Por Eduardo L. Resende
Jean-Dominique Bauby, ex-editor de uma publicação francesa de moda, morreu em 1997, aos 44 anos de idade, pouco depois de ter publicado seu livro O Escafandro e a Borboleta. Até aqui, nada extraordinário. A não ser o fato de os 28 capítulos em 130 páginas terem sido ditados pelo autor, letra por letra e durante meses, a uma paciente representante da editora. Vítima de um derrame cerebral, Bauby realizou essa façanha movimentando a única parte móvel do seu corpo – a pálpebra esquerda.
Naturalmente perguntado algumas vezes sobre como enfrentava a depressão decorrente de seu estado, o escritor acabou nos legando, além do exemplo, sua receita para vencer os maus momentos: ele o fazia contemplando o mar, lendo durante uma hora, olhando uma pintura do infinito (feita por sua filha) e não se considerando um herói.
Enquanto Bauby ‘escrevia’ usando a pálpebra, em Gebel Tjauti – a 40 quilômetros ao norte de Luxor e a, aproximadamente, 400 quilômetros ao sul do Cairo – o egiptólogo de Yale, John Coleman Darnell e sua esposa, Deborah, pesquisavam antigas rotas de comércio no deserto, a oeste do Nilo. As descobertas do casal, entretanto, foram dar em verdadeiro tesouro entalhado num penhasco.
Medindo 45 centímetros por 50 centímetros, o achado era um painel com 5.250 anos de idade, trazendo a representação de um governante vitorioso – possivelmente o rei Escorpião, cujos feitos, objeto de mito e lenda, acredita-se terem sido fundamentais no aparecimento da civilização egípcia.
Arqueólogos que analisaram a descoberta afirmaram, à época, que podia ser aquele o mais antigo documento histórico do mundo, pois cenas e símbolos ali entalhados guardam forte semelhança com os hieróglifos posteriores. Seria essa uma contribuição significativa, segundo os mesmos arqueólogos, à crescente evidência de que a primeira escrita de verdade originou-se no Egito, e não na antiga Suméria, atual Iraque.
Embora mais de 52 séculos separem o gesto anônimo que esculpiu um fragmento de vida na pedra, do realizado por Bauby pela persistente movimentação de sua pálpebra, algo os aproxima e dignifica. A urgência natural do homem em perpetuar-se, ainda que em rudimentar mensagem ao futuro esculpida num penhasco, repete-se no raro e comovente esforço do escritor francês. Ambos os gestos se unem e se igualam no valor da palavra – tristemente devastado, insistentemente quebrado numa sociedade como a nossa.
Convivemos com esse empobrecimento, talvez sem perceber o quanto ele nos faz ceder à manipulação e à indignidade. A chave não é feita em um minuto, como anuncia o cartaz na loja do chaveiro. Nem a foto está pronta em meia hora, contrariando a propaganda no envelope do laboratório fotográfico. As prestações da TV não são isentas de juros, o preço do carro zero quilômetro não é popular, o imóvel anunciado fica no município vizinho e muito mais distante de onde reside o provável comprador.
Que dizer então das promessas de campanha do candidato, dos números das pesquisas, dos índices de inflação, da aplicação dos impostos? As negociações não são de paz, o desmatamento não está sob controle, mudanças na lei beneficiam antes o rico do que o pobre, nem todos os amigos são verdadeiros, a saudade não era assim tão grande, o amor não é eterno.
O vocabulário, sobretudo dos jovens, denuncia uma debilidade assustadora. Substituem-se frases inteiras por algumas poucas expressões. O fôlego para as conversas em geral é curto como o de um fumante. Na falta de melhores luzes, apela-se para o que ditam a TV e as publicações que gravitam em torno do que acontece nos bastidores da telinha. Na internet não é diferente. Veja-se o que ocorre nas salas de bate-papo, onde o bizarro e a ofensa costumam dar o tom. Boa parte dos interlocutores agride-se mutuamente, enquanto devasta o idioma com fúria incontrolável.
Insatisfeitos com a exaustão da palavra, exasperamo-nos na busca de compreensão e fé. Acuados pela falta de alternativas diante da atrofia do vocabulário, é possível que estejamos caminhando, a passos rápidos, para o balbucio. Ou preparando terreno para a nova babel a que nos levará a substituição do significado das palavras.
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1987, o já falecido poeta russo Joseph Brodsky atribuiu a violência também ao fato de as pessoas não poderem articular-se. “Um homem inarticulado age. Usa seus músculos, sua força, onde deveria ter usado verbos.”
Ainda segundo Brodsky, o motivo dessa incapacidade em articular-se tem sua origem essencialmente “em um clima social e cultural que não incentiva a precisão no falar, que não encoraja as pessoas a prestar atenção à palavra impressa. Ao contrário, o que ela encoraja é o imaginário: imagens visuais de riqueza ou de beleza. Cada vez mais somos pessoas visuais, mais do que pessoas de fala e de palavra articulada. E isso é muito perigoso, pois a sociedade poderá pagar com sua própria estrutura por esse abandono da palavra”.
O astrônomo Carl Sagan, pouco antes de sua morte aos 62 anos de idade, em dezembro de 1996, disse que o século XX será lembrado pelos meios sem precedentes de que se dispõe para salvar, prolongar e melhorar a vida; pelos que criou para destruir a vida, a ponto de, pela primeira vez, colocar em risco a civilização global; e pela visão sem precedentes que adquiriu de nós mesmos e do Universo.
Não há como negar que em tudo foi e é fundamental o papel da comunicação. Sem ela não haveria História. Assim como as geleiras do Ártico são sustentadas na base por uma neve que caiu há 5 mil anos, também a aventura humana não poderá prescindir do valor da palavra. A não ser que, ao contrário de Bauby, nos resignemos a reverenciar heróis de mentira.