Da série: “Açu, Mitologia e Vivências” - [08-15]
UMA BELA SENHORA
Publicado em 04 de Outubro de 2008
Por Franklin Jorge
Dezembro, 1938.
A bela senhora olhava através dos vidros embaçados a sucessão de manchas coloridas que prefiguravam a cidade desconhecida sob o céu carregado de nuvens. Ao seu lado, o esposo segurava-lhe a mão onde uma aliança prolongava o brilho do anel de noivado. Pensaria nas montanhas de Minas, em Lavras do Funil, na Rua Dona Inácia, onde nasceu e passou toda a vida. Pensaria, sobretudo, na vida que a aguardava, numa terra desconhecida, certamente marcada por diferentes costumes.
Quarenta e nove anos depois dessa primeira noite em terras potiguares, Maria Eugênia– senhora Nelson Borges Montenegro – recorda-se que chegou aqui, debaixo de chuva, numa noite de Natal. Veja que bom augúrio: natal em Natal, exclama.
Rua Apodi, o endereço, onde já a aguardava à entrada toda a sua nova família reunida. Os donos da casa, Doutor Pedro Soares de Amorim, médico conceituado e chefe político, deputado estadual, e sua mulher, Dona Beatriz Montenegro de Amorim, tios do seu marido. Parentes. Amigos. Políticos, ali reunidos, para dar-lhe as boas vindas. Em seguida o copioso e interminável jantar à luz de velas, servido à francesa, em porcelanas de Limoges. Os empregados de avental branco de organdi sobre o costume escuro, enluvados, servindo em silêncio, sob o comando da governanta. O champagne espoucando das taças de finíssimo cristal. Brindes aos recém-casados, a troca de presentes e de votos. A família toda nos esperava somente no dia seguinte, motivo pelo qual os meus sogros não se achavam presentes. Tive uma ótima impressão de todos.
A cidade parecera-lhe acolhedora, provinciana, arborizadíssima, duma luminosidade estonteante. Era a segunda cidade à beira-mar que conhecia. Minas, terra montanhosa, como sabe, não tem mar. O que mais me encantou aqui foi a Redinha, praia rústica, na verdade uma aldeia de pescadores, sem eletricidade, na margem esquerda do Potengi, onde as famílias abastadas e tradicionais costumavam passar os meses do verão. Fiquei impressionada com o Forte dos Reis Magos e com Ponta Negra, naquela época, completamente desabitada.
Os primeiros dias foram de descobertas e passeios para conhecer a cidade, travar relações com a sociedade local e conviver com a família que escolhera pelo casamento. Os convites se multiplicavam, para almoços, para jantares, para chás. Na Redinha o convívio diário com três sábios, o Doutor Pedro Amorim, falando sobre as ciências e a lembrar Hipócrates; o desembargador Antonio Soares, a decantar a musa da História; e [trecho truncado]. Eu os ouvia enlevada, pensando nos sábios da Grécia antiga. Foi quando passei a encarar a conversação como uma arte, remanescente dos elegantes salões literários, já então em desuso. Quis me tornar digna de toda a consideração daqueles homens notáveis que cultivavam uma espécie de arte especialíssima – a arte de viver em paz e com dignidade. Todos eles tinham excelentes bibliotecas e estavam informados de tudo o que ocorria no mundo, em todos os ramos do saber, inclusive o da literatura que já então me apaixonava. Sentia-me, pois, lisonjeada por sua atenção.
Enfim, chegara o dia da viagem à propriedade da família, em Ipanguassu, um dia inteiro de automóvel desde Natal. No inverno o trajeto se tornava ainda mais longo, por causa das estradas de barro cheias de buracos. Somente muito raramente um governante se lembrava de mandar consertá-las, geralmente em tempo de grandes estiagens, quando parte da população abandonava suas casas em busca de trabalho e comida. Eram criadas então as chamadas Frentes de Trabalho, quando grande parte dos recursos eram desviados por gestores espertos que aproveitam a desgraça alheia para forrar os bolsos. O desvio por Cerro Corá era obrigatório. Maria Eugênia chegou exausta.
Meu primeiro impacto, no Vale do Assu, foram os rios secos. Senti um choque quando Nelson me disse, Agora vamos atravessar o rio Assu. Eu olhei em volta, espantada. Nelson, cadê a água?
