O FIM DO JORNAL DO BRASIL IMPRESSO
quinta-feira, 2 de setembro de 2010Por Roberto Guedes
O encerramento nesta terça-feira, 31, ontem, da circulação impressa do “Jornal do Brasil”, interrompendo um ciclo de 119 anos, força-me a revisitar um ótimo relacionamento que mantive com o periódico. Além da condição de leitor, mantida até recentemente, tive profissionalmente dois instantes de relacionamento com o periódico e sua editora, e antes, muito antes, uma ligação de certa forma afetiva.
Fui o primeiro correspondente que o “Jornal do Brasil” nomeou para o Rio Grande do Norte alguns anos depois do golpe militar de 1.964 e mais perto ainda do ato institucional número 5, golpe dentro do golpe, provocado pela doença nunca devidamente explicada que afastou da presidência da república o marechal Arthur da Costa e Silva, num 30 de agosto, e ensejou a auto-nomeação de uma junta militar para exercer o poder em seu nome. Cheguei ao cargo poucos anos depois de ter-me iniciado no jornalismo, com passagem pela redação do “Correio do Povo” e presença então no vespertino “Diário de Natal”.
Para mim, até então, “Jornal do Brasil” era o jornal onde havia brilhado Kalazans Fernandes e ainda pontificava, no Brasil e no exterior, o macaibense Jaime Dantas, e onde havia trabalhado um irmão meu e onde eu lia algumas das melhores notícias sobre a política brasileira.
Um dia, ainda trabalhando no “Diário de Natal”, minha segunda redação, fui convidado para assumir o papel de correspondente do “Diário de Pernambuco” no Rio Grande do Norte, e logo em seguida as ligações entre colegas baseados em Recife fizeram com que a sucursal da revista “Veja” no Nordeste também me oferecesse a missão de produzir aqui reportagens para serem aproveitadas pela redação em São Paulo. O termo “aproveitadas” vem a propósito, porque, diferentemente de hoje, repórteres e correspondentes não assinavam reportagens e muito menos faziam algo parecido com texto final. Mandávamos sete, oito, às vezes vinte páginas sobre um assunto, um editor definia o espaço que o tema ocuparia na revista e sucessivamente colegas bem situados na pirâmide da redação faziam um primeiro, outro e mais outro texto em laudas de 33 toques, com grande faixa em branco à direita, para que o diretor Mino Carta praticamente reescrevesse tudo à mão a título de última copidescagem. Outras vezes, textos de vários autores, sobre um mesmo tema, eram fundidos na forma de “copião” e enfrentavam nos estágios subseqüentes, e na medida em que subiam rumo ao topo da pirâmide redacional, a mesma filtragem dos outros. No fim, quando o texto publicado de uma reportagem aproveitava uma frase da gente, era uma vitória pessoal enorme. Na maioria das vezes, porém, o que mandávamos nem era aproveitado por um processo editorial altamente inovador.
Também seriam pouco aproveitadas pelo “Jornal do Brasil”, no início de meu relacionamento profissional com o periódico, as matérias que lhe enviava. Minha compensação residia no “Diário de Natal”, onde todo o meu trabalho era aproveitado integralmente, e no “Diário de Pernambuco”, onde diariamente assinava de duas a quatro reportagens procedentes do Rio Grande do Norte.
Foi a atuação no jornal pernambucano e na “Veja” que levou o “Jornal do Brasil” a me transformar em seu correspondente. Até então, além de algumas referências profissionais, o jornal era citado em minha família pelo fato de seu mais conhecido proprietário, o Conde Pereira Carneiro, ser dono da maior frota privada nacional, a Companhia Comércio e Navegação, e nesta condição ter sido hóspede de um hotel que meu avô materno, José Augusto da Costa, possuíra em Macau, a capital salineira do Rio Grande do Norte.
O vínculo como correspondente me proporcionaria um aprendizado maravilhoso em termos profissionais e pessoais. Neste campo, fui beneficiado pelo fato de o diretor da sucursal do JB em Recife ser um psicólogo, Bernardo Ludermir, que me adotou como pupilo e muito provavelmente paciente informal.
A turma da redação da sucursal era muito avançada para a experiência que eu havia acumulado em pouco mais de três anos de atividade profissional em Natal, onde me havia iniciado aos quinze anos de idade. Exigentíssimos, os colegas da sucursal me ajudaram muito a assimilar as técnicas mais modernas do jornalismo de então, que tinham sido introduzidas no país exatamente pela antológica reforma que Jânio de Freitas havia promovido no “JB” com a cessão involuntária dos créditos a outro colega que ainda hoje haure a fama de modernização do periódico.
