso e um pacote de ações da Bolsa de Valores.

Exploda o País como o fazem as Farc, treinando assassinos para dizimar a população, e o governo lhe dá cidadania brasileira, emprego público para a sua mulher e imunidade contra investigações constrangedoras.

Sequestre um brasileiro rico e cinco minutos depois os outros ricos estão nas ruas clamando pela libertação - não do sequestrado, mas do sequestrador (passado algum tempo, o próprio sequestrado convida você para um jantar na mansão dele).

Crie uma gigantesca organização clandestina, armando com partidos legais uma rede de proteção para organizações criminosas, e a grande mídia lhe dará todas as garantias de discrição e silêncio para que o excelente negócio possa progredir em paz; sobretudo, ninguém, ninguém jamais
perguntará quem paga a brincadeira.

Tire do lixo o cadáver do comunismo, dando-lhe nova vida em escala continental, e os capitalistas o encherão de dinheiro e até se inscreverão no seu partido, alardeando que você mudou e agora é neoliberal. Crie a maior dívida interna de todos os tempos, e seus próprios credores serão os primeiros a dizer que você restaurou a economia nacional.

Encha de dinheiro os invasores de terras, para que eles possam invadir mais terras ainda, e até os donos de terras o aplaudirão porque você “conteve a sanha dos radicais”. Mande abortar milhões de bebês, e os próprios bispos católicos taparão a boca de quem fale mal de você.

Mande seu partido acusar as Forças Armadas de todos os crimes possíveis e imagináveis, e os oficiais militares, além de condecorar você, sua esposa e todos os seus cupinchas, ainda votarão em você nas eleições presidenciais.

Destrua a carreira de um presidente “direitista” e alguns anos depois ele estará trocando beijinhos com você e cavando votos para a sua candidata comunista no interior de Alagoas.
Um macaco? Um desprezível macaquinho? Que é isso, Stallone? Você não sabe de quanta gratidão, de quanta generosidade o brasileiro é capaz, quando você bate nele para valer.

Fora essa ressalva quantitativa, no entanto, a declaração do ator de “Rambo” é a coisa mais verdadeira que alguém disse sobre o Brasil nos últimos anos: este é um país de covardes, que preferem antes bajular os seus agressores do que tomar uma providência para detê-los.

O clássico estudo de Paulo Mercadante, A Consciência Conservadora no Brasil, já expunha a tendência crônica das nossas classes altas, de tudo resolver pela conciliação. Mas a conciliação, quando ultrapassa os limites da razoabilidade e da decência, chega àquele extremo de puxa-saquismo masoquista em que o sujeito se mata só para agradar a quem quer matá-lo.

Curiosamente, muitos dos que se entregam a essa conduta abjeta alegam que o fazem por esperteza, citando a regra de Maquiavel: se você não pode vencer o adversário, deve aderir ao partido dele. Esses cretinos não sabem que, em política prática, Maquiavel foi um pobre coitado, que sempre apostou no lado perdedor e terminou muito mal. A pose de malícia esconde, muitas vezes, uma ingenuidade patética.

FORMADORES DE OPINIÃO

sábado, 21 de agosto de 2010

Por Olavo de Carvalho

Nas próximas semanas, dedicarei uma série de artigos a analisar, com certa minúcia, algumas idéias do colunista da Folha, Contardo Calligaris, ou aquilo que ele imagina serem suas idéias, já que a mim me parecem mais reflexos condicionados. Antes de fazê-lo, porém, desejo esclarecer algo quanto à perspectiva desde a qual examino fenômenos como esse.

Um dos elementos básicos da educação é o aprendizado de comportamentos verbais que nos identifiquem com os grupos sociais cuja aprovação necessitamos.

É todo um processo complexo e trabalhoso de mimetização de sentimentos, hábitos, cacoetes, preconceitos e manias que nos libertam do angustiante isolamento corporal a que nos condenou a natureza das coisas e nos dão a impressão de que somos “alguém”, pelo menos aos olhos dos outros, dos quais assim obtemos uma reconfortante confirmação da nossa existência e até, nos casos mais felizes, da nossa importância.

Completado esse treinamento, alguns indivíduos passam à etapa seguinte, que é a aquisição da alta cultura.

Aí já não se trata mais de obter a aprovação dos nossos contemporâneos, mas de dialogar com os grandes homens de outros tempos e lugares, que não nos julgam pela nossa subserviência a um meio social determinado, e sim pela nossa fidelidade a valores e critérios que não são de nenhuma época, constituindo antes a condição da possibilidade de um salto entre as épocas.

Esse aprendizado vai, fatalmente, na direção oposta à do anterior. Quando você já não busca a aprovação de qualquer meio social presente, mas de Aristóteles, de Dante, de Sto. Tomás, de Shakespeare e de Leibniz, você sabe que dela não resultará provavelmente nenhum benefício exterior, mas apenas a aquisição daquela consistência íntima, daquela sinceridade profunda que lhe permitirá ser de fato “alguém”, não aos olhos dos outros, mas da comunidade supratemporal do conhecimento, ainda que ao preço de tornar-se relativamente incompreensível aos contemporâneos.

A partir desse momento você está habilitado a dizer como Dom Quijote: “Yo sé quien soy” - e a opinião dos circunstantes não pode afetar em nada aquilo que você apreendeu mediante vivência espiritual direta, solitária, sem mais testemunha ou interlocutor além da comunidade dos sábios mortos.

Quando Sto. Tomás de Aquino recomendava “Tem sempre diante de ti o olhar dos mestres”, ele sabia o quanto a integração da alma no diálogo supratemporal pode custar em solidão de espírito, mas também sabia que essa solidão é o único terreno onde germina o desejo de conhecer a Deus (a não ser, é claro, que o próprio Deus decida falar com você por outros meios).

A sanidade de qualquer grupamento humano - um país, por exemplo - depende de que nele exista um número suficiente de pessoas dedicadas a este segundo aprendizado.

É só por meio delas que a conversação contemporânea adquire um lugar e um sentido no quadro do universalmente humano, em vez de esfarelar-se numa infinidade de picuinhas que só parecem importantes na razão inversa da escala de tempo histórico em que são medidas.

Como a alta cultura desapareceu do Brasil, o uso da linguagem nos debates públicos limita-se hoje aos fins do primeiro aprendizado: as pessoas não falam ou escrevem para exprimir em palavras alguma experiência interior autêntica, mas para sentir que acertaram no tom e no estilo da platéia cuja aprovação anseiam para reforçar sua vacilante identidade pessoal com a chancela de um grupo de referência.

Daí a necessidade constante, obsessiva, de ostentar bons sentimentos, entendidos como tais os sentimentos aprovados pelo grupo (e que podem, decerto, parecer desprezíveis ou abomináveis a outros grupos).

Como o grupo dominante na mídia e nas universidades, hoje em dia, é esquerdista e politicamente correto, o chamado “debate nacional” é apenas um torneio para decidir quem personifica melhor o amor sem fim às “minorias” oficialmente aprovadas como tais e o total desprezo pelas demais minorias, por exemplo os evangélicos ou os católicos tradicionalistas (os judeus são um caso espinhosamente ambíguo, obrigando as inteligências iluminadas aos contorcionismos verbais mais engenhosos para conciliar o respeito sacrossanto aos judeus mortos com o ódio visceral aos judeus vivos).

Quando, num desvario de independência pessoal, o sujeito se horroriza ante algum excesso do politicamente correto e escreve duas ou três palavras para criticá-lo, toma as mais extremas precauções para mostrar que só o faz no puro interesse dos próprios grupos visados, reintegrando portanto dialeticamente o momento de infidelidade aparente no fundo imutável da fidelidade essencial.

Essas demonstrações de “divergência”, as mais extremas que o padrão nacional comporta hoje em dia, chegam até a ser aplaudidas como provas de originalidade, excelência intelectual e coragem quase suicida. O indivíduo capaz desses controladíssimos rompantes torna-se, no padrão geral vigente, a personificação mais próxima do que seria, em condições normais, o representante da alta cultura.

É isso o que, no Brasil de hoje, se chama de “formador de opinião”: um adolescente em busca de integração social, esforçando-se para imitar a linguagem e os modos de um grupo de referência, no máximo fingindo às vezes um pouco de discordância para poder ser aprovado, não como um membro qualquer entre outros, mas como um “intelectual”, talvez até como um “pensador”.

GOVERNO ABANDONA MUSEU NILO PEREIRA

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Por Ormuz Barbalho Simonetti*

Ceará Mirim - Foi com muita tristeza que, pela segunda vez, nesses últimos três meses, visitei as ruínas do que foi, há bem pouco tempo, o Museu Nilo Pereira em Ceará-Mirim RN.

No último mês de maio, lá estive no finalzinho de tarde quando voltava de minha chácara, que fica no vizinho município de Maxaranguape.
Naquela ocasião fui atraído pela beleza da lua cheia que surgia por trás do casarão do antigo Engenho Guaporé.

Construído em meados do Século XIX, mais precisamente em 1850, em estilo neoclássico, o casarão foi residência do segundo vice-presidente da província do Rio Grande do Norte, Vicente Nelson Pereira, genro do Barão de Ceará-Mirim.

Fazia algum tempo que não percorria aquela estradinha que lava ao casarão. Costumava visitá-lo nos anos 80 e 90, quando trabalhava no Banco do Brasil e fazia fiscalização nas propriedades rurais da região.

Aproveitei o ensejo para ver de perto, a situação em que o mesmo se encontrava, pois naquela semana havia me chegado, por e-mail, uma filmagem de vândalos atirando pedras nos vidros que adornavam portas e janelas. Era uma cena deplorável.

