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A VIRALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Por Rodolfo Araújo, do
blog Acerto de Contas

Causou mal-estar uma notícia recente sobre um crime ocorrido num hipermercado em Guarulhos, região da Grande São Paulo, no último dia 28. O motivo da estranheza, contudo, não foi o crime em si – já que esfaquear três pessoas num local público é algo perfeitamente corriqueiro por aqui (ou pelo menos é assim que a imprensa brasileira quer que você pense).

A comoção teve origem nas estranhas linhas pseudopublicitárias que entremeavam a contagem de corpos do crime:

“José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).”

Em seguida outra menção a uma marca:

“Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.”

O texto de Afonso Benites (veja aqui a íntegra) escrito para a Folha de São Paulo foi-me enviado por uma amiga, enfurecida com o fato de um jornal fazer um post pago num tema dessa natureza. Ora, isso não faz o menor sentido, pensei.

A primeira coisa que me ocorreu, confesso, foi que era publicidade automática onde, tal como ocorre no Google Ads, anúncios específicos são inseridos de acordo com palavras-chave presentes no texto. O robô viu a palavra “faca” e colocou um anúncio de faca. Nada mais natural, até porque ainda não existe uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o teor de um texto, se positivo ou negativo.

Lembrei disso porque uma vez vi um uma reportagem falando dos males do narguilê e, logo abaixo, vários anúncios de lojas que vendiam narguilês.

Googlei o nome do autor e cheguei no blog de Marcelo Träsel, jornalista e professor da PUCRS, onde o texto Dançando no limite do bom gosto abriu um pouco minha perspectiva. Para Träsel, a citação dos produtos no meio do texto acrescenta umelemento de banalidade à narrativa, mostrando como notícias desta natureza assumem um caráter trivial frente à população. Apesar de isso parecer uma viagem acadêmica à primeira vista, um olhar mais crítico haverá de elogiar a sutileza do autor. Ou você ainda não percebeu que o anúncio da faca te chocou muito mais do que o crime em si?

A banalização da violência nos meios de comunicação entorpece nossos sentidos e nos deixa indiferentes a esses massacres. Ninguém se espanta mais com esses acontecimentos, mas um anúncio* é inadmissível! Mais adiante, Träsel lembra de um jornalista amigo seu contando como a grande divulgação de crimes violentos nas décadas de 1980 e 1990 tornaram os criminosos muito mais cruéis, buscando uma sinistra fama proporcionada pelos próprios jornais, gerando um macabro feedback.

Não sei se aqui há uma confusão entre correlação e causalidade, mas quando eu era criança, no Rio de Janeiro, não era raro ver na primeira página de um jornal fotos de cabeças desacompanhadas de seus respectivos corpos. E vice-versa. De lá para cá os crimes tornaram-se muito mais cruéis e banais, mas talvez seja apenas coincidência.

Parei de ler jornais faz algum tempo, simplesmente porque eles não me acrescentam nada. No ótimo A lógica do cisne negroTaleb diz que não lê mais jornais porque eles não lhe trazem nenhum benefício – mesmo sendo ele um investidor profissional – e, assim, sobre-lhe uma hora a mais por dia para ler livros. Passo muito bem sem jornais.

Qualquer notícia mais relevante você vai ficar sabendo pelo twitter ou alguém vai fazer o desfavor de te contar. Fora isso, nada do que saiu no jornal nos últimos anos mudou a minha vida. Normalmente dou uma olhadela na edição online para conferir alguma coisa sobre a qual já ouvi. E sempre fecho a página revoltado com as notícias de escândalos, corrupção e crimes banais. Sinceramente eu posso viver sem isso. Você não?

O outro “anúncio” do texto diz que às quartas-feiras o hipermercado tem promoção de frutas e legumes. Ainda segundo Träsel, é um contraponto ao título do texto lembrando que, apesar de o estabelecimento estar cheio, o criminoso só foi contido depois de meia hora. Se hoje não dá para esperar que alguém te ajude a atravessar a rua, que dirá te proteger de um assassino – mesmo quando em grande vantagem numérica.

Infelizmente os exemplos de Imaginação Heróica disseminados por Philip Zimbardo são cada vez mais raros. O que mais se observa é a Paralisia Coletiva descrita por Latané e Darley. No caso mais emblemático descrito por estes autores, Kitty Genovese foi atacada, esfaqueada e violentada durante mais de meia hora, gritando desesperadamente por socorro, diante de 38 espectadores que assistiam a tudo de seus apartamentos. Genovese morreu sem que ninguém tivesse feito nada.

Graças à nossa imprensa – e ao público que a consome e alimenta – homicídios não passam de entretenimento. Tal como descreveu um entrevistado vizinho ao prédio dos Nardoni, empolgado com a movimentação na rua, “bem a tempo, porque o Big Brother estava acabando”. Estas são as notícias interessantes. Estes são os temas empolgantes que rodam o mundo por email e twitter. Não à toa são os chamarizes da maioria dos vírus (bem feito para quem é vítima de taishoaxes!). Enquanto isso, diversas Kitty Genoveses são mortas todos os dias. Mas anúncios são um absurdo!

PROFISSÃO REPÓRTER: REALISMO FICCIONAL

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Por Fernand Alphen,
diretor da F/Nazca

As curvas de audiência/leitores dos conteúdos jornalísticos nos principais veículos de comunicação vêm caindo (despencando?) em velocidades maiores nos targets jovens do que a queda (acomodação?) da audiência geral.

Antes de construir algumas hipóteses (alarmantes?), vale descartar a explicação fácil: se a audiência dos tradicionais está caindo e a dos novos está crescendo, isso não significa necessariamente uma transferência de um para o outro.

As plataformas digitais são talvez aquelas que mais facilmente permitem superposição da atenção. A Internet é um estímulo irresistível ao comportamento multitarefa. Por outro lado, a pulverização dos meios novos (novos?) é tamanha que é impossível estabelecer quantitativamente algum tipo de correlação entre a queda de uns e o crescimento de bilhões.

Por fim, se qualquer crescimento (da audiência do conteúdo jornalístico da Internet) é grande quando ele parte de muito pouco, difícil é levantar depois de uma certa, digamos, experiência.

As hipóteses a seguir são possibilidades concomitantes mas merecem ser isoladas para que a análise tente ser mais cristalina.

A primeira hipótese (catastrofista?) é a de que o gênero simplesmente não interessa mais aos jovens. É dizer que nesse mundo pós-pós- moderno, o cérebro da molecada é composto de fractais de atenção, que se multiplicam, desdobram, perdem-se, ao infinito. Nada gruda, nada pega, nada entusiasma, inflama, excita. Se assim for, o jornalismo sempre será refém das quedas de avião e dos julgamentos espetaculares. Ai do futuro dos nossos valores de outrora.

