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LIBERDADE E DEMOCRACIA NA IBEROAMÉRICA

terça-feira, 18 de maio de 2010


Por Heitor De Paola

A hipertrofia e a onipotência do Estado fazem com que cada vez mais a população acredite que as suas liberdades não existem previamente ao Estado e que este só se justifica como defensor delas, mas sejam concessões magnânimas dele originadas, assim como a proteção, a riqueza e a produção. Dostoiévsky, na fala do Grande Inquisidor, conhecia esta situação: “No final, eles colocarão sua liberdade a seus pés e implorarão: faço-nos seus escravos, mas nos alimente”. Assim se instituem as bolsas escolas, as cotas para minorias, a saúde para todos, e qualquer programa que, mesmo altamente deficiente, seja entendido como “democrático”.

“Logo que o povo se torna o monarca, pretende funcionar como tal porque se livra do jugo da lei e se torna déspota e aí os aduladores do povo têm um grande partido”. Aristóteles

“O dogma de que o poder absoluto, por ter origem popular, pode ser tão legítimo como a liberdade constitucional, já começa a obscurecer o ambiente”. Lord Acton

A opinião pública - e até mesmo a de pessoas mais cultas - costumam confundir estes dois termos. Frequentemente usa-se um pelo outro indiferentemente. Até comentaristas políticos com melhores conhecimentos acreditam que entre os dois haja uma relação unívoca, um equívoco que pode levar a consequências muito graves.

Grande parte do problema está no fato de que nenhum dos dois termos possui uma definição clara, insofismável e amplamente aceita. As dificuldades se avolumam quando o segundo termo é utilizado em áreas do conhecimento, em que não é aplicável como por exemplo, nas ciências e nas religiões.

Se tomarmos a definição mais simples de democracia - a soberania da vontade da maioria - ele não é aplicável em nenhum dos casos, pois a ciência só pode ser regida pelas leis da natureza e as religiões pelo princípio hierárquico e por leis eternas e imutáveis.

A liberdade em estado natural é aquela dos animais, a liberdade de exercer plenamente seus instintos. Podemos dizer que uma zebra é livre enquanto pasta à vontade nas pradarias, até que o leão, exercendo a sua liberdade, liquida com ela.

Cedo na evolução humana os homens devem ter se dado conta que esta liberdade não lhes servia e foi preciso milênios de civilização para estabelecer a relativa liberdade como entendemos hoje. O aumento do grau de liberdade foi espontâneo, não obedeceu a nenhum projeto de engenharia social.

Experimentando-a, os homens viram que era bom. Mesmo assim o que entendemos por liberdade desenvolveu-se numa parte ínfima do planeta: somente na civilização ocidental existe liberdade.

A imensa maioria da humanidade não é livre, alguns nem chegaram a conhecer a liberdade, muitos idiomas sequer têm uma palavra para expressá-la. Pode-se falar em liberdade numa organização social baseada na existência de castas rigidamente determinadas? Ou nas sociedades tribais primitivas? Certamente não. Em ambas o indivíduo é soterrado sob a vontade coletiva e se a ela não se submete pode ser expulso ou morto.

A ideia de liberdade veio se aperfeiçoando ao longo da história, principalmente no século XVIII na Inglaterra e na França, derivando daí duas tradições diferentes. A primeira, empírica, baseada numa interpretação das tradições e instituições que surgiram de modo espontâneo e foram imperfeitamente compreendidas; é a liberdade de tradição britânica. A segunda, visando à edificação de uma utopia que se tentou pôr em prática sem jamais conseguir êxito; é a liberdade “gaulesa”, francesa. Enquanto a primeira veio paulatinamente instituindo o chamado direito consuetinário, baseado no predomínio do individual sobre o coletivo e tendo como princípio imutável o rule of Law - império da lei - a segunda é buscada no mais alto grau de organização do Estado e na dependência do poder público.

Pode-se dizer que na tradição britânica, que atingiu o seu auge na Declaração de Independência e na Constituição Americana, a liberdade é um direito instituído pelo Criador, uma verdade imutável e “evidente por si mesma”.

Enquanto que na segunda a liberdade é vista como uma concessão do Estado do qual se espera que estabeleça e regule os graus de liberdade em relação a todos os setores da vida. É a responsável pelas sucessivas Constituições francesas fracassadas e pelas turbulências sofridas pela Alemanha na primeira metade do século passado. E nas agruras dos países da Iberoamérica (1) desde a independência, com exceção da Argentina pós Constituição de 1853 e até o surgimento dos novos caudilhos na década de quarenta do século passado.

As diferenças cruciais entre as revoluções Francesa e Americana residem nestes dois pontos: a importância da liberdade individual e a delimitação do poder dos governantes. Enquanto na primeira simplesmente se substituiu um tirano coroado pela tirania da maioria, gerando governantes jacobinos ainda mais tirânicos dos que os Bourbons, na segunda o tirano foi substituído pela Carta dos Direitos e pela alternância e limitação do poder dos governantes, isto é, pelo Império da Lei e não dos homens.

É a tese racionalista de tradição francesa, com suas exaltadas ideias sobre os poderes ilimitados da razão humana, que progressivamente vêm ganhando influência crescente em detrimento da inglesa, menos articulada, menos explícita e menos racional (ibid.).

Não creio que esta predominância se deva a causas meramente espontâneas, mas sim a uma determinação ativa e sistemática por parte dos inimigos da liberdade individual para aumentar cada vez mais o poder do Estado sobre o indivíduo com a inevitável hipertrofia do primeiro. Já Thomas Jefferson observava nos primórdios da organização da república: “Penso que temos uma maquinaria estatal maior do que a necessária, parasitas demais vivendo do trabalho dos industriosos”.

Ambas as tradições determinam diferentes entendimentos de democracia.
Na tradição inglesa a articulação entre liberdade e democracia é indireta e mediada pelo rule of Law, na francesa ela é direta, sem mediação, levando a situações paradoxais, como descreveu Isaiah Berlin como o “paradoxo de Rousseau”: se o contrato social deve ser baseado na vontade geral e esta é soberana e predominante sobre as vontades individuais, como se define liberdade?

Ora, liberdade só pode ser a conformidade dos indivíduos com a vontade geral. Então a verdadeira liberdade é a tirania. Possivelmente Rousseau se apercebeu disto, mas como era pessoalmente um tirano sem a menor consideração com os outros - inclusive e principalmente seus próprios filhos e familiares - foi incapaz de reformular o paradoxo que serviu como justificativa para o Terror e, posteriormente, para o desenvolvimento do conceito de democracia como “soberania absoluta da vontade geral” que gerou as tiranias do século XX.

As Constituições Ibero-americanas, todas elas imitações mal feitas de uma mescla das duas tradições - com a exceção da já citada - criaram as condições para o que estamos vivendo hoje. Todas prevêem um simulacro de rule of Law que, na medida em que não limitam adequadamente o poder do Estado e dos seus funcionários, permitem que os inimigos da liberdade incrementem as tradições rousseaunianas que trazem embutidas para destruir o próprio rule of Law que possuem em grau deficiente e vulnerável.

A hipertrofia e a onipotência do Estado fazem com que cada vez mais a população acredite que as suas liberdades não existem previamente ao Estado e que este só se justifica como defensor delas, mas sejam concessões magnânimas dele originadas, assim como a proteção, a riqueza e a produção. Dostoiévsky, na fala do Grande Inquisidor, conhecia esta situação: “No final, eles colocarão sua liberdade a seus pés e implorarão: faço-nos seus escravos, mas nos alimente”. Assim se instituem as bolsas escolas, as cotas para minorias, a saúde para todos, e qualquer programa que, mesmo altamente deficiente, seja entendido como “democrático”.

A casta dirigente cada vez cresce mais em número e poderio com a plena aceitação da “vontade geral” que sanciona a cada eleição o partido dos aduladores do povo a que se referia Aristóteles. E quem se opõe, ou ao menos denuncia, é inimigo do povo, pois que a democracia está sendo plenamente exercida. E está mesmo, se a entendermos apenas como a soberania da “vontade geral”, da maioria.

Donos da maioria, fazem o que bem entendem e, se acaso encontram obstáculos nesta incômoda democracia representativa, recorrem à direta: os plebiscitos, referendos e consultas para, iludindo os eleitores de estarem exercendo sua “cidadania” - eufemismo ridículo para substituir a individualidade - perpetuam-se no poder. E aí estão as fórmulas mágicas: país de todos, socialismo do século XXI, bolivarianismo, kirchnerismo - a deprimente nova versão do peronismo - e outros.

O que estamos acompanhando hoje em Honduras é uma tentativa de um povo pequeno mas digno e cioso de sua liberdade e seu rule of Law que a protege, de reverter este processo. Se conseguirem, ainda resta alguma esperança.
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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
De Paola, H. Obstáculo à Liberdade na América Latina
http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=48
_________ The Concept of Democracy in Latin America
http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.aspid_artigo=45
Berlin, I. Quatro Ensaios sobre a Liberdade, Ed. UnB, 1981
Hayek, F. A. Os Fundamentos da Liberdade
, Ed. UnB, 1983
Johnson, P. Os Intelectuais, Imago, 1990
Mill, J.S. On Liberty, American State Papers, EncyclopaÆedia Britannica
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(1) Prefiro este denominação à tradicional “América Latina”. Não somente porque este termo foi cunhado pela esquerda cepalina das décadas de 50/60, como porque é uma denominação errada na raiz, pois se refere apenas à predominância de línguas neo-latinas no continente, não levando em consideração a extrema diversidade de povos de diferentes origens étnicas que compõem a sua população. Além de brancos de origem européia temos uma profusão de negros, mulatos, índios de diversas origens, além de uma população bastante considerável de imigrantes europeus, asiáticos, árabes, judeus e de outras regiões. O termo Iberoamérica é neutro em relação a isto e indica apenas o fato histórico de terras descobertas e colonizadas pelos países ibéricos. A colonização não ibérica é ínfima.
Publicado pelo Instituto Millenium

ZÉ CELSO, O FALSO LOUCO

sábado, 15 de maio de 2010

Por Ipojuca Pontes

Por volta de 1972 o encenador José Celso Martinez Corrêa – sem pagar royalty ao sombrio The Living Teather, grupo teatral (de vanguarda) norte-americano dado ao uso da maconha e sessões de sexo coletivo antes de entrar em cena - apareceu no Rio de Janeiro com o seu grupo (Oficina) para apresentar o espetáculo “Gracias, Señor”, uma avançada “sessão de te-ato”.

Vivia-se, então, o auge dos anos da contracultura, quando qualquer tipo de esculhambação (tal como, por exemplo, lambuzar-se de merda num palco) poderia passar por chocante manifestação estética ou inusitada forma de contestação artística. Se bem me lembro, a roqueira Janis Joplin, que morreu de overdose, e Julian Beck, guru do mencionado The Living Theater, foram os desesperados contestadores da cena internacional que pintaram e bordaram no Brasil daquela fase.

(Em tempo: a “pop star”, depois de se atirar nua na piscina do Copacabana Palace, dopada de cocaína até os ossos, foi despejada do hotel em rito sumaríssimo. Já com o guru Julian Beck e sua trupe performática, o caso ganhou manchetes internacionais. O cultor do “teatro vivo” – gênero em que os atores e espectadores, compartilhando o mesmo “transe” criativo, gozariam da mais “arrebatada liberdade sensorial” – terminou trancafiado em Ouro Preto, MG. Ao cabo de alguns meses de esbórnia e consumo de maconha, numa “república” da cidade histórica, ele e sua trupe foram expulsos do país, entre outros delitos, por posse de droga, libertinagem pública e suspeita de pedofilia).

Por espírito de curiosidade, vi o happening de Zé Celso, à época. Foi um tremendo fiasco. Desde logo, a inadvertida platéia tomou-se de completa aversão pela sessão de “te-ato”, que consistia, entre outras práticas vanguardeiras, na ação de um bando hostil atirar bolas de repolhos sobre indefesos espectadores.

Sim, amigos. Parece incrível, mas foi real: naquela alucinada sessão do “te-ato”, entre relinchos, miados, latidos e loucas correrias, o escasso público presente, que havia comprado ingresso para assistir um espetáculo de teatro, teve como especial desfrute estético o esforço físico de se desviar do arremesso intermitente de repolhos. Como a “mise-en-scène” do espetáculo dispensava o palco tradicional, os “atuadores” andavam por entre os assentos da platéia, ora encarando ora provocando os espectadores – um rito obrigatório do teatro de agressão.

Para Zé Celso, que atuava de olhos esbugalhados e braços em permanente agitação, tal como um possesso saído das páginas de Fiodor Dostoievski, a “sessão de te-ato” deveria ser encarada (soube depois) como uma “aula de esquizofrenia”, cujo objetivo, didático, seria justamente o de obrigar o público a pensar o mundo de uma maneira “nova e diferente”.

