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VARGAS RECEBE ROOSEVELT EM NATAL

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reprodução do Jornal do Brasil

Reprodução do Jornal do Brasil


Por Alice Melo, do CPDocJB

Há 67 anos, no dia 28 de janeiro de 1943, o presidente Getúlio Vargas chegou a Natal, no Rio grande do Norte, para uma conferência com o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, com o propósito de firmar uma aliança militar e política entre o Brasil e os Países Aliados, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Nasceu desta reunião a idéia da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma divisão de 25.334 militares brasileiros que lutaram ao lado dos Aliados na Itália no final da guerra.

“Os países aliados preparam-se para uma guerra longa. O poderio militar da Alemanha está em declínio e pode haver um colapso de um momento para o outro. Estamos absolutamente certos da vitória”, declarou Getúlio Vargas em uma coletiva de imprensa dois dias após chegar a Natal.

Getúlio Vargas chegou a Natal no dia 28, e pernoitou em um navio de guerra para se preparar para a conferência com Roosevelt, que chegaria da África na manhã do dia seguinte. Os presidentes se encontraram durante o almoço, passaram em revista as forças armadas brasileiras e norte-americanas – do Exército, Marinha e Aeronáutica – e no decorrer da tarde trocaram idéias sobre os problemas da guerra mundial e o esforço bélico conjunto do Brasil e dos Estados Unidos.

“[No encontro] tratamos de assuntos referentes à guerra e, também, de outros que possivelmente se apresentarão no após-guerra. Preponderou, entretanto, a necessidade de vencer a luta, e sob este aspecto muito conversamos sobre a cooperação do Brasil com os Estados Unidos, cooperação integral e sem restrições. Uma vez que estamos em guerra, a nossa cooperação com os Estados Unidos deve ser completa. Tudo quanto eles julgarem necessário e útil, nós continuaremos a fornecer”, disse Getúlio Vargas no dia 31, não explicando porque os detalhes da Conferência tinham sido mantidos em sigilo até o momento da coletiva.

A idéia da FEB, no entanto, não foi consolidada nessa conferência, que oficializou a cooperação do Brasil com os Estados Unidos no esforço de guerra, já que o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira somente partiu para a Itália em julho de 1944. O final da guerra contra o fascismo e o retorno da FEB ao Brasil deram origem a manifestações populares que precipitaram a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo no país.

MORRE O ESCRITOR LUIS ROMANO

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Por Franklin Jorge

Faleceu nesta tarde, vitima de câncer, o escritor Luis Romano, caboverdiano radicado em Natal desde os anos 60. Primeiro embaixador do seu País, após a independencia, aqui conviveu intimamente no primeiro círculo de intelectuais, como Luis da Câmara Cascudo, Edgar Barbosa e Américo de Oliveira Costa, aos quais se juntariam depois, Eulicio Farias de Lacerda e Sanderson Negreiros.

Deixou Luis Romano inúmeras obras, em prosa e verso, além de estudos bastante apreciados sobre aspectos da cultura caboverdiana, da qual foi, por toda vida, um grande divulgador. Recentemente, um estudante da USP entrou em contato comigo, através de e-mail, para pedir-me informações sobre o escritor, cuja vida e obra seriam objeto de estudos acadêmicos.

Privei durante vários anos da sua amizade e o visitei, por diversas vezes, em sua casa à Avenida Afonso Pena, onde vivia na companhia da mulher e dos filhos, escrevendo e lendo. Nesses encontros, fez-me confidencias sobre suas amizades literárias. Tinha uma grande admiração por Edgar Barbosa, que chegou a prefaciar-lhe seu livro mais conhecido.

Certa vez, ao servir-me um delicioso e estranho licor, quebrei as regras da civilidade e quis repeti-lo, mesmo sabendo que infrigia alguma lei tácita. Afinal, a boa convivencia social tem regras que não podem ser arranhadas. Por isso, vendo que fora longe demais, pedi-lhe desculpas pela ousadia.

Ele disse tratar-se de um Cordial, e, segundo a praxe, bebia-se um único cálice de boas vindas. E, ainda um pouco chocado com a minha má educação, serviu-me uma segunda dose, o que repetiu-se todas as demais vezes em que depois estive em sua casa. Uma vez, para sondar a qualidade do produto, serviu-me um cálice de aguardente fabricada em sua longínqua Cabo Verde. Disse-lhe, sinceramente, que preferia seu Cordial.

Quis saber onde adquirir tão espirituosa bebida e ele me revelou ser a pessoa que a fabricava havia muitos anos. Diante disto, acanhei-me de pedir-lhe a receita. Mas, acrescentei que, se tivesse uma receita daquelas, certamente ficaria rico, comercializando-a. E ele, sem delongas, acrescentou que até pensara em me dar a receita, mas, considerando o meu propósito de auferir lucro com uma receita criada por seus ancestrais, desistia de me dar a fórmula.

Tratava-se de uma receita que passava de pai para filho há várias gerações. Composta por um mix de ervas, frutas secas, vinho tinto e aguardente, levava no minimo dois anos curtindo e, depois, vinha a parte mais trabalhosa: precisava ser filtrada, no mínimo, umas cinco vezes…

Anos depois, consolidada a nossa amizade, ele me surpreendeu certo dia, mandando-me que me munisse de papel e lápis, pois queria ditar-me algumas palavras. Era a tão desejada receita com a qual, em momentos especiais, obsequio meus amigos, servindo-lhes um cálice dessa bebida rara a que dei o nome de Hullaballoo, um estado de espírito.

RETORNO AO NINHO

domingo, 3 de janeiro de 2010


Discurso de Anna Maria Cascudo Barreto na abertura do Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo

Estamos diante de um sortilégio. Desejo antigo, guiado por seres de outra dimensão, hoje realizado por soldados envergando a farda da paixão. Os pássaros viajores retornaram ao seu ninho centenário. Atravessaram túneis de ventanias agressivas, voaram acima de difíceis labaredas. Muitas vezes ausencia de alimentação, períodos de desânimo. Perderam asas, se desfizeram das plumas mais preciosas, abandonando gravetos importantes para o conforto dos filhotes.

Simbolicamente, a ausencia do justo reconhecimentp dos seus iguais provocou feridas jamais cicatrizadas. Mas elas prosseguiram seu vôo teimoso seguindo roteiros traçados pela sua destinação. Aves persistentes seguiram guiadas pelas nuvens dos sonhos, sua bússola o sol do amor, tecendo arabescos nos galhos indiferentes, construindo o objeto final: o ninho estrelado.

Nós, os Cascudo Roberti Leite e os Cascudo Barreto, somos operários da indústria da fé. Os dragões do pessimismo não alcançarão nossas fronteiras. Lentamente fomos afastando as barreiras e penetrando o reino encantado cascudiano, rabiscado de passos, crivados de olhares, cobertos de perguntas. Parodiando Dom Quixote, vencemos batalhas impossiveis, lutas sangrentas se tornaram rosas de esperança, graças a espada do sorriso.

Camilo, Daliana, Newton, Camilla, Diogo, Alana, Woldney, Múcio e até a pequena Cecilia, somos pontes de carne, ligando o ontem ao amanhã. Nossos mortos estão presentes nos nossos corpos e almas. Na hereditariedade o passado e o presente se fazem futuro.

Varamos as portas de esmeralda da casa, ninho familiar. Aqui resideram meus avós maternos, o Desembargador José Teotônio Freire e Sinhá, nasceu minha genitora, a doce caçula Dahlia: o Coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo, o avô paterno, aqui pediu a mão da adolescente para o seu filho Luís. Também essas paredes assistiram ao nascimento do primogenito Fernando Luis e da autora destas linhas. Na casa grande parte da gigantesca obra de Câmara Cascudo foi elaborada. Casamos na sua sala, Fernando e Marly, Camilo e eu. Residimos com nossos pais e filhos, 18 anos. Festejos, comemorações, alegrias e tristezas, foram testemunhadas deste local. Meus filhos aqui brincaram e também os netos estudaram, nos formamos, tivemos momentos de extrema tristeza e motivos de honra e alegria.

Agora o Instituto Câmara Cascudo, fruto de labor persistente, suor e teimosia abençoada de três gerações, surgem como um presente à cidade tão amada pelo seu inspirador, galanteio feito roteiro cultural às gerações atuais e àquelas que sucederem.

O Ludovicus é batizado com a mesma energia de quando o Santo Padre João Maria, na Igreja do Bom Jesus das Dores, fez o sinal da cruz na fronte do recém-nascido Luís, e o abraçou como adivinhando quem ele se tornaria…

O objetivo do Instituto Câmara Cascudo - Ludovicus - que fundamos, é a preservação, divulgação, a continuidade da pesquisa e a gerencia do patrimonio cultural de Câmara Cascudo, todas as suas nuances, faces e objetivos.

A casa foi restaurada pela familia residente na cidade do Natal desde 2005 e estará aberta à visitação a partir de janeiro de 2010. O essencial permanece: as fotos dos amigos e familiares, os móveis, acervo biobibliográfico, as assinaturas nas paredes dos visitantes. As coleções - museológicas, etnográfica africana e indígena brasileira, conviverão com a biblioteca rara, a pinacoteca, a simplicidade franciscana do cotidiano familiar, a ternura das fotos, um pouco das múltiplas homenagens, medalhas, colares, diplomas, troféus, recebidos com humildade pelo mestre.

Ele, que amava o povo e suas manifestações acima de tudo, considerado o mais brasileiro dos escritores, que pesquisou todos os ramos do conhecimento humano sem perder seu sorriso espontaneo, oferece seus conhecimentos, sua magia, com a acessibilidade e carinho que o caracterizaram.

Nosso combustível foi o de acender a labareda da permanencia no tempo, guardiã da eternidade. é chegada a hora de se dar as mãos ao escritor, é a época das parcerias, dos patrocinios, idéias para que os ideiais sejam mantidos.

E os crepúsculos que ele colecionava na privilegiada memória, com flores de opala, cantaros de rubi, esteiras de ouro e corolas de luz prateada nunca mergulhem na escuridão do olvido, nas sombras do esquecimento. Tal espetáculo diário que o Criador nos oferece gratuitamente inspire as autoridades, os politicos, os empresários, os cidadãos, enfim, a toda cidade do Natal, para a necessidade de cultivar e apoiar com a firmeza da gratidão e a consciencia da tradição.

Natal, 30 de dezembro de 2009
Anna Maria Cascudo Barreto
Presidente do Ludovicus

GATELY, DO BOYZONE, MORRE AOS 33 ANOS

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Do Y! Posts

Londres, ontem (EFE).- Stephen Gately, integrante do grupo Boyzone, boyband irlandesa que fez sucesso nos anos 1990, morreu sábado na ilha espanhola de Mallorca, onde estava de férias com o marido, Andrew Cowles.

O site do grupo, que se separou em 2000 e voltou a se reunir oito anos depois, diz que Gately, de 33 anos, “morreu de forma trágica” na noite de ontem.

