Arquivo da Categoria ‘Personalidades’

A PRÓXIMA ATRAÇÃO

domingo, 6 de dezembro de 2009

Por Franklin Jorge

A grande novidade da quinzena: o jornalista Vicente Serejo é o entrevistado da próxima edição da revista Palumbo, editada pelos jornalistas Osair Vasconcelos e Albimar Furtado, dois craques no ofício, ambos oriundos do Diário de Natal onde trabalharam até recentemente, ou seja, até a débâcle do antes prestigioso jornal de Luiz Maria Alves.

Autor de uma crônica retórica e enjoativa que alguns pseudo-intelectuais insistem em consagrar, dando-lhe o status de literato e de cascudiano emérito, Serejo tem andado meio cabisbaixo desde que o deputado Robinson Faria lhe puxou as orelhas por causa de uma notinha publicada em sua famigerada coluna do Jornal de Hoje.

Resumindo, para não enfadar o leitor com detalhes inúteis, o presidente da Assembleia obrigou-o a desdizer-se e a pedir desculpas, o que ele fez numa presteza digna do carnatalesco Gustavo Carvalho, quando a governadora dava batidos e carões no deputado na frente de seus pares e ele, humildemente baixando a cabeça e o bestunto, agradecia-lhe o favor de corrigi-lo…

Não consigo descobrir o que Serejo ainda teria a nos dizer que seja novidade. Depois de abanar-se com o seu vistoso leque de contracheques palacianos e da sua decisiva colaboração na falência moral do jornalismo provinciano, nada do que ele diga poderá surpreender o leitor, sobretudo depois desse escândalo envolvendo o deputado Henrique Eduardo Alves. A não ser que algum dos entrevistadores tenha a esperteza de lembrar-se, ao entrevistá-lo, que em seu afã monetarista ele terá sido o precursor da insuperável “Vovó Socialista” e de interrogá-lo a esse respeito. Aí sim, seria uma grande novidade.

Não se sabe ainda de que cabeça brilhante terá saído semelhante pauta que deu uma sobrevida ao cronista da Rua da Frente. Ora, Serejo é apenas um propagandista do seu próprio ego, como diria o venerável monsenhor Honório. Como bananeira que já deu cacho, ele não tem mais o que dizer e, por outro lado, já faz parte do passado questionável do jornalismo, sem ter chegado a integrar, de fato, a literatura.

Falastrão icorrígivel, transformou-se com o tempo numa hilária personagem a que o escriba hipócrita de Caicó sempre recorre quando quer dar lamboradas no ridículo. “Serejo inteligente?” – indaga um leitor do seu blog, isto é, do Blog do Ailton, autor daquele antológico “Jornalismo S.A.” que pretende ser o proêmio da biografia do titular da Cena Urbana. “Pode ser”, pondera o comentarista anônimo, ressalvando que “em terra de cego sem imaginação…”

Como outros leitores, estou querendo saber o que lhe foi perguntado. Desta forma saberemos, finalmente, que espécie de jornalismo a revista Palumbo pretende oferecer aos seus leitores.

UMA VISITA INCONVENIENTE

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Por Ricardo Galuppo*

Em seus sete anos de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acumulou um capital político invejável - que encontra sua melhor tradução na popularidade elevada junto ao eleitorado brasileiro e no prestígio internacional sempre crescente.

Onde quer que vá, é recebido com honras superiores às que são devidas a um chefe de Estado.

O estilo descontraído, a tranquilidade com que aborda temas delicados, a autoridade com que cobra dos países ricos soluções para problemas que sempre pesaram sobre as costas da parte mais pobre do mundo transformaram Lula, sem a menor sombra de dúvida, em um dos principais líderes internacionais do século 21.

Na definição precisa de seu colega americano, Barack Obama, o presidente do Brasil “é o cara”.

Pois bem… Parte do capital que Lula acumulou nos últimos anos está sendo descartada esta semana, com a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

É uma parte pequena, deve-se reconhecer, e não deverá alterar de forma substancial e repentina o prestígio internacional de Lula.

Mas, daqui por diante, sempre que Lula defender uma tese mais delicada, poderá surgir alguém para lhe apontar o dedo e lembrar que ele escolheu seu lado ao receber uma figura controvertida como Ahmadinejad.

Em outras palavras, esse é o tipo do encontro em que o visitante ganha tudo e o anfitrião só tem a perder.

Nem mesmo o apoio do iraniano à antiga pretensão de Lula a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU deve ser vista como vantagem.

Por tudo o que ele representa no mundo, com certeza, o apoio de Ahmadinejad mais tira do que confere votos no plenário das Nações Unidas.

Só terá a aliança de Ahmadinejad aquele que fizer exatamente aquilo que ele deseja.

É o tipo do político que dá a impressão de não querer aliados; e sim, cúmplices.

Tanto assim que, dos líderes que merecem ser levados a sério no mundo, apenas Lula aceitou recebê-lo.

Lula continua em alta. Mas, certamente, ele é, hoje, um pouco menos “o cara” do que antes.

(*) Diretor de Redação do jornal Brasil Econômico

O IMOR(T)AL DAS ALAGOAS

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Da Folha Online

Senador por Alagoas, o ex-presidente da República Fernando Collor de Melo (PTB) tomou posse na noite desta sexta-feira (23) como o novo imortal da Academia Alagoana de Letras (AAL). Mesmo sem ter publicado nenhum livro, o ex-presidente foi eleito no último dia 2 de setembro, com 22 votos a favor e oito contra.
 
Contendo o choro em três momentos do discurso, Collor ressaltou que assume a vaga na Academia “honrado”, já que AAL abrigou durante anos o seu pai.

Em uma cerimônia concorrida, Collor aproveitou para anunciar que o primeiro livro publicado de sua autoria trará a versão dele sobre o impeachment de 1992. “Todos me perguntam sobre o livro. Ele trará revelações, está pronto e será lançado num momento oportuno”, assegurou o senador, sem dar pistas sobre a data de lançamento.

Para concorrer à vaga na Academia, Collor apresentou sete obras, todas impressas por gráficas oficiais e que nunca foram vendidas em livrarias. A última delas foi uma publicação da gráfica do Senado intitulada “Relato para a História”, que traz na íntegra o discurso que fez no Senado em 2007 apresentando fatos sobre sua saída da Presidência.

Contendo o choro em três momentos do discurso, Collor ressaltou que assume a vaga na Academia “honrado”, já que AAL abrigou durante anos o seu pai, Arnon de Melo. “Aqui sinto-me bem, em casa, e porque não dizer, em família. Essa é uma homenagem a alguém que ao longo de sua vida sempre contribuiu com as discussões de políticas sociais”, disse o senador.

Na saída, indagado pelo UOL Notícias sobre a sugestão do colega imortal da AAL, Lêdo Ivo, para que tente uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), Collor sorriu. “Devagar com o andor”, disse. Lêdo Ivo é também imortal da ABL.

 

 

 

 

Circula na Internet…

domingo, 11 de outubro de 2009

CÉSAR CIELO, UM BRASILEIRO ALTIVO

Dessa vez não foi pelo fato de ter ganho alguma prova de natação, mas pela entrevista corajosa que deu ao jornal O ESTADO DE SÃO PAULO.

Cesar bastante irritado, falou da falta de apoio da CBDA, (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos),  onde disse, com todas as letras, que não teve ajuda da Confederação e muito menos do governo. Sua vitória de deve a ajuda de seu pai e de patrocinadores.

Por isso treina nos Estados Unidos. E o presidente da confederação queria que ele voltasse para o Brasil, para treinar aqui. Queria também que ele fosse ao palácio do planalto para fazer o cartaz do presidente. Coisas que ele rejeitou.

Daí para frente foi ameaçado de ficar sem o pouco de facilidades que a Confederação lhe dava. Minha vitória tem muito pouco a ver com eles, disse o nadador quando participou do troféu José Finkel, nas piscinas do Corinthians. Querendo eles ou não, sou campeão olímpico, e isso eles terão que engolir.