Bernardo em Recife e o chefe dos correspondentes do “JB”, jornalista Amaury Mattos, no Rio de Janeiro, assim como o diretor de redação, Carlos Lemos, e o veterano jornalista e diplomata Sette Câmara, o “Embaixador”, como o chamávamos todos os integrantes da redação, sucursais e redes de correspondentes, tinham o hábito de regularmente emitir mensagens de conteúdo didático sobre o que a editora do jornal esperava de todos e cada um de seus repórteres, correspondentes e colunistas.
Trabalhando ainda no “Diário de Natal” e como correspondente de “Veja”, do “JB” e do “Diário de Pernambuco”, transformei-me em verdadeira agência noticiosa ambulante. Lembro-me de que num período, um dos principais personagens das conversas entre jornalistas natalenses era o “Foguete Branco”, um automóvel Ford Corcel que eu usava. Mais parecia onipresente. Onde chegava uma equipe de reportagem, lá estava desde antes meu Corcel, tal a agilidade com que eu procurava acompanhar tudo o que acontecia no Rio Grande do Norte. O veículo que mais me mobilizava era o “JB”, uma referência fantástica para um jornalista provinciano que nem havia chegado aos vinte anos.
Aprendí no atacado e no varejo. Tudo era notícia para o “Jornal do Brasil”, dito assim para que produzíssemos. Ao mesmo tempo, pouca coisa era notícia para o periódico, como explicação para o fato de ele não aproveitar quase nada do que enviávamos. A produção era um sacrifício enorme.
Quem desfruta hoje das maravilhas do mundo “on line” não faz idéia do que era reportar o dia a dia do Rio Grande do Norte quando o máximo de tecnologia da informação ao alcance da província eram os telegramas da estatal Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Para mensagens mais urgentes, usávamos o muito mais caro serviço avançado dos telegramas da britânica Great Western, em cuja agência, na Ribeira, passei a lidar cotidianamente com uma das melhores figuras humanas nascidas nesta unidade federativa, o saudoso Francisco Sinedino de Oliveira, gerente da filial potiguar.
Nessa época, o telex ainda não havia chegado ao Rio Grande do Norte. A máquina me impressionava nas redações de Recife e fiquei maravilhado quando um repórter esportivo escalado pelo JB para cobrir a Mini Copa de Futebol de 1.972 trouxe um aparelho que conectamos num apartamento do hotel Samburá (Este evento me impressionou também porque o fotógrafo mobilizado na cobertura da Copa trouxe para Natal uma máquina que transmitia as fotos na hora para a redação do JB).
Em relação ao telex, aliás, tive uma relação que copiou grosseiramente uma passagem bíblica. Nas viagens a Recife, Rio e São Paulo, aprendi a lidar com o telex. O JB, aliás, queria que eu aprendesse logo, porque fazia parte de seus planos dotar cada correspondente de um desses equipamentos, e em sua casa, não em escritórios, para que o contato fosse mais imediato, da mesma forma como esta adquirindo raríssimas linhas telefônicas para a mesma finalidade. Presença diária no setor de telegrafia da agência dos Correios, soube que a estatal preparava para breve a instalação de um terminal de telex em Natal, e quando o equipamento chegou perceberam que os telegrafistas não tinham sido preparados previamente para operá-la.
O ministro das Comunicações veio a Natal, para inaugurar o telex, e deveria fazê-lo enviando mensagem para outra autoridade em Brasília. Na falta de operador de telex na ocasião, quem digitou e transmitiu a mensagem ministerial fui eu. Infelizmente, quando deixei Natal e o posto avançado, o JB ainda não havia conseguido instalar os dois equipamentos. Soube anos depois que o telex impressionava tanto quem o conhecia que amigos iam à casa do meu sucessor na função apenas para ver seu barulhento funcionamento. Uma empregada doméstica que se instalou na casa dele à tarde assombrou-se quando passava perto da máquina e esta começou a receber uma mensagem procedente do Rio de Janeiro. Foi imenso o trabalho que tiveram para acalmá-la e provar-lhe que não havia nenhuma assombração na casa.
Para o “Diário de Pernambuco” e para a “Veja” eu enviava os textos em papel, através de veículos específicos. O periódico recifense enviava todo dia uma caminhonete a Natal para trazer os muitos jornais que eram vendidos aqui, e eu deveria aproveitá-la entregando um envelope com textos e ilustrações ao motorista. Para a “Veja”, os textos eram enviados em malotes ou entregues a passageiros que eu tinha de localizar no terminal de embarque do aeroporto “Augusto Severo” logo no início da manhã, quando decolavam os dois únicos vôos com que diariamente a Varig e a Vasp ligavam Natal ao centro-sul do país. O “JB” exigia muito mais: tinha que telegrafar e telefonar muito.