O anúncio da morte do cantor causou comoção no Reino Unido e na Irlanda. Os outros integrantes da banda disseram que hoje mesmo seguiriam para a Espanha para se inteirar do ocorrido.

Até o momento, as circunstâncias do falecimento de Gately não foram esclarecidas. Mas fontes da Polícia de Andratx (Mallorca) disseram à Agência Efe que o artista morreu em um apartamento na região turística de Cala Llamp.

O editor da seção de espetáculos do jornal “News of the World”, Dan Wootton, disse à “BBC” que Gately saiu com o marido na noite de sábado e, depois de voltar e dormir, não acordou mais.

Louis Walsh, empresário da banda, disse ter ficado abalado com a notícia, mas que não tinha detalhes do que aconteceu.

“Estou em estado de choque. Estive com ele na segunda-feira em uma cerimônia de entrega de prêmios. Não sabemos muito sobre o que aconteceu”, declarou Walsh, segundo quem Gately “era um grande homem”.

O Boyzone fez muito sucesso na Europa na década de 1990, quando vendeu mais singles que o Take That.

Em junho de 1999, um ano antes de o grupo se separar, Gately assumiu sua homossexualidade e que namorava Andrew Cowles, com quem se casou em 2006, em uma cerimônia em Londres.

Depois do fim do Boyzone, Gately seguiu carreira solo, emplacando três singles na lista dos 20 mais vendidos. Ele também fez várias participações em musicais de sucesso na capital britânica.

O cantor Elton John se pronunciou sobre a morte do colega, a quem se referiu como uma pessoa “doce e amável”. “Eu e David (Furnish, marido de Elton) ficamos atordoados com esta tragédia. Enviamos nosso amor

 

 

Homenagem a Maria Eugênia [7-7]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

PRAÇA GETÚLIO VARGAS 19

Por Franklin Jorge

 

 

Diversa daquela biblioteca abacial descrita por Washington Irving em “A Mutabilidade da Literatura” – autor que encantou minha adolescência no Açu –, onde os autores, como múmias, são impiedosamente encerrados e ali abandonados para amarelecerem e se desfazerem no pó do esquecimento, a biblioteca de Dona Gena, a escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, não era uma catacumba literária. Seus livros estavam mais gastos pelo uso do que pelo tempo.

Ali, naquele ambiente que me pareceu sempre a ante-sala do paraíso, vivi na companhia de uma miríade de títulos alguns dos momentos mais intensos de minha vida.

Ali, em meio a multidão devoradora das idéias contidas nos livros dessa biblioteca laboriosamente constituída pela literatura mais relevante, oriunda das mais diversas culturas e países, senti-me insaciavelmente curioso, sem saber ainda que a curiosidade tem raízes no inferno, lugar onde vai dar toda a sabedoria.

Instalada numa sala cujas paredes eram revestidas de estantes, algumas envidraçadas e fechadas a chave, pois continham algumas preciosidades forjadas pelo gênio humano, entreguei-me ao prazer solitário da leitura, num ambiente limpo, ordenado e silencioso, em contraste com o tumulto da praça.

Presidia-o uma pequena e delicada aquarela de Martha Salém, em tons terrosos perpassados de uma estranha luz fantasmagórica, e, sobre a mesa de madeira clara, em estilo funcional, inspirada no Bauhaus alemão, os dois grifos de bronze que sustinham todo o Morais – um dos mais completos dicionários da língua portuguesa –, que pertencera ao pai de minha anfitriã.

 

Foi ali, na condição de leitor e de demiurgo de ébrias fantasias juvenis, que descobri alguns autores que seriam os meus mestres secretos e compreendi, sem ainda ter lido uma única linha de Borges, que sem leitura não se pode criar. Na clausura da biblioteca dessa notável mineira transplantada para o Açu, entregue ao rito orgíaco da leitura, ouvindo Debussy – cuja música misteriosa impedia Proust de trabalhar –, e às vezes, acariciando o dorso nervoso de Chérie, amável felina de olhos de ágata e aço, sentia esse tremendo medo de morrer sem construir uma obra que justificasse a minha existencia.

Ali, em meio a

 

                               Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio

                               Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia…

 

Washington Irving, que li na paz dessa biblioteca provinciana, na qual habitavam os grandes gênios da literatura, descobri um Irving mais profundo e diverso do autor de contos fantásticos, entre os quais “Rip van Winkle” que costumava ser incluído no repertório infanto-juvenil de minha geração e foi o primeiro texto seu que li ou ouvi de minha avó, numa daquelas horas de descanso após o almoço, na casa grande do Estevão, hoje pertencente ao doutor Paulo Fonseca.

Autor de uma curiosa “História de Nova York” desde o começo do mundo até o fim da Dinastia Holandesa [1809], publicada sob o pseudônimo de Diederich Knickerbocker, Washinton Irving [1783-1859] é considerado impropriamente, por alguns historiadores da literatura, como o primeiro romântico da América.

 Nascido numa família riquíssima de Manhattan, era um rapaz de hábitos refinados que freqüentava o circulo mundano de sua cidade, a antiga Nova Amsterdã de seus antepassados, fundada pelos holandeses após deixarem Natal, derrotados em sangrenta guerra.

De 1815 a 1832 viveu em Londres, onde escreveu algumas de suas obras mais populares e terá se inspirado para escrever o ensaio sobre a mutabilidade da literatura, ao visitar a Abadia de Westminster, túmulo de vários reis ingleses. Usou nessa obra uma epígrafe extraída de Drummond of Hansthornden, que, por mais que exija da memória, não consigo lembrar…

Washington Irving observou que existem certos estados de espírito de quase rapto, sob os quais fugimos do tumulto e da luz e buscamos algum recanto silencioso onde possamos dar amplidão aos nossos sonhos e, sossegados, como me quedei na biblioteca de Dona Gena, construir nossos paraísos no ar. Lendo-o, aprendi a refletir sobre as páginas que lia…

 

                A Márcio de Lima Dantas.

 

 

 

 

Homenagem a Maria Eugenia [6-7]

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Biblioteca de Dona Gena

 

Por Franklin Jorge

 

Mais que a escola, educaram-me as bibliotecas. Amando os livros com o mesmo amor tátil que alguns homens devotam ao cigarro, ocorre-me destacar aqui, especialmente, a biblioteca de Dona Gena, Maria Eugênia Maceira Montenegro (Lavras, MG,1915/2006), que freqüentei entre catorze e dezessete anos, enquanto meus amigos da mesma idade brincavam e, à maneira deles, se divertiam.

 

Como Borges – que exaltou a biblioteca paterna –, creio não ter lido em vão aqueles queridos volumes, transcendentes estrelas e astros simetricamente dispostos no céu profundo e claro de um bonito e aristocrático solar da praça Getúlio Vargas, 19.

 

Estava escrito, em alguma página do enigmático livro da vida que nessa biblioteca sonhada por Dona Gena algum dia um jovem curioso e tímido, querendo saber o que outros ignoravam, entreteceria de leitura sua adolescência inquieta.

 

Nessa biblioteca cosmopolita que prefigurava o paraíso na terra, senti a radiação mental de autores invulneráveis como deuses e li, pela primeira vez, Gide e Clarice, Nietzsche e João Lins Caldas, Pessoa e Cornélio Penna, Tagore e Rachel de Queiroz, Virgínia Woolf  e Nelson Rodrigues, Camus e Gilberto Freyre, Washington Irving e Murilo Mendes, Schopenhauer e José Geraldo Vieira, além da obra poética de Bandeira, Cecília , Henriqueta, Jorge de Lima, Drummond e Cassiano Ricardo, que logo depois orientaria  minhas primeiras tentativas poéticas.

 

E, pairando sobre esses autores e, confundindo-se com a multiplicação espectral da realidade que os livros proporcionam, a presença de uma amiga atenciosa com quem podia conversar sobre essas leituras que se acrescentavam a tudo que eu já lera, levado pelo instinto do que busca baudelaireanamente o seu semelhante, ou, ainda, esclarecido pela experiência de minha avó materna, uma mulher culta e nervosa que sabia escrever e conversar com fluência e espírito.

 

Imbuído do sentimento de gratidão devido ao inefável licor vertido por esses livros e pelas palavras de Dona Gena sobre o meu espírito, escreveria, anos depois, ‘’Paraísos de Papel’’, numa superação da impotência, da humilhação e da angústia, ao tempo em que vivia em Rondônia, um lugar que os cabalistas afirmam ser um dos ‘’portais’’ do inferno, ou segundo outros, uma terra de expiação e desdita.

 

Ali, sozinho e injustificado, atormentado pelo desejo de criar uma obra, comecei a escrever “Paraísos de Papel”, mergulhado na paz da Biblioteca pública Francisco Meireles, da qual tornei-me um desfrutador constante e notado por todos. Algumas vezes, fazia-me transportar pela memória involuntária à minha adolescência no Açu e a uma outra biblioteca, forjada por Dona Gena, como uma pousada para o prazer e a perdição de alguém que desde cedo sabia que o seu verdadeiro destino seria a literatura.

 

E, por sabê-lo, muito antes que uma cigana de passagem pelo Sítio Estevão o dissesse, ao interpretar as linhas da minha mão, dispus-me a criar o meu próprio cânone, no âmbito sereno de uma ordem, não obstante ignorasse ainda que Jung havia incluído a leitura na mesma categoria dos sonhos e, talvez, dos pesadelos.

 

Por alguns segundos que todavia me pareciam eternos, eu voltava a ouvir Dona Gena discorrendo sobre suas leituras ou convocando suas lembranças de João Lins Caldas, poeta numeroso e único que antes de mim freqüentara sua biblioteca, privando por muitos anos da sua amável companhia e tornando-se, nessa longa convivência enriquecida pela admiração recíproca, o seu próprio mestre.

 

Algumas vezes, como prêmio laboriosamente conquistado, Dona Gena extraía de uma pasta um ou outro manuscrito do seu infortunado mestre e amigo e o lia em voz alta, dramatizando certos versos, tal como os ouvira há muito tempo da boca de Caldas, a quem reverenciávamos como a um altíssimo poeta.

 

Eu a ouvia, encantado, tendo entre nós sua mesa de trabalho ornada com dois grifos de bronze que sustentavam exemplares do Moraes e do Caldas Aulete, ambos herdados do seu pai, o engenheiro português Bernardino Maceira, de quem terá herdado mais que esses dicionários o gosto pela arte. Interrompendo-se em alguns trechos, para lembrar que Caldas chorara ao dizer-lhe este ou aquele verso, em seguida Dona Gena prosseguia a leitura, imprimindo à voz toda a emoção que o poeta comunicara através inflexões embargadas pelo sentimento.

 

Siderado pela diabólica palpitação daquelas vozes silenciosas, aprisionadas nos livros de uma biblioteca, vivi e morri de paixão com Tonio Kroger, Hamlet e Raskolnikov, para que no futuro tivesse motivos para refletir e escrever sobre a espécie de felicidade que resulta da usufruição da amizade e dos livros.