Desde que me tornei profissional, em março, paguei tudo: alimentação, hospedagem, e até meu técnico (o australiano Brett Hawke).

Ficou assustado quando lhe perguntaram se a CBDA havia ajudado em alguma despesa.Sua resposta foi essa: ‘Sério que vocês estão me perguntando isso?‘Pensei que vocês estivessem brincando’.

César Cielo contou que além de não receber auxílio da CBDA, teve problemas com o presidente. Entre outras ameaças, ele ameaçou suspender os míseras contribuições que eu vinha recebendo dos Correios, quando disse a ele que jamais viria para uma cerimônia no palácio do Planalto. Ele vivia telefonando para meus pais, e não os deixava trabalhar sossegados. Fiquei nervoso e até treinei mal por uns dias.

Esse é o governo que temos, que quer colher frutos sem nada ter plantado. Atletas são intimados a ir a Brasília para pedir a benção ao bode barbudo que jamais soube o que significa trabalho e dedicação para se merecer a glória. 

Um governo que não ajuda em nada, ou ajuda muito pouco a quem traz glória ao país, enquanto subtrai milhões dos cofres públicos em proveito próprio.

E com essa mentalidade de atletas esclarecidos não se vê mais medalhistas em Brasília puxando o saco do presidente.

Deu no blog do Ailton

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Da Redação

 

O jornalista Ailton Medeiros publicou hoje em seu discutidissimo blog o comentário que fez sobre a festa de aniversário da poderosa colega Thaisa Galvão, realizada na casa da prefeita de Natal, a também jornalista Micarla de Souza.

Vale a pena transcrever:

FESTA DE ARROMBA

Por Ailton Medeiros

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultos. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica, às vezes é estúpida. O leitor que julgue.

As colunas sociais deram com certo destaque a festa de aniversário da jornalista Thaisa Galvão. O que chamou atenção deste escriba foi o local escolhido pela jornalista para festejar seus 50 anos, nada mais do que a casa da prefeita Micarla de Sousa.

Isso mesmo, leitor, a borboleta verde bancou a festa de aniversário da diretora de redação do “Jornal de Hoje” que ainda contou, acreditem, com a presença de seu chefe, Marcos Aurélio Sá.

Hoje é festa lá no meu apê
Pode aparecer
Vai rolar bundalelê
Hoje é festa lá no meu apê
Tem birita
Até amanhecer

Chega aí
Pode entrar
Quem tá aqui tá em casa

Temos que reconhecer o talento de Thaisa que entendeu que o segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.

Ela também não é a única. Há um colunista da Terra de Poti que costuma convidar políticos para suas festinhas e um outro, este de menor patente, que vai ao orgasmo toda vez que o deputado federal João Maia bota os pés em sua casa.

Os políticos que mais estragos fizeram à liberdade de imprensa foram os mais generosos com os jornalistas a domicílio.

Quem encara a presença de governadores e senadores em suas festas como um título de sócio do círculo de privilégios está, de fato, fazendo um contrato de risco profissional semelhante ao de Ivan Nikitich, patética figura de jornalista no conto de Tchecov, que é embebedado como conviva num baile em casa de um manda-chuva de província e depois surrado porque os anfitriões não gostaram de uma palavra publicada em seus artigos.

O jornalista sério não deve confundir as coisas  para não ouvir o que ouviu Nikitich: “Bebe, amigo, pois, se te ocorre depois escrever que na casa de “M” todos os convidados estavam de pileque, terás de incluir o teu nome”.

Daniel na “Calçada da Governadora”

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

BREVISSIMO DIÁRIO DE PIPA

 

Por Daniel Piza

 


Na sexta passada fui falar sobre Euclides da Cunha na primeira Festa Literária de Pipa, já batizada pela mídia de Flipa. (Como já existe a Fliporto, fica clara a influência da Flip em criar encontros literários em cidades pequenas, AL

 

A bela praia fica a 80 km ao sul de Natal. No trajeto do aeroporto para lá, vimos muitas obras na BR 101, que está sendo duplicada, como um pontilhão que a ligava a si mesma sem ser por causa de rio ou entroncamento; boa parte delas era executada por soldados fardados. As margens estavam tomadas por canaviais.

 

Depois tomamos uma estrada esburacada de duas mãos, sem acostamento, para o litoral, passando por Goianinha e alguns vilarejos. De repente, a estrada ficou boa e me explicaram que era a chamada “calçada da governadora”, um desvio construído por ordem de Vilma Faria, “que tem umas propriedades ali”. A região é o metro quadrado mais caro do Estado e tem diversos resorts e condomínios feitos ou adquiridos por holandeses, portugueses, espanhóis e outros estrangeiros.


Chegamos no meio da tarde à pousada, Toca da Coruja (pertencente ao Roteiros de Charme), e ali mesmo matei a fome ao estilo local: carne de sol com queijo coalho, purê de banana e farofa de feijão verde. No dia seguinte o almoço não foi pior: lagosta com abacaxi, no Panela de Barro, seguido de sorvete de cajá numa sorveteria artesanal ao lado.

 

A cidade, por sinal, tem um festival gastronômico em outubro. Parece uma mini-Búzios potiguar, com lojinhas coloridas em sequência na rua de paralelepípedos.

 

A conversa na sexta à noite foi animada.

 

No sábado bem cedo fui conhecer uma das praias, a do Madeiro, onde se veem golfinhos na arrebentação; tive a sorte de encontrá-la quase vazia, com suas falésias sob o céu azul que muito me lembraram da ainda mais bela Praia do Espelho, na Bahia. Voltei no meio da tarde, apenas 24 horas depois, mas com a sensação de que muita coisa ainda vai acontecer ali.
 
 
E o melhor dos 7 comentários ao post:
 

Comentário de: Sérgio Roswell [Visitante]

28.09.09 @ 14:21

Prezado Piza,A BR-101 tem um pontilhão, no RGNorte que ” a liga a sí mesma ” SEM MOTIVO?

E o TRABALHO é feito por SOLDADOS FARDADOS?

O quê “NOSSAS” FORÇAS ARMADAS estão fazendo ? TREINANDO PRÁ PEDREIRO? Deveriam estar se ADESTRANDO MILITARMENTE, como faz o pacífico MST. Na hora do “PÉGA PRÁ CAPÁ” sou mais o MST INTERNATTIONAL ( now in…Honduras ! ) do que o EXÉRCITO mal preparado BRASILEIRO.

A foto da Praia nada tem de mais.

Parece JUQUEHY, no Litoral Paulista.

Mais bonitas são as de TOC-TOCss e VERMELHA e um monte de outras.

Um médico amigo meu, que consegui acalmar, deixou seu Hospital em mãos de outros para viajar de carro, do Litoral Norte de São Paulo para o Espirito Santo, terra de sua Mulher. Disse a ele que ele iria se divertir e curtir muito mais do que indo de avião. DITO ET FEITO. Disse, agradecido, pela viagem e meu TRABALHO, que nunca havia se sentido tão tranquilo…

ELE ainda não viu a Conta…

 

CASCUDO E O PADRE JOÃO MANUEL

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

 

Por Franklin Jorge 

 

 

Escrevendo sobre o padre João Manuel de Carvalho [1841-1899], mais jornalista e político do que religioso, nome de grande expressão no Império e nos começos da República, obtive uma desusada atenção dos leitores, encantados com a desabusada criatura que sabia como ninguém ridicularizar seus adversários, botando limão e vitríolo em suas erisipelas morais.

 

Mal publicada a crônica, folheando por acaso um velho livro, bati de frente com uma página escrita pelo polígrafo Luis da Câmara Cascudo em 1938 sobre o nosso irrequieto e polêmico personagem, o padre João Manuel de Carvalho, há muito dormindo profundamente um sono humilde e sem cuidados.

 

Nome de rua no aristocrático bairro de Petrópolis, em Natal, lembra Cascudo a participação do Padre João Manuel na política provinciana e na Corte, onde ocupou posição de destaque também no jornalismo e no clero, pois há pouco mais de um século foi pároco da prestigiosa Candelária, a igreja matriz da capital do Império do Brasil.

