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A BOMBA QUE MUDOU O MUNDO

domingo, 15 de agosto de 2010
HIROSHIMA PERDOA, MAS NÃO ESQUECE Japoneses homenageiam as vítimas no Parque Memorial da Paz

HIROSHIMA PERDOA, MAS NÃO ESQUECE Japoneses homenageiam as vítimas no Parque Memorial da Paz

Por Heitor Scalambrini Costa*

Com a famosa frase “meu Deus, o que foi que nós fizemos”, pronunciada por um dos tripulantes do avião que conduziu o artefato nuclear sobre território japonês, o mundo relembra os 65 anos do lançamento das bombas atômicas durante a Segunda Guerra Mundial, ambas pelos Estados Unidos contra o Japão, detonadas nas cidades de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto de 1945). O poder de destruição das bombas foi imenso, ao menos 200 mil morreram em Hiroshima e 100 mil em Nagasaki, iniciando, assim, a chamada era nuclear. Esses acontecimentos devem ser lembrados sempre por sua brutalidade e impunidade.

O Japão, único país a ter sido bombardeado em duas ocasiões com armas nucleares reclama há anos a abolição das armas de destruição em massa. A detonação de uma bomba nuclear provoca danos imensos. O grau de destruição dependerá da distância de onde o centro da bomba é detonado, chamado de marco zero (podendo chegar nesse local a temperatura de até 300 milhões de graus Celsius). Quanto mais próximo alguém estiver deste local, maior será a gravidade dos danos. Eles são causados por diversos aspectos: uma onda de calor intensa de uma explosão, pressão da onda de choque criada pela detonação e precipitação de material radioativo.

As partículas radioativas que chegam ao solo penetram no manancial d’água e são inaladas e ingeridas por pessoas a uma distância considerável do local de detonação da bomba. Alguns dos problemas de saúde ocasionados pelo material radioativo incluem: náusea, vômitos e diarréia; catarata; perda de cabelo; perda de células sanguíneas. Estes problemas freqüentemente aumentam o risco de ocorrência de leucemia, câncer, infertilidade, deficiências congênitas, dentre outros males.

O Tratado de Não Proliferação Nuclear, adotado em 1967, teve o objetivo de “congelar” a posse de armas nucleares às cinco potências nucleares da época: Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França e China. Na prática, o que se verificou foi o inverso, com os esforços de vários países, dentre eles a Índia, o Paquistão e Israel, de produzir armas nucleares, agravando os problemas de proliferação nuclear e criando sérios transtornos no cenário internacional. Lembremos do caso do Iraque acusado de produzir armas nucleares, justificativa usada como uma das causas da sua invasão. Outros países também tiveram a iniciativa de produzir armamentos nucleares, como a África do Sul, Líbia, Irã e Coreia do Norte. Até o Brasil e a Argentina desenvolveram atividades nessa direção durante o período militar.

Mesmo não havendo provas definitivas de que o nosso país esteja construindo armas nucleares, eventos e pronunciamentos em passado recente levam-nos a crer que o Brasil “recomeçou a flertar” com a ideia de produzir uma bomba atômica, após tentativas anteriores malsucedidas durante o regime militar. Nos últimos anos diversas autoridades, como o vice-presidente da República José Alencar e o ex-ministro de Ciências e Tecnologia Roberto Amaral (quando no cargo), declararam a necessidade do país dispor de armamento nuclear para defesa preventiva e de suas riquezas, como fator de dissuasão e para impor mais respeitabilidade. Também o documento sobre a Estratégia Nacional de Defesa lançada em 2008, afirma a “Independência nacional, alcançada pela capacitação tecnológica autônoma, inclusive nos estratégicos setores espacial, cibernético e nuclear. Não é independente quem não tem o domínio das tecnologias sensíveis, tanto para a defesa como para o desenvolvimento”. Embora a Constituição diga que toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos, o assunto está longe de ser considerado um tabu.

A ressurreição do Programa Nuclear Brasileiro é mais um dos indícios da estratégia governamental de tornar o Brasil uma potência atômica. O dinheiro empregado no programa, para a construção e funcionamento de novas usinas nucleoelétricas, permitirá a lubrificação de todas as suas engrenagens. A cada usina que construímos aumentamos o volume de urânio que produzimos, aumentando assim o saldo com que se espera entrar definitivamente como sócios no Clube Atômico, e para tal é necessário ter a bomba atômica.

O Brasil, pela exuberância e diversidade de fontes energéticas renováveis disponíveis em seu território, não precisa da energia nuclear para atender a demanda de energia elétrica, e assim, pode adotar opções mais atraentes do ponto de vista econômico, social e ambiental.

Abrir mão da energia nuclear significa um importante passo para evitar o perigo de uma nova onda de proliferação nuclear, dada a natureza dual da energia nuclear, que se presta tanto para aplicações pacíficas como militares, sem falar dos problemas físicos de segurança nuclear. Não devemos nos esquecer do que afirmou o físico Robert Oppenheimer, responsável pela construção da primeira bomba atômica, quando visitou o Brasil, em 1953: “Quem disser que existe uma energia atômica para a paz e outra para a guerra, está mentindo”.

(*) Heitor Scalambrini Costa é professor associado da Universidade Federal de Pernambuco

O VELHO RAPSODO

domingo, 11 de abril de 2010

Transcrito de O Estado de São Paulo, 08.05.1999

Poeta amazonense mantém-se na contramão da
modernidade depois de período de sofisticação

Por José Castello

Muito preconceito e incompreensão cercam a vasta obra do poeta amazonense Thiago de Mello, de 73 anos. Antes de tudo, é reduzido, um tanto apressadamente, à figura do poeta engajado e sua poesia tomada, mais, como ideologia. Depois, numa época de sofisticação e rapidez, ele se mantém apegado aos temas primitivos e lentos do Baixo Amazonas, aos versos soltos e derramados e, apesar de ateu, a uma visão da poesia como milagre.

Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares, mas há ainda um fator circunstancial a considerar: desde que retornou ao exílio, em 1978, voltou a viver na distante Barreirinha, pequena vila de 5 mil habitantes encravada no Baixo Amazonas, em pleno coração da floresta. Quando volta do sul do País, depois de voar até Manaus e de lá num pequeno avião até Parintins, o poeta ainda é obrigado a enfrentar uma longa viagem de barco, de mais de cinco horas, até chegar em casa.

Toda manhã, porque sofre de importantes complicações nas coronárias, Thiago dá uma longa caminhada solitária pela floresta, durante a qual recita em voz alta, para macacos, pássaros e o vento, versos de Manuel Bandeira e de Joaquim Cardozo. Apesar do difícil trajeto até sua casa e do peso da idade, não pensa em mudar-se de Barreirinha.

Há dois anos, seus leitores tiveram a impressão, errada, de que se preparava para retirar-se. Depois de ter avisado que De uma Vez por Todas, coletânea de verso e prosa lançada pela Civilização Brasileira em 1996, era seu último livro, Thiago de Mello lança duas novas obras.

Cara de índio, cabelos revoltos, bata branca, Thiago tem mesmo um jeitão de profeta, ou de místico, que contraria (superficialmente, pois ele se considera um utópico) seu perfil de artista ateu e de esquerda. Fala mansa, acentuada pela idade, olhar perdido e grandes silêncios dão a impressão de possuir conexões secretas com outros mundos que não podemos ver. Mas não foge da vida social. Não dispensa convites para seminários, palestras e eventos literários - acaba de participar do júri do prestigiado Prêmio Literário Casa de las Américas -, mas está sempre ansioso para voltar para o silêncio da floresta.

Além disso, participa intensamente da vida social de Barreirinha, onde há dois anos fundou um jogral, Os Companheiros da Esperança, com 18 jovens, que já tem um repertório de 25 poemas de Drummond, Pessoa, Cardozo, Cabral, Gullar e Bandeira. Mas Thiago não limita suas atividades aos entornos da floresta. No momento, ele se empenha na organização de um grande encontro sobre a Amazônia, patrocinado pela Soka Gakai Internacional, uma ONG japonesa, que deve ser realizado este ano em Manaus.

Exílio
Depois de fazer uma cineangiografia em São Paulo, o poeta vai para o Chile, país em que viveu a maior parte dos seus nove anos de exílio, onde lançará a antologia de poemas Ainda é Tempo, a primeira integralmente selecionada e organizada por ele.

Quanto aos leitores brasileiros meio esquecidos da obra de Thiago, o melhor mesmo é ler Campo de Milagres, livro de poemas derramados e excessivos como ele mesmo, dedicados a amigos como Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira, José Lins do Rego e ao pintor chileno Nemésio Antunez. O primeiro livro de Thiago, Silêncio de Pedra, é de 1951 e com Campo de Milagres um ciclo de 50 anos de poesia começa a fechar-se.

Não menos inspirado é Amazonas/Águas, Pássaros, Seres e Milagres, um belo livro fartamente ilustrado com reproduções dos trabalhos das bordadeiras do Baixo Amazonas. Os dois trabalhos guardam um espírito de balanço, de inventário, que começa a desaguar no livro de memórias que Thiago de Mello está escrevendo. Não memórias clássicas, mas um livro sobre as pessoas que conheceu, amou e que marcaram sua vida. É principalmente sobre essas pessoas que ele fala nessa entrevista.

Estado - É verdade que você começou a escrever suas memórias?

Thiago de Mello - Minha editora pediu minhas memórias, mas vi que seriam uns 40 volumes e desisti. Então resolvi fazer um livro sobre pessoas, saltando para o poético. Rubem Braga dizia que Murilo Mendes, além de poeta, era poético. Conversando com o Armando Nogueira, cheguei à conclusão que a gente tem o direito de exercer sobre nosso passado o mesmo direito que nossos filhos têm sobre o futuro. Temos o direito de poetizá-lo.

Com quais poetas compartilha essa visão poética do mundo?

Bandeira e Cardozo estão entre meus poetas mais amados. Basta dizer que diariamente dou minha caminhada pela floresta, sozinho, para cuidar das minhas coronárias, dizendo versos de Bandeira e de Cardozo. Quando converso com o Armando, eu digo um verso e ele me responde com outro. E assim vamos. A poesia está impregnada em minha vida.

Você conheceu Manuel Bandeira?

Conheci Bandeira quando era estudante de medicina, por uma generosidade de Drummond. Levei para Drummond meus poemas, ele quis saber quem eu era. Naquele dia eu ganhei do Drummond, e do Lúcio Costa, que trabalhava na mesa ao lado, uma amizade sem fim. Drummond guardou meus versos e pediu que eu voltasse três dias depois. Quando voltei, entregou-me meus poemas cheios de observações, deu-me para ler inéditos do Claro Enigma e disse: “Vamos sair.” E levou-me à casa de Bandeira.

E quanto a Joaquim Cardozo?

O Cardozo é um grande desconhecido e, no entanto, é dos meus poetas prediletos e mais amados. Não é surpresa que ele seja tão esquecido. São poucos os leitores de poesia no Brasil. Depois, a promoção dos livros pelas editoras ainda está engatinhando. Terceiro, a bela prática da reedição é cada dia mais escassa. Ninguém se preocupa em reeditar Cardozo. Recebi da Bertrand Brasil a notícia de que acaba de sair a décima oitava edição de Faz Escuro, mas Eu Canto, um livro de 1965, e pediram-me uma nota a respeito. Comecei a escrever e assustei-me. Um livro que não é nem o melhor nem o pior que escrevi e chega a 18 edições, enquanto o Cardozo, que tem uma contribuição muitíssimo mais importante que a minha, que criou formas novas de versos, inventou ritmos, cadências, não é mais editado.