 

De súbito, chamado à realidade pela bibliotecária que, como uma divindade infernal anunciava o fim expediente, eis-me novamente caminhando com o meu obscuro destino pelas ruas de Porto Velho, ou de Milão, ou do Rio, ou de Buenos Aires, ou de Estocolmo, ou de Natal, pensando, sem escrever uma linha, na miserável contingência a que chamamos de condição humana.

 

Como pouco ou quase nada sabemos de nós mesmos, Dona Gena, sem o saber, cumprira fielmente o princípio básico que norteia a verdadeira e autêntica atividade intelectual – expressa na desinteressada transmissão do conhecimento.

 

À sombra benigna dessa e de outras bibliotecas que perlustrei e incorporei ao que sou e tenho sido ao longo desses fatigados cinqüenta anos, algumas vezes terei intuído que, como um dom gratuito atribuído por algumas potência celeste, recebi e perdi uma coisa infinita?    

 

 

 

 

 

 

 

Homenagem a Maria Eugênia [5-7]

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [2-2]

 

Por Franklin Jorge

 

 

Na endiabrada Calçada a opinião é livre. Mas há um contrato tácito entre os seus freqüentadores sobre os versos sotádicos, que só devem circular por escrito, embora passem de mão em mão, arrancando gostosas risadas que chamam a atenção das pessoas que transitam pela rua. Como não rir da verve de poetas como Renato Caldas e Chico Traíra? De viva voz, só os versos considerados “de salão”. O costume talvez seja uma deferência á dona da casa, a única presença feminina cativa da Calçada, embora eventualmente outras mulheres a freqüente, quase sempre, de passagem pelo Açu.

 

Quando prefeita de Ipanguaçu, Dona Gena enfrentou a calamidade uma enchente que deixou centenas de desabrigados, destruiu lavouras, casas e animais, levando-a sob risco de vida a percorrer de canoa as áreas alagadas do município, na companhia de homens que via pela primeira vez. Aberta às experiências, levou socorro ao povo necessitado, enfrentando os perigos com bom humor e determinação. Ela lembra numa dessas noites, sentada diante da sua casa, de uma velha que ajudou a salvar e que, recolhida a um depósito da Cibrazen transformado em asilo, recebeu a visita do médico. Impressionado com o estado da paciente, cochichou para a enfermeira, Essa velha não escapa; está com um horrível piado de peito. E a velha, erguendo-se vivamente do catre, corrigiu o diagnóstico. Não é piado de peito não, doutor; é só um pintinho, coitado, que eu tenho no bolso.

 

Numa dessas noites, Dona Gena organizou na Calçada um torneio de violeiros, para homenagear parentes mineiros que a visitavam. Um dos violeiros convidados perguntou ao poeta Alípio Tavares sobre a identidade de um menino que parecia ser muito querido por todos naquela casa. Quem é Athinho, companheiro? Alípio, amigo da casa, respondeu em versos –

 

 

                                  Ele também é mineiro,

                                  É sangue da mesma raça.

                                  Uma mãe lá, outra aqui;

                                  Uma beija, outra abraça.

                                  Um filho com duas mães,

                                  O pai fica Achando graça.

 

 

Doutor Nelson, cronista da Calçada, registrou em seus cadernos os versos que Alípio improvisou para castigar a avareza de João Monteiro, na época, ostentando grandes bigodes dalinianos, que parara um pouco para ouvir a cantoria. O parceiro de Alípio, ao ver chegar ali aquele estranho, animou-se com a perspectiva de recompensa pecuniária, lançou seu improviso de olhos fixos no desconhecido.

 

  

                                   Este senhor que chegou

                                   Veio nos trazer melhora.

                                   Quem é este cavalheiro,

                                   Que chegou aqui agora?

 

 

Desprestigiando as leis imutáveis da cantoria nordestina, João Monteiro retirou-se da roda sem dar satisfações, ou seja, sem depositar sua contribuição no prato colocado aos pés dos violeiros. Mas Alípio vingou o decepcionado companheiro, compondo um retrato-relâmpago do fujão muquirana.

 

 

                                     Lhe afirmo, caro poeta,

                                     Foi o que engoliu a bicicleta

                                     E deixou os guidões de fora.

 

 

 

Enciclopédia viva e teatro, jornal falado d acidade e lenda, a Calçada de da casa de número 19 da Praça Getúlio Vargas, ex-Praça da Proclamação, é uma instituição cultural da cidade do Açu. Seus freqüentadores revivem, no sertão norte-rio-grandense, uma tradição milenar, quando os homens, depois de ganhar o dia com o suor do rosto, se reuniam em torno do fogo alegre ou nas praças, para conversar e contar histórias das Mil e Uma Noites. Herdeiro dos salões literários, remanescente dos usufrutuários dos jardins de Academos,  a confraria da Calçada de Dona Gena e Doutor Nelson, como se diz no Açu, sobrevive cordialmente em um mundo desumanizado pela tecnologia e pela pressa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CENTENÁRIO: UM ESCLARECIMENTO

domingo, 4 de outubro de 2009

Por Franklin Jorge

Peço desculpas aos leitores por equivocar-me ao noticiar o centenário de nascimento de Maria Eugenia Maceira Montenegro. Trata-se, na verdade, da leitura do necrológio da escritora, solenidade a realizar-se na Academia Norte-rio-grandense de Letras - na proxima terça-feira -, um dia antes da data do seu nascimento e três anos depois do seu falecimento na cidade do Assu. A oradora será a acadêmica Anna Maria Cascudo Barreto, sua amiga de muitos anos: nenhuma duvida a este respeito.

Confesso que fiquei em duvida ao tomar conhecimento do fato, isto é, do transcurso do centenário, porém, apesar da amizade que nos uniu por mais de 40 anos, só fiquei sabendo da data de nascimento da escritora em 2001, quando ela me confessou numa das nossas conversas, que estava já muito velha e ansiosa para conhecer “o outro lado”…Vaidosa como a maioria das mulheres,  por muitos anos ela me fez segredo da sua idade. Fiquei surpreso ao saber que nascera, em 1915, no mesmo ano do grande escritor Ascendino Leite.

Eu sabia, sim, do dia do seu nascimento, 7 de outubro, como todas as demais pessoas que leram o seu livro de estréia, “Saudades tem Nome é Menina”… Nunca tive a curiosidade de saber a idade das mulheres, pois sempre tive em mente as palavras do mestre Cascudo, um expert nesse assunto. Lembro-me assim que ele costumava dizer que a mulher só envelhece do umbigo para cima e que por isso tem a idade que diz que tem… Ora, se o expediente não é verdadeiro é pelo menos elegante e bem arranjado. 

Uma amiga que tive, a grande escritora argentina Luisa Mercedes Levinson - que, como se sabe, foi namorada e colaboradora de Jorge Luis Borges – sempre me disse que nascera em 1914; ao morrer, teria então 74 anos. Qual não foi a minha surpresa, ao ler os jornais do seu pais, na ocasião do seu falecimento – quando o seu nome era cogitado para o Prêmio Nobel de Literatura por instituições culturais francesas –, que ela já estava beirando os 80 (alguns jornais davam-lhe uns dez anos a mais, ou seja, alguma coisa aí por volta dos 90…).

Exceção da ministra Dilma Rousseff e de uma politica muito manjada entre nós, nunca duvidei das mulheres. Pensei então que eu é que estivesse equivocado e que tivesse ocorrido com dona Maria Eugenia o mesmo que ocorrera alguns anos antes com Luisa Mercedes, que me fez acreditar que tivesse uns vinte anos a menos. E não lhe tiro a razão: era tão mais jovem do que muitos outros jovens que conhecemos, motivo pelo qual Borges costumava dizer, ao deparar-se com jovens em franco exercício da jovialidade, que “lá vai um grupo de jovens disfarçados de Lisa Mercedes”..

A confusão se deu por causa da negligencia da Academia,que postergou por três anos a realização de um rito que geralmente ocorre 30 dias depois da morte de um de seus membros. Assim, diante do lapso de tempo decorrido desde a morte da escritora mineiro-potiguar até esta comemoração funerária do dia  6, pensava que tal solenidade já tivesse se realizado e sua vaga ocupada. Confesso que em alguns momentos cheguei a alimentar a curiosidade de saber quem estava ocupando a sua vaga, mas, por tratar-se da Academia, foi deixando para depois, como ela fez em relação á leitura do necrológio de Maria Eugenia… Creio que a Academia, aqui, foi negligente:  a vaga, criada com o falecimento da escritora em 2006, continua aberta e sem ocupante…

Este o esclarecimento que precisava fazer. Aos leitores que me alertaram sobre o meu equivoco, agradeço e peço desculpas a todos. Estou ficando velho e, como tal, como ocorre a muitos velhos, também estou ficando um tanto esquecido…

Homenagem a Maria Eugênia [4-7]

domingo, 4 de outubro de 2009

 

NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [Parte 1-2]

 

Por Franklin Jorge

 

Durante mais de 30 anos um grupo de velhos amigos se reúne todas as noites diante do número 19 de um casarão sesquicentenário, localizado à Praça Getúlio Vargas, na cidade do Açu, para exercitar o superior hábito do bate-papo.

 

Decorado com azulejos portugueses remanescentes de um passado que se dilui sem qualquer registro histórico, o casarão serve de residência a Maria Eugênia Maceira Montenegro – Dona Gena – e Nelson Borges Montenegro; ela, escritora e folclorista, nascida em Minas Gerais em 1915; ele, norte-rio-grandense, engenheiro agrônomo formado em Lavras, proprietário rural no Vale do Açu e chefe político com passagens pela Prefeitura de Ipanguaçu e Assembléia Legislativa do Estado.

 

São os dois os principais animadores culturais deste salão literário que, além de seus fiéis – constituídos de açuenses tradicionais ou honoríficos –, acolhe com freqüência visitantes e curiosos que se deixam seduzir pela prosa viva e espirituosa que flui entre risos e lembranças de um Tempo perdido e reencontrado.

 

Na calçada o riso castiga os costumes, contribuindo ainda para a preservação de um hábito social caro aos sertanejos – o da conversa noturna, relaxadora, gratificante, após uma jornada de trabalho. O poeta espanhol Vicente Aleixandre, Prêmio Nobel de Literatura (1977), pensaria numa sociedade assim quando escreveu que “conocer es reir” (in “Poemas de la Consumación”).

 

Renato Caldas, autor de chistes e epigramas que o povo admirado repete e transforma, popularizando sua verve, integrou por muitos anos esse grupo, desde que o mesmo foi se delineando de forma espontânea e regular em torno dos anfitriões, há quatro décadas.