 

Apesar de padre, João Manuel cultivava um ódio fiel e constante contra os jornalistas que se vendiam aos poderosos, por entender o jornalismo como uma missão em favor da sociedade e a política, ou seja, os mandatos proporcionados pelo voto, a retribuição natural e justa de seus esforços de militante sempre disposto a pegar pesado cotra seus adversários e desafetos que não eram poucos nem inertes. Portanto, nada melhor que o voto, como pagamento, por sua luta por mais democracia e justiça social.

 

Filho do capitão João Manuel de Carvalho e de Quitéria Moura Carvalho, nasceu em Natal e ordenou-se no Seminário do Maranhão, em 1865. Fundador de “O Recreio”, o primeiro jornal literário a circular no Rio Grande do Norte, começou escrevendo no “Conservador” e tomou gosto pela política, graduando-se rapidamente nessa arte. Diz Cascudo que ele agradou depressa, falando e escrevendo. Poucos anos depois de jurar bandeira ao partido, criou, pela independência e atividade inconsciente de seu espírito, um lugar á parte no estado-maior de seu protetor, o coronel Bonifácio, velho cacique natalense que possuía do Conde de São Lourenço, segundo Cascudo, o raro talento de pôr asas nas costas de quem julgava capaz de vôo e recusando postos de realce para si mesmo. E o jovem padre foi em frente até a deputação-geral, que obteve não de mão beijada, mas porque soube esperar o momento em que o cavalo passava selado e habilmente o montou.

 

Aderindo à República, manteve-se longe do Partido Republicano fundado no Rio Grande do Norte por Pedro Velho, segundo uns, por orgulho, para não dividir seu cacife com um correligionário igualmente prestigioso. Pedro Velho, por sua vez, não se esforçou para atraí-lo, segundo alguns, por temer a sua imensa popularidade. Como deputado, propôs a abertura de estradas e instalação dos correios no Rio Grande do Norte, pouca coisa e de pouca monta, pois como política não era a terra que lhe despertava o interesse, mas os eleitores.

 

Era capaz de despender um esforço imenso para atender aos pedidos de um eleitor. A terra que se lixasse e, ainda mais, a igreja, embora tenha terminado seus dias como vigário de Amparo, importante município do Estado de São Paulo. Lá, mergulhou no ostracismo político, mas ainda mostrou suas garras como jornalista. E escreveu um delicioso livro de memórias, que, devidamente anotado por um bom conhecedor da história política brasileira da época, seria bem vindo se fosse reeditado.

 

Insatisfeito com a Monarquia, decepcionou-se rapidamente com a República. Cascudo conta-nos que, um ou dois dias depois da Proclamação, vestido à paisana, ou seja, de fraque, cartola e plastron [espécie de gravata usada pelos elegantes da época], compareceu a uma festa popular em homenagem ao novo sistema de governo. Usou um valioso camafeu para prender a gravata. Ao despedir-se dos amigos e novos correligionários, notou o desaparecimento da jóia. Procurou-a por toda a parte. Desencantado, curtindo o prejuízo, disse a frase que se tornaria famosa: “Querem ver que a República já começou furtando?”

 

 

 

SABEDORIA DE CLOSET

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Do Y! Posts

(Reportagem de Belinda Goldsmith)

Sydney (Reuters Life!) - As pérolas de sabedoria de Paris Hilton serão imortalizadas ao lado de frases de alguns dos maiores pensadores de todos os tempos na mais recente edição do Livro Oxford de Citações –o que ela considera “muito bacana”.

Hilton, a socialite que se tornou estrela da tevê e fenômeno de vendas, está na versão mais recente do dicionário de 65 anos, lançado nesta semana, e aparece ao lado de gente como Confúcio, Oscar Wilde e Stephen Hawking.

Sua contribuição? “Vista-se bem onde quer que vá, a vida é curta demais para se passar despercebido”.

Hilton, de 28 anos, ficou encantada em ser incluída no livro, uma lista famosa de ditos memoráveis.

“Muito bacana eu ter uma citação no dicionário”, escreveu ela em sua página do Twitter.

Outra adição na sétima edição do volume da Universidade Oxford é de Sarah Palin.

A ex-candidata republicana à vice-presidência dos EUA foi incluída por sua famosa piada: “Qual é a diferença entre uma mãe das antigas e um pitbull? O batom”.

Mais de 200 mil citações foram acrescentadas ao dicionário, incluindo uma do presidente Barack Obama, “O arco da história é longo, mas se curva em direção à justiça”, e uma da escritora Fay Weldon, “A culpa está para a maternidade como as uvas estão para o vinho”.

 

 

 

PADRE, JORNALISTA E POLÍTICO

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

 

Por Franklin Jorge

 

 

O padre João Manuel de Carvalho, norte-rio-grandense e patrono de importante logradouro em Natal, notabilizou-se durante a monarquia e inícios da República, sobretudo, por seu temperamento e jornalismo desabrido à serviço da política partidária, pois era homem de opinião e ação que nunca ficou em cima do muro vendo as coisas acontecerem…. Pároco da Candelária, no Rio de Janeiro, representou o nosso estado em duas legislaturas tumultuosas.

 

Tinha a justa fama de ter a língua de prata. Seu texto, embebido de puro vitríolo, era nitroglicerina pura.  Corajoso e independente, colocava as idéias acima de seus interesses, deixando disso testemunhos públicos e privados. Como jornalista militante, era sempre do contra, por entender o jornalismo como uma advocacia popular à serviço dos cidadãos e não daqueles que se refestelam no poder, desfrutando as benesses do servilismo interesseiro. Costumava dizer o padre João Manuel, esse anti-Aretino por índole e temperamento, apostrofando o jornalismo que se vende: “Repórter é sempre parente do governo”, e estava conversado.

 

Ninguém, melhor do que ele, para dar esse diagnóstico, após ter dirigido dois combativos jornais cariocas, o “15 de Julho” [1870] e “A Nação” [1872-76], que deram eco à sua implacável campanha contra a sociedade política e burguesa de sua época, aliás, tão parecida com a atual.

 

Colaborador  do “Jornal do Commércio” e, posteriormente, quando radicado em São Paulo, redator-chefe do “Correio Amparense”, já na República tornou-se um critico implacável do Governo Provisório, jogado em massa na fogueira, na figura de seus ministros, parlamentares, generais e anatematizados com as tintas da sátira e do ridículo.

 

Embora padre, nada tinha de piedoso, esse João Manuel de Carvalho, autor, também, de um livro de memórias ainda capaz de nos despertar o prazer do riso. Sobre o Marechal Floriano Peixoto, nascido antes do tempo na cidade alagoana de Porto Calvo, portanto conterrâneo do traidor Calabar, destilou: “Monstruoso na ordem política, esse homem foi fenomenal na ordem da natureza. Ninguém se admire do que fez ele ao visconde de Ouro Preto, nem ao Marechal Deodoro, nem aos congressistas, nem à nação, nem à Republica, nem à Federação, nem a si mesmo. O senhor Floriano Peixoto traiu a própria mãe que o pariu, a ele, porque fez-lhe a torpeza de nascer de sete meses e em Porto Calvo. Ora, procedente de porto calvo e tendo tanta pressa em vir ao mundo devia tornar-se um verdadeiro prodígio… na traição”.

 

E, não satisfeito com as estocadas, acrescentava sem perder o fôlego: “Pela pressa com que quis nascer, saiu completamente torto, tanto no corpo como na alma. “Pé torto, alma torta”, disse dele Pardal Mallet. De perfeito acordo”. Diante do cenário político que temos diante dos nossos olhos perplexos, só nos resta lamentar que a não tenhamos em Mossoró outros padres como esse, para detonar figuras ridículas e venais, quando não destrambelhadas e manipuladoras como grande parte dos nossos politicos de plantão.

A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [5-5]

sábado, 8 de agosto de 2009

RETRATO FALADO DE ANTONIO SILVESTRE [2a. e Última Parte]

Por Franklin Jorge

Pau dos Ferros - A mas o senhor anota tudo. é ligeirinho que só vendo… ah se os nossos politicos tivessem essa mesma diligencia para trabalhar e resolver problemas que o senhor tem para escrever a história, o Brasil era outro. Um paraiso.