A paisagem do Rio Grande do Norte despertou dupla impressão em Maria Eugênia. A do Agreste ubérrimo, com o mar à vista, muito verde e fosforescente, surdo aos apelos do imobilismo. E a do sertão, uma paisagem monocórdica e terrosa, cinzenta, abrasada pelo calor. Muita planície e a solidão da planície. Faltavam-lhe os rios, as cachoeiras, os lagos, as montanhas. Achei a paisagem do sertão um pouco monótona e previsível.
Num espaço de poucos dias, o encontro com duas paisagens muito diversas e peculiares. Na região Agreste do estado, chuvas, normalidade, fartura. No Sertão, a seca braba trazendo o desespero para milhares de famílias que não tinham um punhado de feijão para botar na panela. Por toda a parte, desolação e fome, muita poeira e calor. Nos cercados, os animais urrando de sede, seguidos por bandos de urubus à espera da carniça. A cidade do Assu, ao contrário das prósperas cidades mineiras, reduzida à decadência, dominada por uma política partidária acirrada, mesquinha, indiferente às necessidades dos mais desvalidos. Fiquei muito perturbada com tudo o que via.
Tudo me surpreendia e espantava. Os xique-xiques inóspitos, a estranha flor da macambira, os espinhos e o capim, crestado pelo sol, soterrado sob a poeira. O linguajar peculiaríssimo do povo, parecia-me um outro idioma. Eu tinha dificuldade de entender o que se dizia, embora o povo fosse muito prestativo e se esforçasse para me agradar.
Hospedada na Fazenda Picada, na casa dos sogros, o major Manoel de Melo Montenegro e Cândida Borges Montenegro, sentiu-se extremamente desconfortável. Não havia água encanada. O casarão antigo, sem forração, de piso irregular, o telhado coberto de picumã, a cozinha enorme com o seu fogão de trempes e um forno de pedra, usado nas grandes ocasiões. Panelas de barro. Pratos de ágata. A água sem tratamento, armazenada em potes e quartinhas. Fiquei aterrada diante daquele mundo primitivo. Além disso, não havia jovens naquela casa. Somente velhos e eu não estava acostumada a conviver com a velhice. E, o pior de tudo, não me consentiam fazer nada. Nem mesmo erguer uma palha. Comecei a me sentir inútil, emparedada ali, em meio a uma confraria de velhos.
Naquela casa assombrada havia um quarto misterioso, cheio de coisas sem uso. Baús de trinco arrebentado. Chocalhos sem badalo, selas, mantas e arreios sem serventia amontoados por toda parte. Camadas superpostas de poeira e teias de aranha. De vassoura na mão, Maria Eugênia fez uma limpeza geral, jogando fora tudo o que não prestava mais. Depois, entusiasmada, de serrote em punho, começou a decapitar os arabescos dos móveis, o que provocou a zanga do sogro, que via assim os móveis herdados de seus pais desfigurados. Foi uma coisa séria.Um deus-nos-acuda. Nelson, sempre obediente à vontade do pai, ficou entre a cruz e a espada. A verdade é que alterei a ordem que reinava naquela casa havia gerações.
A figura que mais me impressionou naquele universo familiar foi a do meu sogro. Sua palavra era a lei de um homem enérgico, acostumado a mandar e a ser obedecido por filhos e agregados. Era desses homens que mandavam um fio do bigode como prova de compromisso. Aos meus olhos, parecia um daqueles patriarcas do Velho Testamento. Já a minha sogra era humilde e carinhosa. Submetida àqueles costumes arcaicos, não discutia nunca. Aceitava tudo com resignação, quando não com alegria. Muito católica, queria me converter ao catolicismo, porém persisti em minha fé e nunca renunciei ao presbiterianismo. Quando menina, em Lavras, um padre me deu um beliscão porque eu estava na igreja com um vestido de mangas curtas. Noutra ocasião vi um padre dar um pontapé num fiel, porque ele estava mal ajoelhado… Minha fé, portanto, sofreu um grande abalo; minha fé na igreja católica, bem entendido… Eu destoava de tudo aquilo. Foi quando começaram a pensar que eu tinha um parafuso de menos.