 

Durante anos seguidos, entre as 19 e 22 horas, Renato contribuiu  para maior glória da crônica da calçada, glosando em versos histriônicos, sotádicos, maliciosos, e líricos, a pulsante realidade da província e do mundo. Essa rotina somente foi abalada quando a doença, afinal, triunfou, aprisionando o poeta na casa dos 80 anos, uma cifra que ele, eterno blaguer, definiu numa de nossas conversas, em sua casa, na Praça Pedro Velho, como “uma doença incurável e mortífera”.

 

Desafiado por um mote de Dona Gena (“No mar da tranqüilidade/Desceram tranqüilamente”), Renato improvisou sobre a conquista da lua:

 

 

                          Pra glória da humanidade,

                          Três astronautas voaram

                          E heroicamente pousaram

                          No Mar da Tranqüilidade.

                          Abriu-se o véu da verdade:

                          O Universo consciente,

                          Curvando-se, reverente,

                          Aos heróis, que, deslumbrados,

                          No Mar da Tranqüilidade

                          Desceram tranqüilamente.

 

 

Embora muitos açuenses continuem duvidando que astronautas norte-americanos desceram na lua, tudo não passando segundo eles de “balela para vender jornais”, o assunto apaixonou a opinião pública. Cidade orgulhosa de um passado cultural ímpar, o Açu rivalizou em muitas ocasiões com a própria capital do Estado. Possuiu teatros e jornais que circularam em grande número desde o século passado.

 

Em 1969, ainda sem aparelhos de televisão, o Açu acompanhou apaixonadamente, em meio a discussões e torneios de glosas, o noticiário da conquista da lua pelo rádio, único veículo de informação imediata a que tinha acesso através da cidade de Mossoró. A primeira emissora local somente seria instalada quase vinte anos depois.

 

A euforia, resultante do feito americano, contaminou sobretudo as camadas mais informadas da população, servindo de estímulo a visitas inesperadas e troca de informações. “Seria possível ao homem, mesmo americano, descer na lua ou tudo não teria passado de fotomontagem? Americano é fogo!” – era o comentário dos incrédulos. Os simpatizantes dos soviéticos, existentes em pequeno e aguerrido número no Açu, a “cidade vermelha” que ostentava ainda em seus muros palavras de ordem marxistas, rebatiam: — “Agora  vamos ver o que os russos farão!”

Povo curioso e sociável, sequioso de informações acerca de tudo na vida, o açuense detinha desconhecidos na rua, para colher detalhes sobre os astronautas que haviam descido na lua. A espantosa aventura de repente inseria a todos no futuro.

 

Os bares, habitualmente freqüentados por uma clientela cativa que lhes confere uma aparência de clube popular desprovido de estatutos e formalidades, se desdobravam para atender à clientela flutuante, incitada pelo desejo de confraternização. O reboliço provocado pelo feito foi generalizado e quebrou a rotina. Lembro-me que meus colegas de escola, em geral indiferentes aos acontecimentos do dia-a-dia, exceção daqueles de inclinações “esquerdizantes”, passaram a discutir com entusiasmo juvenil detalhes da operação.

 

Apolo, deus das estradas e da luz, batizou a nave espacial e conduziu o estro de Renato que, possuído de uma verve inesgotável, criava variações sobre o tema, nem sempre tendo o cuidado de anotar as sucessivas versões. Esta décima de sua autoria, recolhida por Doutor Nelson, foi improvisada na calçada de sua casa:

 

 

                            Abrindo as asas da glória,

                            Na amplidão ilimitada,

                            A “Apolo” deixou gravada

                            O grande feito da história.

                            Nessa imensa trajetória

                            Pelo azul da imensidade

                            O que foi feito, em verdade,

                            Jamais os tempos consomem:

                            Pequeno passo do homem

                            E grande da humanidade.

Homenagem a Maria Eugênia [3-7]

sábado, 3 de outubro de 2009

 A BIBLIOTECA DE DONA GENA

 

Por Franklin Jorge

 

 

Mais que a escola, educaram-me as bibliotecas. Amando os livros com o mesmo amor tátil que alguns homens devotam ao cigarro, ocorre-me destacar aqui, especialmente, a biblioteca de Dona Gena, Maria Eugênia Maceira Montenegro (Lavras, MG,1915/2006), que freqüentei entre catorze e dezessete anos, enquanto meus amigos da mesma idade brincavam e, à maneira deles, se divertiam.

 

Como Borges – que exaltou a biblioteca paterna –, creio não ter lido em vão aqueles queridos volumes, transcendentes estrelas e astros simetricamente dispostos no céu profundo e claro de um bonito e aristocrático solar da praça Getúlio Vargas, 19.

 

Estava escrito, em alguma página do enigmático livro da vida que nessa biblioteca sonhada por Dona Gena algum dia um jovem curioso e tímido, querendo saber o que outros ignoravam, entreteceria de leitura sua adolescência inquieta.

 

Nessa biblioteca cosmopolita que prefigurava o paraíso na terra, senti a radiação mental de autores invulneráveis como deuses e li, pela primeira vez, Gide e Clarice, Nietzsche e João Lins Caldas, Pessoa e Cornélio Penna, Tagore e Rachel de Queiroz, Virgínia Woolf e Nelson Rodrigues, Camus e Gilberto Freyre, Washington Irving e Murilo Mendes, Schopenhauer e José Geraldo Vieira, além da obra poética de Bandeira, Cecília , Henriqueta, Jorge de Lima, Drummond e Cassiano Ricardo, que logo depois orientaria  minhas primeiras tentativas poéticas.

 

E, pairando sobre esses autores e, confundindo-se com a multiplicação espectral da realidade que os livros proporcionam, a presença de uma amiga atenciosa com quem podia conversar sobre essas leituras que se acrescentavam a tudo que eu já lera, levado pelo instinto do que busca baudelaireanamente o seu semelhante, ou, ainda, esclarecido pela experiência de minha avó materna, uma mulher culta e nervosa que sabia escrever e conversar com fluência e espírito.

 

Imbuído do sentimento de gratidão devido ao inefável licor vertido por esses livros e pelas palavras de Dona Gena sobre o meu espírito, escreveria, anos depois, ‘’Paraísos de Papel’’, numa superação da impotência, da humilhação e da angústia, ao tempo em que vivia em Rondônia, um lugar que os cabalistas afirmam ser um dos ‘’portais’’ do inferno, ou segundo outros, uma terra de expiação e desdita.

 

Ali, sozinho e injustificado, atormentado pelo desejo de criar uma obra, comecei a escrever “Paraísos de Papel”, mergulhado na paz da Biblioteca Pública Francisco Meireles, da qual tornei-me um desfrutador constante e notado por todos. Algumas vezes, fazia-me transportar pela memória involuntária à minha adolescência no Açu e a uma outra biblioteca, forjada por Dona Gena, como uma pousada para o prazer e a perdição de alguém que desde cedo sabia que o seu verdadeiro destino seria a literatura.

 

E, por sabê-lo, muito antes que uma cigana de passagem pelo Sítio Estevão o dissesse, ao interpretar as linhas da minha mão, dispus-me a criar o meu próprio cânone, no âmbito sereno de uma ordem, não obstante ignorasse ainda que Jung havia incluído a leitura na mesma categoria dos sonhos e, talvez, dos pesadelos.

 

Por alguns segundos que todavia me pareciam eternos, eu voltava a ouvir Dona Gena discorrendo sobre suas leituras ou convocando suas lembranças de João Lins Caldas, poeta numeroso e único que antes de mim freqüentara sua biblioteca, privando por muitos anos da sua amável companhia e tornando-se, nessa longa convivência enriquecida pela admiração recíproca, o seu próprio mestre.

 

Algumas vezes, como prêmio laboriosamente conquistado, Dona Gena extraía de uma pasta um ou outro manuscrito do seu infortunado mestre e amigo e o lia em voz alta, dramatizando certos versos, tal como os ouvira há muito tempo da boca de Caldas, a quem reverenciávamos como a um altíssimo poeta.

 

Eu a ouvia, encantado, tendo entre nós sua mesa de trabalho ornada com dois grifos de bronze que sustentavam exemplares do Moraes e do Caldas Aulete, ambos herdados do seu pai, o engenheiro português Bernardino Maceira, de quem terá herdado mais que esses dicionários o gosto pela arte. Interrompendo-se em alguns trechos, para lembrar que Caldas chorara ao dizer-lhe este ou aquele verso, em seguida Dona Gena prosseguia a leitura, imprimindo à voz toda a emoção que o poeta comunicara através inflexões embargadas pelo sentimento.

 

Siderado pela diabólica palpitação daquelas vozes silenciosas, aprisionadas nos livros de uma biblioteca, vivi e morri de paixão com Tonio Kroger, Hamlet e Raskolnikov, para que no futuro tivesse motivos para refletir e escrever sobre a espécie de felicidade que resulta da usufruição da amizade e dos livros.

 

De súbito, chamado à realidade pela bibliotecária que, como uma divindade infernal anunciava o fim expediente, eis-me novamente caminhando com o meu obscuro destino pelas ruas de Porto Velho, ou de Milão, ou do Rio, ou de Buenos Aires, ou de Estocolmo, ou de Natal, pensando, sem escrever uma linha, na miserável contingência a que chamamos de condição humana.

 

Como pouco ou quase nada sabemos de nós mesmos, Dona Gena, sem o saber, cumprira fielmente o princípio básico que norteia a verdadeira e autêntica atividade intelectual – expresso na desinteressada transmissão do conhecimento.

 

À sombra benigna dessa e de outras bibliotecas que perlustrei e incorporei ao que sou e tenho sido ao longo desses fatigados cinqüenta anos, algumas vezes terei intuído que, como um dom gratuito atribuído por algumas potência celeste, recebi e perdi uma coisa infinita?    

 

[1990/2006]

Homenagem a Maria Eugênia [2-7]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

RUA FLORIANO PEIXOTO 354

Por Franklin Jorge

 

 

Dona Gena atravessa o crepúsculo com dignidade e estoicismo, dedicada a observar o espetáculo da vida cotidiana.

 

Espírito lúcido e atilado, Maria Eugênia Maceira Montenegro, Dona Gena, para os queridos, vibra com a literatura, que considera a melhor terapia para a alma; uma forma de lenimento das horas ruins e dos anos tortuosos; um ofício, enfim, que deixa a sensibilidade alerta e serve de consolo nos desenganos.

 

Nascida em um dia 7 de outubro, há oitenta e oitos anos, ela acredita que a imaginação fertiliza o deserto e aconselha que o escritor escreva, bem ou mal, vulgar ou genialmente, como disse Ramón Nieto. Mas escreva. Sem descanso, e sempre. Escrever é entregar-se a uma longa paciência. Esta, a lição que nos oferece, haurida da sua experiência.

 

Conversamos no terraço da casa do seu cunhado, em Petrópolis, onde se encontra, descansando, em sua passagem por Natal. Dona Gena exprime a serenidade de quem viveu em plenitude cada momento da sua vida. Uma vida em claro, generosa, aberta às percepções.

