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O FIM DO JORNAL DO BRASIL IMPRESSO

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Por Roberto Guedes

O encerramento nesta terça-feira, 31, ontem, da circulação impressa do “Jornal do Brasil”, interrompendo um ciclo de 119 anos, força-me a revisitar um ótimo relacionamento que mantive com o periódico. Além da condição de leitor, mantida até recentemente, tive profissionalmente dois instantes de relacionamento com o periódico e sua editora, e antes, muito antes, uma ligação de certa forma afetiva.

Fui o primeiro correspondente que o “Jornal do Brasil” nomeou para o Rio Grande do Norte alguns anos depois do golpe militar de 1.964 e mais perto ainda do ato institucional número 5, golpe dentro do golpe, provocado pela doença nunca devidamente explicada que afastou da presidência da república o marechal Arthur da Costa e Silva, num 30 de agosto, e ensejou a auto-nomeação de uma junta militar para exercer o poder em seu nome. Cheguei ao cargo poucos anos depois de ter-me iniciado no jornalismo, com passagem pela redação do “Correio do Povo” e presença então no vespertino “Diário de Natal”.

Para mim, até então, “Jornal do Brasil” era o jornal onde havia brilhado Kalazans Fernandes e ainda pontificava, no Brasil e no exterior, o macaibense Jaime Dantas, e onde havia trabalhado um irmão meu e onde eu lia algumas das melhores notícias sobre a política brasileira.

Um dia, ainda trabalhando no “Diário de Natal”, minha segunda redação, fui convidado para assumir o papel de correspondente do “Diário de Pernambuco” no Rio Grande do Norte, e logo em seguida as ligações entre colegas baseados em Recife fizeram com que a sucursal da revista “Veja” no Nordeste também me oferecesse a missão de produzir aqui reportagens para serem aproveitadas pela redação em São Paulo. O termo “aproveitadas” vem a propósito, porque, diferentemente de hoje, repórteres e correspondentes não assinavam reportagens e muito menos faziam algo parecido com texto final. Mandávamos sete, oito, às vezes vinte páginas sobre um assunto, um editor definia o espaço que o tema ocuparia na revista e sucessivamente colegas bem situados na pirâmide da redação faziam um primeiro, outro e mais outro texto em laudas de 33 toques, com grande faixa em branco à direita, para que o diretor Mino Carta praticamente reescrevesse tudo à mão a título de última copidescagem. Outras vezes, textos de vários autores, sobre um mesmo tema, eram fundidos na forma de “copião” e enfrentavam nos estágios subseqüentes, e na medida em que subiam rumo ao topo da pirâmide redacional, a mesma filtragem dos outros. No fim, quando o texto publicado de uma reportagem aproveitava uma frase da gente, era uma vitória pessoal enorme. Na maioria das vezes, porém, o que mandávamos nem era aproveitado por um processo editorial altamente inovador.

Também seriam pouco aproveitadas pelo “Jornal do Brasil”, no início de meu relacionamento profissional com o periódico, as matérias que lhe enviava. Minha compensação residia no “Diário de Natal”, onde todo o meu trabalho era aproveitado integralmente, e no “Diário de Pernambuco”, onde diariamente assinava de duas a quatro reportagens procedentes do Rio Grande do Norte.

Foi a atuação no jornal pernambucano e na “Veja” que levou o “Jornal do Brasil” a me transformar em seu correspondente. Até então, além de algumas referências profissionais, o jornal era citado em minha família pelo fato de seu mais conhecido proprietário, o Conde Pereira Carneiro, ser dono da maior frota privada nacional, a Companhia Comércio e Navegação, e nesta condição ter sido hóspede de um hotel que meu avô materno, José Augusto da Costa, possuíra em Macau, a capital salineira do Rio Grande do Norte.

O vínculo como correspondente me proporcionaria um aprendizado maravilhoso em termos profissionais e pessoais. Neste campo, fui beneficiado pelo fato de o diretor da sucursal do JB em Recife ser um psicólogo, Bernardo Ludermir, que me adotou como pupilo e muito provavelmente paciente informal.

A turma da redação da sucursal era muito avançada para a experiência que eu havia acumulado em pouco mais de três anos de atividade profissional em Natal, onde me havia iniciado aos quinze anos de idade. Exigentíssimos, os colegas da sucursal me ajudaram muito a assimilar as técnicas mais modernas do jornalismo de então, que tinham sido introduzidas no país exatamente pela antológica reforma que Jânio de Freitas havia promovido no “JB” com a cessão involuntária dos créditos a outro colega que ainda hoje haure a fama de modernização do periódico.

Bernardo em Recife e o chefe dos correspondentes do “JB”, jornalista Amaury Mattos, no Rio de Janeiro, assim como o diretor de redação, Carlos Lemos, e o veterano jornalista e diplomata Sette Câmara, o “Embaixador”, como o chamávamos todos os integrantes da redação, sucursais e redes de correspondentes, tinham o hábito de regularmente emitir mensagens de conteúdo didático sobre o que a editora do jornal esperava de todos e cada um de seus repórteres, correspondentes e colunistas.

Trabalhando ainda no “Diário de Natal” e como correspondente de “Veja”, do “JB” e do “Diário de Pernambuco”, transformei-me em verdadeira agência noticiosa ambulante. Lembro-me de que num período, um dos principais personagens das conversas entre jornalistas natalenses era o “Foguete Branco”, um automóvel Ford Corcel que eu usava. Mais parecia onipresente. Onde chegava uma equipe de reportagem, lá estava desde antes meu Corcel, tal a agilidade com que eu procurava acompanhar tudo o que acontecia no Rio Grande do Norte. O veículo que mais me mobilizava era o “JB”, uma referência fantástica para um jornalista provinciano que nem havia chegado aos vinte anos.

Aprendí no atacado e no varejo. Tudo era notícia para o “Jornal do Brasil”, dito assim para que produzíssemos. Ao mesmo tempo, pouca coisa era notícia para o periódico, como explicação para o fato de ele não aproveitar quase nada do que enviávamos. A produção era um sacrifício enorme.

Quem desfruta hoje das maravilhas do mundo “on line” não faz idéia do que era reportar o dia a dia do Rio Grande do Norte quando o máximo de tecnologia da informação ao alcance da província eram os telegramas da estatal Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Para mensagens mais urgentes, usávamos o muito mais caro serviço avançado dos telegramas da britânica Great Western, em cuja agência, na Ribeira, passei a lidar cotidianamente com uma das melhores figuras humanas nascidas nesta unidade federativa, o saudoso Francisco Sinedino de Oliveira, gerente da filial potiguar.

Nessa época, o telex ainda não havia chegado ao Rio Grande do Norte. A máquina me impressionava nas redações de Recife e fiquei maravilhado quando um repórter esportivo escalado pelo JB para cobrir a Mini Copa de Futebol de 1.972 trouxe um aparelho que conectamos num apartamento do hotel Samburá (Este evento me impressionou também porque o fotógrafo mobilizado na cobertura da Copa trouxe para Natal uma máquina que transmitia as fotos na hora para a redação do JB).

Em relação ao telex, aliás, tive uma relação que copiou grosseiramente uma passagem bíblica. Nas viagens a Recife, Rio e São Paulo, aprendi a lidar com o telex. O JB, aliás, queria que eu aprendesse logo, porque fazia parte de seus planos dotar cada correspondente de um desses equipamentos, e em sua casa, não em escritórios, para que o contato fosse mais imediato, da mesma forma como esta adquirindo raríssimas linhas telefônicas para a mesma finalidade. Presença diária no setor de telegrafia da agência dos Correios, soube que a estatal preparava para breve a instalação de um terminal de telex em Natal, e quando o equipamento chegou perceberam que os telegrafistas não tinham sido preparados previamente para operá-la.

O ministro das Comunicações veio a Natal, para inaugurar o telex, e deveria fazê-lo enviando mensagem para outra autoridade em Brasília. Na falta de operador de telex na ocasião, quem digitou e transmitiu a mensagem ministerial fui eu. Infelizmente, quando deixei Natal e o posto avançado, o JB ainda não havia conseguido instalar os dois equipamentos. Soube anos depois que o telex impressionava tanto quem o conhecia que amigos iam à casa do meu sucessor na função apenas para ver seu barulhento funcionamento. Uma empregada doméstica que se instalou na casa dele à tarde assombrou-se quando passava perto da máquina e esta começou a receber uma mensagem procedente do Rio de Janeiro. Foi imenso o trabalho que tiveram para acalmá-la e provar-lhe que não havia nenhuma assombração na casa.

Para o “Diário de Pernambuco” e para a “Veja” eu enviava os textos em papel, através de veículos específicos. O periódico recifense enviava todo dia uma caminhonete a Natal para trazer os muitos jornais que eram vendidos aqui, e eu deveria aproveitá-la entregando um envelope com textos e ilustrações ao motorista. Para a “Veja”, os textos eram enviados em malotes ou entregues a passageiros que eu tinha de localizar no terminal de embarque do aeroporto “Augusto Severo” logo no início da manhã, quando decolavam os dois únicos vôos com que diariamente a Varig e a Vasp ligavam Natal ao centro-sul do país. O “JB” exigia muito mais: tinha que telegrafar e telefonar muito.

O pior do procedimento eram os telefonemas. Toda tarde, aí por volta das 16 horas, eu tinha que interromper tudo o que estivesse fazendo para me apresentar à central de interurbanos da Telern, a empresa estatal de telefonia, a princípio na avenida Rio Branco, com frente para a rua Apodi, e adiante no meio do quarteirão da Prudente de Morais limitado pelas ruas Açu e Apodi, em Tirol, a fim de apresentar oralmente a algum Cristo situado na redação do JB, na avenida Rio Branco, em pleno centro velho do Rio de Janeiro, as notícias mais quentes do dia no Rio Grande do Norte.

Esta sina me fazia encontrar diariamente na Telern o colega Arlindo de Melo Freire, senhor de muitíssima experiência e fortes ligações com movimentos sociais que dava banho de cobertura como correspondente do “O Estado de São Paulo”. Chegávamos à mesma hora, conversávamos muito enquanto esperávamos a ordem para entrar nas cabines e ler nossos textos para os ouvidos do Rio e de São Paulo, e então enviávamos nossas matérias.

Diferentemente do que se vê hoje, a despeito de todo o colóquio que nos unia, não compartilhávamos informações. Era crucial para cada um de nós o “furo” ou um detalhe que faria a diferença na apresentação de determinada notícia aos olhos dos nossos editores. Às vezes eu imaginava que sabia tudo o que Arlindo tinha a respeito de algum tema, mas não ousava consultá-lo sobre nada.

A ética também o impedia de me assuntar sobre o que lhe interessava. Tínhamos que matar mesmo um leão por dia, e eu me maravilhava ao acompanhar o trabalho de Melo Freire. Todo dia o “Estadão” publicava boa parte do que ele enviava. Nós conferíamos isto quando, em algum dia incerto da semana, chegavam a ele e a mim pacotes de edições pretéritas dos nossos jornais. O “JB”, pelo contrário, queria absorver tudo, manter-se bem informado sobre o Rio Grande do Norte às custas do meu trabalho, bem remunerado, na época, para os padrões natalenses, diga-se de passagem. Publicar, porém, era outra coisa.

O vínculo com o JB me forçava a todo mês ir a Recife, quando aproveitava para também irrigar o relacionamento com o pessoal da “Veja”, com o “Diário de Pernambuco”, onde aprendi a gostar de editores que hoje comandam os Diários Associados no Nordeste. Joezil Barros, o superintendente regional, era o chefe dos correspondentes que o jornal mantinha em todos os estados do Nordeste. Gladstone Vieira, magérrimo, sempre muito grato ao legendário arcebispo Hélder Câmara pelo estímulo que deu à sua carreira num episódio histórico, saíam da redação do jornal, à noite, para me acompanharem no jantar no restaurante da Associação de Imprensa de Pernambuco. Essas viagens me eram muito didáticas.