A segunda possibilidade (conformada?) é que de fato o jornalismo broadcast, de cima para baixo e ideológico caducou. Essa possibilidade confronta uma revisão da autoridade como decorrência de conhecimento e experiência. Ou seja, não acreditamos mais que a reputação de um jornalista ou de um veículo possa ser fator de seu passado e de seu pedigree intelectual e técnico. Acreditamos mais no mais próximo e nos nossos relacionamentos que procriaram repentinamente. Reputação se conquista com seguidores e não com currículo. Ai de nossos velhos dias.

Mas talvez (inshalláh!) possamos também encarar a nossa fórmula de construir o conteúdo jornalístico com um olhar de implacável crítica. O jovem, confrontado com uma realidade cada vez mais intrincada, inter-relacionada, organicamente conectada, não se excita mais com o jornalismo cortado em fatias editoriais.

Qual a história das mentalidades, que decretou o fim da visão cronológica (como um salame: a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento, etc.) e anunciou uma visão temática do mundo (como um repolho: o amor no ocidente, a loucura, o mal), o jornalismo que fazemos deixou de ser crível e apaixonante. Economia, finanças, política, comportamento, cultura, esporte, por que não aposentar os velhos especialistas, cada vez mais arcanos e iniciados?

Por que o jornalismo não pode ser um contar de histórias (mil e uma noites?) interminável, uma novela que documenta o mundo em temas transversais e universais? Uma espécie de realismo ficcional. Queremos (jovens e velhos) consumir o mundo como uma fantástica história, cheia de perigos, esperanças e heróis.

PUBLIQUE NO BLOG MAIS ACESSADO DO RN!

sábado, 24 de abril de 2010

Da Redação

Estamos abrindo nossas páginas à colaboração voluntária de universitários, desde que os textos não estejam escritos em jargão acadêmico. Damos preferência a ensaios curtos, a textos críticos e crônicas sobre o cotidiano, fatos e pessoas. Não publicamos poesia, exceto quando inseridas num contexto analítico ou interpretativo. As colaborações não serão remuneradas. O projeto tem como objetivo otimizar a interação com as universidades.

Dependendo da peculiaridade do texto, ele pode ser publicado em canais específicos do site www.franklinjorge.com, a saber: “Babélia” [crônicas, contos, críticas], “Grande Angular” [reportagens, entrevistas, ensaios], “Galeria” [crítica de arte] e no blog propriamente dito, “O Santo Ofício” [artigos de interesse geral, o que inclui articulismo político] etc.

As colaborações devem ser enviadas ao editor através do e-mail: franklinjorge@yahoo.com.br

Posteriormente abriremos espaço para outras colaborações, na área da Fotografia, por exemplo.

ALUNOS DÃO ADEUS AO CURSO DE JORNALISMO

sexta-feira, 5 de março de 2010

Por Izabela Vasconcelos,
do portal Comunique-se

O Centro Universitário Senac, de São Paulo, decidiu fechar o seu curso de bacharelado em Jornalismo, aberto em 2009. A instituição alega que o fim da exigência do diploma para o exercício da profissão, decisão tomada em junho de 2009 pelo Supremo Tribunal Federal, levou mais da metade dos alunos a deixar a graduação, restando apenas 10 estudantes matriculados.

Procurado pela reportagem, o Senac informou em nota que conversou com os alunos sobre a questão e concluiu que o melhor a fazer é transferir os estudantes de jornalismo para outras universidades. A mensalidade da graduação era de R$ 790,00.

“Foi acontecendo nos últimos meses, os alunos foram saindo aos poucos. Alguns no último semestre, outros não voltaram para este semestre”, explica o diretor de graduação do Senac, Eduardo Ehlers, que descartou a possibilidade do Centro Universitário voltar a oferecer o curso de Jornalismo.

O comunicado diz também que a “coordenação do curso participou de todo o processo e conversou com os docentes envolvidos”. A instituição também informou que os cursos de pós-graduação em Jornalismo, assim como os das demais áreas, continuam normalmente.

Desde a decisão do STF, outras faculdades decidiram fechar ou suspender seus cursos de Jornalismo. A Universidade de Uberaba (Uniube) e Universidade Mogi das Cruzes (UMC) suspenderam a turma de um semestre, já a Faculdade de Campinas (Facamp) decidiu extinguir o curso.

O BEABÁ DA PROBABILIDADE E DA ESTATÍSTICA

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Por José Roberto de Toledo,
do Toledol, o blog sobre RAC

Para os jornalistas, o melhor jeito de aprender sobre um assunto é escrever sobre ele. Assim, o que se segue é uma aula do ponto de vista do aluno, não do professor. São anotações de quem pretende fixar conceitos, não ensiná-los. Foram inspiradas, na maioria, pela leitura de O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow. Leia-as como quem espia o caderno do colega de escola.

Os jornalistas precisamos estar cientes de que não estamos propensos a relatar fatos objetivos com imparcialidade. Somos naturalmente parciais, nossa percepção é incompleta, e o fato, quando captado pela nossa mente, torna-se uma interpretação. Mesmo uma cena da qual somos testemunhas oculares é subjetiva. É o resultado de uma série de interpolações feitas pelo nosso cérebro para aprimorar a imagem falha e borrada enviada pelos olhos. Desenvolvemos mecanismos cerebrais que agem como Photoshop sobre uma foto desfocada e mal-enquadrada. Somem-se nossos preconceitos e expectativas, e o resultado é pra lá de subjetivo.

Só estando conscientes desses nossos defeitos de origem é que podemos fazer bem o ofício de reportar. Ser cético e duvidar não é mérito, mas necessidade. Como uma colagem, cada versão se completa na outra, superpostas e contraditórias. Daí que quanto mais versões e observações, melhor. Não me refiro apenas a entrevistas, mas a grandes quantidades de informação. A uma amostra que represente com fidelidade o universo que espelha. Isso implica dominar conceitos lógicos e matemáticos simples, mas essenciais.

Para diminuir a margem de erro do nosso trabalho, convém conhecermos o beabá da estatística e da probabilidade. A diferença entre eles? Nas palavras de Mlodinow: a estatística busca inferir as probabilidades com base em medições dos dados, enquanto a probabilidade faz previsões com base em probabilidades fixas.
Começo aqui uma série sobre esses dois assuntos.
. . .
1) A probabilidade de um evento “X” ocorrer é igual à proporção entre o número de eventos “X” e o número total de eventos, desde que todos eles sejam aleatórios.

Exemplo banal: a probabilidade de dar “cara” em um cara-ou-coroa é de 50%, porque há um evento “cara” entre os dois eventos possíveis: “cara” e “coroa”. Logo, a proporção é de 1 para 2, ou 1/2, ou 50%.