Você não está sendo pouco generoso consigo?

Não sofro de falsa modéstia, mas a verdade é que eu, ao contrário de Cardozo, não inventei nada. Pratico os ritmos tradicionais, as cadências comuns, nada mais do que isso. Não tenho importância alguma na história da literatura brasileira - eu importo, sim, para meus leitores, que gostam muito do que eu faço. Já a prática metafórica do Cardozo é tão densa que chegou a levá-lo à linguagem narrativa. O lirismo dele nunca é derramado, chega a ser quase ingênuo. Mas o Cardozo ficou famoso como arquiteto do Lúcio e do Oscar, não como poeta, para se ver como as coisas são injustas.

Joaquim Cardozo, como Murilo, também viam a poesia espalhada pelo mundo. Exatamente como você.

As histórias do Cardozo mostram isso. Nos anos 50, ele foi à Europa e quando voltou trouxe um baú com livros. Cardozo era um solitário, “muito puro e muito só”, como disse João Cabral num poema. Fui visitá-lo, encontrei-o diante do baú aberto, desembalando os livros. E aí ele me mostrou uma primeira edição do Baudelaire, um livro todo destruído. Eu disse: “Que pena”, mas ele me corrigiu: “Não, pena não, parece um labirinto.” Cardozo era um homem assim, ele via poesia em tudo.

Quando você publicou De uma Vez por Todas, declarou que era o seu último trabalho. Depois mudou de ideia. Por quê?

Não relutei quando vi que tinha escrito uma série de poemas que formavam um livro. Até mesmo essa longa parte do livro que é muito delicada e confidencial. Esse livro não tem metáforas, não tem comparações, a palavra direta já é a metáfora e isso me deu muito trabalho. Quando disse que não publicaria mais, eu não me despedia da poesia, mas do livro. Eu só não tinha mais intenção de publicar, achava que tinha dito tudo. Mas continuei a escrever e vi que ainda tinha coisas a dizer.

Escrever sobre a experiência pessoal não é arriscado?

Pode ser, mas eu tenho o direito de cometer minhas bobagens. Por que não? E tentei fazer coisas. Há mais de 30 anos queria escrever sobre a moça que veio lá do Sena e que nos meus 14 anos me deu a alegria do corpo dela. Eu não exagero se disser que, ao longo de 40 anos, tentei umas 30 vezes escrever esse poema [A Criação do Mundo] e não resultava em nada. De repente, lá no Amazonas, ele me nasceu. Os cinco primeiros versos me saíram e puxaram os outros. Li então para o Armando e ele me disse: “Continue.” Éramos o Armando, o Otto e eu, agora o Otto não está mais, mas não faço nada sem ler para o Armando.

Não é estranho que Thiago de Mello, o ateu, escreva sobre milagres?

Minha mãe, que morreu aos 98, queria muito que eu tivesse fé. Falava muito da salvação da minha alma e esse tema eu peguei para mim também. A vida eterna não me concerne, o programa já está todo armado. Tudo depende apenas da fé. Mas fiquei com o tema. O Machado diz na abertura do Dom Casmurro que ele acabou “unindo as duas pontas da vida”. Acho que nesse livro faço o mesmo, na medida em que volto à questão do ser, do estar do mundo e parto para escrever um poema sobre isso. Acabei achando que a vida é um campo de milagres e aí peguei o poema do Bandeira (”A vida é um milagre/ o tempo é um milagre/ a memória é um milagre…”) e coloquei na abertura.

Há uma visão um tanta antiga do amor num poema como As Prendas do Recato. Você fala da anágua, da combinação, do porta-seios.

Há uma coisa engraçada, é que eu gosto muito de olhar corpos bonitos, há um elemento mágico neles. Mas vejo que estão vendendo o quadril, o peito, a coxa como se fossem mercadorias e fiz então um poema sobre o recato que os anos não trazem mais, o tempo das anáguas, combinações, roupas que as mulheres já não usam. Como era bonito…

Há muitos versos dedicados a personagens da vida brasileira. Por exemplo, José Lins do Rego. Por que ele?

Escrevi dois versos sobre ele. Durante 11 anos convivemos diariamente: escrevíamos no Globo, íamos ao Maracanã, bebíamos juntos. E quando ele ficou doente, fiquei com ele por três meses no Hospital do Servidor do Estado. Guardei mais de 50 páginas escritas sobre esses três meses, que vou incluir no livro de memórias. Estou vivendo a tal crise dos neurônios fatigados, esqueço o que aconteceu anteontem. Aqueles neurônios da juventude pegavam a vida e a levavam para o banco de dados. Hoje vou bem devagar, deixando as lembranças caírem pelo caminho.

Por que dedicar um poema, O Nemésio, ao pintor Nemésio Antunez?

Nemésio seria o Portinari, o Volpi, o Di do Chile. Tem obras no Masp, no MAM. Ele, Neruda e eu vivíamos juntos. Era um homem alto, bonito, delicadíssimo. Gostávamos muito de cantar. Por incrível que pareça, fui diretor de um pequeno coral do qual faziam parte o Neruda e o Nemésio, entre outros. Nós cantávamos uma velha cantiga, El Marinero, à qual me refiro no poema.

Você também acaba de publicar um belo livro sobre a Amazônia, com reproduções de trabalhos das bordadeiras da região. A Amazônia também é um milagre?

Aqui em minha casa, na beira do rio, em plena floresta, vejo o vento chegar, balançando as palmeiras, e eu acho isso a maravilha da vida. Aí vêm os pássaros e aumentam o colorido da floresta. Vivo na floresta há 21 anos, desde que voltei do exílio. Aqui na floresta os caboclos leem no escuro, cheiram o ar, cheiram a água, encontram pistas em tudo. Há coisas que chegam a parecer história de mentiroso e então, às vezes, eu evito contar. A vida é um milagre. Eu estar vivo é um milagre. Estive no muro para ser fuzilado no Chile, tempos depois caí e por causa de um coágulo tive de abrir a cabeça. Sou safenado, mas não me lembro que tenho 73 anos. Tem gente de 25, 26 anos que já envelheceu, já perdeu a esperança, já desistiu. Eu não, eu creio ardentemente na utopia. Todo o avanço assombroso da ciência, da tecnologia, esse telescópio que já fotografou a luz dos primeiros estilhaços do big-bang, isso é um milagre e tudo isso vai reverter a favor do homem um dia.

Como é a vida em Barreirinha?

Até os 5 anos morei aqui em Barreirinha, uma pequena vila que fica a 24 horas de barco de Manaus. Hoje, para chegar em casa, pego um avião até Parintins e de lá um barco para uma viagem de mais cinco horas. O município tem 15 mil habitantes, mas a vila menos de 5 mil. Quando fiz 5 anos, fui para Manaus para estudar, mas até meus 5 anos eu vivia aqui, solto no meio da natureza. Tive ainda a grande sorte de ter um avô como Joaquim, homem bondoso que ficou cego por causa de uma catarata. Dos 8 aos 11 anos, até ele operar e voltar a ver, eu fui o seu guia. Esse homem me ensinou tudo sobre as nuvens e de onde vinha o vento. Ensinou-me a entender a floresta. A maravilha da floresta, o grande milagre, é que seu habitante, apesar da chegada da TV, continua a ser solidário. Lá, apesar da solidão, você nunca está sozinho. E na floresta eu aprendo muito mais com eles, do que eles comigo.

TAPIOCA DE MACONHA

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Por Franklin Jorge

 

Quando morei em Mossoró pela primeira vez, na época dirigindo a Sucursal dos Diários Associados, fui procurado uma tarde por um homem que se apresentou como   morador da vila de Tibau, hoje município, praia de veraneio predileta dos mossoroenses, embora o jornalista Canindé Queiroz a apodasse de “favelona”… Dizia ter uma “matéria quente”, que só podia ser tratada por um jornalista de gabarito.

Chamava-se Giovani, de pele curtida de sol e de ventos, o cabelo já inteiramente grisalho e um pouco acima do peso. Nosso fotógrafo, Marcos Sueldo, disse-me tratar-se de uma figura bastante popular e inofensiva, que curtia a vida despreocupadamente; o tipo que eu gostaria de entrevistar, reforçou, enquanto ia pegar a máquina para fazer uma boa fotografia.

Giovani conhecia todo mundo e todo mundo o conhecia. Se mal me recordo, fora comerciante e, indiferente às transações e dores de cabeça de que se queixavam comerciantes e empresários, contou-me que não renunciara de todo aos negócios, mas preferia investir noutras área, e era por este motivo que me procurava, por achar que eu entenderia melhor seus propósitos que fugiam um pouco aos padrões, segundo admitia, por ser eu de Natal e por escrever, na época, num grande jornal. Queria meu apoio para divulgar suas idéias.

Visionário, poucos acompanhariam seus raciocínios e a expectativa que botava na comercialização de certos produtos que a seu ver tinham muito futuro ou que, como matéria-prima, eram mal ou sub utilizados. A maconha, por exemplo.

Confiante no futuro, Giovani contou-me que estava disposto a voltar a fazer negócios, sim, mas como fabricante de… Bem, também como você, leitor, a principio não entendi aonde ele queria chegar ao retomar sua vida de homem de negócios. Por isso me dispus a ouvi-lo.

Seu plano era, no entanto, muito simples, de baixo custo e, segundo ele, de retorno imediato, considerando-se que quase todo mundo aprecia uma boa tapioca. Mas, a tapioca tradicional, feita de goma e coco, já estaria muito banalizada, pois desde que se entendia por gente já era degustada por todo mundo… Era preciso inovar e conquistar novos segmentos de consumidores.

Pois bem, sua idéia lhe parecia uma coisa genial, algo capaz de engordar rapidamente a sua conta bancária e proporcionar-lhe uma velhice mansa e tranquila. O que ele queria mesmo era tornar-se o primeiro e o maior fabricante de “tapiocas de maconha”, as logo tornadas célebres – esperava com fé e raça — “Tapiocas do Giovani”. Produto fino, inteiramente feito dentro das normas… “Já imaginou, o sucesso?”

VERDE POR FORA, VERMELHO POR DENTRO

sábado, 31 de outubro de 2009

Por Franklin Jorge

 

Confesso que me causou estranheza o anúncio de que o jornalista Rubens Lemos Filho, o Rubinho – assim chamado por amigos e puxa-sacos – seria o secretário de comunicação da governadora recém eleita. Por um motivo muito simples: o moço havia servido ao candidato adversário, ex-governador.

Surpresa semelhante a que senti quando, alguns anos antes, o governador eleito Garibaldi Alves, o escolhera para a mesma função. Neste caso, por um motivo muito simples: Rubinho, além de muito jovem, era um ilustre desconhecido. Soube-se, no máximo, que era filho do radialista Rubens Lemos, que fora preso político etc etc. Talvez Garibaldi, político esperto e incapaz de botar a mão na cumbuca, quisesse deixar claro que no seu governo haveria lugar para todos os credos e cores.

Ora, logo pensei em países onde os compromissos são encarados com mais seriedade e a ética faz parte da prática de vida das pessoas e, especialmente, dos profissionais, razão pela qual um ex-ministro, por exemplo, fica impedido de exercer funções por um determinado numero de anos em empresas privadas que possam se beneficiar do seu conhecimento privilegiado obtido no exercício do cargo público.

Assim, o anuncio do nome de Rubinho, para servir aos interesses de Wilma de Faria, soara-me como uma espécie de estranhamento. Eu teria lido bem? Seu nome – o de Rubinho, claro – teria sido mesmo incluído na lista dos secretários nomeados? Por que? No mínimo, esse seria um governo de coalização, ou seja, que teria a participação do ex, apesar da luta renhida, entre a governadora eleita e o ex-governador derrotado, que ainda fedia a chifre queimado.