Um dia, fui mais longe. Convocado, participei do primeiro encontro de correspondentes do JB, quando fiz minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, e, numa plenária, mostrei que às vezes me frustrava o fato de enviar tantas informações e depois verificar que o periódico não as publicava. Explicação de Sette Câmara: “O Estado de São Paulo”, que se pretendia jornal nacional e dispunha de muito mais espaço, encorpando suas edições com um peso físico enorme, publicava tudo. O “Jornal do Brasil”, entretanto, era o “Jornal de Referência Nacional”. Não dava todas as notícias, mas sabia de tudo o que acontecia e, quando divulgava um assunto, mostrava que este, sim, constituía fato de interesse real para o cidadão brasileiro, ou melhor, o cidadão carioca, para quem se voltava precipuamente o jornal.

Esta viagem foi ótima, porque me mostrou a beleza que era a velha sede do JB, propiciou-me contatos com todas as editorias do jornal, inclusive com o apaixonante “Caderno B”, e me ensinou a sistematizar bem o trabalho. Foi então que comecei a constituir um primeiro arquivo, que depois aprimoraria residindo em São Paulo, graças a ensinamentos que me transmitiu um dos melhores jornalistas que o Brasil já conheceu, Aloysio Biondi.

O “Departamento de Pesquisa” que a reforma de Jânio de Freitas apensou ao JB era fantástico. Até então eu sabia que ao começar a trabalhar um tema ou fato o repórter podia ser o maior analfabeto sobre aquilo. Na hora de escrever, de reportar, porém, tinha a obrigação de se ter transformado na maior autoridade em todos os sentidos sobre o tema ou fato. Dispondo de uma base de pesquisa, vencer o “analfabetismo” passava a ser uma tarefa objetivamente melhor conduzida. O repórter não começaria do zero absoluto, ficando a mercê de terceiros.

Constituiria sua própria base inicial de informações com o material obtido em seu centro de pesquisas. Daí em diante, nunca deixei de tentar conservar comigo documentos sobre tudo para ter de onde começar a focalizar qualquer tema sem estar nas mãos de fontes sujeitas às ancestrais falhas humanas. Este empenho fez com que um dia passasse a pagar a duas pessoas para diariamente recortar, colar e arquivar em pastas centenas de notícias que eu marcava nos jornais e revistas que tinham a sina de ser esquartejadas em minhas mãos. Certa vez, no início dos anos 2.000, alguém notou que meu arquivo se tinha tornado fisicamente muito maior do que o modelar departamento de pesquisa do JB.

Numa das viagens que o jornal me patrocinou, conheci a babilônia de concreto que estava sendo ultimada na avenida Brasil para abrigar o grande JB. Viria a ser o algoz do jornal. Os custos dos financiamentos que a família Pereira Carneiro assumiu para viabilizar a sede nova terminariam levando a editora à bancarrota em que chafurdou através das mais humilhantes experiências empresariais até ver o JB sumir fisicamente com a esperança de se esticar um pouco mais através da edição virtual.

Muito diferente do galpão em que o “Diário de Natal” se instalou na avenida Deodoro, ao se transferir da ladeira da Rio Branco, na Ribeira, a babilônia do JB era um prédio fantástico, o primeiro que conheci projetado especificamente para sediar um grande jornal. Ninguém imaginava que o prédio fosse algoz e cemitério de jornal. O fato de tê-lo conhecido antes de sua ocupação me ajudou a transmitir aos planejadores da mudança a partir do centro velho do Rio de Janeiro algumas dicas ensejadas pela minha velha dedicação ao estudo amadorístico de arquitetura e ocupação espacial, principalmente a sugestão no sentido de evitar paredes, de concreto, alvenaria, madeira ou vidro, que compartimentassem fisicamente o que deveriam ser grandes vãos de redações. Barulhentas, redações não deveriam ter pedaços estanques, preservando uma comunicação que ajuda à fluência de informações e análises.

O JB não exigia exclusividade, mas queria que o correspondente tivesse plena consciência da importância do que ele representava onde estivesse. O correspondente tinha que ser intimorato e eqüidistante, ver longe e não ceder diante de assédios promovidos por grupos econômicos ou políticos. Esta consciência me levou, em plena campanha eleitoral de 1.970, a enfrentar uma situação interessantíssima.

Governador eleito pelo processo indireto e responsável pela tentativa de levar seu partido, a Arena, à vitória nas eleições para casas congressuais, o professor Cortez Pereira liderava na Cidade da Esperança um comício em que pedras foram endereçadas ao palanque. Todos os jornalistas baseados em Natal souberam da ocorrência, mas ninguém a noticiou. Enviei um relato para o JB, que o aproveitou com destaque, passando a explorar o assunto durante semanas.

O cartunista Henrique Figueiredo Filho, o Henfil, utilizou o episódio durante várias edições do jornal. Numa dessas ocasiões, a primeira, provavelmente, em que se prendeu ao fato, criou uma charge maravilhosa, formada por uma sucessão de desenhos. O primeiro mostrava o palanque e o povo; o segundo focalizava, no meio do povo, um personagem com uma pedra na mão e a frase dizendo que o apedrejamento teria que ser indireto. No terceiro desenho, o personagem jogava a pedra num ponto do chão situado entre ele e o palanque, de sorte que ela subiria em direção aos oradores palanqueiros. Numa época de censura à imprensa, era a crítica ao fato de os governadores estaduais serem escolhidos pelo processo indireto, e não através do voto livre e universal dos cidadãos.

A exemplo do JB, a “Veja” também se abriu muito receptivamente ao episódio, que alcançaria repercussão internacional, talvez graças à força que exilados brasileiros faziam lá fora para que o mundo soubesse o quão era forte a ditadura em nosso país. Na medida em que esta repercussão aumentava, os militares de Brasília caíam de pau em cima de Cortez, querendo que a imagem da revolução apedrejada fosse desfeita, e os acólitos do governador eleito desciam o malho nos jornalistas que haviam projetado o apedrejamento, eu à frente.

Virei inimigo do cortezismo, com uma peculiaridade. Cortez Pereira, pessoalmente, assim como alguns de seus colaboradores mais próximos, entre os quais Antonio Florêncio de Queiroz e Osmundo Faria, assim como os deputados federais Djalma Marinho e Vingt Rosado, sabendo que eu não havia mentido, continuaram a ser meus amigos. Recebiam-me onde serviçais me excluíam. Um dia, veio a sagração do repórter indômito que sonhava vir a ser. Veio através do saudoso monsenhor Walfredo Gurgel.

Como correspondente de grandes editoras, eu era também anfitrião de seus enviados a Natal. Certa vez, dei apoio aqui a um filho de Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira Carneiro e controlador do “Jornal do Brasil”. Um dia, a revista “Realidade” mandou ao Rio Grande do Norte o repórter José Hamilton Ribeiro, recém-chegado da guerra do Vietnam, onde perdeu uma perna ao pisar numa mina, e o fotógrafo Jean Solari, para mostrarem ao país uma sucessão de crimes ocorrida em Caicó, e uma das missões que este trabalho me impôs foi conseguir que monsenhor Walfredo, caicoense e governador em fim de mandato, último eleito pelo povo, conversasse com os dois.

Levei-os ao Palácio Potengí, participei silenciosamente da conversa, que durou algumas horas, e ao término, já na porta de seu gabinete, monsenhor Walfredo se voltou para mim e perguntou sobre de onde eu tinha tirado aquela história sobre o apedrejamento de seu sucessor. Contei-lhe o que sabia e ele me confortou. “Tudo o que saiu é verdade, mas você foi suicida em termos de Natal ao divulgar isso”.

Um pouco antes encontro, a assíntota em que eu havia transformado a independência ensinada no “Jornal do Brasil” concorreu para que paralelamente perdesse meu vínculo com o “Diário de Natal”. Na época, dirigentes dos Diários Associados eram acusados de pagar mal nas respectivas empresas e encaminharem seus repórteres para jabaculês por fora. Luiz Maria Alves prezava muito o que comandava, e um dia começou a me reclamar contra o fato de, trabalhando para o “Diário de Natal”, ter vinculado meu nome e meus esforços a outros títulos.

Para mostrar como era precária minha situação na sua empresa, reclamou que tempos atrás, estando em São Paulo, quis ir conhecer a sede da Editora Abril e a redação de “Veja”, na avenida Marginal do Tietê, e havia sido barrado na portaria do prédio, sob a acusação de tentar promover espionagem industrial. A seu ver, minha presença na sede potiguar dos Diários Associados tinha a mesma característica. Ele minha como bisbilhoteiro das coisas do “Diário de Natal” em benefício do “Diário de Pernambuco”, considerado concorrente, do JB e da Editora Abril.

Para piorar, as outras empresas para as quais eu trabalhava respeitavam direitos dos funcionários e ele tinha passado dois anos usando minha colaboração sem assinar a carteira profissional, atitude que me levava a vez por outra reclamar. Infenso à espionagem industrial, Alves terminaria me ensinando a porta da saída do “Diário de Natal”, jornal de que muito gostava e onde procurava aprender não apenas as coisas da redação. Era-me gratificante ver como funcionavam a composição dos textos, o laboratório fotográfico, os vários setores da indústria de impressão “off set”, recém-chegada ao Rio Grande do Norte. Afastado do “Diário de Natal”, fiquei, então, apenas como correspondente dos três títulos, condição que mantive em relação ao JB e à “Veja” até 16 de julho de 1.972, quando, levado pela revista, migrei para a redação em São Paulo.

Saí de Natal com crédito junto aos dois veículos, tanto que emplaquei como meu sucessor o colega Djair Dantas Pereira de Macedo, que até então trabalhava comigo na condição de fotógrafo.

Em meados de 1.976, quando me via forçado a voltar a residir em Natal, o “Jornal do Brasil” me apresentou uma proposta fantástica, que quase me desviou para o oeste do país. Vivíamos ainda tempos de grandes abordagens de tribos selvagens por missões lideradas pelos irmãos Villas Boas e outros indigenistas, o desenvolvimento conquistava novas fronteiras, o Brasil começava a enfrentar problemas de fronteiras, a guerrilha prometia pegar fogo no Araguaia e o jornal queria destacar um correspondente que, residindo em Cuiabá e muito bem estruturado, estivesse sempre pronto para ser enviado dali a qualquer parte da Amazônia e países latino-americanos. A força telúrica de Natal falou mais alto do que a miragem da missão.

O SANTO OFICIO CHEGA AOS 200 MIL ACESSOS

sábado, 7 de agosto de 2010

Da Redação

Neste sábado, sete de agosto, completamos 200 mil acessos.

Quase 2.500 postagens em dois anos.

Mais de 11 mil comentários dos quais mais de sete mil publicados.

Grande interatividade.

Um estimulo para continuarmos.

Nossa gratidão.

MORRE O MAESTRO CUSSY DE ALMEIDA

domingo, 25 de julho de 2010

A Orquestra Cidadã Meninos do Coque ficou órfã nesta sexta-feira à noite após a morte do maestro Cussy de Almeida, 74.

O regente e idealizador do projeto estava internado no Hospital Santa Joana e faleceu em decorrência de uma deficiência pulmonar.

O corpo de Cussy foi velado no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, na região metropolitana do Recife. Em sua memoria, foi programada uma apresentação dos meninos às 14h, no local onde aconteceu a cerimônia de adeus a Almeida.

Sua familia era tradicionalmente ligada a Natal e à cultura musical natalense.

DIA DO ESCRITOR

domingo, 25 de julho de 2010


Por Eduardo Gosson*

Hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor. Afinal, todos tem o seu dia. No entanto, é oportuno fazermos uma reflexão do seu papel na sociedade. O filósofo italiano Antonio Gramsci, em seu livro Os Intelectuais e a Organização da Cultura, dá-nos algumas pistas: “Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”.

Ao fazer tal afirmativa, o pensador italiano estava a dizer das especificidades desse segmento. O autor estabelece os vários tipos de intelectuais, em diversas sociedades; o grau de compromisso de cada um e a serviço de quem os intelectuais estão. O fato, por exemplo, de alguém ter habilidade para serviços hidráulicos ou elétricos não quer dizer que aquela pessoa seja um encanador ou um eletricista.

Um outro poeta e pensador T.S. Eliot afirma: “sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la”. No caso concreto brasileiro, nunca essa afirmativa foi tão verdadeira. A língua portuguesa nunca esteve tão maltratada como nos dias atuais. É só lermos os jornais, assistirmos aos canais de TV, ouvirmos a música que se produz, para constatarmos uma decadência. Senão vejamos: “-a nível de ministério”.