- “Reprimindo a platéia, Zé estava querendo arrancá-la da inércia burguesa” – disse-me, mais tarde, um eufórico teórico da contracultura.

Na segunda parte do “te-ato”, o babalorixá do grupo Oficina atuava menos histérico. Desta feita, pelo que se intuía daquela codificada vesânia cênica, o encenador e os “atuadores” do espetáculo davam por encerrada a opressiva “aula de esquizofrenia”, antes administrada, e propunham uma “re-volição” – isto é, o ato de “querer de novo”.

Neste contexto, depois de agarrar com força o pulso dos presentes (a fim de transmitir “novas energias”), a trupe de Zé Celso culminava a pantomima com o repasse de um bastão (símbolo fálico) que, passado de mão em mão, pretendia restabelecer, em “novas bases”, uma reconciliação (“tomada de consciência”) entre público e “atuadores”. No final, sem se saber ao certo por qual razão, dava-se a apoteose e Zé e seu grupo caiam na orgia carnavalesca.

O embuste do Grupo Oficina, que se tinha por revolucionário, pretendia “épater le bourgeois” – uma proposta absolutamente inviável, senão ridícula, pois, como estamos fartos de saber, o burguês freqüentador de teatro de há muito já não se espanta com coisa alguma.

Dado curioso: naquela noite, quem apareceu para ver “Gracias, Señor”, no Terezão, foi Nelson Rodrigues. Espírito prevenido, na hora em que começou a catequese “te-atal” pelo arremesso de repolhos em cima dos espectadores, o dramaturgo correu para o saguão do teatro. Lá, testemunhou a cena capital: vez por outra, quase desnudo, suado e arfante, Zé Celso largava o espetáculo em andamento e aparecia na bilheteria, perguntando ao bilheteiro, em tom sôfrego : - “Quanto rendeu?… Quando rendeu?… Quero ver o ver o borderô!.. Quero ver o borderô, rápido!”.

(No outro dia, em “O Globo”, o criador de “Vestido de Noiva”, descrevia em detalhes a cena patética e advertia aos leitores: “José Celso é o falso louco”. No texto, NR chegava à conclusão de que o revolucionário encenador, longe de rasgar, adorava dinheiro).

Foi o cínico Rousseau, num ensaio célebre, quem despertou a atenção sobre a capacidade do teatro corromper a moral pública (chegou a escrever uma peça sobre o mito de Narciso, nesta linha). O próprio Marx, na onda iluminista, escreveu um drama pífio, “Ulanem” (anagrama de Emanuel, nome bíblico de Cristo), cujo objetivo era destruir a fé religiosa e “expulsar Deus de sua morada”.

Já Bertolt Brecht, dramaturgo cujo caráter dispensa comentários e do qual Zé Celso tirou sua lasquinha, laborou com afinco a idéia de corroer o senso comum da moralidade pública, com a pretensão inglória de quebrar os vínculos emocionais da platéia pela adoção de um teatro “distanciado, didático e crítico”, bolado para inocular o vírus do comunismo “urbe et orbi”.

(Nota: o nosso Brecht, em vida, não tinha o menor compromisso com a decência humana. Viciado em sexo, obrigava a atriz Helene Weigel, sua mulher e secretária, a selecionar “carne fresca” para sua “coletividade sexual” – o Berliner Ensamble. O dinheiro era o seu fraco. Embora fosse stalinista fanático, para lograr o governo comunista, arranjou um passaporte na Áustria, país onde mandava depositar os direitos autorais de suas peças encenadas no exterior, transferindo-os, em seguida, para contas bancárias na Suíça.

Pulha nato e hereditário, embora fosse comunista de carteirinha, jurou de mãos postas, diante da Comissão de Atividades Antiamericanas do Congresso que investigava a comprovada infiltração comunista em Hollywood, “que nunca fora sequer de esquerda”, protestando veementemente contra tal acusação. Brecht mentiu com tanta firmeza diante da Comissão que esta o considerou uma “testemunha excepcionalmente cooperadora”.

Ademais, vale lembrar, Brecht, enquanto dramaturgo, nunca possuiu idéias próprias: todas as suas peças – sem exceção - foram sacadas, ou mesmo roubadas, de outros autores, chegando a ser processado por isso).

Voltando à vaca fria: quase quarenta anos depois da experiência de “Gracias, Señor”, Zé Celso, caindo os dentes de velho, ainda vive de explorar a pegadinha do “novo”. Nos últimos anos, dentro do mesmíssimo esquema vanguardeiro, de corte irracional, ele parece ter deixado de lado – espera-se – a exaurida fórmula antropofágica de Oswald de Andrade para sugar, como um vampiro insaciável, as cordoveias de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que, se vivo fosse, na certa se insurgiria contra a usurpação daninha.

Euclides da Cunha fez uma obra clássica, que se impôs pela força do que Zé Celso jamais possuiu: seriedade. Mas o “guru da Rua Joceguai” não se liga nessas minudências. Travestido de Antonio Conselheiro, repete os mesmos truques, agitando os braços para abarcar o mundo, preconizando utopias incertas e pouco sabidas. Contudo, embora delirante, não larga o vezo de pôr o olho na bilheteria ou em qualquer outro tipo de patrocínio, público ou privado, que alimente a sua trajetória de Falso Louco.

Sua faceta mais recente, cultivada sem a menor cerimônia, é a de “bufão eletrônico”. Vez por outra, a figura aparece em canais alternativos de televisão saltitante como uma gata em telhado de zinco quente, ocasião em que se vende como agitador cultural comprometido com a destruição do “teatro burguês”, com suas idéias e comportamentos “caretas”.

Madrugada alta, diante dos holofotes, ele se apresenta como a “uzyna” do desequilíbrio do mundo. Em recente especial da TV-SESC, o velho bufão, depois de tecer loas ao “corredor polonês” do Teatro Oficina, aproveita para anunciar a sua mais nova tentação: formar crianças e adolescentes longe dos códigos e deveres da moral tradicional – o que, em si, já é uma temeridade.

Sim, é fato: o Brasil transformou-se num campo aberto para o cultivo da mistificação e do logro, especialmente nas atividades políticas e culturais. Num país que se desse ao respeito, figuras que nem Zé Celso, Gilberto Gil e Caetano Veloso (“intelectual de miolo mole”, no dizer de Merquior) seriam tratados pelo que realmente são: meras figuras do showbiz, circunscritas ao mundo da diversão.
Aqui, não. Eles passam por intelectuais respeitáveis com direito ao trombetear da mídia esquerdista e dos “pensadores” da famigerada USP.

GILBERTO FREIRE MARQUETEIRO DE SI MESMO

sábado, 15 de maio de 2010

Por Roberto Romano da Silva,
Do ucho.com

Lisa Jardine, historiadora que pesquisa a história do Renascimento, publicou tempos atrás um livro sobre Erasmo e a fabricação da fama em proveito próprio, algo banal entre intelectuais (Erasmus, Man of Letters, The Construction of Charisma in Print, 1993).

Na trilha de outros que denunciaram os truques usados pelos pioneiros da cultura moderna —para subir na vida acadêmica, política, econômica e social— a autora mostra a via seguida pelo monge agostiniano (como Lutero) que se tornou sinal de contradição na fé (dizem que ele mais destruiu a unidade eclesiástica do que os Reformadores), na política, na literatura.

A receita de Erasmo é infalível. Primeiro definir um plano de vida no qual o estudo seja a diretriz, adquirindo fama de inteligência, erudição, refinamento. Depois achar editores que saibam gerar vínculos comerciais e de propaganda, sobretudo entre ricos e poderosos (tolos ou inteligentes), além de induzir vendas e compras sem demasiados escrúpulos éticos.

No caminho, reunir companheiros que evocassem seu nome tantas vezes quantas necessárias para convencer o “mundo” da superior maestria ostentada por… Erasmo! Finalmente, atacar instituições e costumes, sejam eles respeitáveis ou não, angariando fama de inovador revolucionário, pois os homens adoram novidades e logo se cansam de velhos estilos e apelidos.

Erasmo praticou todas as técnicas indicadas. Ele estudou grego com enorme sacrifício para dominar os manuscritos trazidos à Europa pelo cardeal Bessarion e outros fugidos de Constantinopla. Ele aprendeu de Lorenzo Valla e discípulos (o mesmo ocorreu com Lutero) os mistérios filológicos e históricos, além da irritação com o aristotelismo e suas argúcias metafísicas. Ele encontrou editores capazes de tudo fazer para espalhar livros e obter lucros em todos os mercados.

Ao mesmo tempo, ele estabeleceu elos com governantes do Estado e da Igreja, deles entoando o panegírico, pago em dinheiro sonante. Na companhia de Tomás Morus, Erasmo gerou conventículos em universidades e corporações de estudiosos, adquirindo fama de “maior letrado de todos os tempos”. O programa, claro, incluiu zombar dos monges que praticavam charlatanismos, dos professores universitários, dos advogados, médicos e demais convivas da Loucura.

Se a fama lhe trouxe inimigos (e ameaças de fogueiras inquisitoriais) ela legitimou o mito de sua superioridade. Esperto, ele nunca se instalou, como o colega Morus, em gabinetes de poder que trazem ganhos e desgraças aos ocupantes temporários. Sua atividade nunca o levou aos compromissos exigidos pelo Estado, Igreja e demais instituições de mando. Bastava ao escritor, cantado em prosa e verso, o verbo e as verbas extraídas dos cofres públicos ou particulares. Erasmo se tornou o modelo do intelectual “independente” que busca pairar sobre todos os partidos, querendo ser cortejado pela maioria.

Gilberto Freire usou as mesmas astúcias para promover seu nome e influência no mundo oficial e civil. Acaba de ser publicado o livro de Silvia Cortez Silva, “Tempos de Casa-Grande, 1930-1940″ (São Paulo, Ed. Perspectiva, 2010). Com escrita refinada, a autora oferece um retrato inédito do famoso inspirador dos conservadorismos, de ontem e de hoje, em nosso país e no mundo.

A farta documentação colhida por Cortez Silva fundamenta uma diatribe devastadora contra o escritor que se tornou oráculo nas ditaduras, sobretudo no que se relaciona ao racismo, ao antissemitismo e outras mazelas.
Não examino passo a passo o livro, porque não quero retirar do leitor o acicate (às vezes, a ojeriza diante de coisas escritas pelo “grande homem”) de refletir sobre a raiz venenosa do preconceito, cujo apelido no Brasil é “ciência”. Algo mais sutil do que os dogmas de Nina Rodrigues, mas com idêntico poder de morte.

Freire foi consagrado por usar os mesmos truques movidos por Erasmo e todos os escaladores sociais (grandes ou nanicos) do chamado “reino espiritual do espírito”. O leitor inteligente e honesto descobre, no livro em pauta, boa parcela da miséria do Brasil e de seus lamentáveis intelectuais. Parabéns à autora e seu editor, pela coragem e lucidez evidenciadas em páginas serenas, mas candentes. Boa leitura!

CORRUPÇÃO: QUANTO CUSTA AO BRASIL

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fiesp: corrupção custa ao país R$ 69 bilhões por ano

A Fiesp levou à página que mantém na web um estudo feito pelo seu Departamento de Competitividade e Tecnologia. Chama-se “Corrupção: custos econômicos e propostas de combate”.

No pedaço em que estima o preço dos malfeitos, o documento traça dois cenários. Um, mais realista, aproxima o Brasil de países que combatem a corrupção com rigor. Outro, utópico, considera um quadro em que a corrupção tenderia a zero.

Na primeira cena, o país deixaria de gastar em subornos e propinas R$ 41,5 bilhões por ano. Coisa de 1,38% do PIB. Na segunda, seriam poupados R$ 69,1 bilhões. Ou 2,3% do PIB.

Como corrupção zero é coisa que só existe em estudo e em sonho, o documento concentra-se no cenário possível, aquele em que a corrupção despeja no ralo dos descaminhos R$ 41,5 bilhões. A Fiesp esmiúça a cifra.

Informa que equivale a 60,2% de todo o dinheiro que o setor público (excluindo-se as estatais) aplicou em investimentos no ano de 2008. Representa 27% do gasto anual com educação…

…Corresponde a cerca de 40% do orçamento da saúde pública. Mais: os R$ 41,5 bilhões da corrupção superam tudo o que a União e os Estados gastaram com segurança pública no ano de 2008: R$ 39,52 bilhões.

Detalhista, o estudo relaciona o custo das propinas a providências que o governo deixa de adotar. Anota, por exemplo, que o PAC destinou à rubrica “habitação” R$ 55,9 bilhões. Com esse dinheiro, o governo espera prover moradia a 3,96 famílias.

Diz o estudo: “Utilizando o custo médio anual da corrupção (R$ 41,5 bilhões) para construção das habitações, temos que 2,94 milhões de famílias poderiam ser atendidas, ou seja, 74% das famílias previstas pelo PAC”.