Meu amigo, não carece de anotar tudo não, para não enfadar e aborrecer os leitores. Hoje ninguém mais quer ter trabalho com coisa alguma. Vai tudo na maciota, na maior moleza. No meu tempo era outra coisa… Agora, se eu disser alguma coisa errada, corrrija. Estou perdendo a memória. Não posso mais ignorar que já começo a caducar e as idéias, por conta disso, vão ficando cada vez mais embaralhadas na minha cabeça. Velho é como pau verde, só produz fumaçã que o vento leva. Nessa idade já não queimo mais nada…

Do fundo da rede, no interior do quarto, protesta prontamente sua quarta mulher. Você nunca caducou nem há de caducar. Deixe disso. É muita velha já e explica que só não se levantou para conhecer-me e ver minha cara porque a festa do centenário de Silvestre a deixara exausta. tive que apertar tantas mãos e falar com tanta gente que só vendo… Foi um trabalhão danado, receber e dar atenção a tanta gente. Sem falar na missa celebrada por Mons. Caminha, acrescenta o marido e ela, retomando o assunto principal, a falta de memoria do marido, arremata com veemencia. Deixe disso, homem. Você nunca caducou nem havera de caducar, agora, depois dessa baita festa que teve até missa solene. O senhor não repare não, mas esse velho é muito caviloso e gosta de brincar com a inteligencia alheia…

Silvestre ri discretamente. Animado, veste camisa social engomadissima. Monsenhor Caminha, que o senhor acaba de visitar, chegou aqui em Pau dos Ferros nas eras de 1940. Eu já trabalhava aqui. Tenho ainda muita lembrança de sua chegada. Ele chegou a noite. É muito nosso amigo e celebour a missa do meu primeiro centenário, reitera as palavras da mulher, rindo maliciosamente. Seus primeiros anos aqui - o senhor há de ter sabido por algum desses faladores - foram de grande reboliço e desinquietação.

Muito novo e cheio de esperança, padre Caminha quis impor o novo numa terra parada. Acabou trombando com essa gente enferrujada do outro tempo, mas com persistencia acabou cosneguindo o que queria, mudar Pau dos Ferros. Ele mudou o azimute do lugar e deu a volta por cima. Hoje é paparicado por todos.

Não vou dizer que ele era namorador porque nunca vi namoro dele, mas a fama de mulherengo ficou e o que o povo diz é o que conta para a história. Não adiantar ir contra a lingua do povo. Diziam que ele desassossegou muitos pais de familia e muitos maridos perderam o sono e as estribeiras de tanto ouvirem história sobre os banhos noturnos do padre na beira do açude velho, sempre cercado de devotas. Para mim, que não faço nem acolho mexericos, eram devotas e não mulheres profanas que alegravam o seu banho e vestiam a sua nudez. O senhor sabe que o povo tem a lingua comprida e cor de brasa. Quem cai na lingua do povo tem muito o que explicar. Agora, sei por experiencia propria, que ele tinha um revolver e por uns tempos, por causa das ameaças ue sofreu desses pais e desses maridos, andava armado…

Nosso encontro ocorre dois ou tres dias após o último de seus filhos que vieram para a festa regressara a Brasilia. O velho, ainda muito empolgado com tudo, conta que foi um festão, coisa para cinema e gente graúda. Confessa que não esperava tnata gente. Seu primeiro centenário, como gosta de dizer com ar galhofeiro, foi um acontecimento. O senhor precisava ver quantos presentes ganhou esse velho, informa a mulher invisivel, de dentro da camarinha. Televisão, tres pares de chinelos, duzias de sabonetes, água de cheiro, roupas, ventilador e, debicando, acrescenta que até o fim do ano pretende completar também cem anos, para ganhar tantos presentes. Desse jeito estou certa que é vantajoso completar 100 anos…

Silvestre, após ouvi-la com um ar de bemaventurança, comenta, dirigindo-se a mim. Essa mulher é velhinha, mas é minha. o senhor não faz idéia nem pode imaginar o interesse que essa mulher despeortava quando a gente vinha da Varginha para a rua. Quando moça era vistosa que só vendo. Até parecia uma sereia. Não podia vir a Pau dos Ferros com ela sem provocar o maior reboliço. bonita como o pecado, essa mulher dava sezão em amcaco. Hoje está velhinha e não pára de querer mandar em mim, mas não troco ela por uma carrada de melancia…

FIM

A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [3-5]

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

RETRATO FALADO DE MONSENHOR CAMINHA [3a. e última parte]

Por Franklin Jorge

Pau dos Ferros - Quando cheguei aqui, mais ou menos da sua idade, houve um choque entre meus paroquianos e eu. O povo daqui queria muito bem ao meu antecessor, Monsenhor Militão, um homem  manso manso. Eu, aom contrário, era moço forte, impetuoso e, se me permite, de sangue e hormoniosm ferventes. O choque foi inevitável. além disso eu passei a andar armado. Quero dizer, tinha um revolver.

Dom Jayme Câmara queria que Pau dos Ferros tivesse um padre forte que reagisse ao marasmo e vitaminasse a diocese com novas pastorais. Como vigpario de Pau dos Ferrosm ganhei também as paróquias de Vitória - atualmente Marcelino Vieira - e de Luis Gomes. Padre novo e cheio de energia, trabalhei muito e fui avançando aos poucos, mas avançando e vencendo resistencias, pois o trabalho vence tudo. O trabalho é a prática da fé.

Chegou um tempo em que, depois de muitas batalhas ganhas e perdidas, Pau dos Ferros fez as pazes comigo. Todos comrpeenderam finalmente a razão de minha e reconheceram que eu estava certo, mudando as coisas que estavam paradas.

Por seu comportamento nada ortodoxo, o padre Caminha chegou a ser ameaçado por maridos ciumentos e pais zelosos, motivo pelo qual passou a andar com uma arma d efogo na cintura. Todas as noites, a pé, eu dava uma volta por toda a cidade e arredores, para cansar-me e controlar meus impetos de moço. eu era um cearense destemido, como o meu pai, e o serviço religioso não me acovardara.

Nunca em nenhum momento minha vida duvidei da existencia de Deus. Nem mesmo quando era seminarista e enganado pelos atrativos da carne duvidei de minha vocação. Essa idéia de geração espontanea que dispensa a existencia de Deus foi desmentida por Pasteur, um médico, um cientista francês. Tudo, porém, no plano religioso, é mistério. Deus, por Si mesmo, existe desde sempre. Nós somos suas criaturas, nascidas de sua magnanima vontade. Se a religião não tivesse mistperios seria humana e não divina. A religião é em essencia misteriosa, tantomquanto Deus é infinitivo e misericordioso. Já a inteligencia humana é finita.

Apaixonado dos estudos filosoficos, encontrou Monsenhor Caminha na cidade remota e pacata a solidão necessária para expandir-se espiritual e intelectualmente. Há anos relê Aristóteles, Platão, Thomas de Aquino, Santo Ambrósio, os Doutores da Igreja. Lendo-os, não estou só, pois essa leitura me dá pretextos de ruminações infindáveis. O senhor, apesar de jovem - ele o diz embrulhando as palavras num sorriso malicioso - é um ser aristotélico, como tenho notado aqui enquanto conversamos. Suponho que tenha muito prazer na leitura dos filósofos… Sou? Pergunto-lhe um pouco desconcertado. Ele reafirma com um aceno de cabeça amável e distinto.

Deus é infinitamente paciente. Só Deus, como sabe, é infinitivo. E, se Ele infinito, não há lugar para outro deus, ensinam os Doutores da Igreja. A Trindade - tres pessoas numa só -, juntamente com o amor, confirma isso. Sabia que Gargarin, o astronauta russo, ao pisar na Lua rezou?