Ora, em nenhum dicionário se encontra “a nível” seguido da preposição “de”, para significar “à mesma altura”. Contudo, nem tudo está perdido. Iniciativas do parlamentar Aldo Rabelo no sentido de preservar a língua são valiosas; a postura combatente do escritor Ariano Suassuna (retirando-se, claro, um nacionalismo exagerado); o professor Pasquale Cipro Neto com o programa Nossa Língua Portuguesa veiculado na TV Cultura e as diversas instituições comprometidas.

No Rio Grande do Norte, a União Brasileira de Escritores – UBERN tem, após a sua reorganização em 2006, elaborado algumas ações : 1. organizou o I e II Encontro Potiguar de Escritores (em andamento, o III EPE de 26 a 28 de outubro próximo); 2. enviou ao Poder Legislativo um projeto de lei do Livro, ficando conhecida como Lei Henrique Castriciano (9.105/2008), em homenagem ao intelectual macaibense, autor da primeira Lei de incentivo fiscal (agosto de 1900) da América Latina; 3.participou da Audiência Pública que resultou na lei 9.169 (Promoção das leituras literárias nas Escolas); 4. editou recentemente duas resoluções (Resolução 01/2010 – recria o jornal O Galo e Resolução 02/2010 cria o selo editorial Nave da Palavra).

Os objetivos são os mais nobres, a destacar:1- dinamizar e democratizar o livro e seu uso mais amplo; 2- incrementar a produção editorial estadual; 3- estimular a produção dos autores naturais do RN; 4 – promover atividades com vistas ao desenvolvimento do hábito de leitura; 5- estimular o mercado editorial do Estado para que possamos competir em melhores condições; 6 – preservar o patrimônio literário, bibliográfico e documental; 7 – implantar e ampliar bibliotecas públicas em todo o Estado; 8- estimular o surgimento de novas livrarias e postos de vendas de livros; 9- proteger os direitos intelectuais e patrimoniais dos autores e editores; 10- apoiar iniciativas de entidades que tenham por objetivo a divulgação do livro.

Nos Dez Mandamentos supracitados, o leitor poderá ter uma idéia de quanto trabalho os nossos escritores têm por fazer. Aí é que entra uma outra questão: a do engajamento. Se o escritor não tiver uma visão política da cultura, com certeza não andará nesta longa estrada e o seu papel ficará comprometido: escrever é lutar por um mundo melhor.

(*) Eduardo Gosson é membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN e Presidente da União Brasileira de Escritores do Rio Grande do Norte – UBERN

MORRE EM SÃO PAULO O ÚLTIMO BEATNIK

domingo, 4 de julho de 2010

Por Elizabeth Misciasci,
da revista ZaP!

Roberto Piva tinha 72 anos e estava internado em hospital desde maio; sofria de Mal de Parkinson

Morreu neste sábado (3), aos 72 anos, o poeta Roberto Piva. Famoso pelo livro “Paranoia”, de 1963, ele estava internado desde maio no InCor (Instituto do Coração) e sofria de Mal de Parkinson há dez anos.

Durante a própria internação, foi descoberto um câncer na próstata, em metástase. A causa da morte foi falência múltipla de órgãos em decorrência de uma insuficiência renal.

O velório foi realizado na noite de sábado no Cemitério do Araçá e o corpo será cremado na manhã deste domingo (4) no crematório da Vila Alpina.

Nascido em São Paulo, Piva ganhou fama aos 22 anos com a publicação de “Paranoia” ao retratar a capital paulista de maneira maldita, inspirado pelo movimento beatnik e pelo surrealismo. A obra ganhou reedição neste ano pela editora Instituto Moreira Salles.

O autor fez parte da geração de escritores, como Hilda Hist e Claudio Willer, descobertos pelo editor Massao Ohno. Durante sua carreira, o poeta destacou-se pela poética urbana. Suas obras foram divididas em três volumes.e relançadas pela Editora Globo há cinco anos.

RAIBRITO, O PESQUISADOR INCANSÁVEL

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Por Misherlany Gouthier

Raimundo Soares de Brito comemora hoje 90 anos

“Há pessoas que nascem para semear e contribuir para o bem público ou tão somente para a humanidade. Sem dúvida Raimundo Soares de Brito é uma dessas pessoas, comprometidas com a verdade dos fatos e concentrado no estudo da História.

Com esta visão construiu, ao longo dos seus 85 anos de existência, um arquivo vasto em assuntos e riquíssimo em documentos e informações, com o interesse único de servir a estudantes, pesquisadores, escritores, veículos de comunicação (jornais, revistas e rádios).”

Nascido em Caraúbas, à rua Bevenuto Simões, “num antigo sobradinho que não existe mais”, nasceu com a mania de juntar papéis”.

Na infância, sempre esteve cercado pela leitura. Sua mãe Raimunda Saúl da Costa ensinou-lhe as primeiras letras, na cartilha de ABC. No Grupo Escolar “Antônio Carlos” travou intensa amizade com as letras… Seu Pai, José Soares de Brito, comprava jornais usados para embrulhar mercadoria, pois, era bodegueiro. À noite, o pequeno Raimundo, sob a luz da lamparina, passava horas e horas a fio lendo aqueles jornais… Escutava seu pai dizer: - Vá dormir menino. Apague a luz!

No ano de 40, aos 20 anos, contraiu matrimônio com sua conterrânea de infância, Dinoráh de Oliveira Brito, podendo-se dizer que “foi amor à primeira vista”, união que duraria 64 anos, juntos, todos os dias…

Em 1942 foi nomeado para ocupar o cargo de Agente Municipal de Estatística, na sua cidade natal – Caraúbas, em cuja função iniciou suas atividades de pesquisador. Data dessa época o primeiro contato com a pesquisa.

Autodidata. No início da vida foi comerciário e comerciante em Caraúbas, Natal, Fortaleza e Mossoró, mas descobriu que “comércio e literatura não casavam bem” e resolveu alçar novos vôos…

Mas não nos cabe biografar a vida (profundamente) do homem, do cidadão, comerciante, do amigo e intelectual (palavra que não casa com ele, afirma) Raimundo Soares de Brito, Raibrito para os mais íntimos; e sim, falar da sua condição de pesquisador, do seu trabalho desenvolvido ao longo de 65 anos, sobretudo da forma e do esmero com que realiza essa tarefa.

Desde cedo enveredou pelos caminhos da História. Primeiro começou em Caraúbas, cidade da zona Oeste, quando escreveu e publicou a revista “Caraúbas Centenária”. A obra que relata os aspectos geográficos, estatísticos e sócio cultural daquela cidade, foi publicada para comemorar o centenário da Paróquia, ocorrido em 1959. Desde então, nunca mais parou de “juntar papel velho”, recortes de jornais, revistas, anotações de cunho genealógico, etc.

A vida de Raibrito é a própria História; ora ele é a pesquisa, o alvo; ora o pesquisador meticuloso, detalhista, minucioso, preciso, daí porque é considerado perfeccionista, “um incorrigível pesquisador, que graças a persistência, ao zelo e a seriedade com que executa o seu mister, transforma-o num verdadeiro arquivo sobre gentes, coisas e fatos do passado, que interessa à vida do presente e podem esclarecer caminhos do futuro”. A idéia é presente; o espírito é imortal; nem houve um antes que não existisse, nem haverá um agora que seja, senão que é absolutamente agora.

Nunca historiador. Pesquisador sempre. Enquanto o historiador tem a responsabilidade de contar o fato tal qual aconteceu, o pesquisador tem a função de perquirir, pesquisar, anotar, diferenciar. Daí a diferença entre as duas atividades. A responsabilidade da primeira e maior que a segunda. Porém, uma não tira o mérito da outra.

A pesquisa, para Raibrito, sempre foi um desafio. Andou por Seca e Meca, como ele mesmo costuma dizer, mas por onde esteve plantou a semente do saber.

Distanciado de sua terra, nunca esqueceu suas raízes, se mantém, todavia informado de tudo que acontece, procura registrar através de anotações acontecimentos ligados à história da região. “Se não tivesse tido o cuidado de passar tudo isso para estes papéis velhos”, estaria, literalmente, perdido. Isso é uma doença que entra no sangue e não sai…, conta.

A partir de 1970 é quem começou, de fato, a organizar o seu acervo, dividido por temas, assim como fez o seu conterrâneo, o Desembargador Sinval Fernandes.

De tudo podemos encontrar no aquivo implacável de Raibrito, como diria João Condé. História, literatura, genealogia, numismática, biografia são alguns dos temas que compõem a honrosa hemeroteca do caraubense de Mossoró. Sua contribuição tem sido uma das mais significativas para a história da literatura do Rio Grande do Norte, do Brasil, e quiçá, do mundo, quando estudiosos que moram no exterior procura-o para fornecer dados.

Um dos assuntos que mais prende o pesquisador refere-se às Biografias. Já somam mais de 15 mil fichas, como ele classifica. Todo o material de catalogação, arquivamento e acondicionamento é de inteira responsabilidade de Raibrito, desde a sua confecção (artesanal) até o modo com que classifica cada biografado. O único critério para se constar no arquivo do pesquisador é que a personalidade faça parte da história citadina. Seja intelectual, vulto nacional ou tipo popular, político, engraxate; toda e qualquer pessoa que tenha laços com a nossa História. As informações, o conteúdo do seu arquivo “é selecionado pelo valor cultural que possui”.

Na historiografia brasileira predomina a busca pelo fato pessoal, a ação pessoal e seus efeitos positivos ou negativos, “na tentativa de descobrir os motivos que levaram a personagens a tomar suas decisões”, daí deduzir que o pesquisador curioso e experimentado tende a construir uma obra completa, com o máximo de informações a respeito do biografado. Vê-se, nesse detalhe imprescindível, um motivo a mais, explícito, no seu apego às biografias que compõem seu arquivo.

Acorda às 5 da manhã. Não descansa após o almoço; vai para a sala de pesquisa chamada de “Casulo”, na expressão do seu genro, Leovegildo Figueiredo Neto. Dorme às 21:00 horas, e às vezes estende se expediente até às 4 da matina. “Se me tirarem desta minha terapia ocupacional eu morro”, declara.

Através de suas pesquisas empreendidas durante esses anos todos, desde o início com a publicação de Caraúbas Centenária, incentivado pelo professor Vingt-un Rosado, Editor e Patrono da Coleção Mossoroense, deu continuidade ao trabalho de pesquisa e publicação de obras, todas versando sobre história regional. Seu arquivo que já ocupa quase todos os cômodos de sua residência, ao contrário de Otto Guerra (que até na cozinha da casa tinha livros), tem facilitado a vida de curiosos e estudiosos do mundo inteiro.

Considera-se um curioso. Enquanto está conversando com alguém, está pesquisando…

Antes mesmo e, anos após sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral), o professor Raimundo Soares de Brito manteve um hábito invejável: escrever à noite varando as madrugas, como afirmou o sobrinho Antônio Marcos de Oliveira, em trabalho de sua autoria. Muitas vezes, a companheira Dinoráh (de saudosa memória), ao levantar-se para fazer o café do ‘Guardião da Cultura Mossoroense’, era surpreendida, vendo-o, já cedo (nem sequer tinha dormido direito) sentado à mesa de trabalho.

Suas pesquisas são sempre coloridas com depoimentos, e diz: - Quando alguém elogia demais – é puxa-saco; quando não elogia – despeitado. Então procura transcrever o que disseram sobre o biografado. Assim, não corro risco de mentir…

Como é fundamental e existência de um Banco de Dados! Vejam a dimensão da importância do arquivo de Raimundo Soares de Brito, porque que ele nos orienta sem sequer cobrar um centavo e, faz isso com prazer, porque tem no sangue a garra e a dedicação dos velhos homens de boa estirpe.

O seu rico arquivo pode ser comparado ao do jornalista João Condé. Certa vez disse Drummond a respeito do arquivo de Condé: “Se um dia eu rasgasse os meus versos, por desencanto ou nojo da poesia, não estaria certo da sua extinção: restariam os Arquivos implacáveis de João Condé”. O mesmo poderíamos dizer em relação a Raibrito.

