Por Margarete Azevedo, da revista KaLunga
“Embora lhe faltasse cultura, era um homem muito inteligente que conseguia perceber a realidade com muita clareza…”
Xucro, iletrado, mal-educado, um moço de estrebaria são apenas alguns dos adjetivos que os historiadores usam para D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil. De apetite sexual voraz, teve 18 filhos dentro e fora do casamento, inclusive, com Domitila de Castro Canto e Melo, a quem concedeu o título de Marquesa de Santos. “Foi o mais apaixonado dos brasileiros, o mais agressivo dos jacobinos, o mais famoso antilusitano”, descreve Isabel Lustosa, historiadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro e autora do livro D. Pedro I – Um Herói sem nenhum caráter, publicado pela Companhia das Letras. Nesta entrevista, ela fala da infância do imperador, dos motivos que o levaram a decidir ficar no Brasil, sobre o episódio da independência, do seu casamento com a Dona Leopoldina etc.
Quais os principais contrastes na personalidade de D. Pedro I?
D. Pedro I nasceu em Portugal e veio para o Brasil com 9 anos. Passou uma parte importante de sua vida aqui. Ele viveu essa dualidade, que vai ser muito dolorosa durante o processo da independência. Ser o português que fez a Independência do Brasil é um aspecto de tensão em sua biografia, que durante o seu reinado como imperador será motivo de muitas pressões dos brasileiros e acabará resultando na sua abdicação em 7 de abril de 1831. Outra contradição em sua personalidade é que ele sempre se disse um constitucionalista, uma pessoa que defendia ideias liberais, o fim do absolutismo, uma monarquia constitucional e com um parlamento. No entanto, tinha uma natureza muito autoritária, e após 1823, quando dissolve a Constituição, reina até 1826 com poderes praticamente absolutos.
Pedro foi educado para suceder o pai?
Ele era o segundo filho de D. João. O irmão que reinaria antes dele morreu ainda criança, e com isso, ele virou o herdeiro do trono. D. João era um sujeito muito desconfiado, medroso, e via no filho um rival, que estava esperando ele morrer para herdar o trono. Tudo isso contribuiu para que D. Pedro não tivesse uma preparação para assumir o trono, e também o fato de ser uma monarquia que atravessou o oceano e veio se estabelecer aqui em situação precária. Ele foi mantido à margem das questões políticas importantes, inclusive, pelos ministros de D. João.Quando ele descobriu que poderia ser um governante?
A crise que marcou a volta de D. João a Portugal ocorreu entre 1820 e 1821. Começou com uma revolução para acabar com obsolutismo e fundar uma monarquia constitucional. Por conta disso, Pedro assumiu um certo protagonismo ao participar de algumas ações no Rio de Janeiro, no sentido de empurrar D. João para a monarquia constitucional. Mas Pedro fez isso por influência também das pessoas que o cercavam, principalmente militares e o conde dos Arcos. Quando o pai foi embora, em 1821, ele se tornou príncipe regente do Brasil.
Adotar o Brasil como pátria foi uma atitude sensata?
O começo de 1821 até a partida de D. João foi um período bastante tenso para Pedro, pois ele queria ir também para ser regente em Portugal. Houve essa alternativa, mas era mais fácil e conveniente se manter aqui no Brasil. Além disso, dona Leopoldina estava grávida do segundo filho.
As atitudes conservadoras e autoritárias de D. Pedro contribuíram de alguma forma para a sua abdicação?
Certamente. Houve uma manifestação pública para obrigá-lo a abdicar. A oposição o via como um príncipe autoritário, quase tirânico, que estava envolvido demais com as questões portuguesas. D. João morreu em 1826, e a questão da sucessão portuguesa tinha se colocado como mais um aspecto da duplicidade de D. Pedro. Ele também era o herdeiro do trono em Portugal e deveria ser coroado como D. Pedro IV. Porém, ele abdicou em nome da filha mais velha, Maria da Glória, que depois se tornaria a rainha de Portugal, dona Maria II. Ele ficou envolvido nesse processo de 1826 até a abdicação, comandando daqui as questões da Europa, inclusive, se posicionando contra o golpe que seu irmão, D. Miguel, daria em Portugal em 1828. Ele foi um mau administrador por causa do seu caráter impulsivo, inclusive, meteu o Brasil numa guerra desastrosa no Sul, que ficou conhecida como Guerra da Cisplatina. Tudo isso fez com que se armazenasse uma grande insatisfação contra ele, que o obrigou a abdicar em 1831.
Ele foi melhor governante do que o pai?
Não. Há uma frase no meu livro que é atribuída a Joaquim Nabuco, que destaca o problema das revoluções; sem os exaltados não é possível fazê-las, e com eles, é impossível governar. D. Pedro era um exaltado. Era a pessoa essencial para fazer a nossa independência por causa do seu temperamento, da capacidade de tomar decisões súbitas; no entanto, no dia a dia da política, era um desastrado. Enquanto reinou no Brasil, trocou dez vezes de ministério. Ele desacreditava seus ministros, se imiscuía em todos os assuntos e havia também um grande grau de corrupção que cercava as pessoas próximas a ele, principalmente a sua amante Marquesa de Santos, que teve um poder muito grande.