Noutro exemplo, o documento da Fiesp escreve que o PAC destinou R$ 33,4 bilhões à construção de 45,3 mil quilômetros de rodovias. E conclui: aplicando-se o dinheiro da corrupção em asfalto, “seria possível construir 56,3 mil quilômetros, isto é, todos os projetos do PAC e ainda sobrariam mais 11 mil quilômetros”.

O documento também afirma que, no período entre 1990 e 2008, a média do PIB per capita do País era de US$ 7.954. E anota que, se o Brasil estivesse entre os países menos corruptos, esse valor subiria para US$ 9.184. Um aumento de 15,5% na média do período -1,36% ao ano.

Na Educação, diz a Fiesp, o dinheiro da corrupção daria para bancar a elevação do número matrículas na rede pública de ensino fundamental de 34,5 milhões para 51 milhões de alunos. Iriam aos bancos escolares mais 16 milhões de jovens.

Na saúde, a grana dos malfeitos seria suficiente para aumentar o número de leitos para internação no SUS em 89% – 327.012 camas hospitalares a mais. Em saneamento, os recursos desviados levariam esgoto a 23,3 milhões de casas –acréscimo de 103,8% em relação ao que está previsto no PAC.

Em infraestrutura, livrando-se dos desvios, o Brasil teria 13.230 quilômetros adicionais de ferrovias. Ou 184 novos portos. Ou 277 novos aeroportos.

No pedaço do documento dedicado às “propostas de combate à corrupção”, a Fiesp oferece uma agenda dividida em dois tópicos: reformas institucionais e reformas econômicas.

No rol de providências institucionais, inclui: reforma política, reforma do sistema judiciário e reforma administrativa (eliminação de cargos de confiança, reduzindo o espaço para barganhas e pedidos de propinas).

Na lista de medidas econômicas, relaciona: reforma fiscal, reforma tributária e reformas microeconômicas (entre elas o fortalecimento das agências reguladoras, dotando-as de independência e autonomia real).

Beleza. Mas o estudo da Fiesp sonega à platéia o essencial. Deixa de mencionar o papel do empresariado no jogo da corrupção. Não é novidade que, em Brasília, tudo está à venda. Excetuando-se a mãe, que não tem valor de mercado, vende-se de emendas ao Orçamento à honra pessoal.

Quem desce a Esplanada, rumo à Praça dos Três Poderes, ouve o tilintar de verbas. Se há o balcão, existe demanda. Os compradores de facilidades são, porém, invisíveis. E não há quem queira identificá-los. Muito menos a Fiesp.

Só de raro em raro, numa ação fortuita do Ministério Público e da Polícia Federal, joga-se um facho de luz sobre um ou outro corruptor. O empresariado reclama do chamado “custo Brasil”. Queixa-se dos portos ineficientes, das estradas esburacadas, da burocracia governamental, disso e daquilo.

Mas cultiva um estrepitoso silêncio em relação ao “custo pilhagem”, que inclui, além de propinas e de financiamentos eleitorais obscuros, a sonegação descarada de impostos.

Sustenta-se há décadas o conveniente discurso de que o Estado é o grande vilão do descaminho do empreendimento brasileiro. O que a Fiesp se exime de dizer é que, do outro lado do balcão de malfeitorias, encontra-se a mão do empresariado. Sem ela, não haveria corrupção.

FILOSOFIA DE MESA DE BAR

sábado, 1 de maio de 2010


Por Leonardo Bruno,
de Belém

Certos artistas, em nossa democracia, contraditoriamente, sonham com esse sistema estéril de controles governamentais policialescos e delações premiadas. Ou na pior das hipóteses, não percebem a monstruosidade que defendem. Nem por isso deixam de ser os idiotas úteis de sempre.

Um amigo meu, produtor e diretor de teatro, convida-me a assistir a sua mais nova peça. É a história de um casalzinho que, depois de uma noitada de sexo, começa a se envolver e a se apaixonar, num enredo cômico.

Depois do espetáculo, acompanhei-o, junto com outros amigos, até o Bar do Parque, um lugar decadente, mas que já teve seu glamour em outras épocas. É um ambiente muito pouco familiar: muitas prostitutas e travestis horrorosos, turistas, ripongas e também alguns mendigos, quase sempre bêbados, que infernizam as turmas da mesa de bar, pedindo cigarros ou alguns trocados para beber. Sob determinados aspectos lembra o Fórum Social Mundial. Contudo, também é o ponto de encontro dos artistas de Belém. Até porque esse lugar fica ao lado do suntuoso Teatro da Paz, defronte da Praça da República, relíquia do tempo da borracha.

Os artistas, em geral, são pessoas bastante despojadas, irreverentes, descompromissadas, boêmias. Para eles, os horários não existem, salvo na hora do espetáculo. Não há para eles algo como os dias e as noites. Os horários, por assim dizer, são desencontrados.

Meus amigos artistas ora dormem de manhã, ora dormem de tarde, ora dormem de noite. Ou então ficam acordados de manhã, de tarde ou de noite. Não me espantaria se, de madrugada, ligassem pra minha casa só pra sair e trocar idéias. Salvo quando possuem algum outro oficio, as horas não existem para eles.

E numa dessas discussões da filosofia de botequim, pensávamos sobre essa coisa tão simples como sentar numa mesa de bar, entre grades de cerveja e horas a passar, falando de altos papos e fofocas sem fim dos outros.

Essas regalias são um verdadeiro luxo, um privilégio, uma dádiva das nossas democracias. Dormir à hora que quiser, bebericar num bar, falar livremente, gesticular e filosofar numa mesa de bar é um capricho que só um sistema de liberdades permite. E assim meditávamos: - Neste mesmíssimo momento de quase madrugada, os norte-coreanos estariam no seu eterno toque de recolher, junto com os cubanos e os chineses!

A atriz da peça estava sentada ao meu lado e só achava graça de nossos comentários. O meu amigo ator é uma figura curiosa, sui generis, dentro dos padrões de sua classe: é um fervoroso, hidrófobo e incorrigível anticomunista. Por amar demais a liberdade, por crer que o espírito da liberdade está na alma individualista do artista e da própria arte, soaria intolerável para ele os controles exigidos por uma burocracia estatal iluminada.

O coletivismo sufoca, esmaga a criatividade. Como dizia Nelson Rodrigues, no regime socialista ninguém é individuo, todo mundo é grupo, padrão, uma antipessoa. E como não devia deixar de ser, a unanimidade é burra!

No entanto, esse jeito polêmico de pensar causou alguns problemas a ele. Alguns atores e diretores esquerdistas, tomando conhecimento de suas tendências pró-liberais e capitalistas, começaram a fazer fofocas e mesmo estigmatizá-lo nos meios culturais belenenses. Tal como um patrulhamento ideológico comunista, os proxenetas vermelhóides, inclusive, exortavam a alguns conhecidos do meio artístico a evitá-lo ou simplesmente boicotá-lo.

Certos artistas, em nossa democracia, contraditoriamente, sonham com esse sistema estéril de controles governamentais policialescos e delações premiadas. Ou na pior das hipóteses, não percebem a monstruosidade que defendem. Nem por isso deixam de ser os idiotas úteis de sempre.

O cantor Chico Buarque é o eterno defensor do tiranete do Caribe Fidel Castro, mas não deixa de beber o seu whisky e ter uma cobertura para o mar. O mesmo se aplica ao velhaco arquiteto Niemeyer, cuja riqueza é diretamente proporcional à sanha de stalinista psicótica e totalitária.

Bertolt Brecht, um teatrólogo genial e patife notável, era também uma empregadinha doméstica de Stálin, junto com outro mentiroso compulsivo, mau caráter e artista notável, o pintor Pablo Picasso.

Todos eles, sem exceção, atacaram ou atacam o capitalismo, a burguesia e as próprias elites que os financiam. Nem por isso abandonaram as maravilhas do conforto burguês. É muito dinheiro capitalista para muito comunista!

Por falar em artes, comentávamos sobre filmes interessantes, que tocam na liberdade do artista. Recordei-me do filme alemão “Mephisto”, que falava da história de um ator que vendeu sua alma ao diabo ao aceitar o apoio monumental do Partido Nazista, ainda que o preço fosse a delação de amigos, a rejeição da namorada negra e mesmo a perseguição e matança de seus amigos atores e escritores judeus.

Embora o tema seja o nazismo, a descrição se encaixaria perfeitamente a Bertolt Brecht: um indivíduo que apoiou os expurgos de Moscou, nos anos 30 e se debandou para a Alemanha Oriental, apoiando alegremente o regime do Muro de Berlim.

Ele também se tornou o todo-poderoso das artes cênicas neste país, ditando ordens sobre artistas, scripts, cenógrafos e produtores, como se fosse uma miniatura de um tirano comunista no teatro. E como um membro da nomenklatura soviética, tinha certos luxos, como um carro próprio, casa bem confortável e até os direitos autorais sobre suas obras no mundo capitalista, com direito de receber salário em moeda conversível e abrir conta em bancos ocidentais.

Essa realidade de luxo destoava da esmagadora maioria da população alemã oriental, que vivia em casas caindo aos pedaços, recebia comida racionada e levava tiro se pulasse o outro lado do Muro de Berlim.

Outro filme interessantíssimo surgiu em nossas conversas, que retratava a vida difícil dos livres pensadores da Alemanha Oriental: “A vida dos outros”. É a história de um agente da polícia política alemã, a STASI, que espionava os passos de um escritor de teatro.

A namorada do teatrólogo, uma famosa atriz, foi obrigada a trabalhar como espiã para delatar amigos e companheiros, sob pena de nunca mais atuar. Isso é a morte para o artista. E foi de fato o que ocorreu: a mulher, desesperada, acaba se matando no final. A atriz do bar ficou chocada com a história.

Bertolt Brecht não está só nessa empreitada.

O que há de artistas, professores e intelectuais defendendo a destruição das liberdades em geral é algo espantoso.

Recentemente, uma turma de jornalistas esquerdistas se reuniu num evento em Brasília chamado Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), que supostamente se prestava a discutir “meios para a construção de direitos e da cidadania na era digital”.

E o que esse povinho pregava?

Em nome da “democratização” da imprensa, a estatização completa da imprensa e a destruição dos meios de comunicação privados. Em outras palavras, os jornalistas se reuniam justamente para destruir a liberdade de expressão e de imprensa e pregarem o controle total do governo sobre as opiniões que deveriam ser publicadas. Porém, os comunistas têm uma expressão típica de uma linguagem totalitária: o “controle social” da informação.

Na terra das liberdades, a obsessão dessa gente é o “controle”.

Os jornalistas querem revogar o livre mercado dos jornais, pago pelos próprios leitores, para que o Estado subsidie e tenha completo domínio sobre a informação. Claro, as empresas privadas de comunicação são acusadas de servirem ao capital.

O negócio mesmo é que sirvam ao “outro capital”, ou seja, a do próprio Estado, censurando, ditando e determinando o que a população deve ou não saber. Alguns militantes histéricos pediam o fechamento da Rede Globo ou de outras emissoras privadas, como que inspirados no tiranete sargentão da Venezuela, o ditador-presidente Hugo Chavez.

O paradoxo da liberdade de imprensa é que essas idéias têm popularidade entre os jornalistas brasileiros. Os jornalistas não confiam nos seus leitores. Se bem que os (desin)formadores de opinião mintam um bocado para eles. E se pregam controle estatal em tudo, não é por acaso que a imprensa brasileira atual, infelizmente, já sente os braços do Estado, através de pesados subsídios governamentais para defender as opiniões e mentiras do governo. Por que os jornalistas, com essas boquinhas, pensariam diferente?

Entre os artistas, a situação é parecida. Na revolta contra a “ditadura do capital”, deve ser bastante dispendioso para certas pessoas procurarem patrocínios privados da comunidade, seja através de empresas ou de seus próprios espectadores. Melhor mesmo que o Estado pague previamente os espetáculos, à revelia dos contribuintes, ainda que para isso, o cidadão comum seja forçado a tirar o dinheiro do seu bolso por algo que não quer pagar.

A estatal Embrafilme, a produtora dos filmes brasileiros, ainda passa pela memória quando o assunto é filme ruim. Os artistas e cineastas faziam a farra! E o povo odiava aquilo e não extraia um níquel sequer, salvo quando pagava os impostos! Se nos países totalitários, o artista é um capataz, um lacaio bovino do regime, nos países democráticos, quando recebe dinheiro público, é uma besta quadrada, um verdadeiro funcionário público!

Se bem que a eterna dependência do Estado não é vício somente de artistas e diretores de cinema. Alguns dos maiores empresários do país, beneficiados com os empréstimos do BNDES, deram uma dinheirama para fabricar o mito da história do Presidente Lula, financiando o seu filme “O Filho do Brasil”.