Uns rapazes filmavam os outros, que naquela euforia bestial, se revezavam em atirar pedras, ao tempo que deliciavam-se com a destruição do patrimônio público e a memória da cidade.
Fiquei horrorizado pela cena e lamentei que aquilo estivesse sendo praticado por jovens, que pareciam ser estudantes que para ali tinham se dirigido com esse propósito, já que o museu está localizado em uma área que não é passagem para lugar nenhum.

Infelizmente a situação em que se encontrava o Museu, era pior do que eu havia imaginado. A guarita que fica na entrada, estava em ruínas. Suas portas e janelas foram arrancadas, e parte o telhado já havia caído. A estrada, calçada com blocos de cimento, que dá acesso ao Solar, estava totalmente coberta pelo mato, assim como o estacionamento.

Aproximei-me da porta, mas não tive coragem de entrar, pois como disse, já estava escuro e as casas de marimbondos caboclos, pendiam das portas e janelas em posição ameaçadora. Eram eles, junto com morcegos os guardiões daquele patrimônio.

Na entrada principal, impávido, lá estava um grande sapo cururu, bem postado na soleira, como se fosse o mordomo a espera do visitante. Esperava, talvez, alguma mariposa descuidada que por ali passasse em busca dos canaviais, que lhe complementaria sua refeição diária. Fiz algumas fotografias e prossegui viajem.

Hoje, como retornei da chácara mais cedo e estava acompanhado por alguns amigos, resolvi percorrer novamente aquele caminho coberto de mato, que leva ao Museu, com a intenção de mostrar aos amigos que me acompanhavam a situação de abandono que se encontrava aquele patrimônio de inestimável valor histórico.

Novamente me senti desconfortável diante daquelas ruínas, principalmente por ele ser parte da história da cidade de Ceará-Mirim, cidade que aprendi a amar e respeitar desde que aqui cheguei no início dos anos 80, para inaugurar a Agência do Banco do Brasil. Fiz e faço parte dessa cidade onde trabalhei durante 23 longos anos e conquistei grandes amigos.

Diante daquele quadro desolador, não pudemos deixar de nos perguntar: onde estão os Órgãos Públicos encarregados de manter e conservar aquele patrimônio?

Porque deixaram a situação chegar até esse ponto?

Que foi feito do mobiliário antigo que aqui existia?

Onde estão as várias peças, confeccionadas em jacarandá, e o belo piano de calda que adornava a sala principal?

É bem provável que hoje faça parte da mobília da casa de algum esperto, do tipo que considera o patrimônio público, como privado.

Adentramos ao casarão e pudemos constatar o que já imaginávamos quando chagamos próximos a entrada principal. Um verdadeiro espetáculo de destruição. Para todos os lados que olhávamos e por todos os cômodos que passávamos a visão era a mesma.

Cheguei ao pé da bela escada de madeira que lava ao sótão e resolvi subir. Temeroso pela minha segurança, pois não sabia o estado que ela se encontrava, prossegui degrau por degrau até chegar lá em cima. A todo tempo me desviando de morcegos e marimbondos, consegui chegar são e salvo até a parte mais alta do velho casarão.

O sótão, composto por vários cubículos, é beneficiado por uma boa ventilação. Uns compartimentos com mais altura e outros, acompanhando o telhado, terminam em locais tão baixos que não permitem uma pessoa ficar em pé.

No centro, onde fica a parte mais alta, uma janela para o nascente e outra para o poente, compõem sua arquitetura. Daquele local a visão é deslumbrante. Para o nascente se descortina o verde vale com seus canaviais ondulados ao sabor do vento.

Para o poente vemos alguns coqueiros centenários e por trás deles o verde escuro da mata, que esconde aos pouco o crepúsculo que chega com o final da tarde, também constitui uma visão maravilhosa.

Ainda foi possível observar que a última seção do corrimão da escada, que também servia de parapeito, havia desaparecido. O piso ainda apresenta bom estado, em virtude de ter sido feito com madeira de lei.

Entretanto, não pude deixar de notar que algumas tábuas estavam soltas, como se alguém as tivesse “preparado” para levá-las em outra oportunidade. Talvez a mesma pessoa que se apropriou indevidamente do corrimão da escada.

Quando já me preparava para descer, fui surpreendido com uma visão inusitada. Num canto do corredor, que separa as duas extremidades da casa, quase despercebido, lá estava imóvel e bem acomodado, o velho cururu. Não sei como o batráquio conseguiu chegar até aquele local, pois para isso, teve que vencer três lances de uma escada íngreme e de degraus muito estreitos.

Mas, o importante é que ele conseguiu, pelo simples fato de ter tentado. E nós porque não tomamos o exemplo daquele velho morador do museu e também tentamos fazer algo para salvar aquele monumento enquanto as paredes ainda resistem ao abandono, ao descaso das autoridades e ao ataque dos vândalos?

Por que não tentamos conseguir um pouquinho do nosso suado dinheiro, que principalmente nessa época, é usado na compra de votos e consciências desse nosso povo sofrido e culturalmente ignorante, para recuperar uma parte da nossa memória? É justamente MEMÓRIA o que mais nos falta.

Está literalmente em nossas mãos a oportunidade de mudar, escolhendo administradores comprometidos com a melhoria da Nação, principalmente no que se refere à educação. Um povo sem educação é presa fácil e sempre será refém de políticos espertalhões.

Natal, 13 de agosto de 2010.

*Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e membro do IHGRN e da UBE-RN

ADELLE DE OLIVEIRA:MEMORABILIA*

domingo, 1 de agosto de 2010


Por Ciro José Tavares

“E outros murchos vestígios do tempo
Sobre as paredes o passado evocavam;”
T.S.Eliot

Lembro quando cheguei, pela primeira vez. Anoitecia. Ela e Mariê atentas na estação de trens.Franzinas, risonhas, o crepuscular nos traços espalhados pelas faces.Caminhávamos pela Rua Grande na direção da casa, quando as lâmpadas dos postes foram acesas.

Era a hora do Ângelus, quando a concessionária disponibilizava, até 22 horas, aquela luz esmaecida,espécie de lusco-fusco liberto na escuridão que começava.

À porta, Virgínia, a irmã que o pai perfilhara na infância, abandonou a cozinha e veio abraçar-me.

Guardei a figura gentil,de gestos suaves, pele cor do cobre, cabelos curtos e escuros penteados para trás.

Nos dias que se seguiram a estrela apresentou as dimensões do seu universo. A cidade, quase sempre silenciosa, nas ladeiras, ruas estreitas e a Igreja Matriz, onde fieis oravam e suplicavam à Nossa Senhora da Conceição.

Do átrio víamos o vale, o verde do canavial misturado aos amarelos do sol e azuis perdidos no horizonte.

Aqui e ali, os escombros dos engenhos, sinais de um tempo sem retorno.

No meio de tudo isso Adelle de Oliveira emerge nas lembranças da Rua São José ou nas salas e varandas do Cumbe desaparecido, encantando com a beleza de sua poesia melancólica e misteriosa:

“Eis sobre ti a minha humilde pena:
Pesares, mágoas, infortúnios, tudo
Hás de agora sentir, ó folha amena !
Tenho pena de ti ! Foge-me a calma,
Em vez de transparências de veludo,
Tiveste a sorte de abrigar minh’alma.”

Isolada no Ceará –Mirim, na mesma casa que tantas vezes visitei, fez-se prisioneira dessa sentença inexorável que é o tempo. No livro Coisas de não Esquecer, Nilo Pereira diz que a saudade é a maior dimensão humana.

E Adelle, no poema Ignota Saudade, vasculha os insondáveis labirintos dos nossos corações e corrobora, verso após verso, a feliz observação do seu antigo discípulo no Externato Ângelo Varella.

E foi a saudade, mãos entrelaçadas à solidão, a causa principal dela ter sido consumida lentamente como uma vela e de ter, na lucidez dos seus 85 anos, tombado devagarzinho como o pequeno príncipe de Exupéry.

*No 41º aniversário da morte de Adelle de Oliveira.

ARTIGO: REINALDO AZEVEDO

sábado, 31 de julho de 2010

A crença na “cultura
da periferia” é coisa de
gente com miolo mole

E não é que o pensamento social moreno resolveu inventar? Num rasgo de criatividade, deu à luz uma jabuticaba teórica que chamarei aqui de Antropologia da Maldade. O seu objeto de estudo – ou de culto – são os índios bororos que moram nos morros do Rio. Ou os nhambiquaras do Capão Redondo, em São Paulo. Ou os caetés da periferia de Vitória. Ou os tupiniquins de qualquer aglomerado pobre do Brasil.
A exemplo de boa parte das idéias inúteis que circulam no país, os antropólogos da maldade estão nos cursos de humanidades e ciências sociais das nossas universidades, mas também se espalham pelas redações e chegam à televisão. Ocupam ainda posições de estado. Sua sacerdotisa midiática é a atriz Regina “Casebre”. A cada vez que ela proclama que “a periferia é o centro” – ou o contrário, sei lá –, somos remetidos imediatamente aos versos do inglês Auden (1907-1973): “And the crack in the tea-cup opens / A lane to the land of the dead”. A fenda na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.

Sei que pôr Auden e Regina Casé num mesmo parágrafo pode parecer certo exagero. Comentando esses mesmos versos num texto da década de 70, o jornalista Paulo Francis (1930-1997) observou que a xícara de chá representava a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. Trincada a xícara – um mundo, então, que desaparecia –, abriu-se caminho para as tragédias das duas grandes guerras.

Nossa “xícara” é outra. Não chegamos a ter uma “aristocracia”, mas já tivemos algumas ambições. O certo é que a Antropologia da Maldade decidiu fazer da barbárie uma civilização.
Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a periferia é que têm de ensinar funk e rap aos “imperialistas” e aos “playboys”, já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela “civilização” já não fosse a nossa.