Pedro era bastante informal, não seguia protocolo. Como desenvolveu esse comportamento, considerando que a monarquia portuguesa tinha tradições feudais?
Por natureza, ele era uma pessoa do povo. Sentia-se muito mais à vontade entre os soldados, os cavalariços, as pessoas da rua, do que nos salões, em meio a intelectuais ou pessoas refinadas. Ele tinha maneiras bastante grosseiras, por isso, quebrava com frequência os rituais da monarquia. Não que ele fosse contra, pois vai valorizar bastante determinadas liturgias quando se torna imperador. Mas, sem dúvida, ele deu um toque de modernidade à sua corte. Era um desportista, gostava de correr a cavalo, de caçar. Tinha uma perspectiva moderna da monarquia. Não acreditava ser ungido pelos deuses; dizia que seu sangue tinha a mesma cor do sangue dos escravos. Embora lhe faltasse cultura, era um homem muito inteligente que conseguia perceber a realidade com muita clareza.
Ele tinha habilidades manual e musical?
Pedro era de uma família de musicistas, os Bragança. Além dessa tradição, ele tinha um bom ouvido, que lhe permitia tocar qualquer instrumento. A imperatriz Leopoldina escreve para a sua família e relata essa facilidade do marido. Ele gostava de cuidar pessoalmente dos seus cavalos e também era um hábil marceneiro. Há relatos de que ele fez um barco inteiro com um jogo de bilhar, enfim, gostava dessa coisa que não era muito aristocrática, nem típica da monarquia.
Nesse aspecto, ele diferia muito de dona Leopoldina?
Leopoldina foi educada na Áustria, talvez na corte mais sofisticada da Europa, naquele momento, sob a supervisão do ministro Metternich. Ela conheceu Johann Wolfgang von Goethe, poeta e escritor; foi colega do compositor Franz Schubert. Era uma moça preparadíssima. D. Pedro, ao contrário, teve uma educação pouco cuidada porque os pais, desde que ele era muito jovem, já estavam separados. Apesar disso, não era um inculto total. Ele escreveu bons artigos para os jornais. Era uma pessoa de muita inteligência, capacidade de compreensão, mas não tinha uma grande cultura livresca. Compreendia muito bem o francês, lia os textos que interessavam ao seu metiê, principalmente no processo de elaboração da Constituição.
Carlota Joaquina e Leopoldina influenciavam os maridos?
Carlota Joaquina não influenciou D. João, na questão política, porque era espanhola. Espanha e Portugal tinham vivido em um tempo de paz, na época do seu casamento, mas a partir dos conflitos na Europa em torno da Revolução Francesa, na última década do século 17, a Espanha se aliou com os franceses, e ela passou a ser vista na corte portuguesa como uma possível traidora. Já Leopoldina teve uma influência muito grande sobre D. Pedro no episódio do Fico e durante o ano da proclamação da Independência. Porém, essa influência se reduz gradativamente à medida que ele passa a ser influenciado pela amante, a Marquesa de Santos.A imperatriz chegou a viver praticamente num cárcere privado, com muitas restrições, por causa da marquesa?
Ela fingia que não sabia do relacionamento, e ele procurava esconder a relação da mulher. No final de 1825,depois que nasce o que viria a ser Pedro II, resolve escancarar esse relacionamento. Ele viaja para a Bahia e leva a Marquesa de Santos no mesmo navio em que estava com a mulher. Aí começam as grandes humilhações da imperatriz. Era o último ano de sua vida; ela já vivia muito isolada e sucumbe a um processo depressivo. Quando retornam, D. João, que mesmo a distância exercia algum tipo de crítica moral, morre. Então, D. Pedro reconhece a primeira filha com a Marquesa de Santos como herdeira e obriga a imperatriz a receber a menina no palácio. Antes da partida para a Guerra da Cisplatina, ele quer mostrar para a sociedade que havia um clima de tranquilidade; a própria imperatriz não se chocava com aquele relacionamento escandaloso. Segundo testemunhos, nessa ocasião, ele teria agredido Leopoldina, que se recusa a se apresentar ao lado da marquesa. Claro que são relatos difíceis de serem comprovados.
Ele era um pai afetuoso?
Ele sempre foi um pai muito presente e afetuoso com seus filhos. Gostava de cuidar pessoalmente deles. Há muitos testemunhos dele brincando com as crianças ou cercado por elas. Preocupava-se, inclusive, com os filhos bastardos. Mas, quando se tratou da abdicação e da sucessão do trono português, ele deixou os filhos e aqui e só levou a filha Maria da Glória, que seria a rainha de Portugal. Ele queria garantir o direito de sucessão dos que tinham nascido aqui à coroa brasileira.
Afinal, D. Pedro era louco?
Ele era o que chamamos hoje de hiperativo. Acordava às cinco horas da manhã e saía dando tiros pela casa para acordar todo mundo. Era frenético e tinha um temperamento explosivo sujeito a ataques de fúria, que podia ser tido como louco. Ele era um príncipe e tinha algumas coisas que se esperavam de um príncipe, que ele não cumpria. Suas atitudes eram inusitadas.