Exemplo nem tão banal: desconsideradas as paixões, a arbitragem e a habilidade, a chance de um time de futebol vencer as duas partidas que faltam para o fim do campeonato é de aproximadamente 11%, porque “vencer e vencer” é apenas uma de nove possibilidades: “vencer e vencer”, “vencer e empatar”, “vencer e perder”, “perder e vencer”, “perder e perder”, “perder e empatar”, “empatar e vencer”, “empatar e empatar” e “empatar e perder”. Logo, a proporção é de 1 para 9, ou 1/9 ou 11,11%.

O exemplo acima é hipotético, e não se aplica na vida real, pois jogos de futebol não são eventos totalmente aleatórios (embora sejam mais casuais do que os comentaristas esportivos fazem parecer). Para ilustrar como a ordem dos fatores influencia o cálculo da probabilidade, tomemos o jogo de gamão.

A chance de somarmos 12 ao lançarmos dois dados simultaneamente é igual à de somarmos 2, certo? Sim, porque só há uma combinação possível para 12 (6 e 6) e outra para 2 (1 e 1). E qual a probabilidade de somarmos 7? É bem maior, porque há seis combinações possíveis dos dados que somariam esse resultado: 1 e 6, 2 e 5, 3 e 4, 4 e 3, 5 e 2, 6 e 1. E quantas combinações diferentes são possíveis em um lance dos dois dados? A resposta é 36. Chega-se a ela elevando-se à potência os resultados possíveis de cada dado. No caso, 6², porque são seis lados de dois dados (se fossem 3 dados, os resultados possíveis seriam 6³ = 216).

Logo, as chances de somarmos 7 no lance de dois dados é de 6 em 36, ou 6/36 = 16,7%. Contra apenas 1 em 36 (2,8%) de somarmos 12 ou 2. Portanto, você terá seis vezes mais chances de ganhar se precisar de um resultado 7 do que um 12 ou um 2.

No caso do campeonato de futebol que está a dois jogos do fim, o total de combinações possíveis de resultados para o time A era 9 porque eram 3 resultados possíveis (vencer, empatar ou perder) em duas rodadas. Se fossem 3 rodadas restantes, as possibilidades se multiplicariam para 27 (3³). Nessa hipótese, se o time A precisasse somar pelo menos seis pontos para não ser rebaixado, quais suas chances de permanecer na 1ª divisão?

Nesse caso, interessariam apenas os cenários com duas (2 x 3 pontos = 6 pontos) ou três (3 x 3 pontos = 9 pontos) vitórias para o time A. Quantas combinações de resultados das três partidas restantes contemplam essas possibilidades? A resposta é sete (“vencer, vencer e vencer”; “vencer, vencer, empatar”, “vencer, vencer, perder”; ”vencer, empatar, vencer”; ”vencer, perder, vencer”; “empatar, vencer, vencer”; “perder, vencer, vencer”). Logo, as chances de não ser rebaixado seriam de 7 em 27, ou cerca de 26%.

Dominar esse conceito é fundamental para se ir adiante na compreensão da probabilidade. Nele se baseiam todas as outras leis probabilísticas. Como veremos nos próximos posts.

A HUMANIDADE IMAGÉTICA DE UM CERTO JOÃO

terça-feira, 29 de dezembro de 2009


Por Emanoel Barreto, do blog Coisas de Jornal

O olhar sensível do fotógrafo é indagador e perplexo. Ele busca na figuração das imagens o que nelas se oculta, sua essência. Como dizia Cartier Bresson, o fotógrafo busca o momento preciso, aquele instante mágico, às vezes terrível, grandioso ou patético em que de alguma forma a condição humana se revela inteira e grita.

João Maria Alves é aquele tipo de profissional em permanente estado de paixão pela vida, pois intimamente sabe que cada foto, como a do menino e seu cão, é uma espécie de biografia congelada pela lente exata. Veja bem essa imagem. Ela expressa um estado de ser: o menino e sua candura tímida; e um estado social: o menino à porta de sua casinha pobre.

A foto conta, lamenta, exalta e tragicamente chega a prever qual o seu futuro desse menino pobre. João Maria é um descobridor de chaplins. Talentoso, suas fotos, no silêncio das imagens aprisionadas, gritam. Mesmo sabendo ele que esse grito será apenas isso: um grito parado em nosso olhar.

(…)

Obrigado, Amigo. Vamos juntos falar de coisas que, sabemos, não são exatamente para ser compreendidas. Mesmo assim, vamos… Vamos falar de coisas que não são exatamente para ser compreendidas.

Mas, é isso João: eles não compreendem. Mas eles sabem o que fazem.

JUDICIÁRIO, O PODER POUPADO

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Por Alberto Dines, do Observatório da Imprensa

O Supremo Tribunal Federal não ajudou o cidadão brasileiro a definir o que é certo e errado nem a distinguir justiça da injustiça. Votou pela extradição do militante italiano Cesare Battisti, mas entregou a decisão final ao chefe de outro poder, o presidente da República.

A ambigüidade em matéria de delitos e penas é desastrosa, deixa a cidadania desnorteada em questões sobre as quais não poderia haver dúvidas e vacilações.

O assassinato político é um assassinato, não há atenuantes, sobretudo quando o crime aconteceu num regime democrático. A nebulosa decisão adotada pelo STF estabelece uma cadeia de relativismos que tornará a sociedade brasileira ainda mais permissiva e permeável à delinqüência do que era antes.

E a imprensa ainda não conseguiu reunir a coragem para enquadrar nossa suprema corte. Exceto o Estado de S.Paulo, que em sua edição de domingo (22/11) revelou o clima entre os ministros e mostrou a precariedade do seu debate interno (ver “Caso Battisti expõe crise no STF”, “Favorito é juiz há apenas 2 anos” e “`Grupo elege pessoas amigas, com listas fechadas´”)

As decisões do STF são definitivas, irrevogáveis, mas nada impede que sejam discutidas e contestadas pela sociedade. Nada impede que a imprensa seja tão veemente na crítica à instância máxima do Judiciário como tem sido com o chefe do Legislativo.

A não ser que a inapetência da imprensa por uma crítica mais contundente seja uma espécie de retribuição às sentenças favoráveis em duas causas consideradas cruciais para as empresas de comunicação: o fim da Lei de Imprensa e o fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo.

Nos dois casos, o STF foi conduzido pela opinião do seu presidente, o ministro Gilmar Mendes, contrariando o bom senso e o bom funcionamento da justiça; e nos dois casos, a imprensa, muito agradecida, poupou o supremo-magistrado. Agora, não estão em discussão os seus desmandos, mas a sua forma de comandar uma instituição que, sob hipótese alguma, pode ser colocada sob suspeição.