Perguntaram certa feita ao antropólogo francês Lévi-Strauss (na verdade, nascido em Bruxelas) se ele havia se identificado com os índios que estudara. “De modo nenhum!”, respondeu. Os nossos antropólogos da maldade não chegam exatamente a se identificar com a “civilização” do morro e da periferia, mas têm por ela um respeito basbaque e reverencial. Lutam para preservá-la da nefasta influência da cultura central, esta nossa – vocês sabem, corroída pelo materialismo, pelo capitalismo e por um moralismo de fachada.

Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid, um dos refúgios do “pensamento” da esquerda contemporânea. Se a tentativa de ver a “cultura da periferia” como um sistema com valores próprios é só coisa de gente de miolo mole, uma banalidade, essa visão “preservacionista” da civilização da miséria pode assumir uma face cruel quando o assunto é, por exemplo, segurança pública.

A polícia, segundo os antropólogos da maldade, estaria proibida de subir o morro sem o prévio consentimento da “comunidade”, ou isso caracterizaria uma “invasão”. A disposição de enfrentar o crime, que seqüestra as áreas pobres das cidades, é encarada como um ato de guerra, uma hostilidade a um país estrangeiro. E os mortos nos confrontos – exceção feita aos policiais, os “soldados invasores” – serão sempre vítimas inocentes do país agressor.

Lévi-Strauss poderia ensinar a essa gente que os costumes e hábitos de superfície das sociedades – e, pois, também dos morros e das periferias – são manifestações de estruturas de poder. Parecem-me indecentes os protestos de artistas contra a ação da polícia no Rio em contraste com o seu silêncio então cúmplice diante do fato de que os soldados do tráfico matam livre e impunemente nas favelas.

A estupidez reacionária desses progressistas chega ao ponto de considerar que isso é coisa “lá deles”, da “outra cultura”, “matéria da autodeterminação dos povos”. Será que devemos reagir ao assassinato dos nossos pobres com o mesmo distanciamento antropológico com que reagimos ao infanticídio entre os ianomâmis?

É improvável que Lévi-Strauss retorne ao Brasil, repetindo a façanha de 1934, quando veio dar aula na Universidade de São Paulo. Agora com 99 anos, completados neste 28 de novembro, é compreensível que tenha outras prioridades.

Se o fizesse, talvez aproveitasse para adensar ainda mais a sua obra-marco, Antropologia Estrutural, ou, então, entre a melancolia e o escárnio, perceberia que fez muito bem em esculhambar o país em Tristes Trópicos, obra de 1955 com apontamentos sobre comunidades indígenas brasileiras e notas sobre a nossa cultura urbana. Sobrou até para os universitários, como não?

Nos anos 30, eles demonstravam certo desprezo pelos livros de referência, preferindo os resumos. Sua curiosidade intelectual se igualava a uma inquietação gastronômica, e o que parecia inteligência era só disputa por prestígio e vanglória…

Regina Casé, em seu programa de TV: a barbárie vista como civilização
Se voltasse, o quase centenário estudioso teria a chance de conhecer, então, esse novo saber. Por enquanto, ele está mais bem adaptado ao clima e à geografia do Rio, mas floresce também em São Paulo, uma cidade mais vetusta, razão por que os antropólogos da maldade, por aqui, costumam se esconder dentro de batinas – ainda que meramente simbólicas – e se entregam a folias físicas e metafísicas com seus “correrias” de estimação.

Quando Lévi-Strauss conheceu os índios bororos e nhambiquaras (os de verdade), sabia estar lidando com civilizações que estavam em outro estágio do domínio da natureza, mesmo para os padrões do Brasil, que já lhe pareceu, à sua maneira, tão primitivo, com suas cidades que iam do nascimento à decadência sem conhecer o apogeu.

Ele jamais demonstrou qualquer simpatia pelos grupos que estudou. Constituíam o seu material de trabalho. Bastava-lhe identificar as estruturas, o conjunto de relações, que fazem com que as sociedades sejam o que são – à sua maneira, de fato, cada uma delas encerra um mundo completo e dinâmico.

Assim, é perfeitamente possível supor que a cultura ianomâmi seja eficiente para… um ianomâmi. E só outro indivíduo do mesmo grupo é capaz de propor questões pertinentes que mudem a sua história. Veja como sou multiculturalista hoje em dia. Mas, confesso, no tempo de padre Anchieta, meu negócio era catequizar a bugrada.

Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes, com estruturas simbólicas definidas pelos indivíduos das tribos, e a postura progressista de um estudioso implica deixá-los entregues à sua própria dinâmica, à sua cultura, a seus valores. Mais do que isso: “eles” teriam algo a nos ensinar, assim como se supõe, ainda hoje, que os silvícolas – veja como sou antigo – podem nos abrir as portas da percepção para a generosidade, a convivência pacífica com a natureza, a igualdade, o associativismo…

Poucos se dão conta de que ser índio pode ser chato, difícil e cruel. O Brasil adotou o “bom selvagem” de Rousseau (1712-1778) – o “suíço, castelão e vagabundo”, como o chamou o poeta português Fernando Pessoa –, mas não deu a menor bola para as ironias do livro Cândido, de Voltaire (1694-1778), este, sim, um francês legítimo, que fez pouco caso da idéia de um homem em harmonia com a natureza.

A periferia e o morro não são o centro. Continuarão a ser o morro e a periferia, e seus “valores” particulares não são senão a manifestação de uma utopia regressiva de basbaques ideológicos que imaginam converter um dia a linguagem da violência em resistência política. Aquela gente não é o “outro”. Aquela gente somos nós, só que “sem fé, sem lei e sem rei”: sem esperança, sem estado e sem governo.

Mas você sabe: eu sou muito reacionário. Progressistas são os antropólogos da maldade, desbravadores das veredas que levam à terra dos mortos.

A LEITURA EM AGONIA

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Por Ezequiel Theodoro da Silva,
Do site Leitura Critica

Soube, hoje, do encerramento das atividades do LEIA BRASIL. Não posso deixar de vir a público para expressar a minha imensa tristeza diante deste acontecimento. Ao mesmo tempo, para demonstrar a minha intranquilidade a respeito do destino da leitura neste país.

Ao longo de minhas lutas por mais e melhores leituras para o povo brasileiro, sempre defendi a necessidade de uma “frente” constituída por uma grande - e diversa - quantidade de entidades (públicas e privadas) voltadas ao estudo e à promoção da leitura. A razão é mais do que óbvia: a vergonhosa, a horripilante paisagem que atualmente resulta dos descuidos e descasos dos governos brasileiros em relação ao desenvolvimento das práticas de leitura.

Em 2010, terceiro milênio, em meio às sociedades de informação e do conhecimento, o Brasil apresenta o terceiro PIOR nível de desigualdade de renda do mundo e um quadro sombrio expressando o número de leitores reais. A ferida do analfabetismo continua estuporada. Os iletrados funcionais representam quase a metade da população do país. A débil e debilitada rede de bibliotecas (públicas e escolares) nem de leve, nem de longe alimenta a promoção da leitura. Isto tudo a despeito dos incessantes - mas descontínuos, burocratizados e depauperados - programas de enfrentamento dessa questão.

Um dos efeitos básicos da leitura é a qualificação, para melhor, das decisões e ações dos indivíduos, robustecendo-lhes a cidadania. Outros países sabem disso e não perdem de vista o decisivo apoio aos trabalhos das entidades que indistintamente preservam e dinamizam os seus bens culturais escritos junto à população. No Brasil, infelizmente, ou se repete o erro de repetir políticas caolhas de apoio ao que não dá e nunca deu certo, ou se vira a cara para assistir, de camarote, talvez cinicamente rindo por dentro, à morte e ao sepultamento de importantes entidades culturais.

O valor do LEIA BRASIL advém da continuidade da iniciativa pioneira de Mário de Andrade de itinerar a leitura por entre escolas e comunidades através de caminhões. Um trabalho com professores e com estudantes de toda a comunidade escolar visitada para descobrir e experimentar algumas delícias do ato de ler. Advém também de um conjunto considerável de publicações (Leituras Compartilhadas, coleções de livros, CDs, DVDs, entrevistas, filmagens, etc.), de um poderoso portal de serviços pela Internet, de significativa participação em eventos nas várias regiões do país, de estudos e pesquisas, etc. Quer dizer, a entidade consolidou, historicamente, um “patrimônio” importantíssimo sobre as dinâmicas e os processos de leitura no Brasil - um patrimônio que seguramente vai pro brejo por falta de um olhar de natureza solidária, profissional, sensível dos organismos de apoio ou de patrocínio.

Não quero discutir e nem condenar as razões que levaram Jason Prado, o idealizador e coordenador do LEIA BRASIL, a essa decisão. Quero, isto sim, evidenciar aos leitores deste texto que a morte de uma entidade representa não apenas a permanência do nosso evidente atraso cultural na área, mas fundamentalmente o imenso desvio dos rumos que nos conduzem à conquista do direito à leitura, o que o fundo e à inversa, significa o alastramento da idiotice - ou muita esperteza cínica - nas esferas responsáveis pela educação e cultura no Brasil. E, por tabela ou como reflexo, o alastramento da idiotice por toda a sociedade.

O VÍCIO IMPUNE DA LEITURA

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Por Wilson Martins

JB Online – 30/1/2009

A infância, com os livros coloridos, e logo a adolescência, é a idade ideal para incutir nas crianças o vício da leitura – vício impunido, como o chamava Valery Larbaud.

A imprensa, nas palavras do papa Gregório XVI, é uma arte execranda e detestável, ou se preferirmos a linguagem litúrgica haec detestabilis atque execranda, condenação que a acompanhou desde as origens. O que, aliás, continua até hoje: viciado irrecuperável, Annibal Augusto Gama refere que, “há cerca de sessenta anos, no pátio do Colégio dos Maristas, em Franca, os irmãos mandavam queimar uma boa centena de livros tidos como deletérios, entre eles alguns de Monteiro Lobato”, incinerado simbolicamente através dos tempos.