 

Conhecia-a, ainda menino, em seu bonito solar da Praça Getúlio Vargas 19, no Açu, cidade que a acolheu em dezembro de 1938. adolescente, freqüentei assiduamente sua biblioteca, formada pelo que havia de melhor em autores e obras. Cecília Meireles (sua predileta), Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Machado de Assis, Cornélio Penna, Drummond, José Geraldo Vieira, Gilberto Freyre, Thomas Mann, André Gide, Henry James, Huxley, Oscar Wilde, Verlaine, Montale, Gogol, Dostoievski… Um verdadeiro festim para o espírito.

 

Dela ganhei todo o Shakespeare, magnificamente ilustrado por John Gilbert, uma raridade que ela me destinou em testamento. Quando soube que me colocara entre os seus herdeiros, disse-lhe francamente que preferia não ter sabido disto, porque certamente, por mais que a quisesse, não poderia responder pelo meu desejo de ter minhas mãos, o mais rapidamente, aquela preciosa coleção. E acrescentei que ela me colocara um problema moral, algo que certamente me pesaria na consciencia, pois a partir daquele instante eu ficaria ansiosamente á espera do afortunado dia em que teria entre as mãos, como uma posse definitiva, toda obra de Shakespeare que ela me prodigava… Dona Gena achou graça e antecipou a entrega dos 24 volumes…

 

Mineira, nasceu na antiga cidade de Lavras do Funil, filha de português e de brasileira. Aqui, tem vivido com a graça de Deus, criando e fazendo o bem. Notável como prefeita de Ipanguaçu, onde criou biblioteca e teatro, pertence à Academia Norte-rio-grandense de Letras. Recentemente [por iniciativa do deputado Valério Mesquita], foi distinguida com o título honorífico de “Cidadã Norte-rio-grandense”, recebido em sessão solene na Assembléia Legislativa.

 

Dona de uma conversa agradável e instrutiva, retorna sempre à sua lembrança o sagrado nome do poeta João Lins Caldas, a quem reconhece como o seu mestre, após terem se conhecido, há mais de sessenta anos, na Fazenda Picada. Caldas era um prodigioso ser nietzscheano. Alguém que escreveu versos viscerais e aprendeu que sangue é espírito.

 

O poeta tinha parentesco com o seu marido. E costumava passar dias na Fazenda Picada, ruminando poemas, quando não lendo-os para a bela e jovem amiga. Caldas também gostava de caçar nas matas ralas da Picada. E, munido de embornal e espingarda, concedia-se o aposto de “Capitão Caldas”, lembra a amiga nessa conversa enobrecida pelo ouro do crepusculo.

 

Para Maria Eugênia, cujo nome significa “a bem nascida”, a vida adquire sentido através do prazer das relações humanas e da satisfação da beleza que a arte proporciona. Sem arte, a vida torna-se opaca e sem nenhum sentido. Eis a lição que deixa para os que lêem estas fracas linhas.

 

 

[2001]

O CENTENÁRIO DE NILO PEREIRA

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por Woden Madruga

Tribuna do Norte, Natal 01 de Outubro de 2009

 

Nilo Pereira, nascido em Ceará-Mirim, faria 100 anos no dia 19 de dezembro. Jornalista, escritor, professor de ensino superior, um intelectual perfeito, completo. Conferencista, fazia a delícia das plateias, auditórios lotados para ouvi-lo. Causeur sem igual. Viveu maior parte de sua vida no Recife onde, além de suas atividades intelectuais, múltiplas, foi também deputado estadual. Mas nunca esqueceu a terra onde nasceu. Poucos amaram tanto sua aldeia quanto Nilo amou Ceará-Mirim. Escreveu ele no prefácio da terceira edição de seu livro Imagens do Ceará-Mirim: “Sempre hei de voltar a Ceará-Mirim, para dizer à entrada da cidade, embora sem mais a companhia de Edgar Barbosa: Esta é a ditosa pátria minha amada.

Esta era a nossa saudação camoniana, que aqui repito, comovido, como se ele estivesse comigo, na hora litúrgica de rever o cenário encantado”.

Domingo passado Sanderson Negreiros, que assina as orelhas de Imagens do Ceará-Mirim e que também nasceu no verde vale, escreveu em seus Quadrantes, de Tribuna do Norte, sobre o centenário de Nilo dando conta de que a data começa a ser comemorada por instituições culturais de Pernambuco, ao mesmo tempo que chamava a atenção da gente daqui, mormente de sua terra, para que a data não desapareça na vala do esquecimento.

Será que o prefeito de lá tem acesso à leitura dos jornais? Bom, de Ceará-Mirim, se sabe que o Engenho Guaporé, onde Nilo Pereira foi criado (ele nasceu no Engenho Verde Nasce) e transformado em Museu Nilo Pereira, está fechado há vários anos, o prédio em processo de deterioração. O museu pertence à Fundação José Augusto, do governo do Estado.

Em Pernambuco (li na coluna de José de Souza Alencar, Alex, do Jornal do Commercio de Recife, de sábado, 26)  a Secretaria de Educação do Estado, o Conselho Estadual de Cultura, a Academia Pernambucana de Letras e a Universidade Federal de Pernambuco “irão realizar grande homenagem comemorando o centenário do professor Nilo Pereira”. A homenagem aconteceu segunda-feira, 28, na sede da Academia Pernambucana de Letras.

A nota de Alex acrescenta ainda que Helicarla Nely, aluna de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, faria uma conferência sobre o livro Imagens do Ceará-Mirim, tema de sua tese de mestrado.

Aqui por estas ribeiras esquecidas não se tem notícia de nada. Nem da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, da qual fazia parte Nilo, nem do Conselho Estadual de Cultura, presidida pelo poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, que tem raízes fincadas no mesmo chão de massapê de Ceará-Mirim.

Aliás, a Academia esqueceu os centenários de outros dois grandes nomes de nossa cultura, ambos de seus quadros: os escritores Manoel Rodrigues de Melo e Raimundo Nonato da Silva.

 

Homenagem a Maria Eugênia[1-7]

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Da série: “Açu, Mitologia e Vivências” - [08-15]  
UMA BELA SENHORA
Publicado em 04 de Outubro de 2008

 

Por Franklin Jorge

 

Dezembro, 1938.

 

A bela senhora olhava através dos vidros embaçados a sucessão de manchas coloridas que prefiguravam a cidade desconhecida sob o céu carregado de nuvens. Ao seu lado, o esposo segurava-lhe a mão onde uma aliança prolongava o brilho do anel de noivado. Pensaria nas montanhas de Minas, em Lavras do Funil, na Rua Dona Inácia, onde nasceu e passou toda a vida. Pensaria, sobretudo, na vida que a aguardava, numa terra desconhecida, certamente marcada por diferentes costumes.

 

Quarenta e nove anos depois dessa primeira noite em terras potiguares, Maria Eugênia– senhora Nelson Borges Montenegro – recorda-se que chegou aqui, debaixo de chuva, numa noite de Natal. Veja que bom augúrio: natal em Natal, exclama.

 

Rua Apodi, o endereço, onde já a aguardava à entrada toda a sua nova família reunida. Os donos da casa, Doutor Pedro Soares de Amorim, médico conceituado e chefe político, deputado estadual, e sua mulher, Dona Beatriz Montenegro de Amorim, tios do seu marido. Parentes. Amigos. Políticos, ali reunidos, para dar-lhe as boas vindas. Em seguida o copioso e interminável jantar à luz de velas, servido à francesa, em porcelanas de Limoges. Os empregados de avental branco de organdi sobre o costume escuro, enluvados, servindo em silêncio, sob o comando da governanta. O champagne espoucando das taças de finíssimo cristal. Brindes aos recém-casados, a troca de presentes e de votos. A família toda nos esperava somente no dia seguinte, motivo pelo qual os meus sogros não se achavam presentes. Tive uma ótima impressão de todos.

 

A cidade parecera-lhe acolhedora, provinciana, arborizadíssima, duma luminosidade estonteante. Era a segunda cidade à beira-mar que conhecia. Minas, terra montanhosa, como sabe, não tem mar. O que mais me encantou aqui foi a Redinha, praia rústica, na verdade uma aldeia de pescadores, sem eletricidade, na margem esquerda do Potengi, onde as famílias abastadas e tradicionais costumavam passar os meses do verão. Fiquei impressionada com o Forte dos Reis Magos e com Ponta Negra, naquela época, completamente desabitada.

 

Os primeiros dias foram de descobertas e passeios para conhecer a cidade, travar relações com a sociedade local e conviver com a família que escolhera pelo casamento. Os convites se multiplicavam, para almoços, para jantares, para chás. Na Redinha o convívio diário com três sábios, o Doutor Pedro Amorim, falando sobre as ciências e a lembrar Hipócrates; o desembargador Antonio Soares, a decantar a musa da História; e [trecho truncado]. Eu os ouvia enlevada, pensando nos sábios da Grécia antiga. Foi quando passei a encarar a conversação como uma arte, remanescente dos elegantes salões literários, já então em desuso. Quis me tornar digna de toda a consideração daqueles homens notáveis que cultivavam uma espécie de arte especialíssima – a arte de viver em paz e com dignidade. Todos eles tinham excelentes bibliotecas e estavam informados de tudo o que ocorria no mundo, em todos os ramos do saber, inclusive o da literatura que já então me apaixonava. Sentia-me, pois, lisonjeada por sua atenção.

 

Enfim, chegara o dia da viagem à propriedade da família, em Ipanguassu, um dia inteiro de automóvel desde Natal. No inverno o trajeto se tornava ainda mais longo, por causa das estradas de barro cheias de buracos. Somente muito raramente um governante se lembrava de mandar consertá-las, geralmente em tempo de grandes estiagens, quando parte da população abandonava suas casas em busca de trabalho e comida. Eram criadas então as chamadas Frentes de Trabalho, quando grande parte dos recursos eram desviados por gestores espertos que aproveitam a desgraça alheia para forrar os bolsos. O desvio por Cerro Corá era obrigatório. Maria Eugênia chegou exausta.

 

Meu primeiro impacto, no Vale do Assu, foram os rios secos. Senti um choque quando Nelson me disse, Agora vamos atravessar o rio Assu. Eu olhei em volta, espantada. Nelson, cadê a água?

 

A paisagem do Rio Grande do Norte despertou dupla impressão em Maria Eugênia. A do Agreste ubérrimo, com o mar à vista, muito verde e fosforescente, surdo aos apelos do imobilismo. E a do sertão, uma paisagem monocórdica e terrosa, cinzenta, abrasada pelo calor. Muita planície e a solidão da planície. Faltavam-lhe os rios, as cachoeiras, os lagos, as montanhas. Achei a paisagem do sertão um pouco monótona e previsível.