Quando moço eu tinha quatro teorias que pdoem ser desnastradas do que vou lhe dizer a seguir sem nenhuma ordem. O que aprendi através dos livros, outras que descobri no convivio com o povo. A ingornacia salva muito, pois se faz perdoável pela graça de Deus. Todas as faltas hmanas são perdodas quando há o arrependimento. Deus não despreza nem subestima o pecador que apela para a sua misericórdia infinita e justa. Por isso, afirmo-lhe quen não acredito na existencia do inferno nem em penas eternas.

Ah notou que sou intrinsecamente otimista em relação a salvação do homem. Poucos, pouquissimos deixarão de salvar-se. O homem é capaz de tudo. ele chegou á Lua. Salvar-se seria o menor dos seus esofrços. Se ele quiser… Basta-lhe apelar  à infinita misericórdia de Deus, que não sonega o perdão por ser feito de amor. Esse Deus de chicote em punho, esse Deus punitivo e achacador é invenção de seus detratores ou de criaturas sem fé.

Para Monsenhor Caminha o pior dos pecados decorre da inteligencia. É o orgulho intelectual que perdeu Lucifer, um anjo de luz que, orgulhoso de sua inteligencia, atirou-se nas trevas. E a maior virtude, a humildade que apaga todos os pecados. Deus repelte os soberbos. Já a fé é um dom gratuito de Deus…

Ah voc~e me faz perguntas tão desconcertantes, dificeis de responder. Preferiria ter calado algumas, para pensar melhor sobre elas, mas o repórter tem pressa, diz — rindoe balançando-se na cadeira. No começo de minha vida sentia-me desnorteado. Fui salvo pela fé. como padre entendi depois de muito sofrimento que uma de minhas missões seria a de compreender e consolar.  Foi nisso que pus minha energia e meu intento.

Sobre o desconcerto do mundo a que tem aludido nessa conversa, diria que resulta da falta de união entre as familias, do egoismo e do individualismo dominantes. a mulher, filha de Eva, reabilitou-se pelo cristianismo. Já o sexo, tão presente nessa já longa confissão, acho-o respeitável, pois nele Deus pôs o dom da vida. Depois de uma pausa, acrescenta um fato que teria ocorrido recentemente, numa reunião pastoral. Alguém lhe teria perguntado que,s e fosse papa, o que faria dos homossexuais. Não hesitei em responder. E respondia pessoa que me interrogara arespeito, que deixaria que eles vivessem a sua vida.

[Fim do Retrato Falado de Mosnenhor Caminha]

LEMBRANDO O PADRE PEDRO LAPO

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Por Franklin Jorge

Mossoró – Encontro, entre os meus guardados, uma das cartas que me escreveu o padre Pedro Lapo, cuja missão em Luis Gomes deixou profundas e diversificadas raízes sobretudo entre os jovens do município que foram incentivados a empreender ações solidárias e aprenderam, na prática, o sentido da cidadania.

Conheci-o justamente nessa quadra de sua vida de missionário, quando incutia em mentes jovens, ainda não deformadas pelos vicios dos velhos, uma nova visão da vida que a maioria aproveitou de uma maneira que começa a dar bons frutos.

Quinze anos depois, o reconhecimento desse trabalho pela comunidade luisgomense, na pessoa do professor Luciano Pinheiro, eleito vereador do municipio nas ultimas eleições, sob a inspiração  confiança e esperança do seu povo que o viu, graças ao trabalho de educador que tem desenvolvido em beneficio de todos, como um exemplo de renovação.

A principio hostilizado ou visto com desconfiança pelo patriciado local, mandonista e cioso de suas prerrogativas, Padre Pedro Lapo deixou marcas profundas na cultura local e uma coorte de multiplicadores dos seus ensinamentos despojados de egoismo. Ensinamentos verdadeiramente cristãos que contribuíram para a politização dos jovens que antes dele pareciam fadados a repetir a acomodatícia herança familiar.

Recentemente, graças a Internet, reencontrei-o, usando o Yahoo Messenger para comunicar-se e fazer-se ouvir sem as barreiras geográficas e ideológicas de outros tempos, quando passamos a trocar idéias e a nos apoiarmos mutuamente em nossa luta de homens livres que crêem e têm convicções.

Está agora o Padre Pedro servindo às comunidades de Areia Branca e Serra do Mel, sempre ativo e pilotando o seu velho jeep. Agora, já um pouco mais velho, mas sempre animado e cônscio de que tem ainda muito o que fazer e realizar à luz de uma igreja que lembra, em seu aspecto missionário, a ação dos primeiros evangelistas, não meramente no sentido de pescar almas e incutir-lhe um credo religioso, mas fundamentalmente em sua concretude baseada em obras. Pois, já disse o evangelista que a fé sem obras é somente um simulacro sem serventia…

Grande felicidade senti nesse reencontro. E espero aceitar em breve seu convite para visitá-lo em Areia Branca ou Serra do Mel, onde dá continuidade à sua árdua e fecunda missão.

 

 

O CONSULTOR INFORMAL DE MARTINS

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Por Franklin Jorge

Martins — Francisco Marcelino Junior ninguém sabe quem é, mas Junior Marcelino toda Martins conhece e consulta. Aos 62 anos, aposentado, é procurado por todos quando o assunto é a história do municipio.

Sem nenhuma obra publicada, é uma fonte oral acatada, sobretudo por estudantes do primeiro grau que batem permanentemente à sua porta em busca de informações que faltam nas bibliotecas das escolas, por inépcia dos sucessivos governos que só pensam em ações que resultem em proveito próprio.

Dispersicvo e sem método, como a maioria dos autodidatas, Junior Marcelino atuou como colaborador dos famosos professores Cabral e La Roche, ambos já falecidos, que pesquisaram em Martins a megafauna e através desse esforço, sob a chancela da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, puderam rastrear a existencia , na região, de animais pré-históricos.

Espirito enumerativo, adepto da cronologia, afirma o pesquisador quew sempre foi muito curioso e já estudou em seminário, mais exatamente no Seminário de Santa Teresinha, em Mossoró. Antigamente as familias daqui achavam que tinham que ter um padre ou uma freira, de forma que fui encaminhado para a vida religiosa, mas logfo percebi que não tinha vocação para a coisa e abandonei o céu pelo inferno, afirma em tom jocoso, ou seja, troquei o seminário pela Marinha…

De volta a Martins, trabalhou durante 25 anos na Prefeitura, desde que fez oseu primeiro trabalho de pesquisa histórica sobre o municipio, por encomenda do prefeito José Fernandes que de tão entusiasmado o contratou. Era uma pesquisa que se tornou uma referencia, embora nunca tenha sido publicada em livro.

em 1988 começou a chegar a Martins pesquisadores como o Prof. Cabral que realizava estudos de campo osobre corujas. Ele estudava megafauna com o propósito de estabelecer a existencia, na regiçao, de animais pré-históricos. Quando faleceu, assumiu a pesquisa o professor Armand La Roche que fez 17 escavações na Casa de Pedra, de onde foram retirados mais de quatro mil peças liticas…Com a morte do Prof. La Roche, essa pesquisa acabou e hoje parte dessas peças encontram-se aqui, expostas no Museu Municipal.

HERÓIS DE MENTIRA

sábado, 11 de julho de 2009

Por Eduardo L. Resende

Jean-Dominique Bauby, ex-editor de uma publicação francesa de moda, morreu em 1997, aos 44 anos de idade, pouco depois de ter publicado seu livro O Escafandro e a Borboleta. Até aqui, nada extraordinário. A não ser o fato de os 28 capítulos em 130 páginas terem sido ditados pelo autor, letra por letra e durante meses, a uma paciente representante da editora. Vítima de um derrame cerebral, Bauby realizou essa façanha movimentando a única parte móvel do seu corpo – a pálpebra esquerda.

 

Naturalmente perguntado algumas vezes sobre como enfrentava a depressão decorrente de seu estado, o escritor acabou nos legando, além do exemplo, sua receita para vencer os maus momentos: ele o fazia contemplando o mar, lendo durante uma hora, olhando uma pintura do infinito (feita por sua filha) e não se considerando um herói.