Mas, não. Era isso mesmo. Rubinho é que aderira ao novo governo, deixando claro para todos a sua vocação de governista nato. Não digo aqui que o seu pai, já falecido, o teria desaprovado. Talvez Rubens pai é que não tenha contado com essa mesma sorte de melhorar de vida, ele que, como sabemos, comeu o pão que o diabo amassou, por causa do seu ingênuo proselitismo de esquerda que quase o matou à mingua.

Dele me lembro de um fato que, na ocasião, me fez inchar de raiva. Foi assim: um dia, o editor Carlos Lima me telefonou e me pediu que entrevistasse Rubens Lemos, seu amigo de antigas campanhas, que estaria por aqueles dias lançando um livro de poesia por sua Editora Clima, que eu ajudara a divulgar trazendo a Natal, pela segunda e ultima vez, o escritor Jorge Amado, que lançou a sua “Tieta do Agreste” na inauguração da Livraria Clima, na velha Ribeira. Um dos maiores acontecimentos culturais que Natal já viu.

Não me opus, e fiz a entrevista que não rendeu o que eu esperava. Na verdade, como poeta, Rubens estava bem abaixo da critica. Contudo, sensibilizado pelo malogro de sua vida, passei por cima de alguns pudores e escrevi o melhor texto de que fui capaz.

No dia seguinte, ao abrir o jornal, notei que o meu texto fora inteiramente modificado; de minha lavra, tinha apenas, em verdade, a assinatura. Imediatamente, chamei o chefe das oficinas do jornal, Baltazar, e o interroguei a respeito da metamorfose pela qual passara o texto no lapso de tempo em que foi escrito e composto pelo linotipista (o sistema de impressão era outro, ou seja, ainda não havia internet nem computadores naquele tempo), após ter passado de minhas mãos para Baltazar e deste para as do linotipista…

Baltazar me disse então que o próprio Rubens, pessoa dos Alves, fora às oficinas e pedira o texto, reescrevendo-o integralmente e atribuindo-me a autoria de conceitos a respeito da sua poesia que jamais me passariam pela cabeça… Agora, o episodio constrangedor, que na época me fez ver o radialista com outros olhos, passa a fazer parte da nossa história cultural, vocacionalmente pobre, suburbana e vulnerável às empulhações.

 

THIAGO DE MELLO E EU

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

 

 Por Franklin Jorge

 

 

Em minha adolescência inquieta e fatigada, sua poesia – que se confundia com a sua própria vida, pelo que sabíamos maravilhosamente repleta de aventuras –, me fez mergulhar em dimensões estranhas e magníficas do mito e do sonho, levando-me a pensar que também poderia me opor às injustiças e defender humilhados e ofendidos, escrevendo altruisticamente em versos.

 

Nunca pensei, porém, que algum dia nos conheceríamos e nos tornaríamos, se ouso declarar sem presunção, amigos, pois ninguém mais vocacionado para o exercício da amizade do que esse grande patriarca das letras amazônicas. Mais ainda, que eu viria a escrever numa mesa de peroba rosa, especialmente desenhada por Thiago de Mello, como um presente de aniversário dos meus quarenta anos…

 

Estávamos ambos, naquele remoto ano de 1992, em Rio Branco. Thiago, de passagem, para participar da entrega do “Prêmio Juvenal Antunes” e participar da inauguração de uma escola municipal em homenagem ao poeta do Ceará-Mirim, meu conterrâneo, recentemente achacado pelas mãos globais de Glória Perez num seriado feito com o visível propósito de faturar e colocar em evidência o nome do seu pai, que, de outra forma, continuaria um autor anônimo… Eu, trabalhando, mais precisamente dirigindo o “Complexo O Rio Branco de Comunicação”, onde empreendera o ambicioso projeto de, através de um novo direcionamento do jornalismo impresso e televisivo, “redescobrir o Acre… para os acreanos”. Foi o que fizemos, e assim muitos daqueles bairristas passaram a pensar que eu nascera também no Acre.

 

Um gigante, no físico e na alma, Thiago chama a si mesmo de “Caboclo”, o Caboclo Thiago, como outros amazônidas, de pele “cor de cuia” e cabelo encrespado já ficando inteiramente grisalho; um extraordinário ser humano, inteiramente despojado de todo o desejo de posse, pois o seu reino não é deste mundo…

 

Muito conversador – pois a conversação, como já tive a oportunidade de dizer noutra ocasião, parece-me ser a síntese de seus variados dons –, assim me lembro do autor de “Faz Escuro Mas Eu Canto”, naqueles breves dias em Rio Branco, passeando ao meu lado por suas ruas mal calçadas, visitando amigos, entre os quais um ex-governador do Acre nascido em Pau dos Ferros, em cuja casa, numa reunião somente de homens, em meio ao ópio da conversa, saboreamos um peixe especialmente assado por Rafael Ruela, um boliviano exímio nessa arte, sob as vistas de um alto funcionário do Banco Mundial admirado da nossa frugalidade.

 

Lembro-me ainda da visita que fizemos ao grande escritor e artista plástico Hélio Melo, uma dessas divindades tutelares da cidade, como um dos reis sem terra da poesia, vivendo em sua pobreza digna à margem do Rio Acre, autor de uma obra extraordinária que contém e resume a essência da terra e da alma de um povo heróico e imprevidente. Ali, naquela casa humilde de um vigia noturno aposentado, a profusão do talento em significativas formas de arte. E, no outro dia, melhor numa tarde, fomos Thiago e eu passear no velho Segundo Distrito, creio que onde a cidade nasceu, à margem direita do rio que fertiliza a capital do Acre, percorrendo o caminho tantas vezes percorrido por Juvenal Antunes, que morara ali há uns cinqüenta anos, no velho e tradicional Hotel Madrid, já fechado para o público, mas ainda sobreexistindo em sua preciosa arquitetura de época.

 

Ao partir, levou Thiago um pouco da nossa alegria de viver, tamanho o vazio que de repente se fez sentir à nossa volta, sem a sua presença. Dias depois, já em Barreirinha, ele escreveu pedindo-me que lhe enviasse a sua “roupa das festas” que esquecera no armário, a única que possuía, uma parelha de calça e túnica brancas, de linho, ricamente bordada a mão, que lhe fora presenteada por mulheres anônimas da distante aldeia de Soletiname, ao tempo de sua amizade com o padre, poeta e herói gualtemalteco, fundador de uma comunidade de pobres, Ernesto Cardenal, antes dele receber o “Prêmio Nobel de Literatura”. Fui ao quarto e lá estava a roupa do poeta, bem passada e perfumada. Certamente pelas mãos de Aparecida.

 

O poeta retribuiu enviando-me logo em seguida o poema que escrevera para a cidade de Rio Branco, no qual me cita entre os seus amigos acreanos, entre os quais o Doutor Albérico Batista da Silva, que fora aluno do meu tio Edgar Barbosa na Faculdade de Direito da UFRN e se tornaria como que um pai para mim. Um extenso poema que seria prosificado e incluído em parte nas memórias de Thiago de Mello, publicadas na primeira metade desta década e, rapidamente, esgotadas. Se pudesse descrevê-lo em uma única frase, diria que Thiago de Mello é a generosidade mesma em pessoa

RAUL BOPP E EU

domingo, 18 de outubro de 2009

Por Franklin Jorge

 

Nascido quatro meses antes de Luis da Câmara Cascudo, em 1898, o autor de “Cobra Norato” havia pouco se aposentara ou estaria se aposentando da vida diplomática, aí por volta dos anos setenta, depois de viver mais de 30 anos no exterior.

Morava então num amplo e imponente edifício neogótico, na Praia do Flamengo, onde moraria também o poeta João Cabral de Melo Neto e outros membros ou ex-membros da diplomacia brasileira e estrangeira. Uma curiosa construção, luxuosa e sombria, numa das áreas residenciais mais valorizadas do Rio de Janeiro, um pouco imprópria — pareceu-me — como residência de um espírito tão jovial e dionisíaco como o de Bopp, um gaúcho cosmopolita que logo me acolheu com simpatia e cordialidade surpreendentes num homem de sua idade. Ao contrário de colegas seus, não menosprezava a informalidade.

Notei que havia nele uma certa ansiedade no sentido de reatar laços com o Brasil. Especialmente com os jovens, como eu, com o pé na realidade brasileira e ao mesmo tempo interessado em nosso passado histórico. Acho que foi isto e o fato de ser eu norte-rio-grandense, melhor dizendo, um nordestino, que terá despertado o seu interesse por mim. O nordeste fazia parte da sua cultura e da sua afetividade. Com o tempo, ele passou a ver algo de Oswald de Andrade em minha personalidade e o dizia com ar divertido.

Ao receber-me em sua casa, depois de conversarmos algumas vezes no escritório de Enio Silveira, na Academia Brasileira de Letras e no PEN Club do Brasil, disse-lhe que aquele edifício sempre despertara em mim uma grande curiosidade. Ao passar diante dele, eu ficava imaginando que tipo de pessoas o habitariam… Não sei por que, lembrava-me o Edificio Dakota, em Nova York. Ou o túmulo de um faraó.

Nesse dia conversamos sobre Natal, o Potengi, Jorge Fernandes e Cascudo, que ele conhecera talvez no Recife, ao tempo em que estudara Direito, nos longínquos anos 20 ou já depois, quando da aventura antropofágica de que foi um dos expoentes ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Conversamos também sobre o mistério das casas e as sugestões que despertam em alguns transeuntes que ficam fantasiando dramas, como Maria Helena Cardoso, que procurava adivinhar se nesta ou naquela casa moraria um criminoso, um pervertido ou um santo… As casas têm alma, sim, retrucou. Lembro-me que saí dali inebriado por um surto de felicidade.

Gaúcho de Santa Maria, porém criado a partir de um ano de idade em Tupaceretã, na região missioneira, voltamos a conversar depois sobre a vida rural (tínhamos ambos a mesma devoção telúrica), sobre os sortilégios da noite misteriosa e a grandeza inominável da Amazonia e da sua mitologia autóctone onde ele vivera e para onde eu iria alguns anos depois, levados, ele e eu, em grande parte, pelo espírito de aventura e por uma incontentável curiosidade intelectual que nos fizera intuir quando éramos ainda muito moços, que, de alguma forma, o Sul não norteia ninguém.

“O Norte…Todo homem sente obscuramente, na alma, a atração e o apelo do Norte”, disse-me então e eu anotei ao despedir-me, já sentado à uma mesa na Confeitaria Colombo, diante de uma xícara de odoroso e delicioso café que me servia o Gonçalo.

[...]

 

 

POETA TEM HONRAS FUNEBRES 160 ANOS DEPOIS

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

 

Do Y! Posts

Washington (EFE).- O escritor americano Edgar Allen Poe, considerado o mestre do conto e da literatura fantástica, descansa finalmente em paz, depois que a cidade de Baltimore, no estado de Maryland, ofereceu a ele - 160 anos após sua morte - o funeral que nunca teve.

Quando Allan Poe (1809-1849) morreu há mais de um século, seu enterro passou despercebido e apenas uma dezena de pessoas participou dele.

Mas este domingo, Baltimore transformou o segundo funeral do genial escritor em uma grande homenagem, visto que realizou não um mas dois serviços fúnebres às centenas de cidadãos que queriam dar ao escritor seu “último adeus”.

Desde quarta-feira, centenas de pessoas passaram pelo Museu dedicado ao mestre do terror, onde a cidade instalou uma pira com uma réplica do corpo de Allan Poe

Quando Edgar Allan Poe morreu em 1849, aos 40 anos de idade, seu falecimento não se tornou público, por isso que só 10 pessoas foram se despedir dele.