A pesquisa tem sido o ponto forte do caraubense feito mossoroense e natalense, títulos concedidos pelas Câmaras dessas cidades; sem ajuda de qualquer entidade, universidades, governos organizou um dos maiores acervo do Estado, lembrava Vingt-un Rosado.

Como pesquisador, sua linha estilística está ligada a diversos nomes da historiografia brasileira. Parece-me que de tanto estudar os nomes da nossa História, incorporou-os à sua personalidade, dessa forma, mesmo que abraçando um critério seu, Raibrito tem nos legado muito de seu trabalho, demonstrando suas habilidades no cuidado em reparar as informações, atencioso com os lapsos, maneiroso nas expressões que caracterizam os personagens das suas estantes opacas, ornamentadas com pseudonomes de toda espécie.

A pesquisa é uma operação complexa. Ela não se divide, como fazia crer a frase de Taine “d’abord la collection des faits aprés, la recherche des causes”, tão criticada por Croce. Não se trata de atos descontínuos, mas simultâneos; na história os fatos não acontecem isoladamente, sem causas, sem precedentes, o ambiente está sempre ligado ao homem e este às causas. Cabe ao pesquisador desvendar certas co-relações, analisar as causas e os efeitos e coligir dados, que possam esclarecer dúvidas que perduram nas mentes de muitos curiosos e estudiosos.

À exemplo de muitos pesquisadores brasileiros, podemos dizer quer o trabalho que Raimundo de Brito desenvolve assemelha-se aos grandes estudiosos da nossa História. Varnhagem, Melo Morais, Meneses Vasconcelos de Drummond (com esse, sua semelhança é quanto a falta de tempo que teve no início da obra, em colecionar, classificar, arquivar e acondicionar, pois o emprego da repartição pública, durante muito tempo, nunca lhe permitiu ter o tempo necessário para que se empregasse na sua obra “catequética”).

Falo do seu método de pesquisa, cujas características tem a ver com alguns desses ilustres nomes. Assim como Adolfo de Vanhargen, Raimundo Soares de Brito impregnado pelo “germe” da pesquisa aproveitou sua inteligência e capacidade de perquirir para edificar sua obra Assim como Vanhargem que se tornara um pesquisador por iniciativa própria, Raimundo de Brito teve esta mesma decisão; sempre reunindo e colecionando tudo sobre História, principalmente história regional (seu forte). Dessa maneira ele tem “abastecido” muitos estudiosos na região, especialmente. Na História, com especialidade, quanto mais se pesquisa, mais se tem a dizer…

Várias foram as tentativas de catalogar e classificar o seu acervo, pois, como já dissemos, durante muito tempo só se ocupou em “amontoar”, mas, já faz algum tempo, tem se dedicado, ultimamente, a esse ofício, pois, como disse, “Agora chegou a hora de arrumar as malas, porque já estou partindo. Quero deixar a casa arrumada”.

Noutra oportunidade, numa carta ao historiador Vingt-Un Rosado, comparei Raimundo Soares de Brito a outro mestre: Luís da Câmara Cascudo faltou acrescentar o nome do Mecenas da Cultura de Mossoró, o terno “medonho” 21 Rosado, pois, formam a hegemonia do País de Mossoró, não esquecendo, em momento algum, a contribuição irreparável do grande mestre da história regional: Raimundo Nonato da Silva.

Toda sua pesquisa, realizada ao longo de 65 anos, preparava a sua obra monumental, que, agora, transforma-se na Biblioteca Virtual Prof. Raimundo Soares de Brito, projeto patrocinado pela Petrobrás, viabilizado em parceria com o governo do Estado, Lei Câmara Cascudo e o Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP.

Mas, há algum tempo a Biblioteca Virtual está desativada, pois Petrobras e UERN se comprometeram de levar o projeto adiante e até agora não foi dado nenhum passo para que isso pudesse vir à luz!
A História Geral é o resultado da mais completa e positiva colheita documental empreendida, pois é como deve ser considerado o patrimônio de Raimundo Soares de Brito. Que a sociedade norte-rio-grandense reconheça o seu empenho em prol do desenvolvimento cultural do país, pelo “seu esforço, a capacidade de trabalho, o zelo e a competência com que se dedicou à obra” magnífica e impressionante.

Raibrito agora está em Natal, morando; e o arquivo? E as valiosas informações, e a Biblioteca como ficará? Terá sido este um projeto “bolhas de sabão”? E a prefeitura não faz nada para resgatar o trabalhador braçal da cultura, ainda vivo, nos seus 90 anos de existência? Onde está as instituições, os políticos, as autarquias que não investem no arquivo “escandaloso”do implacável Raimundo Soares de Brito? Resta-nos lamentar o rumo que tomou o ousado projeto “Biblioteca Virtual Prof. Raimundo Soares de Brito”!

Raimundo Soares de Brito faz hoje, 23 de abril de 2010, da graça do nosso Senhor Jesus Cristo, 90 anos

Quem há de cumprimentá-lo?

Brasília 50 anos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

SENTIR BRASÍLIA

Por Walter Medeiros*
E-mail: waltermedeiros@supercabo.com.br

Cinqüenta anos, Brasília! Cinqüenta anos de vida, a mais intensa. Cinqüenta anos que surgiste da natureza para ser o grande ponto de encontro da humanidade, com a tua energia envolvente e contagiante.

Cinqüenta anos de convergências e divergências pela criação de um Brasil melhor. Cinqüenta anos hospedando o mundo, na tua beleza transcendente e sideral. Cinqüenta anos de mudança para além do trivial. Cinqüenta anos, Brasília! Oh! Amada capital!

Muitas vezes explorei tuas entranhas, no Venâncio 2000, no Conjunto Nacional, nas tesourinhas, na W3, Rodoviária, Aeroporto e na bela Praça dos Três Poderes, de gritos contidos, de gritos gritados, de cacetetes e gás lacromogêneo, de tantas flores, de tantas festas, de tanto amor à Pátria. Brasília, és a casa dos brasileiros, por isto precisamos cuidar de ti, como se cuida dos entes mais queridos. E neste teu novo aniversário, tão importante, refletir pelo melhor, pela tua grandeza, pela tua história.

Nestes tantos anos abrigaste tantos momentos, de todos os tipos, mas que te fizeram amadurecer e firmar-se como quimera. Daqueles que não sabem viver em cidades desorganizadas, mas também daqueles outros que findaram começando a te desorganizar. Daqueles que querem ser enterrados debaixo das lajes das tuas super-quadras. Daqueles poetas da 304 – “a namorada foi para o Rio / e fiquei aqui a ver ministérios”.

Brasília, cidade elegante, cidade do futuro, cidade de todos, dos que crescem na vida e dos que não têm rumo, de corações que bateram e batem nas lutas da nossa história, de celas que prendiam os revolucionários ao ecumenismo da Torre de TV, da orla do Lago encantado às efervescências das cidades satélites.

Brasília, o mundo todo te reverencia, por seres a prova de que é possível construir os próprios destinos e mudar paradigmas. És mais que o teu todo, pois teu significado é mais amplo até que os escândalos que levam para dentro de ti.

Vez por outra tenho saudade de cada vez que te vi, Brasília. Saudade dos primeiros dias, nos quais tua beleza era total, dos dias sem medo, dos dias contemplativos, dos sonhadores que te completavam a cada dia. Auxiliadora Targino, Amantino Teixeira, Alexandre Cavalcanti, Monte Filho, Meira Filho, Chico Pereira, Chico Maia, Arlete Azevedo, João Heredício Pinto, Paulo Cunha, Dona Ceci e tantos outros.

Nos teus cinqüenta anos dou esse testemunho humílimo de quem pisou teu chão vermelho e em ti deixou e tem muitos amigos que se encantaram com as flores do cerrado. Amigos que em dias e noites inesquecíveis por ti circularam em tua culinária universal, em tua arte de vanguarda, em tua atmosfera inexplicável.

Brasília, não dá para bem te descrever, pois para te entender precisa, mais que tudo, te sentir.

*Jornalista – Natal/RN, residiu em Brasília no ano de 1979 e retornou várias vezes a serviço ou em trânsito

MALANDRAGEM DESFALCADA

domingo, 18 de abril de 2010

Em tributo ao cantor Nelson Gonçalves, morto de parada cardíaca há doze anos, no dia 18 de abril de 1998, o cantor e compositor Lobão escreve sobre seu carinho e admiração pelo “comparsa, irmãozinho e – por que não? – paizão” que conheceu, em 1987, durante uma entrevista conjunta para a extinta revista Manchete. “Ele sempre foi e será a mais pura elegância do desvario”, diz Lobão.


AO NELSON, COM CARINHO
Por Lobão

Fico lembrando a primeira vez que me encontrei com o Nelson. Eu havia acabado de receber um habeas corpus lá pelos idos de 87 e, ao desfrutar daquela turbulenta e incerta liberdade, não suspeitava que numa entrevista marcada pela Manchete estaria por começar uma das mais belas recompensas daquele inferno por que passava: a amizade de Nelsão.

Com o mote das prisões, a incursão na marginália e a afeição pela boemia, nossas vidas se encontraram através dessas associações que os jornalistas fazem de vez em sempre e que, de vez em quando, acabam acertando, como o nosso caso aqui.

Numa tarde de outubro, se não me engano, varava pela sala da gravadora BMG aquela figura elétrica e franzina que, logo ao me perceber, foi disparando: “Rapaz, você sou eu anteontem, não tenha dúvida!”

Gargalhadas. Isso foi o bastante para quebrar o possível gelo que, porventura, viesse a se instaurar como fruto daquela improvável reunião. Apesar de me ver um cara vindo de um mundo, a princípio, totalmente diferente, sentia-me confortavelmente familiarizado com aquela figura que se impunha com toda a sua energia e descontração.

E aquelas duas realidades tão díspares já se antevendo cada vez mais semelhantes começavam a se tatear com histórias, alegrias e a barra de viver. Comecei a perceber que de díspar só havia o lapso do tempo e que toda a beleza de fazer da vida uma grande aventura se personificava diante de mim. Sentia na sua malandragem a essência viva do que eu entendia por rock’n’roll e que eu estava diante daquela essência viva e, talvez, de uma nova e possível forma de malandragem. Aí nos fizemos amigos. Amigos para sempre.

Não vou me deter nas aventuras, histórias e lendas que permeiam essa vida de porrada, poesia e amor. Isso daria um livro ou um filme. Muitos dos casos protagonizados por Nelsão são delirantes, cinematográficos, proto-punks, surreais e por isso, creio, haverá de ter oportunidade mais adequada para contar e curtir esses casos.

Agora, um detalhe. Recordo-me de ter lido não sei onde que o Nelson seria um dos precursores do brega(!) e isso produziu uma espécie de urticária no meu cerebelo. Vejam bem uma coisa: como é que uma pessoa que viveu a malandragem, na malandragem e pra malandragem pode ser precursora de um movimento que, em si, é exatamente o desterro da malandragem. Rapaziada, pelo amor de Deus, o brega é a síntese da perda de toda e qualquer malandragem e, por conseguinte, da elegância e da inocência, do risco do abismo. Por isso mesmo, de brega o nosso querido Nelson não tinha nada. Sempre foi e sempre será a mais pura elegância do desvario.

Por essas e outras, estou aqui, (…) para relatar o meu agradecimento à revista, tanto pela primeira conexão como também pela lembrança do Nelson me dando uma força, talvez sua última declaração pública a sair dias antes de sua morte. E minha sincera gratidão impregnada de ternura por aquele que me deu a oportunidade de desfrutar afetos múltiplos, num misto de comparsa, irmãozinho e – por que não? – paizão. Viva, Nelsão, na alegria do meu coração em lembrá-lo sempre a dizer: “Aonde houver um bordel, um botequim, um violão, se ouvirá a voz de Nelson Gonçalves ecoar uma canção.”

VARGAS RECEBE ROOSEVELT EM NATAL

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reprodução do Jornal do Brasil

Reprodução do Jornal do Brasil


Por Alice Melo, do CPDocJB

Há 67 anos, no dia 28 de janeiro de 1943, o presidente Getúlio Vargas chegou a Natal, no Rio grande do Norte, para uma conferência com o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, com o propósito de firmar uma aliança militar e política entre o Brasil e os Países Aliados, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Nasceu desta reunião a idéia da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma divisão de 25.334 militares brasileiros que lutaram ao lado dos Aliados na Itália no final da guerra.