Passei a observar toda aquela gente que compunha um mundo muito diverso de tudo quanto eu conhecera. Notei Sinhá Rita, ex-escrava incorporada à família. Herança de minha sogra, de quem cuidara desde pequena, fora rainha nos tempos da escravidão. Negra centenária, de pequena estatura, era muito disposta, apesar de velhíssima. Chamava a minha sogra de madrinha e se adoçava toda quando se referia a ela. Coringa, antiqüíssimo na cozinha, passava os dias mexendo tachadas e mais tachadas de leite, as unhas muito longas desfiando a coalhada nas urupemas. Entranhara-se nele, por causa desse trabalho, o odor peculiar dos queijos que arrumava com muito cuidado sobre jiraus suspensos. Tinha os pés tortos ou coengos, como se dizia na Picada. Era um bicho calado, que se tornava engraçado quando bebia. Só bebia aos sábados, nas feiras. Havia ainda, entre os agregados, Mané Chico e Seu Zeca, irmãos naturais do major. Seu Zeca era um homem bonito. Louro, alto, um porte aristocrático. Sonhava o que eu queria. Mal eu pensava numa coisa e ele já estava tomando as providências para torná-la real. Mané Chico foi o professor de meu marido, ensinando-o a lidar com a terra. Era de uma ciência extraordinária. Sabia, como ninguém, interpretar os sinais da natureza. Assim podia predizer com muita antecedência se o ano seria bom ou mal de inverno.
No entanto, Maria Eugênia considera importante a convivência com as pessoas desse mundo, às quais, reconhece, deve muito. A época era difícil. Em 1941, descobriu que não estava preparada para enfrentar o espetáculo da miséria que se agravara com a continuidade da estiagem, que multiplicara o clamor dos suplicantes que acorria em grandes levas até a casa grande da Fazenda Picada, cobertos do pó das estradas, esfarrapados e sujos, a privação inscrita nos olhos brilhantes. Notei que não havia assistência do governo e tudo dependia da boa vontade e da disponibilidade material dos proprietários rurais que, frequentemente, não podiam enfrentar sozinhos a situação de penúria dos flagelados da seca. A maioria estava empenhada em salvar os próprios haveres, como os animais, ficando os homens em segundo plano. Muitos deles, desesperados, abandonavam suas casas e partiam em busca da sobrevivência, às vezes, noutros estados. Era um espetáculo pungente ver toda aquela miséria em carne viva, enquanto o governo bem instalado permanecia em estado de inércia em meio à calamidade. Aquilo foi me deprimindo…
Todos os dias, ao levantar-se, esbarrava com os alpendres da casa grande coalhados de mulheres, crianças e velhos andrajosos a pedir alimentos e socorro médico. Em contato com aquela realidade, pensei que ia enlouquecer. Cada vez mais abalada, fui consultar o doutor João Machado, discípulo da psicanálise, que me receitou uma viagem de recreio, para espairecer o espírito fatigado. Nelson mandou-me passar no Rio de Janeiro e em Minas, onde reencontrei minha família e as montanhas azuis. Ao retornar à Picada, depois de alguns meses de ausência, compreendi que teria de descobrir algo para fazer.
A principio, por falta de ter o que fazer, andava com um serrote na mão, reformando os móveis que vinham de um outro século. Mandei remover belas pedras de mármores que recobriam algumas mesas. Depois, esgotada a matéria-prima dos móveis, passei a ler romances de manhã, de tarde e de noite. Todas as tardes gostava de visitar um morro que havia diante do casarão. Havia ali uma cabana, onde ficava lendo ou contemplava o mundo, os carnaubais ao longe, o crepúsculo de fogo iluminando a terra, a lagoa açoitada pelos ventos, um oásis em meio à paisagem inóspita.
Amante da leitura, desde menina, começa a compor uma biblioteca. Lê compulsiva e desordenadamente, Sartre, Clarice Lispector, Thomas Mann, Pirandello, José Geraldo Vieira, Shakespeare, Ribeiro Couto, Tagore, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Oscar Wilde, Cornélio Penna, Machado de Assis, Henriqueta Lisboa, Dostoievski, Drummond, Yeats, Colette, Proust… Uma biblioteca inteira. Conhece, enfim, João Lins Caldas [1888-1967], que seria o seu mestre. Aparentado com o Major Montenegro, o excêntrico poeta visita às vezes a Picada, demorando-se alguns dias. Entusiasmada, passa a pesquisar a literatura norte-rio-grandense, relacionando-se com os escritores Edgar Barbosa, Luis da Câmara Cascudo, Manoel Rodrigues de Melo, Américo de Oliveira Costa, Palmira e Carolina Wanderley. Descobre que o Assu dera grandes nomes à literatura, especialmente à poesia. Começa a escrever e, em 1962, estréia com um livro de memórias, “Saudade, Teu Nome é Menina”, que merece um precioso prefácio de Cascudo.
[1979]