A meiga Cecília Meireles qualificava de “detestáveis” os seus personagens, retomando, talvez sem querer, o vocabulário papal, enquanto os seus livros eram proibidos durante o Estado Novo de 1937: “o procurador Dr. Clóvis Kruel de Morais afirmava que o texto [de Peter Pan] era perigoso e alimentava nos espíritos infantis, ‘injustificavelmente’, um sentimento errôneo quanto ao governo do país’ e ‘incutia às crianças brasileiras a nossa inferioridade, desde o ambiente em que são colocadas até os mimos que lhes dão’” (Annibal Augusto Gama. Os diamantes de Ofir. Ribeirão Preto, SP: Funpec, 2008 e Marisa Lajolo/ João Luís Ceccantini, orgs. Monteiro Lobato de livro a livro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008).

Assim, a leitura pode ser um vício impunido e escondido, como todos os vícios, não sendo poucas as punições que a escrita e seus autores vieram sofrendo, na fogueira, nas prisões e no exílio, “desde que há homens e que escrevem”, para repetir as palavras de La Bruyère.
É verdade que o procurador Kruel tinha razão: é nos mais tenros anos que devemos expor as crianças ao vício da leitura. Foi o que aconteceu com Annibal Augusto Gama: “O amor dos livros nasceu em mim quando, ainda menino, mal conseguia ler as palavras impressas. Daí para a frente, tive-os sempre comigo”.

Contudo, é preciso evitar o irreparável erro pedagógico praticado nas escolas com a obstinação dos bens intencionais, que consiste em tentar despertar o “amor à leitura” com Camões e Machado de Assis impostos às crianças e adolescentes mentalmente imaturos.

Os chamados “grandes escritores” só serão aceitos por inteligências literariamente educadas: “Há livros que devem ser lidos na juventude, outros na maturidade, e ainda outros na velhice. Cada um exige a época própria do leitor” (Annibal Augusto Gama).

Livros que despertam o amor e, logo mais, o vício da leitura são, na adolescência, as novelas policiais e as narrativas de aventuras, que estimulam a inteligência e a ginástica mental, pondo o espírito a trabalhar, não os que o adormecem: “Quem teve a felicidade, em sua juventude, de ler essas novelas, descobrir o mundo através delas, debruçando-se também sobre a obra de Júlio Verne, sabe do que se trata”.

É a biblioteca imaginária da coleção Terramarear, da Coleção Amarela e dos livros de Conan Doyle, os Negreiros da Jamaica, As minas de Salomão (o que hoje já se sabe não ter sido escrito por Eça de Queiroz), mais Jack London e Mayne Reid, sem esquecer Emílio Salgari, cujo sobrenome os nativos de sua província natal pronunciam como proparoxítono.

Em lugar de supor que adolescentes de todas as idades (inclusive a mental) interessam-se por Dom Casmurro e conseguem entendê-lo, será possível introduzir José de Alencar pelas Minas de prata, não pelo Guarani.

A verdade é que cada livro não é um texto, mas um palimpsesto, no qual lemos ou relemos em filigrana todas as nossas leituras anteriores. Não há leituras definitivas: “A leitura de um livro antes lido e relido, e que, anos mais tarde você torna a pegar e a lê-lo de novo, da primeira à última página, esmoendo-o, analisando com exatidão cada frase, compreendendo tudo, interpretando cada passagem, descobrindo o que permanecia obscuro ou duvidoso, de tal sorte que, ao cabo, possa afirmar ‘este eu assimilei inteiramente, não há nada mais, em todo ele, que eu não saiba’”.

O verdadeiro leitor não tem “livro único”, mais importante que os demais, e, por isso, não pode responder a essa pergunta dos jornalistas.

E, muito menos, o livro folclórico que levaria para a ilha deserta, lugar, aliás, em que se pode pensar em tudo, menos na leitura. Nesse caso, Annibal Augusto Gama repete a resposta conhecida: “Atirados na ilha, dificilmente teremos ânimo para leituras, devendo procurar, antes de mais nada, os paus para fazer um barco que nos leve de volta (…)”.

O único livro a levar para a ilha é o manual de fabricação de canoas; os não-leitores denunciam-se desde logo ao declarar que levariam a Divina comédia ou as obras completas de Shakespeare, que provavelmente jamais haviam lido.

Wilson Martins é crítico literário.

JORNALISMO CULTURAL: UMA ABORDAGEM

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Por Ricardo Soares
Editor do blog Todaprosa [SP]

“Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar”. A frase do esquecido e sarcástico Aparício Torelly, o Barão de Itararé, ele próprio, de certa forma, um precursor do jornalismo cultural, ilustra bem o que tenho a dizer sobre a prática jornalística que gravita ao redor dos assuntos culturais.

O que penso hoje do jornalismo cultural de mídia impressa, sobretudo o que é feito nas revistas, é muito diferente do que eu pensava no início de minha carreira.

Hoje acho triste especialmente que não tenhamos idéias a mudar como temia o Barão de Itararé. O jornalismo cultural parte de falsas premissas, pratos feitos e já servidíssimos pelo mercado, preconceitos. Está muito mais ligado a marketing cultural do que a jornalismo cultural. Ou seja: divulgue-se bem e fique bem na fita. Por isso os assessores de imprensa, consultores e personal bullshits se tornaram tão primordiais.

Não quero aqui dar uma visão rancorosa e nem truculenta do que está acontecendo até porque existem exceções às regras. Mas , no caso, são poucas. Até porque boa parte dos jovens profissionais que ingressam no mercado nesse segmento não seguem a brilhante premissa do professor, escritor e antropólogo Darcy Ribeiro que dizia: “Jovens duvidem!”.

Isso posto quero dizer a vocês que aqui estou para de certa forma desafinar o coro dos contentes. Dizer que pouco, muito pouco do que se produz em cultura no Brasil está nas páginas culturais das revistas. Pouco ou muito pouco é pautado pela qualidade.

Pouco ou quase nada reflete o que de fato está acontecendo culturalmente nos quatro cantos do país. Isso sem contar a catastrófica e triste colonização cultural que nos fazem crer que somos uma sucursal do Soho novaiorquino quando não passamos de uma colônia chicana pra os gringos que mal e mal conhecem nosso carnaval e futebol.

Nos atribuímos uma importância que não temos de dentro pra fora e de fora pra dentro macaqueamos qualquer novidade que vem de fora abrindo muito mais espaço para uma banda de garagem londrina ou um escritor dinamarquês do que os produtos locais.

Defender a cultura brasileira nas páginas das revistas brasileiras que falam de cultura não se trata de xenofobia e sim de levantar nossa auto- estima. Não seremos mais pródigos ou mais civilizados se soubermos de cor os programas de ópera de fora ou as novidades da Broadway e não soubermos quem foi Artur Azevedo, Mário de Andrade, Campos de Carvalho, Rosário Fusco, Nise da Silveira, José Agripino de Paula, Valêncio Xavier e Luis da Câmara Cascudo. Isso para citar poucos nomes mas que de alguma forma representam transgressão e brasilidade.

Produtos culturais em estado bruto que só poderiam vicejar no Brasil.Dou apenas uma rápida passada no escritor e folclorista Luis da Câmara Cascudo que tendo nascido e vivido em Natal, Rio Grande do Norte, construiu uma das mais importantes obras de identidade nacional, uma obra universal.

Muitos defendem que Cascudo, quando se debruça em questões culturais, foi um pioneiro do jornalismo cultural não só pelo tema que escolheu como pela maneira como a qual escrevia sobre o assunto.

No blog do escritor e jornalista potiguar Franklin Jorge ele conta o que Cascudo fez em 1934… Experiente no ofício que abraçou aos dezoito anos, Cascudo está incluído entre os precursores do jornalismo cultural, ao evidenciar em seu livro (“Viajando o Sertão”) aspectos característicos do gênero, segundo a posterior classificação de Tom Wolfe, um dos criadores do chamado Novo

Jornalismo que surgiu em Nova York e contaminou a imprensa moderna a partir de 1960. Um jornalismo dominado “por uma esmagadora necessidade de fazer parte do mundo real”, que o levou a realizar uma espécie de autópsia social, histórica e etnográfica, ao exigir-lhe o exercício do pensamento e uma intervenção direta no processo da entrevista.

Em “Viajando o Sertão”, o livro mais revelador do processo de trabalho de Cascudo, mostra-nos o repórter em ação e não o intelectual de gabinete, atrás de um birô, sem contato direto com o objeto de sua escrita. Medularmente jornalista, formado na escola do jornalismo desde os dezoito anos, quando o pai o presenteou com um jornal – A Imprensa –, Cascudo ia em pessoa à procura dos fatos, antecipando-se aos manuais do jornalismo moderno(…).

Em seus textos jornalísticos exercita Cascudo — avant la lettre — alguns característicos do New Journalism, o jornalismo cultural por excelência. Um jornalismo, digamos subjetivo, em oposição ao jornalismo objetivo que terá inspirado a Nelson Rodrigues a paradigmática figura do “idiota da objetividade” – um vulgar portador da informação desprovida de conhecimento.

ERA UMA VEZ UM DICIONÁRIO…

terça-feira, 6 de julho de 2010

Por João da Mata Costa

“Já consultou o Cascudo? Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo”

 Carlos Drummond de Andrade

 
 

A Nona edição do “Dicionário do Folclore Brasileiro”, obra de uma vida inteira escrita por Luís da Câmara Cascudo, foi editada pela editora Global em 2000. Edição Revista, atualizada e ilustrada (sic).

E pode?

Quem autorizou?

Tenho todas as edições desse dicionário e qual não foi a minha surpresa ao constatar que a nova edição do Dicionário foi completamente modificada.