 

Enquanto Bauby ‘escrevia’ usando a pálpebra, em Gebel Tjauti – a 40 quilômetros ao norte de Luxor  e a, aproximadamente, 400 quilômetros ao sul do Cairo – o egiptólogo de Yale, John Coleman Darnell e sua esposa, Deborah, pesquisavam antigas rotas de comércio no deserto, a oeste do Nilo. As descobertas do casal, entretanto, foram dar em verdadeiro tesouro entalhado num penhasco.  

 

Medindo 45 centímetros por 50 centímetros, o achado era um painel com 5.250 anos de idade, trazendo a representação de um governante vitorioso – possivelmente o rei Escorpião, cujos feitos, objeto de mito e lenda, acredita-se terem sido fundamentais no aparecimento da civilização egípcia.

 

Arqueólogos que analisaram a descoberta afirmaram, à época, que podia ser aquele o mais antigo documento histórico do mundo, pois cenas e símbolos ali entalhados guardam forte semelhança com os hieróglifos posteriores. Seria essa uma contribuição significativa, segundo os mesmos arqueólogos, à crescente evidência de que a primeira escrita de verdade originou-se no Egito, e não na antiga Suméria, atual Iraque.

 

Embora mais de 52 séculos separem o gesto anônimo que esculpiu um fragmento de vida na pedra, do realizado por Bauby pela persistente movimentação de sua pálpebra, algo os aproxima e dignifica. A urgência natural do homem em perpetuar-se, ainda que em rudimentar mensagem ao futuro esculpida num penhasco, repete-se no raro e comovente esforço do escritor francês. Ambos os gestos se unem e se igualam no valor da palavra – tristemente devastado, insistentemente quebrado numa sociedade como a nossa.

 

Convivemos com esse empobrecimento, talvez sem perceber o quanto ele nos faz ceder à manipulação e à indignidade. A chave não é feita em um minuto, como anuncia o cartaz na loja do chaveiro. Nem a foto está pronta em meia hora, contrariando a propaganda no envelope do laboratório fotográfico. As prestações da TV não são isentas de juros, o preço do carro zero quilômetro não é popular, o imóvel anunciado fica no município vizinho e muito mais distante de onde reside o provável comprador.

 

Que dizer então das promessas de campanha do candidato, dos números das pesquisas, dos índices de inflação, da aplicação dos impostos? As negociações não são de paz, o desmatamento não está sob controle, mudanças na lei beneficiam antes o rico do que o pobre, nem todos os amigos são verdadeiros, a saudade não era assim tão grande, o amor não é eterno.

 

O vocabulário, sobretudo dos jovens, denuncia uma debilidade assustadora. Substituem-se frases inteiras por algumas poucas expressões. O fôlego para as conversas em geral é curto como o de um fumante. Na falta de melhores luzes, apela-se para o que ditam a TV e as publicações que gravitam em torno do que acontece nos bastidores da telinha. Na internet não é diferente. Veja-se o que ocorre nas salas de bate-papo, onde o bizarro e a ofensa costumam dar o tom. Boa parte dos interlocutores agride-se mutuamente, enquanto devasta o idioma com fúria incontrolável.

 

Insatisfeitos com a exaustão da palavra, exasperamo-nos na busca de compreensão e fé. Acuados pela falta de alternativas diante da atrofia do vocabulário, é possível que estejamos caminhando, a passos rápidos, para o balbucio. Ou preparando terreno para a nova babel a que nos levará a substituição do significado das palavras. 

 

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1987, o já falecido poeta russo Joseph Brodsky atribuiu a violência também ao fato de as pessoas não poderem articular-se. “Um homem inarticulado age. Usa seus músculos, sua força, onde deveria ter usado verbos.”

 

Ainda segundo Brodsky, o motivo dessa incapacidade em articular-se tem sua origem essencialmente “em um clima social e cultural que não incentiva a precisão no falar, que não encoraja as pessoas a prestar atenção à palavra impressa. Ao contrário, o que ela encoraja é o imaginário: imagens visuais de riqueza ou de beleza. Cada vez mais somos pessoas visuais, mais do que pessoas de fala e de palavra articulada. E isso é muito perigoso, pois a sociedade poderá pagar com sua própria estrutura por esse abandono da palavra”.

 

O astrônomo Carl Sagan, pouco antes de sua morte aos 62 anos de idade, em dezembro de 1996, disse que o século XX será lembrado pelos meios sem precedentes de que se dispõe para salvar, prolongar e melhorar a vida; pelos que criou para destruir a vida, a ponto de, pela primeira vez, colocar em risco a civilização global; e pela visão sem precedentes que adquiriu de nós mesmos e do Universo.

 

Não há como negar que em tudo foi e é fundamental o papel da comunicação. Sem ela não haveria História. Assim como as geleiras do Ártico são sustentadas na base por uma neve que caiu há 5 mil anos, também a aventura humana não poderá prescindir do valor da palavra. A não ser que, ao contrário de Bauby, nos resignemos a reverenciar heróis de mentira.

 

 

 

 

 

O PRAZER SEGUNDO DONA ZÉLIA

domingo, 21 de junho de 2009

 

Por Franklin Jorge

 

Mossoró — Uma tarde dessas, após tomar café com uns biscoitos finíssimos, feitos em casa, acompanhei uma amiga em sua visitação constante à senhora sua mãe que há pouco me recebera no café da manhã dos seus noventa anos, data que tive a honra de saudar em um artigo que Mossoró leu e, sem modéstia, creio que a maioria assinou embaixo e deu fé, pelo exemplo de vida que nos proporcionou Dona Zélia Fernandes, ao confiar a todos, desinteressadamente, da sua cadeira, a sabedoria de toda uma vivência feita de persistência, de obstinação, de amor – essa palavra já um pouco aviltada pelo mau uso –, de fé e de esperança. De muita espera, assim seja. Pois esperança é espera.

 

São ambas – mãe e filha – mulheres inteligentíssimas, grandes damas de uma Mossoró aristocrática, personagens duma crônica exemplar repleta de lições, de estoicismo, de compaixão e ceticismo, de perseverança, de exercício de amor continuado, de calamidades pacientemente suportadas e compartidas entre mãe e filha, sem constrangimento, com naturalidade e altivez dignas de autênticas mulheres mossoroenses.

 

Dona Zélia perdeu uma irmã recentemente. Ainda está abalada, curtindo uma parte de si. É assim que se sentiu ao perder essa irmã que, felizmente, com a graça de Deus, não sofreu muito. Tudo aconteceu depois dessa manhã jubilosa que lhe trouxe seus noventa anos. Sentiu-se presa pela depressão. Sentiu até essa vontade de morrer, mas ontem já se recuperara do desânimo e enfrentava plenamente a vida, tendo a alma renovada pela dor.

 

Recebeu-nos sorrindo, de sua cadeira, à entrada da casa, de onde avista tudo e dá as boas vindas a quem entra e acena para os que a cumprimentam. Sua filha, um pouco surda, transbordando temperamento e um espírito que evoca a inteligência da Duquesa de Guermantes, fica em silêncio, ouvindo-nos. Têm ambas uma personalidade que as distingue. E, profusamente, o afeto que as une num nó que não se desatará senão na morte.

 

Penso que são filósofas, difundindo a filosofia de que tudo passa sobre a terra, enquanto caminhamos pelo vale das sombras da morte. Não desdenham nem se entregam à morte como inimigas. Sempre, de alguma forma, a afagam. Certamente são amigas de longa data.

 

Dona Zélia lê de tudo, por prazer, por sentir que a leitura deleita, agudiza a percepção, dissemina conhecimento, instiga o espírito a conviver com a jovialidade e livre da paúra metafísica.

 

Dona duma conversa vivaz, rica de vivências filtradas em lições de vida que promanam da experiência. Apresenta-se tocada pelo azimute do humor, enamorada dessa magia que os livros contém. Ler, para Dona Zélia, resulta em diálogo entre o leitor e o que o autor consignou nas páginas do livro que nos levam do céu ao inferno no decurso da leitura. Dona Zélia diz ter horror a solidão. Nunca, porém, está sozinha, se tem os livros e os prazeres do pensamento. Falaríamos sobre os livros durante horas, talvez dias, naquela sala onde conversamos os três, ao crepúsculo de Mossoró.