Mas de seu segundo funeral participaram inclusive réplicas de Alfred Hitchcock, H.P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle.

Os amigos de Allan Poe, admiradores e artistas da época, interpretados por atores, também participaram dos dois funerais, realizados no marco das celebrações do bicentenário do nascimento do escritor.

Baltimore dedicou todo o ano de 2009 a honrar a figura e a obra do mestre do horror gótico, que nasceu em Boston, mas que morreu nesta cidade portuária, próxima a Washington.

A PAISAGEM HUMANA DE TOUROS

domingo, 27 de setembro de 2009

DONA LINDALVA TAVEIRA

 

 

 Por Franklin Jorge

 

 

Dona Lindalva Taveira, professora emérita, viveu mais de sessenta anos em Santos Reis, bairro que esbarra no Atlântico e homenageia os santos protetores de Natal, Melchior, Gaspar e Balthazar, guardiões do Forte. Nascida em Touros, chegou aqui em 1915, dentro de caçuás, sobre lombos de jumento.

 

Tinha apenas dez anos e a cidade a deslumbrou. Deu-lhe, desde então e por toda a vida, a idéia de metrópole. Aqui, seus pais foram morar primeiro na Ribeira, perto da casa dos futuros sogros de Aluízio Alves. Mas, nunca esqueceu sua terra natal e a homenageou, há muitos, compondo o Hino Oficial de Touros, que assim começa –

 

 

                                   Ó Senhor dos Navegantes,

                                   O mar da vida amainai.

                                   E ao porto que almejamos,

                                   Nossos destinos guiai…

 

 

Conheci-a um pouco antes de tornar-me um jornalista da Tribuna [do Norte], em 1976, como ativista e líder dos moradores de Santos Reis e Rocas, que então reivindicavam a retirada dos tanques de combustível da Petrobrás de Brasília Teimosa, ainda hoje um bairro favelizado e desassistido pelos governantes. Tinha, então, oitenta anos e a energia e a vivacidade de uma jovem.

 

Era uma mulher distinta, inteligentíssima, destemida, branca, magra, de olhos vivos e inquietos, bem humorada, cheia de espírito e verve. Recebeu-me esplendidamente em sua casa, numa praça de Santos Reis, com café, biscoitos, bolos, doce de goiaba, saídos de sua cozinha, e queijo fresco. Morava na companhia da irmã e, por saber do meu interesse por arte, mostrou-me uma pintura feita por um sobrinho, na época, morando no Rio de Janeiro.

 

Dotada da arte da prestidigitação, sabia cativar e impressionar pela palavra e, sobretudo, pela auto-ironia, um atributo do seu talento. Tinha graça, elegância e espontaneidade irresistíveis. Eu me lembro que essa foi uma tarde rica de revelações sobre a cidade e as pessoas que fizeram a história, especialmente, na área da educação, como o professor Clementino Câmara, autor, inclusive, de um maravilhoso livro de memórias, “Décadas”, que está a exigir urgentemente uma reedição.

 

Como supervisora escolar, percorreu o estado. Esteve em Angicos como professora, em 1928, quando teve o menino Aluízio Alves entre seus alunos. Deve te-lo impressionado e, por toda a vida, foi uma referência afetiva e intelectual para o ex-governador que, quando Ministro da Administração, no Governo do Presidente José Sarney, a visitou e por toda a vida nunca deixou, antes nem depois, de ir à sua casa para abraça-la e desejar-lhe vida longa.

 

Dona Lindalva foi amiga de Palmira Wanderley, que costumava visita-la em Santos Reis. Era, segundo recordação de Dona Lindalva, muito comunicativa; e tinha sempre uma palavra gentil para todos. Mesmo assim, confessou, não era feliz.

 

Já “transpondo o Cabo da Boa Esperança”, expressão que usou para enfatizar o pouco tempo de vida que lhe restava, cumulada de gratidão e reconhecimento, mereceu uma grande homenagem do bairro de Santos Reis e do povo da terra onde viu a luz pela primeira vez, sua querida e inesquecível Touros.

 

 

[1986]

DONA DAHLIA NA INTIMIDADE

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Por Franklin Jorge

Quando a Casa da Moeda homenageou Luis da Câmara Cascudo, reproduzindo-lhe a efígie numa cédula de 50 mil cruzados, em 1991, dediquei-lhe quatro páginas no jornal “O Rio Branco”. A cédula deixou de circular faz muito tempo, pois o que era cruzado virou real, mas o documento que produzi e os que foram gerados a partir dele, aqui estão diante de mim, uma carta de Dona Dahlia Freire Cascudo e um depoimento gravado em sua casa, após meu regresso da temporada na Amazonia,  além da correspondencia com um dos biógrafos do escritor norte-rio-grandense, o fluminense Francisco Vasconcelos.

Em agradecimento, dona Dahlia, viúva de Cascudo, escreveu-me uma longa carta encarecendo a sua gratidão e convidando-me a visita-la quando voltasse ao Rio Grande do Norte, pois segundo disse devia-me um pedido de desculpas, mas só queria faze-lo de viva voz.

Fiquei curioso. E, ao regressar a Natal, fiz contato através do telefone e combinamos essa visita que, de fato, muito surpreenderia, pelos motivos que ficam aqui registrados. Cheguei a sua casa às 14 horas cheio de expectativa, pois não conseguia imaginar o que ela teria a me dizer.

Mal toquei a campainha, a porta se abriu e lá estava D. Dahlia, bem vestida e penteada, à minha espera. E, notando minha curiosidade, esclareceu que nada mudara, a não ser pelo fato de que agora só tinha como consolo “a lembrança de Luis e o dever de honrar a sua memória”, preservando-lhe a herança intelectual.

Pareceu-me a um tempo feliz e ansiosa ao receber-me, discretamente maquiada e perfumada, de mãos estendidas para apertar as minhas. “Há quanto tempo, Franklin Jorge… Esperei muito por este dia… Antes de mais nada, suponho que queira rever a biblioteca, o lugar onde Luis trabalhava…”, disse e foi se encaminhando para o local, onde conversamos alguns minutos de pé. Notei que tudo estava como antes, sobre a mesa um livro aberto, um resto de charuto num cinzeiro, uma filigrana de luz. De fato, aparentemente, nada mudara…

Em seguida, Dona Dahlia mostrou-me o resto do casa, incluindo seu quarto de dormir, onde entrei pela segunda vez, a primeira delas havia muitos anos, para colocar ali uma cadeira que a seu pedido eu acabara de pintar. Quanto já voltávamos do terraço, onde Cascudo  às vezes se deitava numa rede para ler, disse, Agora vamos nos sentar para conversar e encaminhou-se para a sala única que fazia as vezes de refeitório e de estar. Notei que havia apenas duas cadeiras, uma ao lado da outra. Por favor, queira sentar-se…

Fiquei alguns minutos de pé, esperando que ela sentasse. Mas Dona Dahlia continuou de pé. Sente-se, por favor, insistiu, apontando na direção da cadeira de balanço onde o seu marido costumava sentar-se; uma velha cadeira que restara da mobília do coronel Cascudo e que  ficava num âzngulo da sala, entre um console sobre o qual havia uma maravilhosa pintura de Moacir de Andrade, o grande artista amazonense, e a cristaleira das condecorações. Ao lado da cadeira um banquinho com papéis e a lupa usada pelo famoso escritor para ler a correspondencia. 

Certamente, pensei, estou equivocado e fiz menção de sentar-me numa cadeira austríaca que fazia parte do conjunto da mesa de jantar. Não, por favor, sente-se na cadeira de Luis, acrescentou. Faço questão… Senti que alguma coisa de muito estranha acontecia. Tem certeza…? Por favor, repetiu e sentou-se na outra cadeira, ao lado da de balanço que pertencera ao seu sogro. Somente então me sentei, finalmente, na “cadeira do Professor Câmara Cascudo”, como eu ouvira a própria Dona Dahlia dizer algumas vezes, falando com as empregadas ou com algum visitante. Emocionado, interpretei esse gesto como uma deferencia especial.

Como lhe disse por telefone e, antes, na carta que lhe escrevi quando estava no Acre, que esperei muito por este momento, para pedir-lhe desculpas por ter-me calado sobre um assunto que muito deve te-lo aborrecido, tanto quanto me aborreceu também… Não entendo, interrompi sem atinar ao certo sobre o que ela falava. Não entendo do que a senhora está falando…

Entenderá sim, quando eu disser que me estou referindo ao que escreveu na Tribuna do Norte, após a morte de Luis, sobre o Memorial Câmara Cascudo… Entendi, mas não pude externar meu pensamento, que você defendia a sua memória e lutava para que ele merecesse mais respeito daqueles que queriam tirar proveito do seu nome para autopromover-se…

Você não fez campanha contra Luis – acrescentou em sua voz de contralto –, mas contra aqueles que queriam pegar carona na sua notoriedade. Você se colocou contra o oportunismo… Contra a exploração despudorada que se fazia do nome de Luis… Tanto é que, até hoje, o Memorial não passou do projeto e só não fechou porque emprestei alguns livros e objetos de Luis, para que tivesse o que mostrar… Eu podia ter esclarecido tudo, mas calei-me. Ainda estava muito abalada com a morte de Luis… E, afinal, sou apenas uma pobre mulher… Meu silencio me fez muito mal.

Dona Dahlia pediu-me que a ouvisse sem interrompe-la, pois estava com tudo aquilo atravessado na garganta há muito tempo. Você, inteligente como é, deve ter notado que, naquele período e até a sua mudança para a Amazonia, evitei contatos com você… A contragosto e para não agravar a situação. Saiba que cheguei a receber aqui, nesta sala, uma comissão de pessoas que se diziam cascudianas que vieram denegri-lo e pedir-me que não mais o recebesse, pois você fazia campanha contra a homenagem que o estado queria prestar à memória de Luis…

Por fim, perguntei-lhe se ficaria constrangida se eu lhe perguntasse sobre as pessoas que integravam essa comissão que esteve em sua casa para denegrir-me e pressiona-la. E ela respondeu que não, que era um direito meu saber toda a verdade, agora que tanto tempo se passara sem que ela tivesse podido explicar-se e pedir-me desculpas. Sim, diria seus nomes sem nenhum constrangimento.

Fui então mais ousado e perguntei-lhe se faria alguma objeção se eu voltasse no dia seguinte ou no dia que lhe fosse conveniente, com um gravador, para documentar suas palavras. Dona Dahlia não titubeou na resposta. Com todo prazer. Amanhã, neste mesmo horário, estarei à sua espera…

Voltei no dia seguinte com uma lista de nomes sobre os quais tinha curiosidade — muitos dos quais passavam e ainda passam por intimos do escritor e autoridades em sua obra –, munido de um gravador  e fitas suficientes para colher um longo depoimento. Dona Dahlia depôs numa fita que recentemente mandei transpor para cd-room e que acabo de ouvir. Nela, a relação dos verdadeiros cascudianos e outras informações privilegiadas, entre os quais, na verdade, nenhum desses nomes que andam por aí.

Ela disse textualmente: “Só há dois cascudianos vivos, conhecedores de sua obra e que tiveram contato intimo com ele, pessoalmente e através de uma longa correspondência”… Quem, quis saber. E ela: “Você e o professor Francisco Vasconcelos, que desejo apresentar-lhe” e dizendo isto me deu um envelope endereçado ao seu marido, cujo remetente outro não era senão o professor Francisco Vasconcelos, morador de Petrópolis, no estado do Rio, de quem me tornei amigo. Uma amizade que tem quase vinte anos.

