Por Franklin Jorge
Quando a Casa da Moeda homenageou Luis da Câmara Cascudo, reproduzindo-lhe a efígie numa cédula de 50 mil cruzados, em 1991, dediquei-lhe quatro páginas no jornal “O Rio Branco”. A cédula deixou de circular faz muito tempo, pois o que era cruzado virou real, mas o documento que produzi e os que foram gerados a partir dele, aqui estão diante de mim, uma carta de Dona Dahlia Freire Cascudo e um depoimento gravado em sua casa, após meu regresso da temporada na Amazonia, além da correspondencia com um dos biógrafos do escritor norte-rio-grandense, o fluminense Francisco Vasconcelos.
Em agradecimento, dona Dahlia, viúva de Cascudo, escreveu-me uma longa carta encarecendo a sua gratidão e convidando-me a visita-la quando voltasse ao Rio Grande do Norte, pois segundo disse devia-me um pedido de desculpas, mas só queria faze-lo de viva voz.
Fiquei curioso. E, ao regressar a Natal, fiz contato através do telefone e combinamos essa visita que, de fato, muito surpreenderia, pelos motivos que ficam aqui registrados. Cheguei a sua casa às 14 horas cheio de expectativa, pois não conseguia imaginar o que ela teria a me dizer.
Mal toquei a campainha, a porta se abriu e lá estava D. Dahlia, bem vestida e penteada, à minha espera. E, notando minha curiosidade, esclareceu que nada mudara, a não ser pelo fato de que agora só tinha como consolo “a lembrança de Luis e o dever de honrar a sua memória”, preservando-lhe a herança intelectual.
Pareceu-me a um tempo feliz e ansiosa ao receber-me, discretamente maquiada e perfumada, de mãos estendidas para apertar as minhas. “Há quanto tempo, Franklin Jorge… Esperei muito por este dia… Antes de mais nada, suponho que queira rever a biblioteca, o lugar onde Luis trabalhava…”, disse e foi se encaminhando para o local, onde conversamos alguns minutos de pé. Notei que tudo estava como antes, sobre a mesa um livro aberto, um resto de charuto num cinzeiro, uma filigrana de luz. De fato, aparentemente, nada mudara…
Em seguida, Dona Dahlia mostrou-me o resto do casa, incluindo seu quarto de dormir, onde entrei pela segunda vez, a primeira delas havia muitos anos, para colocar ali uma cadeira que a seu pedido eu acabara de pintar. Quanto já voltávamos do terraço, onde Cascudo às vezes se deitava numa rede para ler, disse, Agora vamos nos sentar para conversar e encaminhou-se para a sala única que fazia as vezes de refeitório e de estar. Notei que havia apenas duas cadeiras, uma ao lado da outra. Por favor, queira sentar-se…
Fiquei alguns minutos de pé, esperando que ela sentasse. Mas Dona Dahlia continuou de pé. Sente-se, por favor, insistiu, apontando na direção da cadeira de balanço onde o seu marido costumava sentar-se; uma velha cadeira que restara da mobília do coronel Cascudo e que ficava num âzngulo da sala, entre um console sobre o qual havia uma maravilhosa pintura de Moacir de Andrade, o grande artista amazonense, e a cristaleira das condecorações. Ao lado da cadeira um banquinho com papéis e a lupa usada pelo famoso escritor para ler a correspondencia.
Certamente, pensei, estou equivocado e fiz menção de sentar-me numa cadeira austríaca que fazia parte do conjunto da mesa de jantar. Não, por favor, sente-se na cadeira de Luis, acrescentou. Faço questão… Senti que alguma coisa de muito estranha acontecia. Tem certeza…? Por favor, repetiu e sentou-se na outra cadeira, ao lado da de balanço que pertencera ao seu sogro. Somente então me sentei, finalmente, na “cadeira do Professor Câmara Cascudo”, como eu ouvira a própria Dona Dahlia dizer algumas vezes, falando com as empregadas ou com algum visitante. Emocionado, interpretei esse gesto como uma deferencia especial.
Como lhe disse por telefone e, antes, na carta que lhe escrevi quando estava no Acre, que esperei muito por este momento, para pedir-lhe desculpas por ter-me calado sobre um assunto que muito deve te-lo aborrecido, tanto quanto me aborreceu também… Não entendo, interrompi sem atinar ao certo sobre o que ela falava. Não entendo do que a senhora está falando…
Entenderá sim, quando eu disser que me estou referindo ao que escreveu na Tribuna do Norte, após a morte de Luis, sobre o Memorial Câmara Cascudo… Entendi, mas não pude externar meu pensamento, que você defendia a sua memória e lutava para que ele merecesse mais respeito daqueles que queriam tirar proveito do seu nome para autopromover-se…
Você não fez campanha contra Luis – acrescentou em sua voz de contralto –, mas contra aqueles que queriam pegar carona na sua notoriedade. Você se colocou contra o oportunismo… Contra a exploração despudorada que se fazia do nome de Luis… Tanto é que, até hoje, o Memorial não passou do projeto e só não fechou porque emprestei alguns livros e objetos de Luis, para que tivesse o que mostrar… Eu podia ter esclarecido tudo, mas calei-me. Ainda estava muito abalada com a morte de Luis… E, afinal, sou apenas uma pobre mulher… Meu silencio me fez muito mal.
Dona Dahlia pediu-me que a ouvisse sem interrompe-la, pois estava com tudo aquilo atravessado na garganta há muito tempo. Você, inteligente como é, deve ter notado que, naquele período e até a sua mudança para a Amazonia, evitei contatos com você… A contragosto e para não agravar a situação. Saiba que cheguei a receber aqui, nesta sala, uma comissão de pessoas que se diziam cascudianas que vieram denegri-lo e pedir-me que não mais o recebesse, pois você fazia campanha contra a homenagem que o estado queria prestar à memória de Luis…
Por fim, perguntei-lhe se ficaria constrangida se eu lhe perguntasse sobre as pessoas que integravam essa comissão que esteve em sua casa para denegrir-me e pressiona-la. E ela respondeu que não, que era um direito meu saber toda a verdade, agora que tanto tempo se passara sem que ela tivesse podido explicar-se e pedir-me desculpas. Sim, diria seus nomes sem nenhum constrangimento.
Fui então mais ousado e perguntei-lhe se faria alguma objeção se eu voltasse no dia seguinte ou no dia que lhe fosse conveniente, com um gravador, para documentar suas palavras. Dona Dahlia não titubeou na resposta. Com todo prazer. Amanhã, neste mesmo horário, estarei à sua espera…
Voltei no dia seguinte com uma lista de nomes sobre os quais tinha curiosidade — muitos dos quais passavam e ainda passam por intimos do escritor e autoridades em sua obra –, munido de um gravador e fitas suficientes para colher um longo depoimento. Dona Dahlia depôs numa fita que recentemente mandei transpor para cd-room e que acabo de ouvir. Nela, a relação dos verdadeiros cascudianos e outras informações privilegiadas, entre os quais, na verdade, nenhum desses nomes que andam por aí.
Ela disse textualmente: “Só há dois cascudianos vivos, conhecedores de sua obra e que tiveram contato intimo com ele, pessoalmente e através de uma longa correspondência”… Quem, quis saber. E ela: “Você e o professor Francisco Vasconcelos, que desejo apresentar-lhe” e dizendo isto me deu um envelope endereçado ao seu marido, cujo remetente outro não era senão o professor Francisco Vasconcelos, morador de Petrópolis, no estado do Rio, de quem me tornei amigo. Uma amizade que tem quase vinte anos.
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