 

Num espaço de poucos dias, o encontro com duas paisagens muito diversas e peculiares. Na região Agreste do estado, chuvas, normalidade, fartura. No Sertão, a seca braba trazendo o desespero para milhares de famílias que não tinham um punhado de feijão para botar na panela. Por toda a parte, desolação e fome, muita poeira e calor. Nos cercados, os animais urrando de sede, seguidos por bandos de urubus à espera da carniça. A cidade do Assu, ao contrário das prósperas cidades mineiras, reduzida à decadência, dominada por uma política partidária acirrada, mesquinha, indiferente às necessidades dos mais desvalidos. Fiquei muito perturbada com tudo o que via.

 

Tudo me surpreendia e espantava. Os xique-xiques inóspitos, a estranha flor da macambira, os espinhos e o capim, crestado pelo sol, soterrado sob a poeira. O linguajar peculiaríssimo do povo, parecia-me um outro idioma. Eu tinha dificuldade de entender o que se dizia, embora o povo fosse muito prestativo e se esforçasse para me agradar.

 

Hospedada na Fazenda Picada, na casa dos sogros, o major Manoel de Melo Montenegro e Cândida Borges Montenegro, sentiu-se extremamente desconfortável. Não havia água encanada. O casarão antigo, sem forração, de piso irregular, o telhado coberto de picumã, a cozinha enorme com o seu fogão de trempes e um forno de pedra, usado nas grandes ocasiões. Panelas de barro. Pratos de ágata. A água sem tratamento, armazenada em potes e quartinhas. Fiquei aterrada diante daquele mundo primitivo. Além disso, não havia jovens naquela casa. Somente velhos e eu não estava acostumada a conviver com a velhice. E, o pior de tudo, não me consentiam fazer nada. Nem mesmo erguer uma palha. Comecei a me sentir inútil, emparedada ali, em meio a uma confraria de velhos.

 

Naquela casa assombrada havia um quarto misterioso, cheio de coisas sem uso. Baús de trinco arrebentado. Chocalhos sem badalo, selas, mantas e arreios sem serventia amontoados por toda parte. Camadas superpostas de poeira e teias de aranha. De vassoura na mão, Maria Eugênia fez uma limpeza geral, jogando fora tudo o que não prestava mais. Depois, entusiasmada, de serrote em punho, começou a decapitar os arabescos dos móveis, o que provocou a zanga do sogro, que via assim os móveis herdados de seus pais desfigurados. Foi uma coisa séria.Um deus-nos-acuda. Nelson, sempre obediente à vontade do pai, ficou entre a cruz e a espada. A verdade é que alterei a ordem que reinava naquela casa havia gerações.

 

A figura que mais me impressionou naquele universo familiar foi a do meu sogro. Sua palavra era a lei de um homem enérgico, acostumado a mandar e a ser obedecido por filhos e agregados. Era desses homens que mandavam um fio do bigode como prova de compromisso. Aos meus olhos, parecia um daqueles patriarcas do Velho Testamento. Já a minha sogra era humilde e carinhosa. Submetida àqueles costumes arcaicos, não discutia nunca. Aceitava tudo com resignação, quando não com alegria. Muito católica, queria me converter ao catolicismo, porém persisti em minha fé e nunca renunciei ao presbiterianismo. Quando menina, em Lavras, um padre me deu um beliscão porque eu estava na igreja com um vestido de mangas curtas. Noutra ocasião vi um padre dar um pontapé num fiel, porque ele estava mal ajoelhado… Minha fé, portanto, sofreu um grande abalo; minha fé na igreja católica, bem entendido… Eu destoava de tudo aquilo. Foi quando começaram a pensar que eu tinha um parafuso de menos.

 

Passei a observar toda aquela gente que compunha um mundo muito diverso de tudo quanto eu conhecera. Notei Sinhá Rita, ex-escrava incorporada à família. Herança de minha sogra, de quem cuidara desde pequena, fora rainha nos tempos da escravidão. Negra centenária, de pequena estatura, era muito disposta, apesar de velhíssima. Chamava a minha sogra de madrinha e se adoçava toda quando se referia a ela. Coringa, antiqüíssimo na cozinha, passava os dias mexendo tachadas e mais tachadas de leite, as unhas muito longas desfiando a coalhada nas urupemas. Entranhara-se nele, por causa desse trabalho, o odor peculiar dos queijos que arrumava com muito cuidado sobre jiraus suspensos. Tinha os pés tortos ou coengos, como se dizia na Picada. Era um bicho calado, que se tornava engraçado quando bebia.  Só bebia aos sábados, nas feiras. Havia ainda, entre os agregados, Mané Chico e Seu Zeca, irmãos naturais do major. Seu Zeca era um homem bonito. Louro, alto, um porte aristocrático. Sonhava o que eu queria. Mal eu pensava numa coisa e ele já estava tomando as providências para torná-la real. Mané Chico foi o professor de meu marido, ensinando-o a lidar com a terra. Era de uma ciência extraordinária. Sabia, como ninguém, interpretar os sinais da natureza. Assim podia predizer com muita antecedência se o ano seria bom ou mal de inverno.

 

No entanto, Maria Eugênia considera importante a convivência com as pessoas desse mundo, às quais, reconhece, deve muito. A época era difícil. Em 1941, descobriu que não estava preparada para enfrentar o espetáculo da miséria que se agravara com a continuidade da estiagem, que multiplicara o clamor dos suplicantes que acorria em grandes levas até a casa grande da Fazenda Picada, cobertos do pó das estradas, esfarrapados e sujos, a privação inscrita nos olhos brilhantes. Notei que não havia assistência do governo e tudo dependia da boa vontade e da disponibilidade material dos proprietários rurais que, frequentemente, não podiam enfrentar sozinhos a situação de penúria dos flagelados da seca. A maioria estava empenhada em salvar os próprios haveres, como os animais, ficando os homens em segundo plano. Muitos deles, desesperados, abandonavam suas casas e partiam em busca da sobrevivência, às vezes, noutros estados. Era um espetáculo pungente ver toda aquela miséria em carne viva, enquanto o governo bem instalado permanecia em estado de inércia em meio à calamidade. Aquilo foi me deprimindo…

 

Todos os dias, ao levantar-se, esbarrava com os alpendres da casa grande coalhados de mulheres, crianças e velhos andrajosos a pedir alimentos e socorro médico. Em contato com aquela realidade, pensei que ia enlouquecer. Cada vez mais abalada, fui consultar o doutor João Machado, discípulo da psicanálise, que me receitou uma viagem de recreio, para espairecer o espírito fatigado. Nelson mandou-me passar no Rio de Janeiro e em Minas, onde reencontrei minha família e as montanhas azuis. Ao retornar à Picada, depois de alguns meses de ausência, compreendi que teria de descobrir algo para fazer.

 

A principio, por falta de ter o que fazer, andava com um serrote na mão, reformando os móveis que vinham de um outro século. Mandei remover belas pedras de mármores que recobriam algumas mesas. Depois, esgotada a matéria-prima dos móveis, passei a ler romances de manhã, de tarde e de noite. Todas as tardes gostava de visitar um morro que havia diante do casarão. Havia ali uma cabana, onde ficava lendo ou contemplava o mundo, os carnaubais ao longe, o crepúsculo de fogo iluminando a terra, a lagoa açoitada pelos ventos, um oásis em meio à paisagem inóspita.

 

Amante da leitura, desde menina, começa a compor uma biblioteca. Lê compulsiva e desordenadamente, Sartre, Clarice Lispector, Thomas Mann, Pirandello, José Geraldo Vieira, Shakespeare, Ribeiro Couto, Tagore, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Oscar Wilde, Cornélio Penna, Machado de Assis, Henriqueta Lisboa, Dostoievski, Drummond, Yeats, Colette, Proust… Uma biblioteca inteira. Conhece, enfim, João Lins Caldas [1888-1967], que seria o seu mestre. Aparentado com o Major Montenegro, o excêntrico poeta visita às vezes a Picada, demorando-se alguns dias. Entusiasmada, passa a pesquisar a literatura norte-rio-grandense, relacionando-se com os escritores Edgar Barbosa, Luis da Câmara Cascudo, Manoel Rodrigues de Melo, Américo de Oliveira Costa, Palmira e Carolina Wanderley. Descobre que o Assu dera grandes nomes à literatura, especialmente à poesia. Começa a escrever e, em 1962, estréia com um livro de memórias, “Saudade, Teu Nome é Menina”, que merece um precioso prefácio de Cascudo.

 

 [1979]
 

 

 

ACADEMIA HOMENAGEIA MARIA EUGÊNIA

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Da Redação

Natal - Transcorre no próximo dia 7 de outubro o centenário de nascimento da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, escritora mineira que se tornou norte-rio-grandense ao casar-se em 1938 com o engenheiro agronomo Nelson Borges Montenegro, de tradicional familia do Vale do Assu, politico e proprietário rural em Ipanguassu, de onde foi prefeito e elegeu-se deputado estadual.

Cumprindo um dos seus ritos mais tradicionais, a evocação dos mortos, a Academia Norte-rio-grandense de Letras - da qual Maria Eugenia fazia parte - promoverá uma sessão solene dia 6 que terá a academica Anna Maria Cascudo Barreto como oradora. Eram ambas grandes amigas e a escolha não podia ter sido mais adequada, assegura Franklin Jorge.

Associando-nos à comemoração, publicaremos aqui todos os dias, até 7 de outubro, parte do que o escritor e jornalista Franklin Jorge produziu sobre a vida e a obra da escritora, que conheceu quando tinha apenas 14 anos e passou a frequentar a sua biblioteca particular, instalada num velho casarão colonial à Praça Getulio Vargas 19, na cidade do Assu. Uma amizade que os uniu por mais de 40 anos, até a morte da escritora após um longo sofrimento moral e físico.

Dando inicio a estas publicações, abrimos a série reproduzindo um texto de autoria do ensaista e professor do Departamento de Letras das Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Márcio de Lima Dantas, aqui publicado, acompanhado dos respectivos comentários dos leitores.

Quem quiser enviar depoimentos sobre a vida e a obra da escritora, asseguramos aqui a sua publicação, numa homenagem singela á memória de uma mulher admirável que, além da literatura e das artes plásticas, dedicou-se tambem á politica; foi prefeita de Ipanguassu, quando construiu a Biblioteca Pública Poeta João Lins Caldas e o Teatro Municipal Sinhazinha Wanderley, que os prefeitos que a sucederam extinguiram. Atualmente o município não tem biblioteca nem teatro…

Eis o que escreveu o professor Márcio de Lima Dantas em 19 de maio de 2009: 

DAS BODAS ENTRE A MEMÓRIA E O EXÍLIO

 Por Márcio de Lima Dantas

Professor de Literatura Portuguesa da UFRN e ensaísta

mdantas7@bol.com.br

A meu ver, o que caracteriza a literatura autobiográfica da escritora, poeta e ensaísta Maria Eugênia Maceira Montenegro é o fato de ter sido edificada sobre um lastro de humilde sinceridade, de quem não está à procura de alinhavar experiências de vida visando plasmar um mito, inscrevendo seu número na cena literária do estado do Rio Grande do Norte. O livro Saudade teu nome é menina: memórias de uma menina feia, sua obra-prima, rege-se sob o postulado de uma necessidade imanente.