A 1ª edição saiu em 1954. A 2ª ed. 1959. A 3ª ed., 1972.  No prefácio da 4ª ed., escreve Cascudo, em 1979. “Para essa 4ª ed, aliás 5ª por ter havido da 2ª  uma reimpressão nas Edições de Ouro, trago correções, melhoria bibliográfica, alguns verbetes lembrados e reclamados pelos leitores e originais de Carlos Krebs e Moarci Sempé, gaúchos, e a homenagem aos companheiros falecidos depois de 1972” .  No prefácio da 5ª ed. em 1983, Cascudo anuncia não haver alteração no texto do Dicionário devido ao seu estado de saúde.

Qual não foi nossa surpresa ao comparar a nona edição do famoso Dicionário do Folclore Brasileiro, uma das obras mais importantes e referenciadas do polígrafo Cascudo, e constatar que o livro foi completamente adulterado e modificado para pior, em nossa opinião. Muitos verbetes foram suprimidos. Outros alterados. Verbetes foram acrescidos. As ricas referências bibliográficas ao final do verbete foram retiradas. Grafias modificadas.

O dicionário de Cascudo é uma obra irregular, mas o livro é como um filho que não pode ser modificado em sua essência e conteúdo. Alguns verbetes são muito ricos em suas informações e conteúdos outros nem tanto. Ainda assim uma obra gigantesca.

A edição da Global altera completamente a obra e isso é inadmissível. Os belos verbetes “Aboio” e Acauã foram reduzidos de forma criminosa. No verbete Aboio, a edição da Global incluiu uma pequena partitura colhida em Araraquara/SP e uma outra linha melódica retirada do livro “As melodias do boi e outras peças”, do Mário de Andrade.   Nada que justifique a redução do texto.   

Os verbetes Abadá, Abuxó e tantos outros foram retirados.  E foram incluídos abacaxi e abobrinha. Algumas ilustrações foram acrescidas na nona edição. Como se diz aqui no nordeste, o que foi feito com o Dicionário do Cascudo é um tremendo abacaxi. E foram muitas as abobrinhas colocadas, o que provocou um empobrecimento do livro.  Um crime que espero não seja repetido em edições futuras.

CÂMARA CASCUDO E A XIFOPAGIA

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Por João da Mata Costa

A paixão gilbertiana pelo mestre da cultura popular Câmara Cascudo é comovente porquê, com conhecimento de causa e leituras criteriosas do vasto e profundo universo cascudiano.

Na revista “Caros Amigos” a primeira coisa que leio é o Pequeno Folhetim do Folclore do Gilberto Vasconcellos que acaba de lançar um belo livro “A questão do Folclore do Brasil do sincretismo à xifopagia” pela EDUFRN no selo da coleção Estudos Norte-Riograndenses.“Tudo que é importante no Brasil vem de Machado de Assis e Euclides da Cunha”, concordo.

Gilberto visitou Cascudo mouco e veio morar no nordeste para escrever sobre o seu xará de Apipucos. Escreveu um livro comovente sobre o autor de uma das bíblias da cultura brasileira Casa Grande & Senzala. O ensaio Xará de Apipucos foi editado pela Casa Amarela e é um hino de amor ao escritor e homem Gilberto Freyre.
Na “Caros Amigos” a maioria dos artigos falam de cascudo com um certa devoção “ Nunca tive em minha vida respeito religioso por ninguém a não ser quando fui visitar Luis da Câmara Cascudo”.

Pra falar do seu xará de Apipucos, Gilberto não consegue deixar de falar de Euclides da Cunha e Câmara Cascudo com num tríbio amor intelectual por esses três grandes fazedores da cultura que se complementam numa xifopagia.

Gilberto lê Cascudo e destaca o importante conceito da xifopagia encontrado principalmente no livro Sociologia do Açúcar, de 1971. O açúcar que é tudo pra o Brasileiro. Cachaça, açúcar para adoçar a vida e energia.

A bagaceira de engenho é vista por Cascudo como um laboratório de aculturação. Foi aí que o negro africano tornou-se brasileiro. Nesse parlatório os bantos deixaram Zambi por Xangô e Quianda por Yemanjá (Sociologia do Açúcar 1971).O negro brasileiro, o santo guerreiro na Bahia, São Jorge esse siegfried católico, converteu-se em Ogum.
Citando o pesquisador Roger Bastide Cascudo constata que não há contradição entre a cruz e a figa, entre a missa e o terreiro, entre o Padre Eterno e Olorum. O homem do candomblé no Brasil vive nos dois mundo sem nenhum problema (G. Vasconcellos p. 35 obra citada).
Mas o que é xifopagia? Consulto o dicionário do folclore de Cascudo e não encontro esse verbete. A xifopagia seria algo assim: uma miscigenação mantendo as individualidades. As etnias Européias, Americana e Africana se misturaram mantendo sua identidade. Uma mistura sem mistura. Com a palavra meu querido Gilberto de Vasconcellos:

A trajetória do sincretismo à xifopagia detectada na disciplina do folclore com Luis da Câmara Cascudo, mostra a influencia ibérica predominante na cultura popular, e a inexistência de fusão propriamente dita de santos e orixás nos cultos afro-católicos.

Assim, o procedimento sincrético, em termos de crença ritual, é substituído pela urdidura xifopágica em que a mistura não se diferencia do resultado, permanecendo uma estrutura mental com elementos distintos e paralelos. (A Questão do Folclore no Brasil p. 93).Ler Cascudo é uma delícia. Vasconcellos sabe disso e se apaixonou por seu objeto de estudo.
Cascudo é uma enciclopédia que dialoga com os grandes estudiosos da cultura brasileira: Gustavo Barroso, Roger Bastide, Henry Koster, Dante Laytano, Arthur Ramos e Silvio Romero. Todos referenciados pelo grande escritor Gilberto Felisberto Vasconcellos em mais um belo livro. Belo livro. Os cascudianos agradecem.

VIRGINIA WOOLF

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Por Chico Lopes

Um volume de uma coleção chamada “Vidas literárias”, da Jorge Zahar Editor, trazendo “Virginia Woolf”, por John Lehmann, me atraiu num sebo. Na capa, a figura estilizada da escritora, numa praia, com livros ao seu lado, e o mar com um infalível farol (encoberto por nuvens) ao fundo.

Já se leu mais Virginia Woolf no Brasil. Lembro-me que nos anos 80, todo mundo começou a conhecê-la melhor, pelos muitos livros seus lançados pela Nova Fronteira e por uma edição de “Orlando” que circulava como “cult book” entre escritores seduzidos por aquele estilo e aquela audácia criativa e por entre adeptos de uma vida sexual e existencialmente mais livre. É ainda seu livro mais famoso e mais acessível, e teve belíssima tradução brasileira por Cecília Meirelles. A capa trazia uma foto emblemática da beleza enigmática e torturada de Virgínia, muito repetida desde então.

Mas o livro deu origem a um culto equivocado, baseado na sexualidade polêmica da escritora que, ao que tudo indica, foi quase indiferente ao assunto (nisso se parecendo um pouco com a enigmática Garbo), mas teria tido uma paixão por Vita Sackville-Vest, a quem o romance foi dedicado.

Orlando, o personagem, atravessa séculos, sendo indiferentemente homem ou mulher, e a narrativa é cheia de um humor peculiarmente “woolfiano”, sarcástico e desafiador. Ao longo dos séculos, Orlando, que é um(a) candidato(a) a escritor(a), carrega consigo um poema esboçado chamado “O carvalho”, razão pela qual, no início do livro, na era elizabetana, estabelece relação com um poeta importante, cujas obras financia.

É um caráter bastante duvidoso, o do poeta. É engraçado ver aí o aristocrático Orlando, querendo ser literato e topando com uma figura de talento literário, mas tão pouco confiável humanamente, que só queria adulá-lo para ser financiado e seguir sua vida de escritor, aliás, conturbada, com um monte de filhos e dívidas; ele conclui que há muita baixeza em “gente de Letras” e, não obstante, segue sustentando a carreira do ilustre mau-caráter. Porque seu amor pela Literatura está acima de qualquer coisa.

Medos e mitos
Virginia tem muito senso de humor em seu “Orlando” e é muito sarcástica em suas memórias (“Momentos de vida” é corajoso e até contundente, mas jamais vulgar, em algumas passagens) e diários, justificando a famosa frase do medo que inspiraria e que rendeu um trocadilho que só faz sentido em Inglês, título de uma peça teatral de Edward Albee.

Tinha língua ferina e era capaz de liquidar reputações e inspirar terror com ela. Mas era pouco mais que uma criatura muito frágil, de uma sensibilidade demasiado à flor da pele, e até mesmo desprovida de humor, em muitos livros.

Fora “Orlando” e “Miss Dalloway”, eu particularmente não consegui me ligar na ficção de Virginia em “O farol”, “Noite e dia”, “As ondas”, “Entre os atos” etc. O estilo dela, que funciona maravilhosamente em determinados assuntos, fica opaco e redundante em outros, com toques de sensibilidade um tanto “feminina” no mau sentido, desperdiçada em sucessivas análises de sensações, locais, impressões.

É uma prosa sempre brilhante, mas cai no rebarbativo e em certo “culto à sensibilidade excêntrica” que pode se tornar chato. É possível afirmar que, em sua ficção, ela alternou pontos altíssimos, que a celebrizaram com justiça, com outros bem medianos ou simplesmente desdenháveis, e nem isso a impediu de ter a grandeza que teve.

A sua vida permanece interessando, talvez porque o Grupo de Bloomsbury, celebrizado por ser libertino e vanguardeiro na era vitoriana e aprontar bastante do ponto de vista social, continue atiçando a imaginação.