“Os países aliados preparam-se para uma guerra longa. O poderio militar da Alemanha está em declínio e pode haver um colapso de um momento para o outro. Estamos absolutamente certos da vitória”, declarou Getúlio Vargas em uma coletiva de imprensa dois dias após chegar a Natal.

Getúlio Vargas chegou a Natal no dia 28, e pernoitou em um navio de guerra para se preparar para a conferência com Roosevelt, que chegaria da África na manhã do dia seguinte. Os presidentes se encontraram durante o almoço, passaram em revista as forças armadas brasileiras e norte-americanas – do Exército, Marinha e Aeronáutica – e no decorrer da tarde trocaram idéias sobre os problemas da guerra mundial e o esforço bélico conjunto do Brasil e dos Estados Unidos.

“[No encontro] tratamos de assuntos referentes à guerra e, também, de outros que possivelmente se apresentarão no após-guerra. Preponderou, entretanto, a necessidade de vencer a luta, e sob este aspecto muito conversamos sobre a cooperação do Brasil com os Estados Unidos, cooperação integral e sem restrições. Uma vez que estamos em guerra, a nossa cooperação com os Estados Unidos deve ser completa. Tudo quanto eles julgarem necessário e útil, nós continuaremos a fornecer”, disse Getúlio Vargas no dia 31, não explicando porque os detalhes da Conferência tinham sido mantidos em sigilo até o momento da coletiva.

A idéia da FEB, no entanto, não foi consolidada nessa conferência, que oficializou a cooperação do Brasil com os Estados Unidos no esforço de guerra, já que o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira somente partiu para a Itália em julho de 1944. O final da guerra contra o fascismo e o retorno da FEB ao Brasil deram origem a manifestações populares que precipitaram a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo no país.

MORRE O ESCRITOR LUIS ROMANO

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Por Franklin Jorge

Faleceu nesta tarde, vitima de câncer, o escritor Luis Romano, caboverdiano radicado em Natal desde os anos 60. Primeiro embaixador do seu País, após a independencia, aqui conviveu intimamente no primeiro círculo de intelectuais, como Luis da Câmara Cascudo, Edgar Barbosa e Américo de Oliveira Costa, aos quais se juntariam depois, Eulicio Farias de Lacerda e Sanderson Negreiros.

Deixou Luis Romano inúmeras obras, em prosa e verso, além de estudos bastante apreciados sobre aspectos da cultura caboverdiana, da qual foi, por toda vida, um grande divulgador. Recentemente, um estudante da USP entrou em contato comigo, através de e-mail, para pedir-me informações sobre o escritor, cuja vida e obra seriam objeto de estudos acadêmicos.

Privei durante vários anos da sua amizade e o visitei, por diversas vezes, em sua casa à Avenida Afonso Pena, onde vivia na companhia da mulher e dos filhos, escrevendo e lendo. Nesses encontros, fez-me confidencias sobre suas amizades literárias. Tinha uma grande admiração por Edgar Barbosa, que chegou a prefaciar-lhe seu livro mais conhecido.

Certa vez, ao servir-me um delicioso e estranho licor, quebrei as regras da civilidade e quis repeti-lo, mesmo sabendo que infrigia alguma lei tácita. Afinal, a boa convivencia social tem regras que não podem ser arranhadas. Por isso, vendo que fora longe demais, pedi-lhe desculpas pela ousadia.

Ele disse tratar-se de um Cordial, e, segundo a praxe, bebia-se um único cálice de boas vindas. E, ainda um pouco chocado com a minha má educação, serviu-me uma segunda dose, o que repetiu-se todas as demais vezes em que depois estive em sua casa. Uma vez, para sondar a qualidade do produto, serviu-me um cálice de aguardente fabricada em sua longínqua Cabo Verde. Disse-lhe, sinceramente, que preferia seu Cordial.

Quis saber onde adquirir tão espirituosa bebida e ele me revelou ser a pessoa que a fabricava havia muitos anos. Diante disto, acanhei-me de pedir-lhe a receita. Mas, acrescentei que, se tivesse uma receita daquelas, certamente ficaria rico, comercializando-a. E ele, sem delongas, acrescentou que até pensara em me dar a receita, mas, considerando o meu propósito de auferir lucro com uma receita criada por seus ancestrais, desistia de me dar a fórmula.

Tratava-se de uma receita que passava de pai para filho há várias gerações. Composta por um mix de ervas, frutas secas, vinho tinto e aguardente, levava no minimo dois anos curtindo e, depois, vinha a parte mais trabalhosa: precisava ser filtrada, no mínimo, umas cinco vezes…

Anos depois, consolidada a nossa amizade, ele me surpreendeu certo dia, mandando-me que me munisse de papel e lápis, pois queria ditar-me algumas palavras. Era a tão desejada receita com a qual, em momentos especiais, obsequio meus amigos, servindo-lhes um cálice dessa bebida rara a que dei o nome de Hullaballoo, um estado de espírito.

RETORNO AO NINHO

domingo, 3 de janeiro de 2010


Discurso de Anna Maria Cascudo Barreto na abertura do Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo

Estamos diante de um sortilégio. Desejo antigo, guiado por seres de outra dimensão, hoje realizado por soldados envergando a farda da paixão. Os pássaros viajores retornaram ao seu ninho centenário. Atravessaram túneis de ventanias agressivas, voaram acima de difíceis labaredas. Muitas vezes ausencia de alimentação, períodos de desânimo. Perderam asas, se desfizeram das plumas mais preciosas, abandonando gravetos importantes para o conforto dos filhotes.

Simbolicamente, a ausencia do justo reconhecimentp dos seus iguais provocou feridas jamais cicatrizadas. Mas elas prosseguiram seu vôo teimoso seguindo roteiros traçados pela sua destinação. Aves persistentes seguiram guiadas pelas nuvens dos sonhos, sua bússola o sol do amor, tecendo arabescos nos galhos indiferentes, construindo o objeto final: o ninho estrelado.

Nós, os Cascudo Roberti Leite e os Cascudo Barreto, somos operários da indústria da fé. Os dragões do pessimismo não alcançarão nossas fronteiras. Lentamente fomos afastando as barreiras e penetrando o reino encantado cascudiano, rabiscado de passos, crivados de olhares, cobertos de perguntas. Parodiando Dom Quixote, vencemos batalhas impossiveis, lutas sangrentas se tornaram rosas de esperança, graças a espada do sorriso.

Camilo, Daliana, Newton, Camilla, Diogo, Alana, Woldney, Múcio e até a pequena Cecilia, somos pontes de carne, ligando o ontem ao amanhã. Nossos mortos estão presentes nos nossos corpos e almas. Na hereditariedade o passado e o presente se fazem futuro.

Varamos as portas de esmeralda da casa, ninho familiar. Aqui resideram meus avós maternos, o Desembargador José Teotônio Freire e Sinhá, nasceu minha genitora, a doce caçula Dahlia: o Coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo, o avô paterno, aqui pediu a mão da adolescente para o seu filho Luís. Também essas paredes assistiram ao nascimento do primogenito Fernando Luis e da autora destas linhas. Na casa grande parte da gigantesca obra de Câmara Cascudo foi elaborada. Casamos na sua sala, Fernando e Marly, Camilo e eu. Residimos com nossos pais e filhos, 18 anos. Festejos, comemorações, alegrias e tristezas, foram testemunhadas deste local. Meus filhos aqui brincaram e também os netos estudaram, nos formamos, tivemos momentos de extrema tristeza e motivos de honra e alegria.

Agora o Instituto Câmara Cascudo, fruto de labor persistente, suor e teimosia abençoada de três gerações, surgem como um presente à cidade tão amada pelo seu inspirador, galanteio feito roteiro cultural às gerações atuais e àquelas que sucederem.

O Ludovicus é batizado com a mesma energia de quando o Santo Padre João Maria, na Igreja do Bom Jesus das Dores, fez o sinal da cruz na fronte do recém-nascido Luís, e o abraçou como adivinhando quem ele se tornaria…

O objetivo do Instituto Câmara Cascudo - Ludovicus - que fundamos, é a preservação, divulgação, a continuidade da pesquisa e a gerencia do patrimonio cultural de Câmara Cascudo, todas as suas nuances, faces e objetivos.

A casa foi restaurada pela familia residente na cidade do Natal desde 2005 e estará aberta à visitação a partir de janeiro de 2010. O essencial permanece: as fotos dos amigos e familiares, os móveis, acervo biobibliográfico, as assinaturas nas paredes dos visitantes. As coleções - museológicas, etnográfica africana e indígena brasileira, conviverão com a biblioteca rara, a pinacoteca, a simplicidade franciscana do cotidiano familiar, a ternura das fotos, um pouco das múltiplas homenagens, medalhas, colares, diplomas, troféus, recebidos com humildade pelo mestre.

Ele, que amava o povo e suas manifestações acima de tudo, considerado o mais brasileiro dos escritores, que pesquisou todos os ramos do conhecimento humano sem perder seu sorriso espontaneo, oferece seus conhecimentos, sua magia, com a acessibilidade e carinho que o caracterizaram.

Nosso combustível foi o de acender a labareda da permanencia no tempo, guardiã da eternidade. é chegada a hora de se dar as mãos ao escritor, é a época das parcerias, dos patrocinios, idéias para que os ideiais sejam mantidos.

E os crepúsculos que ele colecionava na privilegiada memória, com flores de opala, cantaros de rubi, esteiras de ouro e corolas de luz prateada nunca mergulhem na escuridão do olvido, nas sombras do esquecimento. Tal espetáculo diário que o Criador nos oferece gratuitamente inspire as autoridades, os politicos, os empresários, os cidadãos, enfim, a toda cidade do Natal, para a necessidade de cultivar e apoiar com a firmeza da gratidão e a consciencia da tradição.

Natal, 30 de dezembro de 2009
Anna Maria Cascudo Barreto
Presidente do Ludovicus

GATELY, DO BOYZONE, MORRE AOS 33 ANOS

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Do Y! Posts

Londres, ontem (EFE).- Stephen Gately, integrante do grupo Boyzone, boyband irlandesa que fez sucesso nos anos 1990, morreu sábado na ilha espanhola de Mallorca, onde estava de férias com o marido, Andrew Cowles.

O site do grupo, que se separou em 2000 e voltou a se reunir oito anos depois, diz que Gately, de 33 anos, “morreu de forma trágica” na noite de ontem.

O anúncio da morte do cantor causou comoção no Reino Unido e na Irlanda. Os outros integrantes da banda disseram que hoje mesmo seguiriam para a Espanha para se inteirar do ocorrido.

Até o momento, as circunstâncias do falecimento de Gately não foram esclarecidas. Mas fontes da Polícia de Andratx (Mallorca) disseram à Agência Efe que o artista morreu em um apartamento na região turística de Cala Llamp.

O editor da seção de espetáculos do jornal “News of the World”, Dan Wootton, disse à “BBC” que Gately saiu com o marido na noite de sábado e, depois de voltar e dormir, não acordou mais.

Louis Walsh, empresário da banda, disse ter ficado abalado com a notícia, mas que não tinha detalhes do que aconteceu.

“Estou em estado de choque. Estive com ele na segunda-feira em uma cerimônia de entrega de prêmios. Não sabemos muito sobre o que aconteceu”, declarou Walsh, segundo quem Gately “era um grande homem”.

O Boyzone fez muito sucesso na Europa na década de 1990, quando vendeu mais singles que o Take That.

Em junho de 1999, um ano antes de o grupo se separar, Gately assumiu sua homossexualidade e que namorava Andrew Cowles, com quem se casou em 2006, em uma cerimônia em Londres.

Depois do fim do Boyzone, Gately seguiu carreira solo, emplacando três singles na lista dos 20 mais vendidos. Ele também fez várias participações em musicais de sucesso na capital britânica.