CINCO ANOS JOGADOS NO LIXO

domingo, 22 de novembro de 2009

Por Bruno Pontes, do Mídia Sem Máscara

Tenho um amigo que passou semanas me saudando da seguinte maneira: “Tu era jornalista e não é mais, o Gilmar Mendes rasgou teu diploma e jogou no lixo!” Dia após dia, lá vinha o deboche: “Qual é a sensação de desperdiçar cinco anos de faculdade?” Era uma piada e eu ria junto, retrucando que o maior prejudicado não tinha sido eu, mas o povo brasileiro inteiro.

Para muitos profissionais e estudantes, a derrubada da obrigatoriedade do diploma de jornalismo foi uma ofensa pessoal. Um alienado qualquer poderia insinuar que os protestos da classe contra a decisão do STF têm a ver com o monopólio das vagas. Isso é um absurdo e deve ser rechaçado veementemente. Os jornalistas só se preocupam com “o social”, e jamais agiriam com tanto fervor por um motivo tão mundano como reserva de mercado.

Eu estava perigosamente sem assunto para o artigo de hoje. Tomo meu café e ligo a televisão na esperança de encontrar um gancho. Esbarro na reprise da entrevista que o William Bonner deu à Marília Gabriela alguns dias atrás. Foi sorte. Disse o apresentador-editor do Jornal Nacional que as faculdades de jornalismo se preocupam mais em doutrinar os estudantes com esquerdismo do que qualquer outra coisa. E acrescentou: os cursos deveriam investir pesadamente no ensino de português e história. Ou seja: William Bonner concorda comigo.

Geralmente, o curso dura quatro anos. Em termos de instrução para o que se costuma considerar jornalismo, esse período poderia ser abreviado para dois anos tranqüilamente. Há quem sustente que bastaria um ano ou menos. O resto do tempo é gasto com aulas inúteis sobre questões abstratas e distantes, futilidade acadêmica no seu esplendor. Sem falar na famosa formação ética, que é um nome bonito e neutro para esquerdização.

E o português e a história? Não me lembro disso na faculdade. Só me lembro de Escola de Frankfurt, “função social” da informação e besteiras similares. Aliás, o chique na escola de jornalismo é passar longe do jornalismo prático. O resultado se vê nas redações. Acho que muita gente ficaria surpresa ao ter contato com jornalistas. Vários são precariamente alfabetizados e/ou ignorantes em assuntos básicos.

Voltando à brincadeira do meu amigo. Ele manga afirmando que perdi meu tempo. De certa forma, há verdade nisso. Fiz amigos, freqüentei festas memoráveis, mas o fato é que, ao olhar para trás, a conclusão é crua e inevitável: meus cinco anos na faculdade de jornalismo foram cinco anos intelectualmente jogados no lixo.

MEU DIÁRIO DE NATAL [1]

terça-feira, 27 de outubro de 2009

DE VOLTA A NATAL

Por Franklin Jorge

Natal - Após uma ausencia de quase tres anos, nos quais só eventual e rapidamente passei por esta brava Terra de Poti, estou de volta, atendendo a convite do jornalista Cassiano Arruda Câmara para ser um dos editores do seu Novo Jornal que começa a circular no proximo mes.

Ontem, num hotel da Via Costeira, tivemos nossa primeira reunião de trabalho, sob o comando de Adriano de Souza, que explicou em detalhe o projetode um jornal que tem como filosofia respeitar o leitor para ter o leitor, segundo a síntese dos eu fundador.

Confesso que me senti lisonjeado ao saber que fui dos primeiros nomes convidados para sua equipe, ao mesmo tempo por ele, Cassiano, e por Adriano — com que trabalhei há bons vinte anos — que pensam o jornal como um espaço critico capaz de dialogar com a realidade e propiciar a interação necessária e imprescindivel com o leitor.

Surge assim o Novo Jornal com uma proposta que desarticula o estado de catatonia cronica da imprensa local, levada por qualquer jeito por assessores de imprensa, implementando, ao mesmo tempo, uma politica de conteúdos de que nos ressentiamos e que tem levado os jornais convencionais a uma situação incomoda e mesmo insustentável, como ocorreu recentemente com o velho e tradicional Diário de Natal, que por muitos anos dominou o mercado e acabou substituido, no gosto do leitor, pela Tribuna do Norte, até o seu suspiro final sob a forma do atual panfleto que lembra mais um jornal de bairro.

Ora, um jornal que não provoca crises e não revela o que jaz sob essa carapaça, criada no curso dos anos pelo comodismo de editores e reporteres que se limitam a cumprir o deadline, está com os dias contados depois do advento da internet, espaço ideal para a exposição de uma pletora de idéias que fatalmente se contradizem, energizando o exercicio dialético que não pode faltar numa imprensa moderna e polifônica.

Foi o que me serviu de motivação e me fez reconsiderar o meu desinteresse inicial, depois de tantas decepções que me levaram a prever, ainda nos anos 90, conforme  várias vezes manifestei aos meus superiores, ao tempo em que dirigi a Sucursal dos Diários Associados em Mossoró, o desfecho que culminou com o aniquilamento de um jornal que fizera história durante setenta anos e que não sobreviveu à aposentadoria dos eu grande gestor Luis Maria Alves, que para muitos foi uma espécie de Chateaubriand provinciano.

E aqui estou, pois, de volta a Natal e ao jornalismo diário com a missão de editar Cultura e os noticiários internacionais, além de assinar toda semana uma coluna sobre assunto de minha preferencia e que desperte meu interesse no momento, contribuindo assim, modestamente, ao lado de nomes consagrados e emergentes, mas talentosos, para que tenhamos uma nova e instigante opção de leitura e um Novo Jornal critico e interativo, na medida das exigencias dos leitores que se ressentiam, como disse, dessa saudável prática que deve ser o sangue e o combustível de uma publicação moderna e antenada com um mundo, permanentemente, em transformação.

JORNALISTA CRIA BLOG ‘DA EMBAIXADA’

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


Repórter brasileiro cria blog de dentro da embaixada em Tegucigalpa

 

Do Site Jornalismo nas Américas, Universidade do Texas

 

 

A Embaixada do Brasil em Honduras está no centro das atenções desde que resolveu dar abrigo a Manuel Zelaya. O Exército hondurenho e blocos de concreto a cercam desde o dia 22 de setembro. O governo interino chegou a proibir a entrada de cidadãos brasileiros, entre eles parentes de funcionários e jornalistas.

Há cinco dias, no entanto, lá está o repórter Fabiano Maisonnave, da Folha de S. Paulo. Diante da oportunidade de contar com privilegiada proximidade o dia-a-dia do “hóspede mais ilustre” da diplomacia brasileira em Honduras, ele criou o blog Da Embaixada.

Na sede da diplomacia do Brasil, o repórter divide um colchão de ar com um colega. Para tomar banho, é preciso um “pouco de paciência” por causa de uma insistente fila, descreve o jornalista no post de estreia. Nada como água fria para alcamar os ânimos de uma casa que, apesar de ampla, como conta Maisonnave, não é suficiente para abrigar tanta gente.