 

Edite vai buscar a foto que tirei com a aniversariante, naquela manhã em que tomamos o farto e delicioso café pronto para os amigos e a descendência reunida em uma manhã de festa em que saboreou palavras e contentamento, em crescente júbilo saudando os noventa anos de uma universidade viva. Engordei demais nesses meses em que tenho desfrutado da pax mossoroense.

 

A Paisagem humana de Antonio Martins

terça-feira, 26 de maio de 2009

SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA

 

 

Por Franklin Jorge

 

Simplício nasceu em 1914, no Moquém, hoje um bairro de Antonio Martins. Antigamente isso aqui ficava fora da rua e era um lugar habitado por uns índios que sobreviveram à colonização. Era um povo muito rude que tinha o costume de moquear a carne, que comiam ainda sangrando, por isso ficaram conhecidos como “os Moquéns”.

 

O velho estava no quintal, fazendo as necessidades, quando batemos à sua porta. Ele demorou a aparecer. Sua casa é um depósito de tudo o que é sucata. Ele é muito vivedor e inventa cada coisa que só vendo, informa sua filha, Maria das Graças, de 57 anos. Ela nos guiou até a sua casa, por ele mesmo construída nos fundos dum terreno onde há de tudo, hortas e criação. Impressiona o número de garrafas vazias espalhadas pela casa e no quintal, sob as árvores ou no meio do tempo. Ele é danado para consertar qualquer aparelho. Rádio, televisão, toca-discos, automóveis. Não há segredos para esse homem…

 

Inteligentíssimo e cheio de habilidades as mais diversas, por muito tempo ganhou a vida fabricando toda qualidade de bebidas. Uísques, campari, rum, aguardente, confessa depois de alguma relutância. Ainda conserva o alambique que fabricou com as próprias mãos, há muito, sem uso. Por muito tempo, explica a mulher, ele abasteceu todas essas bodegas daqui com a bebida que fabricava. Muito curioso e vivedor, em certa época tornou-se dentista prático, extraiu dentes, fez obturações e esculpiu centenas de dentaduras. Como ourives fez muitas jóias, especialmente alianças, brincos e anéis. A derradeira aliança que fiz foi a de um rapaz que trabalha na loja Fonseca. Aprendi a fazer tudo vendo as pessoas fazer. Não tive professores.

 

Apesar da idade avançada tem um jeito de menino levado. Meio desconfiado a principio, pensava estar recebendo algum fiscal ou alguém que pudesse criar-lhe alguma espécie de problema. Depois das apresentações, relaxa um pouco e aos poucos vai se tornando mais confiante e respondendo às minhas perguntas. Magro e ágil, exala um cheiro forte de quem tem ojeriza à água e ao sabão. A simpatia em pessoa, conversa sorrindo. Mora sozinho nessa casa que é tudo: refúgio, destilaria, oficina, palco.

 

Filho de Antonio Pereira da Silva e de Joaquina da Conceição, teve um tio, Vicente Lira, esfaqueado por Lampião, quando por aqui passou em 1927. Lampião o prendeu, pensando que ele tinha dinheiro. Mas estava equivocado, quem tinha dinheiro era o irmão dele. Chateado com o engano, Lampião mandou que ele corresse, mas ele não correu. Então, para não ficar desmoralizado, Lampião lhe deu uma punhalada. Mas ele não morreu da punhalada e continuou vivendo para contar a história.

 

Simplício canta os versos que compôs sobre o episódio que se deu aqui mesmo, na cidade de Antonio Martins, naquele tempo ainda chamada de Boa Esperança.

 

                                       Lampião mandou recado

                                       Por um portador de linha

                                       [...]

                                       Eu vim buscar o dinheiro,

                                       Pois goma não é farinha…

ESSE É O CARA!

terça-feira, 5 de maio de 2009

 

 

Odilon de Oliveira, de 56 anos, estende o colchonete no piso frio da sala, puxa o edredom e prepara-se para dormir ali mesmo, no chão, sob a vigilância de sete agentes federais fortemente armados. Oliveira é juiz federal em Ponta Porã , cidade de Mato Grosso do Sul na fronteira com o Paraguai e, jurado de morte pelo crime organizado, está morando no fórum da cidade.

Só sai quando extremamente necessário, sob forte escolta. Em um ano, o juiz condenou 114 traficantes a penas, somadas, de 919 anos e 6 meses de cadeia, e ainda confiscou seus bens. Como os que pôs atrás das grades, ele perdeu a liberdade. ‘A única diferença é que tenho a chave da minha prisão.’

Traficantes brasileiros que agem no Paraguai se dispõem a pagar US$ 300 mil para vê-lo morto. Desde junho do ano passado, quando o juiz assumiu a vara de Ponta Porã, porta de entrada da cocaína e da maconha distribuídas em grande parte do País, as organizações criminosas tiveram muitas baixas. Nos últimos 12 meses, sua vara foi a que mais condenou traficantes no País.


Oliveira confiscou ainda 12 fazendas, num total de 12.832 hectares. 3 mansões - uma, em Ponta Porã , avaliada em R$ 5,8 milhões - 3 apartamentos, 3 casas, dezenas de veículos e 3 aviões, tudo comprado com dinheiro das drogas. Por meio de telefonemas, cartas anônimas e avisos mandados por presos, Oliveira soube que estavam dispostos a comprar sua morte.


‘Os agentes descobriram planos para me matar, inicialmente com oferta de US$100 mil.’ No dia 26 de junho, o jornal paraguaio La Nación informou que a cotação do juiz no mercado do crime encomendado havia subido para US$ 300 mil. ‘Estou valorizado’, brincou. Ele recebeu um carro com blindagem para tiros de fuzil AR-15 e passou a andar escoltado.
Para preservar a família, mudou-se para o quartel do Exército e em seguida para um hotel. Há duas semanas, decidiu transformar o prédio do Fórum Federal em casa. ‘No hotel, a escolta chamava muito a atenção e dava despesa para a PF.

É o único caso de juiz que vive confinado no Brasil. A sala de despachos de Oliveira virou quarto de dormir. No armário de madeira, antes abarrotado de processos, estão colchonete, roupas de cama e objetos de uso pessoal. O banheiro privativo ganhou chuveiro.

A família - mulher, filho e duas filhas, que ia mudar para Ponta Porã, teve de continuar em Campo Grande. O juiz só vai para casa a cada 15 dias, com seguranças. Oliveira teve de abrir mão dos restaurantes e almoça um marmitex, comprado em locais estratégicos, porque o juiz já foi ameaçado de envenenamento. O jantar é feito ali mesmo. Entre um processo e outro, toma um suco ou come uma fruta. ‘Sozinho, não me arrisco a sair nem na calçada.’

Uma sala de audiências virou dormitório, com três beliches e televisão. Quando o juiz precisa cortar o cabelo, veste colete à prova de bala e sai com a escolta. ‘Estou aqui há um ano e nem conheço a cidade.’

Na última ida a um shopping, foi abordado por um traficante. Os agentes tiveram de intervir. Hora extra. Azar do tráfico que o juiz tenha de ficar recluso. Acostumado a deitar cedo e levantar de madrugada, ele preenche o tempo com trabalho.

De seu ‘bunker’, auxiliado por funcionários que trabalham até alta noite, vai disparando sentenças. Como a que condenou o mega traficante Erineu Domingos Soligo, o Pingo, a 26 anos e 4 meses de reclusão, mais multa de R$ 285 mil e o confisco de R$ 2,4 milhões resultantes de lavagem de dinheiro, além da perda de duas fazendas, dois terrenos e todo o gado.

Carlos Pavão Espíndola foi condenado a 10 anos de prisão e multa de R$ 28,6 mil. Os irmãos , condenados respectivamente a 21 anos de reclusão e multa de R$78,5 mil e 16 anos de reclusão, mais multa de R$56 mil, perderam três fazendas.

