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A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

RETRATO FALADO DE MONSENHOR CAMINHA (1a. Parte)

Por Franklin Jorge

Mossoró — Ontem, domingo, ao pesquisar meus arquivos á procura de manuscritos e fotografias da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro (1915-2004), inesperadamente encontrei as notas de uma conversa que mantive há maisde 30 anos com o pároco de Pau dos Ferros, Monsenhor Caminha, da qual extraí, na época, algumas informações para um texto publicado no primeiro numero do quinzenário Folha do Alto Oeste, que a convite de Honório de Medeiros, editei em suas primeiras edições.

Publicação que fez história e influiuna politica do Alto Oeste, a Folha — como a chamávamos –, foi fundada por Honório, Eriberto Suassuna e José Ribeiro, nomes que passaram a fazer parte da história da Imprensa no Rio Grande do Norte. Eu me lembro que na época o governador Geraldo Melo chegou a considerá-la o seu principal adversário na região, por causa da pertinente oposição que fizemos ao seu governo de descalabros administrativos, ações infrutiferas e violencias inauditas.

Era grande  a popularidade dessa publicação junto a uma vasta faixa de leitores e creio que como veiculo de comunicação contribuiu para tornar-me popular em 33 municipios abrangidos por sua ação. Ganhei então amizades que ao longo do tempo passaram de pais para filhos e, mais recentemente, para os netos desses meus primeiros interlocutores oestanos. Tínhamos entre nossos colaboradores o ex-governador José Cortez Pereira, Francisco Amorim e Rafael Negreiros. 

Tinha Monsenhor Caminha 79 anos e uma aprencia saudável quando recebveu-me em sua casa, na praça que hojte em o seu nome, no Centro histórico de Pau dos Ferros. Foi depois do almoço, numa hora em que geralmente os pauferrenses fazem a sesta, quando ali cheguei e fui encontra-lo sentado numa cadeira debalanço, lendoum livro sobre os filósofos neoplatõnicos. Admirou-me que ao contrário dos demais não dormissse depois do almoço. Notei também que Monsenhor Caminha tinha olhos vivos e buliçosos. Juvenis, apesar da idade que já se fazia notar. Pareceu-me um homem de grande estatura.

Fiquei animado com a perspectiva de estar dioantede um homem culto e o que devia ser uma mera entrevista de apenas alguns minutos estendeu-se numa conversa viva de mais de duas horas que se passaram à revelia do nosso sentido do tempo. Só caimos na na realidade já no fim da tarde, quando chegou o padre Dário, de Portalegre, meu bom amigo, para celebrar uma missa e tratar de assuntos de interesse da comunidade católica do Alto Oeste.

Comecei a reparar essas notas com o coração aos saltos, diante do rico material que se me descortinava debaixo dos olhos; um material que permanecera inédito por mais de tres décadas. E, aos poucos, toda uma fase de minha vida foi se delineando e ganhando a nitidez da experiencia que faz de cada homem homem um exemplar precioso e único. Como sempre, em minhas notas instantaneamente transformadas em textos jornalisticos, em entrevistas e reportagens, percebi que havia deixado o melhor para o livro que tenho sempre a ambição de escrever, pois em mim o escritor sempre teima em sobrepor-se ao jornalista. Afinal, como Mallarmé, acredito que as coisas existem para se transformarem em livros…

Lembro-me, retrospectivamente, que entrei naquela sala ascética e incaracteristica, como um lugar publico ou como uma cela, tomado de um certo temor. Pensava na fama do homem que iria entrevistar, no seu tão propalado comportamento um tanto inortodoxoparaum padre, cuja cronica de outros tempos continuava ainda bem viva na memoria de todos. Fui introduzido por uma velha criada silenciosa e discreta.

Monsenhor, fazendo menção de levantar-se 9o que supus mera cortesia em homem desua posição e de sua idade e apressei-me em dissuadi-lo dessa formalidade), recebeu-me com um belo sorriso. Estivera lendo, desculpou-se, estendnedo-me a mão e oferecendo-me uma cadeira já colocada á sua direita. Era a primeira vez que eu entrevistava um monsenhor.

Não esperava repórter tão moço, foram as palavras que disse em seguida. Quando entrou por aquela porta, pensei que era um menino… Reagi instintivamente, declinando minha idade, talvez aumentando-a um pouco, como costumava fazer então, pois me agradava muitissimo parecer mais velho, apesar do meu ar inoportunamente juvenil para algupem que pretendia lidar com idéias). Já não sou nenhum menino, acrescentei um pouco decepcionado. Sempre me dizem isso

Por minha vez, sem dize-lo, esperava encotnrar um padre velho sizudo, irascivel e talvez trombudo, como o pároco do Ceará-Mirim que em seu egoismo e autosuficiencia, assustava todo mundo. Pedi-lhe desculpas por quebrar sua rotina e interromper-lhe a sesta tão cara aos sertanejos. Não interrompeu nada, tranquilizou-me. Hoje terei uma tarde cheia. Minha paróquia é complexa. tenho um rebanho numeroso, rebelde e temente a Deus. Receberei logo mais o padre de Portalegre…

Não é todo dia que umjornalista do seu renome secoupa de um pároco provinciano, disse num tom brincalhão de quem quer acamaradar-se. Não se aborreça porque o achei moço. Quanto a isso, tenhya paciencia, que hpa um remédio infalivel… O Tempo, que se encarregará de suprimir oq ue agoralhe parece defeito… Dê tempo ao Tempo. Não tive outro jeito senão rir.

Monsenhor Caminha chegou a Pau dos Ferros ainda muito moço e foi recebido com com desconfiança poraqueles que esperavam um padre mais velho e convencional. Cheguei aqui a 12 de fevereiro de 1940. Era muito moço e morava mem Ipiranga, nos limites do Ceará com o Rio Grande do Norte. Sou cearense de nascimento e agradeço isto de coração. Considero uma distnção ter nascido no Ceará, graças a Deus… Dizem que, pela natural inquietação do povo, somos os judeus do Nordeste…

Filho de Ceríaco Freire de Andrade e de Luzia Caminha Freire, desde menino achou bonito o cerimonial católico e quis ser padre, espontaneamente, sem ter uma noção exata do autosacrificio que representa o sacerdócio. Entrei no seminário aos doze anos. Fiz o o curso primário no Colégio de Canindé e o ginásio em Fortaleza.

Seu pai, comerciante e farmaceutico em Ipiranga, tinha patente militar do Imperio. Criava gado e tinha uma roça de mangas numa terra de sua propriedade. Morreu aí pelos setenta anos quando eu estava no seminário. Homem de fibra, forte e destemido, enfrentou Lampião de bacamarte na mão quando toda cidade se debandara tentando fugir do facínora. Iam matá-lo, mas Lampião vendo a sua hombridade, interviu, dizendo: Um homem desses não se mata. Um homem desses não se mata… E não o mataram…

[Continua amanhã]