“Impossível não comparar com uma prisão terceiro-mundista: aqui é superlotado, o acesso a itens básicos é limitado, há “celas” de luxo e outras em que se dorme no piso, se formaram grupos, tem problema de furto, a vigilância é 24h, os celulares de dentro duelam com os bloqueadores de celular fora, e o cigarro virou moeda de troca.”

Maisonnave está na companhia de outros oito profissionais da notícia: três da Telesur, um cinegrafista da Associated Press, um fotógrafo da AFP e outro da Reuters, um jornalista americano do site Democracy Now e um repórter da Rádio Globo hondurenda, tirada do ar na segunda-feira.

Bem no “quarto ao lado”, está Zelaya. “Ele realmente acredita, e faz muitos acreditarem, que o prédio pode ser invadido a qualquer momento ou que corre ser morto por um franco-atirador. Leva a sério em qualquer suspeita que lhe contam, como o de que estão construindo um túnel ou o de que está sendo atacado por raios de microondas”.

O NOBEL CAFAJESTE

domingo, 4 de outubro de 2009

Do Y! Posts

Cidade do México  (AFP) - O Nobel de Literatura Gabriel García Márquez será denunciado por apologia à prostituição infantil por causa do projeto de adaptação para o cinema de seu romance ‘Memórias de minhas putas tristes’, anunciou a ONG Coalição Regional Contra o Tráfico de Mulheres e Meninas na América Latina e Caribe (CATW-LAC).

A ONG acusa o escritor de, ao ceder os direitos do livro para o filme - que começa a ser rodado em breve -, “massificar a mensagem e reivindicar poeticamente como natural essa atividade (a prostituição), o que leva à normalização do fenômeno e o faz ser considerado lícito”.

“O suposto filme faria uma apologia da prostituição infantil, corrupção de menores e violação de uma menina de 14 anos. Isso coloca em grave risco todas os meninos e meninas pobres da América Latina e Caribe”, explicou Teresa Ulloa, diretora da CATW-LAC.

O romance narra a vida de um homem de 90 anos que decide presentear-se com uma noite de sexo com uma adolescente de 14 anos.

UM BICHO DE SETE CABEÇAS E DEZ CHIFRES

domingo, 30 de agosto de 2009

Por Débora Carvalho

Do site Bee View
Uma cabeça só não seria suficiente para o jornalista contemporâneo ser capaz de acompanhar as atuais exigências da profissão.

 

 Antigamente, as demandas eram distintas, segmentadas em áreas exclusivas. Alguém só para analisar e propor pautas. Outra pessoa só para apurar informações. O repórter nas ruas. O redator que escrevia com base nas informações do repórter e do apurador. O cara da diagramação. Revisor. Fotógrafo. Câmera. Editor de áudio. Editor de vídeo. Motorista. Operador de som. Locutor.

Hoje é diferente. O jornalista tem que saber o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer ao seu redor e no mundo. Escrever em cinco linguagens diferentes: jornal impresso, revista, internet, rádio e televisão, com maestria. Texto impecável. Criatividade. Domínio das tecnologias para fazer o máximo de coisas sozinho.

Não existe mais pauteiro. Nem apurador. O repórter tem que entregar o texto final, impecável. Existe até vídeorepórter, que faz a matéria sozinho – com passagem e tudo – e edita o VT no notebook, no estacionamento do shopping onde parou para fazer um lanche – para chegar à redação com a matéria pronta para ir ao ar.
Além das exigências de múltiplas performances e habilidades, a estabilidade em carteira assinada também está em extinção. Vivemos em um novo mundo, onde o jornalista – além de multiuso – também precisa ser empreendedor.

Nesse cenário apocalíptico, o jornalista é um bicho de sete cabeças e dez chifres. Uma cabeça só não dá conta de tantas exigências. Quais você imagina que são? Minha sugestão é cultura, agilidade, proatividade, sensibilidade, tecnologia, empreendedorismo e humanidade.

1. Cultura
Além da popular, a erudita. História, atualidades, arte e costumes. Isso inclui conhecer bem o próprio idioma: estar entre os 28% da população com alfabetização plena. E mais. Na condição de comunicador, precisa ser capaz de falar com os 72% que não compreende bem o que lê. Nada de conversar com o próprio umbigo ou só com a elite e colegas de profissão.

2. Agilidade
Tudo é pra ontem nesse novo mundo. Vivemos na cultura do imediatismo. Então, é bom que os hábitos de vida do jornalista permitam que ele tenha um raciocínio muito veloz. Tem que digitar rápido, diagramar mais rápido ainda. Editar sem erros. Ir direto ao ponto. Não dá pra enrolar tempo na atividade e menos ainda enrolar o público com blá blá blá. O texto também precisa ter essas características, ser claro, objetivo, e de fácil leitura. Parágrafo que a gente precisa ler duas, três vezes para entender, só em artigos acadêmicos. Quando essa cabeça pega no sono a matéria não sai.
3. Proatividade
Degolar essa cabeça por achar que o beneficiado é sempre o próximo é a pior bobagem. Ser proativo, cheio de iniciativas e de bondade – com foco nos resultados e no bem-estar das pessoas – é a chave para aquela promoção. Ou demissão. O incrível é que ser demitido por um chefe incompetente e invejoso abre as portas para que você encontre seu espaço legítimo. É um favor que você recebe da vida, pois talvez não tenha coragem para pedir demissão.
4. Sensibilidade
Quando a sensibilidade fica com dor-de-cabeça é o fim. Pausa para férias. Sem sensibilidade, você fica com a percepção alterada. O texto fica péssimo, sem criatividade e sem nexo. Você não vai saber quando e com quem ser proativo. Vai deixar de fazer a pergunta mais importante. Talvez até publique uma barrigada sem apurar os dados – por falta de atenção. Não vai perceber as alfinetadas ou que está sendo capacho do colega, ou que você mesmo está agindo com grosseria ou arrogância. Sensibilidade é questão de sobrevivência.
5. Tecnologia
Conteúdo não é nada se ninguém tiver acesso. A tecnologia permite que os conteúdos cheguem às pessoas. O jornalista contemporâneo domina todas as novas tecnologias à medida que vão surgindo, e as aplica para facilitar a produção do seu trabalho.
6. Empreendedorismo
Pois é. Hoje, o jornalista sem espírito empreendedor, ou coragem para empreender, perde muito. O patronato não tem espaço para empregar todo mundo. E ainda existe a relação entre os empreendedores de grande porte com os empreendedores micro – uma empresa composta de eu e minhas sete cabeças. O jornalista empreendedor não tem rabo preso. E precisa aprender marketing e publicidade – para aplicar em si mesmo. É uma aventura que pode valer a pena para os que têm coragem.
7. Humanidade
Se ela tiver um AVC, você pode esquecer que seu compromisso profissional é com o público e não com o seu chefe. A sétima cabeça é a primeira que nasceu. Do tempo em que não existia tecnologia nem multifunções. É aquela que mostra que você não é super-homem, nem advogado, policial ou juiz. Ela é a ética, o caráter. É a verdade e o respeito acima de tudo. É o que te dá coragem de abandonar o emprego que paga mal e demitir o chefe sem escrúpulos. É a sua dignidade – que não tem preço. Ou tem?
É por esse trabalho todo que o jornalista é um bicho de sete cabeças.
E os dez chifres?
Cada um com seus problemas. Mas tomara que você tenha nenhum.