O mega traficante Carlos Alberto da Silva Duro pegou 11 anos, multa de R$82,3 mil e perdeu R$ 733 mil, três terrenos e uma caminhonete.

Aldo José Marques Brandão pegou 27 anos, mais multa de R$ 272 mil, e teve confiscados R$ 875 mil e uma fazenda.

UMA TARDE COM DEUSDEDITE

quarta-feira, 15 de abril de 2009

 

Por Franklin Jorge

 

CARAÚBAS – Passei a tarde de sábado em Caraúbas, para onde fui a convite de Honório de Medeiros e Kydelmir Dantas, que iam com a missão de entrevistar Deusdedite Fernandes Pimenta. Ele nos recebeu em sua casa em animada “sessão nostalgia”, quando recordou que estivera nos braços do famoso Massilon Leite, incentivador de Lampião no ataque a Mossoró, fato ocorrido em 1927.

Em voz clara e cheia de energia, evocou ainda outras figuras populares de Caraúbas, entre as quais a não menos famosa de Quincas Saldanha que há mais de cinqüenta anos aterrorizou uma vasta região, cuja casa forte, um digno exemplar da arquitetura rural sertaneja, centro político da sua propriedade rural retalhada por seus herdeiros, ainda continua de pé, incorporada já ao perímetro urbano do município.

Homem corpulento e cordial, de 83 anos, Deusdedite tinha apenas alguns meses de vida quando a fazenda Timbaúbas, do seu avô Hipólito Fernandes, foi invadida por Massilon que se fazia acompanhar por oito ou dez cabras armados, onde pernoitou e trocou uma sela nova pela velha que trazia. Na saída, vendo-o nos braços da babá, tomou-o nos próprios braços e depois de alguns minutos o devolveu à negra que, assustada, tremia.

Já na calçada de sua casa, na hora das despedidas, descobri que o nosso amável anfitrião havia conhecido de perto uma das figuras mais impressionantes do nosso imaginário popular, o célebre caçador de onças Miguelão, se não me engano nascido em Caicó ou Currais Novos, inspirador de uma série de crônicas escritas pelo grande poeta e escritor José Bezerra Gomes que também o conhecera.

Ele próprio, Deusdedite, quando ainda um frangote, chegou a matar duas ou três onças, pois além de vaqueiro e proprietário, foi um exímio e verídico caçador. Espero, oportunamente, transcrever a conversa e transformá-la em entrevista para o deleite dos leitores desta página.

O HOMEM NECESSÁRIO

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por Franklin Jorge

Há tempos tenho protelado a entrevista que desejo fazer com o gentil farmer Dr. Albérico Batista da Silva, proprietário rural em Touros onde peleja plantando e criando ovelhas.

Conheci-o em Rio Branco há uns vinte anos ou mais, sempre jovial e cultivando a arte de fazer os outros felizes. Desde então nos ligamos através duma desinteressada amizade que o tempo se encarregou de tornar sólida. Certa vez eu lhe disse, caminhando pelas ruas de Rio Branco, que o tinha como um pai e ele, muito sério: Pai, não; um irmão mais velho… Que seja!

Trata-se de um homem de espírito e de coração, como aquele famoso livreiro stendhaliano que, com um prazer de criança, aprecia na arte da conversa o que deleita a inteligência e a alma. Por isso, em sua companhia o ar triste não é de bom tom e o enfado não convém, como dele diria, se possivel fosse voltar no tempo, o autor de Cartuxa de Parma, que estou relendo para polir o estilo e usufruir de sua extraordinária arte literária.

Tendo começado a vida no Caicó ainda muito jovem, creio que aos 22 anos, como representante da Cia. Anderson Clayton, famosa firma compradora de algodão, aqui se casou, seus filhos nasceram e, depois de uma vida rica de experiencia humana e de amigos, para cá retornou ao aposentar-se como Fiscal do Trabalho no Acre, após ter sido diretor da Eletropaulo onde teve como companheiros de Diretoria o atual governador de São Paulo, José Serra e o ex-Ministro Sérgio Mota. Modesto sem afetar modéstia, outros, em seu lugar, alardariam tudo isto por aí… Em Natal, foi Secretario de Finanças do prefeito Vauban Faria. Pernambucano de Afogados da Ingazeira, tem vivido longos anos no Rio Grande do Norte, em São Paulo, Brasilia, Minas Gerais e Maranhão, sempre deixando um rastro de benignidades por onde passou.

Dr. Albérico está nos devendo um grande depoimento sobre o senador Dinarte Mariz, a quem conheceu de perto sob a luz de Santana. Há anos o tenho ouvido sobre o senador do Seridó cujo perfil, um pouco mundanizado pelo engenho do imortal Diógenes da Cunha Lima, debuxado por suas palavras se enriquece de nuanças desconhecidas que fogem ao convencionalismo e ao oba-oba. São informações privilegiadas e originais sobre o politico talvez de maior prestigio para os ditadores militares.

Não temos curiosidade sobre as figuras que fizeram a nossa história, como Alberto Maranhão, o Capitão José da Penha, Aluizio Alves e José Cortez Pereira, por exemplo, que nunca foram efetivamente biografados. Pedro Velho, Henrique Castriciano e o senador João Câmara ainda mereceram estudos mais aprofundados de Luis da Câmara Cascudo, assim como o ex-governador José Augusto que teve uma pseudobiografia escrita por Nilo Pereira que vale em parte pela finesse estilística do nosso conterrâneo do Ceará-Mirim. Mas biografia, a rigor, não. Até porque dá muito trabalho fazê-las.

O tema, aliás, é controverso entre os políticos que, muito sabidos ou por se sentirem talvez culpados do que sabemos e do que não sabemos, são geralmente uma tribo arredia e desconfiada. Têm r isso mesmo horror a biografias… A maioria, em certos aspectos, prefere o anonimato no que se refere à vida privada. Afinal uma biografia bem investigada é capaz de trazer à superficie incômodos e escabrosidades que não convém suscitar nem revelar à curiosidade do público… Lembro-me que em certa época quis biografar — e creio que teria feito duas grandes biografias, pois me preparara para isto –, Aluizio Alves e Cortez Pereira, mas eles fugiram dessa idéia como o diabo foge da cruz , tanto quanto a prefeita de Natal, jornalista Micarla de Souza, foge dos compromissos.

CARLOS EDUARDO AO VIVO

terça-feira, 31 de março de 2009

Por Franklin Jorge

NATAL - Encontro casual com o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves ao sair dum restaurante em Petrópolis, para onde fui participar de uma confraternização com dr. Albérico Batista, o empresário Laurence Nóbrega e os professores Carlos Gomes e Honório de Medeiros.

Trocamos algumas palavras e ele me surpreendeu comentando os artigos que tenho publicado nesta página que diz acessar todos os dias, acariciando com palavras amáveis o vaidoso que há mim, sem a arrogância - espero - dum Serejo, de quem a contragosto estou copiando a adiposidade e a pança. Ai de mim! que já fui tão magrinho como Dom Nivaldo e Albimar Furtado, mas sem o mérito deles.

Ali, de pé, desfrutei desse prazer vicioso que resulta da enumeração - da enumeração dos artigos que mais tocaram à sua sensibilidade - e que em último caso denuncia o leitor atento e generoso que não se intimida em declarar de viva voz  sua admiração por um autor que se compraz em viver anonimamente em Mossoró, na companhia dos livros e de suas gatas joviais e graciosas. Ou seja, bem distante desse pastoril de borboletas do qual não descobri ainda se a Diana é a prefeita  Micarla de Souza ou o presidente da Fundação Capitania das Artes, o todo serelepe César Revoredo.

Carlos Eduardo confessa-me que, entre outras coisas, descobriu no exercício do mandato de prefeito de Natal que o mundo da cultura é um terreno minado e que sob alguns aspectos chega a ser ainda mais complexo e tumultuoso do que o munndo da política. Afinal, os intelectuais que professam alguma forma de estética não são facilmente contentáveis e, nos últimos tempos, aprenderam a fazer exigências e a tornar espinhosa a vida dos governantes. Concordo com ele. Que gente dificil, essa, que se dispõe a pensar…