O cantor Elton John se pronunciou sobre a morte do colega, a quem se referiu como uma pessoa “doce e amável”. “Eu e David (Furnish, marido de Elton) ficamos atordoados com esta tragédia. Enviamos nosso amor

 

 

Homenagem a Maria Eugênia [7-7]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

PRAÇA GETÚLIO VARGAS 19

Por Franklin Jorge

 

 

Diversa daquela biblioteca abacial descrita por Washington Irving em “A Mutabilidade da Literatura” – autor que encantou minha adolescência no Açu –, onde os autores, como múmias, são impiedosamente encerrados e ali abandonados para amarelecerem e se desfazerem no pó do esquecimento, a biblioteca de Dona Gena, a escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, não era uma catacumba literária. Seus livros estavam mais gastos pelo uso do que pelo tempo.

Ali, naquele ambiente que me pareceu sempre a ante-sala do paraíso, vivi na companhia de uma miríade de títulos alguns dos momentos mais intensos de minha vida.

Ali, em meio a multidão devoradora das idéias contidas nos livros dessa biblioteca laboriosamente constituída pela literatura mais relevante, oriunda das mais diversas culturas e países, senti-me insaciavelmente curioso, sem saber ainda que a curiosidade tem raízes no inferno, lugar onde vai dar toda a sabedoria.

Instalada numa sala cujas paredes eram revestidas de estantes, algumas envidraçadas e fechadas a chave, pois continham algumas preciosidades forjadas pelo gênio humano, entreguei-me ao prazer solitário da leitura, num ambiente limpo, ordenado e silencioso, em contraste com o tumulto da praça.

Presidia-o uma pequena e delicada aquarela de Martha Salém, em tons terrosos perpassados de uma estranha luz fantasmagórica, e, sobre a mesa de madeira clara, em estilo funcional, inspirada no Bauhaus alemão, os dois grifos de bronze que sustinham todo o Morais – um dos mais completos dicionários da língua portuguesa –, que pertencera ao pai de minha anfitriã.

 

Foi ali, na condição de leitor e de demiurgo de ébrias fantasias juvenis, que descobri alguns autores que seriam os meus mestres secretos e compreendi, sem ainda ter lido uma única linha de Borges, que sem leitura não se pode criar. Na clausura da biblioteca dessa notável mineira transplantada para o Açu, entregue ao rito orgíaco da leitura, ouvindo Debussy – cuja música misteriosa impedia Proust de trabalhar –, e às vezes, acariciando o dorso nervoso de Chérie, amável felina de olhos de ágata e aço, sentia esse tremendo medo de morrer sem construir uma obra que justificasse a minha existencia.

Ali, em meio a

 

                               Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio

                               Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia…

 

Washington Irving, que li na paz dessa biblioteca provinciana, na qual habitavam os grandes gênios da literatura, descobri um Irving mais profundo e diverso do autor de contos fantásticos, entre os quais “Rip van Winkle” que costumava ser incluído no repertório infanto-juvenil de minha geração e foi o primeiro texto seu que li ou ouvi de minha avó, numa daquelas horas de descanso após o almoço, na casa grande do Estevão, hoje pertencente ao doutor Paulo Fonseca.

Autor de uma curiosa “História de Nova York” desde o começo do mundo até o fim da Dinastia Holandesa [1809], publicada sob o pseudônimo de Diederich Knickerbocker, Washinton Irving [1783-1859] é considerado impropriamente, por alguns historiadores da literatura, como o primeiro romântico da América.

 Nascido numa família riquíssima de Manhattan, era um rapaz de hábitos refinados que freqüentava o circulo mundano de sua cidade, a antiga Nova Amsterdã de seus antepassados, fundada pelos holandeses após deixarem Natal, derrotados em sangrenta guerra.

De 1815 a 1832 viveu em Londres, onde escreveu algumas de suas obras mais populares e terá se inspirado para escrever o ensaio sobre a mutabilidade da literatura, ao visitar a Abadia de Westminster, túmulo de vários reis ingleses. Usou nessa obra uma epígrafe extraída de Drummond of Hansthornden, que, por mais que exija da memória, não consigo lembrar…

Washington Irving observou que existem certos estados de espírito de quase rapto, sob os quais fugimos do tumulto e da luz e buscamos algum recanto silencioso onde possamos dar amplidão aos nossos sonhos e, sossegados, como me quedei na biblioteca de Dona Gena, construir nossos paraísos no ar. Lendo-o, aprendi a refletir sobre as páginas que lia…

 

                A Márcio de Lima Dantas.

 

 

 

 

Homenagem a Maria Eugenia [6-7]

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Biblioteca de Dona Gena

 

Por Franklin Jorge

 

Mais que a escola, educaram-me as bibliotecas. Amando os livros com o mesmo amor tátil que alguns homens devotam ao cigarro, ocorre-me destacar aqui, especialmente, a biblioteca de Dona Gena, Maria Eugênia Maceira Montenegro (Lavras, MG,1915/2006), que freqüentei entre catorze e dezessete anos, enquanto meus amigos da mesma idade brincavam e, à maneira deles, se divertiam.

 

Como Borges – que exaltou a biblioteca paterna –, creio não ter lido em vão aqueles queridos volumes, transcendentes estrelas e astros simetricamente dispostos no céu profundo e claro de um bonito e aristocrático solar da praça Getúlio Vargas, 19.

 

Estava escrito, em alguma página do enigmático livro da vida que nessa biblioteca sonhada por Dona Gena algum dia um jovem curioso e tímido, querendo saber o que outros ignoravam, entreteceria de leitura sua adolescência inquieta.

 

Nessa biblioteca cosmopolita que prefigurava o paraíso na terra, senti a radiação mental de autores invulneráveis como deuses e li, pela primeira vez, Gide e Clarice, Nietzsche e João Lins Caldas, Pessoa e Cornélio Penna, Tagore e Rachel de Queiroz, Virgínia Woolf  e Nelson Rodrigues, Camus e Gilberto Freyre, Washington Irving e Murilo Mendes, Schopenhauer e José Geraldo Vieira, além da obra poética de Bandeira, Cecília , Henriqueta, Jorge de Lima, Drummond e Cassiano Ricardo, que logo depois orientaria  minhas primeiras tentativas poéticas.

 

E, pairando sobre esses autores e, confundindo-se com a multiplicação espectral da realidade que os livros proporcionam, a presença de uma amiga atenciosa com quem podia conversar sobre essas leituras que se acrescentavam a tudo que eu já lera, levado pelo instinto do que busca baudelaireanamente o seu semelhante, ou, ainda, esclarecido pela experiência de minha avó materna, uma mulher culta e nervosa que sabia escrever e conversar com fluência e espírito.

 

Imbuído do sentimento de gratidão devido ao inefável licor vertido por esses livros e pelas palavras de Dona Gena sobre o meu espírito, escreveria, anos depois, ‘’Paraísos de Papel’’, numa superação da impotência, da humilhação e da angústia, ao tempo em que vivia em Rondônia, um lugar que os cabalistas afirmam ser um dos ‘’portais’’ do inferno, ou segundo outros, uma terra de expiação e desdita.

 

Ali, sozinho e injustificado, atormentado pelo desejo de criar uma obra, comecei a escrever “Paraísos de Papel”, mergulhado na paz da Biblioteca pública Francisco Meireles, da qual tornei-me um desfrutador constante e notado por todos. Algumas vezes, fazia-me transportar pela memória involuntária à minha adolescência no Açu e a uma outra biblioteca, forjada por Dona Gena, como uma pousada para o prazer e a perdição de alguém que desde cedo sabia que o seu verdadeiro destino seria a literatura.

 

E, por sabê-lo, muito antes que uma cigana de passagem pelo Sítio Estevão o dissesse, ao interpretar as linhas da minha mão, dispus-me a criar o meu próprio cânone, no âmbito sereno de uma ordem, não obstante ignorasse ainda que Jung havia incluído a leitura na mesma categoria dos sonhos e, talvez, dos pesadelos.

 

Por alguns segundos que todavia me pareciam eternos, eu voltava a ouvir Dona Gena discorrendo sobre suas leituras ou convocando suas lembranças de João Lins Caldas, poeta numeroso e único que antes de mim freqüentara sua biblioteca, privando por muitos anos da sua amável companhia e tornando-se, nessa longa convivência enriquecida pela admiração recíproca, o seu próprio mestre.

 

Algumas vezes, como prêmio laboriosamente conquistado, Dona Gena extraía de uma pasta um ou outro manuscrito do seu infortunado mestre e amigo e o lia em voz alta, dramatizando certos versos, tal como os ouvira há muito tempo da boca de Caldas, a quem reverenciávamos como a um altíssimo poeta.

 

Eu a ouvia, encantado, tendo entre nós sua mesa de trabalho ornada com dois grifos de bronze que sustentavam exemplares do Moraes e do Caldas Aulete, ambos herdados do seu pai, o engenheiro português Bernardino Maceira, de quem terá herdado mais que esses dicionários o gosto pela arte. Interrompendo-se em alguns trechos, para lembrar que Caldas chorara ao dizer-lhe este ou aquele verso, em seguida Dona Gena prosseguia a leitura, imprimindo à voz toda a emoção que o poeta comunicara através inflexões embargadas pelo sentimento.

 

Siderado pela diabólica palpitação daquelas vozes silenciosas, aprisionadas nos livros de uma biblioteca, vivi e morri de paixão com Tonio Kroger, Hamlet e Raskolnikov, para que no futuro tivesse motivos para refletir e escrever sobre a espécie de felicidade que resulta da usufruição da amizade e dos livros.

 

De súbito, chamado à realidade pela bibliotecária que, como uma divindade infernal anunciava o fim expediente, eis-me novamente caminhando com o meu obscuro destino pelas ruas de Porto Velho, ou de Milão, ou do Rio, ou de Buenos Aires, ou de Estocolmo, ou de Natal, pensando, sem escrever uma linha, na miserável contingência a que chamamos de condição humana.

 

Como pouco ou quase nada sabemos de nós mesmos, Dona Gena, sem o saber, cumprira fielmente o princípio básico que norteia a verdadeira e autêntica atividade intelectual – expressa na desinteressada transmissão do conhecimento.

 

À sombra benigna dessa e de outras bibliotecas que perlustrei e incorporei ao que sou e tenho sido ao longo desses fatigados cinqüenta anos, algumas vezes terei intuído que, como um dom gratuito atribuído por algumas potência celeste, recebi e perdi uma coisa infinita?    

 

 

 

 

 

 

 

Homenagem a Maria Eugênia [5-7]

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [2-2]

 

Por Franklin Jorge

 

 

Na endiabrada Calçada a opinião é livre. Mas há um contrato tácito entre os seus freqüentadores sobre os versos sotádicos, que só devem circular por escrito, embora passem de mão em mão, arrancando gostosas risadas que chamam a atenção das pessoas que transitam pela rua. Como não rir da verve de poetas como Renato Caldas e Chico Traíra? De viva voz, só os versos considerados “de salão”. O costume talvez seja uma deferência á dona da casa, a única presença feminina cativa da Calçada, embora eventualmente outras mulheres a freqüente, quase sempre, de passagem pelo Açu.

 

Quando prefeita de Ipanguaçu, Dona Gena enfrentou a calamidade uma enchente que deixou centenas de desabrigados, destruiu lavouras, casas e animais, levando-a sob risco de vida a percorrer de canoa as áreas alagadas do município, na companhia de homens que via pela primeira vez. Aberta às experiências, levou socorro ao povo necessitado, enfrentando os perigos com bom humor e determinação. Ela lembra numa dessas noites, sentada diante da sua casa, de uma velha que ajudou a salvar e que, recolhida a um depósito da Cibrazen transformado em asilo, recebeu a visita do médico. Impressionado com o estado da paciente, cochichou para a enfermeira, Essa velha não escapa; está com um horrível piado de peito. E a velha, erguendo-se vivamente do catre, corrigiu o diagnóstico. Não é piado de peito não, doutor; é só um pintinho, coitado, que eu tenho no bolso.

 

Numa dessas noites, Dona Gena organizou na Calçada um torneio de violeiros, para homenagear parentes mineiros que a visitavam. Um dos violeiros convidados perguntou ao poeta Alípio Tavares sobre a identidade de um menino que parecia ser muito querido por todos naquela casa. Quem é Athinho, companheiro? Alípio, amigo da casa, respondeu em versos –

 

 

                                  Ele também é mineiro,

                                  É sangue da mesma raça.

                                  Uma mãe lá, outra aqui;

                                  Uma beija, outra abraça.

                                  Um filho com duas mães,

                                  O pai fica Achando graça.