QUEM FAZ O TRABALHO SUJO

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

 

 

 

Por Leandro Forte

 

 

Do blog ‘Brasíla, eu vi’

Não tem mais “barriga” nos jornais brasileiros, ninguém é sequer advertido quando faz uma cagada. Só pode ser. Ou é má fé explícita. Essa matéria recente sobre Tião Viana, na Folha de S.Paulo, tirada do nada, é uma investigação jornalística enviesada, usada para encobrir uma óbvia encomenda editorial. A assessoria do senador já havia informado à repórter sobre o fato de o imóvel estar no nome da mulher dele. Mas aí aparecem os tais “especialistas” convocados, sistematicamente, para dar suporte às chifradas jornalísticas dessa que ainda se intitula “grande imprensa”.

 

 



Olhem o trecho da chamada do portal UOL, do qual sou assinante, e, por isso, cobro duplamente:

“A assessoria do senador alegou que o terreno não foi declarado à Justiça Eleitoral porque pertencia à sua mulher, Marlúcia Cândida Viana. Mas, como o senador é casado em regime de comunhão total de bens, o imóvel pertence aos dois, segundo tributaristas ouvidos pela Folha.”

O que significa isso? A interpretação ocasional de tributaristas como mecanismo para se montar um escândalo! Não nutro nenhuma simpatia pelo senador Tião Viana, tão novo e já deslumbrado com a chaga do patrimonialismo, a ponto de ter dado à filha, em viagem de férias ao México, um celular do Senado para que ela gastasse à vontade. Coisa, aliás, que ela levou a sério: a conta foi de 14 mil reais, só ressarcidos aos cofres públicos porque a mordomia foi descoberta. Isso, no entanto, não justifica o exercício de um certo tipo, este sim, escandaloso, de jornalismo, cada vez mais difundido como normal e corriqueiro. E é coisa diária, diuturna, que despreza a inteligência alheia, o poder da internet, a capacidade de reação dos leitores e dos jornalistas, estes, culpados em última instância.

A canalha é de jornalistas, não de patrões, é preciso que se diga. Quem faz o trabalho sujo nas redações não são os donos dos meios de comunicação, são os jornalistas. O problema é que as redações, hoje, têm gente demais disponível para fazer qualquer coisa. Vive-se a primazia da má fé e louva-se a inversão dos valores como condição primordial à sobrevivência dentro do mercado. Não é verdade. É possível ser jornalista e trabalhar em qualquer lugar sem se submeter ao mau-caratismo. Arriscado, mas possível.

O pior é que nós, jornalistas, temos uma arma institucional com alto potencial de marketing corporativo, a cláusula de consciência do Código de Ética, mas a coisa virou letra fria. Tinha que ter uma campanha dos sindicatos e da Fenaj, dentro das redações, com o slogan “Isso eu não faço!”. Para o jornalista novo, o foca, o repórter que está angustiado se sentir apoiado pela categoria. Para dizer, sem medo: isso eu não faço porque é ilegal, é imoral, é desrespeitoso, é injusto, é antijornalístico, enfim.

A internet abriu uma perspectiva sem limites para se fazer alguma coisa de concreto, além de expor esse estado de coisas na blogosfera, que já é uma coisa sensacional. Eu queria muito que todos nós, jornalistas do Brasil, pensássemos na possibilidade de criar um blog coletivo, jornalístico, independente, com receita publicitária capaz de fazer as coisas funcionarem. Para se posicionar acima dessas figuras que aí estão, cheias de cargos, títulos honoríficos e salários polpudos, mas incapazes (ou capazes até demais) de entender o valor agregado da blogosfera e o potencial crítico – e realmente jornalístico – do mundo virtual.

As grandes estruturas de comunicação do Brasil têm dinheiro, crédito, pessoal e equipamento, mas, apesar de toda essa vantagem, estão aprisionadas por compromissos políticos e econômicos cada vez mais restritos. Ficam assustadíssimas, contudo, com a capacidade que a internet tem para tornar explícita essa relação e, mais ainda, colocar a nu o mundinho autista e auto-referencial no qual estão encapsuladas. Um mundo onde repórteres e colunistas escrevem uns para os outros, se auto elogiam e compartilham vaidades ensaiadas, numa tentativa patética de se parecer com quem lhes paga o salário. O resultado disso é um descolamento absoluto da realidade social, na qual se inserem de forma superficial e, por isso mesmo, descompromissada, como se fazer jornalismo fosse, como quer o STF, tarefa para qualquer um.

A Sociedade Americana de Revistas dos Estados Unidos calculou, no ano passado, que criar uma revista de papel e lança-la nacionalmente custa cerca de 15 milhões de dólares por mês. Uma, na web, sai por 100 mil dólares. Essa relação não deve ser muito diferente no Brasil. Talvez seja até mais barato. Entre 1976 e 1983, jornalistas do Rio Grande do Sul, jogados no desemprego por se posicionarem contra a ditadura militar, fundaram e tocaram o Coojornal, uma experiência jornalística corajosa e altamente profissional, baseada no cooperativismo. Talvez seja a hora de pensarmos em algo semelhante, antes que só restem maus exemplos – embora, dizia Santo Agostinho, sejam esses os melhores exemplos para quem se disponha a aprender, verdadeiramente, adiferença entre o bem e o mal.

OS MIDIOTAS

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Por Luiz Carlos Azenha

Do blog ‘Vi o mundo’

Ler os jornais brasileiros, hoje em dia, equivale a se expor a uma exibição despudorada de preconceitos vindos daqueles que, por ilustração, deveriam ser os primeiros a reconhecê-los. Mas o ódio de classe cega. Cega a ponto de fazer com que gente “bem” se exponha de maneira abertamente pornográfica. Há, subjacente ao preconceito, um motivo comercial a incentivar esse strip-tease ideológico: em um ambiente cada vez mais competitivo, marca quem chamar mais a atenção. Não importa que o striper nos ofereça um corpo surrado, barrigudo, salpicado de celulites e estrias.