 

Quem conhece-a de perto sabe a envergadura dessa potência que a fez se embrenhar pelo mundo da literatura, embora seja uma pessoa interessada nos inumeráveis flancos da realidade. Sua voz sincopada, com uma suave nuance daqueles habituados ao mando, expressa uma sanguínia ancestralidade de quem se sente na obrigação interior de riscar seus rastros na História do lugar onde viveu, mesmo que tenha trocado “os cabelos verdes das montanhas” de Minas Gerais pelas periódicas secas da Várzea do Açu.

 

O livro é estruturado em capítulos breves, como se fossem crônicas autônomas, interligadas por uma cronologia tacitamente implícita. Com efeito, cada parte vale por si mesma, lembrando um pouco a maneira como Machado de Assis organizou os livros Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas: esquetes independentes, encerrados por uma síntese do que foi discorrido, encerrando na cabeça do leitor uma imagem mental rutilante e semanticamente densa.

 

Detentora de uma enorme faculdade de construir arrojadas e belas metáforas, junta-se a isso uma notável capacidade de entregar generosamente ao leitor os elementos constituidores de uma paisagem ou ambiente, para que se produzam imagens psíquicas  nítidas que possibilitam de exilar momentaneamente o leitor da realidade nem sempre apetecível.

 

Aí é que entra a principal qualidade do livro. É que a linguagem consegue mesclar revérberos de uma oralidade advinda de uma narradora com uma retórica requintada, plena de ressonâncias ancestrais (seu pai era português; sua mãe, mineira de descendência burguesa) somando-se a um fluente manuseio das palavras no interior das frases, extraindo cadências sinuosas, enlevando o leitor e conduzindo-o ao mágico mundo do esquecimento e da quimera que a literatura cria.

 

O fato é que a linguagem suplanta despoticamente qualquer tentativa de aplicabilidade de uma teoria crítica rastreadora de índices, objetivando enquadrá-los em categorias ou conceitos. A prosa clara e escorreita seduz o leitor para mergulhar despido dos seus conhecimentos acadêmicos ou autodidatas. O lúdico se instala, seduzido pelas belas imagens contraídas pela menina-personagem quando do seu contato com o entourage que a circunda: flores, familiares, eventos do cotidiano são rastreados para que revelem uma essencialidade capaz de edificar um indivíduo com uma enorme responsabilidade perante a vida.

 

Contudo não se pode fugir à constatação de que a autora se permitiu uma excessiva liberdade no manuseio da linguagem, mormente quando se deixa arrebatar pelas exclamações no final de frases adjetivadas possuídas por enlevos incontroláveis e sentimentalistas. Sorte sua a de ter aposto na apresentação do livro o “sem pretensões literárias”, recurso que, de certa maneira, justifica os arroubos encomiásticos.

 

Quando, no primeiro capítulo do livro, evoca sua primeira recordação – a mordida do seu primeiro amiguinho de infância –, ou seja, a dor causada pelos dentes do garoto no seu pequeno seio de menina, a autora sutilmente nos sugere a motivação filosófica fundadora de toda autêntica literatura: o insofismável sofrimento humano.

 

[O professor Márcio de Lima Dantas publica aqui às segundas-feiras, mas nas últimas semanss, por problemas técnicos, o tem feito irregularmente...Nossas desculpas] 

                                                                                                                                            

 3 comentários para “DAS BODAS ENTRE A MEMÓRIA E O EXÍLIO”

.Irma Soledade disse: 19 de maio de 2009 às 23:48

Prof. Márcio: Não sei se D. Maria Eugênia, pessoa bonissima que teve um fim tão cheio de melancolia, teve a satisfação de ler este artigo. Há uma grande ternura nas suas palavras e mais que o conhecimento de um especialista a sensibilidade de quem é capaz de perceber o fenômeno humano em sua essencialidade. Quero que saiba que as lágrimas me vieram espontaneamente e de maneira irreprimivel ao ler este precioso ensaio para uma obra que tem todo o encanto da infância.

.Irma Soledade disse: 19 de maio de 2009 às 23:51

Estou ainda tão perturbada e comovida com a leitura desta página que esqueci de acrescentar o que me moveu a escrever estas linhas: seu ensaio é uma oração. O senhor, sendo um intelectual, é também um espirito religioso.

.Rizolete Fernandes disse: 21 de maio de 2009 às 10:27

Prof. Márcio,

Seu texto “As bodas entre a memória e o exílio” reinventa, na realidade, o casamento do conhecimento com a poesia. Como sempre, um passeio que explora e desnuda sentimentalmente a alma. Bonito!

Sua admiradora, a poeta

Rizolete Fernandes

 

 

NUM DIA COMO ESTE…

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Por Franklin Jorge

Acordei hoje com  um gentil telefonema de Anna Maria (Cascudo Barreto) desejando-me um bom dia especial pelos meus 57 anos.

Há mais de 40 anos, todo dia 8 de setembro, ela tem a delicadeza de lembrar-me do meu aniversário, uma data que a rigor não comemoro desde a minha adolescencia, apesar do esforço de minha avó materna no sentido de assinalar a passagem deste dia, coincidentemente, como gostava de enfatizar, o mesmo do nascimento de Maria, a mãe de Jesus.

Para a minha avó era um dia tão especial que ela achou de marca-lo de maneira definitiva e inesquecivel, enterrando-se nesse dia, em 1998, após cerrar os olhos para a vida em 7 de setembro…

Na verdade, não gosto de aniversários, nem de casamentos, nem de divórcios, nem de batizados, nem de festas natalinas. De reuniões sociais, prefiro os velorios que com a passagem do tempo fui descobrindo que têm natureza festiva, quando todos - exceção naturalmente do morto - confraternizam instintivamente com o fato de estarem vivos. Eu, porém, aprecio os velorios por outros motivos, principalmente por encontrar todo mundo que desejaria encontrar em um só lugar. É a meu ver a melhor festa que há. No minimo, a mais alegre e a mais propicia às revelações.

Anna Maria herdou do pai, o grande humanista Luis da Câmara Cascudo, esse gosto pelos aniversários. Ambos  vêem no aniversário, apesar da sua natureza mundana, um aspecto sagrado, quando nos é dado o privilégio de agradecer a Deus o dom da vida.

Como disse, não comemoro aniversário, especialmente agora que estou na iminencia de tornar-me um sexagenário, ou seja, alguém do terceiro sexo, como diria Villaça, Antonio Carlos Villaça, repetindo a deliciosa boutade de Alceu de Amoroso Lima, que reproduzo a seguir:

“Há tres sexos; o masculino, o feminino e o sexagenário”…

SARNEY É ALVO DE REPÚDIO EM DATA CIVICA

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

 

Do Y! Posts

 

Em Brasília, São Paulo e no Recife, as comemorações do 7 de Setembro foram marcadas por protestos contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Na Esplanada dos Ministérios, cerca de 150 manifestantes, de acordo com a Polícia Militar, romperam uma das grades de segurança, invadiram o gramado e conseguiram chegar a menos de cem metros do palanque onde estava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles cobravam a saída de Sarney da presidência do Senado.

“Sou brasileiro, sou patriota, mas eu não sou idiota”, gritavam os manifestantes, em sua maioria estudantes de escolas secundárias e da Universidade de Brasília (UnB). Com as caras pintadas e narizes de palhaço, muitos carregavam cartazes e faixas com frases de efeito. Sarney não compareceu ao desfile para, segundo sua assessoria, descansar em São Luís (MA).

Em São Paulo, cerca de 300 pessoas ligadas ao movimento Fora Sarney reuniram-se na Avenida Paulista, perto da Alameda Casa Branca, por volta das 15 horas, também para protestar contra o senador. No Recife, a 15ª edição do Grito dos Excluídos serviu de palco para manifestações. No entanto, os pedidos de “fora Sarney” e pelo fim do Senado foram feitos apenas por integrantes da central sindical Conlutas e dos partidos políticos PSTU e PSOL.

Quando o grupo chegou, com faixas vermelhas e folhetos, o Grito dos Excluídos já havia iniciado a caminhada de cerca de dois quilômetros da Praça Osvaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, à Igreja do Carmo, na área central da cidade. Os manifestantes contrários a Sarney se posicionaram no final da passeata, que começou com mil pessoas e encerrou o trajeto com duas mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar.

A PAISAGEM HUMANA DE MACAU (1-3)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

 

DEDÉ, UMA MULHER SEM MENTIRAS NA BIOGRAFIA

Por Franklin Jorge

Especial para a Folha de Macau – Edição comemorativa dos 143 anos do municipio

Macau - Há 40 anos vivendo em Macau, onde tornou-se conhecida por seu carisma e por sua integridade, Maria José Fernandes Olegário, a Dedé para todos que a conhecem, orgulha-se de ter nascido em Tabatinga, no Alto do Rodrigues, mas nutre um afeto especial pela cidade de Macau que em sua opinião passou de repente por uma grande transformação. Macau foi maravilhosa para mim, enfatiza.

Quando cheguei aqui, no Porto de São Pedro, o bairro era uma lixeira cheia de gabirus. O mau cheiro estava por toda a parte. Em vez de calçamento, morros de areia. Hoje é o bairro que o senhor vê…

Aos 49 anos, só não é mais feliz porque é hipertensa e por causa dos assaltos de que tem sido vitima e da dificuldade de relacionamento com o pai. Homem violento, apesar de seus 79 anos, recentemente deu uma surra medonha numa filha que teve que procurar socorro médico. Estes os motivos porque não é inteiramente feliz, embora creia em dias melhores.

Dedé é proprietária do Bar Esperança, um lugar modestíssimo onde só vende bebida alcoólica, logo ela que diz detestar bêbados. Mas, viver é um desafio constante. Alegre, apesar das vicissitudes, ela me conta que começou a trabalhar ainda criança para ajudar a criar os irmãos, carregando areia da praia para vender aos fregueses de seu pai, quando ele bebia e ficava incapacitado de produzir alguma coisa para o sustento da família. E ela e o irmão mais velho transportavam a areia fornecida por um velho para atender aos pedidos dos fregueses.

Além do bar, dedica-se também à criação de galinhas, o que faz como uma terapia, para ocupar todo o seu tempo e não ficar em casa, pois do contrário acha que já teria morrido. Sou ativa e hipertensa. Nasci pra lutar. Não sei ficar parada dentro de casa…

Seu desgosto decorre do conflituoso relacionamento com o pai, que batia em sua mãe. Muitas vezes, quando voltava da escola, encontrava a mãe cabisbaixa, envergonhada, chorando, porque o marido lhe batera e até, lhe quebrara o braço. Ele bebe muito e não quer bem aos filhos. Não deseja o bem para os filhos, diz, a voz embargada.

