Por Ayrton Mugnaini Jr., colaborador do Yahoo! Brasil
“Uma vaidadezinha a mais”, como dizia/cantava o grupo Rumo, não faz mal a ninguém. Todo mundo gosta de receber algum prêmio, seja uma medalha de judô no primário ou um Nobel, e se for merecido melhor ainda.
Nobel, Oscar, Pulitzer, Esso, Grammy, o que nunca faltou foram premiações para tudo que se possa imaginar. Dá para fazer uma lista igualmente enorme só com os prêmios dedicados, exclusivamente ou não, à música brasileira, desde os pré-históricos Chico Viola, Roquette Pinto e Troféu Villa-Lobos aos tantos de hoje em dia, quase todos patrocinados por corporações de todos os tamanhos: Prêmio Multishow, Prêmio Tim de Música, Prêmio Shell, Prêmio Visa, Rival BR, MTV Video Music Brasil, a premiação da APCA, o Grammy Latino, o Prêmio Dynamite de Música Independente…
Todo mundo gosta de receber algum prêmio, dissemos - mas nem todos gostam de receber todos os prêmios. Há quem pense biblicamente e reduza esta “vaidadezinha a mais” ao “tudo é vaidade” ou não concorde com esta ou aquela premiação, como fez Gilberto Gil ao recusar o Golfinho de Ouro a ele conferido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1970: “Acho muito difícil que esse museu venha premiar a quem, claramente, sempre esteve contra a paternalização cultural asfixiante, moralista, estúpida e reacionária que ele faz com relação à música brasileira. Sempre estive contra toda forma de fascismo cultural de que o museu - à sua maneira - vem representando uma parcela no Brasil. [...] o museu sempre esteve contra o meu gorjeio, que sempre achou desnaturado, desarmonioso, inautêntico e incômodo; sempre esteve contra tudo que na música, no disco e na TV, tenha tido um sentido de abertura compatível com a liberdade criativa de um povo novo e fogoso como o brasileiro. [...] Que o golfinho volte para as águas tranquilas de sua insignificância.” Mas reações como esta são minoria: mostre-me dez currículos de artistas brasileiros conhecidos que não incluam algum prêmio. Especialmente desde o surgimento da televisão, quando podemos assistir em casa a uma cerimônia completa, com áudio e vídeo - algumas premiações até privilegiam o visual, como o promovido pelo canal Multishow e o MTV Vídeo Music Brasil.
Sem dúvida, há muito o que falar sobre os prêmios brasílicos dedicados, total ou parcialmente, à música, como o Prêmio Shell (surgido em 1981), o Prêmio de Música Brasileira (que já foi Prêmio Sharp, Prêmio Caras e Prêmio TIM e que, em 2009, seguiu em frente “independentemente da falta de patrocinador que pegou a todos de surpresa”, diz José Maurício Machline, criador e produtor do prêmio), o Grammy Latino (cujo diretor, Tom Gomes, lembra: “O maior número de membros votantes do Grammy Latino, tirando os Estados Unidos, é o Brasil”) e o Prêmio Visa (com três modalidades que se revezam a cada ano, premiando instrumentistas, vocalistas e esses grandes injustiçados que são os compositores).
Não faltam também curiosidades sobre as premiações, como a apontada por Paulo Eduardo Neves no seu blog sobre MPB em 2002: “Hoje em dia, nesta era de fusões de grandes empresas, fala-se muito em ’sinergia’ das propriedades de uma corporação. Como exemplo, pode-se ver o grande espaço que a revista Veja dedica para matérias (sempre elogiosas) sobre a MTV, uma emissora que, como tantas outras, tem praticamente apenas traço de audiência, mas é propriedade do mesmo grupo Abril. Fica esquisito o grande vencedor do prêmio, os Titãs, serem contratados da gravadora Abril Music, o braço fonográfico do mesmo grupo.