Claro que isso foi o paraíso para os lacaios próximos do poder. É muito mais grotesco: o presidente aceita uma espécie indireta de suborno das empresas para futura troca de favores. No final das contas, o filme, messiânico, patético, cheio de mentiras bem elaboradas e fantasiosas, bem ao gosto do oficialismo estatal das artes, vai servir para a futura campanha da ministra terrorista Dilma Roussef à Presidência da República.

Não há como não se espantar com o presidente Lula: ele é um grande artista do fingimento, preparado para qualquer platéia! Dizem que chorou quando viu o filme sobre sua vida. Entretanto, é curioso como alguém seja capaz de chorar por uma biografia irreal de sua vida, por algo que não viveu. Isso lembra a cena de uma propaganda soviética, em que o tiranete da Geórgia, Josef Stálin, aparecia descendo dos céus, sob os escombros de Berlim, aclamado por todos como o Messias da Rússia! Comenta-se que o próprio Stálin chorou pela cena fictícia.

Qualquer semelhança não é mera coincidência!

Filosofar em uma mesa de bar continua sendo uma dádiva da liberdade. Há certos idiotas que não entendem isso. .

LIVROS ELETRÔNICOS

domingo, 25 de abril de 2010

da Redação

E-books: Sony vai apoiar formato aberto

A Sony está caminhando para tornar seu leitor e sua loja de livros eletrônicos (e-books) mais acessível ao público. A gigante japonesa do setor de eletrônicos disse que pode parar de usar seu formato proprietário de e-books e passar a utilizar o formato aberto ePub.

A companhia afirmou ainda que pode ter toda a sua loja virtual convertida para o formato ePub até o final deste ano. A maioria dos leitores da Sony já conseguem ler livros eletrônicos no formato aberto. A mudança seria boa para a empresa, já que o ePub também possui opções para controle de direitos autorais.

Concorrente do Amazon Kindle
A Sony anunciou para este mês o que ela diz ser o mais barato leitor de e-books dos Estados Unidos. O Reader Pocket Edition, equipado com uma tela de cinco polegadas, chega às lojas americanas custando US$ 199. Uma versão com tela de toque (touchscreen) também estará disponível por US$ 299.

O lançamento promete aquecer o setor de livros eletrônicos e iniciar uma forte disputa contra o Kindle, leitor de e-books lançado pela Amazon em 2007 (ganhando este ano uma nova versão).

Acervo precioso à beira da morte

Do portal Veja.com
A Fundação Biblioteca Nacional tem um grande projeto para devolver às suas prateleiras livros publicados há até 500 anos.
São pouco mais de 200 volumes à beira da desintegração entre os dois milhões de livros que compõem o acervo da instituição, que fica no Rio de Janeiro.

Destes, pelo menos 57 devem voltar às prateleiras. Quinze já foram restaurados, e outros 42 deverão estar à disposição do público no início de 2010. São obras como a enciclopédia medieval Margarita philosophica, datada de 1515, volume no qual o Brasil aparece pela primeira vez em um mapa-múndi.

Quase todos os livros que estão sendo restaurados pertenciam à Real Biblioteca portuguesa, e vieram para o Brasil em 1808, com a mudança da corte.

UMA ANTOLOGIA EXEMPLAR

domingo, 25 de abril de 2010

Por Cléber Pacheco,
Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em Porto Alegre

A antologia “Ficções Fricções Africções” [Editora Mares do Sul-CEJEN, Florianópolis, 1999] revela um autor mancomunado com o humano em todas as suas manifestações. Da criança ao velho, do pilantra ao intelectual, da mais simples criatura ao mais complexo artista, todos são submetidos às poderosas lentes desse que é “um grande entrevistador de almas”, na opinião do critico Antonio Carlos Villaça [in “Franklin Jorge e sua viagem”, Rio de Janeiro, 1983].

Todos merecem a atenção de Franklin Jorge. Em sua cidadela literária, erigida com paciência e exigência, habita uma diversidade de criaturas e mesmo as mais sórdidas, como Rato Encardido, têm o seu lugar ao sol na obra desse surpreendente escritor norte-rio-grandense que enobrece o “Prêmio de Literatura Luis da Câmara Cascudo” da Prefeitura de Natal.

Franklin não tem as fragilidades da condescendência nem o distanciamento irônico do dissecador. Artífice exigente é de fato um artista da palavra. Distingue-se, como escritor, sem ceder aos cacoetes da prosa atual. Municiado de “muitíssimas leituras”, o autor de “Ficções…” parece dizer-nos que em qualquer circunstância essa humanidade se faz digna do nosso olhar e da nossa compaixão.

Num texto delicioso sobre um filósofo, extraído de “Ensaios Mínimos” [livro inédito], Montaigne não é escolhido ao acaso. Tudo, nesse paradigma de “antologia arbitrária” proposta por Jorge Luis Borges, produz aqui os melhores efeitos estilísticos. Observando o mundo e seu entorno, [o que inclui homens, animais, natureza, costumes, relações interpessoais etc], de “modo informal”, longe de ser sistemático ou dogmático como costumam ser os charlatães e alguns de seus pares, Montaigne [como o próprio Franklin] presta atenção a tudo.

De maneira sucinta, Franklin o apresenta: “Seu oficio consiste em viver bem a circunstância”. Sua evidente simpatia pelo autor de “Ensaios” não é aleatória. Ambos se encontram no olhar abrangente sobre o que existe. Qualquer manifestação de vida, sabe Montaigne e sabe o nosso Franklin, exige o deter-se, a reflexão, a ponderação, a paciência, o estudo que a leitura proporciona. “Suspender o juízo” a respeito de seres e coisas seria um modo montaigneano de ponderar sobre a realidade. É o que nos diz em sua cabala estética o escritor do Ceará-Mirim. Um xamã das letras capaz de produzir textos como iscas que enfeitiçam e fisgam o leitor.

Alek, um menino em sua relação com o mundo natural, descrito com poesia e vivacidade, em pinceladas impressionistas, desperta quem o lê para o claro enigma que dimensiona a infância numa prosa minimalista que contém o tremor da carne ardente, um certo sensualismo difuso, o rumor do vento nos bosques natais, a terra milenária, tudo isso num texto enleado de leituras que expõem o autor no exercício pleno de uma técnica e de uma expressão não intuitiva, conquistada pelo melhor critico, o autor que lê as entrelinhas.

Nesse livro mágico que nos chega de Natal há lugar também para os esquecidos da sorte ou dos outros homens, como Palmira Wanderley em sua última agonia. Num contexto onde ainda é possível encontrar a bondade e a lenda, o olhar demandado do autor perscruta “enquanto há luz”, captando a continuidade no efêmero ao escrever a exegese dos lugarejos e das aldeias remotas, ricas de figuras e crônicas condenadas ao olvido.

O Tempo, nessa prosa fluida e densa, marca o afogamento ou a ressurreição da memória, compõe e desfaz o segredo dos nomes através de uma oralidade e de uma sintaxe cativantes, despertando a curiosidade do leitor para os que viveram no ostracismo, como parece viver Franklin Jorge em sua terra. Em “Ficções…” o povo é o que nos encanta e mostra que tem algo a dizer.

Não há no texto de Franklin Jorge lugar para o simplório, o lugar comum, o previsível e as fórmulas requentadas da indústria cultural. Ouvir esse autor, oriundo do Nordeste, rende frutos e sabenças, assegura-nos cada um de seus fragmentos compostos sob a égide de Baudelaire [“os livros nascem dos livros”]. Conhecê-lo, um aprendizado. Descobri-lo, um deleite permanente.

Seu livro é uma provocação. Aguça a cada página o apetite pelo universo ficcional desse autor que é [repita-se] um mestre da palavra. Lendo-o, queremos saber mais sobre toda essa gente curiosa e viva, reunida numa teia de relatos nômades que nos dá vontade de ir mais além no conhecimento dessa escritura nova através da qual o seu autor celebra, de sua ilha potiguar, o surgimento da literatura.

Em síntese, cabem aqui as palavras do filósofo [que apenas pensava em seu castelo]: “Este mundo tão grande que alguns ampliam ainda como as espécies de um gênero, é o espelho em que devemos mirar para nos conhecermos de maneira exata”.

ABL EM PÉ DE GUERRA

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Por Alexandre Pilati

Com a morte, em 28 de fevereiro, de José Mindlin, o bibliófilo que ocupava a cadeira número 29 da ABL, abriu-se uma das mais acirradas disputas de sucessão em toda a história da Academia.
A campanha, que, na surdina, começou antes mesmo da morte de Mindlin, esquentou de vez nas últimas semanas. Segundo as regras da Academia, após a chamada “Sessão da saudade”, que ocorre na quinta-feira seguinte à morte do acadêmico, abre-se o prazo, de 30 dias, para inscrição de candidaturas. Depois disso há sessenta dias de campanha. Na atual disputa, entretanto, deu-se a largada no mesmo dia do falecimento de José Mindlin.

Em declaração ao jornal Folha de São Paulo, o próprio presidente da ABL, Marcos Vinícius Vilaça, admitiu que antes do sol se pôr no dia 28/02, as máquinas de campanha à cadeira 29, cujo patrono é Martins Pena, já estavam a todo vapor, fazendo circular e-mails e telefonemas para acadêmicos.
Os passos de uma eleição para a ABL

Ao todo a ABL tem 40 membros e uma vaga se abre quando um dos acadêmicos morre. O estatuto é claro quanto às candidaturas. Podem ser candidatos: “os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito, ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”.

No prazo regulamentar, abre-se o período de inscrições de candidaturas e de campanha. É preciso, então, muito cuidado por parte dos candidatos a imortal. Segundo a acadêmica Nélida Piñon, que está há 21 anos na ABL, não é de bom tom que o candidato se exponha muito na mídia durante esse período. É preciso fazer um sólido trabalho de bastidores, no ritmo natural da casa, que é de solenidade quase absoluta.

Passada a fase de campanha, faz-se a votação, que, no caso, será no dia 02 de junho. Votam, de forma secreta e por escrito, os 39 acadêmicos e vence o candidato que obtiver maioria absoluta. Caso nenhum deles alcance a maioria no primeiro turno, podem ocorrer até mais três novas votações.
Quem são os candidatos dessa eleição

Numa disputa da ABL sempre há os aclamáveis, aqueles que, se entrassem na disputa, fariam com que ela ocorresse apenas para “cumprir tabela”. No caso da disputa pela cadeira 29, esses nomes seriam o do crítico literário Antonio Candido, o do poeta Ferreira Gullar e o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Como nenhum deles parece muito interessado em se tornar imortal, a disputa se acirrou entre os candidatos inscritos.

O primeiro nome é o do poeta e diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti. Segundo se diz, ele é quem tem mais chances de ganhar a disputa, pois já se inscreveu uma vez e tem uma consistente obra literária, além de grande proximidade com diversos acadêmicos.

Outro nome bem cotado é o do professor Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional.
Correndo por fora, mas fazendo uma campanha persistente está o Ministro do Supremo Tribunal Eros Grau, que também é professor universitário aposentado e publicou, principalmente, obras na área jurídica.

O azarão do páreo é o sambista e escritor Martinho da Vila, que tem poucas chances porque, apesar de inscrito, diz que só vai para a Academia se não precisar fazer campanha. Martinho, que tem 10 livros publicados, sente-se desconfortável em fazer a corte aos acadêmicos, mas nessa disputa, isso é fundamental.

MINHAS BIBLIOTECAS

sábado, 3 de abril de 2010

Por Franklin Jorge

FRANCISCO MEIRELES, Porto Velho-RO. Biblioteca rica em obras raras e atuais. Lá, reli Thomas Mann, Machado de Assis, Eça de Queiroz, avancei em Elias Canetti, tudo enfim que havia de bom numa rica e diversificada coleção de livros de autores universais. Refiro-me ao final do século passado, quando a frequentei. Lá estavam Borges, Clarice, Lima Barreto, Marques Rebelo, Drummond, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Luis da Câmara Cascudo, Peregrino Jr.

Pertencente a Prefeitura, a biblioteca tem uma rede de amigos e colaboradores que mantém o seu acervo atualizado e em expansão. É comum empresários e empresas de Rondônia doarem os últimos lançamentos. Toda semana tem livro novo entrando no acervo, doados por particulares. Não sei como teria começado essa prática, então vigente, que me foi relatada.

Lá, encontrei exemplares do raríssimo Panorama da Poesia Norte-rio-grandense, antologia organizada por Rômulo Wanderley. Um conjunto de biografias e ensaios biográficos notáveis; estudos sobre a Amazônia, relatos de naturalistas e aventureiros, boa seleção de livros de poesia, romances, tudo enfim que podia suscitar o apetite e a gula nossa de leitura.