O pior do procedimento eram os telefonemas. Toda tarde, aí por volta das 16 horas, eu tinha que interromper tudo o que estivesse fazendo para me apresentar à central de interurbanos da Telern, a empresa estatal de telefonia, a princípio na avenida Rio Branco, com frente para a rua Apodi, e adiante no meio do quarteirão da Prudente de Morais limitado pelas ruas Açu e Apodi, em Tirol, a fim de apresentar oralmente a algum Cristo situado na redação do JB, na avenida Rio Branco, em pleno centro velho do Rio de Janeiro, as notícias mais quentes do dia no Rio Grande do Norte.
Esta sina me fazia encontrar diariamente na Telern o colega Arlindo de Melo Freire, senhor de muitíssima experiência e fortes ligações com movimentos sociais que dava banho de cobertura como correspondente do “O Estado de São Paulo”. Chegávamos à mesma hora, conversávamos muito enquanto esperávamos a ordem para entrar nas cabines e ler nossos textos para os ouvidos do Rio e de São Paulo, e então enviávamos nossas matérias.
Diferentemente do que se vê hoje, a despeito de todo o colóquio que nos unia, não compartilhávamos informações. Era crucial para cada um de nós o “furo” ou um detalhe que faria a diferença na apresentação de determinada notícia aos olhos dos nossos editores. Às vezes eu imaginava que sabia tudo o que Arlindo tinha a respeito de algum tema, mas não ousava consultá-lo sobre nada.
A ética também o impedia de me assuntar sobre o que lhe interessava. Tínhamos que matar mesmo um leão por dia, e eu me maravilhava ao acompanhar o trabalho de Melo Freire. Todo dia o “Estadão” publicava boa parte do que ele enviava. Nós conferíamos isto quando, em algum dia incerto da semana, chegavam a ele e a mim pacotes de edições pretéritas dos nossos jornais. O “JB”, pelo contrário, queria absorver tudo, manter-se bem informado sobre o Rio Grande do Norte às custas do meu trabalho, bem remunerado, na época, para os padrões natalenses, diga-se de passagem. Publicar, porém, era outra coisa.
O vínculo com o JB me forçava a todo mês ir a Recife, quando aproveitava para também irrigar o relacionamento com o pessoal da “Veja”, com o “Diário de Pernambuco”, onde aprendi a gostar de editores que hoje comandam os Diários Associados no Nordeste. Joezil Barros, o superintendente regional, era o chefe dos correspondentes que o jornal mantinha em todos os estados do Nordeste. Gladstone Vieira, magérrimo, sempre muito grato ao legendário arcebispo Hélder Câmara pelo estímulo que deu à sua carreira num episódio histórico, saíam da redação do jornal, à noite, para me acompanharem no jantar no restaurante da Associação de Imprensa de Pernambuco. Essas viagens me eram muito didáticas.
Um dia, fui mais longe. Convocado, participei do primeiro encontro de correspondentes do JB, quando fiz minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, e, numa plenária, mostrei que às vezes me frustrava o fato de enviar tantas informações e depois verificar que o periódico não as publicava. Explicação de Sette Câmara: “O Estado de São Paulo”, que se pretendia jornal nacional e dispunha de muito mais espaço, encorpando suas edições com um peso físico enorme, publicava tudo. O “Jornal do Brasil”, entretanto, era o “Jornal de Referência Nacional”. Não dava todas as notícias, mas sabia de tudo o que acontecia e, quando divulgava um assunto, mostrava que este, sim, constituía fato de interesse real para o cidadão brasileiro, ou melhor, o cidadão carioca, para quem se voltava precipuamente o jornal.
Esta viagem foi ótima, porque me mostrou a beleza que era a velha sede do JB, propiciou-me contatos com todas as editorias do jornal, inclusive com o apaixonante “Caderno B”, e me ensinou a sistematizar bem o trabalho. Foi então que comecei a constituir um primeiro arquivo, que depois aprimoraria residindo em São Paulo, graças a ensinamentos que me transmitiu um dos melhores jornalistas que o Brasil já conheceu, Aloysio Biondi.