Já no Rival BR a coisa é mais familiar. A dona do teatro é a atriz Ângela Leal, que é mãe da atriz Leandra Leal, que por acaso apresentou o prêmio, que por acaso também é produtora do excelente grupo Cordel do Fogo Encantado, que por acaso ganhou o prêmio de melhor grupo. Quem sou eu para dizer alguma coisa, mas não seria legal para a respeitabilidade destes prêmios evitar este tipo de relação incestuosa? Ou uma presenciada por este que vos escreve, sobre a primeira edição do infelizmente efêmero Prêmio DiGiorgio de Música Sertaneja, em 1991, em que, veja só, João Mineiro e Marciano foram premiados como Melhor Dupla Masculina, As Marcianas (filhas do Marciano da dupla citada) como Melhor Dupla Feminina e Leandro e Leonardo como… Melhor Dupla. Na ocasião eu era colunista de música sertaneja na saudosa Folha da Tarde e comentei: “Será Leandro e Leonardo uma dupla de anjos, nem masculina nem feminina?”
O fato é que, sejam masculinos, femininos ou anjos, os participantes destes prêmios costumam ser apoiados pelas gravadoras apenas com o envio de lançamentos aos produtores, que os encaminham aos jurados, no caso de certames como o Grammy Latino e o de Machline. “Já no Multishow a escolha é feita pela audiência”, ressalva a assessoria de imprensa da gravadora EMI, complementando: “A EMI também não patrocina, divulga ou tem qualquer tipo de contato com os jurados.”
Por falar em gravadoras, nota-se nestas premiações presença cada vez maior de selos independentes. Um exemplo é o Prêmio Dynamite de Música Independente, criado e mantido pela Associação Cultural Dynamite. “O Prêmio Dynamite de Música Independente surgiu em 2002, quando a Revista Dynamite completou dez anos”, explica André Pomba Cagni, diretor da Dynamite, “e queríamos fazer um evento que premiasse a música feita fora do âmbito das grandes gravadoras.” E teve uma bela surpresa: “O que era para ser um projeto único, acabou virando uma premiação anual que pulou de 11.000 votos para um recorde de 160.000 votos e chegou a ter patrocínios de grandes marcas como Claro e Toddy. Eu creio que nestes sete anos a cena independente passou de coadjuvante a protagonista na produção musical não só brasileira como mundial.” Que o diga um dos premiados, o produtor fonográfico Luiz Carlos Calanca, que celebra 30 anos de seu sebo Baratos Afins, que deu origem ao selo homônimo em 1982.
Dois lançamentos da Baratos tiveram indicações de prêmios como o Sharp (o LP AMME, da cantora de pop-MPB Alzira Espíndola, em 1992) e o Dynamite (o CD Brasas Lisérgicas, da banda gaúcha Laranja Freak, em 2004), além de o próprio Calanca ter ganho um prêmio especial como nada menos que o inspirador do Prêmio Dynamite, como grande batalhador que sempre foi pela música independente, lançando artistas novos ou na ocasião sem gravadoras e de gêneros os mais diversos como Arnaldo Baptista, Lanny Gordin, Itamar Assumpção, Patrulha do Espaço, Jorge Mautner e Tom Zé. “Eu sou produtor, e acho super legal, acho isso um reconhecimento como produtor”, diz Calanca, “e acho que o artista fica mais feliz ainda.” Calanca se diverte ao lembrar que devido à emoção deixou cair o prêmio, cuja base era de plástico frágil e se descolou, e, presente à premiação no ano seguinte, viu que o prêmio Dynamite havia evoluído inclusive fisicamente, maior e mais sólido. “Fiquei enciumado”, brinca, “Bem que eu gostaria de receber um prêmio pesado como aquele, mas o Pomba me lembrou de que criou o prêmio Dynamite por minha causa, e então fiquei superhonrado. Este foi meu primeiro prêmio, de estatuazinha, e tenho o maior orgulho dele.”
Enfim, no Brasil os prêmios de música podem não chamar tanta atenção ou interesse quanto os festivais, mas sem dúvida têm um bom público e constituem grande motivação para artistas, produtores e gravadoras darem o melhor de si. E não digo nada se alguém resolver eleger - e, claro, premiar - o Melhor Prêmio de Música Brasileira.