Dentre essas raridades, um conjunto de biografias clássicas e modernas de Eça de Queiroz. Todo o João do Rio, Guimarães Rosa, Cascudo, Gilberto Freyre, Bandeira, Machado de Assis, Cornélio Penna, a primeira enquete que ouviu escritores brasileiros da primeira metade do século passado, José de Alencar, os clássicos da Amazônia profunda, Brito Broca, Agripino Grieco, os barrocos e modernistas.

A biblioteca estava ficando pequena para o acervo e a frequentação diária. Numa praça, o prédio funcional, no Centro, perto da prefeitura. Lá, passeando com uma amiga, ocorreu-me escrever a crônica de minhas bibliotecas, não a historia de minhas leituras, consoante a incumbência que me dera o Cardeal das Letras, Antonio Carlos Villaça, sobrinho neto de Ramalho Ortigão. Um homem de letras au grand complet.

Alguém já sugerira que Villaça escrevesse essa História, porém ele declinou da missão e a delegou uns anos depois. Achei bem árdua a principio essa edificação da história de minhas leituras e logo o disse a Villaça, que insistiu com a ideia, dizendo que eu já teria um longo caminho andado. E, pegando o exemplar do Livro de Antonio que me acompanhava em meu périplo amazônico, abriu-o numa página ao acaso e leu, na presença de Wilton Gayo que me acompanhava nessa visita, trechos que eu sublinhara e anotações, inspirado pela leitura embebida em angústia e humanismo.

-V. lê fazendo anotações, destacando trechos e frases que lhe despertaram a atenção – e passando para outras páginas, que tambem leu, disse: – Estou vivendo uma nova experiência, lendo o que em meu livro lhe pareceu digno de comentário… Nunca me ocorreria justapor tais frases e criar uma terceira sentença, inteiramente autônoma em relação ao que escrevi.

Villaça fez-me pensar sobre a ideia.A princípio temi essa empreitada e o disse. Pensei, depois, que podia escrever esse livro, bastando dispor dos livros de minha biblioteca e das anotações de toda uma vida inspiradas pela leitura. Alicerçado em anotações, transcriações, paródias, repentes e iluminações que forjariam um livro singular.

- Sistematize suas notas -, assim falou o Cardeal das Letras,depois de ler mais duas ou três das minhas intervenções. V. terá matéria para uma biblioteca…

Anos depois, dei esse segundo exemplar do mesmo livro que Villaça autografara para mim; dei-o ao grande cronista da terra de Areia Branca, José Nicodemos, um villaciano incurável. Mais recentemente, morando pela segunda vez em Mossoró, tivemos José Nicodemos e eu vários encontros prazerosos em que evocamos o grande autor de O Nariz do Morto, que ambos admiramos.

Nicodemos contou-me, nesses encontros pelas ruas e cafés de Mossoró, da sua velha amizade com Navarro e o tempo em que no Rio de Janeiro trabalhou com o celebrado professor Antenor Nascentes, referência nos estudos da língua. Em certa época, em Natal, farrearam e se divertiram. Nicodemos revelou-me um Navarro desconhecido, hipocondríaco, cercado por uma farmácia.

Uma vez, enquanto bebiam, Nicodemos não lembra mais se na Cidade Alta ou na Ribeira, Navarro lhe revelou que compusera o próprio epitáfio, que desejava ter gravado em seu túmulo, no cemitério do Alecrim. Nicodemos os repete, pausadamente, enquanto se dirige, a pé, para o jornal De Fato onde escreve uma crônica diária:

Branco silêncio dos cemitérios,
Cobris os mortos como um dossel:
Às vezes cismo nos meus vagares
– Será que é isto que chamam céu?

Nicodemos é uma das nossas melhores prosas, um mestre da crônica de ideias, da crítica fundada num bom senso irônico, no permanente exercício da dúvida e do inconformismo que não deixam o juízo apodrecer.

LIÇÕES DE UM IGNORANTE

domingo, 28 de março de 2010

Por Millôr Fernandes*

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho (esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo).

Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambês ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios.

Chapeuzinho Vermelho andava pois, na floresta, quando lhe aparece um Lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e … (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores – o Lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo de andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ancestralíssimo e está em todo o folclore universal).

Disse o Lobo: «Onde vais, linda menina?». Respondeu Chapeuzinho Vermelho: «Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, à uma hora e trinta e cinco minutos da tarde.»

Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: “Psychopathology of Everyday Life”, The Modern Library Inc., N.Y.).

Chegando a casa da avozinha, ele engoliu-a de uma vez - o que, segundo o conceito materialista de Marx, indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a ideia do capitalismo devorando o proletariado – e ficou esperando deitado na cama, fantasiando com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o Lobo não era a sua Avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea.

Nem percebeu que a voz não era a da Avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrénica, débil mental e paranóica, pequenas doenças que dão no cérebro, parte súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em «Sexual Behaviour in the Human Female», W.B. Saunders Company, Publishers).

Mas para salvação de Chapeuzinho apareceram os lenhadores, que mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da Avó através de Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média de vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

(*) Crônica originalmente publicada em 1967

DIÁRIOS, UNS FRAGMENTOS

sexta-feira, 26 de março de 2010

Por Franklin Jorge

.Lisa Mercedes [Luisa Mercedes Levinson] apreciava a imobilidade que lhe permitia desfrutar o absorvente prazer de deleitar-se com o exercício do pensamento.

Na cama, cercada de gatos, acreditava que não haveria maior volúpia que pensar de olhos pregados no teto ou com um livro aberto sobre o peito; um livro do qual garimpava alguma frase sublinhada, comentada, relida, transcriada.

Eu me lembro que ela admirava Clarice e algum jornalista chegou a chamá-la de “a Clarice Lispector” argentina. Este elogio ela o ouvia com inefável deleite, sem aborrecimento e sem sentir-se diminuída; ambas afinal se conheciam e mutuamente se admiravam, como alguma vez ocorre entre escritores.

Gostava mais dos artistas, seres anticonvencionais, talvez excêntricos, do que dos escritores que lhe pareciam solenes e mundanos.

Passava horas pensando, decifrando a misteriosa caligrafia do tempo impressa no teto do seu quarto, em Belgrano, 11 de September, Buenos Ayres. Sonhando de olhos abertos com o livro que escreveria, plasmando suas personagens, passeando pela natureza sobrenatural, refletindo sobre o milagre, terrível não por sua raridade - mas pela frequência com que costuma ocorrer, sem que o percebamos.

Pensar, dir-se-ia, a matéria-prima da criação. Pensar sobre esse negócio falido de existir, sobre a arte como uma forma de danação ou salvação; pensar na natureza das coisas e nas leituras pretéritas e futuras.

.Os escritores encarecem o pensamento e se entregam à paixão de pensar.

Não é um prazer vulgar nem contempla a todos.

É a chave das percepções.

.Talvez a autora de O Sonho Violado tivesse em mente as lições de Baudelaire, imerso na aura da imobilidade e concentração dos artistas, pensando os nossos livros.

.Luz e música concernem ao gosto de pensar.

.São momentos como esse que dominam o escritor. Em vez de amantes – dirá o autor de Justine, fazendo-nos participar da sua estranha intimidade intelectual -, o mergulho na mente à procura de um livro. Um livro especial, como um rosto sem traços, imaginado por Clarice em sua embriaguês pensativa.

Nisso reside o consolo do trabalhado que o artista realiza, quer consignar Durrell em seu Quarteto que é a crônica difusa de Alexandria, persuadindo-nos não da magia ilusionista da literatura, mas do acordo que estabelecem os artistas; um acordo radiante com tudo o que nos feriu ou derrotou na vida cotidiana.

Ei-lo, o escrito:

“E desta forma, em vez de fugir ao nosso destino, como tentam as pessoas comuns, realizamos por inteiro – nós que pensamos, forçoso seria não acrescentar – nosso genuíno potencial – a imaginação (…)

“Deste modo, o sabor deste escrito possuirá algo de seus modelos vivos – seu alento, sua pele, suas vozes – entrelaçadas no tecido flexível da memória humana. Quero que vivam novamente, até que a dor se transforme em arte”.

Clarice tem a fantasia de quedar-se lendo, habituada a não considerar perigoso ler, isto é, pensar. De súbito, a uma frase lida - com uma lágrima nos olhos -, em êxtase de dor e de liberdade, diria Clarice: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!

D’O Poço de Narciso [Inédito]

.Céline pensava só em não morrer.

Já que estava entre os homens, quis continuar.

Não gostava de gente morta. Gente que em vida fora como carneiros conformados.

Pelo pai, descendia de burgueses franceses e nascera Louis Ferdinand Destouches. A mãe era hábil bordadeira e, bordando – algo análogo ao ato da escritura -, ajudava a manter a casa. Seu trabalho era tão fino que não permitia que acendessem fogo em sua casa. Comiam macarrão em todas as refeições, por duas razões. Por ser barato e por dispensar longos cozimentos e sobretudo por não ter cheiro marcante que impregnasse os lindos bordados maternos. Afinal a clientela era rica e cheia de exigências.

Há muito não lia Céline, um dos mestres do pessimismo, cuja influência se faz sentir sobre Henry Miller, escritor americano radicado em Paris que apreciou a crueza da sua linguagem e a levou mais adiante, para escândalo da imprensa moralista e hipócrita. De fato, Céline refere o homem, único, em vez da humanidade.

Era médico. Sempre clinicando para os pobres e escrevendo em grande obscuridade os seus romances dissolventes.

Durante a guerra, traiu a França, escrevendo a favor do invasor. Teve a sua prisão decretada e fugiu para a Dinamarca.

Vivendo mergulhado no inferno, para Céline um dia vivo era um dia ganho.

CASCUDO E O PADRE JOÃO MANUEL

terça-feira, 23 de março de 2010


Por Franklin Jorge

Recentemente, escrevendo sobre o padre João Manuel de Carvalho [1841-1899], mais jornalista e político do que religioso, nome de grande expressão no Império e nos começos da República, obtive uma desusada atenção dos leitores, encantados com a desabusada criatura que sabia como ninguém ridicularizar seus adversários, botando limão em suas erisipelas morais. Mal publicada a crônica neste semanário, folheando um velho livro, bati de frente com uma página escrita pelo polígrafo Luis da Câmara Cascudo em 1938 sobre o nosso irrequieto e polêmico personagem, há muito dormindo o sono dos justos.

Nome de rua no aristocrático bairro de Petrópolis, em Natal, lembra Cascudo a participação do Padre João Manuel na política provinciana e na Corte, onde ocupou posição de destaque também no jornalismo e no clero, pois foi pároco da prestigiosa Candelária, a igreja matriz da capital do Império do Brasil, há coisa de pouco mais de um século. Apesar de padre, cultivava um ódio fiel e constante contra os jornalistas que se vendiam aos poderosos, por entender o jornalismo como uma missão em favor da sociedade e a política, ou seja, os mandatos proporcionados pelo voto, a retribuição natural e justa de seus esforços de militante sempre disposto a pegar pesado. Portanto, nada melhor que o voto, como pagamento, por sua luta por mais democracia e justiça social

Filho do capitão João Manuel de Carvalho e de Quitéria Moura Carvalho, nasceu em Natal e ordenou-se no Seminário do Maranhão, em 1865. Fundador de “O Recreio”, o primeiro jornal literário a circular no Rio Grande do Norte, começou escrevendo no “Conservador” e tomou gosto pela política, graduando-se rapidamente nessa arte. Diz Cascudo que ele agradou depressa, falando e escrevendo. Poucos anos depois de jurar bandeira ao partido, criou, pela independência e atividade inconsciente de seu espírito, um lugar á parte no estado-maior de seu protetor, o coronel Bonifácio, velho cacique que possuía do Conde de São Lourenço o raro talento de pôr asas nas costas de quem julgava capaz de vôo e recusando postos de realce para si mesmo. E o jovem padre foi em frente até a deputação-geral, que obteve, não de mão beijada, mas porque soube esperar o momento em que o cavalo passava selado e habilmente o montou, lembra Cascudo.

Aderindo à República, manteve-se longe do Partido Republicano fundado no Rio Grande do Norte por Pedro Velho, segundo uns, por orgulho, para não dividir seu cacife com um correligionário igualmente prestigioso.

Pedro Velho não se esforçou para atraí-lo, segundo alguns, por temer a sua imensa popularidade.

Como deputado, propôs a abertura de estradas e instalação dos correios no Rio Grande do Norte, pouca coisa e de pouca monta, pois como política não era a terra que lhe despertava o interesse, mas os eleitores. Era capaz de despender um esforço imenso para atender ao pedido de um eleitor. A terra que se lixasse e, ainda mais, a igreja, embora tenha terminado seus dias como vigário de Amparo, importante município do Estado de São Paulo. Lá, mergulhou no ostracismo político, mas ainda mostrou suas garras como jornalista. E escreveu um delicioso livro de memórias, que, devidamente anotado por um bom conhecedor da história política brasileira da época, seria bem vindo se fosse reeditado.