O velho costuma beber e, por último, acertou-se com uma mulher descasada que costuma usar drogas com o próprio filho. Esse relacionamento é motivo de freqüentes conflitos. O velho tem uma aposentadoria e a pensão que lhe deixou a mulher, falecida faz algum tempo. Ele adora confusão… Se ele aparecesse aqui agora o sossego ia embora.

Dedé já teve muitos amores com pessoas do mesmo sexo. Por isso, diz que foi discriminada. Talvez essa desavença com o pai tenha a sua secreta origem nessa opção que hoje, para ela, tornou-se uma coisa corriqueira e não causa mais tanto escândalo como antes. Está nas novelas de televisão, nos filmes, nas publicações. Mas, naquele tempo, quando ela tinha apenas dezesseis anos e se deixou seduzir por uma camarada, a coisa era diferente. Caí em tentação…

Conversamos no terraço do seu bar, à Avenida do Centenário, no Porto de São Pedro, um bairro originalmente de pescadores, mas hoje já bastante descaracterizado, embora os pescadores continuem lançando suas redes e cuidando de seus barcos. Ah, tudo está muito mudado por aqui. Até bem pouco tempo o mau cheiro tomava conta de tudo. Até a brisa estava contaminada.Estou neste local desde 1970.

Muita gente fala mal desse prefeito, que é ruim para muita gente, mas eu estou gostando do trabalho dele. Macau estava suja há muitos anos e agora está ficando limpa. Durante 40 anos vivendo aqui, nunca tinha visto a cidade limpa. Falo o que todos estão vendo, pois tenho o meu meio de vida e não preciso dele para viver. Eu não vivo na casa dele nem ele vive na minha, mas me alegro pelo que ele está fazendo…

Dedé sempre teve em mente tornar-se independente e não ficar sob o jugo de ninguém. Ao contrário dos irmãos que trabalham para os outros, ela sempre teve seu próprio negócio. Sempre fui vendedora. Comecei vendendo baganas pelas ruas de Macau. Vendi muita bagana nas portas dos colégios. Só no Colégio da Ressurreição vendi durante 19 anos. Depois fui para o Mercado, onde tive um bar, até que vim pra cá…

Quando cheguei aqui, neste local, não havia casas não. Era tudo morros e descampados. Agora tornou-se um interior bonito. A única coisa que estraga Macau hoje é a violência. Os assaltos se tornaram uma rotina. A cidade não tem segurança. Já fui assaltada aqui em casa duas vezes. Os meliantes atacam em duplas. Quando fui assaltada pela primeira vez os dois estavam de moleton, capuz e boné. Mesmo assim reconheci um deles pelo andar. Eles me deram coronhadas que me deixaram desnorteada e sem ação. Eu liguei para a policia. Da primeira vez eles vieram mas não deu em nada. Da segunda disseram que não podiam vir porque a viatura não tinha combustível… É essa falta de segurança que estraga Macau.

Tudo o que tem conseguiu com o seu trabalho, sem esperar nada de ninguém. Assim conseguiu, como autônoma, inscrever-se e inscrever a mãe na previdência social. Conseguiu aposentar a mãe, que ao morrer deixou uma pensão para o seu pai se regalar com uma mulher que ele próprio diz ser de vida livre, portanto, tem o direito de deitar-se com todo mundo.

Dedé quer o melhor para os seus. Ajuda aos irmãos e adotou uma sobrinha com quem divide seus dias. Tudo o que tenho, algum dia, será dela. Comprei essa casinha em 1990… Você já percebeu que tenho cabeça e que sou uma pessoa que pensa. Cabeça sobre os ombros não é enfeite, mas utilidade. Sempre as pessoas me deixam por que desaprovam o meu envolvimento com a minha família. Apesar disso, tenho sido muito desejada. Mas não curto jovenzinhas.

Quando já nos despedíamos, Dedé foi lá dentro e voltou com as mãos cheias de confeitos que, sempre sorrindo, nos ofereceu.

 

EM MEMÓRIA DE MARTHA SALÉM

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Faleceu no último sábado em Natal e  foi enterrada no Cemitério de Nova Descoberta dona Martha Wanderley Salém, assuense de velha estirpe, prima em segundo grau da Baronesa de Serra Branca, D. Belisária, primeira grande proprietária rural potiguar a libertar seus escravos e a recepciona-los com um jantar em que, vestida de touca e avental, os serviu solenemente da mesma maneira como se acostumara a ser servida.

Ainda menina, o pai a levou para conhecer a prima baronesa em seu solar, atualmente a Casa de Cultura do Assu. Uns setenta anos depois, D. Martha me contava que ficara decepcionada, pois esperava encontrar uma grande personagem, luxuosamente vestida e coberta de jóias, cercada de serviçais, e deparara com uma mulher simples, falando pouco e baixo, curiosa acerca dos familiares, modestamente vestida… Era D. Belisária uma dama ascética e piedosa, sendo o seu único luxo a carruagem puxada por duas imponentes parelhas de cavalos puro sangue que a transportava do Assu aos seus dominios de Serra Branca, em Santana do Matos. Dona Martha a descrevia como uma mulher “quase sem carnes, chochinha e sem graça…”

Amiga de mais de quarenta anos, adorava ouvi-la discorrer sobre o passado da nossa querida e velha cidade. Lembro-me a propósito do quanto aprendi sobre os hábitos alimentares dos assuenses há mais de 100 anos; dos assuenses, claro, da sua categoria social e de outras peculiaridades etnográficas que eu ia buscar no fundo da sua memória.

Filha de Minervino Wanderley, tesoureiro e administrador das propriedades e bens pertencentes à Paróquia de São João Batista, que apesar de santo chegou a ser um grande latifundiário, fez parte da primeira turma de alunas do tradicional Colégio Nossa Senhora das Vitórias, administrado por religiosas austríacas que lhe ensinaram três idiomas, o alemão, o inglês e o francês.

Voluntária avant la lettre, dedicou-se por mais de setenta anos a ensinar esses idiomas, especialmente o alemão que era a língua natal de suas inesquecíveis mestras estrangeiras. Há uns cinco ou seis anos, almoçando em sua companhia, perguntei-lhe se recebera alguma vez alguma manifestação de reconhecimento do governo alemão e ela respondeu-me que não.

Nesse mesmo dia – um domingo – ao voltar para casa, escrevi um artigo a respeito e, após publica-lo no Mensageiro Potiguar, mensário criado pela jornalista Nadja Lira, remeti-o ao embaixador alemão em Brasilia, encarecendo o pioneirismo de Dona Martha como propagadora entre nós do seu idioma. Pouco depois, ela foi procurada pelo cônsul que a homenageou, se não me engano, com uma comenda…

Por muitos anos lecionou sem cobrar nada dos alunos que escolhia, por simpatia ou por qualquer uma outra razão misteriosa, nunca por dinheiro. Ela me contou em certa ocasião que começara a ensinar após ter enviuvado, para preencher o grande vazio em que mergulhara e que se agravaria depois com a morte de um dos seus três filhos, o médico Emilio Salém.

Por muitos anos Dona Martha viveu em Mossoró. Soube muito de Mossoró por seu intermédio. Antes de conhece-la pessoalmente, conhecia sua casa no Alecrim, na Avenida coronel Estevão, famosíssima, justamente, porque ali morava uma mulher excepcional que se dedicava à pintura (era uma requintadíssima aquarelista), á jardinagem e ao idioma alemão.

Dizia-se admiradora dos meus escritos e muito do que escrevi sobre o passado do Assu colhi durante nossas conversas, a última num almoço memorável em sua casa. Sempre se fazia presente em minhas noites de autógrafos, como a do Natal Shopping, quando lancei meus “Fantasmas Cotidianos” e tiramos naquela ocasião a nossa única foto. Ela chegou inesperadamente, sem convite, na companhia de Martha Maria, dizendo-me que o fazia em nome do Assu.

Tinhamos em comum o mesmo tronco ancestral - Gaspar, o capitão da guarda do principe Mauricio de Nassau, que aconselhava aos filhos “seja sempre um fiel Wanderley” -, pela minha avó paterna, Diolinda, a querida “Vovó Diola”, uma autentica Wanderley  (da Fonseca) pernambucana…

O Assu perde em Dona Martha uma das suas últimas grandes damas. Fina, inteligente, dotada de multiplos talentos, eximia na arte da conversa.

 

UM ANO DE WWW.FRANKLINJORGE.COM

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Da Redação

 

Chegamos ao primeiro aniversario desta publicação lançada em 11 de agosto de 2008. Doze anos se  passaram desde então e tecidos com eles, dificuldade e satisfação, esperança e fé, sonho e realização.

 Neste momento tão especial para todos nós, deixamos ao leitor que nos prestigia que sintetize o que buscamos através do jornalismo e o que os outros pensam dos resultados desse esforço desmedido.

Com a palavra, João do Carmo Vilaverde, que nos acompanha desde o primeiro momento:

 

Parabéns Franklin Jorge pela passagem do primeiro aniversário desta publicação que foge ao lugar comum, em materia de jornalismo e no respeito que lhe merece a inteligencia dos leitores. Vocë alcançou uma posição de destaque, ao valorizar a interpretação e a analise em vez de reiterar a informação transmitida com a superficialidade apressada e característica de uma imprensa que dá sinais da sua ojeriza aos leitores que pensam sobre os fatos.

São muitos os acessos que deixam ver claramente o conceito que goza perante a opinião publica, uma posição duramente conquistada em mais de 30 anos de jornalismo, um jornalismo que sempre surpreendente por sua independencia, pela originalidade dos enfoques e principalmente pela coragem de se colocar contra a corrente.

Como editor, voce conseguiu reunir aqui grandes colaboradores, cada um notável  em sua area de atuação, como o Subprocurador Geral da Republica, Prof. Edilson Alves de Franca, e o Prof. Marcio de Lima Dantas, que destaco aqui não em prejuizo dos demais, mas por uma questão de empatia e preferencia intima.

Como seu admirador de muitos anos, torço pelo exito deste empreendimento que satisfaz ao paladar do mais exigente leitor.

Atenciosamente — João do Carmo Vilaverde.

BLOG ULTRAPASSA 100 MIL ACESSOS

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Por Franklin Jorge

Martins — Hoje é um dia muito especial para mim, pois esta publicação acaba de ultrapassar os 100 mil acessos, marca que esperávamos alcançar depois de 11 de agosto, data em que entramos na blogosfera com o objetivo de redescobrirmos o Rio Grande do Norte…para os norte-rio-grandenses. Ainda não alcançamos esse objetivo, pois carecemos de patrocinio e publicidade — a proxima etapa que enfrentaremos com o mesmo denodo.

Meu desejo seria, nesta desta, escrever um texto comemorativo, mas em transito e longe das minhas anotações pessoais sinto-me despreparado para fazê-lo. Também a emoção em vez de ajudar-me, atrapalha… Portanto, para não escrever tolices, páro por aqui. Gracias!