 

 

Doutor Nelson, cronista da Calçada, registrou em seus cadernos os versos que Alípio improvisou para castigar a avareza de João Monteiro, na época, ostentando grandes bigodes dalinianos, que parara um pouco para ouvir a cantoria. O parceiro de Alípio, ao ver chegar ali aquele estranho, animou-se com a perspectiva de recompensa pecuniária, lançou seu improviso de olhos fixos no desconhecido.

 

  

                                   Este senhor que chegou

                                   Veio nos trazer melhora.

                                   Quem é este cavalheiro,

                                   Que chegou aqui agora?

 

 

Desprestigiando as leis imutáveis da cantoria nordestina, João Monteiro retirou-se da roda sem dar satisfações, ou seja, sem depositar sua contribuição no prato colocado aos pés dos violeiros. Mas Alípio vingou o decepcionado companheiro, compondo um retrato-relâmpago do fujão muquirana.

 

 

                                     Lhe afirmo, caro poeta,

                                     Foi o que engoliu a bicicleta

                                     E deixou os guidões de fora.

 

 

 

Enciclopédia viva e teatro, jornal falado d acidade e lenda, a Calçada de da casa de número 19 da Praça Getúlio Vargas, ex-Praça da Proclamação, é uma instituição cultural da cidade do Açu. Seus freqüentadores revivem, no sertão norte-rio-grandense, uma tradição milenar, quando os homens, depois de ganhar o dia com o suor do rosto, se reuniam em torno do fogo alegre ou nas praças, para conversar e contar histórias das Mil e Uma Noites. Herdeiro dos salões literários, remanescente dos usufrutuários dos jardins de Academos,  a confraria da Calçada de Dona Gena e Doutor Nelson, como se diz no Açu, sobrevive cordialmente em um mundo desumanizado pela tecnologia e pela pressa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENTENÁRIO: UM ESCLARECIMENTO

domingo, 4 de outubro de 2009

Por Franklin Jorge

Peço desculpas aos leitores por equivocar-me ao noticiar o centenário de nascimento de Maria Eugenia Maceira Montenegro. Trata-se, na verdade, da leitura do necrológio da escritora, solenidade a realizar-se na Academia Norte-rio-grandense de Letras - na proxima terça-feira -, um dia antes da data do seu nascimento e três anos depois do seu falecimento na cidade do Assu. A oradora será a acadêmica Anna Maria Cascudo Barreto, sua amiga de muitos anos: nenhuma duvida a este respeito.

Confesso que fiquei em duvida ao tomar conhecimento do fato, isto é, do transcurso do centenário, porém, apesar da amizade que nos uniu por mais de 40 anos, só fiquei sabendo da data de nascimento da escritora em 2001, quando ela me confessou numa das nossas conversas, que estava já muito velha e ansiosa para conhecer “o outro lado”…Vaidosa como a maioria das mulheres,  por muitos anos ela me fez segredo da sua idade. Fiquei surpreso ao saber que nascera, em 1915, no mesmo ano do grande escritor Ascendino Leite.

Eu sabia, sim, do dia do seu nascimento, 7 de outubro, como todas as demais pessoas que leram o seu livro de estréia, “Saudades tem Nome é Menina”… Nunca tive a curiosidade de saber a idade das mulheres, pois sempre tive em mente as palavras do mestre Cascudo, um expert nesse assunto. Lembro-me assim que ele costumava dizer que a mulher só envelhece do umbigo para cima e que por isso tem a idade que diz que tem… Ora, se o expediente não é verdadeiro é pelo menos elegante e bem arranjado. 

Uma amiga que tive, a grande escritora argentina Luisa Mercedes Levinson - que, como se sabe, foi namorada e colaboradora de Jorge Luis Borges – sempre me disse que nascera em 1914; ao morrer, teria então 74 anos. Qual não foi a minha surpresa, ao ler os jornais do seu pais, na ocasião do seu falecimento – quando o seu nome era cogitado para o Prêmio Nobel de Literatura por instituições culturais francesas –, que ela já estava beirando os 80 (alguns jornais davam-lhe uns dez anos a mais, ou seja, alguma coisa aí por volta dos 90…).

Exceção da ministra Dilma Rousseff e de uma politica muito manjada entre nós, nunca duvidei das mulheres. Pensei então que eu é que estivesse equivocado e que tivesse ocorrido com dona Maria Eugenia o mesmo que ocorrera alguns anos antes com Luisa Mercedes, que me fez acreditar que tivesse uns vinte anos a menos. E não lhe tiro a razão: era tão mais jovem do que muitos outros jovens que conhecemos, motivo pelo qual Borges costumava dizer, ao deparar-se com jovens em franco exercício da jovialidade, que “lá vai um grupo de jovens disfarçados de Lisa Mercedes”..

A confusão se deu por causa da negligencia da Academia,que postergou por três anos a realização de um rito que geralmente ocorre 30 dias depois da morte de um de seus membros. Assim, diante do lapso de tempo decorrido desde a morte da escritora mineiro-potiguar até esta comemoração funerária do dia  6, pensava que tal solenidade já tivesse se realizado e sua vaga ocupada. Confesso que em alguns momentos cheguei a alimentar a curiosidade de saber quem estava ocupando a sua vaga, mas, por tratar-se da Academia, foi deixando para depois, como ela fez em relação á leitura do necrológio de Maria Eugenia… Creio que a Academia, aqui, foi negligente:  a vaga, criada com o falecimento da escritora em 2006, continua aberta e sem ocupante…

Este o esclarecimento que precisava fazer. Aos leitores que me alertaram sobre o meu equivoco, agradeço e peço desculpas a todos. Estou ficando velho e, como tal, como ocorre a muitos velhos, também estou ficando um tanto esquecido…

Homenagem a Maria Eugênia [4-7]

domingo, 4 de outubro de 2009

 

NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [Parte 1-2]

 

Por Franklin Jorge

 

Durante mais de 30 anos um grupo de velhos amigos se reúne todas as noites diante do número 19 de um casarão sesquicentenário, localizado à Praça Getúlio Vargas, na cidade do Açu, para exercitar o superior hábito do bate-papo.

 

Decorado com azulejos portugueses remanescentes de um passado que se dilui sem qualquer registro histórico, o casarão serve de residência a Maria Eugênia Maceira Montenegro – Dona Gena – e Nelson Borges Montenegro; ela, escritora e folclorista, nascida em Minas Gerais em 1915; ele, norte-rio-grandense, engenheiro agrônomo formado em Lavras, proprietário rural no Vale do Açu e chefe político com passagens pela Prefeitura de Ipanguaçu e Assembléia Legislativa do Estado.

 

São os dois os principais animadores culturais deste salão literário que, além de seus fiéis – constituídos de açuenses tradicionais ou honoríficos –, acolhe com freqüência visitantes e curiosos que se deixam seduzir pela prosa viva e espirituosa que flui entre risos e lembranças de um Tempo perdido e reencontrado.

 

Na calçada o riso castiga os costumes, contribuindo ainda para a preservação de um hábito social caro aos sertanejos – o da conversa noturna, relaxadora, gratificante, após uma jornada de trabalho. O poeta espanhol Vicente Aleixandre, Prêmio Nobel de Literatura (1977), pensaria numa sociedade assim quando escreveu que “conocer es reir” (in “Poemas de la Consumación”).

 

Renato Caldas, autor de chistes e epigramas que o povo admirado repete e transforma, popularizando sua verve, integrou por muitos anos esse grupo, desde que o mesmo foi se delineando de forma espontânea e regular em torno dos anfitriões, há quatro décadas.

 

Durante anos seguidos, entre as 19 e 22 horas, Renato contribuiu  para maior glória da crônica da calçada, glosando em versos histriônicos, sotádicos, maliciosos, e líricos, a pulsante realidade da província e do mundo. Essa rotina somente foi abalada quando a doença, afinal, triunfou, aprisionando o poeta na casa dos 80 anos, uma cifra que ele, eterno blaguer, definiu numa de nossas conversas, em sua casa, na Praça Pedro Velho, como “uma doença incurável e mortífera”.

 

Desafiado por um mote de Dona Gena (“No mar da tranqüilidade/Desceram tranqüilamente”), Renato improvisou sobre a conquista da lua:

 

 

                          Pra glória da humanidade,

                          Três astronautas voaram

                          E heroicamente pousaram

                          No Mar da Tranqüilidade.

                          Abriu-se o véu da verdade:

                          O Universo consciente,

                          Curvando-se, reverente,

                          Aos heróis, que, deslumbrados,

                          No Mar da Tranqüilidade

                          Desceram tranqüilamente.

 

 

Embora muitos açuenses continuem duvidando que astronautas norte-americanos desceram na lua, tudo não passando segundo eles de “balela para vender jornais”, o assunto apaixonou a opinião pública. Cidade orgulhosa de um passado cultural ímpar, o Açu rivalizou em muitas ocasiões com a própria capital do Estado. Possuiu teatros e jornais que circularam em grande número desde o século passado.

 

Em 1969, ainda sem aparelhos de televisão, o Açu acompanhou apaixonadamente, em meio a discussões e torneios de glosas, o noticiário da conquista da lua pelo rádio, único veículo de informação imediata a que tinha acesso através da cidade de Mossoró. A primeira emissora local somente seria instalada quase vinte anos depois.

 

A euforia, resultante do feito americano, contaminou sobretudo as camadas mais informadas da população, servindo de estímulo a visitas inesperadas e troca de informações. “Seria possível ao homem, mesmo americano, descer na lua ou tudo não teria passado de fotomontagem? Americano é fogo!” – era o comentário dos incrédulos. Os simpatizantes dos soviéticos, existentes em pequeno e aguerrido número no Açu, a “cidade vermelha” que ostentava ainda em seus muros palavras de ordem marxistas, rebatiam: — “Agora  vamos ver o que os russos farão!”

Povo curioso e sociável, sequioso de informações acerca de tudo na vida, o açuense detinha desconhecidos na rua, para colher detalhes sobre os astronautas que haviam descido na lua. A espantosa aventura de repente inseria a todos no futuro.

 

Os bares, habitualmente freqüentados por uma clientela cativa que lhes confere uma aparência de clube popular desprovido de estatutos e formalidades, se desdobravam para atender à clientela flutuante, incitada pelo desejo de confraternização. O reboliço provocado pelo feito foi generalizado e quebrou a rotina. Lembro-me que meus colegas de escola, em geral indiferentes aos acontecimentos do dia-a-dia, exceção daqueles de inclinações “esquerdizantes”, passaram a discutir com entusiasmo juvenil detalhes da operação.

 

Apolo, deus das estradas e da luz, batizou a nave espacial e conduziu o estro de Renato que, possuído de uma verve inesgotável, criava variações sobre o tema, nem sempre tendo o cuidado de anotar as sucessivas versões. Esta décima de sua autoria, recolhida por Doutor Nelson, foi improvisada na calçada de sua casa:

 

 

                            Abrindo as asas da glória,

                            Na amplidão ilimitada,

                            A “Apolo” deixou gravada

                            O grande feito da história.

                            Nessa imensa trajetória

                            Pelo azul da imensidade

                            O que foi feito, em verdade,

                            Jamais os tempos consomem:

                            Pequeno passo do homem

                            E grande da humanidade.

Homenagem a Maria Eugênia [3-7]

sábado, 3 de outubro de 2009

 A BIBLIOTECA DE DONA GENA

 

Por Franklin Jorge

 

 

Mais que a escola, educaram-me as bibliotecas. Amando os livros com o mesmo amor tátil que alguns homens devotam ao cigarro, ocorre-me destacar aqui, especialmente, a biblioteca de Dona Gena, Maria Eugênia Maceira Montenegro (Lavras, MG,1915/2006), que freqüentei entre catorze e dezessete anos, enquanto meus amigos da mesma idade brincavam e, à maneira deles, se divertiam.

 

Como Borges – que exaltou a biblioteca paterna –, creio não ter lido em vão aqueles queridos volumes, transcendentes estrelas e astros simetricamente dispostos no céu profundo e claro de um bonito e aristocrático solar da praça Getúlio Vargas, 19.