[...]

A CASA DE CÂMARA CASCUDO

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Por Franklin Jorge

 

 

O endereço residencial mais conhecido de Natal em todos os tempos, ali estive pela primeira vez levado por uma tia, Olga, que colaborara com o professor Câmara Cascudo, auxiliando-o em pesquisa e tradução de textos em língua italiana, ao tempo em que escrevia sobre Dante e a tradição popular no Brasil. Casada com italiano e professora de língua e literatura italianas na Faculdade de Filosofia, passara ali para entregar-lhe um livro ou uns papéis, não lembro mais, pois na a ocasião eu não teria, creio, mais de dez anos. Antes minha tia havia-me dito que iria levar-me para conhecer um grande escritor, seu colega de faculdade. Ao chegarmos,  ela me disse que no futuro eu lembraria deste dia.

 

Subimos a escada, após cruzarmos o portão que se encontrava sem cadeado nem ferrolho, pois naquele tempo a vida em Natal era tranqüila e calma. As ocorrências policiais seriam mínimas, mais relacionadas a desordens provocadas por bêbados e pequenos furtos, conforme os jornais da época. Tia Olga, de bolsa e sapatos de couro, vestia discreta e elegante chemise estampada em tons pastéis, fez-me precedê-la em dois ou três degraus, por ser esta a etiqueta exigida ao cavalheiro que acompanha uma dama.Eu me sentia orgulhoso de fazer-lhe companhia.

 

Antes de tocar a sineta, leu para mim, em latim, os dizeres gravados em um azulejo incrustado ao lado direito da porta, depois tão divulgados, até, por quem não sabia patavina de latim. “Encontrei meu porto…” Logo, ao entrarmos naquela casa, o que vi foi o piano dum castanho brilhante, solitário e emudecido, na pequena saleta que dava acesso à sala ao mesmo tempo de estar e de jantar e às demais dependências, o que incluía a biblioteca que me pareceu muito organizada e bastante atraente para um menino tímido e curioso que se encantou com vários objetos estranhos que soube indispensáveis em certos cultos africanos. À sua volta alguns retratos, inclusive o do maestro Villa-Lobos, com a curiosa dedicatória.

 

Fomos recebidos à porta, de maneira cortês e distinta, por Dona Dahlia, a quem minha tia telefonara antes, marcando a hora da visita, creio que um pouco antes do crepúsculo, pois me lembro que o admiramos na companhia do mestre e de sua esposa de uma das janelas do velho solar que me pareceu uma espécie de caverna encantada e aquela montanha de livros como nunca eu vira antes, a não ser na casa do meu tio escritor e jornalista, autor do magnífico prefácio do livro que Cascudo escrevera sobre a poetisa que o embalara nos braços e que lhe merecera a construção do mais importante monumento funerário em homenagem a um autor norte-rio-grandense.

 

A impressão que tive de Cascudo era a de que se tratava de um gigante. Nunca um homem me parecera mais alto, mais sólido, sob a farta cabeleira revolta, ligeiramente grisalha. Cascudo cumprimentou-me como se eu fora um adulto, o que mais me impressionou em relação à sua figura. Senti que se estabelecera uma misteriosa cumplicidade entre nós, pois naquele tempo eu vivia preocupado em me tornar um adulto, para gozar dos privilégios que gozam os adultos, segundo eu acreditava então.

 

Não prestei atenção ao que os dois conversaram, pois minha atenção vagava entre uma estante e outra, entre um objeto e outro, enquanto eu fazia um esforço tremendo para não ser mal educado e não tocar quaisquer daquelas peças que estavam ali apenas para serem vistas por eventuais visitantes. Dessa primeira visita lembro-me de uma senhora muito amável que somente anos depois saberia tratar-se de Dona Sinhá, cunhada do escritor, que morava em sua companhia. Depois, um pouco antes das despedidas, fomos convidados a tomar um copo de guaraná na sala de jantar, acompanhado de biscoitos champagne, onde não havia ainda o quadro pintado por Moacir de Andrade, que me encantara anos depois, quando já adolescente passei a freqüentar aquela casa e que me levou até Manaus onde conheci o grande artista amazonense, um outro mito do meu universo imaginário.

 

 

Bibliografia resumida de Luis da Câmara Cascudo

 

.Prelúdio e Fuga do Real

.O doente aprendiz

.Canto de Muro

.O Tempo e eu

.Ronda do Tempo

.Flor de Romances Trágicos

.Viajando o Sertão

.Dicionário do Folclore

.A Literartura Oral no Brasil

.Contos Populares do Brasil

.História da Cidade do Natal

.O Livro das Velhas Figuras (sete volumes)

A CASA DE CORA CORALINA

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Por Franklin Jorge

 

 

Para começo de conversa devo dizer que deixei a casa de Cora Coralina sem ter prestado nenhuma atenção ao ambiente em que vivia, pois enquanto ali estive só prestei mesmo atenção às suas palavras que vinham de muito longe, aos borbotões, como água de levada.Senti, no entanto, sua amável simplicidade a irradiar-se, a cada palavra ou gesto seus com o encanto magnético de uma revelação. 

 

Encantado com tudo o que dizia, somente pude anotar alguma coisa porque fui instado a fazê-lo por uma moça que se engraçara comigo e que achava que, por ser eu um jornalista, não podia sair dali sem ter matéria, pelo menos, para a produção de um artigo.

 

Considerada a maior doceira de Goiás, título que a satisfaz plenamente, Cora Coralina é muito exigente em tudo. Fica satisfeita quando alguém come o seu doce e diz Bem feito! Repudia o Gostoso!, o Está ótimo!, que a seu ver já estariam implícitos no Bem feito!, resume Bariani Ortêncio em seu livro mais famoso, inspirado na cozinha de sua terra goiana.

 

Tendo vivido grande parte de sua vida numa pobreza enorme, aprendeu a prestar atenção às oscilações da economia nacional, assunto que acompanha com interesse, lendo as seções especializadas dos jornais ou através dos noticiários do rádio e da tevê. Sabia tudo sobre os movimentos da Bolsa, especialmente da Bolsa de Futuros, dos generos alimenticios negociados antes de serem colhidos.

 

Mulher pragmática, aos noventa anos ela considera que a literatura não é profissão nem dá camisa a ninguém. Acha que fazer doces para turistas é um negócio muito mais rentável do que escrever, embora considerando que o povo, que mal tem para a sobrevivência, não tem dinheiro para gulodices.

 

Muito observadora, chegou à conclusão de que o homem come pouco doce, com raras exceções, tirando sempre o menor pedaço, ao contrário da mulher, que escolhe o maior, embora não o coma inteiramente. Já a criança tanto come quanto desperdiça… Por isso, ela só faz doces em pequenos pedaços, para evitar desperdícios.

 

Doceira emérita, suas especialidades são os doces de figo, laranja, banana e cidra, que rivalizam com a fama de seus versos. Ocasionalmente faz tabletes de abóbora e de leite e, durante as safras, passas de caju. Sempre prefere a qualidade à quantidade.

 

Às vezes, ela suspende a colher de pau e ali mesmo, ao lado do fogão, se debruça sobre um caderno, no qual anota um verso… Só estão vivos aqueles que já morreram… Ela adora escrever e alimenta-se de uma curiosidade incontentável. Uma vez em que autografou um livro para mim aproveitou para interrogar-me sobre o que me levava a escrever e que significado eu extraía dessa experiência que lhe parecia por demais misteriosa para ser decifrada.

 

Quis saber ainda se os jovens potiguares cultivavam o hábito da leitura e se havia bibliotecas públicas bem sortidas em todo o Rio Grande do Norte, democratizando o acesso ao livro. O autógrafo, contendo tais indagações, estendeu-se por duas páginas. Responda-me por escrito, ela pediu, mas não tive coragem. Temi uma dessas correspondências intermináveis que acabam por se tornar absorventes.

 

Sua velha casa, na Ponte da Lapa, recebe muitas visitas. É das mais antigas de Goiás. Segundo Cora Coralina gosta de narrar, tem uma crônica que a singulariza e que a integra ao mundo emocional e mitológico da cidade que já foi opulenta, ao tempo em que o ouro de Goiás era levado em grande quantidade para Portugal.

 

Construída em cima de um muro de pedras levantado por escravos, pertenceu a um Thebas Roriz Rodrigues, recebedor do quinto real em Vila Boa, que ali se suicidara, depois de desviar parte do ouro pertencente ao rei. Temendo a devassa desmoralizadora, o recebedor ainda tentou subornar o emissário do rei, enviando-lhe em uma rica bandeja de prata lavrada, moedas e barras de ouro cobertos com uma alva toalha de linho bordada.

 

Quisera assim peitar o fiscal da Coroa, conforme contava Cora Coralina, dramatizando, pois há nela uma formidável atriz. A ourama, contudo, foi devolvida, porque ainda havia naquele tempo funcionários honestos.

 

Roriz, temendo ser enviado sob correntes para os subterrâneos do Limoeiro, prisão terrível de onde poucos conseguiam sair com vida, muitos devorados por famintas ratazanas, envenenou o escravo de confiança, para fazer-lhe companhia na outra vida, e depois se matou.

 

A casa teria sido então arrematada por um antepassado da escritora, o sargento-mor José Antonio do Couto Guimarães, permanecendo desde então em poder da sua família. Contava Cora à Doutora Amália, com quem por muitos anos conversou sobre as tradições da cidade enclausurada no tempo.

 

Nascida Anna Lins dos Guimarães Peixoto, aos cinqüenta anos, já viúva desde os 46, mudou o nome para Cora Coralina, porque, segundo explicava, em Goiás havia muitas Aninhas e Anas, por causa da padroeira da cidade, Santa Ana, e ela queria ser única e inconfundível. Cora vem de coração, explicava. Coralina é um coração vermelho. Minha intenção era não ter xarás. Não queria ser confundida com ninguém mais. Eu queria ser única. Única.

 

Já muito idosa, tendo fraturado o fêmur numa queda, compôs uma “Ode às muletas”. Uma vez ela deu algumas sementes a Doutora Amália, que lhe teria perguntado que espécie de flores nasceriam delas. Cora, que era muito positiva e facilmente irritável como dos poetas disse Horácio, foi logo retrucando, Não me lembro. Mas se não fossem bonitas não tomaria o trabalho de colher as sementes.

 

Plantadas em seu jardim da chácara Amália, de onde escrevo estas linhas à margem do córrego João Leite, cresceram viçosas e floresceram magnificamente. Eram ipoméias, de câmpanulas graúdas, azuis-arroxeadas com garganta e veios rosados, explica-me a famosa botânica com voz rascante peculiar, enquanto vai tecendo um lindo buquê com que me presenteia.

 

[...]

AINDA SOBRE DONA MARTHA

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Da Redação

O jornalista Paulo Sérgio Martins enviou a Franklin Jorge um curto depoimento sobre D. Martha Wanderley Salém, falecida no último sábado. Vale transcreve-lo, numa homenagem à notável assuense que parece ter sido pioneira, entre nós, no exercício do “voluntarismo”, atualmente tão em moda e politicamente correto.

Era uma grande divulgadora do idioma alemão e, embora sem jamais ter visitado o país, conhecia perfeitamente sua cultura e discorria sobre suas cidades como se lá tivesse vivido…

Eis o que escreveu o jornalista Paulo Sérgio Martins:

“Fui seu aluno de língua alemã, logo depois de vir morar em Natal, final dos anos 90 do século passado. Na época eu dava expediente no gabinete de Nélter Queiroz, na Assembléia Legislativa, onde compartilhava o ambiente com Sandra Medeiros (aquela a quem visitamos em seu restaurante na rua Apodi, lembra?) que não se cansava de dizer da sua admiração por dona Martha.