Insatisfeito com a Monarquia, decepcionou-se rapidamente com a República. Cascudo conta-nos que, um ou dois dias depois da Proclamação da República, vestido à paisana, ou seja, de fraque, cartola e plastron [espécie de gravata, parecendo um babador, usada pelos elegantes da época], compareceu a uma festa popular em homenagem ao novo sistema de governo. Usou um valioso camafeu para prender a gravata. Ao despedir-se dos amigos e novos correligionários, notou o desaparecimento da jóia. Procurou-a por toda a parte. Desencantado, curtindo o prejuízo, disse a frase que se tornaria famosa: “Querem ver que a República já começou furtando?”

O REI DE NATAL

domingo, 21 de março de 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Navarro, Newton Bilro Navarro (1929-1992) terá sido o primeiro homem célebre que conheci e que deu-me a noção do que era ser famoso e ter o seu nome solto no mundo.

E não se tratava de nenhum político, mas de um artista, ou seja, de um individuo dotado de uma extraordinária personalidade que o distinguia e fazia dele uma pessoa notável. A confirmação do que me diria o mestre Cascudo alguns anos depois, o artista começa pela personalidade.

Reinou Navarro sobre a cidade do Natal durante duas ou três décadas, exercitando de maneira perdulária e impenitente a pluralidade do seu talento, na literatura, no jornalismo - onde se fez um mestre inconteste da crônica, ao lado de Berilo Wanderley e Sanderson Negreiros, o último remanescente dessa geração que deu projeção à cultura literária e jornalistica local.

Navarro era referência para todos os jovens da minha geração. Adolescente no Açu, onde não chegavam os jornais exceto com muitos dias de atraso, falava-se em Navarro como de um artista completo; como alguém que dominava todas as linguagens e ainda tinha o charme de se fazer ouvir pelas massas, sobre palanques eleitorais. Era, como se sabe, um notável orador e Aluízio Alves o prestigiou e dele tirou proveito.

Poucos de nós, porém, o conhecia a não ser pelo brilho de seu nome que se irradiava para além de Natal, onde vivia, segundo sabíamos, na companhia de sua velha mãe, Dona Celina, professora aposentada. Eu me lembro que ao visitar Vicente Vitoriano pela primeira vez, à rua Juvenal Lamartine, Doze Anos, em Mossoró, em algum momento da conversa o nome de Navarro veio inexoravelmente à tona como uma fatalidade. Noticiara-se, por aqueles dias, que ele estampara o vestido com que a Miss Rio Grande do Norte 1969 se apresentara ou se apresentaria numa grande festa no América, o clube do grand monde natalense.

No Açu, quando depois das aulas nos reuníamos na praça, meus colegas e eu, sempre Navarro era evocado como um dos nomes que encarnavam o mistério mesmo da arte. Curioso era que poucos, pouquíssimos de nós, algum dia, tivéramos até então o prazer de estarmos diante de uma obra sua, artística ou literária. Contudo, havia o prestígio do nome. Afinal, diz-seque a fama precede o talento…

Era Navarro, aonde quer que chegasse o seu nome e a notícia do seu talento, um dos grandes mitos da minha geração. Nem Cascudo, em sendo essa grande figura patriarcal das letras, gozava do mesmo prestígio, até porque Navarro contava ainda com um talento a mais - o fato de ser, também, um temperamento, alguém enfim de quem não se esperava que fosse convencional e rotineiro, pois praticava a baudelairiana arte de desagradar.

A ostensiva pluralidade do seu talento, sua impenitente boemia, o jeito guache de ser na vida, sua cartografia de Natal, despertavam a nossa deslumbrada curiosidade, ao contrário de Dorian Gray, sempre visto por quase todos como um artista burguês, segundo a incipiente contracultura provinciana daquela época. Era visto, ademais, como um outsider.

Artista que urdiu sua arte a partir de uma cultura visual consistente, inspirada no figurativismo construtivo-cubista, no melhor espírito legeriano, mostrou-se Navarro, sempre, um criador capaz de pensar sobre a pintura.

Foi, no entanto, um desenhista e não um pintor. Um grande desenhista que transfigurou em sua obra elementos portinarescos e soluções que clarificam a impressão deixada por Aldemir Martins, de quem foi aluno por um breve período, sobre a sua sensibilidade ímpar, que, juntamente com Picasso, forma as suas grandes referências plásticas.

Aqui, foi tudo e foi nada.

Escritor marcado pela angústia existencialista, descreveu em sua prosa de ficção o mundo rural da sua infância em Santana do Matos e Angicos, onde viveu e teve os seus primeiros contatos com a expressão artística, ao desenhar intuitivamente com carvões sobre a calçada da casa grande.


Nathália de Souza, vulgo Nei Leandro de Castro
Adepto da maledicência e barraqueiro temido pelas pessoas educadas e de boa índole, o pornógrafo Nei Leandro de Castro fugiu do debate civilizado ameaçando, ainda, não ler mais o meu blogue… D. Juan no limite da libido senil, o fauno da terceira idade é, além de um velhote frustrado e carente, uma verdadeira anomalia em matéria de tesão.

Segundo dizem por aí seus desafetos – que formam já uma legião – seu tesão “desceu”, como costuma ocorrer com alguns galãs em fim de carreira. Porém creio que tudo isto não passa de grosseria. De verdadeiro, em tudo isso, apenas a eclosão dessa tal poetisa Nathália de Souza com quem Nei, freudianamente, se confunde.

Ora, que espécie de macho se daria ao desplante de, mijando em pé, passar por uma fêmea? Pois em 2006, para a surpresa de todos, Nei adotou uma nova identidade – e uma identidade pouco viril –, entrando para a história da literatura provinciana como Nathália de Souza, a autora de uns Poemas Devassos produzidos por essa dupla personalidade que Caicó exportou para Natal ainda no século passado.

Ato falho ou confissão íntima?

Na história da literatura os pseudônimos e heterônimos são frequentes. Eu mesmo, de vez em quando, assino-me Jorge Antonio, em homenagem a antepassados meus. Infrequente é homem se passando por mulher, como faz o Nei Leandro de Castro, digo, Nathália de Souza, que ainda se apresenta como uma devassa curtidora de prepúcios e polidora de madeira…

Ademais, sua homofobia lembra-nos aquele recurso que o vulgo chama de “botar carta de seguro”, ou seja, prevenir-se, para não ser flagrado de calças curtas. Eu, sinceramente, não quero crer que seja Nei essa Nathália que ele declara ser, mas um engano. Pelo menos em matéria de literatura, sexo e moral.

A propósito, no próximo domingo, atendendo a vários pedidos, tenho toda uma gama de assuntos relacionados com a biografia de Nei a escolher como tema deste artigo. Eis uma amostragem sucinta: o ingrato que enganou o amigo que o acolheu em sua casa, ou, segundo Geraldo Caldas, o verdadeiro motivo de sua fuga para o Rio; sua malsucedida contratação para a Faculdade de Jornalismo da UFRN; sua derrota na Academia de Letras; seu histórico como funcionário fantasma do Fisco Estadual etc. Panos, portanto, para muitas calcinhas…

Aguardem!

A CONFRARIA DO CIDADE JARDIM

sábado, 20 de março de 2010

Por Franklin Jorge

Diariamente, há vários anos, eles se reúnem para beber inúmeros cafezinhos e jogar conversa fora. Ninguém sabe dizer como o grupo se formou em torno de Elias, Gilberto, Alexandre, Laércio, Vicente – os principais dessa confraria que, em sendo inteiramente potiguar tem em sua composição algum tempero baiano, pois se caracteriza pela disponibilidade para divertir-se.

Embora não seja aquilo que possamos chamar de “fiel”, desses que batem o ponto em pelo menos um dos tres expedientes, sempre que posso compareço a esses encontros e ainda assim sempre tenho a convicção de que estou sendo esperado, sempre que venho aqui, partilhar da conversa e dos cafezinhos.

Neste sábado, cheguei bem cedo com o propósito de fazer algumas anotações e talvez escrever um ou dois artigos, antes do almoço, mas eis que de repente aparece-me o Gilbertinho, que não sabia tão madrugador.

É verdade que ainda consegui fazer algumas anotações sobre o Escrever, que desejava descrever como um ato político e, com o tal, sujeito a desdobramentos. Um ato extremamente complexo, que – diria Jacques Rancière -, não pode se realizar sem significar ao mesmo tempo aquilo que realiza e o que dá sentido a essa ocupação.

Por fim, deixei de lado as políticas da escrita e optei pela bem humorada e hedônica filosofia de Gilbertinho, que é verdadeiramente um adepto da política do bom viver, o que naturalmente não exclui as outras formas de política. Segundo meu amigo, abrindo a conversa em plena manhã deste sábado, “o Cidade Jardim é o shopping das pessoas que não fodem mais”. E, fazendo um gesto que abarcava o shopping inteiro, proclamou, “Tanta gente aqui e ninguém faz mais nada…” E, ao dizê-lo, riu aquela sua característica risadinha comprida e sonante.

Emérito comprador da castanha produzida em uns três estados nordestinos, tem Gilberto a sua filosofia, algo hedonista e pragmática. Como viver, aqui e agora, em boa companhia, sem dar bolas para a política. Um tema, aliás, que nunca está ausente dos nossos papos, apesar da recomendação de Laércio de nunca falar em politica, o que significa dizer, não falar mal do presidente Lula, principalmente na presença de Alexandre, o único parisiense do grupo, cujos amigos costumam presentear com um delicioso licor irlandês feito de mel.

Laércio sabe que faço parte do time que não vai com a cara deste governo. Enquanto Gilbertinho, por exemplo, já conta com a vitória da Dilma, não tanto por Dilma - ele me explica -, mas porque acredita que a sua eleição faz parte de um processo irreversível de mudanças que desmontará definitivamente o sistema oligárquico que, geração após geração, manda no País. A esta possibilidade de mudança Gilbertinho atribui o sucesso e a popularidade do presidente Lula: os brasileiros, ansiosos pela derrota do velho status quo, teriam vislumbrado nele, Lula - e não no PT, segundo enfatiza o meu amigo - essa possibilidade revolucionária. Por isso, para safar-se de iminente derrota, até o senador José Agripino já anda entoando loas ao presidente Lula… E José Serra, governador de São Paulo, botando carta de seguro, ou seja, comprometendo-se a manter as “conquistas” desse governo que a meu ver está arruinando o país. “O PT é só um partido… Ninguém liga para o PT. Lula, sim, é que o cara”, conclui, enquanto nos é servida nova rodada de cafezinhos.

Já sobre a política, no Rio Grande do Norte, ele diz que se transformou num tumulto. Ninguém sabe mais quem é quem. Que ninguém sabe para onde vai, tamanha a confusão que se instalou em todas as hostes. E agora, para completar, essa inesperada doença de Iberê, até nisso, parecido com a Dilma, só faltando agora - depois da cirurgias - a candidatura dele, para governador, deslanchar de vez, como aconteceu com a ministra-chefe e candidata à presidencia. De fato, agora, é só o que faltava acontecer por aqui.

De repente, não sei como nem por quê, o nome de Maluf surgiu em meio a conversa, talvez pelo fato de ter sido ele incluído, finalmente, na “lista vermelha” da Interpol, a polícia internacional que caça criminosos em todos continentes, creio eu. Sim, foi isso, a notícia está estampada na edição de hoje do Novo Jornal… Ah não, agora me lembro. Ao ouvir um dos nossos amigos se oferecendo para pagar uma nova rodada de cafezinhos, disse Gilberto que ninguém nunca via um rico pagando nada; que certas gentilezas, como essa com que éramos acarinhados, seriam próprias de gente pobre ou remediada. “Veja o Paulo Maluf - disse -, rico como a gota serena, sempre roubando o erário, e nunca ninguém o viu metendo a mão no bolso para pagar um cafezinho para alguém…”

E, logo acrescentou, rindo e fazendo-nos rir de coisa tão séria. “Aliás, rico não anda com dinheiro… Nem guarda dinheiro em cueca. É fativel até que ele, Maluf, não use nem cuecas, pelo menos não para este fim, já que ele guarda o produto do roubo em contas bancárias espalhadas por esses paraísos fiscais…” Além disso, o rico roubaria sem tocar num tostão e ainda dribla a Polícia Federal, transferindo o dinheiro de um paraíso para outro, numa velocidade tal que deixa os agentes da lei em permanente desvantagem.

A propósito, como uma coisa leva a outra, ele nos chamou a atenção para aqueles que, a seu ver, ainda parecem ser os operadores financeiros mais honestos do país - os doleiros. “Imaginem, botar a mão em tanta grana suja e não desviar nem um centavo…” Ao contrário de alguns genros que operam por aqui.