Importa é que prestemos atenção nele, ainda que fortuitamente. Semana que vem, ele promete, tem mais. Dispensa-se o convencimento embasado em conhecimento e na razão. Importa é causar debate, atrair tráfego e leitores, “brilhar”. Na sociedade midiatizada, inauguramos a era dos “midiotas”. Assim como temos os famosos que são famosos por serem famosos, temos os comentaristas que são lidos pela capacidade de chocar. São as “moscas” da Folha de S. Paulo, jornal marqueteiro que quer nos vender o supra sumo do elitismo e do preconceito como algo revolucionário, “in your face”, ousado. Que o espírito de Raul Seixas tenha piedade deles.

Um caso em particular me chamou a atenção recentemente. A coluna “O Petróleo é Dela”, de um dos editores do jornal. Ele inicia sua argumentação desqualificando a maior parte do eleitorado brasileiro, que descreve como “semi-analfabeta”. Depois de opinar sobre a tática eleitoral de uma das candidatas ao Planalto, Dilma Rousseff, diz que em nome da campanha dela os projetos de exploração do pré-sal “serão enviados em regime de urgência para o cada vez mais combalido Congresso Nacional, por onde, do jeito certo, tudo passa”. Ou seja, além de desqualificar o eleitorado, desqualifica todos os que foram eleitos.

Caminha, em seguida, para a grande conclusão:

Ao enterrar o pré-sal na acirrada eleição de 2010 o governo encerra a possibilidade de um debate isento, técnico e racional sobre a futura exploração de uma grande reserva de riqueza transformadora do país.

Ora, se somos uma Nação de semi-analfabetos, que elegeu um Congresso corrupto, como é possível que tenhamos um “debate isento, técnico e racional” com esse Congresso? Qual é a alternativa, fechar o Congresso? Ou esperar que se eleja um Congresso com o qual o comentarista concorda antes de debater o pré-sal?

O que é exatamente um debate isento? Isento de povo? Isento de eleitores semi-analfabetos?

O que é um debate técnico? É um debate elitista, que afaste do pré-sal os interesses daquela maioria de semi-analfabetos? Quais serão os critérios para escolher quem pode e quem não pode opinar?

O que é um debate “racional”, se os próprios argumentos de quem pede por ele não param em pé 30 segundos?

Não faria mais sentido um debate acalorado, inflamado e que envolva 190 milhões de brasileiros, seguido de uma coisa chamada eleição?

Ah, argumentará o editor da Folha, mas aí o que vamos fazer com aqueles milhões de semi-analfabetos?

Quando eu digo que o sonho da elite brasileira é a volta do voto censitário, não estou tentando ser pornográfico.

Não gostei do strip-tease do Sérgio Malbergier. O corpinho é horrível e a conversa é chata. O próximo, por favor.

MANTEGA EXONERA LINA VIEIRA

sábado, 11 de julho de 2009

Transcrito de Y! Posts

 

 

A primeira mulher a ocupar o cargo de secretária da Receita Federal deixará o posto na próxima semana por decisão do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Lina Maria Vieira foi exonerada do cargo. Sua gestão foi marcada por quedas consecutivas na arrecadação de tributos e por uma controversa mudança na estrutura da secretaria, o que garantiu a ascensão de sindicalistas aos postos de comando da Receita.

Lina Vieira ficou pouco mais de 11 meses no poder. Neste período, trocou paulatinamente os ocupantes dos principais cargos da secretaria. As superintendências regionais foram entregues a líderes sindicais espalhados pelos estados.

A saída de Lina foi antecipada na edição de hoje do jornal O Globo, e confirmada ao jornal O Estado de S. Paulo por uma fonte da Fazenda. Ainda não está definido quem será indicado para ocupar o posto - o secretário executivo do Ministério, Nelson Machado, deve comandar o órgão interinamente.

Apesar de a cúpula da Fazenda ter ficado irritada com a investigação da Receita sobre a Petrobras, no início do ano, por causa de um crédito tributário de R$ 4 bilhões da estatal, o real motivo da saída de Lina é a queda na arrecadação de impostos e a desestruturação administrativa da Receita.

Somente em maio, pelo sétimo mês seguido, a Receita amargou uma queda de 14% na arrecadação de tributos, já descontada a inflação. Nos primeiros cinco meses do ano, o tombo foi de 6,9% em relação ao mesmo período do ano passado, o pior desempenho desde 2003. A situação dos cofres é tão ruim que a arrecadação deste ano deve ficar abaixo do registrado em 2008, fato que só ocorreu duas vezes na história, em 1996 e em 2003.

 

 

UMA MANHÃ NA UERN

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Por Franklin Jorge

 

Mossoró – Atendendo a gentil convite do professor Giovanni Rodrigues, diretor pro tempore do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual (UERN), estive ontem pela manhã no Campus Central conversando com alunos de Jornalismo, Radialismo e Publicidade sobre minha experiência profissional.

 

Foi um momento de grande satisfação intima, pela curiosidade e atenção que me foram dispensadas por um significativo número de jovens que, ao final de minha explanação, crivaram-me de perguntas sobre aspectos da atividade jornalística; no meu caso, marcada pro fracassos bem sucedidos, pois decorrentes duma atividade instruída desde o primeiro momento pela análise critica da realidade e dos fatos cuja essência jaz muitas vezes submersa sob distorções e interesses que desqualificam a transmissão do conhecimento.

 

Enfatizei a contribuição do exercício da critica para a eficácia do texto jornalístico que aspira transformar-se em conhecimento, o que vai muito além da mera informação ou transmissão dos fatos, como tais, geralmente passiveis de infinitas versões.

 

E, ao fazê-lo para uma platéia interessada no que eu dizia, creio que chamei a atenção de todos para as propensões sediciosas do jornalismo; do jornalismo entendido como uma espécie de advocacia popular, segundo a definição do pensador Ortega Y Gasset; do jornalismo, enfim, que não se compraz numa mera manipulação retórica a serviço de interesses que contrariam o leitor e os princípios da plena cidadania.

 

Ora, para além da excelência formal, o bom jornalismo – aquele que é cultura e alcança o interior dos fatos, como diria Antonio Carlos Villaça – há de exprimir a maldição de pensar ou, em outras palavras, o chamado do abismo que se traduz em investigação dos fenômenos sociais que, independentemente de época e contexto, são sempre intensos e múltiplos.

 

Na ocasião, fiz distribuir com os presentes cópia de textos que publiquei recentemente sobre Jornalismo Cultural e a morte dos jornais impressos. Os interessados podem ser consultá-los acessando os arquivos desta página.

 

 

UERN: blog de Zé Ronaldo repercute matéria

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Da Redação

O professor doutor José Ronaldo, candidato a vice reitor na última eleição, comenta em seu blog declarações do reitor da Universidade Estadual [UERN] Milton Marques. Ele também comenta a participação deste blog no processo de reestruturação da instituição que tem uma estrutura defeituosa que vem sendo mantida apesar de sucessivas denúncias sobre contratos provisórios já existentes há 18 anos.