Sandra é sobrinha de Ione Medeiros Salem, a viúva de Emílio. De tanto ela insistir, um dia fomos à casa simples e bem cuidada localizada ao pé do morro do Tirol, onde moravam dona Martha e uma filha. Ao apresentar-me àquela velhinha simpática, Sandra fez questão de enfatizar minha origem assuense e de ser “amigo de Franklin Jorge, aquele seu amigo jornalista…” Aí dona Martha foi logo me perguntando sobre o seu paradeiro, que era “um moço muito inteligente e atencioso”, essas coisas.

Aproveitando a nossa longa conversa, Sandra resolveu “dar um pulinho” na cidade e que logo estaria de volta. Sabe Deus para onde ela voltou. Já era noite quando saí de lá, a pé, quase rouco de tanto ouvir e tomar café.

Dias depois eu estaria de volta àquela casa, todas as tardes, para minhas primeiras aulas de alemão. Rotina abreviada pela campanha eleitoral que se avizinhava e da qual tive que participar em busca de um troco.

Ausentei-me sem avisar previamente e não tive mais como encarar a mestra, temendo uma provável repreensão.

Ela não cobrava pelas aulas, mas, em compensação, requeria a máxima aplicação do aluno. Infelizmente, não deu. E construí assim o meu caminho sem volta.


Tenho a consciência culpada de que fui descortês e indelicado com dona Martha, mulher sensível e abnegada que me dispensou o melhor de suas qualidades. Quem sabe um dia tomo jeito.”

 

LEMBRANDO MACEDONIO

domingo, 9 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Natal — Visita ao decano dos jornalistas do Rio Grande do Norte, o cearamirinense Aluisio Macedônio Lemos, disseminador de jornais e revistas entre os quais, Canaviais e A Juriti, que circulou por mais de 30 anos e em cujas páginas cheguei a publicar incipientes cronicas que espelhavam o adolescente inquieto e fatigado que fui.

Já não o avistava havia muitos anos, pois ambos nos mudamos (ele para outro bairro de Natal — do Alecrim para as Quintas profundas–, eu para a Amazônia infernal e misteriosa). Maior de noventa anos, magro como uma folha, encontrou em Dona Laurice, sua segunda e última esposa, a companheira abnegada que era tudo na redação de sua revista de periodicidade cada vez mais incerta: compositora, revisora, impressora, administradora, vendedora, cobradora etc, tudo isto resumido numa única palavra — secretária. Muito discreta e dedicada, tinha um pequeno buço e usava óculos do tipo fundo de garrafa…

Macedônio, Aluizio M. Lemos, não me esperava. Fui entrando de casa adentro, guiado por sua neta, Célia, que me localizara na redação do Diário de Natal e anunciou minha presença em plena manhã ensolarada. Veio D. Laurice receber-me e avisar da satisfação do marido ao saber de minha visita inesperada e matinal, mas, como ele não esperava ninguém àquela hora, só podia apresentar-se depois de tirar a barba e vestir-se adequadamente.

Quis dispensa-lo de tanta formalidade, mas lembrei-me de que, como todo intelectual, era Macedonio vaidosíssimo e tinha um grande apreço pela própria aparencia. Por isso, esmerava-se em apresentar-se bem composto, pois intintintivamente sentia-se uma figura representativa à maneira dos principes. Ele próprio, por toda a vida, o Principe dos Poetas do Ceará-Mirim, onde viveu e fez politica ao tempo do Integralismo, entre os anos 30 e 40.

Conversa animada entre papéis velhos, prensas tipográficas (era tipógrafo de profissão) e impressoras enferrujadas, velhissimas, caixas de tipos empastelados, nesgas de papel amarelado contendo provas tipográficas de artigos que jamais seriam impressos, por faltar-lhe os recursos necessários, como a saúde e a energia que desafia e vence dificuldades materiais mais prosaicas — como a falta de dinheiro…

Conhecemo-nos e privamos por mais de 30 anos e não posso dizer que ele mudara alguma coisa nesse longo tempo decorrido desde o dia em que, entre os dezesste e dezoito anos, bati á sua porta levado pela curiosidade. Sempre a mesma fibra e as mesmas convicções impereciveis. Em Natal, foi dos primeiros a apoiar Djalma Maranhão — que o visitava em seu antigo sobradinho da Rua dos Paianazes, já praticamente soterrado pelas enxurradas, estragos que o prefeito Agnelo Alves, sucessor de Djalma, se recursara a indenizar… Só percebiamos que se tratava de uma casa de dois pisos depois que entravamos nela após descermos um lance de escada precedida por uma muralha de tijolos e caliça erguida dificultosamente para conter as enxurradas.

Foi frequentando sua casa e tomando vez por outra seu café com leite que me conscientizei de que o artista e todo homem de convicções seria sempre pobre e à mercê das mais vulgares contingencias. Porém ali estava um forte. Um homem de quem se podia dizer que as contigencias não puderam quebrantar. Terá morrido de pé, como sempre viveu, obscuramente, da arte da tipografia e quanod moço, no tempo em que viveu no Pará, praticando um jornalismo retórico e adjetivado, já fora de moda. Porém, apesar da obsolescencia do seu estilo e da estreiteza do seu mundo social, sabia perceber o talento e não se escandalizava com o novo. 

Confesso que não soube extrair dele, isto é, de sua experiencia de vida e de sua memória os fatos e as personagens que compuseram o seu universo afetivo e mental, nem reparei que era visitado frequentemente por figuras como o major Pedro Sylvio de Moraes, testemunha ocular da história, entre outros, que viveram de fresco a história politica do Rio Grande do Norte.

Nesse nosso último encontro, ocorrido se não me engano em 1993, relembrou a meu pedido a Diocésia — em sua primeira fase sediada no célebre Café Magestic e animada pelo nosso grande modernista, o poeta Jorge Fernandes, da qual fizera parte Luis da Câmara Cascudo, Jayme dos Guimarães Wanderley, ainda nos anos 20, ou seja, no auge da belle epoque provinciana. Nessa fase fora eleito Rei de Natal, em suntuosa cerimonia o açougueiro José Laurindo que evoco em meu livro “O Spleen de Natal”.

Extinta a Diocésia, por cansaço, morte ou desinteresse de seus antigos membros, foi ressuscitada alguns anos depois por um outro grupo de intelectuais natalenses a 25 de dezembro de 1965, no pomar do poeta e tipógrafo João Carlos de Vasconcelos, à Rua Mipibu 440, Petropolis. Macedonio foi um desses ressuscitadores e a frequentou em sua segunda fase, quando dela participaram além dele e de Vasconcelos, os poetas Antidio de Azevedo, Monsenhor José Alves Landim, Antonio Fagundes e Cosme Lemos sobre os quais Macedonia teria muitissimo a contar, tivesse eu então mais tempo para ouvi-lo.

A Diocésia restaurada manteve um jornal do mesmo nome, informa-me. O clube literario extinguiu-se nos anos setenta quando da eleição para escolha do Principe dos Poetas do Rio Grande do Norte, na qual sagrou-se realmente o poeta Luiz Rabelo, de quem o grande satirico Sebastião Soares, seu rival na arte trovadoresca, alfinetou em glosa da qual só me lembro do mote:

            Sabe fraudar elieções

            e legar aos outros a derrota…

 

Bons tempos! esses, quando as guerras eram poéticas e a munição, versos.

[Fragmento do livro "Os Lares", inédito]

RELATO DE UMA VIAGEM AO CEARÁ (2-2)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Por Franklin Jorge 

 

Juazeiro, Crato e Barbalha, cidades conurbadas que se destacam no âmbito do Vale do Cariri, devem o seu progresso e desenvolvimento à indústria da fé, que fez da primeira um centro de romarias onde desfila todos os dias uma população flutuante de milhares de pessoas que alimentam seu pujante comércio.

Sob a égide do Padre Cícero, essas cidades desfrutam de uma posição de destaque em relação aos demais municípios do Ceará, um estado onde à pequena empresa e o cooperativismo dominam sobre o gigantismo e criam melhores condições de vida para uma significativa parcela da população.

Neste caso, o próprio clima ajuda e o governo fez a sua parte, construindo açudes e vigiando para que o estado não se despojasse inteiramente de suas matas nativas. Justamente o oposto do que ocorreu em nosso Rio Grande do Norte.

No caso específico de Juazeiro, podemos dizer que são duas cidades embutidas em uma só. A dos romeiros, que corresponde à cidade velha, onde rola o dinheiro e a miséria, e aquele outro mundo criado pela riqueza, que corresponderia, para simplificarmos, ao primeiro mundo. Aqui estão as belas mansões, construídas entre árvores e protegidas por muros altos que as sonega aos olhares dos curiosos.

Em Juazeiro, especialmente, os contrastes são muito vivos e evidentes. Impressiona, na cidade velha, pouso dos romeiros, todas as mazelas que decorrem da pobreza e do atraso, que eu sintetizaria no mau cheiro que exala desse conglomerado de problemas sublimados por uma fé cega nos poderes do Padre Cícero.

A grande indústria de Juazeiro é a da fé que move montanhas. Uma indústria que não conhece crise nem sofre com a queda da Bolsa. Lá, pareceu-me em franca expansão, o que é visível inclusive nas sucessivas reformas que ampliam as igrejas que vão perdendo assim o seu desenho arquitetônico original em nome de uma demanda que ignora qualquer conceito estético.

Dia e noite chegam e partem os romeiros, em torno dos quais gravita toda a economia do município. Uma economia pujante que se ramifica e se fortalece sob a proteção de bentinhos e escapulários, graças ao Padim Padre Cícero.

As igrejas não fecham, pois a fé, em Juazeiro, não dorme nem tira férias. Na catedral em obras, em torno da qual os romeiros se penitenciam e consomem, um padre roliço e abusado recebe a confissão de dezenas de homens e mulheres silenciosos e pacientes que formam aos seus pés uma grande fila.

Refestelado numa cadeira colocada num ângulo da catedral, ele mordiscava com pachorra eclesiástica as bordas de um copo de plástico, completamente indiferente à confissão dos penitentes, numa cena um tanto felliniana, que nos revela o automatismo sacrílego com que se desincumbe de suas obrigações de pastor de almas.

 [2002]

 

RELATO DE UMA VIAGEM AO CEARÁ (1-2)

sábado, 4 de julho de 2009

Por Franklin Jorge 

Em viagem recente através de três estados, na companhia de amigos constatei, surpreendido, quanto o nosso Rio Grande do Norte está atrasado em relação ao Ceará. A começar pela geografia, embora próximas, tão distintas.

Ao longo do sertão do Seridó, detentor de uma cultura própria que se expressa na luta permanente do homem contra a inospitalidade da natureza, o deserto que avança, sem que o governo lhe interponha obstáculos através de ações reparadoras  capazes de corrigir o descaso e fomentar o desenvolvimento.

Caicó, sobretudo, parece existir como o resultado da vontade do seu próprio povo. Um povo que desafia os obstáculos, vencendo as adversidades do clima e a indiferença do atual governo, que vive de fazer política 24 horas por dia, sem nenhuma consideração pelo sofrimento de milhares de norte-rio-grandenses que sabem, por sentir na própria pele, que vivem ambos – o povo e o governo — em realidades diversas e antagônicas.