Essa convivência de gente muito talentosa e anti-convencional, culta, refinada e adepta de franqueza e do culto da inteligência ao custo da civilidade polida demais que redundava em hipocrisia, parece um fenômeno de Civilização e Cultura que só poderia se dar na Inglaterra daqueles tempos, mas, sem dúvida, todo grupinho unido por apelos anti-convencionais, onde se misturem sensibilidade e sexualidades heterodoxas, fica lisonjeado e estimulado pela existência histórica desse Bloomsbury.

Virginia conta que ela e a irmã, a pintora Vanessa Bell, acharam que tudo começou a mudar quando um dia um irmão de criação das duas pronunciou, rindo e corajosamente, a palavra “esperma”. O excessivo refreio do pudor vitoriano vinha abaixo, e não era sem tempo, ao menos para elas.

Depois, curiosamente, num trecho bastante engraçado de suas memórias, ela lembra que a convivência com Keynes, Strachey e outros integrantes do grupo famoso pareceu a ela e a irmã interessantíssima do ponto de vista intelectual, pois eles eram finalmente homens com os quais uma mulher poderia conversar em abstrato, penetrar no mundo das ideias sem se sentir perturbada pelo interesse sexual que tornaria um homem sempre incômodo para manter uma amizade com uma mulher.

Mas, precisamente isso passou a ser perturbador, porque ambas não se sentiam desejadas (o desejo de um sexo pelo outro seria um elemento de excitação fundamental num salão social misto) e demoraram um pouco a perceber que eram todos homossexuais. É divertido, porque Virginia descobria o óbvio: que as mulheres sempre se sentirão melhor na companhia dos “gays” porque eles são indiferentes a elas. Com héteros, a coisa pode se complicar, e muito.

Este volume da Zahar é amplamente servido por fotos de Virginia e de membros de sua família e do grupo, com reproduções de pinturas da irmã de Virginia e até de Dora Carrington, vivida por Emma Thompson no filme inglês em que se conta da desesperada paixão da pintora pelo escritor homossexual Lytton Strachey (feito pelo ator Jonathan Pryce).

O filme não era grande coisa, exceto pelas boas interpretações principais, e o Cinema ainda não parece ter feito um filme à altura de Virginia e de seu grupo. Achei “As horas”, inspirado em sua vida, bastante duvidoso, até porque a transformação de Nicole Kidman (premiada com um Oscar) numa mulher feia, com um nariz estranho, para se parecer com a verdadeira Virginia, se baseou num equívoco – o famoso clichê de Hollywood de que mulher intelectualizada tem que ser automaticamente feia.

Virginia, de um modo nada convencional, era uma mulher belíssima, e a sucessão de fotos que esse livro de Lehmann exibe é capaz de convencer qualquer um do autêntico encanto da escritora.

O livro também nos faz admirar ainda mais a figura realmente enigmática do marido de Virginia, Leonard Woolf, que realizou com a escritora um casamento célebre pela ausência de sexo. Essa castidade é acima de tudo comovente, embora nada compreendida hoje em dia.

Virginia, com seu grupo (claro que sem saber, como todo pioneiro em mudanças de comportamento social), deflagrava um tipo de atitude necessária para vencer a hipocrisia de sociedades muito fechadas e preconceituosas e não podia prever os excessos que daí viriam, inclusive a sociedade de consumo voltada para um culto obsessivo do desnudamento pessoal em todos os sentidos, com toda a abjeção do voyeurismo de hoje.

Ninguém nem mesmo sonharia com o retorno da polidez nos termos vitorianos, mas a grande verdade é que a franqueza a qualquer custo tornou o mundo muitíssimo mais vulgar e deprimente. Fez com que cada um julgasse sua pífia intimidade pessoal uma espécie de legado para o mundo todo ver e conhecer.

E fez com que a velha “boa educação” parecesse sempre máscara de sentimentos condenáveis e interesses baixos, como se o ser humano jamais pudesse se elevar da lama e, se o tentasse, tivesse que ser necessariamente convencido de que a humanidade só é crível quando se revela torpe. Uma pena que isso tenha ficado epidêmico.

Em todo caso, a arte de Virgínia, que inspirou também, infelizmente, muita gente interessada apenas em pirotecnias “sensíveis” e anti-linearidades presunçosas, é muito mais refinada e interessante do que as pessoas que ouviram falar superficialmente da escritora suspeitam. E conhecer essa biografia cheia de belas imagens de Lehmann só reforçará isso.

O BRASILEIRO RUI BARBOSA

domingo, 27 de junho de 2010

Por Ypojuca Pontes

A ação múltipla de Rui Barbosa desmonta o velho trololó marxista de que a história se move por meio da luta de classes e não pela vontade de homens (e mulheres) capazes e decididos. Dotado de saber, caráter, energia, constância e sensibilidade, o Dr. Barbosa era um ser muito acima dos seus pares.

Certa feita, um obscuro comentarista de jornal escreveu que a biografia era um gênero literário de geografia definida, limitado ao norte pela história, ao sul pela ficção, ao leste pelo obituário e a oeste pelo tédio.

Desde logo a frase, bem construída, pega pelo balizamento estrutural do gênero, mas peca pelo princípio da generalização: nem sempre a biografia, enquanto gênero literário, aborrece, em particular quando é traçada por um escritor de estilo claro e íntegro, que compreenda o tempo, o sentido da vida e a obra do seu personagem.

(A propósito - cumpre lembrar - ficou célebre nos anais da história literária o caso da biografia do lexicólogo inglês Samuel Johnson: o seu biógrafo e confidente, James Boswell, tornou-se mais festejado do que o próprio biografado - autor, por sinal, da frase lapidar: “O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”).

Este é justamente o caso do escritor Murilo Melo Filho, em seu livro “O brasileiro Rui Barbosa” (União Editora, João Pessoa, 2010), lançamento não apenas oportuno e essencial, mas de leitura cativante.

Oportuno, em primeiro lugar, porque ao ser lançado em momento tão singularmente acanalhado da vida pública brasileira, recoloca na ordem do dia a pouco lembrada figura de Rui Barbosa, um dos nossos raros homens públicos que soube manter ao longo da vida (de 73 anos) a necessária decência; essencial, porque em exatas 255 páginas a obra nos concede, em substância, os elementos indispensáveis para se avaliar com objetividade a presença marcante de Rui Barbosa no cenário nacional - cenário em que se fez legenda não só como jornalista, político e jurista, mas como escritor, filólogo, educador, diplomata (sem jamais ter passado pelo Itamaraty) e orador; e cativante, por sua vez, porque o autor conduz o leitor - em meio ao levantamento de uma vida plena de peripécias e dramaticidade - ao deleite de pura fruição estética, algo só perceptível na genuína obra literária.

Na sua bem-sucedida empreitada, Murilo Melo Filho soube realçar os muitos atributos que definiram (e definem, ainda hoje) o brasileiro Rui Barbosa, especialmente no que ele tinha (vá lá o chavão) de inteligente, culto, corajoso, fluente e tenaz. No capítulo tenacidade, como realçam alguns biógrafos, Rui Barbosa tinha por hábito trabalhar até 15 horas por dia, uma coisa espantosa, sobretudo para quem, como ele, convivia com freqüentes problemas de saúde, não passava de 1,58m de altura, pesando em média 49 quilos.

De ordinário, para se reconstituir a vida de personagem de grande estatura histórica se faz necessário algo mais do que a simples tarefa de coligir fatos, intercalados de datas - uma constante no trabalho de certos biógrafos, nacionais ou estrangeiros, em geral incapazes de refletir sobre o passado.

Neste terreno intrincado, como é sabido, antes de cumprir as tarefas básicas do ofício (ler cartas, livros, estudar documentos, consultar arquivos, entrevistar pessoas, etc.), há que se admirar, nos seus prós e contras, para o bem ou para o mal, a figura do personagem a ser retratado.

Nesta perspectiva, ao considerar Rui Barbosa o protagonista principal da nossa história dita culta e civilizada, no Império e na República, Murilo Melo Filho vai fundo na sua admiração, assumindo a postura de biógrafo consciente e criterioso.

De início, o livro de MMF se impõe como trabalho abrangente. O autor, sem fugir à complexidade do desafio, se empenha em revelar as múltiplas facetas do brasileiro Rui Barbosa, tais como, por exemplo, as do abolicionista, salientando sua extraordinária capacidade de luta para nos livrar, sem o rancor ideológico das cotas raciais em voga, da chaga da escravidão tardia.

Neste embate, travado por Rui no parlamento e nas redações de jornais, seu empenho foi tanto que o próprio Machado de Assis diagnosticou: “Ninguém o excedeu, em brilho e em denodo, na libertação dos escravos”.

Não menos importante, por outro lado, foi a sua participação na construção da República (hoje muito exaltada, mas cada vez mais vilipendiada). De fato, embora respeitado por D. Pedro II, um monarca moderador, Rui era um federalista convicto e logo aderiu à conspiração, transformando-se no arauto da idéia republicana.

Quando o Império é derrubado e a República é proclamada sob os olhares do povo “perplexo e bestificado”, em 15 de novembro de 1889, Rui redige o Decreto provisório que estabeleceu a República Federativa Brasileira, separando a Igreja do Estado - quem sabe, uma das prováveis causas do vácuo moral que se abate sobre o País.

Posteriormente, sozinho, redigiu a Constituição de 1891, fortemente inspirada na Constituição dos Estados Unidos, descentralizadora dos poderes, dando larga autonomia, hoje sonegada, aos municípios e às províncias, transformadas em “estados”. Feito Vice-Chefe do Governo Provisório de Deodoro da Fonseca, Rui Barbosa lançou um manifesto cujo lema era o seguinte: “Com a lei, pela lei e dentro da lei, por que fora da lei não há salvação.Ouso dizer que este é o programa da República”.