De fato, trouxemos à discussão e ao conhecimento da opinião pública um fato que dormitava tranquilamente nas gavetas do reitor, embora constituindo-se numa irregularidade gritante cuja solução não podia mais ser postergada, apesar da lentidão do Ministério Público e do Ministério do Trabalho em fiscalizar a aplicação do Termo de Ajustamento de Conduta[TAC] aplicado pro forma há cinco anos. um duplo escandalo: a morosidade da UERN em cumprir a lei e da Promotoria de Defesa do Patrimônio e da Delegacia do Trabalho em fiscalizar e aplicar as sanções cabíveis.

Tivesse o trato sido cumprido fielmente e hoje a UERN teria apenas pouco menos de 30 dos 413 contratos provisórios. E, em setembro, o último deles teria sido demitido e a UERN estaria apta a promover o concurso público para preenchimento das vagas, dessa vez de maneira legal e em justas condições. Contudo, com base no documento enviado pela direção da UERN à governadora, reivindicando a reforma estrutural da instituição universitária, tudo leva-nos a crer que este número subiu para 434 no período eleitoral ou pós eleitoral.

Pelo menos uma coisa é certa: o vice reitor reeleito está distribuindo Dedicação Exclusiva com pessoas que apoiaram a chapa oficial, fato que merece ser investigado, juntamente com a questão do convenio celebrado com a Universidade de Cuba para a concessão de doutorados a professores da UERN, uma ação que acabou redundando em um grande fiasco embora tenha custado em consideráveis recursos aos cofres da instituição. Há, nessas concessões promovidas sem critério um claro indicio de troca de favores entre servidores e a direção da UERN, questão que começa a provocar murmúrios na comunidade acadêmica.

UERN: INSCRIÇÕES PARA PROFESSOR SUBSTITUTO

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pau dos Ferros — O Departamento de Letras do CAMEAM/UERN abriu inscrições para o processo seletivo para professor substituto da área de Língua Portuguesa, curso Letras. As inscrições podem ser feitas até o próximo dia 12 de maio de 2009, no Departamento de Letras, das 8h às 11h e das 19h às 21h30mim, com Marta Maria, à BR. 405, km 153, Bairro Arizona, Pau dos Ferros/RN. Tel. (84) 3351.2560 ou 2275.

 

Sorteio do tema da prova didática será dia 13/05 às 9:30 no Departamento de Letras e a prova didática no dia seguinte a partir das 9:30h - em sala B08- Bloco de Letras.  A ordem de sorteio e apresentação obedecerá à ordem de inscrição. A análise do curriculum vitae, dia 15 e o resultado divulgado nesse mesmo dia a partir das 20h.

 

Será convocado um candidato (aprovado) para lecionar as disciplinas: Fonética e Fonologia do Português I, Morfossintaxe I, Morfossintaxe II e Diacronia da Língua Portuguesa, pelo período de 03 (três) meses, durante o semestre 2009.

 

Podem concorrer os candidatos graduados em Letras (Habilitação em Língua Portuguesa e Respectivas Literaturas).

 

No ato da inscrição o candidato deverá apresentar Curriculum Vitae com documentos comprobatórios.

 

 A seleção constará da prova didática e prova de títulos; critérios avaliativos da aula didática: Plano de aula, considerando coerência entre o conteúdo, objetivos, metodologia e avaliação; domínio do conteúdo e metodologia. Deverá ser entregue à Banca Examinadora 03 cópias do Plano de Aula.  A nota mínima para aprovação é 7,0 resultante das duas etapas do processo;

 

Temas para a prova didática

·       O estudo dos sons da fala: fonética, fonologia e seus objetos

·       Categorias da descrição gramatical

·       O português do Brasil: arcaísmos e neologismos.

 

Bibliografia sugerida:

 

1. AZEVEDO, J.C. Iniciação à sintaxe do português. Rio de Janeiro: Jorge Jahar. Editor, 2000.

2. CAGLIARI,G.M.;CAGLIARI,L.C. Fonética.In.: MUSSALIM, F.; BENTES, C. (orgs). Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2008.

3. CARVALHO, D. G.; NASCIMENTO, M. Gramática Histórica. São Paulo: Àtica, 1981.

4. MORI, A.C. Fonologia. In: MUSALIM, F.; BENTES, C. (orgs.) Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2008.

 

As referências 01, 02 e 04 podem ser encontradas na Biblioteca Padre Sátiro Cavalcante Dantas/CAMEAM. A referência 02 está disponível no setor de xérox.

 

Políticos têm vida sexual escancarada

terça-feira, 5 de maio de 2009

 
 

Transcrito de MixBrasil

 

 

 

No último domingo, 3, o documentário “Outrage - Do Ask. Do Tell” estreou no festival de filmes “Tribeca Film Festival”, em Nova York, mostrando a vida dupla de diversos políticos americanos notadamente

homofóbicos.Dirigido pelo cineasta Kirby Dick, o documentário retrata as escapadas clandestinas de políticos famosos, tirando do armário diversos parlamentares americanos. Com uma investigação profunda na vida de tais políticos, o documentário fica na linha tênue entre investigação e invasão de privacidade.

Ainda sem previsão de estreia no Brasil, Outrage mostra a hipocrisia vigente entre alguns políticos republicanos, que defendem com unhas e dentes políticas conservadoras e anti-gays e, no entanto, vivem a vida que querem proibir às escondidas. Uma das figuras públicas centrais no documentário é o governador da Flórida, Charlie Crist.

 

  

 

NOVOS ARTIGOS DE FRANKLIN JORGE

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Da Redação

Até o próximo fim de semana publicaremos em “O Santo Ofício” novos artigos de Franklin Jorge: “O Renan do Supremo”, sobre o ministro Gilmar Mendes; “Um Desastre Chamado Micarla”, sobre a prefeita de Natal; e “Opinião pública contra a UERN” sobre a pressão popular em cima da Delegacia do Ministério do Trabalho, em Mossoró, que a tirou da inércia, levando-a cobrar do reitor Milton Marques o cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta -TAC em relação aos contratos provisórios que chegam a 70% do quadro de servidores da Universidade Estadual [UERN]. Uma situação que perdura há 18 anos.

A série de matérias publicadas aqui sobre a UERN, nas últimas semanas, provocou uma onda indignada de protestos, inclusive proveniente de outras regiões do País. Apesar da gravidade do caso, a imprensa norte-rio-grandense deixou passar sem comentário a esdrúxula situação que afronta a lei e os contribuintes.

O jornalista Franklin Jorge está agendando entrevistas com o Delegado do Trabalho, com o Promotor de Defesa do Patrimônio e com o reitor da UERN, atendendo a inúmeros pedidos oriundos de e-mails, telefonemas e comentários inseridos nas matérias referentes ao caso, que podem ser lidos nos Arquivos deste blog.