Quem conhece o Rio Grande do Norte apenas através da publicidade do governo, pode se considerar ignorante da nossa realidade mais comezinha. O governo é virtual, mas a realidade, ao contrário, concreta, incivil e mal-educada a ponto de  extrapolar qualquer propaganda, por mais bonita e sedutora que ela seja. Em qualquer contexto, a realidade desmantela o conto-de-fadas forjado por marqueteiros de aluguel.

Em minha caminhada pelos vales do Cariri cearense e do Jaguaribe observei, em cidades como Icó, Orós, Iguatu, Jucás, Crato e Juazeiro, a inexistência de mendigos nas ruas. Iguatu, de oitenta mil habitantes, é uma cidade próspera, de ruas amplas, com fábricas e oferta de empregos. Não se parece, nem de longe, com nenhuma outra cidade do Rio Grande do Norte, como o Açu, por exemplo, também situada num vale riquíssimo onde a pobreza e a falta de infra-estrutura saltam aos olhos, mesmo daqueles que não têm interesse de enxergar realidade tão onerosa.

Vale salientar que, apesar de tudo, o governador Tasso Jereissatti não está com essa bola toda não. Nas últimas eleições ele perdeu nos principais colégios eleitorais do Ceará. Comenta-se, por exemplo, que sua reeleição foi um erro – corrigido, por eleitores diligentes, com a vitória de seus principais adversários, que nas eleições para prefeito retomaram o comando dos municípios de maior densidade eleitoral e representatividade política.

[2002] 

NA SERRA DA FORMIGA

sábado, 4 de julho de 2009

Por Franklin Jorge 

Caicó — Se sítio fosse bom pardal não morava na cidade. O axioma, corrente no Salgadinho, resume todo desencanto do povo da  Serra da Formiga, onde a falta d’água está endoidando até as raposas que vagueiam sobre o planalto esturricado à procura de uma gota d’água. Algumas, enlouquecidas pela sede, só esbarram na soleira das portas. Numa terra assim, desassistida de tudo, até as cascavéis sofrem, suspira o nosso generoso anfitrião.

Os mais velhos se lembram que março sempre foi um mês de muita água. Porém desde 1987 a seca devasta a Formiga, uma serra de onde se descortina  uma magnífica paisagem sertaneja. Em tempos melhores havia umas cem famílias vivendo nos diversos sítios da redondeza. Hoje, segundo Vicente da Serra, nascido e criado no  Salgadinho, restam apenas umas quatro ou cinco dessas famílias resistindo aos desmantelos do tempo. A maioria debandou para a rua, em busca da difícil sobrevivência.

Vicente conta que até 1970 os invernos na serra eram regulares. Havia morador aqui que produzia tanta coisa que a gente tinha dificuldade de colher, relembra numa voz pausada de quem fala medindo e pesando as palavras. Ele considera que estragou sua vida cavoucando a terra.

Agora, desiludido inclusive com a falta de mão de obra, inexistente por causa da evasão de centenas de trabalhadores que foram procurar a subsistência nas cidades, Vicente está vendendo quinhentos hectares para recomeçar a vida na rua, pois ninguém mais de bom senso quer trabalhar na roça.

Para homens como Vicente resta a certeza de que o governo esqueceu que não há progresso sem agricultura. O dinheiro do povo está sendo gasto no pagamento de mordomias ou de dívidas contraídas por administradores que só pensam em se arrumar.

Vicente acha que a pior praga é a dos políticos que sugam o povo, à margem da lei, aumentando a cada legislatura o rombo das contas públicas. Desencantado com a realidade, ele conclui que a honestidade desertou da política. E que, nessa marcha, vai ser difícil algum dia consertar os costumes.

O acesso à serra é íngreme e difícil. Somente em 1968 é que o ex-prefeito Francisco de Assis Medeiros construiu uma estrada, que vem sendo remendada mais recentemente por iniciativa de um sobrinho de Vicente, Joacir, nosso guia que sonha viver definitivamente no chão dos seus antepassados, no alto da serra. Seu avô, o velho Cândido Pereira, faleceu em 1960 aos 82 anos, em suas terras do sítio Salgadinho.

Além de uma mata nativa cheia de aroeiras, angicos, marmeleiros, catingueiras, joões-mole, paus-pedra, mororós, pau d’arcos do roxo e do amarelo, guaxumbo, havia por aqui uma fauna rica da qual restam agora as raposas e as cascavéis. No tempo do seu avô ainda havia onças, caçadas sem sossego pelo célebre Miguelão, especialista sempre requisitado para esse serviço.

Hoje ainda é possível encontrar algumas poucas onças vermelhas pelas redondezas e que, como os homens, fazem um esforço tremendo para escapar das dificuldades. Elas vivem entocadas nos grotões, famintas, matando pequenos animais para comer.

Vicente conta que as fruteiras todas morreram com a seca. Noutros tempos havia muita fartura  na serra. A gente tinha aqui bananeiras, pinheiras, condessas, mangueiras e umbuzeiros.

Em quase trinta anos de seca ou de inverno irregular,  o povo do sítio Formiga  tem sofrido um bocado. Agora parece um outro mundo carecido de esperança, desde que o bicudo acabou com a sua principal cultura, a do algodão, que fez a riqueza do Seridó.

Quando no começo da noite chegamos ao Salgadinho, após vencermos de jeep o caminho aberto na beira do precipício, Vicente prensava o queijo que toda semana Joacir entrega a uma freguesia certa de Caicó. Doutor Albérico  e Laurence ainda estão encantados com a visão descortinada durante a subida, na companhia de Joacir e de Cristina, sua mulher, professora em Caicó.

Do alto da serra, antes de chegarmos ao Salgadinho, sítio  que fica no fundo de uma espécie de prato cujas beiradas são formadas por cumes recobertos por uma vegetação ressequida, contemplamos durante a subida.

Logo mais chegaria Agostinho Pereira de Araújo, também chamado de Brinco, que tem a fama de matador de cascáveis. Velho com jeito de menino, Brinco é uma enciclopédia viva de histórias e fatos ocorridos na Formiga, onde nasceu e vive. A conversa se estende noite adentro, numa sucessão de revelações que revivem o antigo costume do dedo de prosa à sombra dos alpendres.

Fragmento de “Viagens na Minha Terra” [Inédito]

 

 

MONSENHOR CAMINHA NA PRAÇA

terça-feira, 30 de junho de 2009

Por Franklin Jorge

Pau dos Ferros — Abandonada pelo poder público durante muitos anos, a Praça Monsenhor Caminha, em Pau dos Ferros, acaba de passar por uma repaginação que lhe restituiu a dignidade e aos pauferrenses um local de confraternização e convivio humano.

Lembro-me do Monsenhor Caminha, há uns 30 anos, na salinha de sua casa, concedendo-me uma entrevista para o numero de lançamento da “Folha do Alto Oeste”, quinzenário fundado por Honório de Medeiros, Eriberto Suassuna e José Ribeiro, que tive a honra de instalar e editar seus primeiros numeros.

Sobre o jornal, propriamente, há toda uma cronica que ainda não foi colocada em letra de forma mas deverá ser um dia, pois marcou significativamente a história do nosso jornalismo e de 33 municipios da região pelo qual se irradiou em seu crescente e pacifico prestigio cultural, social e politico. Sobretudo politico.

Seja-me permitido aqui falar apenas do Monsenhor Caminha que chegou muito moço a Pau dos Ferros e dessa nossa conversa já remota da qual extraí um texto ilustrado por uma bela fotografia feita por Toinho Dutra, o fotógrafo oficial da “Folha…”, que se revelava assim um excelente repórter fotográfico. É o registro visual do pároco da cidade ,ricamente paramentado, oficiando a Santa Missa na Matriz da Padroeira Nossa Senhora da Conceição, tendo ao fundo o altar mor.

Contava-me então que, muito moço e cheio de energia, encontrara a cidade parada no tempo. Logo se pôs a agir e a escandalizar a sociedade conservadora que se chocou com o seu estilo para o qual contribuíam de alguma forma os hormonios que os votos religiosos não puderam, a principio, domar… Sua maneira pouco ortdoxa de apascentar o rebanho e de comportar-se em face de costumes estratificados, soube-o por terceiros, estendeu-se às alcovas, dando motivos a terriveis falatórios aos quais se juntaram os seus famosos banhos noturnos no Açude velho, acompanhado de mulheres, totalmente nus…

Mas, paralelamente a essa grande energia fisica e espiritual, passou o jovem padre Caminha a desenvolver importante trabalho comunitário, mostrando-se um verdadeiro empreendedor e um reformista que, instigado pela saúde não abria mão do divertimento, fazendo coabitar a seriedade empreendedora com o hedonismo que para muitos dos seus paroquianos não fazia bem à batina… Ora, o Monsenhor Caminha que me falava então, sentado numa cadeira de balanço, fazia ao mesmo tempo o elogio do trabalho que se deve fazer com alegria ed prazer e para o bem geral.

Surpreenderam-me suas confissões, feitas com desnorteadora espontaneidade e bom humor ao repórter ainda moço, creio que pouco mais ou menos da idade que ele próprio teria quando ali chegou por designação do Bispo de Mossoró, para chocar a burguesia local e promover uma verdadeira revolução social.

Instigado pela camaradagem que se estabelecera repentinamente entre o homem velho e o novo que o ouvia atentamente, anotando eventualmente em seu caderninho o que lhe parecia do interesse do leitor, interroguei-o sobre os mais variados assuntos, voltando desse encontro com um excelente material que só usei em parte, já pensando como Mallarmé que tudo acaba em livro. Creio que encantara ao velho já apaziguado pelas experiencias o jovem ávido de vida e ansioso por criar uma obra que justificasse a sua existencia…

De repente Monsenhor Caminha me contou sem citar nome da grande paixão que tivera por uma cantora do rádio a quem, num momento de exaltação amorosa, presenteara com a Cruz Peitoral — insígnia da sua investidura na condição de monsenhor. Uma paixão que de alguma forma o enlouquecera e que o levara a dispor, de maneira profana, de um símbolo sagrado.

Uma década depois, de maneira inesperada e misteriosa, o desfecho dessa história de que eu mesmo não mais lembrava, tanto tempo se passara desde aquela tarde em que entrevistara o pároco de Pau dos Ferros. Uma tarde, em Natal, ao entrevistar Glorinha Oliveira sobre sua trajetória artistica, ela me falava do desvairio dos fãs pelos cantores do rádio, algo em tudo semelhante ao que se vê hoje com os idolos do rock pelos quais os fãs se descabelam. Mesmo os cantores provincianos do tempo áureo do rádio costumavam despertar esse desvairio no público da época.

Já velha então e talvez com a mesma idade de Monsenhor Caminha quando eu o entrevistara para a “Folha do Alto Oeste”, confessou-me Glorinha, sem citar nome, da paixão que despertara em um certo monsenhor do Alto Oeste potiguar que a presenteara com a Cruz Peitoral que a Igreja lhe dera como um galardão…

Monsenhor Caminha, balbuciei, aturdido com o inusitado daquela coincidência. E Glorinha, igualmente surpresa com minha reação: Como soube…?

UMA TARDE COM MARIA HELENA CARDOSO

terça-feira, 16 de junho de 2009

 

Por Franklin Jorge

 

Num fim de tarde de um mês e de ano que não lembro mais, Walmir Ayala levou-me para conhecer uma sua amiga que, segundo me disse, havia muito gostaria de receber-me em sua casa, para ouvir música e conversar sobre um tema recorrente entre ambos – a permanência de Lúcio Cardoso, irmão de nossa anfitriã, que se impressionara com os traços físicos e literários que teríamos em comum. “Ao ler seus Poemas Diabólicos e depois, ao ver o seu retrato, senti-me compelida a conhecê-lo”, disse, num tom caloroso que me deixou inteiramente à vontade.