Estudiosos desta fase da vida nacional acreditam que Rui, nomeado ministro da Fazenda, abriu séria fenda na sua biografia.

De fato, ao impor, na “macroeconomia” cabocla, a conversibilidade do padrão-ouro, o baiano, tal como o venturoso JK, passou a emitir papel moeda aos borbotões, dando margem à política do “encilhamento”, propulsora do jogo especulativo da bolsa, que fez fortunas da noite para o dia e levou o país à inflação galopante, à “carestia” e à quebradeira geral. Como resultado, veio a crise política e a previsível renúncia do ministério.

Rui só ergueu a cabeça (que lhe era desproporcional ao tamanho do corpo) seis anos depois, em 1907, por ocasião da Conferência de Paz, em Haia, onde representou o Brasil na qualidade de Embaixador Plenipotenciário.

Na Conferência - considerada a maior assembléia diplomática internacional até então realizada, com a participação de 44 países do chamado mundo civilizado - a atuação de Rui colocou o Brasil (então, uma floresta gigantesca com 25 milhões de habitantes) nas páginas da história universal.

De início, causou surpresa ver aquela figura mirrada, quase anã, analisar projetos e apresentar emendas e substitutivos no mais irrepreensível francês. Criou ressentimentos, é claro. Numa dessas reuniões, Rui invocou-se ao sentir que um seu discurso, considerado político pelo presidente da Mesa (o embaixador russo De Martens), não seria transcrito nos Anais.

Foi o suficiente para que o orador, até então visto com descaso, subisse à tribuna e, de improviso, fizesse o mais lúcido discurso por acaso já proferido numa conferência internacional sobre as distinções entre a baixa e a alta política, sendo esta, no seu entender, a atmosfera em que podem respirar os povos civilizados - razão pela qual, afirmava, não poderia ser ela excluída de uma assembléia de homens livres.

E num arremate marcante, concluiu que a alta política tornava inatacável o princípio da justiça, sem o qual não poderia prevalecer a soberania do direito e a almejada igualdade jurídica entre os povos. O mundo, ali representado, desabou.

Mas o seu grande tento não ficou restrito à palavra. No final da Conferência, no momento da criação da Corte Permanente de Justiça composta por cinco integrantes - Rússia, França, Inglaterra, Áustria e Estados Unidos -, denunciou a manobra, repudiando a formação do quinquovirato. Com o gesto, obrigou as grandes potências incluírem na Comissão Permanente de Justiça de Haia (que julgou, recentemente, o sérvio Slobodan Milosevic), não apenas a representação das cinco nações, mas de todas as nações presentes.

Como registrou o delegado belga Lapradelle, “Aquela figura frágil agigantou-se em tamanho e grandeza. Através do Dr. Barbosa, o Brasil alçava-se a uma posição culminante. Ele poderia aliar-se aos maiores, mas preferiu teimar em defesa dos pequenos”.

Durante quase meio século a Águia de Haia impôs-se como fenômeno político único e duradouro: deputado provincial, inúmeras vezes senador da República e duas vezes candidato (derrotado) à presidente da Nação (numa delas, na campanha Civilista, contra o folclórico Marechal Hermes da Fonseca), ele assumiu, com legitimidade, o papel da melhor consciência nacional, sempre se insurgindo, com voz firme e oratória incisiva, contra os políticos boçais e desonestos, as maquinações de governos malandros, as imposturas dos movimentos supostamente democráticos e, sobretudo, a alarmante e contagiosa burrice nacional.

Escritor exigente, autor de clássicos da língua portuguesa (da qual foi intransigente defensor), presidente da Academia Brasileira de Letras a despeito de sua vontade, Rui Barbosa foi o relator responsável pelo mais completo projeto de Reforma de Ensino Primário, Secundário e Superior até hoje encaminhado ao poder público - reforma que partia da observação singular de que “os maus alunos serão maus professores, que, por sua vez, serão péssimos líderes”. Na verdade, como o seu objetivo era “ensinar a pensar, a compreender as instituições e a construir a nacionalidade”, seu projeto, em essência, continua intocado.

De minha parte, penso que a ação múltipla de Rui Barbosa desmonta o velho trololó marxista de que a história se move por meio da luta de classes e não pela vontade de homens (e mulheres) capazes e decididos. Com efeito, Rui Barbosa, que exaltava o papel do indivíduo, aprofundou os alicerces da nação brasileira, debatendo os seus principais problemas e enfrentando com inteireza suas questões morais, políticas e sociais. Dotado de saber, caráter, energia, constância e sensibilidade, o Dr. Barbosa era um ser muito acima dos seus pares.

Quero crer que se os integrantes mais conscientes das novas gerações soubessem, por exemplo, que Rui Barbosa, no final da vida, doente e necessitado, recusou, por questão de consciência, projeto do Senado Federal que lhe assegurava prêmio de 5 mil contos; e que, para não deixar o Brasil cair de quatro, recusou o privilegiado cargo de Juiz Permanente na Corte Internacional de Haia; e que, exilado em Londres, em vez sacar dinheiro dos cofres partidários ou assaltar bancos, resolveu lecionar em terra estranha, colocando numa placa de rua o anúncio “Ensina-se inglês”; e que, mesmo atacando em prólogo a infalibilidade do Papa, acreditava em Deus e não deixava de ir para a cama sem rezar de joelhos; e que, no final da vida, na alvorada da morte, escreveu peça oratória da dimensão de “Oração aos Moços”, um testamento cívico e moral sem precedentes na vida do povos - bem, repito, se os integrantes das novas gerações soubessem disso, na certa arrancariam os próprios olhos, como fez o malsinado Édipo, em Tebas, diante do horror da realidade trágica que o cercava.

Em suma, “O brasileiro Rui Barbosa” é um livro fascinante, que nos livra da praga das interpretações “desconstrutivistas” dos professores universitários. Devemos agradecer, penhorados, ao jornalista e escritor Murilo Melo Filho ter sabido criar e oferecer uma obra tão inesperada quanto valiosa.

PARAMIOLOGIA

domingo, 27 de junho de 2010

Por João da Mata Costa

São as mais aprovadas sentenças que a experiência achou as ações
humanas, ditas em breves e elegantes palavras. Padre Antonio Delicado
(citado por Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro)

Parece-me, Sancho, que não há rifão que não seja verdadeiro, porque todos
eles contêm sentenças consagradas pela experiência, mãe de todo o saber.
(Dom Quixote de Miguel de Cervantes)

A paramiologia é um dos assuntos mais férteis da literatura popular. A
sabedoria do povo na forma de ditos seculares que remontam à idade média.

O Dom Quixote de la Mancha é um rico manancial de paramiologia, onde
abundam os rifões, provérbios, frases proverbiais, anexins e outros tipos
de parêmias. O Sancho Pança e sua mulher Tereza Pança falam muitos rifões.
O Quixote também, apesar de reclamar do Sancho sua proverbial sabedoria.

No prefácio à edição do Quixote em 5v pela José Olympio, Cascudo escreve
sobre esses provérbios que encantam gerações e estão muitos presentes na
nossa cultura e nas falas dos nossos pais e avós.

É lamentável a fala do senhor Ivan Lessa (BBC/ Estadão “Do infinito besteirol dos ditados
populares em 09/06/10) que conhecesse um pouco mais a cultura brasileira
não diria asneiras e receberia o conselho do Quixote ( parafraseando) : –

Nunca interpretes arbitrariamente o que a sabedoria popular diz como fazem
os ignorantes que têm presunção de ter grandeza.

Excertos de Paramiologia do Quixote
:
1-As sentenças ou máximas contém uma sabedoria popular
Mas vale bom nome que muita riqueza (Sancho II, 33) Eclesiastes VII, 2

2-Provérbio
Sempre ouvi dizer: Quem canta seus males espanta (I, 22)
Virgílio – Georgica I, 293 (citado por Cascudo in obra cit.)

3- Adágio
[...] cumprindo-se o adágio de que às vezes paga o justo pelo pecador (I, 7)
Una golondrina sola não hace verano (I, 13),
Uma andorinha só não faz verão
Uma andorinha só não faz primavera

Em português e espanhol medieval e clássico é comum a sinonímia verão e
primavera.

Conselhos de Dom Quixote a Sancho Pança, antes que seu escudeiro fosse
governar a ilha Baratária:

-Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os
ignorantes que têm presunção de ter grandeza.

-Anda devagar, fala pausadamente, mas não de forma que pareça que te
escutas a ti mesmo, porque toda afetação é má.

GILBERTIANAS

domingo, 27 de junho de 2010

Por João da Mata

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nesse breve ensaio comentamos a força que o erotismo tem na obra gilbertiana e a relação do escritor com as ditaduras.

1- Gilberto Freyre e as Ditaduras
O escritor de Sobrados e Mocambos e Assombrações no Recife Velho foi um grande interprete do Brasil. Escreveu alguns dos maiores livros da cultura Brasileira. Era um homem extremamente vaidoso. Vaidoso por ser um grande escritor. Ou escritor porque vaidoso.

Seu biógrafo Edson Nery também é um homem vaidoso. Usa perfume francês, gravata borboleta e atua com se fora um lorde Inglês. Gilberto Freyre, no prefácio do livro Minha Formação do Joaquim Nabuco, comenta sobre o caráter apolíneo e narcisista do escritor pernambucano também grande camonista.

Nesse janeiro próximo comemora-se o centenário da morte do grande abolicionista Joaquim Nabuco. São grandes e vaidosos escritores que muitas vezes vêem além do que conseguimos vislumbrar e sentir.

Gilberto Freyre teve uma relação cúmplice com as forças armadas, para ele, “Uma força suprapartidária na vida pública Brasileira” (artigo em Anexo, publicado em O Cruzeiro de 19 de Setembro de 1964, ano que começou a terrível ditadura militar). Elogia ao final do artigo líderes como Humberto Castello Branco, Kruel, Mourão, Justino Alves, Costa e Silva e Francisco Mello.