 

Estava escrito, em alguma página do enigmático livro da vida que nessa biblioteca sonhada por Dona Gena algum dia um jovem curioso e tímido, querendo saber o que outros ignoravam, entreteceria de leitura sua adolescência inquieta.

 

Nessa biblioteca cosmopolita que prefigurava o paraíso na terra, senti a radiação mental de autores invulneráveis como deuses e li, pela primeira vez, Gide e Clarice, Nietzsche e João Lins Caldas, Pessoa e Cornélio Penna, Tagore e Rachel de Queiroz, Virgínia Woolf e Nelson Rodrigues, Camus e Gilberto Freyre, Washington Irving e Murilo Mendes, Schopenhauer e José Geraldo Vieira, além da obra poética de Bandeira, Cecília , Henriqueta, Jorge de Lima, Drummond e Cassiano Ricardo, que logo depois orientaria  minhas primeiras tentativas poéticas.

 

E, pairando sobre esses autores e, confundindo-se com a multiplicação espectral da realidade que os livros proporcionam, a presença de uma amiga atenciosa com quem podia conversar sobre essas leituras que se acrescentavam a tudo que eu já lera, levado pelo instinto do que busca baudelaireanamente o seu semelhante, ou, ainda, esclarecido pela experiência de minha avó materna, uma mulher culta e nervosa que sabia escrever e conversar com fluência e espírito.

 

Imbuído do sentimento de gratidão devido ao inefável licor vertido por esses livros e pelas palavras de Dona Gena sobre o meu espírito, escreveria, anos depois, ‘’Paraísos de Papel’’, numa superação da impotência, da humilhação e da angústia, ao tempo em que vivia em Rondônia, um lugar que os cabalistas afirmam ser um dos ‘’portais’’ do inferno, ou segundo outros, uma terra de expiação e desdita.

 

Ali, sozinho e injustificado, atormentado pelo desejo de criar uma obra, comecei a escrever “Paraísos de Papel”, mergulhado na paz da Biblioteca Pública Francisco Meireles, da qual tornei-me um desfrutador constante e notado por todos. Algumas vezes, fazia-me transportar pela memória involuntária à minha adolescência no Açu e a uma outra biblioteca, forjada por Dona Gena, como uma pousada para o prazer e a perdição de alguém que desde cedo sabia que o seu verdadeiro destino seria a literatura.

 

E, por sabê-lo, muito antes que uma cigana de passagem pelo Sítio Estevão o dissesse, ao interpretar as linhas da minha mão, dispus-me a criar o meu próprio cânone, no âmbito sereno de uma ordem, não obstante ignorasse ainda que Jung havia incluído a leitura na mesma categoria dos sonhos e, talvez, dos pesadelos.

 

Por alguns segundos que todavia me pareciam eternos, eu voltava a ouvir Dona Gena discorrendo sobre suas leituras ou convocando suas lembranças de João Lins Caldas, poeta numeroso e único que antes de mim freqüentara sua biblioteca, privando por muitos anos da sua amável companhia e tornando-se, nessa longa convivência enriquecida pela admiração recíproca, o seu próprio mestre.

 

Algumas vezes, como prêmio laboriosamente conquistado, Dona Gena extraía de uma pasta um ou outro manuscrito do seu infortunado mestre e amigo e o lia em voz alta, dramatizando certos versos, tal como os ouvira há muito tempo da boca de Caldas, a quem reverenciávamos como a um altíssimo poeta.

 

Eu a ouvia, encantado, tendo entre nós sua mesa de trabalho ornada com dois grifos de bronze que sustentavam exemplares do Moraes e do Caldas Aulete, ambos herdados do seu pai, o engenheiro português Bernardino Maceira, de quem terá herdado mais que esses dicionários o gosto pela arte. Interrompendo-se em alguns trechos, para lembrar que Caldas chorara ao dizer-lhe este ou aquele verso, em seguida Dona Gena prosseguia a leitura, imprimindo à voz toda a emoção que o poeta comunicara através inflexões embargadas pelo sentimento.

 

Siderado pela diabólica palpitação daquelas vozes silenciosas, aprisionadas nos livros de uma biblioteca, vivi e morri de paixão com Tonio Kroger, Hamlet e Raskolnikov, para que no futuro tivesse motivos para refletir e escrever sobre a espécie de felicidade que resulta da usufruição da amizade e dos livros.

 

De súbito, chamado à realidade pela bibliotecária que, como uma divindade infernal anunciava o fim expediente, eis-me novamente caminhando com o meu obscuro destino pelas ruas de Porto Velho, ou de Milão, ou do Rio, ou de Buenos Aires, ou de Estocolmo, ou de Natal, pensando, sem escrever uma linha, na miserável contingência a que chamamos de condição humana.

 

Como pouco ou quase nada sabemos de nós mesmos, Dona Gena, sem o saber, cumprira fielmente o princípio básico que norteia a verdadeira e autêntica atividade intelectual – expresso na desinteressada transmissão do conhecimento.

 

À sombra benigna dessa e de outras bibliotecas que perlustrei e incorporei ao que sou e tenho sido ao longo desses fatigados cinqüenta anos, algumas vezes terei intuído que, como um dom gratuito atribuído por algumas potência celeste, recebi e perdi uma coisa infinita?    

 

[1990/2006]

Homenagem a Maria Eugênia [2-7]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

RUA FLORIANO PEIXOTO 354

Por Franklin Jorge

 

 

Dona Gena atravessa o crepúsculo com dignidade e estoicismo, dedicada a observar o espetáculo da vida cotidiana.

 

Espírito lúcido e atilado, Maria Eugênia Maceira Montenegro, Dona Gena, para os queridos, vibra com a literatura, que considera a melhor terapia para a alma; uma forma de lenimento das horas ruins e dos anos tortuosos; um ofício, enfim, que deixa a sensibilidade alerta e serve de consolo nos desenganos.

 

Nascida em um dia 7 de outubro, há oitenta e oitos anos, ela acredita que a imaginação fertiliza o deserto e aconselha que o escritor escreva, bem ou mal, vulgar ou genialmente, como disse Ramón Nieto. Mas escreva. Sem descanso, e sempre. Escrever é entregar-se a uma longa paciência. Esta, a lição que nos oferece, haurida da sua experiência.

 

Conversamos no terraço da casa do seu cunhado, em Petrópolis, onde se encontra, descansando, em sua passagem por Natal. Dona Gena exprime a serenidade de quem viveu em plenitude cada momento da sua vida. Uma vida em claro, generosa, aberta às percepções.

 

Conhecia-a, ainda menino, em seu bonito solar da Praça Getúlio Vargas 19, no Açu, cidade que a acolheu em dezembro de 1938. adolescente, freqüentei assiduamente sua biblioteca, formada pelo que havia de melhor em autores e obras. Cecília Meireles (sua predileta), Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Machado de Assis, Cornélio Penna, Drummond, José Geraldo Vieira, Gilberto Freyre, Thomas Mann, André Gide, Henry James, Huxley, Oscar Wilde, Verlaine, Montale, Gogol, Dostoievski… Um verdadeiro festim para o espírito.

 

Dela ganhei todo o Shakespeare, magnificamente ilustrado por John Gilbert, uma raridade que ela me destinou em testamento. Quando soube que me colocara entre os seus herdeiros, disse-lhe francamente que preferia não ter sabido disto, porque certamente, por mais que a quisesse, não poderia responder pelo meu desejo de ter minhas mãos, o mais rapidamente, aquela preciosa coleção. E acrescentei que ela me colocara um problema moral, algo que certamente me pesaria na consciencia, pois a partir daquele instante eu ficaria ansiosamente á espera do afortunado dia em que teria entre as mãos, como uma posse definitiva, toda obra de Shakespeare que ela me prodigava… Dona Gena achou graça e antecipou a entrega dos 24 volumes…

 

Mineira, nasceu na antiga cidade de Lavras do Funil, filha de português e de brasileira. Aqui, tem vivido com a graça de Deus, criando e fazendo o bem. Notável como prefeita de Ipanguaçu, onde criou biblioteca e teatro, pertence à Academia Norte-rio-grandense de Letras. Recentemente [por iniciativa do deputado Valério Mesquita], foi distinguida com o título honorífico de “Cidadã Norte-rio-grandense”, recebido em sessão solene na Assembléia Legislativa.

 

Dona de uma conversa agradável e instrutiva, retorna sempre à sua lembrança o sagrado nome do poeta João Lins Caldas, a quem reconhece como o seu mestre, após terem se conhecido, há mais de sessenta anos, na Fazenda Picada. Caldas era um prodigioso ser nietzscheano. Alguém que escreveu versos viscerais e aprendeu que sangue é espírito.

 

O poeta tinha parentesco com o seu marido. E costumava passar dias na Fazenda Picada, ruminando poemas, quando não lendo-os para a bela e jovem amiga. Caldas também gostava de caçar nas matas ralas da Picada. E, munido de embornal e espingarda, concedia-se o aposto de “Capitão Caldas”, lembra a amiga nessa conversa enobrecida pelo ouro do crepusculo.

 

Para Maria Eugênia, cujo nome significa “a bem nascida”, a vida adquire sentido através do prazer das relações humanas e da satisfação da beleza que a arte proporciona. Sem arte, a vida torna-se opaca e sem nenhum sentido. Eis a lição que deixa para os que lêem estas fracas linhas.

 

 

[2001]

O CENTENÁRIO DE NILO PEREIRA

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por Woden Madruga

Tribuna do Norte, Natal 01 de Outubro de 2009

 

Nilo Pereira, nascido em Ceará-Mirim, faria 100 anos no dia 19 de dezembro. Jornalista, escritor, professor de ensino superior, um intelectual perfeito, completo. Conferencista, fazia a delícia das plateias, auditórios lotados para ouvi-lo. Causeur sem igual. Viveu maior parte de sua vida no Recife onde, além de suas atividades intelectuais, múltiplas, foi também deputado estadual. Mas nunca esqueceu a terra onde nasceu. Poucos amaram tanto sua aldeia quanto Nilo amou Ceará-Mirim. Escreveu ele no prefácio da terceira edição de seu livro Imagens do Ceará-Mirim: “Sempre hei de voltar a Ceará-Mirim, para dizer à entrada da cidade, embora sem mais a companhia de Edgar Barbosa: Esta é a ditosa pátria minha amada.

Esta era a nossa saudação camoniana, que aqui repito, comovido, como se ele estivesse comigo, na hora litúrgica de rever o cenário encantado”.

Domingo passado Sanderson Negreiros, que assina as orelhas de Imagens do Ceará-Mirim e que também nasceu no verde vale, escreveu em seus Quadrantes, de Tribuna do Norte, sobre o centenário de Nilo dando conta de que a data começa a ser comemorada por instituições culturais de Pernambuco, ao mesmo tempo que chamava a atenção da gente daqui, mormente de sua terra, para que a data não desapareça na vala do esquecimento.

Será que o prefeito de lá tem acesso à leitura dos jornais? Bom, de Ceará-Mirim, se sabe que o Engenho Guaporé, onde Nilo Pereira foi criado (ele nasceu no Engenho Verde Nasce) e transformado em Museu Nilo Pereira, está fechado há vários anos, o prédio em processo de deterioração. O museu pertence à Fundação José Augusto, do governo do Estado.

Em Pernambuco (li na coluna de José de Souza Alencar, Alex, do Jornal do Commercio de Recife, de sábado, 26)  a Secretaria de Educação do Estado, o Conselho Estadual de Cultura, a Academia Pernambucana de Letras e a Universidade Federal de Pernambuco “irão realizar grande homenagem comemorando o centenário do professor Nilo Pereira”. A homenagem aconteceu segunda-feira, 28, na sede da Academia Pernambucana de Letras.

A nota de Alex acrescenta ainda que Helicarla Nely, aluna de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, faria uma conferência sobre o livro Imagens do Ceará-Mirim, tema de sua tese de mestrado.

Aqui por estas ribeiras esquecidas não se tem notícia de nada. Nem da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, da qual fazia parte Nilo, nem do Conselho Estadual de Cultura, presidida pelo poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, que tem raízes fincadas no mesmo chão de massapê de Ceará-Mirim.

Aliás, a Academia esqueceu os centenários de outros dois grandes nomes de nossa cultura, ambos de seus quadros: os escritores Manoel Rodrigues de Melo e Raimundo Nonato da Silva.