 

Maria Helena recebeu-nos numa sala, não sei se grande ou pequena, talvez demasiadamente atulhada de coisas – sólidos móveis trabalhados a mão, talvez por artesãos mineiros, uma coleção de imagens sacras, alguns objetos em prataria e cristais, tudo, certamente, herança de família – e quadros, muitos quadros, pintados nos últimos anos por Lúcio e por grandes artistas, seus amigos e companheiros de boemia. Por toda a parte, discos e livros bastante manuseados displicentemente esquecidos sobre mesas e poltronas. Notei que ela ouvia, quando chegamos, Maria Callas, havia pouco falecida.

 

Eu a descobri como escritora ainda no Assu, quando eu teria pouco menos de vinte anos, numa pequena biblioteca do Projeto Mobral, instalada numa casa depois demolida para alargamento do chamado Beco do Padre, ao lado do solar da escritora – também mineira – Maria Eugênia Maceira Montenegro. Era o seu livro de estréia, já mulher madura, “Por onde andou meu coração”, numa edição da José Olympio, em conjunto com o Instituto Nacional do Livro, destinada às bibliotecas públicas. Depois, li “Vida Vida”, que me despertou menos interesse, embora estivesse ali presente a escritora de uma obra feita para durar.

 

Magra e elegante sem afetação, o cabelo bem cuidado inteiramente branco, melhor dizendo prateado, lembrou-me o de minha avó inclusive pela semelhança do corte e do penteado. Em minha ansiedade, crivei-a de perguntas sobre Lúcio e o circulo de intelectuais que gravitava à sua volta, como Clarice Lispector e Otávio de Faria, além dos irmãos Pentagna, riquíssimos protetores de artistas como os espanhóis perseguidos pelo franquismo, Rosa Chacel e seu marido, o pintor e ex-diretor geral dos Museus Reais de Espanha, Timoteo Perez Rubio, com quem Vito Pentagna, inspirador do autor de “A Crônica da casa assassinada” teria tido um ardente e tumultuoso affair amoroso. Walmir ouvia tudo, pacientemente, como um protagonista importante desse brilhante grupo de artistas cosmopolitas que prefigura, entre nós, uma espécie de Bloomsbary carioca.

 

Lelena – pediu-me que, a exemplo de seus velhos amigos, a tratasse assim – serviu-nos deliciosos biscoitinhos feitos em casa, segundo tradicionais receitas mineiras, acompanhados de uma bebida feita com vinho tinto, sagu e leite, que eu bebia pela primeira vez, em pequenos goles, deliciando-me. Era, segundo disse, a sua especialidade gastronômica e a fazia porque sempre agradava aos seus convidados e ás pessoas que de alguma forma queria obsequiar. Não hesitei em pedir-lhe a receita, simplíssima, afinal, como as boas coisas da vida.

 

LEMBRANDO JOSEPH BOULIER SIDOU

terça-feira, 16 de junho de 2009

Por Franklin Jorge

 

Mossoró — Joseph Boulier foi-me apresentado, uma tarde, por seu grande amigo e vizinho Vicente Vitoriano, que eu acabara de conhecer ao visitá-lo em sua casa da Rua Juvenal Lamartine, em Doze Anos. Salvo engano, corria o ano de 1969, quando eu mal completara dezessete anos.

 

Ele estava pintando, em seu atelier instalado nos fundos de sua casa, onde, noutra ocasião, me hospedei e pude privar da companhia do seu pai — que sabia inteiramente de memória “Iracema”, o célebre romance de José de Alencar. Numa manhã inesquecível, a meu pedido, ele disse a última página que conclui com uma verdade bíblica – Tudo passa sobre a terra.

 

De Boulier, o mínimo que se pode dizer dele é que era excessivo em tudo. Dotado de extraordinário talento para as artes plásticas, especialmente para o desenho de modas, em certa época foi morar em Natal onde trabalhou por algum tempo numa loja especializada em tecidos finos, a Casas Cardoso, à avenida Rio Branco, com o seu departamento exclusivo de criação de figurinos.

 

Boulier criou milhares de modelos para as elegantes natalenses. E, por algum tempo, já morando numa das casas da Vila Palatnik, participou ao lado de Getúlio Soares dos ensaios de uma pela que escrevi e que nunca estreou, “O Covil do Cão Que Uiva”, escrita – creio – sob o influxo de minhas leituras de Ibsen, Beckett, Ionesco e Antonin Artaud. O ano, 1969 ou 1970… Não sei que fim levou esse manuscrito que encerrou e pôs fim ao meu namoro com o teatro. Se não me engano a personagem interpretada por Boulier chamava-se Guigui…

 

 Ao chegar de Mossoró, de cabelo enorme e eriçado, fazendo o gênero hippie de boutique, conquistou inteiramente a minha avó, que se tornou sua amiga e deu-lhe casa e comida, desinteressadamente, ela que era em tudo o seu oposto e contraste. Menos, claro, na sensibilidade artística e no fato de não usar blush.

 

Não sei o que eles tanto conversavam, especialmente na hora do almoço, que Boulier fazia em separado, pois costumava chegar sempre depois. Nessas ocasiões, era a minha avó quem o servia a mesa, reservando-lhe sempre algum petisco em especial – uma omelete de ervilhas que ela mesma preparava, um doce, um cafezinho recém-coado.

 

Ao deixar-nos, pintou um retrato de Jimi Hendrix, com o qual a presenteou e que ficou em seu poder por muito tempo, até que acabou desaparecendo numa das nossas costumeiras mudanças, pois minha avó tinha verdadeira ojeriza à idéia de permanecer por muito tempo em um mesmo endereço e, em caso extremo, numa mesma cidade. Ao todo, somando-se às iniciativas de minha avó, cheguei a mudar-me, até o presente momento, oitenta vezes em 56 anos! Sem dúvida, um recorde digno do Guiness.

 

Sempre pensei que Boulier construiria uma obra e que seria reconhecido como um artista talentoso e cheio de verve. Porém, dispersivo como era, não se fixou nem persistiu em coisa alguma. Hoje, o que resta dele? Um ou outro quadro de qualidade duvidosa, pois o seu verdadeiro talento ele o empregou vivendo as mais surpreendentes aventuras que hoje constituem a sua lenda. A lenda que o integra à mitologia de Mossoró. Como entrar em um táxi, em Teresina, e dar ao motorista o seu endereço da rua  Juvenal Lamartine, em Doze Anos,  por exemplo.

 

Possuía Joseph Boulier, do artista performático, o sentido do espetáculo. Foi, em vida, um espetáculo.

 

 

 

 

 

 

EVOCAÇÃO DE ELIAS SOUTO

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Entrevista a Franklin Jorge

Conversamos, dona Maria Luisa e eu, no living do Hotel Via Costeira, entre o mar o que sobrou da floresta atlântica. Extrovertida e elegante, fala com fluência sobre o avô, o jornalista Elias Souto, criador da imprensa diária no Rio Grande do Norte, cujo nome batiza um prêmio de reportagem criado por um seu bisneto.Prêmio, acrescente-se, que não terá continuidade como muitas outras coisas boas que eventualmente acontecem em nosso meio.

Nascida em 1918, não chegou a conhecer Elias Souto, seu avô materno, falecido em 1908, se não através da crônica familiar que preservou lances de uma vida tumultuosa e rica em acontecimentos, persistência e heroísmo na fidelidade a um sonho de liberdade.

Meu avô sofreu muita perseguição de Pedro Velho, em particular, e dos republicanos em geral. Jornalista de Oposição, vivia sendo transferido pelo Governo de um lugar para outro, em represália ao seu comportamento independente.

Paralitico havia muitos anos, ganhando a vida como professor primário, para achacá-lo o governador Alberto Maranhão o nomeou para a cadeira de educação física. Foi um escândalo que acabou revertendo negativamente para o governo, que ficou malvisto até para alguns correligionários providos de decência. Esse ato mesquinho apenas contribuiu para aumentar o prestigio e a popularidade do jornalista, que passou a ser respeitado por todos como um símbolo de resistência a um governo inumano e atrabiliário.

Nunca se vira nada igual sob os governos monarquistas. A tradição de autoritarismo, que marcaria o governo do estado, nasceu com a República, sob a oligarquia forjada por Pedro Velho, organizador do estado republicano no Rio Grande do Norte e, posteriormente, senador.

Meu avô tinha muita fortaleza moral. Homem de têmpera forte, por toda a vida em luta com a adversidade, foi sempre um lutador sertanejo. Aonde chegava, transferido pelo pedrovelhismo, fundava um jornal. Em 1873, no Assu, antes da Proclamação da República, fundou O Sertanejo que sobreviveu até 1876. Um jornal político que se dizia Órgão Conservador. Nesse mesmo ano, tendo adquirido um prelo de qualidade, passou a editar o Jornal do Assu, que, a partir de 1885, passou a chamar-se O Assuense.

Grande abolicionista, Elias Souto fundou oito jornais, entre os quais o Diário de Natal, o primeiro desse nome, que lhe sobreviveria.

Ele teve sistematicamente os seus jornais empastelados pelos governistas. Em Natal, para onde se mudou e onde viveu até a sua morte, o governo utilizava elementos da policia que, disfarçados, invadiam as redações e quebravam toda a maquinaria. Uma noite, Na rua da Conceição, minha mãe e minhas tias acordaram com um barulho enorme e foram olhar pelas frestas da janela o que se passava lá fora. Reconheceram então o coronel Quincó, vestido de mulher, comandando a depredação de um desses jornais fundados por meu avô…

O coronel Quincó, muito gordo e pau-mandado, serviu a diversos senhores, sempre fazendo o trabalho sujo ou agenciando-o, para satisfazer aos poderosos. Conta-se que, quando o presidente Afonso Pena visitou o Rio Grande do Norte, ao agradecer-lhe os préstimos, ele respondeu simplesmente que era apenas “um bosta”… Morreu após o governo de Juvenal Lamartine, o defensor do voto feminino.

Dona Maria Luisa tem olhos azuis, vivos e transparentes, que denunciam, segundo informa, a sua remota ascendência flamenga de sua avó, Teresa Rebouças Ferreira Souto, oriunda do Aracati. Noto que usa com simplicidade aristocrática um belo colar de coral. O escritor Luis da Câmara Cascudo costumava dar-lhe o tratamento de Duquesa.

Casada em 1938 com Ciro Barreto de Paiva, Dona Maria Luisa nasceu e criou-se em Natal, num casarão na Avenida Junqueira Ayres. Filha do desembargador Dionísio Filgueira [1868-1947] e de Dona Elisa Souto Filgueira [1886-1950], tem três irmãs, Margarida, a primeira assistente social do Estado, Marta Maria e Tereza, todas solteiras e residentes no Rio de Janeiro. Minha mãe escrevia muito bem. E foi, durante anos, a revisora dos jornais editados por meu avô Elias Souto. Lia muito e gostava de corresponder-se com Maria Eugênia Celso, filha do Conde Afonso Celso. Era amiga das poetisas Carolina e Palmira Wanderley, que escreveram versos jubilosos no álbum dos quinze anos de Dona Maria Luisa.

Me alfabetizei com Dona Belém Câmara, uma senhora que se diplomara na primeira turma da nossa Escola Normal e tinha uma escolinha particular muito conhecida e respeitada. Depois estudei no Colégio Pedro II, do professor Severino Bezerra e, posteriormente, no Atheneu Norte-rio-grandense. Nunca estudei em colégios de freiras nem na Escola Doméstica – diz, sorrindo. Nessa época a cidade se resumia, praticamente, aos bairros da Ribeira e da Cidade Alta. 

 

[1980]