O “Departamento de Pesquisa” que a reforma de Jânio de Freitas apensou ao JB era fantástico. Até então eu sabia que ao começar a trabalhar um tema ou fato o repórter podia ser o maior analfabeto sobre aquilo. Na hora de escrever, de reportar, porém, tinha a obrigação de se ter transformado na maior autoridade em todos os sentidos sobre o tema ou fato. Dispondo de uma base de pesquisa, vencer o “analfabetismo” passava a ser uma tarefa objetivamente melhor conduzida. O repórter não começaria do zero absoluto, ficando a mercê de terceiros.
Constituiria sua própria base inicial de informações com o material obtido em seu centro de pesquisas. Daí em diante, nunca deixei de tentar conservar comigo documentos sobre tudo para ter de onde começar a focalizar qualquer tema sem estar nas mãos de fontes sujeitas às ancestrais falhas humanas. Este empenho fez com que um dia passasse a pagar a duas pessoas para diariamente recortar, colar e arquivar em pastas centenas de notícias que eu marcava nos jornais e revistas que tinham a sina de ser esquartejadas em minhas mãos. Certa vez, no início dos anos 2.000, alguém notou que meu arquivo se tinha tornado fisicamente muito maior do que o modelar departamento de pesquisa do JB.
Numa das viagens que o jornal me patrocinou, conheci a babilônia de concreto que estava sendo ultimada na avenida Brasil para abrigar o grande JB. Viria a ser o algoz do jornal. Os custos dos financiamentos que a família Pereira Carneiro assumiu para viabilizar a sede nova terminariam levando a editora à bancarrota em que chafurdou através das mais humilhantes experiências empresariais até ver o JB sumir fisicamente com a esperança de se esticar um pouco mais através da edição virtual.
Muito diferente do galpão em que o “Diário de Natal” se instalou na avenida Deodoro, ao se transferir da ladeira da Rio Branco, na Ribeira, a babilônia do JB era um prédio fantástico, o primeiro que conheci projetado especificamente para sediar um grande jornal. Ninguém imaginava que o prédio fosse algoz e cemitério de jornal. O fato de tê-lo conhecido antes de sua ocupação me ajudou a transmitir aos planejadores da mudança a partir do centro velho do Rio de Janeiro algumas dicas ensejadas pela minha velha dedicação ao estudo amadorístico de arquitetura e ocupação espacial, principalmente a sugestão no sentido de evitar paredes, de concreto, alvenaria, madeira ou vidro, que compartimentassem fisicamente o que deveriam ser grandes vãos de redações. Barulhentas, redações não deveriam ter pedaços estanques, preservando uma comunicação que ajuda à fluência de informações e análises.
O JB não exigia exclusividade, mas queria que o correspondente tivesse plena consciência da importância do que ele representava onde estivesse. O correspondente tinha que ser intimorato e eqüidistante, ver longe e não ceder diante de assédios promovidos por grupos econômicos ou políticos. Esta consciência me levou, em plena campanha eleitoral de 1.970, a enfrentar uma situação interessantíssima.
Governador eleito pelo processo indireto e responsável pela tentativa de levar seu partido, a Arena, à vitória nas eleições para casas congressuais, o professor Cortez Pereira liderava na Cidade da Esperança um comício em que pedras foram endereçadas ao palanque. Todos os jornalistas baseados em Natal souberam da ocorrência, mas ninguém a noticiou. Enviei um relato para o JB, que o aproveitou com destaque, passando a explorar o assunto durante semanas.
O cartunista Henrique Figueiredo Filho, o Henfil, utilizou o episódio durante várias edições do jornal. Numa dessas ocasiões, a primeira, provavelmente, em que se prendeu ao fato, criou uma charge maravilhosa, formada por uma sucessão de desenhos. O primeiro mostrava o palanque e o povo; o segundo focalizava, no meio do povo, um personagem com uma pedra na mão e a frase dizendo que o apedrejamento teria que ser indireto. No terceiro desenho, o personagem jogava a pedra num ponto do chão situado entre ele e o palanque, de sorte que ela subiria em direção aos oradores palanqueiros. Numa época de censura à imprensa, era a crítica ao fato de os governadores estaduais serem escolhidos pelo processo indireto, e não através do voto livre e universal dos cidadãos.
A exemplo do JB, a “Veja” também se abriu muito receptivamente ao episódio, que alcançaria repercussão internacional, talvez graças à força que exilados brasileiros faziam lá fora para que o mundo soubesse o quão era forte a ditadura em nosso país. Na medida em que esta repercussão aumentava, os militares de Brasília caíam de pau em cima de Cortez, querendo que a imagem da revolução apedrejada fosse desfeita, e os acólitos do governador eleito desciam o malho nos jornalistas que haviam projetado o apedrejamento, eu à frente.