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nabuco merece um grande centenário e Edson – espero, possa produzir ainda muito mais numa profícua e bela carreira literária. Alguns intelectuais são assim mesmo, vaidosos. Muitas vezes dizem coisas que não gostamos. Foi assim com Gilberto no seu elogio de um regime de exceção:

“…em momentos de agudo desajustamento intranacional ou interpatidário – em 1889, em 1930, em 1932, em 45, em 54- e para sobrepor aos interesses facciosos, em conflito ou em choque extremado, o interesse ou a conveniência nacional”, defende Gilberto ditaduras que para mim são assombrações.

2- Gilberto Eroticus
A presença do erotismo na obra gilbertiana é estruturante de uma semântica da raça. Uma suruba que é uma amálgama da nossa identidade Da miscigenação que formou essa civilização nos trópicos.
Abaixo do equador tudo pode. Dessa mistura de raças Darcy Ribeiro vislumbrou uma grande civilização. Macunaíma brinca com a cunhada. Minha amiga de gangorra com o portuga. Os santos mais populares no Brasil são os casamenteiros Santo Antonio, São Gonçalo e São João.

Os negros e índios possuíam um pênis menor que o branco europeu, escreve Gilberto em Sobrados e Mocambos. Os índios precisariam de artifícios para suprir essa falta. A sexualidade que prevarica é a sexualidade

Kitsch. Sexo kitsch orgasmo vicário, fissura priápica, continua teorizando Gilberto com base nos relatos dos visitantes e no escritor Havelock Ellis.

No livro “Alhos e Bugalhos” saído a lume em 1978 Gilberto afirma que os escravos que se afoitaram a fecundar sinhás brancas, em uniões que de acordo com as teses apresentadas nos livros Casa- Grande e Sobrados e Mocambos resultaram de vitórias do amor ou do sexo sobre obstáculos de várias espécies sociais. Ou seja, o esperma teria vencido os ódios de classes, consequentemente seria impossível aplicar de maneira rígida o esquema marxista de lutas de classes no Brasil, onde houve uma rendição ao sexo metarracial (em Helena Bocayuva- Erotismo à brasileira).

Quando o livro Casa-Grande & Senzala foi lançado em 1933 houve quem o considerasse imundamente obsceno; ou extremamente sexy, pornográfico, até; ou imoral ao mesmo tempo que anti-religioso e mesmo antibrasileiro. Obra de alguém desvairado pela obsessão do sexo. História social? , perguntou austero crítico, professor da então pudica Universidade de Havard. E respondia, ele próprio …” Não! É sim uma história sexual” ( Freyre G. Alhos & Bugalhos 1978)

Para casar mulher branca e para pecar mulher negra. Freyre confessa preferências eróticas endogâmicas na sua predileção pelas mulheres brancas. O moreno é a cor do pecado, da transgressão e do exotismo, enquanto o branco é a cor da vida doméstica e da existência protegida da família.

“Foram os corpos das negras que constituíram a arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro…” As mulheres intelectualizadas eram poucas; Nísia Floresta surgiu – com exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosa do meado do século XIX. (G. Freyre).

Gilberto nunca conclui e pratica uma sociologia impressionista que seria uma ideologia de Apipucos – e não ciência; comenta o seu xará Gilberto Vasconcellos que lhe dedica um belo livro. Gilberto é para ler curtindo! Roland Barthes e outros grandes escritores elogiaram. Gilberto foi, sim, um grande e original pensador da cultura brasileira. Leu tudo. Pesquisou em jornais, arquivos e outras fontes primárias.

Sexo é vida.

3- Gilbertianas
“ a bengala de GF é imaginada tal um bastão de ébano com um cabo de Limoges, como um símbolo de autoridade e comando no estilo de Brummel” Cascudo

Gilberto Freyre foi um conservador radical respeitoso de uma tradição que tinha no leito e redes das mucamas da casa grande o seu leitmotiv.

Do oligarca da república velha o governador autoritário Estácio Coimbra foi oficial de Gabinete e ganhou muito dinheiro. Estácio pretendia fazer de Gilberto seu sucessor quando a revolução de 30 os deportaram recebendo abrigo em Portugal. Salazar estava lá.

Gilberto se prepara para escrever seu maior livro Casa Grande & Senzala publicado em 1933.
Movido por aquilo que o antropólogo Darcy Ribeiro chamou de “Tara Direitista “, Freyre acusou o reitor da Universidade de Recife de conivente com a propaganda comunista e pediu sua renúncia ao cargo.

Tinha exigido antes, 1963, o afastamento de supostos esquerdistas da SUDENE (Roberto Ventura)
Foi conivente com a política colonialista da matriz em nome do “luso- tropicalismo”.

Pela cultura, tudo. Gilberto foi um grande escritor e não lê-lo foi um erro de gerações.

JOSÉ GURJÃO, MESTRE DO ENSINO

sábado, 26 de junho de 2010

Por Misherlany Gouthier

Na literatura mossoroense muitos são os pseudo-historiadores que tentam engendrar descuidados textos superficiais como obra que valha mérito ou coisa do tipo, tecendo comentários já então por demais imprecisos e sem nenhum embasamento sólido que lhe permita destaque nas letras provincianas. Desnudos de técnicas, de impressões que traga à luz novidades inerentes à pesquisa, poucos sãos os que conseguem enxergar um palmo além do nariz, na tentativa de esboçar um texto enxuto e real, tornando-se fracassados escrevinhadores de folhetins.

A gravidade é tanta que os livros publicados nos últimos anos dão conta disso. Assim é que me esforço para resgatar da oralidade nomes que já estão soterrados pelas areias do esquecimento. A história dos grandes homens não é senão a sua própria história, disse Carlyle. Valho-me desta filosofia para fazer justiça a algumas figuras do passado que por ironia do destino ou por falta de iniciativa dos pesquisadores oficiais da província não tiveram o merecido reconhecimento.

José Fernandes Gurjão nasceu a 19 de fevereiro de 1896, na fazenda Três Lagoas, em Pau dos Ferros/RN. Foi batizado pelo Pe. Campos. Sendo seus padrinhos Hermógenes e Joana Fernandes. De crisma Raimundo Rubira da Luz.

Formou-se em Medicina a 22 de dezembro de 1920. Casou-se aos 09 de setembro de 1921 com Nila Xavier de Queiroz. Enviuvando em 1922. Faleceu aos 06 de dezembro de 1927, no Rio. Após o falecimento de Nila José Gurjão contraiu núpcias com Seize, cuja união não duraria muito…

Lente da Escola Normal de Mossoró, intelectual disseminador de uma cultura ímpar nos dias que se seguem; gente que está intimamente ligada ao passado como ao presente representados por alguns descendentes, cujo reconhecimento pelo desvelo ao trabalho realizado em prol da sociedade de outrora não tivesse valor algum. Eternizar a memória daqueles que nos antecederam é o mínimo que os estudiosos podem fazer…

José Gurjão Fernandes uma das figuras de proa da educação em Mossoró na década de 20-30 não teve um biógrafo que pudesse retratar-lhe a personalidade, a inteligência, o denodo ao ensino do magistério. Um homem que deixou as marcas de sua cultura; um ser de pensamento vivaz, inquiridor. Raimundo Nonato da Silva, seu contemporâneo, somente ele, escreveu uma página de recordação sobre o grande mestre do ensino de Mossoró. Antes, ninguém mais.

Filho do comerciante pauferrense Abílio Fernandes Gurjão e de dona Maria Urcicina Fernandes, era irmão dentre outros do ex-governador Rafael Fernandes Gurjão, nome emblemático na história política do Estado.

Jovem ainda, vindo de uma família tradicional – os Fernandes – era dotado de uma cultura universal. Foi um dos primeiros médicos a operar em Mossoró. Era um homem irreverente. Espírito alegre, irrequieto, dono de uma inteligência brilhante e vivaz.

Lia todos os clássicos. Montesquieu, Verlaine, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Hermes Fontes, Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu e outros. “Homem culto, de idéias arejadas, não admitia preconceitos nem intolerância de convicções”. José Gurjão foi a inteligência mais fulgurante, mais extraordinária que Mossoró possuiu até hoje. Rápido no argumento, ferino na resposta, tinha uma enorme cultura, escreveu sobre ele certa vez o jornalista Rafael Negreiros, seu sobrinho.

José Gurjão soube tirar da leitura a essência para suas aulas no curso Normal da escola fundada por seus pares, dentre os quais destaco a professora Celina Guimarães — tão esquecida na história do magistério –, Eliseu Viana e Manoel Quintela Júnior, este último tendo publicado trabalhos versando sobre abolição dos escravos, além de ter sido crítico literário economicamente.

Dono se um senso crítico aguçadíssimo, não poupava quem o molestasse com “tiradas filosóficas”, dando demonstração eficaz de sua cultura vasta e do seu refinado estilo lingüístico, um dos marcos da educação de antanho quando a cultura pedagógica ganhava contornos de verdadeiras academias.

Elizabeth Fernandes de Negreiros, sobrinha do professor-mestre contou-me várias histórias a despeito da vida do professor Gurjão. Era uma inteligência fora do comum, disse. Ela guarda consigo bilhetes do então governador do estado Rafael Fernandes Gurjão, agradecendo ao pai da mesma – Solon Negreiros, a gentileza de atender tão bem as necessidades do prestimoso professor, seu cunhado.

Apesar de sublevada inteligência o Dr. José Gurjão não deixou obra que pudesse ser levada ao conhecimento de quantos teriam a oportunidade de provar do seu acurado saber literário. Volto à máxima “Nem tudo está perdido”, num átimo de justiça resgatando do olvido a figura incandescente que muito trouxe para as gerações que o seguiram.