Segundo Gilbertinho, pobre gosta de agradar e, por isso, mete a mão no bolso e paga a conta. Ora, “o pobre passa o ano engordando uma galinha para encher a barriga do rico” e, transmutando os exemplos para o campo da política, lembra-nos que o senador Garibaldi, por exemplo, nunca convidou ninguém para almoçar na casa dele…” Agora, Gilbertinho afirma que alguém só é rico quando vai a um restuarante e não mete a mão noi bolso para pagar a conta, e dá como exemplo de homem rico o Antonio Ermírio de Morais, que vive apenas com trinta mil reais por mês e ainda lhe sobra dinheiro. É que sempre tem alguém para pagar-lhe o restaurante.

O rico quer dinheiro não para gastar, acrescenta, rindo de minha incredulidade. Rouba para juntar uma cédula em cima da outra, pois o seu prazer é pensar que tem dinheiro. Já o pobre, quando pega uma mixaria, gasta logo. A primeira coisa que faz é correr para o supermercado, pois ninguém gosta mais de comer do que o pobre. Para o pobre autêntico, dinheiro é para gastar e passar troco…

Bem, já que é assim - digo eu -, bote a mão no bolso e pague uma nova rodada de cafezinhos…

DIDI CÂMARA

quarta-feira, 17 de março de 2010

Por Franklin Jorge

A republicação de uma velha crônica de Edgar Barbosa trouxe novamente à vida a poetisa e atriz Didi Câmara, ao despertar a curiosidade do jornalista Woden Madruga, que abriu espaço para indagar sobre o espólio da norte-rio-grandense que, nos anos setenta, visitei certa manhã em seu apartamento na Tijuca.

Havia muitos anos, mudara-se para o Rio. Procurei-a em nome de Nati Cortez, que escreveu uma carta de apresentação. Demorei a procurá-la, até que, aproveitando que o Brasil jogava contra a seleção de um outro país, resolvi nesse dia visitá-la, porém creio escolhi mal o dia e o momento. Havia muita gente em sua casa e não pudemos conversar.

Didi, já idosa e cercada da atenção dos parentes e amigos, recebeu-me à cabeceira da mesa comprida em torno da qual se apinhavam umas dez pessoas, a maioria, mulheres, que conversavam, não sei se sobre futebol, mas riam muito e pareciam curtir aquele momento de intimidade. São todos amigos, disse a poetisa que não se mostrou nada interessada por Natal, onde nascera e vivera quando moça, participando da incipiente vida cultural da cidade.

Sua poesia e sua vocação para o teatro devem ter causado frisson em Natal, cidade ainda dorminhoquenta e de muro baixo, naqueles já remotos anos trinta ou quarenta do século passado. Um tempo em que as moças de família não subiam ao palco, por restrições morais ainda bem vivas e alertas. Eu me lembro que Dona Nati me dissera que “Didi era muito pra frente”, ou seja, como artista, desafiava o estabelecido e aceite por todos.

Talvez eu tenha me sentido intimidado por toda aquela gente que não parecia nada curiosa para saber noticías de Natal. Didi, que encantou como atriz revelação, participando das peças do Ginásio Dramático, disse-me simplesmente que tudo aquilo era passado, após ler e dobrar a carta que eu lhe entregara. Sim, pensara em ser atriz. Todos os jovens querem se fazer notar.

Didi ofereceu-me um lanche, repetindo talvez um costume que adquirira em seus tempos de Natal, quando ainda era gentil oferecer alguma coisa, doce, bolo, café ou um copo dágua às visitas. Aceitei o café, enquanto, na rua, o carioca entusiasmado comemorava a participação do Brasil na Copa de 1972.

ELES E JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA

terça-feira, 16 de março de 2010
DOIS JOSÉS Lins do Rego (esq.) e o conterrâneo Américo de Almeida

JOSÉS SE ENTENDEM Lins do Rêgo e o conterrâneo Américo de Almeida

Por Franklin Jorge

Recebi um presente ao tempo de minha estação em Mossoró, Eu e Eles com autógrafo do autor. “A Joaquim Duarte, cordial lembrança de José Américo. (…) 1972.” Exemplar que pertenceu a um velho amigo já falecido. Contém o relato autobiográfico dos encontros e desencontros do autor com a política e Getúlio Vargas, de quem foi ministro; com Epitácio Pessoa; Augusto dos Anjos, Graça Aranha, José Lins do Rêgo, Assis Chateaubriand, João Cabral de Melo Neto…

Um livro que contém passagens, impressões, ambientes. Criticamente filtrados pela memória e escrito no estilo inconfundível de um estilista que sabe pensar sobre as suas ideias. Eis o que contém este livro, evocativo de tempos mortos e de outros tempos, forjado por José Américo, que fala de pessoas – declara -, de pessoas e de figuras que não estão de corpo inteiro, como desejaria o autor que não faz concessões.

Flagrantes que definem sucintamente em José Américo o homem público e o privado. O homem que queria ir-se sem desesperanças e que, ao aposentar-se escolheu viver diante do mar da sua terra, no Cabo Branco. E, ali, diante do crepúsculo e vendo o mar, sentindo-lhe a salsugem e a maresia, viveu até a morte.

Desde cedo começou a demonstrar o que seria como homem. Um homem que enfrentou a engrenagem ignorante e preguiçosa do estado, ao tornar-se ministro; um bruto, afinal, movido a raiva e decisão, conforme confessa ao olhar-se retrospectivamente. No entanto, um devorador de livros que antes de tudo o mais queria ser autônomo.

José Américo entendia que ser útil era desdobrar a personalidade, vivendo outras vidas.

Como político, não fazia favores individualmente a ninguém; fazia-os ao povo, em obras que pudessem servir à comunidade.

Como escritor tinha a sua prosa e a frase curta – que dizia resultar do fôlego curto. E, ao escrever, deixou o povo respirar e falar no seu texto, fazendo-se, pois, notar pela personalidade do que escrevia sem complacência sobre uma realidade que estava entranhada em sua própria experiência de vida.

Engajado na máquina infernal, a política, quis ser presidente e, parte dessa campanha, ele a conta aqui, rápida e sucintamente, num dos capítulos mais longo desse livro que, distraidamente, voltei a folhear, ao arrumar a estante. Não é livro que pretendesse reler, pois dele já extraira o sumo e a essencia, todo o proveito enfim que se pode extrair da leitura de um livro, além do prazer que proporciona. Ao tocá-lo, porém, percebi que continha anotações de quando o li pela primeira vez. Agora, entre curioso e surpreso com o que leio aqui, o consulto para pensar sobre o que havia lido em Mossoró.

Eis o que nos diz  José Américo de Chateaubriand, seu conterrâneo, em sua capacidade de admirar: - Tudo que faz é loucura até ser feito. Deixou de viajar porque o comandante do navio japonês recusou-se a aceitar esse tumulto como passageiro. Um monstro, um demônio, um fenômeno e acabou como santo. Fez um jornal que não era um simples órgão de informação, mas um centro intelectual, uma escola de letras e de estudos.

O discurso de recepção ao acadêmico João Cabral de Melo Neto na Academia Brasileira de Letras, despretensioso e pertinente:

Perdemos Manuel Bandeira e vindes, Sr. João Cabral de Melo Neto, preencher esse claro com um nome da mesma grandeza…

Discurso onde a poesia está presente e que, sem afrontar as normas protocolares da Academia, inova, ao infringir o ar solene em sua busca de uma visão mais profunda e variegada, da estilística contra a improvisação informe; sobretudo, dois homens que sabiam selecionar valores.

De José Lins do Rêgo, em um outro vivíssimo retrato, viu o contador de histórias de ar distraído, rueiro, negligente no andar, no sentar-se, no falar, não esquentando lugar, ninguém dava nada por ele. Conheceram-se no Recife. E, de Lins do Rêgo guardava José Américo a lembrança de alguém que, na rua, confundia-se com o povo. Um homem sadio à procura de uma doença, às vezes ficava alheado, entrava no mundo da lua, quando conversava com personagens invisíveis.

José Américo despede-se. Adeus, meu amigo. Prometo ficar pelo resto dos meus dias contando a tua história, como sabias contar a dos teus inúmeros convivas.

Leia acréscimos a este artigo a qualquer momento

REVISTA QUER COLABORAÇÕES PARA 2º NÚMERO

segunda-feira, 15 de março de 2010

Divulgação

“O poema, essa estranha máscara mais verdadeira
do que a própria face”
[Mário Quintana]

Abertas as chamadas para envio de poemas e materiais gráficos para a 2a edição da 7faces a ser publicada em julho próximo. Antes de enviar o material, favor ler com atenção as regulagens abaixo:

Para o envio de poemas:
1. Os poemas para esta segunda edição deverão ser entregues em anexo no e-mail pedro.letras@yahoo.com.br até o dia 25 de abril de 2010.

2. Junto com o poema deve o autor entregar ficha de inscrição preenchida, declaração de autoria e um resumo biográfico – todos em arquivo separado. Em seguida, o autor receberá um e-mail de confirmação do envio do material. Caso não receba em até 48h, deverá entrar em contato pelo referido e-mail de postagem.

3. A temática para a produção poética é livre e os autores podem remeter a quantidade que achar necessária de poemas.

4. Devido às questões de fechamento de edição e editoração, possivelmente esta data de envio do material não haverá adiamento.

5. Os poemas recebidos serão lidos e apreciados pelo editor do caderno. Os catorze primeiros poetas serão publicados. Os demais ficam no banco de dados para edições subsequentes.

6. Só serão aceitos trabalhos inéditos. Entenda-se por inédito aqueles trabalhos que não tenham sido publicados em outra mídia, seja impressa ou eletrônica, como sites, revistas, periódicos, jornais, blogues etc.

7. Os trabalhos devem vir digitados em Word para Windows, corpo 12, Arial, em língua portuguesa, o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto. O tamanho do texto não deve ultrapassar uma página. E cada autor é responsável pelas suas correções ortográficas. Trabalhos fora desses padrões não serão publicados e isentos de qualquer parecer por parte do editor.

8. O resumo biográfico do autor não deve ultrapassar 6 (seis) linhas de folha A4, corpo 12, Arial.
9. Ao participar do projeto o autor não abre mão de seus direitos autorais, entretanto, os textos que não forem publicados não serão devolvidos. Logo, cada autor é ciente de que deve ficar com uma cópia de seu texto.

Para o envio de imagens:
1. Podem ser remetidas fotografias, incursões plásticas, gráficas, grafites, desenhos, colagens, montagens, artes digitais etc.;

2. Podem participar autores ou iniciantes, brasileiros ou não, e cada um pode enviar o número de imagens que lhe convir;

3. Não necessariamente as imagens devam ser inéditas, entretanto, cada autor deve fazer uso do bom senso para, principalmente em casos de imagens expostas em alguma exposição, física ou virtual, mencionar tais especificidades, além dos créditos de seus autores;

4. As imagens devem ser enviadas em anexo para o email pedro.letras@yahoo.com.br com o título em Assunto “Imagens para o caderno-revista 7faces”;

5. Não haverá devolução dos trabalhos, logo cada autor é ciente de que deve ficar com cópia; os trabalhos que não se adequarem a uma edição poderão aparecer em edições subsequentes do caderno-revista; também o autor não abrirá mão de seus direitos autorais;

6. Juntamente com as imagens o autor deve encaminhar uma declaração de direitos, que deve ser solicitada pessoalmente pelo email pedro.letras@yahoo.com.br;

7. Os materiais devem ser encaminhados até o dia 31 de maio de 2010.

O nome do caderno-revista - 7faces - liga-se diretamente ao poema de Carlos Drummond de Andrade - Poema de sete faces. A ideia surgiu de meu convívio com o meio virtual desde a inauguração - ao acaso - do espaço Letras in.verso e re.verso - um blogue pessoal que visa, entre tantos assuntos, falar de tudo, inclusive, de literatura.

O caderno-revista 7faces

Trata-se de uma produção artística semestral e independente em meio eletrônico de publicação e distribuição gratuita. Trata-se de uma ideia projetada, diagramada e editada por mim, sem nenhum veio comercial e totalmente expresso a sua não-comercialização. Ao produto final quero agregar apenas os valores da arte - que é em si - livre dos níqueis castradores do capital.

O caderno-revista publica poemas - de poetas reconhecidos ou não; a proposta é a circulação de poesia por entre poetas e leitores de poesia de todos os lugares do País. Isto é, a pretensão do caderno-revista não é em ser nenhum veículo que venha introduzir estranhamentos ao meio poético - uma vez que, já a própria poesia deve zelar por esse papel; é, antes de tudo, ou pelo menos, quer ser um espaço plural para a publicação de trabalhos de poetas e/ou artistas brasileiros e em língua portuguesa e colocá-los em contato face-a-face. Nisso reside o interesse de não vincular nomes a determinados círculos, promovendo, destarte, mais uma descentralização do que um fechamento, e, bem como a apresentação de novos nomes, naquele que deve ser um círculo permanente, o da cena artístico-poética. Cada número é, portanto, concebido de acordo com os materiais selecionados.