Virei inimigo do cortezismo, com uma peculiaridade. Cortez Pereira, pessoalmente, assim como alguns de seus colaboradores mais próximos, entre os quais Antonio Florêncio de Queiroz e Osmundo Faria, assim como os deputados federais Djalma Marinho e Vingt Rosado, sabendo que eu não havia mentido, continuaram a ser meus amigos. Recebiam-me onde serviçais me excluíam. Um dia, veio a sagração do repórter indômito que sonhava vir a ser. Veio através do saudoso monsenhor Walfredo Gurgel.
Como correspondente de grandes editoras, eu era também anfitrião de seus enviados a Natal. Certa vez, dei apoio aqui a um filho de Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira Carneiro e controlador do “Jornal do Brasil”. Um dia, a revista “Realidade” mandou ao Rio Grande do Norte o repórter José Hamilton Ribeiro, recém-chegado da guerra do Vietnam, onde perdeu uma perna ao pisar numa mina, e o fotógrafo Jean Solari, para mostrarem ao país uma sucessão de crimes ocorrida em Caicó, e uma das missões que este trabalho me impôs foi conseguir que monsenhor Walfredo, caicoense e governador em fim de mandato, último eleito pelo povo, conversasse com os dois.
Levei-os ao Palácio Potengí, participei silenciosamente da conversa, que durou algumas horas, e ao término, já na porta de seu gabinete, monsenhor Walfredo se voltou para mim e perguntou sobre de onde eu tinha tirado aquela história sobre o apedrejamento de seu sucessor. Contei-lhe o que sabia e ele me confortou. “Tudo o que saiu é verdade, mas você foi suicida em termos de Natal ao divulgar isso”.
Um pouco antes encontro, a assíntota em que eu havia transformado a independência ensinada no “Jornal do Brasil” concorreu para que paralelamente perdesse meu vínculo com o “Diário de Natal”. Na época, dirigentes dos Diários Associados eram acusados de pagar mal nas respectivas empresas e encaminharem seus repórteres para jabaculês por fora. Luiz Maria Alves prezava muito o que comandava, e um dia começou a me reclamar contra o fato de, trabalhando para o “Diário de Natal”, ter vinculado meu nome e meus esforços a outros títulos.
Para mostrar como era precária minha situação na sua empresa, reclamou que tempos atrás, estando em São Paulo, quis ir conhecer a sede da Editora Abril e a redação de “Veja”, na avenida Marginal do Tietê, e havia sido barrado na portaria do prédio, sob a acusação de tentar promover espionagem industrial. A seu ver, minha presença na sede potiguar dos Diários Associados tinha a mesma característica. Ele minha como bisbilhoteiro das coisas do “Diário de Natal” em benefício do “Diário de Pernambuco”, considerado concorrente, do JB e da Editora Abril.
Para piorar, as outras empresas para as quais eu trabalhava respeitavam direitos dos funcionários e ele tinha passado dois anos usando minha colaboração sem assinar a carteira profissional, atitude que me levava a vez por outra reclamar. Infenso à espionagem industrial, Alves terminaria me ensinando a porta da saída do “Diário de Natal”, jornal de que muito gostava e onde procurava aprender não apenas as coisas da redação. Era-me gratificante ver como funcionavam a composição dos textos, o laboratório fotográfico, os vários setores da indústria de impressão “off set”, recém-chegada ao Rio Grande do Norte. Afastado do “Diário de Natal”, fiquei, então, apenas como correspondente dos três títulos, condição que mantive em relação ao JB e à “Veja” até 16 de julho de 1.972, quando, levado pela revista, migrei para a redação em São Paulo.
Saí de Natal com crédito junto aos dois veículos, tanto que emplaquei como meu sucessor o colega Djair Dantas Pereira de Macedo, que até então trabalhava comigo na condição de fotógrafo.
Em meados de 1.976, quando me via forçado a voltar a residir em Natal, o “Jornal do Brasil” me apresentou uma proposta fantástica, que quase me desviou para o oeste do país. Vivíamos ainda tempos de grandes abordagens de tribos selvagens por missões lideradas pelos irmãos Villas Boas e outros indigenistas, o desenvolvimento conquistava novas fronteiras, o Brasil começava a enfrentar problemas de fronteiras, a guerrilha prometia pegar fogo no Araguaia e o jornal queria destacar um correspondente que, residindo em Cuiabá e muito bem estruturado, estivesse sempre pronto para ser enviado dali a qualquer parte da Amazônia e países latino-americanos. A força telúrica de Natal falou mais alto do que a miragem da missão.