BEST-SELLER NO MELHOR SENTIDO DA PALAVRA

sábado, 13 de março de 2010

Por Franklin Jorge

Sugere-nos Lygia Fagundes Telles que o escritor, como sumo pontífice, é um construtor de pontes, ou seja, aquele que através do uso cúmplice da palavra comunica-se fraternalmente com o leitor. Só não concordaria com o “fraternalmente”, mas talvez seja isto apenas mais uma das minhas idiossincrasias. Afinal, não podemos concordar com tudo…

Remanescente da famosa Geração de 45 – que se notabilizou mais no verso do que na prosa -, dela disse Clarice Lispector que é um best-seller no melhor sentido, pois seus livros – além de serem comprados por todo mundo – são escritos de um modo genuíno que se parece com o seu modo de agir na vida.

Certo é que um dia ela pensou que estendia sua palavra ao leitor, assim como uma ponte e disse, “vem!” Porém, como bem o disse o padre Antonio Vieira num de seus Sermões – que Lygia cita adequadamente – não bastam as palavras; são necessárias obras.

E vieram as obras, as primeiras ainda na idade dos sonhos e das quimeras, nascidas da ansiedade e da pressa. Livros logo repudiados, porque não eram ainda os livros que a autora de Ciranda de Pedra pretendia escrever, como frutos da sua insatisfação.

Prefiro, no entanto, a ensaísta e a cronista à ficcionista, que passei a ler recentemente nesses curtos ensaios ou crônicas, em sua maioria recheadas de confissões que desvelam para mim uma nova escritora em Lygia Fagundes Telles, muito distante das complexidades woolfianas que incidentalmente pairam aqui e ali sobre a sua contística.

Uma parte da sua obra, que eu diria quase secreta, foi sendo reunida e ordenada de maneira apaixonada e minuciosa por Suênio Campos de Lucena, seu organizador e apresentador, como parte do processo que resultou em seu trabalho de pós-graduação.

Refiro-me, aqui, ao pequeno e bem-cuidado volume intitulado Depois daquele estranho chá, cujas páginas são flagrantes de vida, às vezes compartilhadas com outros escritores, como Simone de Beauvoir, Sartre, Faulkner, Drummond, Jorge Amado, Mario de Andrade, Clarice - que a entrevista e dela colhe reflexões sobre o escritor e o ato de escrever. Suas viagens, intervenções, apóstrofes.

O título alude a um estranho encontro da autora com Mario de Andrade, na elegantíssima Cafeteria Vienense, um pouco antes da morte do escritor. Ficção e memória se entrelaçam numa prosa oral que compõe uma memorialística no limite da realidade e da ficção, segundo a lição franqueada por Antonio Carlos Villaça.

Leia depois a continuação deste artigo

LEMBRANDO CARMO BERNARDES

segunda-feira, 8 de março de 2010


Por Franklin Jorge

Alcyone Abrahão já havia me avisado que eu gostaria de Carmo Bernardes à primeira vista. “É um gentil-farmer bonacheirão”, disse-me, “sem herdade nem eira, mas dotado de grande carisma”. Nada mais preciso e correto do que esse juízo dessa que foi uma grande divulgadora da cultura goiana em Natal e da cultura norte-rio-grandense em Goiás.Ela ainda ajuntou que se eu chegasse a encontrá-lo algum dia, logo o reconheceria…

Conheci-o, sim, em Goiânia, à minha espera nas proximidades dum ponto de baldeação de ônibus, numa luminosa tarde de setembro. Modestamente vestido como um homem da roça, logo que saltei e meus olhos caíram sobre aquele velho que esperava encostado numa brasília chamativamente cor de abóbora, percebi de quem se tratava. Fiz-lhe um aceno e ambos nos encaminhamos, ele bem lentamente, um para o outro. Ele usava umas calças marrons e uma camisa xadrez decentemente passadas.

Carmo quis que nos encontrássemos ali, para evitar-me o cansaço de procurar a sua casa num bairro populoso e, segundo ele, distante de onde eu me achava hospedado, “num bairro de ricos e de gente metida a rica”. “Como sabe por experiência própria”, disse-me, “quem sabe escrever e tem opinião jamais consegue prosperar do ponto de vista material. Quem detém o poder, quer escribas servis… Pelo que já ouvi a seu respeito, creio não ser o nosso caso.” Sem delongas, rendi-me imediatamente aos carismas daquele homem que era também, a meu ver, um grande e original escritor que havia muito me enredara com a sua arte de concatenar em textos ricos de forma e conteúdo o fruto de suas observações.

Teria já uns setenta anos, mas não dava conta disso, apesar do rosto sulcado de rugas. Notei que tinha as mãos grossas e calosas, como as de alguém que lutara no cabo da enxada amanhando a terra benévola de seus antepassados, uma gente que em algum momento viera de Minas para Goiás, em busca de uma nova vida, conforme fiquei sabendo depois ao ler um livro seu de memórias que durante anos, especialmente durante os anos que vivi na Amazônia, me acompanhou por toda a parte, a ponto de praticamente se desfazer em minhas mãos.

Uma vez, tendo o esquecido esse livro num quarto de hotel, em Cabixi ou Pimenteiras, fiz o motorista voltar trezentos quilômetros para recuperá-lo, aborrecendo com isso enormemente ao governador, que depois de me ouvir sobre a grandeza do seu conterrâneo, se divertia contando aos amigos que eu me atrasara por causa de “um livro velho”…

Autodidata, dotado de uma cultura popular enciclopédica, nada havia entre o céu e a terra que não lhe despertasse o interesse e estimulasse a sua inteligência e capacidade de análise. Passei algumas horas esplêndidas, ouvindo-o sobre a grandeza da terra e o engenho dos pobres, que são muitos, e, portanto, algum dia, tornarão a vida dos ricos insuportável, se a justiça social não for implementada em quanto há tempo. Sem ser um leitor de Borges, ele repetia assim o que dissera o velho bruxo das letras acerca da revolução que se fará, não pelos pobres, mas pelos ricos, que não suportarão viver num mundo de miseráveis…

Seu eu jornalístico, habituado a reagir e a opinar, fez de Carmo Bernardes, talvez, o cronista mais lido e querido de Goiás. Escrevendo sobre a terra e o povo, que conhecia em extensão e profundidade, reuniu em torno de suas letras um verdadeiro fã-clube, apesar de sua condição de homem pobre e avesso ao que chamamos de “vida literária”. Cônscio, porém, do seu talento, nunca transigiu com o compadrio que infesta e domina o oficialismo, fazendo-se reconhecer inclusive fora do país, ao receber o prestigioso prêmio literário conferido em Cuba pela “Casa de las Américas”, o que o coloca no mesmo elenco de outros grandes autores latino-americanos distinguidos com a láurea.

SÁTIRA FAZ SUCESSO ENTRE INTERNAUTAS

quinta-feira, 4 de março de 2010

Por Redação

O artigo do escritor e publicitário Patrício Jr., aqui publicado ontem, provocou uma onda de comentários espirituosos que põem em xeque a chamada “cultura oficial” e seus mais notórios representantes. Num desses comentários, Ronaldo Freitas propõe aos organizadores do Encontro Natalense de Escritores, objeto da crítica, a realização de mesas redondas, uma ideia aprovada e enriquecida com sugestões de outros leitores desta página.

Entre os intelectuais satirizados nos comentários, destaca-se o poeta Ney Leandro de Castro, que, como se sabe, tem se desentendido com muitos de seus confrades. O ano passado, por exemplo, perdeu a amizade do colega Demétrius Vieira Diniz, alvo de comentários maliciosos sobre sua sexualidade, publicados na coluna que Ney mantém na Tribuna do Norte. Vieira Diniz chegou a pedir-lhe satisfação, ao flagrar o autor de “Feira Livre” fazendo cooper na praia, rompendo assim uma famosa amizade estreita e calorosa. Aqui, Ney é visto como “fauno da 3a. Idade” acometido de “libido senil”, entre outros epítetos quase folclóricos.

Patrício Jr. satiriza em seu texto, originalmente publicado no blogue PLOG, o anunciado Encontro Natalense de Escritores (ENE), que sob o governo da prefeita Micarla de Souza já passou por diversas metamorfoses que deixam claro para a opinião pública a falta de planejamento e seriedade de suas ações em todas as áreas e, em especial, na Cultura do município que nunca esteve mais capenga desde que caiu nas malhas do Partido Verde.

Abaixo, os comentários dos internautas:

13 comentários para “DENE: DESENCONTRO NATALENSE DE ESCRITORES”

Fábio Capistrano disse:
3 de março de 2010 às 19:34
Patricio, é isso aí, meu caro. Tem uma caveira enterrada na Funcarte: sempre primou por ter gente incompetente na presidencia. Que eu me lembre, a jornalista Rejane Serejo, Rinaldo Barros, Gileno Guanabara, Isaura Rosado, Revoredo, Dácio, agora esse caras que “caga e anda”…Que esperar dessa gente? Artigo Nota 10! Dei boas gargalhadas.

Ana Paula disse:
3 de março de 2010 às 19:38
Legal essa estocada na Thaysa Galvão. A blogueira é ela, não é?

Ronaldo Freitas disse:
3 de março de 2010 às 19:39
Muito criativo: rindo e castigando os costumes. Sugiro que os internautas enviem sugestões de mesas redondas e oficinas:
“A poesia erótica potiguar: de como alguém resolve sua sexualidade via poesia de péssima qualidade”
“Poetas marqueteiros: escreva uma coisa, fale outra e trabalhe para eleger canalhas”

Carlos Feitosa disse:
3 de março de 2010 às 19:54
Aprovado, Ronaldo Freitas. Suas sugestões de mesas redondas não podiam ser melhores. Vou aproveitar e dar a minha contribuição, questionando: vc acha que um versejador, como o Ney Leandro de Castro, já não está acometido de libido senil? Está na cara: ele nunca foi esse amante irresistivel que alardeia em seus improvisos. Franklin mesmo já disse que ele se assemelha a um batráquio e batráquios, pelo que sei, despertam asco, repulsa… Só a Marize Castro para se engraçar de um tipo assim.

Talvani disse:
3 de março de 2010 às 20:03
Como disse Franklin Jorge, não lembro onde nem quando, com essa cara de “fauno da 3a. Idade”, o velhote Nei Leandro só come moscas.

Sandro Godeiro disse:
3 de março de 2010 às 20:08
Patricio, parabéns!Aqui você vai ser lido e comentado, pode crer, boy.

Diva disse:
3 de março de 2010 às 21:08
Ney é o antigalã. Não tem sex appeal. Uma mulher precisaria estar muito necessitada para recorrer aos seus préstimos. Além disso sempre foi gabola. Gosta de pabulagem. Hoje é esse “fauno da terceira idade”: um velhote libidinoso.

Manio Antunes disse:
3 de março de 2010 às 21:41
Essa é boa! Ney, o fauno da terceira idade! Beleza! Dava uma mesa redonda humoristica.

Caroline Abreu disse:
3 de março de 2010 às 22:22
Quem muito se gaba, como faz esse galã da 3a. idade, esconde alguma coisa… Talvez ele não seja tão ney quanto Marize pensa…

Tony Barreiros Morro Branco disse:
4 de março de 2010 às 6:52
Muito bom o artigo. A nau da capitania já afundou faz muito tempo, assim como o cafuço da Fundação José Augusto. Sugiro as mesas:
“Virei e mexi, mas acabei por aqui mesmo: sou da província, provinciano incurável”.
“Mulher e literatura potiguar: a arte de fazer contatos, artimanhas e mungangas no mundo da literatura”.
“Tradição e renovação na literatura potiguar: como os antigos vanguardistas hoje comem salgadinhos de segunda, e vinhos ácidos, nos regabofes oficias”.
Eis minha modesta contribuição.

Maria Rita Medeiros da Costa disse:
4 de março de 2010 às 8:20
O pornógrafo Nei Leandro de Castro é uma figura folclórica da cultura natalense. Fiscamente, lembra mesmo um “batráquio”, conforme o jornalista FJ e como D. Juan - ninguém tem dúvida - é um anticlímax. Malamanhado, de ombros curvados, despertará mais o riso do que o tesão. É somente um pseudo galã da terceira idade. Nem a Academia de Letras o quis…

Raphael Roqueiro disse:
4 de março de 2010 às 8:48
Parabéns, Patricio. Gostei das suas palavras.

Clivaneide Mossoró Rn disse:
4 de março de 2010 às 10:34
Ave Maria, como eu gostei do artigo desse rapaz talentoso e criativo. Sugiro uma mesa redonda entre Ney e Marize Castro, intemediada pelo grande intelectual, palestrador, peripatético e ajuntador de livros, O Sr. Inácio:
“O embuste na literatura: erário público como possibilidade de sustentar a mediocridade na produção poética contemporânea”.
Também Mossoró daria boas mesas, sua literatura lacrimogênica e repleta de sonetistas.